Hoc facit, ut longos durent bene gesta per annos.
Et possint sera posteritate frui.
Federal: Decreto nº 61.251, de 30 de agosto de 1967 Av. Augusto Severo, 8, Rio de Janeiro, CEP 20021-040
Fundado em 21-10-1838, em plena Regência, por 27 sócios da prestigiosa Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, o IHGB originou-se de proposta anterior do marechal de campo Cunha Matos e do cônego Januário da Cunha Barbosa. Pedro II logo o tomou sob seus auspícios.
Os objetivos estatutários eram, entre outros: coligir, metodizar, publicar ou arquivar documentos, promover cursos e editar a Revista Trimestral de História e Geografia ou o Jornal do IHGB.
O Arquivo é hoje um dos melhores do Brasil, graças a sucessivas doações de papéis de estadistas e historiadores, como José Bonifácio, o marquês de Olinda, Varnhagen, Cotegipe, o conde d´Eu, o visconde de Ouro Preto, Prudente de Morais, Rodrigues Alves, Epitácio Pessoa, Manuel Barata, Wanderley Pinho, Hélio Viana e Jackson de Figueiredo, entre outros.
A Biblioteca, por compra, doações e permutas, ultrapassa de 500 mil volumes, de grande interesse para os estudos brasileiros.
A Mapoteca dispõe de cerca de 12 mil cartas geográficas, referentes, sobretudo, ao território brasileiro.
O Museu, criado em 1851 para guardar a memória de varões ilustres em máscaras mortuárias, retratos e lembranças pessoais, exibe hoje peças, como a espada de campanha de Duque de Caxias (modelo dos espadins dos cadetes do nosso Exército) ou a cadeira em que Pedro II, durante 40 anos, presidiu a 508 sessões do Instituto.
A Pinacoteca é rica, abrangendo desde a imensa tela da Coroação de Pedro II, de autoria do sócio Araújo Porto-Alegre, até a impressionante galeria de retratos (e bustos) de monarcas, nobres e personalidades da Colônia à República.
Os sócios, eméritos, titulares, honorários e correspondentes, no país e no estrangeiro, são eleitos vitaliciamente. O corpo social promove conferências, congressos e cursos, anunciados com antecedência, e realiza reuniões acadêmicas, de março a dezembro, todas as quartas- -feiras. As atas são publicadas pela Revista no último número do ano.
n. 483 mai./ago.
2020
1º Vice-Presidente: Jaime Antunes da Silva 2º Vice-Presidente: Affonso Arinos de Melo Franco 3º Vice-Presidente: João Maurício de Araújo Pinho 1º Secretária: Lucia Maria Paschoal Guimarães
2º Secretária: Maria de Lourdes Viana Lyra
Tesoureiro: Fernando Tasso Fragoso Pires
Orador: Alberto da Costa e Silva
GEOGRAFIA:
Armando de Senna Bittencourt Cybelle Moreira de Ipanema José Almino de Alencar Miridan Britto Falci
Vera Lúcia Cabana de Andrade
HISTÓRIA:
Eduardo Silva
Guilherme de Andrea Frota Lucia Maria Paschoal Guimarães Marcos Guimarães Sanches Maria de Lourdes Vianna Lyra
PATRIMÔNIO:
Afonso Celso Villela de Carvalho Antonio Izaías da Costa Abreu Claudio Moreira Bento Fernando Tasso Fragoso Pires Roberto Cavalcanti de Albu- querque
ADMISSÃO DE SÓCIOS:
Alberto da Costa e Silva Alberto Venancio Filho Carlos Wehrs
Fernando Tasso Fragoso Pires Lucia Maria Paschoal Guimarães
CIÊNCIAS SOCIAIS:
Antônio Celso Alves Pereira Cândido Mendes de Almeida José Murilo de Carvalho Maria Cecília Londres
Maria da Conceição de Moraes Coutinho Beltrão
ESTATUTO:
Alberto Venancio Filho Antonio Celso Alves Pereira Célio Borja
João Maurício A. Pinho Victorino Chermont de Miranda COMISSÕES PERMANENTES
CONSELHO CONSULTIVO
Membros nomeados: Antonio Izaias da Costa Abreu, Armando de Senna Bittencourt, Carlos Wehrs, Célio Borja, Cybelle Moreira de Ipanema, Esther Caldas Bertoletti, Maurício Vicente Ferrei- ra Júnior e Miridan Britto Falci.
CONSELHO FISCAL
Membros efetivos: Alberto Venâncio Filho, Luiz Felipe de Seixas Corrêa e Ma- rilda Correia Ciribelli
Membros suplentes: Marcos Guimarães Sanches, Pedro Carlos da Silva Telles e Roberto Cavalcanti de Albuquerque
DIRETORIAS ADJUNTAS
Arquivo: Jaime Antunes da Silva
Biblioteca: Claudio Aguiar
Cursos: Antonio Celso Alves Pereira
Iconografia: Pedro K. Vasquez
Informática e Dissem. da Informação: Carlos Eduardo de Almeida Barata
Museu: Vera Lucia Bottrel Tostes
Patrimônio: Guilherme de Andrea Frota
Projetos Especiais: Mary del Priore
Relações Externas: Maria da Conceição de Moraes Coutinho Beltrão Relações Institucionais: João Mauricio de A. Pinho
Coordenação da CEPHAS: Maria de Lourdes Viana Lyra e Lucia Maria Paschoal Gui- marães (subcoord.)
Editor do Noticiário: Victorino Chermont de Miranda
INSTITUTO HISTÓRICO DO GEOGRÁFICO BRASILEIRO E
Hoc facit, ut longos durent bene gesta per annos.
Et possint sera posteritate frui.
R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 181, n. 483, pp. 11-410, mai./ago. 2020.
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Impresso no Brasil – Printed in Brazil Revisora: Talita Rosetti Souza Mendes Secretária da Revista: Tupiara Machareth
Ficha catalográfica preparada pela bibliotecária Maura Macedo Corrêa e Castro – CRB7-1142 Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. - Tomo 1, n. 1 (1839) -
Rio de Janeiro: O Instituto, 1839- v. : il. ; 23 cm
Quadrimestral ISSN 0101-4366
Ind.: T. 1 (1839) – n. 399 (1998) em ano 159, n. 400. – Ind.: n. 401 (1998) – 449 (2010) em n. 450 (2011)
1. Brasil – História. 2. História. 3. Geografia. I. Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
Arno Wehling – Universidade Veiga de Almeida – Rio de Janeiro-RJ – Brasil Carlos Wehrs – Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – Rio de Janeiro-RJ – Brasil José Murilo de Carvalho – Universidade Federal do Rio de Janeiro – Rio de Janeiro-RJ – Brasil Manuela Mendonça – Universidade de Lisboa – Lisboa – Portugal
Maria Beatriz Nizza da Silva – Universidade de São Paulo – São Paulo-SP – Brasil
COMISSÃO DA REVISTA: EDITORES
Eduardo Silva – Fundação Casa de Rui Barbosa – Rio de Janeiro-RJ – Brasil Esther Caldas Bertoletti – Ministério da Cultura – Rio de Janeiro-RJ – Brasil
Lucia Maria Bastos Pereira das Neves – Universidade do Estado do Rio de Janeiro – Rio de Janeiro-RJ-Brasil Maria de Lourdes Viana Lyra – Universidade Federal do Rio de Janeiro – Rio de Janeiro-RJ – Brasil Mary del Priore – Universidade Salgado de Oliveira – Niterói-RJ – Brasil
CONSELHO CONSULTIVO
Fernando Camargo – Universidade Federal de Pelotas – Pelotas-RS – Brasil Geraldo Mártires Coelho – Universidade Federal do Pará – Belém-PA – Brasil Guilherme Pereira das Neves – Universidade Federal Fluminense – Niterói-RJ – Brasil José Marques – Universidade do Porto – Porto – Portugal
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Luís Cláudio Villafañe Gomes Santos – Ministério das Relações Exteriores – Brasília-DF – Brasília Marcus Joaquim Maciel de Carvalho – Universidade Federal de Pernambuco – Recife-PE – Brasil Maria de Fátima Sá e Mello Ferreira – ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa – Lisboa – Portugal Mariano Cuesta Domingo – Universidad Complutense de Madrid – Madrid – Espanha
Miridan Britto Falci – Universidade Federal do Rio de Janeiro – Rio de Janeiro-RJ – Brasil Nestor Goulart Reis Filho – Universidade de São Paulo – São Paulo-SP – Brasil Renato Pinto Venâncio – Universidade Federal de Ouro Preto – Ouro Preto-MG – Brasil Stuart Schwartz – Universidade de Yale-Connecticut – EUA
Ulpiano Bezerra de Meneses – Universidade de São Paulo – São Paulo-SP – Brasil Victor Tau Anzoategui – Universidade de Buenos Aires – Buenos Aires – Argentina
Carta ao Leitor 11 I – ARTIGOS E ENSAIOS
ARTICLES AND ESSAYS
Por que e para que comemorar os feitos do passado? 13 Why and for what purpose should past achievements
be celebrated?
