HIEROFANIAS NA FESTA DE LEVANTAMENTO DO MASTRO EM SÃO BERNARDO

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HIEROFANIAS NA FESTA DE LEVANTAMENTO DO MASTRO EM SÃO BERNARDO

Keliane da Silva Viana1

RESUMO

A utilização da árvore está ligada a antigas hierofanias vegetais, que compõe um espaço simbólico, físico e imaginário. Este trabalho busca analisar a festa de levantamento do mastro, sob a ótica do imaginário, apontando suas representações simbólicas, iconográficas e ritualísticas. O estudo foi elaborado por meio de trabalho de campo, entrevistas com os organizadores e observação participante etnográfica da festa. Utilizando-nos do referencial antropológico do imaginário em Gilbert Durand (1997) e Mircea Eliade (2002). A análise parte da identificação na relação estabelecida entre os significados dos símbolos e suas representações na coletividade da comunidade.

PALAVRAS-CHAVES: árvore, imaginário, festa religiosa, tradição, simbólico.

ABSTRACT

The use of the tree is linked to ancient hierophanies of plants, which makes up a symbolic, physical and imaginary space. This work seeks to analyze the party of lifting the mast, from the perspective of the imaginary, pointing out its symbolic, iconographic and ritualistic representations. The study was elaborated through fieldwork, interviews with the organizers and ethnographic participant observation of the party. Using the anthropological reference of the imaginary in Gilbert Durand (1997) and Mircea Eliade (2002). The analysis starts from the identification in the relation established between the meanings of the symbols and their representations in the community of the community.

KEY-WORDS: tree, imaginary, religious festival, tradition, symbolic.

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INTRODUÇÃO

Sem ter o mastro nada feito. O mastro é a abertura da festa do padroeiro. O dia que eu mais gosto na festa do padroeiro São Bernardo é o dia do mastro, que é o começo e a procissão que é o fim. [...] A festa é uma tradição muito antiga, muito boa que ainda existe e que pode continuar existindo pelas gerações futuras como história e identidade do nosso povo. Hoje, não existe muito papel que fala sobre essa tradição, muita coisa se perdeu e as que ainda têm é porque foi passado para os filhos e netos e eles continuam com a tradição. [...]. O mastro nunca deixou de ter por causa de nada. Todo ano tem! (ANTÔNIO PEREIRA DA COSTA, 2013). No Maranhão, a Festa de Levantamento do Mastro constitui uma celebração representativa da cultura campesina. Trata-se de uma cerimônia ritual e o marco indicador decisivo do início dos festejos religiosos, este cerimonial é rico de significados (PRADO, 2007). Como festa tradicional popular, apresenta-se como elemento para a construção de identidades e preservação dos valores, que se materializam por meio dos símbolos históricos e significados da religiosidade popular no universo religioso.

Em São Bernardo, cidade situada no Baixo Parnaíba, região Leste maranhense, o surgimento dessa manifestação esteve ligada a traços da cultura dos antepassados que se mesclam na própria auto representação do campesinato local, marcado pelo ritmo do trabalho agrícola. Trata-se de uma região que além de apresentar determinadas peculiaridades socioculturais, mantém viva muitas tradições locais. Desta maneira, ao enfocar a festa do mastro, o que interessa é explorar essa manifestação humana que se apresenta como síntese de aspectos tradicionais, folclóricos e religiosos.

Tradicionalmente organizada pelos caboclos do lugar, a festa de levantamento do mastro é privilegiada pelas suas especificidades, pelos símbolos nela contidos e atração que exerce sobre um grande número de participantes, os quais se dirigem até os locais festivos para realizarem seus encontros e suas promessas. A festa mistura costumes tradicionais com a fé e devoção ao divino, constituindo-se numa manifestação da religiosidade popular.

