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Trabalho e perspectivas clínicas Claudia Osorio Trabalho

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Academic year: 2021

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Claudia Osorio Trabalho apresentado no XI colóquio Internacional de Psicossociologia e Sociologia Clínica, em Belo Horizonte, em 2007.

Nesta oportunidade apresentarei aos senhores uma experiência de intervenção clínica no trabalho, esperando obter reações, comentários, que me permitam desenvolvê-la. Vou apresentar um método de intervenção desenvolvido na forma Oficina de Fotos.

Desde o ano de 1988, abriu-se no Brasil, com a Constituição que então se promulgava, uma via de abordagem do trabalho em relação com a saúde e com a saúde coletiva: a via da Saúde do Trabalhador, definida a partir de então como parte do Sistema Único de Saúde – SUS. Ampliava-se, com essa nova definição política e jurídica, a necessidade que já sentíamos de desenvolver metodologias para a abordagem clínica do trabalho.

O campo da Saúde do Trabalhador no Brasil tem recebido aportes diversos no que diz respeito ao conhecimento das relações entre trabalho e subjetividade. Podem ser apontadas contribuições dos estudos do desgaste associado aos processos de trabalho, da psicologia do trabalho italiana, da psicodinâmica do trabalho, das teorias do estresse e dos estudos epidemiológicos em saúde mental.

De modo geral, a noção de sofrimento psíquico, frente aos constrangimentos impostos pelas organização e condições de trabalho, é central. A luta pela saúde é enfocada sobretudo como luta contra o sofrimento. Já a contribuição de autores que sublinham a importância de produzir caminhos para a ampliação do poder de agir dos trabalhadores como estratégia para a superação das condições de produção deste sofrimento tem sido pouco explorada.

Buscando uma linha de trabalho em que as possibilidades de vida, de uma relação inventiva com o trabalho, componham o principal eixo norteador, encontrei uma de minhas referências atuais: a Clínica da Atividade, que tem Yves Clot como principal autor. Nesta, a compreensão da relação entre o trabalho e subjetividade não é centrada na luta contra o sofrimento, mas na atividade de trabalho como fonte permanente de recriação de novas formas de viver. A Clínica da Atividade retoma um caminho apontado por Ivar Oddone (Oddone, Re

& Briante, 1981), de atenção às possibilidades de superação de impasses pelos próprios trabalhadores; por esta via dá-se um deslocamento do cientista da posição de protagonista da

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investigação e da produção de inovações, ficando a condução do processo nas mãos dos trabalhadores. Oddone se voltou para a pesquisa dos recursos dos próprios trabalhadores, recursos muitas vezes insuspeitados, de que estes podem lançar mão para a promoção e proteção de sua própria saúde (Oddone, Re & Briante, 1981). De acordo com I. Oddone,

“trata-se de fazer uma outra psicologia do trabalho consagrando todos os esforços à busca de um só objetivo: aumentar o poder de ação dos coletivos de trabalhadores sobre o ambiente de trabalho real e sobre si mesmos. A tarefa consiste, então, em inventar ou reinventar os instrumentos desta ação, não mais protestando contra os constrangimentos, mas pela via de sua superação concreta” (Clot, 2001 : 9).

Em minha opinião, outras abordagens, embora venham sendo importantes na construção do campo de discussão da relação entre subjetividade e trabalho, não apresentam a mesma força com relação ao objetivo central de ampliação do poder de agir dos trabalhadores.

Se tomarmos, por exemplo, a contribuição, bastante conhecida no Brasil, da Psicodinâmica do Trabalho, encontraremos uma concepção de homem e de subjetividade que valoriza a noção de indivíduo, indivíduo esse em busca de sua identidade, e movido por uma angústia original da qual não pode se desembaraçar (Dejours, 1999). Para a Psicodinâmica do Trabalho, a subjetividade é entendida “como produção psíquica da luta contra o sofrimento” enquanto para a Clínica da Atividade, a subjetividade é entendida “como produto da atividade”

(Dejours, 1999: 206). A escolha da Clínica da Atividade como ferramenta teórica é sobretudo uma escolha relacionada a uma concepção de trabalho como um processo coletivo e singular, de criação e recriação da história de um ofício; e da atividade de trabalho como processo de produção não só de coisas ou serviços, mas também de subjetividades. Intervindo na atividade, estamos intervindo no subjetivo.

A Clínica da Atividade e seus dispositivos de desenvolvimento dos ofícios

A Clínica da Atividade surgiu como uma linha da psicologia do trabalho, na década de 90, na França, com uma perspectiva histórico-psicológica que assume sua filiação à escola russa fundada por L. Vygotski (Clot, 1999: 3). Na perspectiva da Clínica da Atividade, a atividade de trabalho é compreendida como o exercício coletivo de ligação social com o real, que convoca fortemente os trabalhadores, individual e coletivamente, a criarem e recriarem cotidianamente seus modos e condições de vida.