Jean Marcel Carvalho França
As relações entre Brasil e Áustria e a viagem 27 de Johann Natterer pelo Brasil
Relations between Brazil and Austria and Johann Natterer’s Journey Through Brazil Jéssica Uhlig Amorim Vasconcelos de Araujo
Absolutismo político e liberalismo econômico: 47 o reformismo ilustrado de José da Silva Lisboa (1800-1821)
Political absolutism and economic liberalism: the illustrated reformism of José da Silva Lisboa (1800-1821) Christian Edward Cyril Lynch
Eleições na Bahia: impactos sobre a definição 75 político-administrativa do território provincial (1828-1834)
Elections in Bahia: impacts on the political-administrative definition of the provincial territory (1828-1834)
Nora de Cassia Gomes de Oliveira
A narrativa de viagem de Henry Walter Bates: 103 Edições, traduções e adaptações de The Naturalist on the River Amazons
The travel narrative of Henry Walter Bates:
Editions, translations and adaptations of The Naturalist on the River Amazons
Anderson Pereira Antunes Ildeu de Castro Moreira Luisa Medeiros Massarani
Caxias no Senado Imperial (1846-1848)
In the aftermath of peace: Conciliation ideas and political representation in the early years of Caxias in the Imperial Senate (1846-1848)
Leonardo dos Reis Gandia
Rui Barbosa e o pleito por justiça nas relações internacionais 165 Rui Barbosa and the plea for justice in international relations Paulo Emílio Vauthier Borges de Macedo
Raphael Spode
Gênese do modelo austríaco de controle 205 de constitucionalidade: construção eminentemente
racional voltada à proteção dos direitos fundamentais?
Genesis of the austrian constitutionality control Model:
an eminently rational construction aimed at protecting fundamental rights?
Marcus Flávio Horta Caldeira
Vinda dos Koutakusseis para a Amazônia: 235 uma migração atípica
The arrival of the Koutakusseis in the Amazon:
an atypical migration Reiko Muto
Luis E. Aragón
Paraguai, Uruguai, a II Guerra Mundial 269 e o reequilíbrio de forças no Rio da Prata
Paraguay, Uruguay, World War II and the rebalancing of forces in the River Plate
Francisco Fernando Monteoliva Doratioto
Resistência e derrota do Presidente 303
João Goulart, em abril de 1964, em Porto Alegre Resistance and defeat of President
João Goulart in april 1964 in Porto Alegre Gunter Axt
Memória, história e profissionalização da Geografia 333 no Brasil: entrevistas com Pedro Pinchas Geiger
Memory, history and professionalization of Geography in Brazil: interviews with Pedro Pinchas Geiger
Patrícia Aranha III – DOCUMENTOS DOCUMENTS
Percurso acadêmico de Manoel Botelho de Oliveira 355 em Coimbra (1657-1665). Documentação conservada
no Arquivo da Universidade de Coimbra
The academic path of Manoel Botelho de Oliveira in Coimbra (1657-1665). Records housed in the Archive of the University of Coimbra
Enrique Rodrigues-Moura VI – RESENHAS
REVIEW ESSAYS
Três historiadores, três Brasis e a apologia 397 da História: entre lições e trajetórias
Lucas Cabral da Silva
• Normas de publicação 405
Guide for the authors 407
gédia social e humana da Covid-19, ainda tão mal compreendida. Vidas destruídas pela morte e pela aniquilação de seus meios de sobrevivência.
Instituições deterioradas, espaços de sociabilidade inviabilizados, formas de solidariedade desprezadas – eis o dia a dia atual. Trata-se de uma ne- gação da morte? De sua banalização? Ou de uma espécie de fatalismo ancestral, ainda incapaz de conceber o poder dos indivíduos para intervir na realidade? Qualquer que seja a opção, ampliam-se as possibilidades de se verem drasticamente restringidos, por muito tempo, os horizontes de expectativa de amplos setores da sociedade brasileira.
Enquanto isso, a vida parece continuar. De maneira diferente para alguns; de modo quase idêntico para muitos ... E os historiadores e cien- tistas sociais, onde se situam nesta crise do século XXI? Encontrarão a crítica necessária? Para eles, a manipulação de documentos, ainda que de forma remota, representará apenas a garantia de algum momento pre- térito melhor compreendido ou mais complexamente reconstituído? Ou significará emprestar vida outra vez àquele passado, imperceptível para o olhar desprovido do treinamento adequado, que permanece encapsulado no presente com o poder de assombrá-lo?
Inserida nesse contexto, a R.IHGB continua ressentindo-se dos efei- tos da pandemia. As dificuldades de ordem monetária e de pessoal para assegurar a nova edição não cessaram. É inconcebível, porém, interrom- per a vida do mais antigo periódico acadêmico do Brasil, com 191 anos, desde a criação em 1839. Apesar dos obstáculos, recorrendo a novas mo- dalidades de financiamento e a muito trabalho, ainda foi possível, desta vez, assegurar a divulgação em linha de mais um número, com artigos de autores de diferentes áreas de conhecimento.
Sem fugir à estrutura habitual, a R.IHGB apresenta quatro seções:
a de “Artigos e Ensaios”, a de “Entrevistas”, a de “Documentos” e a de
“Resenhas”. Inviabilizadas pelas circunstâncias, a das “Comunicações” – em que se divulgam trabalhos expostos nas sessões da CEPHAS/IHGB – viu-se substituída pelas “Entrevistas”.
tema que dialoga entre passado e presente, ao questionar o significado das comemorações, no caso, as dos cinco séculos da pioneira viagem de cir- cum-navegação de Magalhães e Elcano, que suscitaram inúmeras discus- sões na Península Ibérica entre intelectuais portugueses e espanhóis. Em seguida, examinam-se: as relações entre Brasil e Áustria no oitocentos por meio de cartas e viagens; o livro de Henry Bates, com sua experiência de onze anos na Amazônia; as linguagens do absolutismo ilustrado de José da Silva Lisboa; as eleições na Bahia e suas implicações na definição político-administrativa do território provincial; os caminhos políticos do segundo Reinado. A partir do alvorecer do século XX, consideram-se: a política de Rui Barbosa e seu itinerário como jurista, iniciado na Con- ferência da Haia (1907); a gênese do modelo austríaco de controle de constitucionalidade; as trilhas de uma imigração atípica na Amazônia; o equilíbrio de forças no Rio da Prata ao longo da Segunda Guerra Mun- dial; e, por fim, a resistência e derrota do Presidente João Goulart, em abril de 1964, em Porto Alegre.
Na seção “Entrevistas”, memória e história se entrecruzam, a fim de analisar a profissionalização da Geografia no Brasil, por meio de diálogo com o sócio Pedro Geiger.
Em “Documentos”, uma instigante contribuição: a primeira trans- crição de todos os documentos relativos ao percurso acadêmico na Uni- versidade de Coimbra de Manuel Botelho de Oliveira, que, nascido na América, publicou a Música do Parnaso em Lisboa, (1705).
