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A REPÚBLICA AGRÁRIA ROMANA'
MARIA LUIZA CORASSIN"
RESUMO
O artigo analisa as instituições da República romana,
confrontando a 'descrição de Políbio
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( H is t ó r ia , VI) e a prática politica do sistema aristocrático. O impacto da expansãoimperialista sobre a sociedade agrária em Roma conduziu ao principado.
PALAVRAS-CHAVE: República, Roma, Pollbio, Antigüidade Clássica, Senado.
Pollbio, O historiador grego que viveu longos anos em Roma,
onde manteve estreitas relações com os meios governamentais, constitui
uma excelente fonte para o conhecimento da constituição da cidade.
Chegando como refém em 168 a.C., redigiu uma H is t ó r ia \ na qual, no
Livro VI (11-18), analisa o funcionamento das instituições do Estado
romano; é portanto a um grego que devemos a primeira reflexão teórica sobre esta República.
Na H is t ó r ia , VI, 3-10, Políbio expõe uma teoria geral de filosofia
polltica na qual ele menciona, simplificando ao extremo, os tipos de
constituições recorrentes na literatura grega - os três gêneros
qualificados de "puros": a monarquia, a aristocracia e a democracia; e
as três formas afins resultantes da degeneração desses regimes: a
tirania, a oligarquia e a oclocracia. Segundo ele, cada tipo de
constituição sofreria de um mal congênito e inseparável de si mesma;
portanto, "urna constituição simples e baseada num princípio único é
precária, pois tenderá rapidamente para a forma degenerada que lhe é
'O presente artigo foi apresentado em mesa-redonda sobre "A Idéia Clássica da República" durante o I Encontro do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense, em 1989.
"proi.· da FFLCH - Universidade de São Paulo.
1poLfBIOS. H is t ó r ia . Trad. de Mário da Gama Kury. Brasília: Editora Universidade de Brasília. 1985.
própria" (VI, 10), uma vez que ocorre inevitavelmente um ciclo de
transformação. "Devemos ver como a melhor constituição uma
combinação das três espécies mencionadas" (VI, 3).
Desenvolvendo sua tese, Políbio aplica-a ao caso romano, o
que é uma contribuição original de seu pensamento: a constituição
romana apresentaria uma combinação dos três princípios básicos - o
monárquico, o aristocrático e o democrático, equilibrados
harmoniosamente. Essa idéia obteve larga acolhida nos meios
governamentais, assumindo um caráter quase oficial.
AZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAq u e m f ix a r a a t e n ç ã o no p o d e r dos c ô n s u le s
BA
a c o n s t it u iç ã o r o m a n a p a r e c e r á t o t a lm e n t e m o n á r q u ic a ; a q u e m f ix á - I a no S e n a d o e la m a is p a r e c e r á a r is t o c r á t ic a , e a q u e m a f ix a r no
p o d e r d o p o v o e la p a r e c e r á c la r a m e n t e
d e m o c r á t ic a . (VI, 11.)
Os capitulos 12 a 14 são consagrados à análise da distribuição
do poder político entre as diferentes partes do Estado. Polibio descreve
quais os assuntos que são tratados pelos cônsules, Senado e povo,
definindo a competência deles. Em sequida, nos capítulos 15 a 18,
demonstra que cada um dos três elementos por ele examinados
depende das decisões dos outros dois: "cada uma das três partes é
capaz, se quiser, de criar obstáculos às outras ou de colaborar com
elas" (VI, 15).
Uma das características mais originais de Políbio é relacionar
a questão da constituição com o da expansão imperialista. Ele já havia
colocado no início de sua exposição qual o motivo de seu interesse em
conhecer: "A maneira pela qual e graças a que espécie de constituição,
em menos de cinqüenta e três anos praticamente todo o mundo foi
vencido e caiu sob o domínio único dos romanos" (VI, 2). Não esconde
sua admiração pelo sistema de governo dos dominadores romanos": é
"a melhor de todas as constituições existentes em nosso tempo" (VI, 10). Falando da interdependência dos poderes, afirma: "é impossivel achar um sistema político melhor do que este" (VI, 18). "Esta forma de
constituição é dotada de uma eficácia irresistível para atingir todos os
objetivos predeterminados" (VI, 18).
Após essa sumária exposição das linhas gerais do pensamento
polibiano, referente à organização constitucional, convém ressaltar que
ele pode ser considerado o porta-voz da aristocracia senatorial romana;
sua tese representava a justificação ideológica do poder da n o b ilit a s .