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Se de início, estudos realizados sobre o festejo de São Bernardo2 demarcava a existência de duas festas muito distintas, o aprofundamento do estudo sobre o levantamento do mastro mostrou que esse evento constitui uma etapa inicial, prévia e significativa para que a parte mais sacral do evento ocorra. O que se descobre é uma linha de continuidade simbólica entre os dois eventos. Por outro lado, a festa se coloca como oportunidade de quebrar as barreiras sociais na medida em que ele evidencia relações de solidariedade e vinculação identitária na comunidade. Carrega uma simbologia cultural, histórica, ao mesmo tempo em que reatualiza isso através de sua reencenação todos os anos, o que pressupõe uma transmissão de aspectos sagrados, ou uma vinculação da dimensão que se consideraria profana.

Parte-se do ponto de vista de que essa manifestação popular permite a conexão entre diferentes dimensões da sociabilidade local: reatualização das experiências, sentimentos e valores herdados e a (re) construção das identidades sociais vivenciadas no tempo da festa. Resgatando as origens desse ritual, sua simbologia e as suas transformações, apreendidas através dos relatos de participantes e organizadores, observação etnográfica, pesquisa bibliográfica e iconográfica, concebemos esse evento como um momento privilegiado para captar dimensões da experiência social e da religiosidade popular.

Parte-se do pressuposto de que a festa é uma produção humana, submetida a diferentes visões, perspectivas e representações, que podem ocorrer em relação a eventos, lugares e personagens. A principal dinâmica que se pretende captar é aquela que envolve, por um lado, um evento ritualístico que se inscreve na média duração (importância da cultura campesina, o lugar das festas religiosas na cultura popular,) e, noutro, um fenômeno que se atualiza a cada nova festividade mediante os usos e interpretações desse encontro festivo.

1. MARCO TEÓRICO

Neste estudo, discutiremos o levantamento do mastro apontando as representações simbólicas, iconográficas e ritualísticas que permeiam a festa, utilizando-nos do referencial

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antropológico do imaginário em Mircea Eliade (2002). Também recorremos à leitura de O

Sagrado e o Profano (1992), onde o autor descreve as modalidades do sagrado e a situação do

homem num mundo carregado de valores religiosos. Eliade fundamenta o seu pensamento acerca do sagrado, baseando-se especialmente na história das religiões, na fenomenologia da religião.

Partindo de Mircea Eliade no Tratado das Religiões que pretende estudar os fenômenos religiosos. Ele aborda os fenômenos religiosos em si mesmos, como hierofanias. Ele afirma que a história das religiões, desde as mais primitivas às mais elaboradas, é constituída por um número considerável de hierofanias, pelas manifestações das realidades sagradas. O sagrado manifesta-se sempre como uma realidade de uma ordem inteiramente diferente da das realidades naturais. Ao manifestar-se o sagrado revela as modalidades do ser e da divindade caracterizada por hierofanias tais como: celeste, aquática, antropomórfica ou vegetal (ELIADE, 1992). Se expressa de acordo com as características sócio-culturais, históricas, da sociedade na qual se manifesta.

Para entendermos as simbologias presentes na festa, recorremos às contribuições antropológicas de autores como Gilbert Durand em As Estruturas Antropológicas do Imaginário (1997). Nesse trabalho, o autor propôs uma teoria que considera as configurações constelares de imagens simbólicas, a partir de arquétipos (símbolos universais), constituindo um encadeamento de sentidos nos elementos do imaginário para a compreensão das representações culturais e simbólicas presentes na dinâmica social ou produções individuais representativas do imaginário cultural, no tempo e no espaço.

De acordo com Durand, para se estudar o simbolismo imaginário foi preciso desenvolver um método compreensivo e seguir pela via antropológica, para uma melhor compreensão de um caminho do imaginário, que se constituiu em um conceito metodológico capaz de apreender, de acordo com suas próprias palavras ”a incessante troca que existe ao nível do imaginário entre as pulsões subjetivas e assimiladoras e as intimações objetivas que emanam do meio cósmico e social” (DURAND, 1997, p. 29).

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Quanto aos estudos de cultura e religiosidade popular corroboramos a maior parte dos achados de trabalhos como o de Edilece Couto (2001; 2010), um dos mais significativos no âmbito da academia nos últimos anos, o qual explorou aspectos históricos da cultura brasileira, relacionando festas, procissões e devoções aos santos festejados em Salvador.