Para terminar, a resenha debruça-se sobre a trajetória e as contribui- ções de três dos mais importantes historiadores brasileiros atuais: Alberto da Costa e Silva, Evaldo Cabral de Mello e José Murilo de Carvalho, todos sócios do IHGB.
Em suma, textos diversos, como cabe a um periódico, que oxalá pos- sam servir para refletir sobre o mundo distópico do momento.
Com votos de saúde e de boa leitura,
Lucia Maria Bastos P. Neves
Diretora da Revista
I – ARTIGOS E ENSAIOS
ARTICLES AND ESSAYSPOR QUE E PARA QUE COMEMORAR OS FEITOS DO PASSADO?
WHY AND FOR WHAT PURPOSE SHOULD PAST ACHIEVEMENTS BE CELEBRATED?
Jean Marcel Carvalho França1
Por que e para que comemorar?
Os tempos andam realmente bicudos para as comemorações cívicas.
Um pouco por todo lado, os outrora grandes homens e os grandes feitos da civilização ocidental estão sob suspeita e envoltos em polêmica. As celebrações em torno de Fernão de Magalhães e de sua pioneira viagem
1 – É professor Titular de História do Brasil da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e autor, entre outros, dos seguintes livros: Literatura e sociedade no Rio de Janeiro Oitocentista (Imprensa nacional – Casa da Moeda, 1999), Visões do Rio de Janeiro Colonial (José Olympio, 2000), Andanças pelo Brasil colonial (Editora da UNESP, 2009, com Ronald Raminelli), A Construção do Brasil na Literatura de Viagem dos séculos XVI, XVII e XVIII (José Olympio/Editora da UNESP, 2012), Piratas no Brasil (Editora Globo, 2016, com Sheila Hue), Ilustres Ordinários do Brasil (Editora da UNESP, 2018) e A Livraria de Frei Gaspar da Madre de Deus (Coleção Memória Atlântica, Cul- tura Acadêmica, 2019). E-mail: [email protected].
13
Resumo:
O que se pretende, neste pequeno ensaio, é dis- cutir o papel que a história tem desempenhado nas sociedades ocidentais contemporâneas e a preocupante crise de legitimidade que esse outrora prestigiado saber tem enfrentado nas últimas décadas. O mote de tal reflexão serão as discussões suscitadas na Península Ibérica, entre intelectuais portugueses e espanhóis, em torno das comemorações dos cinco séculos da pionei- ra viagem de circum-navegação de Magalhães e de Elcano.
Abstract:
The purpose of this short paper is to discuss the role that history has played in contemporary Western societies and the troubling legitimacy crisis that this once prestigious field of knowledge has been facing in recent decades.
The historical background of such reflection will be the discussions raised in the Iberian Peninsula among Portuguese and Spanish intellectuals around the celebrations of the five-century-old pioneering circumnavigation journey undertaken by Magalhães and Elcano.
Palavras-chave: Funções sociais da história;
Fernão de Magalhães; comemorações da pri- meira circum-navegação; Portugal, Espanha.
Keywords: Social functions of history; Fernão de Magalhães; celebrations of the first circumnavigation; Portugal, Spain.
de circum-navegação – viagem finalizada pelo espanhol Juan Sebastián Elcano, é sempre bom ressaltar – não escaparam imunes a essas tensões, a suspeitas e a picuinhas que, atualmente, marcam as relações do Ocidente com o seu passado, ao contrário.
A celeuma teve início por volta de setembro de 2018, em Portugal, um dos países europeus em que o complexo de culpa pelos pecados da colonização, somado a um avanço expressivo do politicamente correto, mais vem causando rusgas e estragos. A nação que empenhadamente se opusera à viagem de Magalhães, que movera todos os meios que tinha ao seu alcance para que o magoado navegador, bandeado para o reino vizinho, não encontrasse a oeste um caminho alternativo para as Molucas, propunha agora um ambicioso plano para comemorar o aniversário de meio milênio da viagem, a Rota de Magalhães, um plano a ser implemen- tado, com apoio da UNESCO, ao longo de um quadriênio (2019-2022)2.
Em um comunicado à imprensa explicando o empreendimento – que recebeu o sugestivo nome de V Centenário da Circum-Navegação do navegador português Fernão de Magalhães –, o governo Português simplesmente ignorou que Magalhães navegara sob bandeira espanhola e que a viagem, iniciada pelo lusitano exilado no reino vizinho, veio a ser arrematada, a duras penas, por um espanhol: Elcano. E isso não é tudo: os portugueses, bem ao gosto do discurso adotado pela UNESCO no último meio século, esforçavam-se aí por dar às comemorações ares politicamente corretos, com pitadas de multiculturalismo, de globalismo e de ecologismo, diluindo e ocultando ao máximo o caráter nacionalista que inevitavelmente envolve efemérides do gênero. Ouçamos um pouco o malabarismo linguístico politicamente correto do governo português:
As comemorações são uma oportunidade para assinalar a importância deste evento, bem como para uma reflexão alargada sobre a atual glo- balização, a diversidade cultural, as alterações climáticas e a sustenta- 2 – 500 anos da Rota de Magalhães celebrados com candidatura à UNESCO. Diário de Notícias, 4 mai. 2018. Disponível em: https://www.dn.pt/portugal/candidatura-a-unesco- -da-rota-de-magalhaes-celebra-500-anos-da-primeira-circum-navegacao-9308487.html Acesso em 01 jun. 2020.
bilidade ambiental, a exploração além das fronteiras terrestres, entre outros domínios3.
A revolta dos espanhóis não demorou muito a se fazer ouvir, a prin- cípio no jornal conservador ABC que, indignado, interpelou o governo espanhol, cobrando-lhe uma postura mais enérgica diante do que o peri- ódico classificava como uma desfaçatez ofensiva do governo português, que não hesitava em reivindicar para si o que sabidamente pertencia ao vizinho. A polêmica espalhou-se pela mídia dos dois países, envolvendo historiadores, jornalistas e políticos, e culminou numa solicitação pública dirigida pelo periódico ABC à Real Academia de História para que ela se posicionasse sobre o tema, na medida em que o governo espanhol se mostrava excessivamente tímido e negligente. A Real Academia não se fez de rogada e emitiu um documento no qual elencava 13 pontos4 que demonstravam, supostamente sem margem para dúvidas, que a viagem de Magalhães era exclusivamente espanhola – parecer que causou um enorme alvoroço entre os intelectuais portugueses.
Em meio a tamanho tiroteio, para engrossar ainda mais o caldo da polêmica, o neopopulista Lopes Obrador, presidente do México, encami- nhou ao Papa argentino Francisco I – um sabido simpatizante do discurso terceiro mundista5 – e ao rei Felipe VI uma carta em que solicitava à Espanha que pedisse perdão pelos abusos cometidos durante a conquista.
Foi o próprio Obrador, em sua conta numa rede social, quem anunciou ao mundo o envio da tal missiva:
3 – Apresentação do Programa das Comemorações do V Centenário da Circum-Navega- ção de Fernão de Magalhães. República Portuguesa Economia e Transição Digital, Desta- ques. Disponível em: https://www.sgeconomia.gov.pt/destaques/apresentacao-do-progra- ma-das-comemoracoes-do-v-centenario-da-circum-navegacao-de-fernao-de-magalhaes.
aspx Acesso em: 01 jun. 2020.
4 – CALERO, Jesús García. Lo dice la Real Academia de la Historia: la Primera Vuelta al Mundo fue exclusivamente española. ABC, Cultura, 01 mar. 2019. Disponível em: ht- tps://www.abc.es/cultura/abci-dice-real-academia-historia-primera-vuelta-mundo-exclu- sivamente-espanola-201903100139_noticia.html Acesso em: 01 jun. 2020.
5 – ZANATTA, Loris. La larga agonía de la nación católica. Iglesia y dictadura em la Argentina. Buenos Aires: Sudamericana, 2015, p. 169-170; 174-175; 238-240.
