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Rev. Bras. Psiquiatr. vol.29 número1

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Academic year: 2018

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Rev Bras Psiquiatr. 2007;29(1):86-95 86

86

Políticas públicas para o consumo de

álcool no Brasil: lutar ou cooperar?

Alcohol public policies in Brazil: to fight

or to cooperate?

Sr. Editor,

O editorial de Pechansky, Pinsky e Laranjeira, “Era Golias cego ou ignorante? A luta entre a evidência e a paixão nas políticas públicas para o consumo de álcool no Brasil”, publi-cado neste periódico1 tem o apoio da comunidade científica,

que pretende ser ouvida e participar tanto do processo de ela-boração, quanto da execução das políticas públicas no Brasil. A principal preocupação dos autores refere-se à resistência do Ministério da Saúde em aceitar as evidências científicas produzidas por entidades de pesquisa nacionais e mundiais. De fato, não parece que o Ministério da Saúde esteja alheio a algumas dessas evidências, uma vez que a Agência Nacio-nal de Vigilância Sanitária (ANVISA), órgão vinculado ao Mi-nistério, informa que “Nos Estados Unidos da América, (...) para cada anúncio novo por mês, o consumo de bebidas au-mentava em 1%.”2 Ainda assim, a propaganda de bebidas

com teor alcoó-lico inferior a 13 graus Gay Lussac (GL) con-tinua a não sofrer restrições de horário para a veiculação. Ou seja, há a informação, mas não há a atitude.

Na elaboração da Lei 11.343, publicada no Diário Oficial da União de 24/08/2006, lamenta-se a ausência de órgãos gover-namentais como o Ministério da Educação, que tem um papel fundamental na necessária reformulação curricular dos cursos vinculados à promoção de saúde de indivíduos com problemas relacionados ao uso de álcool, tal como recomendado pela As-sociação Médica Brasileira e pela AsAs-sociação Brasileira de Psi-quiatria.3 Atualmente, existem cursos de extensão universitária

para diversos profissionais interessados em desenvolver traba-lhos nessa área, promovidos pelo Grupo Interdisciplinar de Estu-dos de Álcool e Drogas (GREA) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e pela Unidade de Pesquisa em Álcool e Outras Drogas (UNIAD) do Departamento de Psiquiatria da Universida-de FeUniversida-deral Universida-de São Paulo, entre outros.

No outro extremo da questão, incluem-se os leitos hospita-lares, cuja necessidade precisa ser mais bem documentada, uma vez que, segundo o Consenso sobre a Síndrome de Abs-tinência do Álcool (SAA) e o seu tratamento,4 o atendimento

ambulatorial é seguro e menos dispendioso, tratando 90% dos pacientes dependentes de álcool. Lamentavelmente, os Centros de Atenção Psicossocial para Álcool e outras Drogas (CAPS-AD) existentes (130, segundo o Ministério da Saúde) têm uma capacidade máxima de atendimento de 900 pacien-tes por mês por unidade,5 o que demonstra a insuficiência

atual desses recursos.

Ao contrário do que sugere o editorial, entretanto, não será necessária uma guerra entre o Ministério da Saúde e a Asso-ciação Brasileira de Psiquiatria. Mantendo-nos no universo bíblico, talvez seja mais oportuno lembrar o exemplo de Moisés. Depois das sete pragas sobre o Egito, de atravessar o Mar Vermelho e o deserto (evidências), o povo judeu resolveu ado-rar o bezerro de ouro. Mesmo contado-rariado, Moisés persistiu em orientá-los.

Cartas aos editores

R e f e r ê n c i a s

1. Pechansky F, Pinsky I, Laranjeira RR. Was Goliath blind or ignorant?

The struggle between evidence and passion in alcohol public policies in Brazil. Rev Bras Psiquiatr. 2006;28(4):259-60.

2. ANVISA. Audiência pública sobre regras para propaganda de

bebi-das alcoólicas. [citado 2006 dez 15] Disponível em: http:// www.anvisa.gov.br/divulga/noticias/2006/011206_2.htm

3. Marques AC, Ribeiro M. Abordagem geral do usuário de substâncias

com potencial de abuso. [citado 2006 dez 10] Disponível em: htttp://www.projetodiretrizes.org.br/novas_diretrizes/001.pdf.

4. Associação Brasileira de Psiquiatria. Departamento de Dependência

Química. Consenso sobre a Síndrome de Abstinência do Álcool (SAA) e o seu tratamento. [citado 2006 dez 12] Disponível em: www.uniad.org.br

5. Ministério da Saúde. Legislação em Saúde Mental 1990 – 2004.

5a Edição Ampliada. Série E. Legislação de Saúde Brasília – DF. 2004. [citado em 2006 nov 20] Disponível em: http:// portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/Legislacao.pdf

Financiamento: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD), Pro-grama das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)/ Minis-tério da Saúde (André Malbergier)

Conflito de interesses: Inexistente

A n d r é M a l b e r g i e r

Departamento de Psiquiatria, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo (SP), Brasil Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (GREA), Departamento e Instituto de Psiquiatria, Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo (SP), Brasil

R i c a r d o A b r a n t e s d o A m a r a l

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