ESTADO DO AMAZONAS PODER JUDICIÁRIO JUÍZO DE DIREITO DA COMARCA DE NOVO AIRÃO/AM SENTENÇA

Texto

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PROCESSO N. 0000132-59.2019.8.04.5901 AUTOR: ROBERTO FREDERICO PAES JUNIOR RÉ: CÂMARA MUNICIPAL

SENTENÇA

Vistos, etc...

I – RELATÓRIO

Trata-se de ação declaratória de nulidade, submetida ao procedimento comum, com pedido de tutela provisória de urgência, ajuizada por ROBERTO FREDERICO PAES JUNIOR em face da PRESIDENTE DA MESA DIRETORA DA CÂMARA MUNICIPAL DE NOVO AIRÃO/AM, Vereadora NERITA DE CASTRO MENEZES.

Para tanto o Requerente argumenta, em síntese, a existência de vícios formais no procedimento da Comissão Processante, bem como a ausência de elementos que possam configurar infração político-administrativa por parte do Prefeito Municipal (ausência de justa causa).

Requer, assim, que seja declarado nulo o procedimento instaurado pela Resolução n. 12/2019.

A inicial veio instruída com os documentos de itens 1.2/1.8.

A decisão de item 9.1 deferiu o pedido de tutela provisória de urgência, de forma a determinar a suspensão do procedimento instaurado pela Resolução n.

12/2019 até que este Juízo proferisse decisão final acerca da legalidade do ato administrativo.

Petição da Câmara de Vereadores informando o cumprimento da decisão liminar (item 10.1).

Devidamente citada, a Requerida não contestou o feito.

O despacho de item 13.1 determinou a intimação do Ministério Público para Parecer conclusiva, enquanto fiscal da lei, bem como anunciou o julgamento do processo.

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Parecer do Parquet ao item 16.1, pugnando pela improcedência do pedido.

É o breve relatório. Decido.

II – FUNDAMENTAÇÃO

II – 1 – Do julgamento antecipado da lide

O julgamento antecipado da lide consiste em uma técnica de abreviamento do processo, fundada no Princípio da Adaptabilidade do Procedimento, uma vez que o Julgador, diante das peculiaridades da causa, encurta o procedimento, dispensando a realização de toda uma fase do processo.

Considerando-se a inexistência de preliminares processuais e prejudiciais, passo ao mérito.

II – 2 - Mérito

De início, cumpre salientar que a cognição por parte deste Juízo consistirá na perquirição acerca da regularidade do procedimento, vale dizer, da sua adequação formal. Isso porque, apenas seria legítima a análise aprofundada do fundo do direito caso se estivesse diante de hipótese teratológica que, prima facie, não se enquadrasse nas hipóteses previstas no art. 7º do Decreto-Lei n. 201/67.

Frise-se, a verificação da presença ou não de subsunção material, nesse momento, é atribuição da Câmara de Vereadores, que não pode ser usurpada.

Passo, assim, a analisar as causas de pedir discriminadas na petição inicial concernentes à suposta violação, formal, do procedimento.

1. Inépcia da inicial - denúncia?

O juízo acerca da admissibilidade inicial da peça acusatória compete à Comissão Processante, que no caso entendeu pelo recebimento do processo.

Considero que a inicial acusatória descreve minimamente os fatos e suas circunstâncias, possibilitando o exercício do direito de defesa.

Com efeito, eventual falta de clareza ou de técnica legislativa da denúncia deve ser apreciada pela Câmara Municipal, não sendo permitido ao próprio

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Denunciado decidir exclusivamente pelo seu não recebimento. Razão assiste ao Órgão ministerial quando aduz que “para pleitear a nulidade judicial de ato privativo do Plenário da Câmara de Vereadores, necessário que esteja cabalmente comprovada a ilegalidade praticada, sob pena de o Poder Judiciário se transformar em uma espécie de revisor ou câmara recursal dos Atos da Casa Legislativa”.

Por sua vez, a alegação de que a acusação deixou de indicar, com precisão, o dispositivo legal que está sendo violado não pode conduzir ao reconhecimento de inépcia da denúncia. Mais uma vez saliento que o objetivo do legislador foi justamente possibilitar o mais amplo direito de petição, de forma a não se impor maior rigor na confecção da peça. Ora, como exigir de um humilde eleitor conhecimento específico para realizar correta subsunção entre fato e norma? Nesse sentido, foi dada maior importância à descrição dos fatos e suas circunstâncias, cabendo à Comissão Processante a técnica decisória pertinente. Ademais, a alegação de que o Denunciante não preenche as condições de eleitor não veio acompanhada de prova que pudesse sustenta-la.