Enviei uma carta ao rei de Espanha e outra carta ao Papa para que se faça um relato dos agravos e se peça perdão aos povos originários pe- las violações ao que hoje se concebe como direitos humanos6.
A resposta um pouco envergonhada do governo socialista de Pedro Sánchez, somada à sua omissão no caso Magalhães, ao seu pouco empe- nho em celebrar o quinto centenário da conquista do México pelo herói nacional Hernán Cortés e à sua suposta tolerância com o separatismo ca- talão desencadearam reações furiosas na mídia conservadora. Uma das mais contundentes veio do referido jornal ABC que, em editorial, acusou o governo socialista de falta de amor pela Espanha, de falta de espanholi- dade. O mesmo tom aparece num editorial do igualmente conservador El Mundo. A peça acusatória do ABC terminava nos seguintes termos:
Cortés, Magalhães e Elcano são uma expressão do que em seu tempo significava estar a serviço de grandes ideais e contribuir para ampliar os limites da civilização, então representada pela Coroa Espanhola.
Seria um absurdo reivindicar hoje políticas imperialistas como as da época, mas também é um erro negar que esses episódios de heroísmo, retidão e sacrifício contribuíram para forjar a ideia nacional da Espa- nha. A mesquinharia do governo socialista e o absurdo complexo de culpa diante de nossa história estão contribuindo para que percamos a grande oportunidade de reivindicar as ações de nossos compatrio- tas; estão contribuindo para que a Espanha duvide de si mesma num momento em que a afirmação de nossa identidade nacional é mais necessária do que nunca7.
Do lado de lá da fronteira, do lado Português, historiadores e jorna- listas apressaram-se em dar respostas ambíguas e irônicas às reclamações espanholas, como se houvesse um imenso exagero e uma incompreen- são nas censuras do vizinho: claro que a viagem também é espanhola, os portugueses entraram com a ciência e os espanhóis, com o capital; a via- gem não é espanhola nem portuguesa, mas de todos os muitos povos nela
6 – AMLO solicita por carta al rey de España y al Papa que pidan perdón por la Conquis- ta de México. BBC News, Mundo, 25 mar. 2019. Disponível em: https://www.bbc.com/
mundo/noticias-america-latina-47701387 Acesso em: 01 jun. 2020.
7 – GRANDES héroes para tan pequeño gobierno. ABC, Editorial, Opinión, 10 mar.
2019. Disponível em: https://www.abc.es/opinion/abci-grandes-heroes-para-pequeno- -gobierno-201903100006_noticia.html Acesso em: 01 jun. 2020.
envolvidos; Elcano terminou a viagem, sem dúvida, porém foi a quinta escolha para capitanear a frota depois da morte de Magalhães e optou por retornar, servindo-se de uma rota utilizada pelos portugueses, e por aí vai.
Ouçamos, a título de ilustração, uma dessas opiniões “apaziguadoras”:
E mais, quanto a mim, neste aniversário devíamos louvar não apenas os sobreviventes, mas todos os homens que, de uma maneira ou de ou- tra, participaram naquela grande proeza (entre eles 31 portugueses, 26 italianos, 19 franceses e 9 gregos). Seria também uma maneira bonita de ir construindo, com este reconhecimento global, a Europa unida que todos desejamos8.
Em Portugal, além disso, outras questões relativas à história e às comemorações, para além daquelas suscitadas pelo descontentamento espanhol, imiscuíram-se no debate público. Uma delas dizia respeito ao Brasil e à imagem dos portugueses e da colonização veiculadas nos li- vros de história adotados nas escolas da antiga colônia dos trópicos. Era no mínimo desconcertante que portugueses de passagem pelo Brasil se vissem diante de questões embaraçosas, como a colocada por um estu- dante brasileiro, durante um evento acadêmico, à presidente da Academia Portuguesa da História: quando, afinal, os portugueses pedirão desculpas pelas atrocidades da colonização? Antes, pois, de sair sugerindo grandes comemorações de uma proeza que nem mesmo pertencia à nação portu- guesa, o governo do socialista Antonio Costa, adiantaram-se os críticos, deveria protestar junto ao governo brasileiro e mesmo propor ações con- juntas que revertessem tamanha injustiça – é sempre doloroso ser o vilão opressor da vitimização alheia.
A gente bem pensante e lúcida, aquela que está sempre pronta a ocu- par o lugar de consciência do mundo e a arvorar-se em porta voz das víti- mas – uma tarefa que muitos historiadores tomaram para si ultimamente –, também interveio no debate. Um conhecido intelectual luso, amante da polêmica, chegou mesmo a perguntar:
8 – CANELAS, Lucinda. Circum-navegação: a Magalhães o que é de Magalhães, a El- cano o que é de Elcano. E sem nacionalismos. O Público, Ípsilon, 3 mar. 2019. Disponí- vel em: https://www.publico.pt/2019/03/03/culturaipsilon/noticia/magalhaes-magalhaes- -elcano-elcano-nacionalismos-bacocos-1863889. Acesso em: 1 jun. 2020.
[...] comemora-se o quê? Só a parte boa da viagem, que diz respeito ao inevitável empreendedorismo, à ciência e ao diálogo intercultural, escondendo a cultura da violência dos conquistadores, o cristianismo imposto à força, o desprezo racista pelos escravos e pelos índios da Patagônia9?
Malgrado, no entanto, tamanho barulho e encenação de um e de ou- tro lado da fronteira, tudo acabou da melhor maneira possível: Portugal e Espanha decidiram apresentar à UNESCO um plano conjunto para as comemorações10, um plano no qual o caráter nacionalista da efeméride se encontra devidamente ocultado pelos apelos à globalização e ao diálogo entre culturas, pelos apelos à formação das tais redes – palavra que virou uma panaceia na boca de historiadores ansiosos por se internacionaliza- rem, seja lá o que isso signifique.
A longa polêmica Magalhães-Elcano, porém, do mesmo modo que a carta de Lopes Obrador, o lamento dos portugueses em relação ao modo como são descritos na história do Brasil, a hesitação do governo Espanhol em comemorar o conquistador Cortés e mesmo o discurso austero, cons- ciente e solidário dos bem pensantes – para quem as comemorações não têm sentido, pois a história do Ocidente é uma sucessão de pecados pelos quais se deve antes pedir perdão –, tem nuances e implicações que ultra- passam as conhecidas picuinhas nacionais: ela põe a nu a crise por que passa o saber histórico nas sociedades ocidentais contemporâneas, saber que parece ter perdido os seus propósitos e estar, a olhos vistos, passando por uma crise de legitimidade11.
9 – CURTO, Diogo Ramada. À volta da volta de Magalhães. Expresso, Sociedade, 03 mar. 2019. Disponível em: https://expresso.pt/sociedade/2019-03-30-A-volta-da-volta- -de-Magalhaes. Acesso em: 1 jun. 2020.
10 – LUSA, Mariana Pereira e. Ponto final na polémica. Portugal e Espanha anunciam candidatura conjunta à UNESCO. Diário de Notícias, Mundo, 23 jan. 2019. Disponível em: https://www.dn.pt/mundo/ponto-final-na-polemica-portugal-e-espanha-anunciam- -candidatura-conjunta-a-unesco-10477956.html Acesso em: 1 jun. 2020.
11 – Duas análises bastante recentes desta crise podem ser encontradas em: ZEMM- POUR, Éric. Destin français. Paris: Albin Michel, 2018; LE FUR, Didier. Et ils mirent Dieu à la retraite: une brève histoire de l'histoire. Paris: Passés Composés/ Humensis, 2019.
