O ESTRANHO
-
ESTRANGEIRO NA OBRA DE PRIMO LEVIANNA BASEVI
O estranho-estrangeiro na obra de Primo Levi
Anna Basevi
Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutora em Letras Neolatinas (Estudos literários Neolatinos – opção: Literatura Italiana).
Orientador: Prof. Andrea Giuseppe Lombardi
Elaborado pelo Sistema de Geração Automática da UFRJ com os dados fornecidos pelo(a) autor(a).
B299e
Basevi, Anna
O estranho-estrangeiro na obra de Primo Levi / Anna Basevi. -- Rio de Janeiro, 2017.
232 f.
Orientador: Andrea Giuseppe Lombardi.
Tese (doutorado) - Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, Programa de Pós Graduação em Letras Neolatinas, 2017.
ANNA BASEVI
Orientador: ANDREA GIUSEPPE LOMBARDI
Resumo da Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas, Faculdade de Letras, da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutora em Letras Neolatinas.
RESUMO
Nosso trabalho propõe uma leitura do escritor-testemunha italiano Primo Levi (1919-1987), numa perspectiva literária organizada por léxico, metáforas e imagens específicos. A abordagem justifica-se pela recorrência das palavras straniero-estraneo-strano e a interseção da figura do estrangeiro com o estranho e a estranheza. As tipologias de estrangeiro ora se movem no espaço da barbárie nazista (Arendt, Todorov, Bauman) que marca o estrangeiro como inimigo, ora são motivados por uma atitude de hospitalidade (Derrida, Ricoeur). Ao acompanhar as figuras de estrangeiro no contexto do exílio, dentro e fora de Auschwitz, se delineiam modalidades de viagem como a catábase, o nóstos e a diáspora judaica, numa narrativa frequentemente comprometida com elementos intertextuais, especialmente provindos da tradição homérica e bíblica . Outro aspecto do estranho concerne ao unheimlich, ao duplo ou à sombra e se revela na problemática do submerso, mas também na tradução de O processo de Franz Kafka. Afinidades e diferenças instigantes entre Kafka e Levi afloram no diálogo que estabelecemos entre as personagens de Odradek e Hurbinek, de onde surge mais uma faceta do estranho-estrangeiro.
Algumas divisões-chave claro/escuro, submersos/salvos, racional/irracional resultam capazes de produzir ambivalências, mas também estratificações interessantes de sua escrita. Como a crítica italiana aponta há pelo menos duas décadas, Levi demonstra ser um grande autor do século XX, mais complexo do que quando se lê sua obra apenas como documento testemunhal.
Palavras-chave: Primo Levi, estrangeiro, estr anho, testemunho.
ANNA BASEVI
Orientador: ANDREA GIUSEPPE LOMBARDI
RIASSUNTO
Il presente lavoro intraprende la lettura dell´opera di Primo Levi (1919-1987) in una prospettiva letteraria organizzandone lessico, metafore, immagini specifiche. L´approccio si organizza intorno alla ricorrenza dei termini straniero-estraneo-strano e all´intersezione della figura dello straniero con l´estraneo e lo strano. Le tipologie di straniero si muovono ora in uno spazio di barbarie totalitarista (Arendt, Todorov, Bauman) che segna lo straniero come nemico, ora motivati da un atteggiamento di ospitalità (Derrida, Ricoeur). Seguendo le figure di straniero in esilio, dentro e fuori Auschwitz, si delineano modalità narrative del viaggio quali la catabasi, il nóstos e la diapora, in una scrittura spesso impegnata nel dialogo intertestuale con le tradizioni omerica e biblica.
Un ulteriore aspetto dell´estraneo riguarda l´ unheimlich, il doppio, l´ombra che si rivelano nella problematica del sommerso, ma anche nella traduzione de Il processo di Franz Kafka. Affinità e differenze intriganti tra i due scrittori affiorano nel dialogo che cerchiamo di stabilire tra i personaggi di Odradek (Kafka) e Hurbinek (Levi), da cui sorge un´altra sfaccettatura dell´estraneo-straniero.
Alcune opposizioni-chiave chiaro/scuro, sommersi/salvati, razionale/irrazionale si dimostrano capaci di produrre ambivalenze e stratificazioni interessanti nella scrittura. Come già gran parte della critica italiana indica da una ventina d´anni, Levi dimostra di essere un grande scrittore del XX secolo, più complesso di ciò che risulta quando si vede nella sua opera solo un documento di testimonianza.
Parole-chiave: Primo Levi, estrangeiro, estranho, testemunho.
ANNA BASEVI
Orientador: ANDREA GIUSEPPE LOMBARDI
ABSRACT
This dissertation aims to present a reading of Primo Levi’s work according to a literary perspective organized by specific lexis, metaphors and images. The approach is justified by the recurrence of the words straniero-estraneo-strano and the intersection of the foreigner, that or who is strange and unfamiliarity. The types of foreigners sometimes move in the barbarian and totalitarian space (Arendt, Todorov, Bauman) that marks the foreigner as enemy; other times, they are moved by an attitude of hospitality (Derrida, Ricoeur). In following Levi’s foreigners throughout the exile, inside and out of Auschwitz, travelling modalities such as catabases, Nóstos and the Jewish diaspora appear, in a narrative often full of intertextual elements, especially from the Homeric and biblical traditions. Another aspect of the strange refers to the unheimlich, to the double, or to the shadow, and reveals itself in the question of the submerged, but also in
the translation of Franz Kafka’s The Process. Intriguing affinities and differences come to the surface because of the dialogue established between the Kafka and Levi’s characters Odradek and Hurbinek.
Some key divisions, clear/dark, submerged/safe, rational/irrational are able to produce ambivalences but also interesting stratifications. As the Italian criticism has pointed during the last twenty years, at least, Levi is a great twentieth century writer, whose work is much more complex than the label “testimonial” can be.
No Brasil:
Ao Prof. ANDREA LOMBARDI, orientador, por ter estimulado a começar e seguir com seriedade e entusiasmo este percurso, pela originalidade intelectual, pelas aulas e o material fornecido.
Ao CNPq e à CAPES e às políticas de incentivos às Universidades públicas, à cultura, à formação das pessoas como um direito e uma riqueza social
Às Prof.as CARLINDA FRAGALE PATE NUÑEZ e FLÁVIA TROCOLI, pelo diálogo enriquecedor, por suas aulas que foram uma parte muito feliz deste caminho. Ao Prof. RENATO LESSA
Ao Prof. FABIANO DALLA BONA
A todo o DEPARTAMENTO de LETRAS NEOLATINAS , inclusive à prof.a MARIA LIZETE DOS SANTOS, por aceitar a suplência.
À Prof.a ROSANA KOHL BINES, pela disponibilidade e aceitação da suplência.
Na Itália:
Ao Prof. ETTORE FINAZZI-AGRÒ, co-orientador na Universidade La Sapienza de Roma
Ao CENTRO INTERNAZIONALE PRIMO LEVI de Turim, e seu diretor FABIO LEVI, e especialmente a CRISTINA ZUCCARO pela disponibilidade, competência, gentileza.
Ao Prof. e crítico literário ALBERTO CAVAGLION, pela disponibilidade ao diálogo, pela escuta amigável por carta e pessoalmente, pelo interesse demonstrado no trabalho.
A RAFFAELLA DI CASTRO, pelas trocas humanas e intelectuais em Roma. Ao Prof. PIERO BOITANI, pelas preciosas aulas na Faculdade de Letras em Roma. A ERNESTO FERRERO e à Prof.a VALENTINA DI ROSA, pela disponibilidade ao encontro, respectivamente em Turim e Napoli.
E ainda:
À Profa. SUSANA KAMPFF LAGES pela tradução inédita de um texto de Walter Benjamin
À Profa. CAROLINA CORREIA pela revisão
A NATALIA INDRIMI, diretora do Centro Primo Levi de New York
A LUISA BASEVI, pela competente consultoria em questões do idioma hebraico
Enfim a:
ROGÉRIO ROSA, pelo apoio multifacetado
LIVIO BASEVI ROSA e FLORA BASEVI ROSA, involuntariamente híbridos entre dois mundos
Alle radici:
(Jorge Semprun, Le grand voyage)
Zwischen Töten und Sterben ist ein Drittes: Leben.