No que concerne à afirmação de ‘confusão’ para se identificar o Denunciante, não há que se falar em prejuízo de defesa conforme bem delimitado pelo Parquet. Isso porque, observo que na Resolução que instalou a Comissão Processante, devidamente publicada no Diário dos Municípios e juntada aos autos pelo Requerente, tem-se o nome discriminado do subscritor da peça acusatória.

Ademais, afigura-se necessário ressaltar que o Denunciado se defende dos fatos a ele imputados. Com efeito, a Comissão Processante avaliará os fatos imputados independentemente do sujeito que os apresentou.

Saliente-se, será o Órgão julgador, no caso o Plenário da Câmara, quem avaliará, nesse momento, o fundo do direito, ou seja, os fatos imputados ao Representado a luz das provas indicadas e produzidas, observando os princípios do contraditório e da ampla defesa.

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2. Vício na notificação por ausência de cópia da ata da reunião?

O art. 5º, III, do Decreto-Lei n. 201/67 estabelece o seguinte:

III - Recebendo o processo, o Presidente da Comissão iniciará os trabalhos, dentro em cinco dias, notificando o denunciado, com a remessa de cópia da denúncia e documentos que a instruírem, para que, no prazo de dez dias, apresente defesa prévia, por escrito, indique as provas que pretender produzir e arrole testemunhas, até o máximo de dez”.

A norma em epígrafe expressa que a notificação do Denunciado será acompanhada de cópia da denúncia e dos documentos que a instruíram. Considero que não se possa extrair, desta disposição, determinação de envio da Ata da Reunião que abriu a Comissão Processante.

Não obstante, considerando-se tratar-se de ato administrativo e, portanto, público, deveria o Denunciado, ora Autor, comprovar que a Casa Legislativa se recusou a fornecer o documento (Ata da Reunião), circunstância não verificada no caso dos autos. E é neste ponto que esta demanda difere daquela indicada na peça pelo Requerente, pois, frise-se, não se tem demonstração de negativa por parte do órgão público.

Com efeito, o Demandante sequer juntou aos autos, ou mesmo expressou na causa de pedir remota, qual o placar da votação quando do recebimento da peça acusatória. Esse dado poderia ser importante para aferir eventual influência do voto de cada Vereador, até mesmo porque, conforme jurisprudência de nossos Tribunais, no processo de cassação do mandato de prefeito regulado pelo Decreto-Lei n. 201/67, a não convocação do suplente do vereador impedido não interfere no procedimento, se a denúncia foi recebida pelo quórum qualificado de dois terços dos membros da Casa das leis.

De qualquer forma, observo que o Denunciante não é o Vereador Rosemberg de Souza Branco, de forma a não incidir o disposto no art. 5º, I, do Decreto-Lei n. 201/67.

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Informo, por fim, que razão assiste ao Ministério Público quando declina que as cópias de notícias em blogs, veiculados na internet, não foram capazes de apontar, com a clareza necessária, irregularidade capaz de anular todo o procedimento. Ademais, considero que ser adversário político não significa, necessariamente e prima facie, estar impedido de votar.

3. Cópia da denúncia e documentos que a instruíram – Ausência das mídias

Nesse particular verifico que o Parquet, enquanto fiscal da lei, foi preciso em indicar que a inequívoca ausência de prejuízo impede a declaração de nulidade do ato. Explico.

A invalidade é sanção que somente pode ser aplicada se houver a conjugação do defeito do ato com a existência de prejuízo. Frise-se, não há nulidade sem prejuízo (pas de nullité sans grief).

Com efeito, no caso dos autos o Denunciado, ora Requerente, declinou em sua peça inicial, in verbs: “Após ouvir todos os áudios, chega-se à conclusão realmente o Prefeito nada tem haver com qualquer suposta infração que tenha ocorrido.” Ora, conclui-se que o Autor teve sim acesso aos áudios, tanto que em sua defesa prévia pôde fundamentar convicção de inocência. Nesse sentido, ainda que a peça acusatória tenha sido encaminhada sem as mídias, o fato é que houve efetivo acesso a estas por parte do Denunciado antes da apresentação da defesa prévia, de forma a inexistir prejuízo apto a configurar nulidade.

III - DISPOSITIVO

Posto isso, acolho o Parecer do Ministério Público de item 16.1, razão pela qual julgo improcedentes os pedidos declinados na inicial, extinguindo o processo, com resolução de mérito, nos termos do art. 487, I, do CPC.

Fica revogada, assim, a decisão que deferiu o pedido de tutela provisória de urgência, de forma a suspender o procedimento administrativo. Ciência à Câmara de Vereadores.

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Condeno o Autor em custas e honorários advocatícios, estes fixados em 10% (de por cento) sobre o valor atualizado da causa.

Publique-se. Registre-se. Intimem-se.

Com o trânsito em julgado, arquivem-se com as baixas necessárias.

Novo Airão/AM, 12 de maio de 2020.

TÚLIO DE OLIVEIRA DORINHO Juiz de Direito

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Referências

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