Ora, como bem sabemos, tal legitimidade no Ocidente vem de muito longe, embora tenha se amparado em alicerces que variaram ao longo do tempo. As sociedades ditas medievais incumbiram a história, aquela escrita por religiosos, poetas, hagiógrafos, cronistas, padres de província e por uma série de outros curiosos, da venerada missão de revelar aos homens os caminhos que Deus propunha para a humanidade. Havia, é certo, inúmeras polêmicas acerca da melhor maneira de desvendar e de entender plenamente os desígnios de Deus, mas não sobre a existência de tais desígnios e sobre a importância de compreendê-los minimamente;
como explica Boécio, no seu A consolação da Filosofia:
[...] é essa ordem do Destino que faz mover o céu e os outros astros, que mantém a harmonia entre os elementos e estabelece entre eles uma mudança alternada de formas e qualidades; ela renova todos os seres que nascem e morrem sem qualquer modificação, permitindo aos seres pequenos e a suas sementes crescerem segundo sua nature- za. É essa mesma ordem do Destino que tece os liames das ações dos seres humanos às suas diferentes fortunas segundo um encadeamento imutável de causas, dado que têm sua origem na Providência. Assim sendo, o universo é regido da melhor maneira dado que a indivisibi- lidade, que é a sede da inteligência divina, produz um encadeamento inevitável de causas, e, por outro lado, esse encadeamento domina por sua imutabilidade os seres sujeitos à transformação, que, sem ele, estariam abandonados ao acaso. E é dessa forma que, mesmo se tua incapacidade de apreender o encadeamento das coisas leva-te a ver so- mente confusão e desordem em todas as coisas, tudo é regido por uma lei que orienta todas as coisas para o bem. Com efeito, não há nada que ocorra tendo em vista o mal, mesmo no caso dos malfeitores; eles, como foi amplamente demonstrado, procuram o bem, mas se desviam do caminho devido a uma deplorável ignorância, e evidentemente não seria um encadeamento de fatos que tivesse sua origem no bem supre- mo que poderia afastá-los de seu próprio princípio12.
A partir de meados do século XVII, entretanto, sábios como Descartes, Pascal, Vico, Spinoza, Voltaire, Lessing e uns tantos outros, gradativamente, expurgaram Deus da história e reivindicaram para os es- pecialistas o monopólio da sua escrita. Uma passada de olhos pelo ver-
12 – BOÉCIO. A consolação da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 119-120.
bete História, escrito por Voltaire para a renomada Enciclopédia, dá uma ideia do deslocamento:
História é o relato dos fatos considerados verdadeiros, ao contrário da fábula, que é o relato dos fatos considerados falsos. Há a história das opiniões, que é quase a coleção dos erros humanos; a história das artes, talvez a mais útil de todas, quando ela associa, ao conhecimento da invenção e do progresso das artes, a descrição de seu mecanismo;
a História Natura, impropriamente considerada história e que é uma parte essencial da Física. A história dos acontecimentos se divide em sagrada e profana. A História sagrada é um efeito das operações di- vinas e miraculosas, pelas quais Deus quis conduzir outrora a nação judia e exercer hoje a nossa fé. Não tocarei nesta matéria respeitável13. E não só. Tais homens de saber atribuíram a tão nobre conhecimento pelo menos dois objetivos renovados – renovados e, de certo modo, con- flitantes. De um lado, compreender e descrever aquelas leis gerais da na- tureza que se escondem sobre o aparentemente caótico caminhar humano sobre a terra. Kant, no seu conhecido Ideia de uma história universal com um propósito cosmopolita, sintetiza magistralmente a nova tarefa:
Seja qual for o conceito que, também com um desígnio metafísico, se possa ter da liberdade da vontade, as suas manifestações, as ações humanas, são determinadas, bem como todos os outros eventos na- turais, segundo as leis gerais da natureza. A história, que se ocupa da narração dessas manifestações, permite-nos no entanto esperar, por mais profundamente ocultas que se encontrem as suas causas, que, se ela considerar no seu conjunto o jogo da liberdade da vontade hu- mana, poderá descobrir nele um curso regular; e que assim o que, nos sujeitos singulares, se apresenta confuso e desordenado aos nossos olhos, se poderá no entanto conhecer, no conjunto da espécie, como um desenvolvimento contínuo, embora lento, das suas disposições originárias14.
De outro lado, e em franca oposição ao universalismo iluminista tão bem expresso por Kant, trazer à luz o espírito dos povos e das nações,
13 – DIDEROT, Denis; D'ALAMBERT, Jean Le Rond. Enciclopédia ou dicionário ra- zoado das ciências, das artes e dos ofícios. São Paulo: Editora Unesp, 2015, v. 2, p. 345.
14 – KANT, Emmanuel. A paz perpétua e outros opúsculos. Lisboa: Edições 70, 2018, p. 19-20.
mostrar aqueles sentimentos morais e tradições que dão unidade a deter- minado grupo de homens e que lhes confere um mesmo destino. Johann Gottfried von Herder, o dito pai do romantismo alemão – pensador a quem tanto deve, por vezes sem o saber, o discurso tribalista e multiculturalista contemporâneo –, no seu sintético mas influente Também uma filosofia da história para a formação da humanidade, resume essa empreitada nos seguintes termos:
A marcha de Deus por entre as nações! O espírito das leis, dos tempos, dos costumes e das artes! Em que sequência tudo isso foi surgindo, se foi preparando de momento para momento, se foi preparando de momento para momento, se foi desenvolvendo e esgotando! Pudésse- mos nós dispor de um espelho do gênero humano que nos oferecesse com toda a fidelidade, com toda a riqueza e sentimento, a revelação de Deus! Trabalhos preparatórios temos que cheguem, mas tudo tão em bruto, tudo tão envolto em desordem! Rebolamo-nos ou rasteja- mos pelo presente e pela história passada de quase todas as nações e épocas, praticamente sem saber para quê. Dispomos dos fatos e das in- vestigações históricas, de descobertas e de relatos de viagens... Quem se entregará á tarefa de os examinar e classificar? [...] Quem poderá restaurar-nos o templo de Deus tal como é de fato na sua continuidade através dos séculos15?
O universalismo iluminista deixou marcas profundas no saber histó- rico, mas foi, sem dúvida, ao colocar-se sob o manto protetor da nação e tomar para si tanto o direito de produzir um discurso verdadeiro sobre o passado quanto a missão de construir a memória dos povos, as memórias nacionais, que o saber histórico ocidental pôde se institucionalizar, sofis- ticar seus métodos, conquistar público e, gradativamente, ampliar o seu impacto social.
É verdade que, ao longo da primeira metade do século XX, os estra- tagemas utilizados pelos historiadores para construir as suas narrativas do passado se diversificaram e a disciplina histórica definitivamente se consolidou no meio escolar e universitário, mas a sua íntima relação com a nação, seu passado, sua memória e sua identidade não se alterou subs-
15 – HERDER, Johann G. Também uma filosofia da história para a formação da huma- nidade. Tradução, notas e posfácio de José M. Justo. Lisboa: Antígona, 1995, p. 103-104.
tantivamente, e muito de sua legitimidade ainda decorria daí: a história existe, é socialmente importante e prospera, porque toda nação necessita de um passado comum, de valores partilhados ao longo do tempo por seus membros, em suma, precisa de uma identidade.
Ocorre, porém, que a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais lan- çaram uma tremenda sombra tanto sobre o nacionalismo quanto sobre o inexorável e benéfico progresso da razão humana, lançaram sombra e provocaram um verdadeiro divórcio do saber histórico tanto com o seu dever de construir um passado comum para os povos, a tal identidade nacional, quanto com a missão sempre renovada de escrever uma história universal. Os heróis nacionais desapareceram, os grandes gestos funda- dores, reconhecíveis pelo cidadão patriota, diluíram-se em redes causais complexas, em jogos de interesse e de atitudes contraditórias, e as orgu- lhosas e as excludentes sagas nacionais caíram literalmente em desgraça.
O suposto pêndulo da história, porém, não se inclinou para o universalis- mo, para uma retomada do sonho iluminista de uma história do humano e de suas múltiplas peculiaridades, ao contrário, os povos e as nações frag- mentaram-se ainda mais e, gradativamente, deram lugar a comunidades, a grupos e a subgrupos, cada um deles com sua história, sua temporalidade, seus heróis e seus lugares exclusivos de memória.