(Christa Wolf, Cassandra)
Ser estrangeiro se tornou de algum modo uma virtude interior. (Jorge Semprun, A grande viagem)
Entre matar e morrer há um terceiro caminho: viver.
SUMÁRIO
Introdução ... 12
1. ESTRANGEIROS ... 24
1.1Fronteiras: bárbaro, inimigo, estranho ... 26
1.2Trocas ... 53
1.3Tonalidades do traduzir ... 62
2. ODISSEIAS ... 87
2.1 O canto do sobrevivente ... 91
2.2 Trajetórias narrativas do exílio ...106
2.3 Após o naufrágio: nóstos e neblina ...130
3. SOMBRAS ... 149
3.1 A sombra do submerso ... 153
3.2 Levi e Kafka: um estranho diálogo ... 182
3.2.1 Traduzir o unheimlich ... 184
3.2.2 O nome secreto... 195
Reflexões conclusivas (assimétricas)... 211
Referências bibliográficas... 220
SQU Se questo è un uomo
T La tregua
SN Storie naturali
VF Vizio di forma
SP Il sistema periodico
CS La chiave a stella
L Lilit e altri racconti
RR La ricerca delle radici
SNOQ Se non ora, quando?
AOI Ad ora incerta
AM L´altrui mestiere
SES I sommersi e i salvati
RS Racconti e saggi
UNG Ultimo natale di guerra
PS Pagine sparse
OP Opere I e II
CI Conversazioni e interviste 1963-1987
INTRODUÇÃO
A escrita de Primo Levi (Turim, 1919-1987) atravessa um período de interesse renovado como demonstram as traduções recentes, entre as quais a edição americana da
obra completa (Liveright, 2015), mas também as publicações continuamente propostas
por Einaudi nos últimos anos: as “Lezioni Primo Levi”, breves ensaios temáticos
bilíngues italiano-inglês; uma coletânea em novo formato como Ranocchi sulla luna ed
altri racconti, dedicada aos contos sobre animais; a reunião de artigos e depoimentos
processuais em Così fu Auschwitz (traduzido recentemente no Brasil) que inclui o
primeiro relato de Levi sobre o campo de extermínio, escrito em 1945 com o médico
Leonardo De Benedetti a pedido dos soviéticos, Rapporto sulla organizzazione
igienico-sanitaria del campo di concentramento per ebrei di Monowitz (Auschwitz-Alta
Slesia); o último trabalho de Marco Belpoliti Primo Levi di fronte e di profilo, que em
suas setecentas páginas reorganiza, sintetizando-os, temas e aspectos detectados ao
longo dos anos pelo crítico. A mais recente publicação de Einaudi é a reedição da Obra
completa (15 novembro 2016), que inclui a primeira versão de Se questo un uomo de
1947, enquanto o livro que conhecemos corresponde à edição de 19581.
No panorama de estudos concentrados, em sua maioria, sobre as questões do
testemunho, do trauma, da memória, das relações com a ciência ou com a história, os
ensaios críticos estão proliferando e seguindo a cada vez pistas novas, demonstrando a
potencialidade do autor, reconhecido finalmente como escritor e liberado da moldura
estreita da testemunha.
Nosso trabalho parte da premissa de que por meio de uma chave de entrada
peculiar é possível proceder à leitura da obra de Levi numa perspectiva literária,
organizando léxico, metáforas e imagens específicos do autor. Partindo de uma escuta
subjetiva do texto, identificamos uma abordagem ainda pouco explorada, organizada em
torno da problemática do estrangeiro (straniero), incluindo o estranho-alheio (estraneo)
e o estranho-bizarro (strano). O corpus envolve a obra completa composta pela
1
A recepção não foi imediata. Mesmo num meio antifascista, como era o caso dos responsáveis da editora Einaudi o livrofoi recusado em 1947. Todavia, a pequena editora De Silva o publicou em tiragem de 2500 cópias, com o título: Se questo è un uomo (É isto um homem?). Em 1958, a editora Einaudi adquiriu os direitos e publicou novamente o livro (e toda a obra de Levi até hoje) em sua forma definitiva, na qual o escritor remanejou parcialmente o texto, inseriu um capítulo inteiro e o Prefácio.
literatura autobiográfica, de testemunho e ficcional, contos, textos ensaísticos e poesia
(Cf. Anexo).
A escolha pelo tema se deu em consequência da observação da recorrência dos
vocábulos indicados que possuem uma constância significativa: o adjetivo strano é
numericamente elevado e conotativo de realidades paradoxais, bizarras,
incomprensíveis, irônicas, inesperadas; a figura do estrangeiro desdobra-se em
personagens diversificadas, desde o explorador ao prisioneiro na Babel de Auschwitz,
do judeu errante até a figura do tradutor; a estranheza e o estranhamento acompanham
diversos episódios tanto autobiográficos quanto imaginários e derivam da percepção de
uma realidade múltipla submetida ao acaso e ao imprevisto, desde o mal humano
produzido pelo nazismo, matéria de seu testemunhar, aos mistérios do cosmo.
O primeiro passo metodológico foi reunir as citações relativas às palavras
estraneo-straniero-strano e os contextos em que estas aparecem para construir um
percurso, ainda orientado pelos textos. Mas, diferentemente da ideia inicial, foi
necessário restringir a atuação da palavra strano aos temas surgidos das outras duas
(estraneo-straniero), pois o volume do trabalho teria aumentado enormemente uma vez
que grande parte da produção de contos e ensaios gira em torno de inúmeras
estranhezas: máquinas e invenções, sociedades distópicas, animais reais ou fantásticos,
histórias que contêm outras estranhas histórias, etimologia de palavras e expressões,
códigos e profissões alheios, curiosidades científicas ou astronômicas. Paralelamente,
há uma abundante quantidade de imagens do duplo em todos os níveis de discurso:
desde a personagem e o narrador, como o centauro Trachi e seu narrador ou Faussone,
protagonista de A chave estrela (1978), e seu narrador; ou na menção a seu diploma de
formatura de 1941, um híbrido documento “bifronte, meio glória, meio escárnio, meio
condenação, meio absolvição”2
; até o tema do conto “Il fabbricante di specchi”, sobre
um imaginário espelho “metafísico”, que, ao ser aplicado na testa de alguém na nossa
frente, reproduz a imagem que esta pessoa tem de nós; só que “num espelho normal os
olhos te fitam sempre, neste, ao contrário, olhavam desviados para a esquerda.”3 Sem
dúvida uma bela imagem do perturbante. Resolvemos, todavia, aprofundar os caminhos
2
LEVI, Primo. Nichel. In Tutti i r a cconti. Torino: Einaudi, 2005, p.418, trad. nossa; “a ncipite, mezzo glor ia , mezzo scherno, mezzo conda nna , mezzo a ssoluzione”. Levi fala de absolvição por causa da nota máxima cum la udee condenação por estar especificado: “raçajudaica”.
3
do strano interligados ao estrangeiro que se demonstraram fecundos em sua
problematização ou em seus paradoxos e descartamos uma parte consistente de material
adquirido, à medida que as duas questões, da sombra dos submersos e do embate com a
tradução de Kafka, impuseram seus profusos desdobramentos.