Explica-se assim o agrado com' que suas idéias foram recebidas em
Roma e a retomada delas por Cícero em D e R e p ú b lic a , na qual são
desenvolvidas amplamente as proposições do Livro VI da H is t ó r ia . A
posição de Políbio ao colocar Senado, cônsules e povo partilhando o
poder é altamente tendenciosa. Só aparentemente isso ocorria, e o
predomínio do Senado foi escamoteado propositalmente. Nicolef
. demonstra que Políbio tinha plena consciência desse fato, pois em dois
outros momentos deixa escapar que a República romana era controlada
pelos a r is t o i:
P u b lio C ip iã o , q u e b u s c a v a a g ló r ia n u m E s t a d o a r is t o c r á t ic o , . . . (XXIII, 14.)
O p o v o em
certeço
j á h a v ia o b t id o ap r e p o n d e r â n c ia nas d e lib e r a ç õ e s , e n q u a n t o em R o m a e la a in d a e r a do S e n a d o ; p o r isso, c o m o
no p r im e ir o caso as massas d e lib e r a v a m e n o o u t r o os h o m e n s m a is e m in e n t e s , as d e c is õ e s
dos r o m a n o s a c e r c a dos a s s u n t o s p ú b lic o s e r a m m e lh o r e s , de t a l f o r m a q u e , e m b o r a t iv e s s e m s o f r id o in ic ia lm e n t e u m d e s a s t r e c o m p le t o , e le s v e n c e r a m a f in a l os c a r t a g in e s e s
na g u e r r a g r a ç a s às suas d e lib e r a ç õ e s m a is s á b ia s . (VI, 51.)
Essa tese do pretenso equilíbrio constitucional existente entre
os poderes merece ser confrontada com um exame da prática política
em Roma.
Os magistrados superiores (cônsules, pretores, tribunos da
plebe) eram a cada ano eleitos pelas assembléias populares,
obedecendo aos princípios da colegialidade, da anualidade e da
não-iteração. Apesar do enorme poder conferido a eles, especialmente no
caso do consulado, não eram os meios adequados para dirigir a política
a longo prazo. O Senado, como órgão político estável, veio a assumir
cada vez mais um papel ativo na direção da política externa e na
condução da expansão imperialista.
Todos os magistrados, ao saírem do cargo, passavam a fazer
parte do Senado como membros permanentes; ali era o local onde os
políticos desenvolviam amplamente sua carreira, em estreito contacto
2NICOLET, C. D e m o k r a t i a e t A r i s t o k r a t i a : a propos de Caius Gracchus: mots grecs et réalités romaines. Paris: Publications de Ia Sorbonne, 1983. p. 21-22.
12 BIBlOS, Rio Grande, 6:11·19, 1994.
,
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'1 1 1
I,
com os outros elementos de sua própria ordem. Os magistrados no
exercício do cargo preocupavam-se, portanto, em receber a aprovação
dos senadores para suas iniciativas e para eventuais propostas levadas
aos comícios, pois precisavam garantir sua futura carreira, a qual
dependeria da benevolência ou hostilidade da maioria dos colegas do
Senado.
A classe dirigente romana tendia a fechar-se cada vez mais em
oligarquia, limitando o número de pessoas que eram nela admitidas. OsZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
h o m í n e s n o v i, como Catão em 195 e Mário em 107 a.C., eram sempre mais raros. A n o b í lit a s constituía o conjunto de indivíduos cujas famflias contavam com cônsules entre seus membros. Mais de dois terços dos cônsules em cem anos eram provenientes de umas poucas dezenas de
famílias: isso revela a eficiência com que a oligarquia controlava as
eleições nas assembléias. Salústio ressalta: "o consulado era passado
de mão em mão pela nobreza. Não havia homem novo, por mais ilustre ou de mais egrégios feitos, que não fosse considerado indigno daquela honra" ( G u e r r a d e J u g u r t a , 6 3 ) .
As assembléias romanas, como em outras cidades-estado,
eram baseadas na participação direta. Todos os cidadãos de pleno
direito, desde que presentes em Roma, podiam tomar parte nos
comícios e' teoricamente dispunham do direito de elegibilidade - ju s
h o n o r u m , e do direito de voto -ju s s u f f r a g ii.
Já examinamos acima como, na realidade, as funções públicas eram o privilégio de uma minoria de nobres. Da mesma forma, se em
princípio todo cidadão o p t im o ju r e era eleitor, na prática o valor do
sufrágio era extremamente desigual. Nos comícios o voto era contado
globalmente, por centúrias ou por tribos; nunca foi introduzido o voto
direto individual, como na democracia ateniense.