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Os diferentes modos de cooperação no trabalho exigem que os trabalhadores se ponham de acordo e superem conflitos e dificuldades postos no real da atividade. Para tanto, o coletivo de trabalho lança mão de um instrumento: o gênero profissional. O gênero é o

“replicante” profissional que, atravessando a atividade de cada um, coloca a cada um na intersecção do passado e do presente, é o referente genérico do ofício. Os gêneros profissionais momentaneamente estabilizados são um meio para se localizar nos mundos do trabalho, saber como agir, evitando errar sozinho. O gênero marca o pertencimento a um coletivo e orienta a ação (Clot & Soubiran, 1998).

A atividade de trabalho está referida a experiências e memórias coletivas que conformam um gênero profissional. Para que o gênero se mantenha em boas condições, ele que precisa ser renovado por uma permanente estilização. Para que esse genérico da atividade se forme e se mantenha vivo é preciso haver uma história comum e uma permanente reorganização do trabalho coletivo por um coletivo de trabalho. O gênero não é prescritivo nem é unívoco, e é exatamente isso que faz com que ele seja fonte de recursos para a ação. Ele é atravessado por diferentes maneiras de fazer e pensar , de variantes que contribuem para a regulação da ação de cada trabalhador, pondo os sujeitos frente a possibilidades diversas fazendo que ele tenha que optar. O trabalhador desenvolverá sua ação tomando para si algumas destas possibilidades, contra outras, das quais terá que se liberar para agir.

Desenvolve-se assim um estilo que pode retornar ao gênero, contribuindo para seu desenvolvimento.

Se o debate entre os diferentes possíveis está dificultado ou interrompido, ou seja, se o gênero encontra-se em sofrimento, torna-se então difícil dar sentido a atividade, desenvolver-se pessoal e coletivamente. Quando o gênero não está disponível, em boas condições, decorre daí tanto um prejuízo para a saúde dos trabalhadores quanto para a segurança das operações e instalações (Clot, 2006: 128).

A análise do trabalho apresenta-se então como uma possibilidade de intervenção clínica, que tem como objetivo restabelecer o dinamismo do gênero.

A equipe da Clínica da Atividade, liderada no CNAM de Paris por Yves Clot, propõe dois dispositivos para essa intervenção clínica: uma reformulação das instruções ao sósia, antes apresentada por I. Oddone (Clot, 1995), e a autoconfrontação cruzada (Clot, 1999).

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A partir de uma experiência com profissionais de saúde, venho trabalhando em dois outros dispositivos: o método de análise coletiva de acidentes de trabalho (Osorio, Machado &

Minayo-Gomez); e a Oficina de Fotos, experiência sobre a qual me deterei hoje. Ambos os dispositivos de análise foram construídos em uma experiência de atuação e supervisão de estagiários de psicologia na Comissão de Saúde do Trabalhador de um Hospital público da cidade do Rio de Janeiro e constituem-se num meio de formação permanente para os profissionais de saúde, assim como para os analistas do trabalho em saúde, sejam eles estagiários ou profissionais já habilitados.

A Oficina de Fotos

Propus, nessa colaboração com a Comissão de Saúde do Trabalhador do Hospital, um dispositivo de análise do trabalho a que denominamos – eu e meus alunos – despretensiosamente, Oficina de Fotos.

Descreverei neste momento a primeira Oficina, realizada em 2005. A Oficina se deu numa manhã, das 8 às 12 horas, e foi seguida de uma reunião de restituição, de uma horas de duração, realizada após 4 semanas.

Nessa Oficina de Fotos, para trazer o profissional de saúde para o lugar de analista, propusemos que o profissional de saúde participante da Oficina produzisse diretamente o material a ser analisado, a saber, fotos de situações positivas para a saúde do profissional e fotos de situações negativas para a saúde do profissional. Nas Oficinas são usadas máquinas fotográficas digitais, de modo a propiciar a análise imediata do material, sem necessidade de impressão. Em um grupo de 12 profissionais participantes foram organizados 4 sub-grupos, cada um portando uma máquina e acompanhado de um monitor encarregado de dar suporte à tarefa sem interferir na escolha dos temas. Antes de se dirigir a seus setores de trabalho o sub-grupo discutiu o que iria fotografar. Dirigiu-se ao local escolhido tendo um tempo definido para o retorno. Cada sub-grupo tinha a tarefa de mostrar ao grupo maior 5 fotos de situações positivas e 5 de situações negativas. Os sub-grupos retornaram com muitas fotos e fizeram então uma seleção das fotos a serem exibidas ao grupo. As fotos selecionadas pelos 4 sub-grupos foram exibidas com o auxílio de data-show e discutidas uma a uma. Ao final foram selecionadas, dentre as 40 fotos discutidas, 10 fotos para compor um pôster a ser apresentado

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como trabalho na Assembléia Científica anual do Hospital. Neste pôster, os participantes da Oficina figuraram como “fotógrafos”.