O recorte moldado na temática do estrangeiro trouxe à luz uma primeira
polarização, entre a barbárie e a troca (cap.1.1). O entrelaçamento entre barbárie,
totalitarismo e antissemitismo se sobressai em inúmeros artigos e breves ensaios
(reunidos em Pagine Sparse). Para estabelecer um diálogo com um corpus teórico,
encontramos alicerces em textos do século XX de Arendt, Todorov e Bauman. Na
escrita de estilo analítico de Levi, desponta o estrangeiro-inimigo, produto de uma visão
competitiva das sociedades humanas. Com um olhar antropológico interessado no
funcionamento do animal-homem, o escritor parte da premissa iluminista de uma
barbárie originária que só a razão pode conter ao longo de uma evolução linear; o que
faz dele, segundo Cases, “um dos últimos grandes intérpretes da confiança ocidental de
derrotar os monstros da irratio” desde que estes sejam reconhecidos.4 O desejo de
compreender e desvelar prevalece acima de tudo, e o próprio escritor confessa seu
grande interesse no estudo empírico do mundo: “Assistir ao comportamento do homem que age não segundo a razão, mas segundo os próprios impulsos profundos, é um
espetáculo de extremo interesse, parecido com aquele de que desfruta o naturalista ao
estudar as atividades de um animal a partir de todos os seus instintos.” 5
Esta atitude já
está presente no Lager, apesar das condições adversas a qualquer atividade reflexiva.
De fato, o estatuto de estrangeiro-estranho-inimigo foi também uma experiência
vivida em primeira pessoa. Decretadas as leis nazifascistas sobre a raça, os judeus foram
excluídos de qualquer pertencimento nacional e comunitário. No exílio absoluto do
aprisionamento concentracionário – esta nova barbárie - o prisioneiro destinado ao
extermínio encontra-se na condição do que chamaremos de estrangeiro “integral”, tanto
por estar imerso na Babel do Lager, quanto por estar banido da espécie humana.
Contudo, apesar da experiência direta da vida hostil do Campo e apesar de sublinhar o
dualismo entre hostilidade primordial e razão civilizada, Levi propõe narrativamente o
encontro com os estrangeiros ou o relato de sua própria condição de estrangeiro (seja
4
CASES, Cesare. L´ordine delle cose e l´ordine delle parole. In FERRERO, Ernesto (org.) . Pr imo Levi: Un´a ntologia della cr itica . Torino: Einaudi, 1997, p.33.
5
prisioneiro ou livre) sob o signo oposto a qualquer violência. O primeiro impulso é, ao
contrário, a curiosidade capaz de extirpar estereótipos ou até mesmo estabelecer trocas
substanciais num espaço de hospitalidade (Derrida). Como escritor, Levi parece tecer
um elogio da amizade, mais próximo à centralidade atribuída por Arendt a este laço 6 do
que a qualquer convicção hobbesiana do Homo homini lupus, todavia não descartada
por sua visão de mundo.
Se a percepção do estrangeiro, portanto, oscila entre dois polos que Paul Ricoeur
configura como simpatia e luta, de fato, nas suas tramas narrativas o embate com
estrangeiros, mesmo quando problemático, tende em direção à recepção e ao
questionamento de enraizadas divisões étnicas ou religiosas.
O tradutor, figura complexa, atrelada à testemunha (Lina Insana), realiza sua
árdua tarefa de mediação em diferentes contextos. O prisioneiro-tradutor se faz
porta-voz da violência feita à linguagem, enquanto o escritor-testemunha, uma vez saído do
Campo, tratará de supervisionar a eficácia tradutória da versão alemã de Se questo è un
uomo, num confronto que redefine o papel de original e texto traduzido.
Embora outra importante cena de tradução seja constituída pelo episódio do
capítulo “O canto de Ulisses” (em Se questo è un uomo), no presente trabalho optamos por sintetizá-la e não repetir a análise já conduzida na Dissertação de Mestrado7.
Destacou-se aqui sua importância para a construção da figura do ouvinte, daquele que
escuta como parceiro testemunhal (Gagnebin), de uma witness audience considerada
por Lina Insana uma das construções da literatura de Levi, modelo para o leitor e, a
nosso ver, modelo também para o tradutor.
Ao acompanhar as figuras de estrangeiro no contexto do exílio (cap.2),
delineou-se uma repartição em três modalidades de viagem: a catábadelineou-se, a diáspora judaica, o
nóstos. Os capítulos se organizam em torno de temas catalisadores da escrita, a
representação da descida ao inferno e seu regresso, a construção das paisagens exílicas e
do embate das personagens com a questão do estranho-estrangeiro, as ambivalências do
6
ARENDT, Hannah. L´uma nità in tempi bui, Milano: Raffaello Cortina, 2006.
7
Na Dissertação de Mestrado (A língua que sa lva . Ba bel e liter a tur a em Pr imo Levi, 2010, UFRJ) foi proposta uma leitura segundo a qual “O canto de Ulisses” constitui o centro do percurso enfrentado no
despertar e o nóstos aberto ou fechado (Jankélévitch). Catábase e anábase (nos termos
do topos literário de descida/saída ao/do inferno) transformam o sobrevivente (já
“estrangeiro integral” no Lager) em estrangeiro-estranho na própria pátria e ao mesmo tempo em cantor-testemunha. Se nos textos sobre o período nazifascista, a Europa
representada é aquela devastada pela Segunda Guerra Mundial, no entanto Levi
inspira-se no herói da Odisinspira-seia para moldar a tipologia de estrangeiro que regressa da guerra
ou do inferno, o revenant, o reduce, coincidente com aquele que narra (cap. 2.1). As
referências à Odisseia, que permeiam o imaginário literário do escritor e o romance
autobiográfico La tregua (1963), em específico, entrecruzam referências bíblicas numa
representação narrativa do exílio continuamente nutrida pela tradição greco-romana e
hebraica. Ainda, o aspecto mais dramático da urgência testemunhal remete ao Velho
Marinheiro de Coleridge, do poema A balada do velho marinheiro (1798), figura de
sobrevivente ansioso por contar um naufrágio sem encontrar escuta. É evidente que a
necessidade de testemunhar norteia grande parte da escrita, atrelando-se à forte ligação
com a linguagem, demonstrada tanto em seu interesse por expressões e etimologias,
quanto com a problemática da transmissão comunicativa ao seu leitor. De resto ele
próprio afirma: "Talvez tenha me ajudado também meu interesse, nunca desaparecido,
pela alma humana, e a vontade não apenas de sobreviver (que era comum a muitos),
mas de sobreviver com o objetivo preciso de contar as coisas vistas e suportadas.”8 A
quem a comunicação é impedida, Levi oferece sua voz. É o caso do pequeno Hurbinek
(cap.1 e cap.3) que não possui nenhuma língua de partida, portanto, sua palavra
pronunciada com esforço e incompreendida permaneceria desconhecida sem a
testemunha. Sua única palavra intraduzível, mas escutada, pode ser colocada aos
antípodas da compulsão do Velho Marinheiro não escutado. Ao silêncio, Levi tenta
opor várias formas alternativas que acabam por formar sua literatura.
Há outro tipo de estrangeiro, o apátrida que sobrevive por meio da resistência
armada: a menos conhecida história dos combatentes judeus do leste é resgatada no
único romance de estrutura tradicional, Se non ora, quando?(1982), escrito na terceira
pessoa, que se religa ao topos narrativo do exílio hebraico e da diáspora. Confirmando
a condição de desterrados dos protagonistas, os países acabam por desligar-se de suas
configurações histórico-administrativas e os combatentes atravessam territórios
8
moldados em sua vivência, paese delle paludi (país dos pântanos), paese della fame
(país da fome), num percurso linear de saída de suas terras natais, oposto ao movimento
circular do nóstos. Enquanto a travessia pelo nordeste europeu gera uma série de
encontros capazes de desmontar barreiras produzidas por preconceitos, principalmente
antissemitas, na terceira parte do cap.2, a investigação concentra-se no nóstos de A
trégua para incluir também A chave estrela e identificar a marca do encontro com o
humano “após o naufrágio”.
O capítulo 3, “Sombras”, detém-se inicialmente sobre a oposição
racional-irracional/ claro-escuro, abarcando toda a polêmica em torno do escrever claro que se
instaurou com Giorgio Manganelli. Mas a divisão entre submersos e salvos revela-se a
divisão-chave da visão de mundo de Levi. Ao desenvolver uma intuição de Raffaella Di
Castro sobre o submerso interno presente em todo sobrevivente, apresentaremos o
submerso como Doppelgänger do salvo, uma voz interna que impulsiona o testemunho
e que em Levi encontra sua representação narrativa oscilante entre a metáfora da
ameaça de uma sombra persecutória e a personagem do amigo-duplo Alberto,
companheiro de Lager desaparecido na marcha forçada dos nazistas em fuga.