Nos comícios por centúrias, os cidadãos participavam divididos
em classes, de acordo com o critério censitário, ou seja, a primeira
classe e as dezoito centúrias eqüestres compreendiam os de maior
fortuna. Aqueles que não tinham o mínimo necessário para serem
inscritos na quinta e última classe, os proletários ou c a p í t e c e n s í ,
ficavam relegados a uma única centúria fora das classes. Cada centúria
representava um voto, embora cada uma delas abrangesse um número
muito desigual de cidadãos.
As classes votavam sucessivamente, em ordem decrescente
de riqueza, e o escrutínio era suspenso, uma vez atingida a maioria
legal. Como o voto não era simultâneo, as últimas classes censitárias,
que representavam os cidadãos mais pobres, sequer eram chamadas a,
votar. Bastava as primeiras classes entrarem em acordo (o que ocorria com freqüência) para a maioria ser alcançada. O direito de sufrágio era
puramente teórico para a quinta classe e para a centúria de proletários,
embora formadas por um número muito superior de cidadãos, aqueles
de menor renda.
Nos comícios por tribos os cidadãos eram inscritos nas quatro
tribos urbanas e nas trinta e uma rústicas; ora, os eleitores
não-proletários se faziam registrar nas tribos das zonas rurais onde
possuíam suas propriedades, enquanto que a massa de eleitores das
tribos urbanas era composta de proletários."
A vida política se alterou por efeito das transformações
provocadas pelas guerras de expansão. As assembléias, que numa
cidade-estado eram importante fonte de decisões, mudaram na sua
composição e representatividade. As campanhas militares tornavam-se
cada vez mais longas e eram travadas em locais longínquos; isso
acarretava um esvaziamento das assembléias, pois basicamente o corpo poHtico da República era o mesmo que compunha o exército cívico: o
camponês-soldado. Este estava sempre ausente de Roma, nas
intermináveis guerras, ou tendia a proletarizar-se em virtude do longo
afastamento de suas pequenas propriedades.
Os comícios, nessa fase final da República, apresentavam a
propensão para serem freqüentados pelo proletariado urbano, ligado por
vínculos de clientelismo às casas aristocráticas. Corrupção,
financiamento de jogos públicos e espetáculos, distribuições eram meios
comumente utilizados pelos políticos para ganhar o favor da plebe.
Nesse contexto, torna-se compreensível a iniciativa de Caio Graco em
fazer aprovar uma le x f r u m e n t a r í a colocando à venda trigo a preço
subsidiado pelo Estado com o objetivo de enfraquecer o patronato da
nobreza. O processo seria concluído pela instituição da prefeitura da
anona por Augusto, destinada a cuidar do abastecimento de trigo da
capital do Império, tornando assim o seu proletariado uma clientela do imperador.
Até o próprio tribunado da plebe, que se originara da luta
contra o patriciado pela obtenção de direitos políticos, perdera o seu
caráter de magistratura de oposição. Integrado ao c u r s u s h o n o r u m ,
tornara-se um instrumento do Senado. Somente com Tibério e Caio
Graco retomaria sua representatividade popular.
A vida política, portanto, encontrava-se solidamente controlada
por uma classe restrita, que havia aproveitado plenamente os
instrumentos constitucionais da cidade-estado para fechar-se numa
3HOMO, L.L e s i n s t i t u t i o n s p o l i t i q u e s r o m a i n e s : de Ia Cité à l'État. Paris: Albin Michel, 19.70, p. 154-155.
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1 5
oligarquia. As estruturas institucionais da República aristocrática
mostravam-se inadequadas para permitir a representação dos interesses
de grupos em ascensão de grande importância. A composição das elites
privilegiadas fora modificada com a construção do império.
Politicamente, a direção do Estado pertencia ao senado e à camada
social na qual ele era recrutado; mas as novas oportunidades e as
novas exigências criadas pela expansão imperialista haviam favorecido
econômica e socialmente o aparecimento de outros grupos cujos
interesses não coincidiam sempre com os da oligarquia senatorial.