2. A FESTA COMO UMA REUNIÃO COLETIVA

Inscrito num conjunto de pesquisas que têm renovado o interesse de investigação das devoções e festas populares no Brasil, como bem enfatizou Edilece Couto (2008), esses estudos, tem sido recorrentemente remetidos aos símbolos, crenças, culturas e modos de fazer de um povo. De modo geral, “as festas”, sempre exerceram um importante papel na estrutura cultural, envolvendo não apenas simbologias coletivas, como também formas de transmissão intergeracionais. Como produção social, a temática suscita uma infinidade de estudos e abordagens, o que dependerá fortemente das inclinações teórico conceituais dos pesquisadores dedicados ao tema.

O estudo das festas pôde ser enquadrado no campo da História Cultural – esse domínio da historiografia fortemente marcado pelo diálogo com a Antropologia Cultural. Historiadores e antropólogos inspiraram algumas das inovações mais significativas da história cultural nas décadas de 1980 e 1990, época em que as análises das festas, rituais e tradições populares começam a ter lugar na historiografia brasileira. A partir destes estudos, as festas passaram a ser compreendidas dentro de uma dinâmica social, onde as práticas religiosas festivas, em devoção aos santos padroeiros, são apreendidas por meio de diferentes significados.

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possui suas especificidades. Aliás, como também se pode ver em Cornélio (2009, p. 22), o Maranhão se mostra um campo de pesquisa bastante profícuo para esse tipo de exercício.

No panteão de culturas, festas, religiões e religiosidades no Maranhão, destacam-se diversas manifestações: o Tambor de Mina com seus folguedos da cultura popular; o Bumba-meu-boi, no período junino; a Festa do Divino Espírito Santo (Alcântara), que geralmente acontece a partir do mês de abril a depender da localização do Domingo de Pentecostes; o Tambor de Crioula, dança alegre de origem africana, praticada por descendentes de escravos africanos no estado brasileiro do Maranhão, em louvor a São Benedito, um dos Santos mais populares.

Na estrutura cultural campesina maranhense, as festas constituem com maior ênfase aquilo que podemos destacar como a reatualização das experiências, sentimentos e valores herdados; além de outros momentos que demarcam os rituais que dizem as coisas tanto quanto as relações sociais. Pois, é no mundo da ritualidade dessas festas, que as coisas são ditas com maior veemência, com maior coerência e com maior consciência (DAMATTA, 1999, p. 37). As festas populares maranhenses são importantes e frequentes, servindo tanto como momento de lazer e ocasião para o pagamento de promessas, quanto para reforço e desenvolvimento de laços de solidariedade nos meios populares. São oportunidades para expressar a capacidade de organização, criatividade, devoção e lazer. Nestes momentos, a comunidade se revitaliza, se recria, se reencontra e se vê como um todo interdependente.

As festas são numerosas. Existe a festa da arquidiocese, das dioceses, das paróquias, das capelas e aquelas que acontecem pela fé do povo de uma determinada localidade. Estas, geralmente são preparadas e custeadas segundo a organização e participação de cada comunidade. São momentos de envolvimento, pausas na vida cotidiana das atividades diárias em detrimento da participação nos cerimoniais. Elas formam uma religiosidade popular em honra e devoção aos santos, expressam comportamentos, redes de sociabilidades, produção e negociações das identidades sociais, possibilitando a integração social, celebração de costumes, fuga do cotidiano e resgate das tradições. É precisamente nesse contexto, que as famílias e grupos de pessoas que geralmente partilham um stock de lembranças comuns e, não raro, são vizinhos, organizam-se em torno da preparação e ritualização das festas no calendário cristão.

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sociais e, talvez por conta disso, cada uma ganhe particularidades, modificando-se em função dos atores que reencenam o fenômeno. Neste contexto, essas festas constituem a base das representações simbólicas nos cortejos religiosos e homenagens aos santos festejados através das gerações.