Origem, evolução, adaptação, seleção natural confluem no conto “Carbono” (Il
sistema periodico, 1975), e demonstram que afinal o polo de maior atração de toda sua
produção é o quesito: quem sobrevive e por quê? A sobrevivência, talvez focalizada
como ideia darwiniana e pessoal de um jovem crescido numa sociedade competitiva e
instruído por livros de aventuras, amplifica-se ao atravessar o Lager. A batalha
sublimada contra a Matéria como meta da química transforma-se em percepção
dramática de um mundo em guerra constante (“Guerra é sempre”, diz a personagem do
Grego).
Questões originadas do tema da tradução se dividem entre capítulos diferentes: se
o tradutor compõe as tipologias de estrangeiro-estranho discutidas no primeiro capítulo,
de outro, a relação com Kafka necessitou um desenvolvimento próprio (cap.3.2). Uma
das dificuldades de redação foi de fato conseguir uma estruturação coerente, mas que ao
mesmo tempo acompanhasse os desdobramentos do mesmo tema nos diferentes
capítulos. Portanto, o terceiro capítulo volta ao aspecto do estranho desencadeado pelo
desconforto de um escritor promotor de uma escrita límpida diante da escrita kafkiana
este aspecto recebe agora um tratamento mais aprofundado, sustentado por estudos
pontuais, e apresentando novo rumos. Graças ao estímulo de indagações de Valentina
Di Rosa e Arianna Marelli, pretendemos confirmar algumas hipóteses sobre a percepção
de Levi do texto kafkiano como unheimlich, e acrescentar a outras causas de inquietude
a ausência de um tema fundamental para Levi como é o tema do testemunho.
Todavia, além da tradução, um diálogo textual entre os dois autores é possível e
permite que diferenças, ambivalências e estranhas afinidades venham à luz, na
desafiante comparação entre as personagens de Odradek e Hurbinek, respectivamente
dos textos “A preocupação de um pai” de família de Kafka e A trégua de Levi. A estes, acrescentamos o texto de Walter Benjamin, Agelisaus Santander , numa triangulação
baseada sobre a atribuição de nomes enigmáticos. Por este viés, encastoado tanto nos
textos dos autores quanto na tradição ocidental, encontraremos de novo o estranho,
coincidindo com o elemento judaico, quase fechando o círculo discursivo iniciado no
cap.1.
No plano estilístico, as interseções entre identidade/alteridade e pureza/impureza refletem-se na presença do plurilinguismo, dos frequentes oximoros9, das hibridações
linguísticas e de gêneros textuais, em prol de um constante reajuste dos significados das
oposições. Domenico Scarpa mostra o funcionamento dos opostos no exemplo da dupla
segregação/invólucro: espaço fechado como contenção opõe-se a saída, extravasamento,
mas não há como atribuir um valor positivo ou negativo, pois espaço fechado pode ser
tanto o aprisionamento quanto o nicho protetivo, assim como seu oposto
frequentemente coincide com o dilúvio, a catástrofe, a explosão, o descontrole. “É como
se todo elemento, cada palavra, cada conceito abrigasse seu contrário e a realidade
oximórica pudesse ser lida só levando em consideração a dualidade inerente em todas as
coisas”10
. O gosto pela imagem de um mundo revirado prevalece, a partir de Auschwitz,
e o adjetivo capovolto conota inúmeras situações, como se, após ter conhecido o
contramundo do Lager, de cada coisa fosse possível observar seu avesso.11
9
O uso dos oximoros em Levi é objeto de um estudo de Mengaldo. MENGALDO, Pier Vincenzo. Lingua e scrittura in Levi. In FERRERO, 1997, pp. 169-242.
10
SCARPA, Domenico. Chiaro/scuro. In BELPOLITI, Marco (org.). Primo Levi. Riga, n.13. Milano: Marcos y Marcos, 1991, pp.238-240, trad.nossa.
11
Enquanto o escritor assume o centauro como metáfora de sua divisão entre o
ofício de químico e o de escritor ou entre seu pertencimento-não pertencimento ao
mundo judaico, uma das hipóteses que percorre o trabalho visa identificar outros tipos
de duplicidades, disfarçadas sob declarações explícitas do autor. Podemos observar
uma defasagem entre afirmações abstratas, de um lado e, de outro, relatos de
experiência ou a representação literária de alguns aspectos específicos: o
estrangeiro-inimigo, a tradução e a Babel, o escrever claro, a poesia como reflexo do inconsciente
versus prosa. E haveria ainda outros pontos a serem desenvolvidos como as declarações
de modéstia em contraposição à hybris do gesto criador quase divino que desponta de
várias paródias da Gênesis, ou em episódios de ira e julgamento contra atitudes
consideradas indignas pela testemunha (cf. a reza de Kuhn, cap.3.1, p. 151). Alberto
Cavaglion, entre outros, costuma alertar para que não se acredite integralmente nas
declarações de Levi sobre si e para que se proceda a partir dos textos, o que não
significa para nós montar uma denúncia de incoerência, mas ultrapassar o limite posto
pelo próprio autor e aprofundar aspectos mais interessantes de sua escrita. O exemplo
principal para esclarecer este mecanismo é a percepção de si como “escritor pela
metade”, que contribuiu durante anos para que se enxergasse em seus textos mais o testemunho do que a arte.
De fato, a partir de sua morte e principalmente com a publicação da revista
monográfica Riga e da antologia de ensaios críticos de 1997, a fortuna crítica italiana
inaugurou uma nova fase, de descoberta contínua da obra de um grande escritor. De
acordo com Belpoliti, “Levi é um dos grandes escritores-antropólogos do pós-guerra
cujas conclusões vão além de Auschwitz, e por isso ele é ‘um escritor de todos’, embora
fácil de ser mal entendido”12. E, como muitos já apontaram, desde Belpoliti a
Cavaglion, de Scarpa a Barenghi, Levi é mais complexo do que ele quis que
acreditássemos. E menos “claro”. Se seus livros resistem à prova do tempo, uma das
razões pode residir no amálgama entre estratificações enriquecedoras do texto ainda
produtivas e a busca contínua de comunicar-se com o leitor sem renunciar à elegância
da escrita.
repouso para a vida” e “é fio estendido [ou tenso] por [ou para] lugares estranhos” (71 contos de Pr imo Levi. Trad. Maurício Santana. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p.429, em nota).
12
O mundo lexical de Levi apresenta peculiaridades em parte devido ao “serbatoio
di metafore” (reservatório de metáforas) provindo da química, em parte construído a
partir de Se questo è un uomo. Palavras-chave e figuras estilísticas, mais do que as
questões biográficas, podem constituir alimento para a leitura crítica: além dos
oximoros já mencionados, as anáforas recorrentes, as imagens do groviglio
(emaranhado), da soglia (soleira, umbral), a metáfora do naufrágio e do despertar, ou
ainda os elementos intertextuais com a Bíblia e Homero, Dante e Dostoievski.
Com seu estilo baseado na brevitas, segundo Belpoliti, Levi procede a uma
montagem de fragmentos narrativos (cf. também Renato Lessa13), confirmando uma
qualidade da literatura italiana particularmente atrelada à forma breve, podendo se
pensar no modelo das formas aforísticas de Leopardi das Operette Morali.14 A mistura
de gêneros em seus textos, outra peculiaridade, não permite sempre fazer distinções
nítidas entre o que seria um estilo ensaístico e um estilo narrativo: não raramente a
afirmação teórica, a explicação ao leitor, o registro narrativo e o trecho lírico se
alternam na mesma página.
