Processo
1897/20.3T8FNC.L1-2
Data do documento 3 de dezembro de 2020
Relator Arlindo Crua
TRIBUNAL DA RELAÇÃO DE LISBOA | CÍVEL
Acórdão
DESCRITORES
Procedimento cautelar > Restituição provisória de posse
SUMÁRIO
I– O procedimento cautelar de restituição provisória de posse possui natureza antecipatória, pois assegura a satisfação provisória do possuidor, traduzindo-se num mecanismo de defesa da posse, do qual aquele se serve contra actos de esbulho violentos, de forma a garantir, célere e eficazmente, a reconstituição ou reposição da situação possessória anterior e impedir o persistir de um estado danosos e agravante dos danos ;
II– O processo judiciário de defesa da posse destina-se, assim, á protecção do estado de facto que constitui a essência da posse contra qualquer acto que signifique uma ameaça, ou uma violação à existência da relação material, acautelando a perturbação do seu exercício e obrigando á restituição do objecto possessório sempre que o possuidor dele tenha sido esbulhado, salvaguardando, deste modo, o processo possessório aquele estado de facto, enquanto não for demonstrado que não corresponde a uma concreta relação jurídica ;
III– no procedimento cautelar de restituição provisória de posse, a característica da provisoriedade surge potenciada ou redobrada pois, se por um lado a sua procedência depende de uma sumária prova da posse, por outro, fica igualmente dependente da não invocação, com sucesso, da questão da titularidade do direito – cf., 2ª parte, do nº. 1, do artº. 1278º, do Cód. Civil -, capaz de inoperacionalizar a simples tutela daquele direito aparente ;
IV– é sobre os Requerentes da presente providência cautelar que incide o ónus probatório dos factos constitutivos ou pressupostos, nomeadamente a posse, o esbulho e a violência ;
V–abarcando, com êxito, a oposição apresentada pelos Requeridos, nos termos da alínea b), do nº. 1, do artº. 372º, do Cód. de Processo Civil, a impugnação da qualidade de possuidores dos Requerentes, nomeadamente através da invocação do direito de propriedade sobre a parcela de terreno, que lhes é
oponível (nos termos do citado 2º segmento do nº. 1, do transcrito artº. 1278º, do Cód. Civil), não pode subsistir a providência anteriormente decretada.
TEXTO INTEGRAL
ACORDAM os JUÍZES DESEMBARGADORES da 2ª SECÇÃO da RELAÇÃO de LISBOA o seguinte [1]:
I–RELATÓRIO:
1–JD…, residente à Rua …, nº …, Edifício …, Bl. …, fr. B, – C... L..., e VIVEIROSOUSA, LDA., pessoa colectiva e matriculada na Conservatória do Registo Comercial de C... L... sob o número único de matrícula/NIPC 51...5, com sede ao C... H..., nº...50, CP 9...-0..., freguesia e concelho de C... L..., vieram intentar a presente providência cautelar de restituição provisória de posse contra:
JC… e mulher MM…, residentes ao Caminho …, nº … freguesia e concelho de C... L..., deduzindo o seguinte petitório:
- que seja ordenada a restituição provisória da posse “(…) DA PARCELA DE TERRENO com sensivelmente 4,5m de largura e 3,5m de cumprimento (área de 15,75 m2), do prédio indicado no artigo 6 do presente articulado, pertencente aos Requeridos, conforme documento junto sob o nº 5”.
Alegaram, em suma, o seguinte:
–têm utilizado a referida parcela, como rampa de acesso às estufas da segunda Requerente, pelo menos, desde Fevereiro de 2016 ;
–o que sucede por acordo de permuta com os Requeridos, utilizando a mesma para chegarem de carro e a pé até às estufas referidas ;
–tal sempre sucedeu sem qualquer oposição dos Requeridos, até que, a 15 de Março do corrente ano, colocaram um gradeamento e uma escadaria de ferro não permitindo o acesso, quer pedonal, que por veículo para as estufas dos Requerentes ;
–pelo que pretendem a restituição da posse da referida parcela, consubstanciada na citada “rampa de acesso”.
Os Requerentes juntaram documentos e arrolaram testemunhas, tendo o procedimento cautelar sido instaurado em 14/05/2020.
2–Conforme despacho de fls. 26, datado de 04/06/2020, foi designada data para a inquirição da prova testemunhal arrolada.
3–Tal inquirição veio a ocorrer conforma acta de fls. 27 e 28.
4–Em 30/06/2020, foi proferida decisão, em cujo DISPOSITIVO consta o seguinte:
“V– Decisão
Pelo exposto julgo o presente procedimento cautelar nominado procedente por provado e, em consequência, decido:
a)- Ordenar a restituição provisória da posse aos REQUERENTES da rampa de acesso aos prédios descritos em 1) dos factos dados como provados, a qual ocupa cerca de 4,5m de largura e 3,5m de cumprimento (área de 15,75 m2), do prédio indicado em 6) dos factos dados como provados nos termos descritos no documento junto sob o nº 5 ao requerimento inicial, retirando para o efeito, se tal necessário, o portão com gradeamento nela implantado, deixando livre e desimpedida a referida rampa até aos prédios dos REQUERENTES.
b)- Condenar os REQUERIDOS, a absterem-se da prática de qualquer ato que impeça ou dificulte, por que meio for, a utilização pelos REQUERENTES da referida rampa de acesso”.
5–Conforme fls. 40 a 47, concretizou-se a determinada restituição provisória de posse, com elaboração do respectivo auto e registo fotográfico da diligência.
6–Notificados nos termos e para os efeitos previstos nos artigos 366º, nº 6 e 372º, ambos do Código de Processo Civil vieram os Requeridos apresentar oposição, alegando em suma que:
- nunca existiu qualquer acordo verbal para que os Requerentes procedessem á construção da referida rampa de acesso, nem nunca os Requeridos lhes deram qualquer autorização nesse sentido ;
- inexistiu, ainda, qualquer alegada permuta acordada entre os Requeridos , o Requerente JS… e seus irmãos e mãe ;
- o Requerido marido comprou-lhes duas parcelas de terreno, mas pagou o preço estipulado ;
- nunca tendo ocorrido qualquer PERMUTA, AUTORIZAÇÃO e/ou CEDÊNCIA da alegada parcela de terreno com a área de 15,75 m2, por parte do Requerido marido, para a aludida construção da rampa de acesso ; - pois, por volta do mês de Fevereiro de 2016, apenas autorizou o Requerente JS… a que temporariamente passasse no local com uma máquina para efectuar trabalhos de regularização do terreno, de forma a ali plantar produtos agrícolas ;
- todavia, contrariamente ao acordado, o referido J… procedeu à construção de estufas no seu terreno, tendo construído a dita rampa de acesso automóvel às mesmas estufas, altura em que cimentou a passagem em terra batida ;
- sendo certo não serem proprietários de tal área de terreno, nem nunca tiveram a posse exclusiva daquela.
Concluem, requerendo que:
“a)-Deve declarar-se que não estão reunidos nenhum dos requisitos para o decretamento da providência cautelar, devendo a mesma ser recusada e julgada totalmente improcedente, por não provada, o que aqui se requer, para todos os efeitos legais;
b)-Declarar-se que a referida faixa de terreno com a área de 15,75 m2, é propriedade e pertence em exclusivo aos Requeridos;
c)- Ordenar-se a restituição da referida faixa de terreno com a área de 15,75 m2 aos Requeridos, deixando a mesma livre e totalmente desimpedida;
d)-Condenar os Requentes a absterem-se da prática de qualquer ato que impeça ou dificulte, seja por que meio for, a utilização pelos Requeridos da referida faixa de terreno com a área de 15,75 m2;
e)-Condenar os Requentes solidariamente no pagamento da quantia de €1.061,40 (mil e sessenta e um euros e quarenta cêntimos), acrescidos de juros à taxa legal em vigor, resultante dos danos que foram provocados aos Requeridos e descritos nos artigos 47.º e 48.º supra”.