A camada formada pelos cavaleiros, que tendia a organizar-se também em uma ordem (a eqüestre), havia se beneficiado com as novas
perspectivas de negócios; os principais setores de sua atividade eram
constituídos pelo arrendamento das minas, recolhimento de taxas das
novas províncias, construções públicas, arrecadação de taxas indiretas
e outros contratos estatais. Todas essas atividades tornavam-se cada
vez mais importantes, inclusive politicamente, pois o Estado romano não
tinha uma estrutura burocrática e administrativa que pudesse responder
às exigências criadas com a expansão provincial. Daí o recurso a essa
camada de homens ricos com fortuna suficiente para grandes operações
e para oferecer garantias ao Estado. A camada dos cavaleiros
participava da ideologia das classes dominantes do governo; o
investimento mais normal, tanto para comerciantes quanto para os que
lidavam com finanças, era a terra, inclusive por razões de prestígio
social; o estilo de vida era semelhante ao dos nobres. No entanto, os
cavaleiros publicanos entravam em choque com os senadores na área
dos serviços estatais que, explorados por eles, eram diretamente
controlados pelos magistrados (senadores). Os cavaleiros não tinham
condição de exercer influência política direta dentro dos quadros
institucionais (embora sem dúvida usassem meios de pressão informais),
apesar de socialmente estarem muito próximos dos senadores e
sofrerem suas decisões.
As camadas dirigentes das cidades aliadas também haviam se
beneficiado com o processo expansionista. No entanto, embora
houvessem contribuído para as vitórias romanas e suportado o peso das
guerras de conquista, os itálicos começavam a se sentir marginalizados
do governo. O aumento das oportunidades para a elite abastada,
documentado pelo incremento das exportações de vinho, óleo e
manufaturados no decorrer do século 11 a.C., não compensava a
condição de inferioridade dos aliados perante o governo romano.
Em Roma não existiam propriamente partidos políticos -
enten-didos como organizações estáveis com programas próprios; mas não
BA
éválido encarar a luta política na fase final da República como mero
conflito entre facções rivais na disputa do poder; os grupos em oposição
expressavam os desajustes da sociedade romana sob os efeitos do
imperialismo expansionista.
O movimento dosZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAp o p u la r e s desde a época dos Graco lutava
para limitar o poder do Senado e aumentar o das assembléias;
procurava fortalecer o tribunado da plebe pela afirmação do princípio da
soberania popular. Eram contrários às medidas de exceção a que o
Senado começara a recorrer desde a época gracana, ao suspender as
garantias constitucionais dos cidadãos. A principal reforma social
defendida pelos p o p u la r e s era a agrária, embora após Caio Graco essa
questão nunca mais tenha sido abordada organicamente.
Os o p t im a t e s apresentavam forte coesão devido aos vínculos
de classe que os uniam; conservadores, encaravam as reformas,
especialmente a agrária, como a causa da ruína da República. O seu
ideal era a tradicional constituição aristocrática, na qual o Senado
detinha o poder, controlando os magistrados e os comícios.
Consideravam subversiva qualquer tentativa de submeter os magistrados
ao controle das assembléias e não hesitavam em recorrer ao
s e n a t u s c o n s u lt u m u lt im u n , suspendendo as garantias do c k í a c ã o . "
Também era incompatível com o espírito da República
aristocrática a concentração de poderes nas mãos de um indivíduo. A
idéia da lib e r t a s que predominava entre os n o b ile s não era a da
liberdade democrática, mas' a liberdade em relação ao domínio de um
rei ou tirano. A grande acusação contra Tibério Graco usada pelos
o p t im a t e s para desencadear a repressão foi a de que ele aspirava ao poder real. A ditadura de César foi classificada como tirania ou r e g n u m .
Tais acusações eram usadas como arma política contra homens que
detinham ou desejavam obter um poder pessoal que não se coadunava com a constituição anstooratíca."
A expansão imperialista trouxe outro efeito desastroso para as
instituições republicanas: a consolidação do poder militar. O senado
viu-se constrangido a prorrogar o mandato de cônsules e pretores tanto no
comando das campanhas militares quanto no desempenho de governos provinciais. Cada magistrado em sua província habituou-se a uma soma
de poderes de que nunca dispusera anteriormente: representante único
de Roma, isento do controle de colegas, com uma permanência de
vários anos no cargo, acabava por exercer uma autoridade quase
4DE, MARTINO, F. S t o r i a d e l l a c o s t i t u z i o n e r o m a n a . Napoli: Casa Edi!rice Do!!; Eugenio Jovene, 1973. p. 132 segs.
5lbidem, p.139-140.
16 BIBLOS, Rio Grande, 6:11-19,1994. BIBLOS, Rio Grande, 6:11·19, 1994.
monárquica.
Mário introduziu uma modificação fundamental no exército. A
conquista fora obra do exército cívico; o camponês que abandona o
arado para pegar em armas, retornando ao cultivo da terra no final da
guerra, era a imagem idealizada que os romanos gostavam de
apresentar. Mas o sistema tradicional de recrutamento anual tornara-se
inadequado para as guerras longínquas e prolongadas em que Roma
viu-se sempre mais envolvida. A necessidade de ocupar militarmente as
províncias conquistadas não podia ser satisfeita por um exército do tipo
cívico.