Destituídos de suas duas principais bandeiras, mas embalados pelo processo de descolonização que teve lugar no pós-guerra e pelas políticas em prol da diversidade e da tolerância culturais que a UNESCO passou então a promover, os historiadores trataram de se mover e de encontrar uma nova razão de ser para o discurso que produziam, distante tanto do apelo nacional quanto da ilusão universalista – um produto da cegueira e da prepotência ocidentais. Eis que emerge, então, o historiador porta-voz dos que não tiveram voz, a princípio dos que foram massacrados pela co- lonização e pela opressão de classe e de raça, sobretudo de classe. A partir da década de 60 do século passado, com o crescente processo de globali- zação, a intensificação sem precedentes da imigração rumo aos países do norte e o desaparecimento da classe prometida, do proletariado – a classe que deveria libertar a humanidade e conduzi-la a um mundo renovado –,
esses grupos aos quais era preciso restituir a voz não pararam de crescer e de se diversificar. Entraram então em cena, tomando o lugar dos pro- metidos de outrora, dos proletários, uma gama enorme de seres humanos que tiveram as suas culturas e os seus modos de vida calados pela cultura do homem branco ocidental, por sua ganância, sua prepotência e sua von- tade de domínio; por vezes em lugares distantes do globo (na África, na Ásia, na América Latina), por vezes no interior das próprias sociedades ocidentais – colonizados a leste e a oeste, mas também mulheres, nativos americanos, homossexuais, minorias religiosas e culturais, etc.
Era o início do longo, abrangente e poderoso reinado das histórias penitentes16, isto é, daquelas histórias interessadas em culpar determi- nadas nações, povos ou grupos sociais pelos males de um outro grupo qualquer, os males de hoje e de ontem. Era o início da transformação da narrativa sobre o passado num discurso de expiação, autoflagelo e arre- pendimento pelos erros dos antepassados. Há quem fale no triunfo do historicamente correto17, na primazia daquela história que instrumenta- liza o passado e não hesita em projetar valores contemporâneos, tidos como superiores, sobre sociedades que nem mesmo tinham palavras para designá-los, daquela história que não está interessada em compreender os caminhos que tomamos ao longo do tempo, mas tão somente em julgá- -los, falseá-los, empobrecê-los, como se os homens que nos antecederam tivessem legado somente morte, destruição e dívidas a pagar, um imenso pasto para a nossa culpa e para a nossa expiação.
Tal modo de escrever o passado esforçou-se por romper o elo que unia a história à construção de um mundo partilhado, de uma identidade nacional; esforçou-se, do mesmo modo, por sabotar a identificação entre o leitor de história e as empresas bem sucedidas levadas a cabo pelos seus antepassados – a glória de uns é sempre a opressão e o sofrimento de outros –, satanizando o seu orgulho nacional – reiteradamente descrito
16 – BRUCKNER, Pascal. O complexo de culpa do Ocidente. Mira-Sintra/Mem Mar- tins: Europa-América, 2008. BRUCKNER, Pascal. Un racisme imaginaire: la querelle de l'islamophobie. Paris: Grasset, 2017.
17 – SÉVILLA, Jean. Historiquement correct. Pour en finir avec le passé unique. Perrin, 2003.
como o ovo da serpente totalitária – e ridicularizando o seu gosto tolo e arrogante por conhecer os avanços que o seu povo trouxe para uma supos- ta civilização mundial. É o próprio Lévi-Strauss, num famoso e influente ensaio de 1952, ensaio que acabou por lançar as bases da política multi- cultural da UNESCO, quem adverte:
[...] a verdadeira contribuição das culturas não consiste na lista das suas invenções particulares, mas no desvio diferencial que oferecem entre si. O sentimento de gratidão e de humildade que cada membro pode e deve experimentar para com os outros só poderia fundamen- tar-se numa convicção: a de que as outras culturas são diferentes da sua, das mais variadas maneiras; e isso, mesmo que a natureza destas ultimas lhe escape ou se, apesar de todos os seus esforços, só muito imperfeitamente consegue penetrá-la. Por outro lado, consideramos a noção de civilização mundial como uma espécie de conceito limite, ou como uma maneira abreviada de designar um processo comple- xo. Porque, se a nossa demonstração é válida, não existe nem pode existir uma civilização mundial no sentido absoluto que damos a este termo, uma vez que a civilização implica a coexistência de culturas que oferecem entre si a máxima diversidade e consiste mesmo nessa coexistência. A civilização mundial só poderia ser coligação, à escala mundial, de culturas que preservassem cada uma a sua originalidade18. Em um mundo com tantas regras e com tantos interditos, não causa espanto os enormes problemas suscitados pelas comemorações cívicas e os muitos cuidados que se deve ter ao conduzi-las: não se pode deixar que se contaminem com o orgulho nacional; não se deve permitir que criem hierarquias entre povos, raças, sexos, classes sociais, etc.; deve-se evitar cair na tentação de exaltar em demasia os indivíduos, tendo sempre o cuidado de subsumi-lo num coletivo qualquer; e, sobretudo, é imperativo não insultar ninguém, afinal, a glória de uns não pode e não deve trazer à memória as dores de outros.
As armadilhas e as restrições são tão variadas, que o melhor, talvez, seja não comemorar. Mas se comemorar não é mais possível, se não se pode mais falar em passado comum, em glórias dos antepassados, em
18 – LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural II. Biblioteca Tempo Universi- tário 45. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1993, p. 362-363.
avanços civilizacionais e numas tantas outras coisas, o que, afinal, restou no Ocidente para justificar socialmente a existência de uma escrita sobre o passado? O gosto mórbido pela expiação? O culto silencioso do ódio pelo meu vizinho, cujos antepassados oprimiram os meus irmãos de raça, de credo ou de cultura? A busca por reparação pelas ofensas entre huma- nos de outrora? A tão em moda e socialmente recompensada “vontade de vitimização”?
Esse é o caminho que tem trilhado o historicamente correto, entre- tanto, ao que parece – e a crise de legitimidade mencionada vem em parte daí –, o serviço de expiação e de retratação que a história vem prestando à sociedade tem encontrado cada vez menos interessados, pior, tem soado ao público em geral pouco verossímil, exagerado e socialmente improdu- tivo: criminaliza as maiorias, sataniza todo e qualquer princípio de orde- nação social – todos são modos mais ou menos disfarçados de dominação das minorias, dos oprimidos, ou seja, são obstáculos à diversidade e à igualdade – e não colabora para a coesão da sociedade, ao contrário, a corrói. Talvez, e temos de estar atentos a isso, os leitores de história deste mundo paradoxalmente globalista e tribalista em que vivemos estejam sentindo falta de uma história que lhes recorde de que são humanos e de que podem compreender as razões de outros humanos – mesmo que não compartilhem da mesma cultura – e, sobretudo, de que têm raízes e de que, sem corar e sem pedir perdão a todo momento, é possível se orgulhar delas, das raízes nacionais inclusive.
Texto apresentado em abril de 2020. Aprovado para publicação em julho de 2020.
AS RELAÇÕES ENTRE BRASIL E ÁUSTRIA E A VIAGEM DE JOHANN NATTERER PELO BRASIL
RELATIONS BETWEEN BRAZIL AND AUSTRIA AND JOHANN NATTERER’S JOURNEY THROUGH BRAZIL
Jéssica Uhlig Amorim Vasconcelos de Araujo1
As relações científicas entre o Brasil e a Áustria constituem par- te de um processo político importante da história brasileira. A aproxi- mação entre os dois países ocorreu durante o Congresso de Viena, e o acordo político entre eles foi selado a partir do casamento dinástico entre D. Leopoldina e D. Pedro. No âmbito dos estudos sobre as relações cien- tíficas entre Brasil e Áustria, este trabalho propõe refletir sobre as rela- ções entre os dois países a partir de seu aspecto científico, destacando o papel da expedição científica austríaca e do seu integrante que viajou pelo Brasil durante mais tempo, o zoólogo Johann Natterer. As pesquisas têm mostrado a importância do trabalho de Natterer como naturalista, porém poucos relacionam sua estadia às questões políticas entre Brasil e Áustria. O naturalista percorreu diversas regiões do Brasil em 18 anos (1817-1835), ao longo dos quais as relações entre Brasil e Áustria passa-
1 – Doutoranda – PIPGLA/UFRJ. E-mail: [email protected].