Se a poesia é considerada uma produção marginal de sua obra, Se questo è un
uomo é definido por muitos uma obra prima sobre o tema dos Campos, opinião que
Piero Boitani expressa com palavras pontuais:
Nosso século apresenta-nos pelo menos um exemplo extremo, no qual história e literatura, os eventos reais e os possíveis, se encontram nas próprias feridas da civilização ocidental, no horror sem fim inventado, não pelos poeta ou romancistas,
mas pelos “engenheiros” da sociedade moderna. [...] Não há dúvida de que o autor tenha intencionalmente composto seu livro como um Inferno e uma nova Bíblia, e que suas páginas comovam o leitor e o reduzam ao silêncio tanto quanto o primeiro Canto da Comédia e o Livro de Jó – e que, afinal, Se questo è un uomo, apesar de tratar de eventos históricos e específicos, seja uma obra de arte (BOITANI, Piero.
L´ombra di Ulisse. Bologna: Il Mulino, 1992, p.183, trad.nossa).
13 LESSA, Renato. “O silêncio e sua representação”. In:
Memór ia s e cinza s. Vozes do silêncio. São Paulo: Perspectiva, 2009.
14
É tempo de notar também que, por meio de seu primeiro testemunho, repleto de
diálogo com grandes autores da literatura ocidental, sua representação de Auschwitz
torna-se referência intertextual imprescindível para outros escritores sobreviventes15.
Segundo a opinião de Cavaglion, Se questo è un uomo é o livro central, em torno
do qual se organizam os outros mais importantes por ele ainda iluminados (com a
exceção de A chave estrela ), ou, como o crítico disse, como o efeito de uma
“fecundação à distância”16. Ao mesmo tempo, Belpoliti alerta para não ler Levi apenas do ponto de vista do Lager: Auschwitz como tema central mas não único, “como lente
de aumento ou como alavanca para compreender a condição humana”17 .
No caso de Se questo è un uomo, estamos falando justamente de um texto sobre a
Babel infernal onde a literatura subverte o prejuízo da estrangeiridade negativa e da
incompreensão linguística, e nos consigna a qualidade de não pertencer a nenhum sonho
de pureza, em prol de tudo o que é híbrido e miscigenado.
O temor pelas consequências ameaçadoras da Guerra Fria ocupam vários artigos, e
o negacionismo crescente dos últimos anos de sua vida contribuíram, segundo
Cavaglion, a traçar uma fronteira nítida entre Se questo è un uomo e I sommersi e i
salvati (1986), os dois livros sobre o Lager, sendo o primeiro ainda impregnado de uma
confiança que o pessimismo do último teria perdido18. Ernesto Ferrero fala de oscilação
do autor entre um “gramsciano pessimismo da inteligência e o substancial otimismo
pragmático da mensagem que ele se esforça em consignar ao público, e no qual ele
mesmo, antes de todos, acredita.”19
Neste caso, Ferrero refere-se à coletânea Vizio di
forma, cujos contos, migrados do campo científico (ou de ficção científica, em Storie
Naturali) para o antropológico e etológico20, oscilam entre as duas posições de
pessimismo/otimismo, entre alarme pelas ameaças tecnológicas e a confiança no
15
Se questo è un uomo é hoje também lido regularmente pelos alunos do oitavo ou nono ano das escolas públicas italianas.
16 Em seu ensaio “Iltermitaio “ (“O cupinzeiro”,
1991), Alberto Cavaglion sublinha como na obra ou nas páginas avulsas do escritor ele “disseminou nos meandros de um conto de ficção científica, nas dobras de um elzevir de terceira página, uma pedrinha de sua primeira obra prima.” Ao leitor cabe recompor este puzzle (CAVAGLION, 1997, pp. 76-90).
17
Entrevista a Marco Belpoliti, op.cit., p.17. 18
Primo Levi tra i sommersi e i salvati. Lo str a nier o, a.8., n.48, 2004, pp.40-49 e Entrevista a Alberto Cavaglion, nos concedida em 15-07-2015.
19
FERRERO, Ernesto. Pr imo Levi. La vita , le oper e.Torino: Einaudi, 2007, p..57. 20
futuro21; quando terminam com alguma catástrofe, Levi explica tratar-se de catástrofes
irônicas, um aviso prévio para que se use o raciocínio e todos os meios para evitá-las22.
No entanto, uma falta de esperança “incurável”, de quem é convencido de que a
humanidade tem um “destino irremediável”23
, estende-se além dos confins humanos, na
natureza do universo. Desta forma, as contrastantes bases do pensamento de Levi,
evolucionismo e catástrofe, se entrecruzam e influenciam reciprocamente, tentando
ajustar a juvenil confiança numa ordem das leis naturais às consequências da
experiência de Auschwitz e à impossibilidade de enquadrar o funcionamento humano e
biológico em leis compreensíveis, exatas e ordenadoras.
Quanto a seu suicídio, escolhemos não abordar a questão biográfica, em parte por
não ter sido esclarecida sua dinâmica e em parte porque não mudaria o rumo do estudo
literário de sua obra, pelo menos deste.
Todas estas considerações (e recuperando as observações sobre o traduzir e a
escuta) nos induziram a questionar as traduções da obra de Levi frequentemente
desatentas a um estilo “complexo e versátil, contudo, coerente” 24
, aos registros, à
repetição de um léxico específico, à precisão das palavras escolhidas, às ambivalências
ou soluções criativas, à própria pontuação peculiar. Fizemos questão de ressaltar os
problemas tradutórios à medida que os encontramos nas citações utilizadas, propondo
uma alternativa acompanhada de sua motivação. Em contrapartida, é preciso levar em
consideração que procedemos à tradução de alguns poemas (em maioria só parcialmente
citados) apenas para facilitar uma primeira leitura ao público brasileiro e sem nenhuma
pretensão.
Por fim, esperamos contribuir à fortuna crítica do autor, ainda escassa no Brasil,
com este recorte de onde é possível observar a obra do escritor, pelo qual afinal , como
tentamos demonstrar, o estrangeiro (straniero) é acima de tudo um ponto de vista de
conhecimento, o estranho (estraneo) inclui em suas qualidades a impureza que
transforma e move a vida, e toda estranheza (strano) merece ser narrada. Levi, tão
ancorado à sua casa como um molusco à rocha marinha25, e fixado em sua cidade natal
21
Ibidem. 22
Entrevista apud FERRERO, op.cit., p.57. 23
Ibid., p.74. 24
Ibid., p.45.
25Comparação do próprio Levi em “La mia casa”,
durante a vida inteira, encontra na literatura o habitat para suas outras dimensões menos
1. ESTRANGEIROS
Só o absolutamente estranho pode nos instruir (Emmanuel Lévinas. Tota lidade e infinito)
Um dos primeiros contos de Primo Levi, o jovem químico que, antes de 1944,
nunca havia ultrapassado as fronteiras nacionais senão junto às leituras de Conrad, Jack
London, Defoe e Stevenson, apresenta as aventuras de um forasteiro deparando-se com
costumes e linguagens outros, e tendo assim a possibilidade de verificar ou desmentir
preconceitos existentes. Trata-se do conto “Piombo” (“Chumbo”), inserido quase trinta
anos mais tarde em Il sistema periodico (A tabela periódica). A trama é simples, e o
conto nos ajuda a introduzir a abordagem diferenciada das tipologias de estrangeiro.
Neste caso, a personagem do explorador parece se apropriar do estereótipo sobre
nativos divulgado após as grandes descobertas do “Novo Mundo”, já que da ilha
desconhecida onde se encontrava se contavam estranhas coisas como a presença de
gigantes devoradores de estrangeiros. Logo, ao ser conduzido pelos índios, descobre
uma atitude que, ao contrário, acolhe o estrangeiro e o acompanha como se aquela terra
pertencesse a todos. O explorador, assim, se transforma naquele tipo de viajante capaz
de desmontar suas ideias prévias através do conhecimento empírico.