É nessa perspectiva, que aqui buscamos entender a festa de levantamento do mastro como uma reunião coletiva, um momento de repetição, de recriação e reatualização de um ritual. Para tanto, nos apropriamos do estabelecido por Prado (2007, p. 115), elaborado quando a autora estudava a realidade camponesa na Baixada maranhense, região de Bequimão e Alcântara. Sobre a festa de Bumba-meu-boi, assim designa:

O lexema "festa" é utilizado pelos camponeses, com propriedade original, para designar as reuniões sociais promovidas pelos moradores da região visando comemorar um santo do hagiológico católico romano, independentemente da magnitude ou das várias formas que elas possam assumir. Tanto faz ser uma festa de promesseiro ou de festeiro, apresentar-se de maneira modesta ou completa, incluir o baile ou um folguedo, inserir ou não uma reza, desde, porém que a reunião gravite em torno de um santo, ela recebe o nome de festa.

Independentemente do termo que se use para designar a reunião dessa coletividade, este é sempre um momento de encontro, de identificar os comportamentos, tensões e representações simbólicas e culturais. São, também, nesses rituais religiosos que são transmitidos os saberes de um povo, adquiridos ao longo das gerações e assimilados pelos mais novos através das orações – rezas, cantigas, brincadeiras e dos afazeres na vida cotidiana da comunidade.

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A festa propicia o reencontro de diferentes gerações que se reúnem para ritmá-la, o que se encontra na origem do gosto socialmente construído pelo ritual. Crianças e jovens dançam no compasso das músicas tocadas ou rezam em homenagem ao santo de devoção familiar. Adultos se divertem também. A alegria corrente nesta festividade, animada pelos reencontros com parentes e amigos sempre é regada pela lembrança do passado, pela troca de sentimentos e a renovação dos vínculos de solidariedade.

Uma festa que não necessitaria da presença do representante da igreja para ocorrer, visto que são os caboclos os seus principais defensores e organizadores. Dentro da esfera institucional católica, inclusive, não faltaram momentos nos quais os representantes eclesiásticos questionaram a continuidade e importância da festa, obtendo forte resistência das frações locais do laicato, como se pode ver nos relatos abaixo:

Teve um tempo que um padre quis proibir a festa aí num prestou não viu...Eu disse: Padre, peço que você não tutuque no mastro do padroeiro, deixe o mastro do padroeiro em paz, porque se você mexer com o mastro do padroeiro, você vai mecher com a nação, aí não vai da certo pro senhor. Pode entrar padre que entrar, mas a comunidade não aceita acabar (FRANCISCO MORENO SILVA, 2013). Ora, um tempo desses chegou um padre aqui que quis proibir o mastro, teve até um pastor aí de uma igreja que queria até botar a polícia lá na frente e queria ver se o mastro passava. [...] A tradição desse mastro aí não pode se acabar. Eles lutam pra acabar, mas não acaba não, de jeito nenhum, porque é uma tradição muito forte e agente não deixa ser vencido, não deixa ser vencido pelo cansaço (FRANCISCO ROSA DE SOUSA, 2013).

De acordo com os relatos, a população não aceitou de maneira passiva todos os ideais da igreja católica, continuando com a festiva celebração tradicional. Cabe mencionar que, em muitas festas de mastro já existem, inclusive, os patrocinadores que, independentemente do apoio clerical, colaboram todos os anos para que a festa aconteça. Mesmo o padre se negando a rezar a missa, a festa acontecerá, como se pode evidenciar nos relatos acima onde, mesmo tentando proibir, o povo não deixou de realizar a festa. Portanto, ainda que a instituição não concorde, pois, o pároco assim a representa, à festa ocorre da mesma forma. Atualmente, segundo relatos:

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então, foram anunciar pra polícia pra dizer que tinha sido dentro do nosso movimento, que era pro padre puder acabar com o mastro. Mas, perderam tempo. Quando foi uma hora, depois do almoço, a polícia baixou aqui e mandou me chamar, alegando que a briga tinha sido no decorrer da festa. Quando eu sai já foi invocando o nome do padroeiro, eu disse tanta palavra bunita e sincera que os policiais foram tudo embora e nunca mais voltaram (FRANCISCO ROSA DE SOUSA, 2013).