A partir de então outras Oficinas de Fotos foram realizadas com pequenas variações na sua dinâmica, buscando sempre desenvolver a proposta metodológica da Clínica da Atividade.

A intervenção proposta aqui busca mais do que conhecer, analisar ou denunciar as formas de dominação e sofrimento existentes, busca uma aliança, com as possibilidades que os trabalhadores têm de criar e recriar suas próprias relações com sua atividade profissional. Ela deve levar o trabalhador à posição de observador de seu próprio trabalho. O analista do trabalho, como interlocutor, deve possibilitar que o trabalhador se surpreenda com aquilo que, por muito familiar, já passava desapercebido. E favorecer que os diferentes modos possíveis de enfrentamento do real da atividade sejam postos em debate, desenvolvendo o gênero e ampliando suas possibilidades como instrumento para a ação de cada um.

Na Oficina de Fotos as várias etapas da tarefa proposta exigem dos participantes a tomada de decisões que só será possível pondo-se o trabalho de todo dia em debate. Modos diferentes de fazer e pensar o trabalho vêm a baila quando se tem como tarefa coletiva definir o que fotografar, o que não fotografar, como fotografar as situações escolhidas, o que e como apresentar para o debate com um grupo maior. Este debate se dá inicialmente num grupo restrito de pares, na presença de um monitor que sustenta a tarefa, mas não se manifesta.

Amplia-se a princípio com interlocutores virtuais: deve-se definir o que será apresentado ao grupo maior e ao analista do trabalho que coordena a Oficina. Prossegue enfim com a definição do que e como apresentar ao Hospital, através de um pôster para a Semana Científica: o que se deseja por em debate com as hierarquias, com um público amplo de pares e visitantes, como amostra da atividade realizada, suas características e dificuldades? Com esse instrumento, o ofício fala, diálogos diversos são entabulados em diferentes planos que se cruzam.

No exemplo que trago hoje pudemos observar algumas características do trabalho que

“faz sentido” para as enfermeiras, técnicas e auxiliares de enfermagem do hospital: o trabalho realizado em meio a relações de colaboração, principalmente interprofissional; a boa organização ou a ordem como facilitadora do trabalho bem feito; a atenção ao doente; a possibilidade de momentos de pausa e descanso. Dá-se importância também à disponibilidade de recursos que facilitem a vida tanto dentro quanto fora do trabalho: a agência bancária dentro

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da unidade hospitalar, a capela como local de recolhimento, as flores e a bonita vista da Baía da Guanabara.

Após o evento científico em que o pôster foi exibido, foi feita uma reunião de restituição. Nesta foram relatados outros diálogos sobre o trabalho que teriam sido disparados pela Oficina ou pela exibição do pôster. Foi relatado também que, ao saber que alguns setores de trabalho dispunham de salas de descanso, outras equipes que não dispõem destes espaços em seus setores de trabalho estavam se mobilizando para produzir para si mesmas algo similar.

Na Oficina de Fotos:

· Desloca-se o trabalhador para o lugar de observador e analista do seu trabalho. O psicólogo do trabalho assessora e facilita este debate.

· Faz-se o debate sobre uma marca do trabalho: uma marca produzida coletivamente, já como fruto do diálogo que põe o gênero em manutenção; deste modo, o debate se faz sobre a atividade, evitando a personalização e o julgamento sobre as escolhas individuais.

· O debate se faz de modo recorrente, favorecendo deslocamentos, elaborações e re-elaborações, nas análises que se produzem.

Conclusão

No momento atual observamos, na maior parte dos locais de trabalho, gêneros enfraquecidos. Aumentam as exigências e reduzem-se os recursos existentes para fazer frente a essas exigências. A atividade clínica em Psicologia do Trabalho é demandada de diversas formas. Esse é então o gênero que cabe a nós desenvolver.

E, retomando o que foi apresentado inicialmente, o desenvolvimento no Brasil de uma rede de vigilância em saúde do trabalhador, coloca para os profissionais de saúde de diferentes inserções uma convocação à qual devemos responder. E responder contribuindo para um gênero “Saúde do Trabalhador” em que se destaquem seus eixos mais libertários e não aqueles mais ligados a propostas de controle e disciplinamento.

Bibliografia

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Referências

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