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Resumo:
O trabalho apresenta uma análise das cartas de Johann Natterer, zoólogo integrante da Expe- dição Científica Austríaca, destacando sua po- sição de protagonista do empreendimento em relação às questões políticas internas ao Brasil e às relações entre Brasil e Áustria. O período em que o naturalista percorreu o Brasil (1817-1835) foi marcado por turbulências políticas no país que impactaram e que ameaçaram diretamente os planos de viagem de Natterer. No trabalho, são analisadas as cartas escritas pelo viajante em três momentos críticos de seu percurso, relacio- nado-os às questões políticas brasileiras.
Abstract:
The paper aims to present an analysis of the letters written by the zoologist Johann Natterer, and to highlight the leading role he played during the Austrian scientific expedition in the context of the political relations between Austrian and Brazil. The period in which the naturalist journeyed through Brazil (1817- 1835) was marked by political turmoil that directly impacted and threatened Natterer’s journey plans. We analyze the letters he wrote at three critical moments of his journey and relate them to Brazilian political issues.
Palavras-chave: Johann Natterer; Expedição científica austríaca; Gêneros discursivos; Rela- ções Brasil e Áustria.
Keywords: Johann Natterer; Austrian scientific expedition; discursive genre; Brazilian and Austrian relations.
ram por aproximações e por distanciamentos que influenciaram o traba- lho e a permanência do zoólogo no país sul-americano.
Inicialmente, explicarei o contexto político em que a Áustria decidiu pelo envio de uma expedição científica ao Brasil. O empreendimento não ocorreu de maneira isolada, mas em um momento de controle político da Áustria sobre os países europeus e de um movimento pela retomada da situação pré-revolucionária, principalmente, na Europa. Em meio à reorganização geopolítica do continente europeu, os governos financia- vam expedições científicas para coletar objetos naturais para compor co- leções em museus e para contribuir com o desenvolvimento da produção de conhecimento científico. Tais empreendimentos ocorreram durante os séculos XVIII e XIX e tinham um caráter político, além do científico, uma vez que, por meio dos trabalhos dos viajantes, os governos europeus conseguiriam informações sobre os países explorados para estabelecer relações comerciais, por exemplo. Por fazer parte de um movimento de aliança política a partir de um casamento dinástico, o caso da expedição austríaca mostra-se particular.
Em seguida, explicarei as características da expedição austríaca:
quem eram seus diretores, quais eram seus objetivos, quais naturalistas e quais artistas foram escolhidos, além de explicitar o alto investimento austríaco na expedição e os primeiros anos de viagem pelo Brasil. Esses elementos demonstram o investimento inicial feito pela Áustria para desenvolver sua produção científica, acompanhando o processo de de- senvolvimento da ciência na Europa, associado à emergência da história natural como estrutura de conhecimento científico e à exploração conti- nental de territórios fora da Europa.
À primeira vista, o início da expedição não fornece muitas pistas sobre sua conexão com as relações políticas entre o Brasil e a Áustria além do casamento dinástico. Porém, a trajetória de Johann Natterer du- rante 18 anos pelo Brasil pode nos oferecer boas informações sobre essa relação. O viajante foi o integrante que, por mais tempo, percorreu partes do território brasileiro e, ao longo desses anos, redigiu mais de 200 cartas
que nos fornecem informações sobre sua trajetória e nos permitem tam- bém identificar os momentos dramáticos de sua permanência no Brasil, seu empenho colecionista e suas estratégias de permanecer no país, que foram ameaçadas em momentos críticos da relação política entre Brasil e Áustria. Mostrarei como, em suas missivas a seus superiores e ao seu irmão, Natterer buscou contornar as dificuldades e convencer seus supe- riores da importância de seu trabalho no Brasil, apesar de nem sempre ter tido a ciência sobre o que acontecia entre os dois países.
Assim, ressalto a importância de compreender a decisão do governo austríaco de enviar uma expedição científica ao Brasil no seio do acordo político entre o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves e o Império Austríaco, concretizado a partir do casamento real entre os herdeiros das casas dinásticas de Bragança e de Habsburgo, D. Pedro e D. Leopoldina respectivamente. Essa aliança política por meio do matrimônio não foi uma estratégia política concebida sem benefícios para ambas as cortes.
Para a Áustria, a fundamental e principal razão pela aproximação com a casa de Bragança era o fortalecimento e a garantia da manutenção da monarquia portuguesa2. Embora a família real portuguesa estivesse no Brasil, o objetivo da Áustria, cujo chanceler Metternich liderou os traba- lhos no Congresso de Viena, após o fim das guerras napoleônicas, con- sistia em reorganizar a geopolítica da Europa e em retornar às condições pré-revolucionárias no continente, reforçando os poderes monárquicos.
Além disso, o governo austríaco poderia criar uma nova área de influ- ência no continente sul-americano, o que poderia resultar um enfraque- cimento da influência inglesa na América. Um contrabalanceamento às forças inglesas também se configurava como objetivo da corte portuguesa ao decidir pela aliança matrimonial entre as dinastias. Portugal já vivia durante muitos anos sob forte dominação da Inglaterra, e um acordo com a dinastia mais poderosa da Europa poderia diminuir essa influência e realçar o prestígio da casa Bragança.
2 – BIRKHOLZ, Andreas. Österreich und Brasilien: 1816-1831. 1970. 331 f. Tese (Doutorado em Filosofia) - Philosophischen Fakultät, Ludwig Maximilians Universität, München, 1970, p. 05.
Por ocasião do casamento real, o chanceler austríaco Metternich decidiu enviar, junto à comitiva que levou a arquiduquesa austríaca Leopoldina ao Brasil, uma expedição científica composta por naturalistas e por artistas para observar a natureza brasileira e para enviar desenhos fieis e coleções de objetos naturais para o enriquecimento das instituições de ciência na Áustria3. O investimento em expedições científicas era parte de uma confluência de interesses e de processos políticos, cujo centro se estabeleceu na Europa. Segundo Pratt4, durante os séculos XVIII e XIX, a produção de conhecimento científico desenvolveu-se em meio a dois processos ocorridos na Europa: a emergência da história natural como estrutura de conhecimento e o impulso à exploração continental. Os dois movimentos se refletiram em expansão de instituições como academias de ciência, gabinetes de curiosidades e jardins botânicos, assumindo um papel crucial para o desenvolvimento da ciência. Nesses espaços, de- senvolveu-se o trabalho de gabinete dos naturalistas. Como parte dessas atividades, as viagens a partir de expedições científicas tiveram um pa- pel fundamental. As práticas científicas se profissionalizaram por meio desses deslocamentos que exigiam equipamentos, uma preparação bem planejada e uma orientação mediante instruções e criação de estrutu- ras institucionais, como museus e sociedades científicas. Viajar era uma importante forma de comunicação e de aquisição de conhecimento: um meio de coletar dados e de fornecer materiais para a pesquisa de história natural5. A expedição científica austríaca seria, pois, para a Áustria, um modo de ampliar os conhecimentos sobre o Brasil, que eram muito su- perficiais; obter informações para a corte de Viena e ainda enriquecer a coleção científica do imperador austríaco, Francisco I6.
3 – RIEDL-DORN, Christa. Johann Natterer e a Missão Austríaca para o Brasil. Trad.:
Mario P. C. R. Lodders e Maria Faro. Série dirigida e organizada por Cristina Ferrão e José Paulo Monteiro Soares. Petrópolis: Editora Index, 1999, p. 11.
4 – PRATT, Mary Louise. Os olhos do império: relatos de viagem e transculturação.
Tradução: Jézio Hernani Bonfim Gutierre. Bauru: EDUSC, 1999, p. 35.
5 – SCHMUTZER, Kurt. Der Liebe zur Naturgeschichte halber: Johann Natterers Rei- sen in Brasilien 1817-1835. 2007. 293 f. Tese (Doutorado) - Curso de Filosofia, Univer- sität Wien, Viena, 2007, p. 13.