Se a realização de modificações no rito ou a incorporação de novos elementos sempre levanta a questão da perda de espaço da tradição, é preciso sempre recordar que essa festa constitui um fenômeno inteiramente histórico e, por conseguinte, seu caráter mutável sempre se faz presente, embora de forma não explícita. Quer dizer, por detrás da aparente permanência das coisas, há todo um conjunto de pequenos movimentos e operações que silenciosamente (por vezes nem tanto) vai modificando a trama e sua representação.

A festa de levantamento do mastro é, pois, caracterizada pela devoção cíclica anual da manifestação que passa de geração em geração recusando-se a “acabar”. Na fala de um dos entrevistados ela é concebida como um “importante evento de peregrinação e pagamento de promessas”. Entretanto, sua essência e conservação se mantêm por meio dos repasses de geração a geração, algo que se inicia ainda quando criança, portanto, a festa reserva espaço com vistas ao seu futuro, à continuação da tradição.

O levantamento do mastro evidencia uma manifestação de fé e a estrutura que cerca o ritual em toda sua simbologia. É por meio dessa manifestação popular que a comunidade mantém suas características garantindo a manutenção de símbolos e valores que a transforma em uma grande celebração no centro do universo místico religioso, atuando na memória e fortalecendo os vínculos sociais e o sentimento de pertencimento, formando espaços de socialização e de construção da identidade. Neste sentido, compreendemos essa manifestação como um momento de prazer e manutenção de costumes, tradições e especificidades culturais. Dentro da estrutura campesina, esta festa reveste-se de um caráter material, incluindo símbolos, rituais e devoções. Através dessa manifestação, se pode compreender a relevância e o significado da tradição popular no universo cultural campesino, ao mesmo tempo em que os laços de sociabilidades, trocas culturais e preservação das tradições são reatualizados.

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concepções acerca da cultura e modos de representação do mundo. Embora sua passagem para o espaço da cidade modifique a trama envolvida, é possível ver também nesse evento uma tentativa de reforço das experiências vividas, das interpretações sobre o mundo e uma demanda por reconhecimento no próprio espaço público. Aqui se encontra, em certo sentido, o porquê da atmosfera de gravidade e emotividade que perpassa todo o evento.

3. HIEROFANIA, A MANIFESTAÇÃO DO SAGRADO

O mastro é o símbolo que liga o céu e a terra fazendo a mediação entre os caboclos devotos e o padroeiro São Bernardo. Esse é o seu principal significado, a relação entre os homens e o sagrado, mediado pela natureza. A manifestação do sagrado no mundo se dá pela hierofania, que etimologicamente significa algo de sagrado que se revela. Ela pode vir de diversas origens, desde pedras, árvores até imagens e espaços.

Quando o homem habita espaços considerados sagrados como igrejas, santuários ou lugares onde se pratica rituais sagrados, por mais que o homem viva profanamente, ele não consegue se desligar totalmente do mundo sagrado. Hierofania é, pois, todo ato de manifestação do sagrado, seja através de objetos, formas naturais ou pessoas. Quando considerados hierofanias, os objetos ultrapassam sua condição normal de objetos. São escolhidos por seus significados, pressupõem a existência de um sistema, e, de uma separação do objeto hierofânico do mundo ao seu redor.

No caso específico que compõe este estudo, para ser sagrada, a árvore, deve cumprir o papel de mediação com o sagrado, só desse modo ela trans-significa; ou seja, “a sua realidade imediata transmuda-se numa realidade sobrenatural" (ELIADE, 1992, p. 18). Mesmo manifestando o sagrado, qualquer objeto se torna outra coisa, porém, continua a ser ele mesmo. Ou seja, a árvore é e sempre será uma árvore, mas quanto ao significado hierofânico ou dimensão simbólica será uma árvore especial, pois nela se manifesta, de alguma maneira, o sagrado. Em contrapartida, se ela for vista com o olhar profano nada evidenciará de diferença das demais árvores.