Em 107 a.C., Mário recorreu ao recrutamento de proletários.
Reconhecia-se um fato: o número de camponeses proprietários era
insuficiente para a formação das legiões. O exército a partir de então
passou a ser composto por cidadãos sem terra, para os quais o serviço
militar podia ser um meio de vida. Salústio comentou a respeito dessa
mudança crucial: "os homens mais pobres são os mais úteis a quem
ambiciona o poder, porque não têm apego a nada, pois nada possuem,
e tudo o que é lucrativo parece-Ihes honroso"ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA( G u e r r a d e J u g u r t a , 86). .
Alistavam-se levados pela necessidade, na esperança de obter
sua parte nos saques e assignações de terras ao deixarem o serviço
militar, como veteranos. Esse novo tipo de soldado desenvolvia fortes
vínculos de solidariedade com seus generais. Como os altos comandos
continuavam sendo exercidos por políticos, estes passavam a contar
com um instrumento eficaz para ampliar seu poder pessoal: o exército.
Os soldados em serviço 'ou os veteranos permaneciam ligados ao
comandante,
BA
à espera de que este se tornasse chefe de Estado, demodo a poder conceder benefícios aos seus legionários que lhe davam
apoio militar.
A disputa pelo poder no século I a.C. desenvolveu-se entre
chefes políticos dotados de comandos militares. Mário, Sila, Pompeu,
César se enquadram nesse contexto. Augusto, ao organizar o novo
regime do Principado, não ignorava que a instalação em massa dos
veteranos poderia fornecer-lhe um sólido apoio. Nas R e s G e s t a e6 ele
registrou:
d e p o i s d e t e r e m c o m p l e t a d o o s e r v i ç o m i l i t a r ;
e a t o d o s c o n c e d i t e r r a s o u d e i d i n h e i r o c o m o r e c o m p e n s a p e l o s s e r v i ç o s . (R. G. 3.)
Embora com o poder firmemente concentrado em suas mãos,
Augusto teve o cuidado de manter a aparência da República. Usando
um vocabulário onde comparecem expressões como m o s m a i o r u m ,
l i b e r t a s , c o n s e n s u s u n i v e r s o r u m , s e n a t u s p o p u l u s q u e , todas elas
próprias do discurso do mais convicto republicano, ele justifica nas R e s
G e s t a e o seu acesso ao poder. Conservando o conciso estilo epigráfico,
encontramos este texto redigido após exercer quase meio século de
poder pessoal:
R e s i t u í a l i b e r d a d e à R e p ú b l i c a o p r i m i d a p o r u m a f a c ç ã o .
R e m p u b l i c a a d o m i n a t i o n e f a c t i o n i s o p p r e s s a m i n l i b e r t a t e m v i n d i c a v i . (R. G., 1.)
N ã o a c e i t e i m a g i s t r a t u r a a l g u m a q u e e s t i v e s s e
em o p o s i ç ã o à s i n s t i t u i ç õ e s d o s a n t e p a s s a d o s .
N u / l u m m a g i s t r a t u m c o n t r a m o r e m m a i o r u m d e l a t u m r e c e p i . (R. G., 6.)
T e n d o a s s u m i d o o p o d e r s u p r e m o p o r u n a n i m i d a d e , t r a n s f e r i o g o v e r n o d a R e p ú b l i c a d o m e u p o d e r p a r a o a r b í t r i o d o s e n a d o e d o p o v o r o m a n o .
P e r c o n s e n s u m u n i v e r s o r u m p o t i t u s r e r u m o m n i u m r e m p u b l i c a m e x m e a p o t e s t a t e i n s e n a t u s p o p u l i q u e R o m a n i a r b i t r i u m t r a n s t u l i .
(R. G., 34.)
Q u i n h e n t o s m i l c i d a d ã o s r o m a n o s a p r o x i m a d a -m e n t e p r e s t a r a m s e r v i ç o m i l i t a r s o b m e u c o m a n d o . D e s t e s , m a i s d e t r e z e n t o s m i l i n s t a l e i
em c o l ô n i a s o u d e v o l v i a s e u s
municlpios,
6RES GESTAE DIVI AUGUSTI. Trad. de G. D, Leoni. São Paulo: Nobel, 1957,
1 8
BIBlOS, Rio Grande, 6:11·19, 1994.
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