6 – RAMIREZ, Ezekiel Stanley. As relações entre a Áustria e o Brasil. Trad.: Américo Jacobina Lacombre. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1968, p. 125.
Além das motivações científicas, as expedições também serviam a propósitos políticos. A expedição científica austríaca prestaria para obter informações sobre artigos para comércio com a Europa, como madeiras, anotações sobre o clima, riscos, animais selvagens, estradas, caminhos e alimentos7. Tanto essas instruções quanto a preparação prévia do empre- endimento, os procedimentos de verificação dos resultados, meticulosa- mente controlados por relatórios examinados pelo imperador Francisco I e pelo chanceler Metternich, indicam a necessidade de observar o em- preendimento não apenas como uma expedição científica, mas também motivada por interesses geopolíticos e neocoloniais. As viagens eram re- alizadas com a esperança de obter vantagens na concorrência econômica, política e científica e de expandir zonas de influência territorial, política ou simbólica8. Para realizar esses objetivos, a Áustria investiu com um grande aporte financeiro, demonstrando a importância dada ao projeto.
No total, a soma chegava a 400000 florins, que compreendiam os salá- rios dos integrantes e os gastos com instrumentos para coletas de plantas, livros, instrumentos de medição, equipamentos e ainda outros tipos de materiais9.
Para atingir os propósitos do empreendimento, começaram na Áustria os preparativos para a sua realização. O chanceler Metternich, muito interessado pelas ciências naturais, manteve-se na direção ge- ral da expedição, enquanto a direção científica foi atribuída a Karl von Schribers, à época, diretor do Gabinete de História Natural em Viena10.
7 – RIEDL-DORN, Christa. Johann Natterer e a Missão Austríaca para o Brasil. Trad.:
Mario P. C. R. Lodders e Maria Faro. Série dirigida e organizada por Cristina Ferrão e José Paulo Monteiro Soares. Petrópolis: Editora Index, 1999, p. 25.
8 – MONTEZ, Luiz Barros. MONTEZ, Luiz Barros. Johann Natterer e seu protagonis- mo na Expedição Científica Austríaca no Brasil, 1817-1835. In: ___; VIDAL, João Vi- cente (Org.). Rio de Janeiro-Alemanha: relações musicais. Rio de Janeiro: UFRJ, Escola de Música, 2015, p. 44.
9 – RAMIREZ, Ezekiel Stanley. As relações entre a Áustria e o Brasil. Trad.: Amé- rico Jacobina Lacombre. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1968, p. 129-130;
SCHMUTZER, Kurt. Der Liebe zur Naturgeschichte halber: Johann Natterers Reisen in Brasilien 1817-1835. 2007. 293 f. Tese (Doutorado) - Curso de Filosofia, Universität Wien, Viena, 2007, p. 35-38.
10 – SCHMUTZER, Kurt. Der Liebe zur Naturgeschichte halber: Johann Natterers Rei- sen in Brasilien 1817-1835. 2007. 293 f. Tese (Doutorado) - Curso de Filosofia, Univer-
Ao nomear os participantes da expedição, Schreibers escolheu como zoó- logo Johann Natterer, Heinrich Wilhelm Schott como botânico e Dominik Sochor como caçador e preparador. Foram nomeados ainda o professor de História Natural na Universidade de Praga Johann Christian Mikan como botânico e Johann Baptist Emanuel Pohl como mineralogista. No âmbito iconográfico, Thomas Ender foi encarregado de pintar paisagens e Johann Buchberger deveria fazer ilustrações de plantas. O botânico Karl Philipp Friedrich von Martius e o zoólogo Johann Baptist von Spix juntaram-se à expedição temporariamente, a pedido do rei da Baviera, Maximilian Joseph I, e o botânico Joseph Raddi foi enviado pelo grão- -duque Fernando de Toscana. A princesa Leopoldina, também diletante das ciências naturais, encarregou seu professor, o mineralogista Rochus Schüch, de montar uma biblioteca no Brasil e indicou ainda o pintor G.
K. Frick, além de Franz Josef Frühbeck, este como ajudante de Schüch.
A expedição partiu em viagem ao Brasil, em 1817, junto à comitiva que trouxe ao país a arquiduquesa austríaca Leopoldina. Atualmente, te- mos acesso às trajetórias de alguns viajantes em relatos mais conhecidos, já traduzidos e publicados em português, de Emanuel Pohl e de Spix e Martius, por exemplo. Embora ricos em informações para os estudos da expedição, eles não farão parte de nossa análise. Primeiramente, em fun- ção da participação temporária dos bávaros Spix e Martius. Esses natu- ralistas vieram ao Brasil a serviço do Rei da Baviera Maximilian Joseph I e, após alguns meses de viagem pelo Rio de Janeiro, separaram-se dos naturalistas austríacos e seguiram pelo litoral brasileiro de modo inde- pendente. Já Emanuel Pohl realizou suas atividades científicas no Brasil apenas até o encerramento oficial da expedição em 1821, de modo que a curta permanência apresenta poucas informações para uma análise mais longa entre as relações entre Brasil e Áustria.
Por isso, as análises partirão da trajetória de Johann Natterer, o na- turalista que, por mais tempo, percorreu regiões do território brasileiro:
desde 1817, quando o Brasil ainda era parte do Reino Unido de Portugal,
sität Wien, Viena, 2007, p. 30.
Brasil e Algarves, passando pela independência e pelo primeiro reinado até o período regencial e a Revolta da Cabanagem em 1835. Ao con- trário dos naturalistas citados anteriormente, Natterer não publicou um relato de viagem. Os relatos tonaram-se elementos importantes na prática científica, uma vez que serviam a diversos propósitos, desde documentar acontecimentos e descrever povos, plantas e animais de diversas partes do mundo, a prover de instrução e de entretenimento a classes letradas europeias11, constituindo-se no âmbito da preparação, da execução e da avaliação da viagem. Nas primeiras décadas do século XIX, o relato de viagem escrito pelo naturalista Alexander von Humboldt tornou-se refe- rência para outros viajantes naturalistas e representou uma fonte para a redefinição da América, sobre a qual foram criadas novas visões tanto no continente europeu quanto no americano12. Natterer, no entanto, recusou- -se a seguir o modelo humboldtiano. O naturalista não tinha a intenção de produzir relatos nem de publicá-los, como manifestou em uma carta escrita para o seu irmão Joseph Natterer:
Desde que nos escolheram em Viena para essa viagem, penso eu que sabiam que entre nós não há nenhum Humboldt e se fosse a intenção de enviar um desse, teriam nos deixado em casa13.
A declaração do naturalista tinha um motivo: ele entendia a coleta de objetos como o objetivo maior da expedição e não se via como alguém que produziria relatos sobre suas andanças e sobre suas atividades.
Ao não publicar o relato, a trajetória de Natterer pelo Brasil perma- neceu, durante muitos anos, pouco conhecida. Os estudos sobre o trabalho científico do naturalista ganharam força após o acesso de pesquisadores austríacos14 às cartas escritas por Natterer durante o período. Esse mate-
11 – LISBOA, Karen Macknow. A nova Atlântida de Spix e Martius: natureza e civiliza- ção na Viagem pelo Brasil (1817-1820). São Paulo: Editora Hucitec, 1997, p. 38.
12 – PRATT, Mary Louise. Os olhos do império: relatos de viagem e transculturação.
Tradução: Jézio Hernani Bonfim Gutierre. Bauru: EDUSC, 1999, p. 195-196.
13 – Tradução minha de: „Da man uns in Wien zur Reise auswählte, so glaube ich, wuste man wohl, dass kein Humboldt unter uns sey und wäre es die Absicht gewesen, einen sol- chen zu schiken, so hätte man uns zu Hause gelassen.“ (Carta de Johann Natterer a Joseph Natterer em 25 de junho de 1821)
14 – O pesquisador Kurt Schmutzer desenvolveu um projeto que possibilitou a reu-