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plenitude, da recompensa. Chegar ao topo do mastro é conseguir alcançar o objetivo, é agarrar os prêmios, é realizar o sonho, é a ascensão ao céu.

Mircea Eliade (2004), em sua obra: Tratado de história das religiões, afirma que o céu revela o infinito, transcendente, altíssimo, poderoso e repleto de sacralidade, por isso os humanos sobem montes sagrados, lugares elevados e até caminham com a finalidade de encontrar com o sagrado. Contudo, cabe ressaltar que, essa simbologia envolvendo a oposição entre alto e baixo e uma série de outras homologias, raramente encontra-se evidente para os seus participantes.

Mas, há outros aspectos simbólicos no ato de subir no mastro. A subida não é um caminho fácil, suave, mas essa escalada ou ascensão simboliza “o caminho rumo à realidade absoluta; e na consciência profana, a compreensão dessa realidade provoca um sentimento ambíguo de medo e felicidade, de atração e repulsa, etc” (ELIADE, 2002, p. 47). O mastro possui como arquétipo a verticalização que simboliza a elevação, a subida.

A utilização da árvore está ligada a antigas hierofanias vegetais, que compõe um espaço simbólico, físico e imaginário. Eliade (1992), se propõe a analisar como o sagrado se manifesta, isto é, as hierofanias, constituindo um arquétipo simbólico no imaginário de tempo e cultura de um grupo. O autor define hierofania, como a manifestação do sagrado em que um objeto qualquer se torna ‘outra coisa’ sem deixar de ser ele mesmo, porque continua a fazer parte do meio cósmico que o envolve. Uma pedra ou uma árvore, ambas aparentemente não se distinguem de todas as demais. Logo, se reveladas sagradas, deixam de fazer parte desse mundo como simples “coisas ou objetos” e passam a fazer parte da sacralidade cósmica. E, no todo, o cosmo pode tornar-se uma hierofania (ELIADE, 1992).

A isso podemos associar a árvore tirada no mato e convertida em mastro pelo ritual. Isto é, ela é transformada em sagrada no momento em que acontece todo um ritual, na mesma época do ano, com as mesmas pessoas ou seus descendentes envolvidos em toda a ritualística preparatória.

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O senhor acha que a festa deixou de ser religiosa?

Não. Eu não acho que deixou de ser religiosa porque a maioria das pessoas que participam da festa vão ali pra prestar suas homenagens ao padroeiro São Bernardo e agradecer pelo que o padroeiro fez de graça na vida deles, as bênçãos que receberam, os milagres. [...] Esses homens que ficam pelo meio do caminho bêbados, até eles são religiosos, porque se não tivesse a festa eles não iam ficar bêbados. Então, lá no fundo se agente prestar atenção bem, mesmo aquele que fica bêbado esta participando de uma festa religiosa. [...] Existe pessoas que dizem assim...principalmente pessoas de outras religiões: “há mais isso ai não tem nada de religioso, isso ai não tem nada de sagrado, isso ai tudo é só uma desculpa pra beber cachaça, só isso”. Só que essa opinião deles pra nós não serve, porque por mais que algumas pessoas às vezes meta uma lapada, uma dose de cachaça nos peito, tomem um litro de tiquira todim isso não impede de acontecer a religiosidade na festa. Não importa se ele tá bêbado, até porque isso faz parte da brincadeira pra ele puder aguentar a caminhada, o repulso. As vezes eles ficam bêbados, num sabe nem o que ta se passando, mas, ele ta no meio, ele foi participar da festa religiosa, participar da festa do mastro que é o inicio das homenagens a São Bernardo. Sem beber não tem festa, tem que beber para existir a festa (FRANCISCO MORENO DA SILVA, 2013).

Ao que consta, como em diversas festas populares que acontecem no Brasil à relação entre o sagrado e o profano no levantamento do mastro se estabelece em uma dinâmica indissociável. As manifestações sagradas revelam-se nos ritos e cerimoniais que tentam transcender a fé do homem, criando as dimensões entre o homem e o divino.