Desde seus primeiros passos literários, Levi mostra-se atraído pelo campo
semântico do termo “bárbaro”, expressão recorrente não somente referindo-se aos
“bárbaros da suástica” 26
e – frequentemente – à “barbárie nazista”, como também a
“um balbuciar primitivo e indistinto, um bar-bar animalesco”27, àquela onomatopeia que remonta ao conhecido βά βα ο grego do qual muitos autores trataram, e em seguida
traduzida no latim barbarus, mas inicialmente referente à simples diferenciação
linguística atribuída pelos gregos aos persas.28
26É o título de um artigo publicado em “Notizie della Regione Piemonte”, em1983 e depois reunido entre
as “Pagine sparse”. In LEVI, Primo (org.. Marco Belpoliti) Oper e, vol. 2 . Torino: Einaudi, 1997, p.1187. 27“un barbugliare rozzo e indistinto, un bar
-bar animalesco” (LEVI, Primo. Piombo. In _____ Il sistema periodico. In TIR, p.438, trad.nossa). Na tradução brasileira bar-bar é traduzido com “blábláblá”, perdendo a referência culta da etimologia de “bárbaro” (Cf. A ta bela periódica. Trad. Luis Sérgio Henriques. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994, p.87).
28
A partir do desenvolvimento observado por Émile Benveniste da palavra grega
xenos, nos termos em latim duplicados e opostos hospes e hostis, os deslizamentos
semânticos de palavras centrais para o pensamento crítico ensejaram reflexões
filosóficas como a de Derrida em De l´hospitalité, ou o ensaio de Umberto Curi, Lo
straniero. Nelas estão reconstituídas diferentes facetas do estrangeiro, em percursos
filosóficos atraídos por essa duplicidade irredutível.
Sob as leis de Zeus, o estrangeiro é protegido pela xenia, o tratamento benévolo
determinado pela possibilidade de um forasteiro ser na realidade um deus disfarçado. É
o que expressa Eumeo diante de Ulisses transformado em mendigo: “Não é do meu
feitio menosprezar um hóspede, mesmo se o seu quinhão for bem menor que o teu, pois
estrangeiro e pobre, Zeus os manda. É parco meu dom, mas caro.”29 Curi, porém,
observa uma ambivalência polissêmica (similar à do unheimlich freudiano)30 do termo
xenos, operando de maneira que o estrangeiro aos poucos assume os contornos de uma
espécie alheia de homens31, e o βά βα ο , superando a simples diferenciação de
idiomas, termina por denunciar uma ameaça. Similarmente, o termo hostis passara já na
Antiguidade do significado de “estrangeiro” que precisa restituir uma doação e trocar os
dons, ao significado de inimigo que chega, de arma na mão, até produzir os derivados
ligados à hostilidade32. A alteridade ramifica-se, portanto, numa tríade: estrangeiro é
quem é hospedado e também é o inimigo.
Levando em conta a ambiguidade e fluidez da língua, nós nos movimentamos na obra de Levi, detectando variações e deslizamentos na linguagem do autor, sem poder
atribuir para cada significante (estraneo-straniero-strano) um único significado fixo. As
palavras deslocam-se nos contextos e nas imagens, nas metáforas e nas declarações, e
nós com elas. Paradoxalmente, desalojar as ambivalências de Levi de seus esconderijos
não opera contra seu anseio de clareza e precisão, mas se torna homenagem à sua
incansável tarefa de “separar, pesar, distinguir”, reconhecer os diferentes elementos33.
29
HOMERO. Odisseia. Trad. Trajano Vieira. S.Paulo: Editora 34, 2013, p.236-237, vv.56-59. 30
CURI, 2010, p.55. 31
Ibid., passim, pp.57-85. Cf. os primeiros dois capítulos: “Uma inquietante proximidade” e “Xenia”. 32
BENVENISTE, 1969, passim. 33“
1.1
Fronteiras: bárbaro, inimigo, estranho
O tema da divisão linguística ou da diferença de costumes desdobra-se, ao longo
de sua narrativa, frequentemente em prol da ironia, em histórias de fantasia e sobre
povos imaginários como no caso de “La bestia nel tempio”: “Os cavaleiros mortos de
peste ou em combate foram sepultados pelos companheiros segundo o costume bárbaro:
cada qual montado em seu cavalo, com a arma erguida, desafiando os céus” 34
. Ou ainda
no rastro da época clássica, quando um antigo romano podia enviar de um longínquo
“país do esquecimento” uma carta deste tipo:
io sto dimenticando il latino: tutti noi della guarnigione lo stiamo dimenticando, perché, sposati o no, finisce che parliamo tutto il giorno la lingua dei britanni [...] Così viene fuori questa faccenda ridicola, che lo scrivano che ti scrive mi deve correggere come se il barbaro fossi io invece che lui” (“Cara Mamma”. Lilit e altri racconti, TIR, p.713).
eu estou esquecendo o latim: todos nós da guarnição o estamos esquecendo, porque, casados ou não, no fim das contas falamos todos os dias a língua dos britânicos. [...] Daí essa coisa ridícula de o escrivão ter de me corrigir como se o bárbaro fosse eu e não ele (71 contos de Primo Levi. Trad. Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p.453).
A maioria dos encontros entre “bárbaros” de idiomas diferentes ocorre, porém,
nos romances de viagem. Em La tregua algumas circunstâncias apresentam-se amenas,
pacíficas, até divertidas:
Così ci presentammo sull´aia, accolti con saluti affettuosi e risatine d´intesa delle vecchiette, e da un furioso abbaiare di cani. Quando il silenzio si fu ristabilito, forte del mio Michele Strogoff e di altre lontane letture, dissi: - Telega. Staryje Doroghi – e mostrai gli otto rubli.
Seguì un mormorio confuso: strano a dirsi, nessuno aveva capito. [...] Tjeljega! – mi corresse il barbone, con severità paterna, scandalizzato dalla mia pronuncia barbarica” (LEVI, Primo. La tregua. Torino: Einaudi, 1997, p.164).
Assim nos apresentamos no local, onde fomos recebidos com saudações afetuosas e risos amigáveis das velhinhas, e por um furioso latir dos cães. Quando se fez silêncio, apoiado no meu Miguel Strogoff e em outras distantes leituras, disse:
“Telega. Staryje Doroghi”, e lhe mostrei oito rublos.
Seguiu-se um burburinho confuso: estranho dizer, mas ninguém entendera. [...]
“Tjeljega!”, corrigiu-me o barbudo, com severidade paterna, escandalizado pela
34
minha pronúncia bárbara” (A trégua. Trad. Marco Lucchesi. São Paulo: Companhia das letras, 1997, p.136).
A recordação literária do romance de Jules Verne funciona como suporte
comunicativo e acentua o humorismo de uma cena na qual o ser bárbaro é apenas um
problema linguístico. Com efeito, quando o viajante faz bom proveito de seus
conhecimentos literários, linguísticos ou práticos para encontrar a solução, se alegra de
pertencer à linhagem de Robinson Crusoé ou do Homo Sapiens. Todavia, no princípio
está outra barbárie.
Se seguirmos a cronologia editorial, o tema do estrangeiro aparece pela primeira
vez em 1958, com a segunda e mais afortunada edição de Se questo è un uomo. Com o
acréscimo do Prefácio o escritor propõe a seguinte premissa:
A molti, individui o popoli, può accadere di ritenere, più o meno consapevolmente,
che “ogni straniero è nemico”. Per lo più questa convinzione giace in fondo agli
animi come una infezione latente; si manifesta solo in atti saltuari e incoordinati, e non sta all´origine di sistema di pensiero. Ma quando questo avviene, quando il dogma inespresso diventa premessa maggiore di un sillogismo, allora, al termine della catena, sta il Lager (Prefazione a LEVI, Primo. Se questo è un uomo (Notas de Alberto Cavaglion).Torino: Einaudi, 1997, p.3, o grifo é nosso35).
Muitos, pessoas ou povos, podem chegar a pensar, conscientemente ou nâo, que
“cada estrangeiro é um inimigo”. Em geral, essa convicção jaz no fundo das almas
como uma infecção latente ; manifesta-se apenas em ações esporádicas e não coordenadas; não fica na origem de um sistema de pensamento. Quando isso acontece, porém, quando o dogma não enunciado se torna premissa maior de um silogismo, então, como último elo da corrente, está o Campo de Extermínio (LEVI, Primo. É isto um homem?, Rio de Janeiro: Rocco, 1988, p.7, trad. Luigi Del Re)36.