Juntaram documentos e arrolaram prova testemunhal.
7– Foi designada data para a inquirição das testemunhas, a qual veio a ocorrer, conforme acta de fls. 81 e 82.
8– Posteriormente, em 31/08/2020 – cf., fls. 83 a 86 -, foi proferida Decisão, nos termos do nº. 3, do artº.
372º, do Cód. de Processo Civil, em cujo DISPOSITIVO consta o seguinte:
“DECISÃO:
Nesta conformidade, tudo visto e ponderado, decido, julgar a presente oposição parcialmente procedente, por provada, e, em consequência revogo integralmente a providência decretada nos presentes autos, improcedendo o demais constante do “petitório” inserto na oposição.
Fixo ao presente procedimento o valor de € 5.000,01 (cinco mil euros com um cêntimo)
Custas, solidariamente, pelos Requeridos, sendo a taxa de justiça paga atendida a final na ação respetiva (cfr. arts. 527.º, e 539.º, n.ºs 1 e 2, do Cód. Proc. Civil)
Registe e notifique”.
9–Inconformado com o decidido, o Requerente JD… interpôs recurso de apelação por referência à decisão prolatada.
Apresentou, em conformidade, as seguintes CONCLUSÕES (que ora se transcrevem, na íntegra):
“A.–O Recorrente interpôs providência cautelar de restituição provisória de posse porquanto:
i.- Encontra-se registado, a favor do requerente JS…, o direito de propriedade incidente sobre dois prédios rústicos, sitos no C... G... P..., freguesia e concelho de C... L..., um com a área de 1.973 m2, inscrito na matriz sob o artigo 3/5 e 3/6 ambos da seção …, descrito na Conservatória do Registo Predial de C... L...
sob o número … daquela freguesia e outro com a área de 573 m2, inscrito na matriz sob o artigo 3/8 da seção …, descrito na Conservatória do Registo Predial de C... L... sob o número … daquela freguesia.
ii.-Os referidos prédios foram dados de exploração à sociedade VIVEIROSOUSA, Lda., da qual são sócios o requerente J… e sua mãe ME…, tendo sido instalado nos prédios rústicos identificados em 1., sitos no
Caminho …, nº …, na freguesia e concelho de C... L..., 6 (seis) estufas de flores e mais 2 (duas) que se encontram em construção.
iii.-As referidas estufas foram construídas no ano de 2016, ano em que a sociedade Requerente iniciou efetivamente a sua atividade comercial.
iv.-Aquando da construção das estufas, foi construída pelo Requerente J… uma rampa de acesso automóvel às referidas estufas.
v.-Sendo esse o único acesso de carro à referida produção de produtos frutícolas em vasos.
vi.-Por sua vez, os Requeridos têm registado, a seu favor, o direito de propriedade incidente sobre o prédio misto sito no C... G... e P..., freguesia e concelho de C... L..., inscrito a parte rústica na matriz sob os artigos 3/2, 3/5 (parte), 3/6 (parte) e 3/8 (parte) todos da seção … e a parte urbana inscrita na matriz sob o artigo
…, descrito na Conservatória do Registo Predial de C... L... sob o número … (anteriormente 2147) daquela freguesia).
vii.-Por escritura datada de 12 de Fevereiro de 2016, os Requerentes (e a Requerente MS…, menor à data e representada pela sua mãe, ES…) venderam aos Requeridos uma porção de terreno com a área de 53 m2 que foram desanexados do prédio rústico, com a área de 1663 m2, localizado ao sítio do C... G... e P..., freguesia e concelho de C... L..., inscrito na matriz sob o artigo 3/5 e 3/6 ambos da seção …, descrito na Conservatória do Registo Predial de C... L... sob o número … e uma porção de terreno com a área de 60 m2 que foram desanexados do prédio rústico, com a área de 573 m2, localizado ao sítio do C... G... e P..., freguesia e concelho de C... L..., inscrito na matriz sob o artigo 3/8 da seção …, descrito na Conservatória do Registo Predial de C... L... sob o número … daquela freguesia, e que se destinavam a dar acesso ao caminho das H... e ao aumento do solo e logradouro da parte urbana do prédio misto confinante propriedade dos Requeridos.
viii.-Em Dezembro de 2019, a irmã do Requerente, MS… assinou a ratificação da escritura datada de 2 de Fevereiro de 2016.
ix.-A Requerente “ViveirosSousa, Lda.” exerce a sua atividade diariamente, não tendo a sua atividade sido suspensa ou prejudicada atendendo à situação pandémica existente na Região.
x.-A Requerente “ViveirosSousa, Lda.” tem clientes fixos a quem vende diariamente os seus produtos de floricultura.
xi.-Em primeiro lugar, no início deste ano a Requerente sociedade efetuou um investimento na construção de 2 novas estufas.
xii.-A sociedade não consegue terminar a construção das estufas sem o acesso por veículo automóvel.
xiii.-Em segundo lugar, a sociedade comercializa produtos frutícolas em vasos, que são extremamente pesados e atendendo ao volume de vendas, é impensável colocar os mesmos nas costas dos trabalhadores.
xiv.-Ademais ainda que se conseguisse contratar mais trabalhadores no sentido de escoar a produção, tornaria os produtos mais caros, sendo difícil a sua comercialização, atendendo à concorrência.
xv.-Os Recorridos colocaram um gradeamento e escadas colocadas na rampa de acesso às estufas dos Recorrentes os quais impedem o normal decurso dos trabalhos e o escoamento da produção de floricultura.
B.–Sucede que, o Tribunal a quo indeferiu a providência requerida, na sequência de oposição apresentada posteriormente pelos Recorridos, entendendo que não havia posse do Recorrente e como tal não estavam preenchidos os requisitos para o deferimento da providência, tendo a mesma sido revogada;
C.–Contudo, do depoimento das testemunhas arroladas nos autos, bem como pelos documentos e fotografias juntas, entende o Recorrente que não poderá haver dúvidas quando à posse da dita “rampa de acesso” e, neste sentido, deverá ser alterada a matéria de facto dada como provada, considerando-se como provado que:
i.-Por acordo verbal com os Requeridos, o Requerente J… construiu a referida rampa de acesso, ocupando cerca de 4,5m de largura e 3,5m de cumprimento (área de 15,75 m2), do prédio indicado em 6) nos termos descritos no documento junto sob o nº 5 ao requerimento inicial e que aqui se dá por integralmente reproduzido.
ii.-A referida construção ocorreu na sequência de permuta acordada entre os Requeridos, o Requerente J…
e seus irmãos e mãe, herdeiros do seu pai JJ…, proprietário inicial dos prédios descritos em 1).
iii.-Naquela data os Requeridos e o Requerente, bem como a suas irmãs e a mãe, acordaram não outorgar escritura de permuta “porque uma das herdeiras, MJ… era menor e não poderiam realizar escritura sem prévio consentimento do Ministério Público.”
iv.-Nestes termos, acordaram que logo após a menor MS… atingir a maioridade, esta assinaria a ratificação do negócio e os Requeridos assinariam a respetiva escritura de cedência dos 15,72 m2 referentes à rampa de acesso.
v.-Pelo menos desde 12 de fevereiro de 2016 que os Requerentes sempre se comportaram como proprietários do espaço, onde se encontra construída a rampa de acesso, usando e fruindo do espaço à vista de todos, sem oposição de quem quer que fosse.
vi.-Que na sequência dos factos descritos em 7) o Requerente ficou na expectativa de que, em cumprimento do acordado, os Requeridos assinassem escritura de cedência dos 15,72 m2, a favor do Requerente J….
vii.-Contudo, não só os Requeridos não mostraram qualquer disponibilidade para esse efeito, recusando cumprir a sua parte do acordo, como, quando não se esperava, em 15 de Março do corrente ano, colocaram um gradeamento e uma escadaria de ferro não permitindo o acesso, quer pedonal, que por veículo para as estufas dos Requerentes, conforme documento nº 8 junto.
viii.-Os Requerentes tentaram falar com os Requeridos, tendo todas as tentativas sido goradas.
ix.-Na sequência do ato dos Requeridos descrito em 15), a Requerente sociedade tem sofridos diversos prejuízos.
x.-Os Requerentes, desde 2016 e até aos factos descritos em 15), sempre utilizaram a parcela de terreno descrita em 7), com o acordo dos requeridos, de boa-fé, sendo que a casa dos Requeridos fica em frente às Estufas e estes nunca se opuseram, ou de qualquer forma manifestaram desconforto ou contrariedade com a construção e o funcionamento das mesmas.