Segundo Mircea Elíade (1992, p. 17), a relação entre o que é sagrado e o que se manifesta como contrário é o fato de que este último se mostra como algo completamente diferente. Dessa forma, o sagrado e o profano coexistem de diferentes posições que são tomadas pelos indivíduos no ato festivo. Interpretar esse fenômeno é perceber o homem em sua simbologia histórica coletiva e suas criações sobre o sagrado onde as representações traduzem em grande medida um universo que reside nas relações místicas. A comunicação mística por meio de cerimônias sacras e outros rituais buscam ultrapassar as barreiras do profano que se cristalizam tanto individual quanto coletivamente. Através das representações sagradas o homem busca consolidar uma intimidade com aquilo que ultrapassa o humano, ao mesmo tempo, na relação que o homem estabelece com o sagrado através de ritos e ações de festejar divindades, o ambiente é transpassado por essas simbologias.

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fundamental a tentativa de identificar as modalidades que perpassam o campo do sagrado e criam um elo entre a transcendência e a materialidade.

Mais do que um diálogo cotidiano, o sagrado e o profano, apresentam-se como opositores e complementares a ponto de produzirem uma teia de significados em contextos determinados (GEERTZ, 1978). De acordo com Machado (2009), “O mastro simboliza a ligação entre o céu e a terra, significando também proteção e tempo de se fazer na terra, o céu”. Isto nos ajuda a perceber que os objetos presentes na festa sempre carregam dimensões simbólicas que ligam dois planos – o dos homens e o do divino. O sagrado e o profano constituem duas modalidades de ser no mundo, duas situações existenciais assumidas pelo homem (ELIADE, 2008, p. 12, 13, 14).

Compreender a festa como fenômeno religioso, significa, pois, articular um conjunto de símbolos que proporcionam maior adesão dos fiéis à divindade, através da experiência religiosa e mística com a divindade na terra. Assim, entendemos o levantamento do mastro como fenômeno social total. Um evento de natureza religiosa que agrupa uma multiplicidade de ritos, símbolos e representações de costumes e comportamentos herdados, que perpassam esferas diferenciadas, os quais, por sua vez, não se limitam ao plano do sagrado.

Gilbert Durand nos lembra que, os mitos metafísicos ligados à arvore, associam-se a grande frequência mitológica e ritual das práticas ascensionais — de que o transporte e o erguer do mastro levam a uma experiência mística, uma experiência com o transcendente e constituem exemplos — está ligada à valorização positiva de todas as representações da verticalidade e da ascensão (GILBERT DURAND,1997, p. 138).

A Igreja Matriz, torna-se o ambiente principal de peregrinação religiosa, espaço que circunscreve por excelência a sacralidade da festa. Quando chega a igreja, os sinos badalam. A igreja funciona como uma ponte, uma porta de ligação do homem (ser terreno), ao cultuar um ser celestial, o mastro é também essa ponte e essa porta.

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Após adentrá-la, o mastro é jogado três vezes para cima, demarcando a abertura de mais um ano do festejo. Em seguida, o pároco dá a benção em louvor e saudação ao santo, cujo sermão e outros ritos são marcadamente para afirmar que a festa em homenagem ao padroeiro está começando. Além do sermão, as músicas e a participação da comunidade reforça a importância da devoção.

Após a benção dos fiéis, realizada pelo pároco e com todos os paramentos eclesiásticos, dá-se como que uma virada no ritual, posto que ele passa a ser dominado pelo tempo eclesiástico. Após, o mastro é levado para fora do Santuário. Trata-se de um dos momentos-chave da festa: o mastro é fincado no chão por mãos masculinas e começa a brincadeira. Homens sobem no mastro para agarrar os prêmios que geralmente são “galinhas e dinheiro”. Nessa hora, são jogados bolos, biscoitos, pipocas e bombons para as pessoas que se encontram no local onde ele é fincado (praça da igreja a matriz).