Por consequência, a associação estrangeiro-inimigo inaugura a obra de Levi por
nós conhecida; seu primeiro livro apresenta-se como narração de uma condição
extrema, de exceção – diríamos com Agamben37 –, cujo germe, porém, deve ser
identificado nas mentalidades escondidas ou toleradas em tempos mais ordinários. Levi
insistirá frequentemente – como implícita herança da intuição arendtiana da banalidade
35
Manteremos o negrito nas citações italianas de Levi para ressaltar as palavras straniero-estraneo-strano, e seus sinônimos.
36
Após a primeira citação com referência completa, as obras de Levi serão citadas com seus respectivos acrônimos para os títulos italianos e sem indicação do nome do autor para ambas as línguas.
37
do mal – que os “técnicos do extermínio” 38 pertencem à mesma espécie das vítimas e
não se há de imaginá-los como acidentes monstruosos e anacrônicos do percurso
humano. São “a tipologia humana mais perigosa deste século”: sem indivíduos como Eichmann, Höss ou Kesserling, sem “os outros milhares de cegos e fiéis executores das ordens, as grandes feras, Hitler, Himmler, Goebbels, seriam impotentes e
desarmadas”39 .
Em um ensaio de L´altrui mestiere (O ofício alheio), o escritor volta ao conceito
do bárbaro, afirmando que “para muitos o estrangeiro por definição é quem fala outra
língua, o ‘estranho’, o ‘alheio’, o diferente de mim, e o diferente é um potencial
inimigo, ou pelo menos um bárbaro, isto é, etimologicamente, um gago, alguém que não
sabe falar” 40. E, no fim da frase, acrescenta,: “um quase
-não-homem”. Para dar relevo
aos três termos aqui juntados (“lo straniero per definizione, l’estraneo, lo ‘strano’”), são apresentados os sinônimos reunidos pela ideia de hostilidade: diverso, nemico,
barbaro, quasi-non uomo. A ideia de negação na expressão “un quasi-non-uomo”
sugere o banimento da humanidade, uma clandestinidade existencial, experimentada de
fato em primeira pessoa por Levi, tanto com as leis fascistas sobre a “raça” em 193841 ,
quanto em Auschwitz. Desta forma, o sentido literal de “bárbaro” como gago falante
de uma língua estrangeira e definido por Tzvetan Todorov significado “relativo”, se estende, na mesma frase de Levi, ao que o pensador chamou de bárbaro “absoluto”42
.
Com efeito, diante do deslizamento semântico, “barbárie” torna-se para Todorov uma categoria de importância fundamental, vinculada aos atos de discriminação e
aniquilação: são bárbaros os comportamentos de quem não reconhece a plena
38
A definição de Levi é relativa ao comandante Höss - “il miglior tecnico della str age” –em “Prefazione
a R.Höss, Coma nda nte a d Auschwitz”. In Oper e, vol.2 (Org. Marco Belpoliti), Torino: Einaudi, 1997, p.1282. No texto o autor volta a focalizar o comportamento que funciona como alicer ce da eliminação de outros seres humanos em certos contextos: a obediência.
39
LEVI, Primo. Il comandante di Auschwitz. In Racconti e Saggi, OP, vol. 2, p.924, trad.nossa. “[Richard Baer] a ppa r tiene a l tipo umano più per icoloso di questo secolo. A chi ben gua r di, senza di lui, senza gli Höss, gli Eichma nn, i Kesserling, senza i mille a ltri fedeli e ciechi esecutori di or dini, le gr a ndi belve, Hitler , Himmler , Goebbels, sa r ebber o sta te impotenti e disa r ma te”.
40
AM, p.109, trad.nossa. No original: “Per molti chi pa r la um´a ltr a língua è lo str a niero per definizione,
l´estraneo, lo ‘strano’, il diverso da me, e il diverso è un nemico potenziale, o almeno un barbaro: cioè,
etimologica mente un ba lbuziente, uno che non sa pa r la r e, un qua si non -uomo.”
41
Entre setembro e novembro de 1938 foram promulgadas as leis de restrições e discriminação contra a chamada “raça judaica” que visavam excluir das escolas, das instituições e da vida social os italianos e estrangeiros de tradição ou origem judaica.
42
humanidade dos outros (o contrário caracteriza o adjetivo “civilizado”)43
. Segundo o
intelectual búlgaro-francês,
[o] sentimento de rivalidade homicida que nos leva a impedir os outros de gozar das mesmas felicidades e dos mesmos bens que desejamos para nós, nada mais é senão uma pulsão bárbara presente na História desde Cain às tiranias contemporâneas, onde bárbaro é mais um adjetivo atribuível a um comportamento, a uma ação específica, do que a denotação de um indivíduo ou um povo (Ibidem).
Por este motivo, Todorov une-se aos pensadores convencidos de que as ações
desumanas são coisas humanas44, estando, entre estas, a furiosa e implacável máquina
de extermínio nazista, embora ainda capaz de suscitar perplexidades e estarrecimento.
O próprio Levi transita constantemente entre reações de surpresa diante de um
mundo revirado, louco e incompreensível (segundo suas recorrentes definições) e de
análises pontuais dos mecanismos e hierarquias do Lager, conduzidas com aquele
enfoque etno-antropológico, elogiado por Claude Lévi-Strauss.45 O grande antropólogo
francês, traduzido por Levi na década de 1980 46 e com o qual apresenta as afinidades
descritas por Marco Belpoliti – concepção ética, escrita analítica e ao mesmo tempo
impregnada de clássicos, curiosidade, origem hebraica, estoicismo do pensamento –
ainda serve de inspiração ao breve ensaio “L´intolleranza razziale” (1979)47. O texto
sobre intolerância aborda os atritos entre raças e a aversão para com alguns povos,
utilizando exemplos históricos e zoológicos até delinear a natureza pré-humana do
fenômeno – e dando-lhe assim um caráter quase congênito. Por um lado, o “obscuro
instinto que leva os homens a se reconhecerem diferentes uns dos outros possui raízes
muito antigas” 48, e outras civilizações foram profundamente “infectadas” pela pulsão contra o diferente 49. Por outro lado, a intolerância racial possui origens pré-históricas e
até “pré-humanas” parecendo, portanto, “incorporada em certos instintos primordiais”
43
Ibid., p.34-35. 44
Cf. TRAVERSO, Enzo. Auschwitz e gli intellettua li. Bologna: Il Mulino, 2004, p.210.
45
Nas notas aos textos de Oper e, Belpoliti refere um comentário de Lévi-Strauss a propósito de A cha ve estr ela: “Eu o li com extremo prazer porque não há nada que eu ame mais do que escutar os discursos
sobre trabalho. Sob este perfil, Primo Levi é uma espécie de grande etnógrafo” ( Lévi-Strauss apud Belpoliti, “Primo Levi traduttore”. In OP vol.2 , p.1588, trad.nossa).
46
De 1983-1984 são as traduções para a editora Enaudi de La voie des ma sques e Le r ega r d éloigné, em colaboração com a irmã Anna Maria, que porém não assina, dois livros. (Cf. Belpoliti, ibidem). 47
L´intolleranza razziale, PS, OP vol. 1, pp.1293-1311. Belpoliti sugere a direta influência para este ensaio de Ra ce et histoir e, assim como a marca de Le r ega r d éloigné em Os a foga dos e os sobr eviventes
(Ibidem).
48“L´intolleranza razziale”,
op.cit., p.1295, trad.nossa. 49
de muitas espécies50. Sua propagação se daria como uma “infecção”, o que abre a
possibilidade de ser contida ou tratada: o antídoto contra a manifestação desta patologia
latente provém, segundo Levi, do acionamento das faculdades racionais.
Seguindo a mesma linearidade, indo de um mundo selvagem a uma civilização
“evoluída”, Julia Kristeva inicia seu Étrangers à nous-mêmes, distinguindo de maneira
esquemática “l´étranger qui fut l´ennemi dans les sociétés primitives” e aquele supostamente mais complexo das sociedades modernas, onde uma nova perspectiva
porém aflora: não mais se esforçar em integrar, isto é, anular as diferenças dos
estrangeiros, mas conviver todos como estrangeiros, reconhecendo este estatuto
intrínseco em cada um51.