D.–inda que o Meritíssimo Juiz do Tribunal a quo considerasse que não havia uma aquisição por permuta,
que há, sempre teria de considerar face à factualidade evidenciada que existiria uma servidão de passagem de veículo, sempre tutelável;
E.–Na verdade, trata-se do convencimento do juiz quanto à prova produzida em momentos distintos mas com a tónica no facto de as testemunhas do Recorrido só saberem que não ouviram falar em aquisição por permuta, não tendo estado nenhuma delas presentes aquando a celebração do negócio;
F.–Acresce ainda que, as testemunhas arroladas pelo Recorrente são aquelas que não só sabem no negócio, porque participaram no mesmo, como aqueles que diariamente desde o ano de 2016 ali transitam em trabalho;
G.–Denote-se que, até as testemunhas arroladas pelo Recorrido confirmaram que: “Pelo menos desde 12 de fevereiro de 2016 os Requerentes sempre se comportaram como proprietários do espaço, onde se encontra construída a rampa de acesso, usando e fruindo do espaço à vista de todos, sem oposição de quem quer que fosse.”
H.–Temos pois que as testemunhas arroladas pelo Requerido, aqui Recorrido, nada trouxeram de novo ao processo, tendo apenas confirmado que o Recorrente, seus trabalhadores e clientes acediam desde 2016, sem qualquer oposição do Recorrido, às estufas, propriedade do Requerente;
I.–Na verdade, o testemunho dirige-se à narração de factos pretéritos, assente na sua percepção (pela testemunha ou por terceiro) de um facto: ora, por comparação, entre os depoimentos de umas e outras testemunhas, resulta que as mesmas nunca poderiam estar em pé de igualdade, porquanto umas só não ouviram dizer pelo Requerido aqui Recorrido, que tinha celebrado um negócio (mas sabem de toda a vida do mesmo? teriam que saber?) e as outras testemunhas que vivenciaram a passagem contínua de pessoas e veículos por uma faixa de terreno construída pelo Requerente.
J.–Há ainda que referir que as fotografias juntas aos presentes autos a fls. … demonstram a existência, ainda que indiciária, de um acordo, qualquer ele que seja, já que a rampa construída apenas serve o Recorrente e foi por este construída;
K.–Porque iria o Recorrente construir e utilizar durante anos uma rampa, construindo estufas (que obrigam a um grande investimento económico) se não existisse um direito tutelável?
L.–Na verdade, as testemunhas não sabiam porque o Recorrido nunca lhes tinha dito o acordo que tinha feito com o Recorrente e sua família, não obstante a verdade é que desde que foi celebrada a escritura de
“venda” ao Recorrido, em Fevereiro de 2016 e até à ratificação por parte da menor, que o Recorrido permitiu, sem qualquer oposição que o Recorrido usasse a dita “rampa”, tendo inclusive permitido que a mesma fosse cimentada, sem nada dizer;
M.–O Recorrente entende que tem um direito de propriedade pleno, mas subsidiariamente, irá ser avaliado em sede de acção principal e poderia ter sido atendido nos presentes autos, uma servidão de passagem;
N.–Da análise do Direito verifica-se que, nos termos do art.º 377º do Código de Processo Civil, no âmbito dos procedimentos cautelares especificados, que “no caso de esbulho violento, pode o possuidor pedir que seja restituído provisoriamente à sua posse, alegando os factos que constituem a posse, o esbulho e a violência”.
O.–Foi feita prova nos presentes autos da posse, esbulho e violência, motivo pelo qual devem ser julgados provados os factos descritos em C (supra) e em consequência revogada a decisão que decidiu revogar a decisão inicialmente decretada, substituindo-se por outra que decida pelo decretamento da providência de restituição provisória de posse requerida“.
Conclui, no sentido de ser dado provimento ao recurso, devendo revogar-se a sentença recorrida.
10–Os Recorridos apresentaram contra-alegações, nas quais deduziram as seguintes CONCLUSÕES:
“a)-A sentença ora impugnada não padece de qualquer nulidade, designadamente da prevista na alínea b), do n.º 1, do artigo 615.º do Código do Processo Civil, na medida em que contém, de forma exaustiva a respetiva fundamentação da decisão proferida.
b)-Sendo certo que a jurisprudência é uniforme ao considerar que apenas há nulidade da sentença quando falte em absoluto a indicação dos fundamentos de facto ou a indicação dos fundamentos de direito, o que não é, de todo, o caso.
c)-A impugnação da matéria de facto deduzida pelo Recorrente deverá ser indeferida por não terem sido cumpridos os requisitos legais para o exercício de tal faculdade.
d)-O âmbito de um recurso é definido nas conclusões da respetiva alegação, não podendo o Tribunal ad quem apreciar outras matérias ou questões que nelas não se mostrem devidamente suscitadas e, por esse motivo, nas conclusões formuladas no final da sua alegação, quando seja impugna a matéria de facto, o recorrente deve obrigatoriamente, sob pena de rejeição, (i) especificar os concretos pontos de facto que considera incorretamente julgados, (ii) identificar os concretos meios probatórios que impunham decisão diferente; (iii) indicar com exatidão as passagens da gravação e identificar e localizar no processo os documentos em que funda a sua impugnação, bem como a decisão (de facto) que, no seu entender, deve ser proferida sobre cada um dos pontos de factos impugnados (vd. n.ºs 1 e 2 do artigo 640.º do Código do Processo Civil).
e)-O Recorrente não cumpre tal ónus no recurso a que ora se responde, pelo que deve a referida impugnação ser rejeitada.
f)-Caso assim não se entenda, carece em absoluto de fundamento a impugnação do Recorrente relativamente à decisão sobre a matéria de facto considerada provada e não provada pelo Tribunal a quo.
g)-Acresce que, o Recorrente limita-se a questionar a valoração da prova pelo Digníssimo Tribunal a quo,
valoração essa, livremente formada e fundamentada, com aplicação dos princípios da oralidade e da imediação.
h)-Falecem, assim, as críticas apontadas à sentença em apreço, que se baseia apenas e só na opinião do Recorrente, não tendo sido demonstrado que, face às regras da experiência comum, deveria ter sido outro o entendimento do Tribunal a quo.
i)-É unânime a jurisprudência dos tribunais superiores, ao esclarecer que quando a atribuição de credibilidade a uma fonte de prova pelo julgador se basear numa opção assente na imediação e na oralidade, o tribunal de recurso só a poderá criticar se ficar demonstrado que essa opção é inadmissível face às regras da experiência comum.
j)-O Tribunal a quo recorreu às regras de experiência e apreciou a prova de forma objectiva e motivada, devendo os raciocínios expendidos na sentença merecerem total concordância pois foi observado um processo lógico e racional de apreciação da prova, não se mostrando a decisão proferida sobre a matéria de facto sentença ilógica, arbitrária ou notoriamente violadora das regras da experiência comum.
k)-Neste contexto, nenhuma censura merece a sentença proferida pelo Tribunal a quo, a qual deverá ser mantida integralmente.
l)-Nesta conformidade, tudo visto e ponderado, muito bem andou o Digníssimo Tribunal a quo ao ter julgado a oposição dos Requeridos procedente, por provada, e, em consequência, revogou a providência decretada nos presentes autos.
m)-Acresce dizer que os Requeridos beneficiam da presunção do registo (artigo 7.º do Código do Registo Predial), pois que a referida parcela alegadamente denominada pelos Requerentes como “rampa de acesso” encontra-se integrada em prédio cujo direito de propriedade se encontra registado a favor dos Requeridos.
n)-Também é verdade que, ao contrário do que é referido pelo Recorrente, não existe nem nunca existiu qualquer servidão a onerar o prédio dos Requeridos a favor do prédio dos Requerentes.
o)-Ora, não se tendo provado a posse justificadora da pretendida restituição por parte dos Requerentes, nem qualquer outro direito real de gozo que goze da proteção possessória concedida pelo artigo 377.º do Código de Processo Civil, tem, efetivamente, que proceder a oposição deduzida pelos Requeridos e, por via disso, improceder a providência cautelar”.
Concluem, no sentido de improcedência do recurso interposto.
11–O recurso foi admitido por despacho de fls. 130, datado de 27/10/2020, como de apelação, com subida nos próprios autos, de imediato e com efeito devolutivo, consignando-se previamente não terem sido arguidas quaisquer nulidades da sentença, ou a reforma desta.
12–Colhidos os vistos legais, cumpre apreciar, valorar, ajuizar e decidir.
***
II–ÂMBITO DO RECURSO DE APELAÇÃO
Prescrevem os nºs. 1 e 2, do artº. 639º do Cód. de Processo Civil, estatuindo acerca do ónus de alegar e formular conclusões, que:
“1– o recorrente deve apresentar a sua alegação, na qual conclui, de forma sintética, pela indicação dos fundamentos por que pede a alteração ou anulação da decisão.
2– Versando o recurso sobre matéria de direito, as conclusões devem indicar:
a)- As normas jurídicas violadas ;
b)- O sentido com que, no entender do recorrente, as normas que constituem fundamento jurídico da decisão deviam ter sido interpretadas e aplicadas ;
c)- Invocando-se erro na determinação da norma aplicável, a norma jurídica que, no entendimento do recorrente, devia ter sido aplicada”.
Por sua vez, na esteira do prescrito no nº. 4 do artº. 635º do mesmo diploma, o qual dispõe que “nas conclusões da alegação, pode o recorrente restringir, expressa ou tacitamente, o objecto inicial do recurso”, é pelas conclusões da alegação do Recorrente Apelante que se define o objecto e se delimita o âmbito do recurso, sem prejuízo das questões de que o tribunal ad quem possa ou deva conhecer oficiosamente, apenas estando este tribunal adstrito à apreciação das questões suscitadas que sejam relevantes para conhecimento do objecto do recurso.
Pelo que, no sopesar das conclusões expostas, a apreciação a efectuar na presente sede determina apurar se deve ser decretada a peticionada restituição provisória da posse da identificada parcela de terreno “com sensivelmente 4,5 m de largura e 3,5 m de comprimento (área de 15,75 m2)”, do prédio identificado no artigo 6º da petição inicial, pertencente aos Requeridos, de acordo com o documento junto sob o nº. 5, em virtude de se deverem considerar preenchidos os legalmente previstos requisitos/pressupostos.
Na pretensão recursória apresentada, o Apelante delimita o objecto de apreciação nos seguintes termos:
1.–DA EVENTUAL PERTINÊNCIA DA MODIFICABILIDADE DA DECISÃO PROFERIDA SOBRE A MATÉRIA DE FACTO, nos quadros do artº. 662º, do Cód. de Processo Civil, o que determina a aferição:
I)–Da indicação dos concretos pontos de facto incorrectamente julgados
=) Dos factos não provados: 16) a 25) – da pretensão que passem a figurar como provados,
o que implica a REAPRECIAÇÃO DA PROVA (Conclusões A. a L. e Conclusões contra-alegacionais f) a j) ; 2.–Seguidamente, aferir acerca da SUBSUNÇÃO JURÍDICA EXPOSTA NA DECISÃO RECORRIDA, TENDO EM CONSIDERAÇÃO OS FACTOS APURADOS (inicialmente ou fruto das alterações infra em apreciação), o que implica apreciação do ENQUADRAMENTO JURÍDICO DA CAUSA ; nesta, conhecer-se-á fundamentalmente acerca das seguintes questões:
I)–da invocada situação possessória do Requerente ;
II)–do (não) preenchimento dos pressupostos da presente providência cautelar nominada (Conclusões M. a
O. e Conclusões contra-alegacionais M. a O..
Previamente, na ponderação do aduzido nas conclusões contra-alegacionais c) a e), conhecer-se-á acerca da pugnada rejeição da impugnação da matéria de facto, por alegado não cumprimento do estatuído no nº.
1, do artº. 640º, do Cód. de Processo Civil.
QUESTÃO PRÉVIA: do aparente incumprimento do disposto no artº. 640º, nº. 1, do Cód. de Processo Civil, conducente à rejeição do recurso interposto, no segmento da impugnação da matéria de facto
Na presente apelação, e aludindo à impugnação da matéria de facto, pugnam os Apelados pelo seu indeferimento, “por não terem sido cumpridos os requisitos legais para o exercício de tal faculdade”.
Acrescentam que não podendo o Tribunal de recurso conhecer outras questões para além das suscitadas nas conclusões apresentadas, que delimitam o âmbito do recurso apresentado, no final da sua alegação, quando seja impugnada a matéria de facto, “o recorrente deve obrigatoriamente, sob pena de rejeição, (i) especificar os concretos pontos de facto que considera incorretamente julgados, (ii) identificar os concretos meios probatórios que impunham decisão diferente; (iii) indicar com exatidão as passagens da gravação e identificar e localizar no processo os documentos em que funda a sua impugnação, bem como a decisão (de facto) que, no seu entender, deve ser proferida sobre cada um dos pontos de factos impugnados (vd.
n.ºs 1 e 2 do artigo 640.º do Código do Processo Civil)”.
Pelo que, não tendo o Recorrente cumprido tal ónus, deve a impugnação apresentada ser rejeitada.
Vejamos.
Prevendo acerca da modificabilidade da decisão de facto, consagra o artigo 662º do Cód. de Processo Civil os poderes vinculados da Relação, estatuindo que:
“ 1– A Relação deve alterar a decisão proferida sobre a matéria de facto, se os factos tidos como assentes, a prova produzida ou um documento superveniente impuserem decisão diversa.
2– A Relação deve ainda, mesmo oficiosamente:
a)- Ordenar a renovação da produção da prova quando houver dúvidas sérias sobre a credibilidade do depoente ou sobre o sentido do seu depoimento;
b)- Ordenar em caso de dúvida fundada sobre a prova realizada, a produção de novos meios de prova;
c)- Anular a decisão proferida na 1.ª instância, quando, não constando do processo todos os elementos que, nos termos do número anterior, permitam a alteração da decisão proferida sobre a matéria de facto, repute deficiente, obscura ou contraditória a decisão sobre pontos determinados da matéria de facto, ou quando considere indispensável a ampliação desta;
d)- Determinar que, não estando devidamente fundamentada a decisão proferida sobre algum facto essencial para o julgamento da causa, o tribunal de 1.ª instância a fundamente, tendo em conta os depoimentos gravados ou registados”.
Para que tal conhecimento se consuma, deve previamente o recorrente/apelante, que impugne a decisão relativa à matéria de facto, cumprir o ónus a seu cargo, plasmado no artigo 640º do mesmo diploma, o qual dispõe que:
“ 1–Quando seja impugnada a decisão sobre a matéria de facto, deve o recorrente obrigatoriamente especificar, sob pena de rejeição:
a)- Os concretos pontos de facto que considera incorretamente julgados;
b)- Os concretos meios probatórios, constantes do processo ou de registo ou gravação nele realizada, que impunham decisão sobre os pontos da matéria de facto impugnados diversa da recorrida;
c)- A decisão que, no seu entender, deve ser proferida sobre as questões de facto impugnadas.
2.–No caso previsto na alínea b) do número anterior, observa-se o seguinte:
a)- Quando os meios probatórios invocados como fundamento do erro na apreciação das provas tenham sido gravados, incumbe ao recorrente, sob pena de imediata rejeição do recurso na respetiva parte, indicar com exatidão as passagens da gravação em que se funda o seu recurso, sem prejuízo de poder proceder à transcrição dos excertos que considere relevantes;
b)- Independentemente dos poderes de investigação oficiosa do tribunal, incumbe ao recorrido designar os meios de prova que infirmem as conclusões do recorrente e, se os depoimentos tiverem sido gravados, indicar com exatidão as passagens da gravação em que se funda e proceder, querendo, à transcrição dos excertos que considere importantes.
3.– O disposto nos n.ºs 1 e 2 é aplicável ao caso de o recorrido pretender alargar o âmbito do recurso, nos termos do n.º 2 do artigo 636.º” (sublinhado nosso).
Presentemente, o sistema vigente nas situações em que o recurso de apelação envolve a impugnação da decisão sobre a matéria de facto, implica que “relativamente a pontos de facto cuja impugnação se funde, no todo ou em parte, em provas gravadas, para além da especificação obrigatória dos meios de prova em que o recorrente se baseia, cumpre-lhe indicar com exactidão, na motivação, as passagens da gravação relevantes e proceder, se assim o entender, à transcrição dos excertos que considere oportunos”.
E, ainda que “em quaisquer circunstâncias, o recorrente deve indicar sempre os concretos pontos de facto que considera incorrectamente julgados, com enunciação na motivação do recurso e síntese nas conclusões”.
Acrescentando, ainda, dever ainda o Recorrente deixar “ expressa, na motivação, a decisão que, no seu entender, deve ser proferida sobre as questões de facto impugnadas , tendo em conta a apreciação crítica dos meios de prova produzidos, exigência que vem na linha do reforço do ónus de alegação, por forma a obviar à interposição de recursos de pendor genérico ou inconsequente” (sublinhado nosso).
Pelo que deve ocorrer rejeição, total ou parcial, do recurso respeitante à impugnação da matéria de facto, sempre que se verifique “falta de especificação, nas conclusões, dos concretos pontos de facto
que o recorrente considera incorrectamente julgados (art. 640º, nº. 1, al. a))”, servindo igualmente esta especificação “para delimitar o objecto do recurso”.
Bem como deve ainda ocorrer igual rejeição, total ou parcial, na “falta de posição expressa, na motivação, sobre o resultado pretendido relativamente a cada segmento da impugnação”.
Assim, ainda que se reconheça dever interpretar-se tais exigências legais à luz de um necessário critério de rigor, como consequência ou decorrência do princípio da auto-responsabilidade das partes, se “em lugar de uma sincopada e por vezes estéril localização temporal dos segmentos dos depoimentos gravados, o recorrente optar por transcrever esses trechos, ilustrando de forma mais completa e inteligível os motivos das pretendidas modificações da decisão da matéria de facto, deve considerar-se razoavelmente cumprido o ónus de alegação neste campo. A indicação exacta das passagens das gravações não passa necessariamente pela sua localização temporal, sendo a exigência legal compatível com a transcrição das partes relevantes dos depoimentos” [2].
Acrescenta, todavia, o mesmo Ilustre Conselheiro, importar que “não se exponenciem os requisitos formais a um ponto que seja violado o princípio da proporcionalidade e seja denegada a reapreciação da decisão da matéria de facto com invocação de fundamentos que não encontram sustentação clara na letra ou no espírito do legislador”. E, citando douto aresto do STJ de que foi Relator [3] aduz ser “necessário que a verificação do cumprimento do ónus de alegação regulado no art. 640º seja compaginado com os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade, atribuindo maior relevo aos aspectos de ordem material”, aludindo, ao nível do Supremo Tribunal de Justiça, a uma “ tendência consolidada no sentido de não se exponenciarem os efeitos cominatórios previstos no art. 640º”.
Lavrou, então, o mesmo Relator em tal aresto sumário, no sentido de dever “considerar-se satisfeito o ónus de alegação previsto no art. 640º, se o recorrente, além de indicar o segmento da decisão da matéria de facto impugnado, enunciar a decisão alternativa sustentada e m depoimento testemunhal que identificou e localizou”, sendo que “na verificação do cumprimento do ónus de alegação previsto no art. 640º, os aspectos de ordem formal devem ser modelados em função dos princípios da proporcionalidade e da razoabilidade” (sublinhado nosso).
O mesmo Acórdão referencia jurisprudência do STJ, no pugnado sentido, donde se realça, por atinente ao caso sub júdice, a seguinte:
- datado de 09/07/2015, onde se refere que “tendo o apelante, nas suas alegações de recurso, identificado os pontos de facto que considerava mal julgados, por referência aos pontos da base instrutória, indicado o depoimento das testemunhas que entendeu mal valorados, fornecido a indicação da sessão na qual foram prestados e o início e o termo dos mesmos, apresentado a sua transcrição e referido qual o resultado probatório que deveria ter tido lugar, relativamente a cada quesito e meio de prova, tanto bastava para que a Relação tivesse procedido à reapreciação da matéria de facto, ao invés de a rejeitar” (sublinhado nosso) ;
- de 19/02/2015, no qual se referencia que “enquanto a especificação dos concretos pontos de facto
deve constar das conclusões recursórias, já o mesmo se não se afigura que a especificação dos meios de prova ou a indicação das passagens das gravações devam constar da síntese conclusiva, bastando que figurem no corpo das alegações” (sublinhado nosso).
Acrescenta, ainda, o Ilustre Autor ser frequentemente constatável “que uma leitura concertada das alegações, e não apenas das respectivas conclusões, permite afirmar o preenchimento dos requisitos mínimos a que deve obedecer uma peça processual para a qual não está legalmente prevista uma estrutura rígida quer na parte da motivação, quer no segmento conclusivo”, pelo que os aspectos “fundamentais a assegurar neste campo são os relacionados com a definição clara do objecto da impugnação (que se satisfaz seguramente com a clara enunciação dos pontos de facto em causa), com a seriedade da impugnação (sustentada em meios de prova que são indicados ou em meios de prova oralmente produzidos que são explicitados) e com a assunção clara do resultado pretendido” [4].
Deve ter-se ainda em consideração, realçando-se, o sumariado no douto aresto do STJ de 29/10/2015 [5], no qual se refere que “face aos regimes processuais que têm vigorado quanto aos pressupostos do exercício do duplo grau de jurisdição sobre a matéria de facto, é possível distinguir um ónus primário ou fundamental de delimitação do objecto e de fundamentação concludente da impugnação - que tem subsistido sem alterações relevantes e consta actualmente do nº1 do art. 640º do CPC; e um ónus secundário – tendente, não propriamente a fundamentar e delimitar o recurso, mas a possibilitar um acesso mais ou menos facilitado pela Relação aos meios de prova gravados relevantes, que tem oscilado, no seu conteúdo prático, ao longo dos anos e das várias reformas – indo desde a transcrição obrigatória dos depoimentos até uma mera indicação e localização exacta das passagens da gravação relevantes (e que consta actualmente do art. 640º, nº2, al. a) do CPC).
2.–Este ónus de indicação exactadas passagens relevantes dos depoimentos gravados deve ser interpretado em termos funcionalmente adequados e em conformidade com o princípio da proporcionalidade, não sendo justificada a imediata e liminar rejeição do recurso quando – apesar de a indicação do recorrente não ser, porventura, totalmente exacta e precisa, não exista dificuldade relevante na localização pelo Tribunal dos excertos da gravação em que a parte se haja fundado para demonstrar o invocado erro de julgamento - como ocorre nos casos em que, para além de o apelante referenciar, em função do conteúdo da acta, os momentos temporais em que foi prestado o depoimento complemente tal indicação é complementada com uma extensa transcrição, em escrito dactilografado, dos depoimentos relevantes para o julgamento do objecto do recurso” (sublinhado nosso).
Referencie-se, igualmente, o sumariado em aresto do mesmo Alto Tribunal de 19/02/2015 [6], no sentido de que “a especificação dos concretos meios probatórios convocados e a indicação exata das passagens da gravação dos depoimentos que se pretendem ver analisados, além de constituírem uma condição essencial para o exercício esclarecido do contraditório, servem sobretudo de parâmetro da amplitude com que o tribunal de recurso deve reapreciar a prova, sem prejuízo do seu poder inquisitório sobre toda a prova produzida que se afigure relevante
para tal reapreciação, como decorre do preceituado no n.º 1 do artigo 662.º do CPC”.
Assim, “é em vista dessa função que a lei comina a inobservância daqueles requisitos de impugnação com a sanção da rejeição imediata do recurso, nos termos do artigo 640.º, n.º 1, proémio, e n.º 2, alínea a), do CPC”, pelo que “nessa conformidade, enquanto que a especificação dos concretos pontos de facto deve constar das conclusões recursórias, já não se afigura que a especificação dos meios de prova nem, muito menos, a indicação das passagens das gravações devam constar da síntese conclusiva, bastando que figurem no corpo das alegações, posto que estas não têm por função delimitar o objeto do recurso nessa parte, constituindo antes elementos de apoio à argumentação probatória”.
Pelo que “tendo o recorrente, nas conclusões recursórias, especificado os concretos pontos de facto que impugna, com referência às respostas dadas aos artigos da base instrutória, indicando também aí a decisão que, no seu entender, deve sobre eles ser proferida , enquanto que só no corpo das alegações especifica os meios de prova convocados e indica as passagens das gravações dos depoimentos em foco, têm-se por preenchidos os requisitos formais do ónus de impugnação exigidos pelo art.º 640.º, n.º 1 e 2, alínea a), do CPC” (sublinhado nosso).
Por fim, referencie-se, ainda, o sumariado no douto aresto do STJ de 01-10-2015 [7], no sentido de que:
“I–No recurso de apelação em que seja impugnada a decisão da matéria de facto é exigido ao recorrente que concretize os pontos de facto que considera incorrectamente julgados, especifique os concretos meios probatórios que imponham uma decisão diversa, relativamente a esses factos, e enuncie a decisão alternativa que propõe.
II–Servindo as conclusões para delimitar o objecto do recurso, devem nelas ser identificados com precisão os pontos de facto que são objecto de impugnação; quanto aos demais requisitos, basta que constem de forma explícita na motivação do recurso.
III–Não existe fundamento legal para rejeitar o recurso de apelação, na parte da impugnação da decisão da matéria de facto, numa situação em que, tendo sido identificados nas conclusões os pontos de facto impugnados, assim como as respostas alternativas propostas pelo recorrente, não foram, contudo, enunciados os fundamentos da impugnação nem indicados os meios probatórios que sustentam uma decisão diferente da que foi proferida pela 1.ª instância, requisitos estes que foram devidamente expostos na motivação.
IV–Com efeito, o ónus a cargo do recorrente consagrado no art. 640º, do Novo CPC, não exige que as especificações referidas no seu nº 1, constem todas das conclusões do recurso, mostrando-se cumprido desde que nas conclusões sejam identificados com precisão os pontos de facto que são objecto de impugnação”.
Do exposto, resulta, assim, ser legítimo concluir-se, da articulação ou concatenação do prescrito nos artigos 639.º e 640.º, do Cód. de Processo Civil, que o ónus principal a cargo do recorrente exige, pelo menos:
–a indicação nas conclusões recursórias, com precisão, dos concretos pontos de facto da
sentença que são objecto de impugnação, ou seja, cuja modificação é pretendida pelo recorrente, sem o que não é possível ao tribunal de recurso sindicar eventuais erros no julgamento da matéria de facto ; –a indicação expressa, na motivação ou corpo alegacional, sobre o resultado pretendido relativamente a cada segmento da impugnação, ou seja, relativamente a cada questão de facto impugnada.
Ora, compulsadas as conclusões recursórias apresentadas pelo Requerente/Apelante, constata-se que sob a alínea C. encontram-se identificados os pontos factuais que aquele entende deverem ser alterados, ou seja, os pontos que entende deverem ser considerados como provados, em distonia com a sua não prova fixada na sentença apelada.
E, no corpo alegacional consta a enunciação dos elementos probatórios que impõem, na visão do Recorrente, diferenciada decisão acerca da matéria factual ali feita constar, nomeadamente de natureza documental e constantes da gravação efectuada (testemunhais por declaração de parte), com indicação das passagens da gravação e transcrições parciais.
Donde decorre, com nitidez, existir claro cumprimento do enunciado ónus primário ou fundamental de delimitação do objecto recursório e fundamentação concludente da impugnação, bem como das pretendidas consequências desta, o qual é ainda acompanhado pelo efectivo e concreto cumprimento do ónus de indicação exacta das passagens relevantes dos depoimentos gravados.
O que determina, logicamente, juízo de improcedência da requerida rejeição da impugnação da matéria de facto que, assim, se admite e de que se conhecerá infra.
***
III–FUNDAMENTAÇÃO
A–FUNDAMENTAÇÃO DE FACTO
Na sentença recorrida/apelada, foi considerado como INDICIARIAMENTE PROVADO o seguinte (procedeu-se à correcção de lapsos de redacção):
1)-Encontra-se registado, a favor do requerente JS…, o direito de propriedade incidente sobre dois prédios rústicos, sitos no C... G... e P..., freguesia e concelho de C... L..., um com a área de 1.973 m2, inscrito na matriz sob o artigo 3/5 e 3/6 ambos da seção …, descrito na Conservatória do Registo Predial de C... L...
sob o número … daquela freguesia e outro com a área de 573 m2, inscrito na matriz sob o artigo 3/8 da seção …, descrito na Conservatória do Registo Predial de C... L... sob o número 2148 daquela freguesia.
2)-Os referidos prédios foram dados de exploração à sociedade VIVEIROSOUSA, Lda., da qual são sócios o
requerente J… e sua mãe ME…, tendo sido instalado nos prédios rústicos identificados em 1., sitos no C...
…, nº …, na freguesia e concelho de C... L..., 6 (seis) estufas de flores e mais 2 (duas) que se encontram em construção.
3)-As referidas estufas foram construídas no ano de 2016, ano em que a sociedade Requerente iniciou efectivamente a sua actividade comercial.
4)-Aquando da construção das estufas, foi construída pelo Requerente J… uma rampa de acesso automóvel às referidas estufas.
5)-Sendo esse o único acesso de carro à referida produção de produtos frutícolas em vasos.
6)-Por sua vez, os Requeridos têm registado, a seu favor, o direito de propriedade incidente sobre o prédio misto sito no C... G... e P..., freguesia e concelho de C... L..., inscrito a parte rústica na matriz sob os artigos 3/2, 3/5 (parte), 3/6 (parte) e 3/8 (parte) todos da seção … e a parte urbana inscrita na matriz sob o artigo
…, descrito na Conservatória do Registo Predial de C... L... sob o número … (anteriormente …) daquela freguesia).
7)-Por escritura datada de 12 de Fevereiro de 2016, os Requerentes (e a Requerente MS…, menor à data e representada pela sua mãe, ES…) venderam aos Requeridos uma porção de terreno com a área de 53 m2que foram desanexados do prédio rústico, com a área de 1663 m2, localizado ao sítio do C... G... e P..., freguesia e concelho de C... L..., inscrito na matriz sob o artigo 3/5 e 3/6 ambos da seção …, descrito na Conservatória do Registo Predial de C... L... sob o número … e uma porção de terreno com a área de 60 m2 que foram desanexados do prédio rústico, com a área de 573 m2, localizado ao sítio do C... G... e P..., freguesia e concelho de C... L..., inscrito na matriz sob o artigo 3/8 da seção …, descrito na Conservatória do Registo Predial de C... L... sob o número … daquela freguesia, e que se destinavam a dar acesso ao caminho das H... e ao aumento do solo e logradouro da parte urbana do prédio misto confinante propriedade dos Requeridos.
8)-Em Dezembro de 2019, a irmã do Requerente, MS… assinou a ratificação da escritura datada de 2 de Fevereiro de 2016.
9)-A Requerente “ViveirosSousa, Lda.” exerce a sua actividade diariamente, não tendo a sua actividade sido suspensa ou prejudicada atendendo à situação pandémica existente na Região.
10)-A Requerente “ViveirosSousa, Lda.” tem clientes fixos a quem vende diariamente os seus produtos de floricultura.
11)-Em primeiro lugar, no início deste ano a Requerente sociedade efetuou um investimento na construção de 2 novas estufas.
12)-A sociedade não consegue terminar a construção das estufas sem o acesso por veículo automóvel.
13)-Em segundo lugar, a sociedade comercializa produtos frutícolas em vasos, que são extremamente pesados e atendendo ao volume de vendas, é impensável colocar os mesmos nas costas dos trabalhadores.
14)-Ademais ainda que se conseguisse contratar mais trabalhadores no sentido de escoar a produção, tornaria os produtos mais caros, sendo difícil a sua comercialização, atendendo à concorrência.
15)-O gradeamento e escadas colocadas pelos Requeridos impedem o normal decurso dos trabalhos e o escoamento da produção de floricultura.
E, foram considerados como INDICIARIAMENTE NÃO PROVADOS, após produção da prova arrolada na oposição, os seguintes factos (corrigem-se os lapsos de redacção):
16)-Por acordo verbal com os Requeridos, o Requerente J… construiu a referida rampa de acesso, ocupando cerca de 4,5m de largura e 3,5m de cumprimento (área de 15,75 m2), do prédio indicado em 6) nos termos descritos no documento junto sob o nº 5 ao requerimento inicial e que aqui se dá por integralmente reproduzido.
17)-A referida construção ocorreu na sequência de permuta acordada entre os Requeridos, o Requerente J… e seus irmãos e mãe, herdeiros do seu pai JJ…, proprietário inicial dos prédios descritos em 1).
18)-Naquela data os Requeridos e o Requerente, bem como a suas irmãs e a mãe, acordaram não outorgar escritura de permuta “porque uma das herdeiras, MJ… era menor e não poderiam realizar escritura sem prévio consentimento do Ministério Público.”
19)-Nestes termos, acordaram que logo após a menor MS… atingir a maioridade, esta assinaria a ratificação do negócio e os Requeridos assinariam a respectiva escritura de cedência dos 15,72 m2 referentes à rampa de acesso.
20)-Pelo menos desde 12 de Fevereiro de 2016 os Requerentes sempre se comportaram como proprietários do espaço, onde se encontra construída a rampa de acesso, usando e fruindo do espaço à vista de todos, sem oposição de quem quer que fosse.
21)-Que na sequência dos factos descritos em 7) o Requerente ficou na expectativa de que, em cumprimento do acordado, os Requeridos assinassem escritura de cedência dos 15,72 m2, a favor do Requerente J….
22)-Contudo, não só os Requeridos não mostraram qualquer disponibilidade para esse efeito, recusando cumprir a sua parte do acordo, como, quando não se esperava, em 15 de Março do corrente ano, colocaram um gradeamento e uma escadaria de ferro não permitindo o acesso, quer pedonal, que por veículo para as estufas dos Requerentes, conforme documento nº 8 junto.
23)-Os Requerentes tentaram falar com os Requeridos, tendo todas as tentativas sido goradas.
24)-Na sequência do ato dos Requeridos descrito em 15), a Requerente sociedade tem sofridos diversos prejuízos.
25)-Os Requerentes desde 2016 e até aos factos descritos em 15) sempre utilizaram a parcela de terreno descrita em 7), com o acordo dos requeridos, de boa-fé, sendo que a casa dos Requeridos fica em frente às Estufas e estes nunca se opuseram, ou de qualquer forma manifestaram desconforto ou contrariedade com a construção e o funcionamento das mesmas.
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B–FUNDAMENTAÇÃO DE DIREITO
I)–Da REAPRECIAÇÃO da PROVA GRAVADA decorrente da impugnação da matéria de facto
Após conhecimento da questão prévia supra exposta, a impugnação da matéria de facto tem por objecto os:
–os factos não provados sob os nºs. 16) a 25), que haviam sido considerados como provados na primeira decisão proferida, prévia à apresentação da oposição.
Tendo por pressuposto o enquadramento legal supra exposto, constata-se que no caso sub judice, a prova produzida em audiência foi gravada. E, o Recorrente/Apelante invoca os concretos meios probatórios a ponderar, nomeadamente os resultantes de prova testemunhal, documental e mesmo do teor das declarações de parte proferidas pelo Requerido marido.
Ora, tendo o Apelante identificado tais meios probatórios, por referência às passagens da gravação fundantes do recurso, que se mostram relevantes, o que se mostra devidamente precisado, efectuando, ainda, transcrições (totais e parciais), não vemos qualquer óbice a tal apreciação.
Pelo que os invocados meios probatórios serão ponderados no que concerne á sua potencialidade probatória, e adequação à matéria de facto considerada não provada, nomeadamente na aferição se os mesmos impunham, por referência aos concretos pontos de facto impugnados, diferenciada decisão.
Não se desconhece que “para negar a admissibilidade da modificação da decisão da matéria de facto, designadamente quando esta seja sustentada em meios de prova gravados, não pode servir de justificação o mero facto de existirem elementos não verbalizados (gestos, hesitações, posturas no depoimento, etc.) insusceptíveis de serem recolhidos pela gravação áudio ou vídeo. Também não encontra justificação a invocação, como factor impeditivo da reapreciação da prova oralmente produzida e da eventual modificação da decisão da matéria de facto, da necessidade de respeitar o princípio da livre apreciação pelo qual o tribunal de 1ª instância se guiou ou sequer as dificuldades de reapreciação de provas gravadas em face da falta de imediação”.
Pelo que, poderá e deverá a Relação “modificar a decisão da matéria de facto se e quando puder extrair dos meios de prova, com ponderação de todas as circunstâncias e sem ocultar também a livre apreciação da prova, um resultado diferente que seja racionalmente sustentado” [8].
Reconhece-se que o registo dos depoimentos, seja áudio ou vídeo, “nem sempre consegue traduzir tudo quanto pôde ser observado no tribunal a quo. Como a experiência o demonstra frequentemente, tanto ou mais importante que o conteúdo das declarações é o modo como são prestadas, as hesitações que as acompanham, as reacções perante as objecções postas, a excessiva firmeza ou o compreensível enfraquecimento da memória, sendo que a mera gravação dos depoimentos não permite o mesmo grau de percepção das referidas reacções que porventura influenciaram o juiz da 1ª instância.
Na verdade, existem aspectos comportamentais ou reacções dos depoentes que apenas são
percepcionados, apreendidos, interiorizados e valorados por quem os presencia e que jamais podem ficar gravados ou registados para aproveitamento posterior por outro tribunal que vá reapreciar o modo como no primeiro se formou a convicção do julgador”.
Efectivamente, e esta é uma fragilidade que urge assumir e reconhecer, “o sistema não garante de forma tão perfeita quanto a que é possível na 1ª instância a percepção do entusiasmo, das hesitações, do nervosismo, das reticências, das insinuações, da excessiva segurança ou da aparente imprecisão, em suma, de todos os factores coligidos pela psicologia judiciária e de onde é legítimo aos tribunais retirar argumentos que permitam, com razoável segurança, credibilizar determinada informação ou deixar de lhe atribuir qualquer relevo”.
Todavia, tais dificuldades não devem justificar, por si só, a recusa da actividade judicativa conducente à reapreciação dos meios de prova, ainda que tais circunstâncias ou fragilidades devam ser necessariamente
“ponderadas na ocasião em que a Relação procede à reapreciação dos meios de prova, evitando a introdução de alterações quando, fazendo actuar o princípio da livre apreciação das provas, não seja possível concluir, com a necessária segurança, pela existência de erro de apreciação relativamente aos concretos pontos de facto impugnados” [9] (sublinhado nosso).
***
DA INDICAÇÃO DOS CONCRETOS PONTOS DE FACTO INCORRECTAMENTE JULGADOS
- DOS FACTOS NÃO PROVADOS
- Dos factos 16) A 25)
Relembremos a factualidade em equação:
“16)- Por acordo verbal com os Requeridos, o Requerente J… construiu a referida rampa de acesso, ocupando cerca de 4,5m de largura e 3,5m de cumprimento (área de 15,75 m2), do prédio indicado em 6) nos termos descritos no documento junto sob o nº 5 ao requerimento inicial e que aqui se dá por integralmente reproduzido.
17)- A referida construção ocorreu na sequência de permuta acordada entre os Requeridos, o Requerente J… e seus irmãos e mãe, herdeiros do seu pai JJ…, proprietário inicial dos prédios descritos em 1).
18)- Naquela data os Requeridos e o Requerente, bem como a suas irmãs e a mãe, acordaram não outorgar escritura de permuta “porque uma das herdeiras, MJ… era menor e não poderiam realizar escritura sem prévio consentimento do Ministério Público.”
19)- Nestes termos, acordaram que logo após a menor MS… atingir a maioridade, esta assinaria a ratificação do negócio e os Requeridos assinariam a respectiva escritura de cedência dos 15,72 m2 referentes à rampa de acesso.
20)- Pelo menos desde 12 de Fevereiro de 2016 os Requerentes sempre se comportaram como
proprietários do espaço, onde se encontra construída a rampa de acesso, usando e fruindo do espaço à vista de todos, sem oposição de quem quer que fosse.
21)- Que na sequência dos factos descritos em 7) o Requerente ficou na expectativa de que, em cumprimento do acordado, os Requeridos assinassem escritura de cedência dos 15,72 m2, a favor do Requerente J….
22)- Contudo, não só os Requeridos não mostraram qualquer disponibilidade para esse efeito, recusando cumprir a sua parte do acordo, como, quando não se esperava, em 15 de Março do corrente ano, colocaram um gradeamento e uma escadaria de ferro não permitindo o acesso, quer pedonal, que por veículo para as estufas dos Requerentes, conforme documento nº 8 junto.
23)- Os Requerentes tentaram falar com os Requeridos, tendo todas as tentativas sido goradas.
24)- Na sequência do ato dos Requeridos descrito em 15), a Requerente sociedade tem sofridos diversos prejuízos.
25)- Os Requerentes desde 2016 e até aos factos descritos em 15) sempre utilizaram a parcela de terreno descrita em 7), com o acordo dos requeridos, de boa-fé, sendo que a casa dos Requeridos fica em frente às Estufas e estes nunca se opuseram, ou de qualquer forma manifestaram desconforto ou contrariedade com a construção e o funcionamento das mesmas”.
Referencia o Apelante Requerente que “o Tribunal a quo indeferiu a providência requerida, na sequência de oposição apresentada posteriormente pelos Recorridos, entendendo que não havia posse do Recorrente e como tal não estavam preenchidos os requisitos para o deferimento da providência, tendo a mesma sido revogada”.
Todavia, com base nos depoimentos das testemunhas e prova documental junta, entende não poderem existir “dúvidas quando à posse da dita “rampa de acesso” e, neste sentido, deverá ser alterada a matéria de facto dada como provada”.
Acrescenta que, ainda que o Tribunal considerasse inexistir uma aquisição por permuta, “sempre teria de considerar face à factualidade evidenciada que existiria uma servidão de passagem de veículo, sempre tutelável”.
Pelo que, “trata-se do convencimento do juiz quanto à prova produzida em momentos distintos mas com a tónica no facto de as testemunhas do Recorrido só saberem que não ouviram falar em aquisição por permuta, não tendo estado nenhuma delas presentes aquando a celebração do negócio”, diferentemente do que sucede com as por si arroladas, que “não só sabem no negócio, porque participaram no mesmo, como aqueles que diariamente desde o ano de 2016 ali transitam em trabalho”, sendo que até as testemunhas arroladas pelo ora Recorrido confirmaram que “pelo menos desde 12 de fevereiro de 2016 os Requerentes sempre se comportaram como proprietários do espaço, onde se encontra construída a rampa de acesso, usando e fruindo do espaço à vista de todos, sem oposição de quem quer que fosse”.
Assim, por comparação entre os depoimentos das testemunhas arroladas pelas partes, “resulta que as mesmas nunca poderiam estar em pé de igualdade, porquanto umas só não ouviram dizer pelo Requerido aqui Recorrido, que tinha celebrado um negócio (mas sabem de toda a vida do mesmo? teriam que saber?) e as outras testemunhas que vivenciaram a passagem contínua de pessoas e veículos por uma faixa de
terreno construída pelo Requerente”.
Aduz, ainda, que “as fotografias juntas aos presentes autos a fls. … demonstram a existência, ainda que indiciária, de um acordo, qualquer ele que seja, já que a rampa construída apenas serve o Recorrente e foi por este construída”, sendo certo que “desde que foi celebrada a escritura de “venda” ao Recorrido, em Fevereiro de 2016 e até à ratificação por parte da menor, que o Recorrido permitiu, sem qualquer oposição que o Recorrido [é Recorrente, sendo evidente o lapso]usasse a dita “rampa”, tendo inclusive permitido que a mesma fosse cimentada, sem nada dizer”.
Entende, assim, que “tem um direito de propriedade pleno, mas subsidiariamente, irá ser avaliado em sede de acção principal e poderia ter sido atendido nos presentes autos, uma servidão de passagem”.
Em sede de resposta às alegações, defendem os Recorridos carecer em absoluto a impugnação de qualquer fundamento, tendo a valoração da prova sido efectuada com aplicação dos princípios da oralidade e imediação.
Acrescentam não ter sido demonstrado que, “face às regras da experiência comum, deveria ter sido outro o entendimento do Tribunal a quo”, sendo unânime a “jurisprudência dos tribunais superiores, ao esclarecer que quando a atribuição de credibilidade a uma fonte de prova pelo julgador se basear numa opção assente na imediação e na oralidade, o tribunal de recurso só a poderá criticar se ficar demonstrado que essa opção é inadmissível face às regras da experiência comum”.
Pelo que, conclui, o “Tribunal a quo recorreu às regras de experiência e apreciou a prova de forma objectiva e motivada, devendo os raciocínios expendidos na sentença merecerem total concordância pois foi observado um processo lógico e racional de apreciação da prova, não se mostrando a decisão proferida sobre a matéria de facto sentença ilógica, arbitrária ou notoriamente violadora das regras da experiência comum”.
Na motivação/fundamentação da matéria factual em equação, o Tribunal a quo exarou nos seguintes termos:
“A factualidade ora apurada decorreu da análise da documentação constante dos autos, por si e em conjugação com a prova oferecida pelos Requeridos.
Vejamos.
Em audiência foram ouvidos RC…, JA…, JF…, tendo prestado declarações de parte JC….
Assim, RC…, agricultor, conhece os terrenos em causa, prestou um depoimento simples e espontâneo, merecedor de credibilidade. Esclareceu então que a “rampa de acesso” era uma fazenda integrada em prédio dos Requeridos, o qual é limítrofe com o dos Requerentes. Esclarece que em tempos foi-lhe transmitido pelo Requerido marido que ia permitir que os Requerentes passassem pelo seu prédio a fim de fazer passar uma máquina para trabalhar no prédio dos mesmos, o que sucedeu pelo ano de 2016, nunca ouviu a versão da “troca de terrenos” entre requeridos e Requerentes. Mais teve conhecimento de que os Requeridos, por não concordarem com o facto dos Requerentes estarem a utilizar a parcela em causa para além do que lhes tinha sido permitido, sem nada falarem com aqueles, procederam à instalação de um