O levantamento do mastro ganha uma atmosfera de festa religiosa porque os participantes são, também, ao mesmo tempo, brincantes e devotos do santo. Pode-se dizer que na tradição de levantar o mastro ocorre um sentimento de pertencimento a uma comunidade, a sensação simultânea de se inserir em um local onde se pode interagir com maior autonomia, espontaneidade, expressando seus sentimentos, desejos, assim como o pagamento de suas promessas ou simples agradecimento.

O mastro se mostra como uma oportunidade de quebrar as barreiras sociais e explorar o espaço esquecido, evidenciando os laços de camaradagem existentes na festa. A festa comunica lembranças, gestos, comportamentos e maneiras de falar. Assegura à concretização de significados, crenças e expressões da chamada "cultura" de um povo, podendo ser ela compreendida em seus múltiplos aspectos e em suas muitas funções, fato que faz do mastro um símbolo de resistência da identidade cabocla cuja persistência é assegurada pela convivência intergeracional e, com isso, a transmissão de um sentido de identidade, pertencimento e história.

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simbólico. A transmissão da festa mostra maneiras como aspectos vinculados à cultura, à tradição local conseguem se reproduzir e ter resonância nas novas gerações.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para um observador desatento, os festejos religiosos populares nas comunidades campesinas podem parecer iguais. Eles se relacionam em uma mesma atmosfera de símbolos, rituais e condutas: procissão, levantamento do mastro, novenas, leilões e pagamentos de promessas. Porém, existem outras características que os diferenciam, tais como a própria historicidade do fenômeno, as diferentes demandas do laicato e as experiências práticas acumuladas na gestão de um evento religioso de um mesmo caráter, como o que está sob análise. O levantamento do mastro não se encontra separado, portanto, das condições socioculturais em que foi gerado e sua reatualização sempre depende da relação entre o legado de décadas, e as novas exigências e modificações suscitadas para permitir a sua transmissão ao longo de gerações.

A festa de levantamento do mastro dentro do universo cultural, não é tomada apenas como uma forma de resistência do arcaico contra a poeira do tempo, contra agentes religiosos institucionalizados ou a simples expressão de uma cultura ameaçada por processos de desagregação. Basta dizer que nossa hipótese principal quanto a isso é que além do levantamento do mastro permitir uma leitura sobre as concepções culturais e tradicionais do campesinato, ele representa também uma forma de afirmação contínua do campesinato na esfera pública bernardense. Evidentemente, trata-se de uma forma de resistência que encontra paralelo em uma série diversa de outras táticas e estratégias cuja razão de ser só se compreende através do esforço de apreensão histórica do campesinato e dos desafios interpostos á sua reprodução.

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Nesse sentido, o ritual da festa do mastro e os seus significados não deixam de estar associados ao social, ao reforço de vínculos de identidade e de representar uma forma de demarcação simbólica da diferença. É nesse sentido que se concorda com a definição de ritual por Guarinello (2001, p. 972), que a concebe como uma produção do cotidiano, uma ação coletiva, que se dá num tempo e lugar definidos e especiais, implicando a concentração de afetos e emoções em torno de um objeto que é celebrado e comemorado e cujo produto principal é a simbolização da unidade dos participantes na esfera de uma determinada identidade. O autor complementa que a festa é um ponto de confluência das ações sociais cujo fim é a própria reunião ativa de seus participantes.

Com efeito, ao tentarmos compreender a festa como um ritual, sem deixar de localizá-lo no interior de sua estrutura social, percebemos que ela pode ser considerada como um campo de pesquisa importante para a compreensão do sentido das relações sociais. Em outras palavras, pelo exame desse evento é toda a sociedade bernardense que se deixa ver em sua multiplicidade de relações, laços e interdependências – se bem que não se possa tomar a festa pela cidade, bem entendido. Trata-se, pois, de preservar e reavivar a memória sedimentada pelas práticas culturais herdadas, capacitando-a, pelo registro sistemático, a resistir (PAULA MONTEIRO, 1999).

REFERÊNCIAS

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Referências

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