Embora Levi alertasse contra as tentações de colocar fora da história eventos
desumanos como a Shoá, ele persegue seus conceitos darwinianos e se atém a
posicionamentos de iluminista confiança na razão. Ao mesmo tempo, a partir de
Auschwitz, o nexo estreito entre modernidade e barbárie despontou entre os intelectuais,
de Adorno e Horkheimer (como final do percurso da Aufklärung 52), a Hannah Arendt,
até Zygmunt Bauman, e se juntou aos questionamentos pós-modernos, à superação das
certezas metafísicas e da linearidade do progresso, à necessidade de refundar um
discurso a partir da pluralidade, de um pertencimento instável e do desencantamento
face à história ocidental. A cesura provocada pela experiência de Auschwitz coloca em
cheque a idealização da civilização ocidental e atesta a importância da afirmação
benjaminiana: “Nunca houve um monumento de cultura que não fosse também um
monumento de barbárie”53.
Distante das elaborações filosóficas, Levi cultiva seu talento de observador
empírico, sua escrita se mantém no espaço duplo do estilo claro e analítico e ao mesmo
tempo acolhedor, como veremos, de ambivalências e enxertos. Sua narrativa
desenvolve-se como um grande afresco de uma barbárie totalmente moderna, diante da
qual ele se empenhará constantemente em conciliar a visão de progresso com o evento
50Ibid., p.1299. A mesma ideia retorna no artigo do mesmo ano 1979: “l´antisemitismo è un fatto antico
e complesso, con radici barbariche o addirittura pre-umane, (esiste notoriamente un razzismo zoologico, proprio degli animali sociali)” (Perché non ritornino gli olocausti di ieri e di oggi, PS, OP, vol. 1, p. 1270, o grifo é nosso).
51
KRISTEVA, Julia. Étr a nger s à nous-memes. Gallimard, 2007, p.11. 52
ADORNO, Theodor. HORKHEIMER, Max. Dia lética do escla r ecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
53
trágico que parece redefinir os significados de civilização, atento a não cair na tenta ção
de tornar a Shoá uma terrível exceção.
Sempre promotor da necessidade de compreender, Levi é obstinado a
desmistificar o mito do “indizível”, e, ao mesmo tempo, admite uma limitação na
transmissão de eventos extremos. Segundo Federico Pellizzi, é possível afinar as ideias
do escritor, não o considerando um neo-positivista, mas alguém que, por ter atravessado
a experiência absoluta de Auschwitz, antecipa a visão da geração pós-fenomenológica
de Italo Calvino e, sem abandonar totalmente a confiança na racionalidade, resolve
enfrentar seus limites54.
Evidentemente encontramos a associação estrangeiro-inimigo em muitos textos
de contextualização histórica, como no artigo “Il faraone con la svastica” (O faraó com
a suástica), onde se comentam as políticas fascistas e nazistas relativas aos judeus,
definidos “estrangeiros” e estranhos-alheios: “não passava dia sem que os jornais e as revistas nos definissem estranhos à tradição do País, diferentes, nocivos, abjetos,
inimigos”55
. A uma discriminação similar não resta outra coisa senão responder dentro
do conflito: “Contribuir à luta contra os nazistas era um dever imperioso: eram meus
inimigos, os inimigos da humanidade, agora também da Itália, e a Itália, fascista ou não,
não deixava de ser meu país”56 .
O discurso sobre o totalitarismo vem sendo delineado através da imposição de
uma “estrangeiridade” inimiga. De fato, já no estudo de Arendt, a estrutura do
totalitarismo explicava o antissemitismo como elemento necessário à sua construção,
assim como para Todorov o conceito de estrangeiro-inimigo é produto do pensamento
totalitário, o qual impõe o léxico da guerra a esferas internas de uma sociedade sem
admitir posições intermediárias: quem for assim classificado é percebido sendo um
54
PELLIZZI, Federico. Asimmetria e preclusione. In NEIGER, Ada (Org.). Mémoir e oblige. Riflessioni sull´opera di Pr imo Levi. La bir inti, n.120. Trento: Dipartimento di Studi Letterari, Linguistici e
Filologici, 2009, p.205. 55“Il faraone con la svastica”,
OPvol.1, p.1190, trad.nossa; “non pa ssa va gior no senza che i giornali e le r iviste ci definisser o estranei a lla tr a dizione del Pa ese, diver si, nocivi, a bietti, nemici”.
56Ibid., p.1193, (trad.nossa). “
adversário que seria legítimo e meritório exterminar como a peste57. Levi descreve
como o nazismo colocou rapidamente em prática seu projeto:
Il nazionalsocialismo, ricco dell'esperienza italiana, nutrito di lontani fermenti barbarici e catalizzato sulla personalità di Adolfo Hitler, ha puntato sulla violenza fin dal principio, ha riscoperto nel campo di concentramento, vecchia istituzione schiavista, un "instrumentum regni" dotato del potenziale terroristico che si desiderava, ed ha proceduto su questa via con incredibile rapidità e coerenza (Così fu Auschwitz, 1975, PS, OP vol.1, p.1191).
O nacional-socialismo, fortalecido pela experiência italiana, nutrido de antigos fermentos barbáricos, e catalisado na personalidade de Adolf Hitler, priorizou a violência desde o início, redescobriu no campo de concentração – velha instituição escravocrata – um instrumentum regni, munido do potencial terrorístico desejado, e prosseguiu por este caminho com incrível rapidez e coerência (trad. nossa).
Em SQU, a definição do nazismo como nova “barbárie” é explícita desde as
primeiras páginas, tornando-se barbárie por antonomásia, encarnada pelos agentes das
SS que gritam na plataforma, primeiro sinal do mundo infernal: “O desfecho chegou de
repente. A porta foi aberta com fragor, a escuridão retumbou com ordens estrangeiras e
com esses bárbaros latidos dos alemães quando mandam, parecendo querer libertar -se
de uma ira secular”58
. A imagem sobrepõe-se às demoníacas figuras dantescas e a raiva
“vecchia di secoli” evoca a ligação através do tempo com a medieval Divina Comédia59, como se os oficiais nazistas fossem eles mesmos guardiões dos círculos
infernais. De relance, gostaríamos de observar que outros escritores sobreviventes
retomam a imagem dos latidos infernais. Ruth Klüger, austríaca, fala dos oficiais como
“cães raivosos a ladrar”60
; Boris Pahor, escritor esloveno, que várias vezes cita
implicitamente Levi, reconstrói a cena com os ingredientes de SQU:
o rebanho confuso se despe rapidamente, enquanto do outro lado da encosta, além do arame farpado, o latir dos cães rasga brutalmente a noite, e negros poços de escuridão perdem-se no infinito precipício do nada. “Tempo, tempo!”, apressa a
57
TODOROV, 2009, p.139. 58
É isto um homem?, p.17. “Venne a un tr a tto lo scioglimento. La por tier a fu a perta con fr a gor e, il buio echeggiò di or dini stranieri, e di quei barbarici la tr a ti [nota] dei tedeschi qua ndo coma nda no, che sembr a no da r vento a una r a bbia vecchia di secoli” (SQU, p.12). Como foi observado, a cena estabelece um diálogo com Dante através da comparação com Cérbero, o cão monstruoso do terceiro círculo do inferno: “Grosso granizo, água suja e neve/ pelo ar tenebroso se dispersa;/ fede a terra que dentro em si a teve. / Cérbero, a fera que é cruel, diversa/ com três gorjas caninamente ladra/ sobre a gente que ali está submersa” (ALIGHIERI, Dante. A divina comédia de Da nte Alighier i. Inferno. Canto VI, v.10-15. Tradução de Vasco Graça Moura. Venda Nova: Bertrand editora, 1996, p.71).
59A expressão “dar vento” da citação dantesca (nota acima) perde
-se na tradução. 60