O cuidado com a criança em saúde
Artigo | A atuação no Hospital de Clínicas é ponto de partida para as reflexões de Helena Becker Issi, professora do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil
*Por: Helena Becker Issi
*Foto de capa: Flávio Dutra/JU
A proposta central deste texto é desvelar o mundo do cuidado à criança, vivenciando a doença e a hospitalização, e favorecer a compreensão da essência da preocupação com o Ser criança. E, igualmente, situar em propostas que mesmo sendo tradicionais por sua história, são inovadoras e pioneiras no cenário do cuidado.
Crianças estão mais propensas aos agravos de uma doença em virtude de sua vulnerabilidade física, emocional e espiritual, condizentes ao grau de fragilidade associada aos extremos de idade. Aplicando os conhecimentos da filosofia com base em Torralba, filósofo espanhol que se dedica ao cuidado em saúde, a vulnerabilidade do Ser criança pode ser compreendida como uma experiência intimamente arraigada na humanidade com significado de fragilidade.
O ser humano é um ser radicalmente vulnerável. Está exposto a múltiplos perigos: o de adoecer, o de ser agredido, negligenciado, ou de morrer. A criança doente vive, especialmente, o caráter vulnerável da condição humana. A doença é uma expressão da vulnerabilidade, talvez uma de suas manifestações mais extremas.
A importância de conhecer as causas de internação hospitalar pode facilitar a compreensão do perfil de adoecimento das crianças e favorecer a construção de projetos terapêuticos
consoantes às necessidades de saúde da população pediátrica, tendo foco na prevenção de agravos das doenças por causas evitáveis e contribuindo também para que a hospitalização seja evitada.
Mas quando a hospitalização for inevitável, os referenciais teóricos e filosóficos que sustentam o cuidado à saúde da criança hospitalizada e da família necessitam ser reconhecidos e incluídos nos modelos de gestão e cuidado pelas lideranças dos vários serviços que compõem a Pediatria de um hospital- escola, pelos profissionais e pelo corpo docente e discente dos cursos que a frequentam, nutrindo-se de um modelo de cuidado que marque decisivamente os cenários pediátricos na perspectiva do cuidado humano.
A formação de uma área específica do conhecimento – o cuidado à criança e à família – fundamenta-se para além da visão biologicista da saúde, em que a doença e o aspecto instrumental são o foco. O destaque passa a ser a configuração de uma área do saber e da prática em que o protagonista é a criança.
Reitera-se o lugar de destaque para esse Ser em sua singularidade, que antes de ser um doente é uma criança, com necessidades peculiares de crescimento e desenvolvimento. E, assegurando-se seus direitos, legitimam-se marcos teóricos e filosóficos norteadores. Para tanto, exigem-se profissionais qualificados para atender às demandas de cuidado no mundo do hospital.
Desvela-se, assim, um mundo sensível. O cuidado assume uma linguagem pluridimensional, para além dos procedimentos técnicos, e que se expressa no toque, no carinho, na ludicidade do encontro com a alma da criança, nas expressões de fé e espiritualidade compartilhadas com a criança e com a família. Ao descortinarem o mundo vivido cotidianamente no hospital, crianças, famílias e equipes revelam-se seres
dotados de sensibilidade, expressando, na linguagem estética e ética do cuidado, sua responsabilidade.
Na nova emergência pediátrica do Hospital de Clínicas, em Porto Alegre, ambientes foram projetados com elementos que
propiciam uma convivência dos pacientes com elementos lúdicos aliados a uma atenção à saúde integral, conectando crianças, famílias e atendimento (Fotos: Flávio Dutra/JU)
Na linguagem da ontologia existencial, cuidado é preocupação.
E na perspectiva do cuidado, a utilização do conceito “melhor interesse da criança” refere-se à premissa de que toda a decisão relativa à saúde da criança deva ser aquela em que os benefícios para ela superem os potenciais danos, e na qual o foco seja a criança e seu bem-estar.
Para tanto, é imprescindível a configuração de um trabalho interdisciplinar em defesa dos direitos das crianças e adolescentes, extensivos à família. Essa premissa consiste em
“advogar” pelo paciente e com foco nele, enfrentando e transpondo situações que se caracterizam em flagrante desrespeito aos seus direitos, o que exige coragem moral, como apontam Santos, Garros e Carnevale. Assim, a criação do Programa para Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente Hospitalizados (PDDCAH) desponta como um marco, um referencial pioneiro na Pediatria de nosso hospital universitário, o Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA).
No rol dos direitos fundamentais, os quais têm merecido zelo da equipe por sua defesa em prol das crianças e dos adolescentes, encontram-se: desfrutarem de alguma forma de recreação; programas de educação para a saúde; acompanhamento do currículo escolar durante a hospitalização; direito de não sentirem dor quando houver meios para evitá-la; e com relação à família – cuja permanência ao lado da criança é um direito inalienável -, leia-se a preocupação com o direito de que os pais ou responsáveis participem ativamente do seu diagnóstico, tratamento e prognóstico, recebendo informações sobre todos os procedimentos a que será submetida.
O cuidar engloba aspectos que se articulam, como conhecimento teórico e prático, dedicação, responsabilidade, ciência e sabedoria. Para que tudo isso se concretize, contudo, torna- se imprescindível uma base sólida representada por um marco
filosófico confiável, aliado à condições estruturais favoráveis ao exercício do cuidado, de modo digno e seguro.
Portanto, é dever moral dos profissionais reivindicar adequadas condições para o pleno exercício do cuidar e do curar.
Assim, na linha da defesa do melhor interesse da criança, a Pediatria alcança mais uma conquista: a Emergência Pediátrica do HCPA veio a ser contemplada com uma área inteiramente planejada para garantir um cuidado interdisciplinar de excelência à criança em seu prédio novo. Nesse local, impera o lúdico em sua graciosa arquitetura, mas acima de tudo o acolhimento de uma equipe de saúde responsável por manter a integralidade de um cuidado focado na atenção integral à saúde de crianças, adolescentes e suas famílias.
E para manter o fio condutor da preocupação com as condições favoráveis ao exercício do cuidado de modo digno, o Programa p a r a D e f e s a ( P D D C A H ) p r o p õ e a c r i a ç ã o d e e s p a ç o s institucionais, ampliando o cuidado à criança e ao adolescente, congregando-os em área com infraestrutura específica para o atendimento de suas questões de saúde.
Ainda, em virtude das especificidades dos adolescentes e de não contarem com espaço exclusivo para o atendimento de sua saúde, tem-se a preocupação de sensibilizar os dirigentes para a criação de uma Unidade de Adolescentes, em defesa dos direitos da criança e do adolescente em nosso hospital- escola.
Helena Becker Issi é professora do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil.