Capa por Samuel Komar
Augusto Komar
A Sombra dos ataúdes
E outras histórias fantásticas
Aos professores que tive ao longo da vida, em especial à Professora Terezinha Braga, responsável por me iniciar no mágico mundo da leitura;
Aos meus filhos Victor Komar, Isaac Komar, Samuel Komar, Sarah Komar e Simon Komar, lírios que enfeitam o meu jardim;
À minha esposa Daiane Komar, a flor mais linda desse jardim, minha grande incentivadora;
E ao Grande Senhor Yahweh, meu Criador e soberano Deus.
“Na ética o mal é uma consequência do bem, assim, na realidade da alegria nasce a tristeza. Ou a lembrança da felicidade é a angústia de hoje, ou as agonias que são tem sua origem nos êxtases que poderiam ter sido.”
Edgar Alan Poe
A Eternidade Em Minutos
Um estrondo. Um estampido talvez. Um grande baque e toda a luminosidade daquela bela tarde de domingo desapareceu dando lugar ao breu total, impenetrável. O nada. Lentamente surgira um ruído incompreensível que foi aumentando um pouco mais a cada segundo. Agora já bem nítido, porém era só isso... Já era possível ouvir vozes ao longe... muito longe:
“O anjo da morte aguarda os condenados”. Ouvia repetidas vezes a mesma frase... “o anjo da morte aguarda os condenados” ... cada vez mais perto, mais e mais.
Com um esforço sem igual se levanta. Um fraco ponto de luz aproxima-se, então se coloca a andar em sua direção. Repentinamente a luz fica mais intensa, como se fosse o final de um túnel. Não tardaria a chegar, mas não parecia ser uma porta ou uma passagem... apenas luz. E tão instantâneo quanto chegara a escuridão, também se fez a luz, como um forte ruído de vidros se quebrando, se viu em meio a uma vasta paisagem. Uma estrada comprida, envolta numa névoa densa, vermelha e espessa. Mas, por fim, estava em algum lugar.
A encruzilhada à frente surgiu com o baixar da densa névoa avermelhada, não sabia que direção seguir.
O cerrado se apresentava respingado de orvalho. Parecia que acabara de amanhecer. “Mas como isso é possível”?
Sua voz interior indagava a si própria incomodando-lhe ainda mais que a merencória paisagem. Pôs-se a caminhar, sem rumo, sem destino. Andou por horas. O sol se fazia escaldante naquele instante. O suor escorria por sua face ressecada, seus lábios apresentavam rachaduras d’onde minava um fino fio de sangue e seus olhos, agora bastante avermelhados, ardiam como em brasa. Quando suas pernas já fraquejavam, arrastando os passos, desfalecendo, pôde avistar ao longe uma pequena e humilde cabana. Bem à sua frente estava o oásis, sua salvação. Arrastando-se como um moribundo rumo à porta, percebe que não havia porta alguma. A casa, em ruínas, com sua cobertura de palha de coqueiro, tinha as paredes cobertas por um reboco de barro entrelaçado com gravetos, estava cheia de buracos irregulares, marcas da ação do tempo. Não era possível ver o que havia lá dentro, pois a claridade do dia ofuscava a visão do interior tomado pela escuridão absoluta. Sem pensar no que o aguardava lá dentro, entrou e misturando-se às sombras ouviu um ranger de dobradiças e um som forte, como um bater de porta. “Isso não está acontecendo, não há porta alguma nesse lugar”, pensou fechando os olhos para depois reabri-los, na tentativa de acostumar-se com o breu e enfim poder ver onde estava exatamente. “Mas... o
que está acontecendo, que lugar é este”? Pensou consigo, espantado com o que via.
Um imenso saguão surgiu à sua frente, com uma decoração de inigualável bom gosto. Janelões com vitrais milenares podiam ser vistos através de cortinas de rendas finas. Tapeçarias retratando cenas de batalhas antigas estampavam as paredes brancas como neve. Poltronas dispostas sobre um piso xadrez, pareciam irregularmente dispostas de frente para uma espécie de trono em madeira escura, todo adornado com arabescos entalhados. Tinha um formato bem singular, era uma sala hexagonal onde quatro de seus lados ostentavam intermináveis corredores com portas de um lado e de outro com monumentais portais e fenomenais guerreiros de mármore com armas colossais nas mãos guardando as entradas e em um canto, logo abaixo dos janelões, uma espécie de piscina com água límpida refletia um lustre com incontáveis velas a iluminar todo o ambiente. Deslumbrado com toda aquela maravilha, deixou-se tomar pela curiosidade. Queria entrar por aqueles corredores. Desejava explorar cada uma daquelas portas. Já rumava em direção a uma delas quando uma melodia doce, suave invadiu-lhe os ouvidos e uma voz grave e roca chamou-lhe a atenção para o trono. Nele surgira como por encanto um homem muito bem aparentado, bem vestido como se estivesse preparado para uma cerimônia festiva do século XVI com
seu fraque preto, mas não um preto comum, era algo como a imensidão, o vácuo do espaço e ostentava um brilho intenso e ofuscante. Tinha longos cabelos loiros, quase brancos. Usava uma barba rala, porém grande. Seus olhos eram tão negros que não permitiam ver o branco e brilhavam como se estivesse tomado por um prazer imensurável. E sua voz era como se falasse através de uma trovoada.
_ Bem-vindo seja!
_ Ah! O que... onde estou? O que houve? Que lugar é este? Quem é você?
_ Tudo ao seu tempo! Uma resposta de cada vez para uma pergunta de cada vez! Vejo que sua curiosidade supera o temor!
A música aumentava a cada momento e agora vozes entoavam um canto... “o anjo da morte aguarda os condenados” ... entoavam em coro... mais alto, mais intenso. E sinos começaram a badalar ao fundo, mas não como os sinos dos campanários das igrejas. Eram sinos
milenares, que soavam com batidas graves a ponto de sentir no coração.
_ Eu o estava aguardando! Está escrito. E o que está escrito sempre se cumpre. Mas permita que me apresente, não sou um mal anfitrião, mas não se espante, pois tenho vários nomes... eu sou a Estrela da Manhã, o Anjo da Noite, o Príncipe do Submundo...
_ Estou morto? Meu Deus... eu estou morto!
_ Como eu disse, tudo ao seu tempo! O tempo é tudo! Esse é o meu reino, o meu domínio, o meu legado e seu D... Esse a quem clamas não está aqui!
_ O que você quer de mim? Por que me trouxe aqui?
_ Ansiedade e pressa são virtudes que admiro...
Eu não o trouxe aqui. Você veio por si mesmo!
O homem então se ergueu do trono, mostrando-se muito mais alto do que parecia. A iluminação do ambiente tornou-se terrivelmente avermelhada, projetando nas paredes a sombra terrível de um ser absolutamente único, inigualável e indescritível. Ele então toma nas mãos uma ampulheta. E na outra uma grande espada que ao ser manuseada emitia labaredas de um fogo azulado, vivaz e eterno. Ele aponta para um dos corredores e diz:
_ Como eu havia dito, o tempo é tudo! Você, Jeremias, tem esse tempo para ver o que há por trás de cada uma dessas portas e ao término deverá estar de volta aqui, nesta sala.
Com essas palavras apontou-lhe o corredor a seguir. O guerreiro que guardava o portal ergueu sua espada como a permitir a entrada. Assustado, amedrontado, mas sem ver nenhuma chance de se opor ele caminha lentamente em direção à primeira porta ouvindo o mesmo canto, agora mais forte. Um calafrio lhe percorre todas as vértebras, mas sua mão trêmula toca a maçaneta abrindo lenta e temerosamente a porta emitindo um estalo, como se não houvesse sido aberta há séculos. A cena que presenciou o encheu de espanto.
Dentro do aposento havia uma orquestra executando a
música que tomara todo aquele gigantesco palácio. A princípio pareciam pessoas normais tocando seus instrumentos majestosamente, mas uma olhada a mais, num momento que já se encontrava totalmente dominado, quase hipnotizado pela melodia, viu que a peça estava sendo executada por esqueletos putrefatos e o odor que vinha de dentro era insuportável. Suas vestes não mais pareciam com os elegantes fraques comuns entre os músicos de orquestras, mas era mortalhas esfarrapadas.
Tinham chamas vermelhas no lugar de olhos, mas o encaravam desafiadoramente. Jeremias bate a porta, petrificado pelo medo permanecendo inerte, recostado na porta que acabara de fechar, perdido no meio daquele corredor sem fim, fitando com temor a porta de frente a qual se encontrava assentado, segurando os joelhos com as duas mãos, como fazem as crianças quando assustadas com pesadelos. Mesmo tomado por intensos calafrios, decide prosseguir.
Hesitante, Jeremias abre a porta do lado contrário, desejando que ali dentro haja algo menos apavorante. O aposento era todo decorado na cor vermelha, com espelhos no teto bem como nas paredes com tochas iluminando o ambiente e atenuando um sentimento de desejo. Não havia móveis, em seu lugar uma imensa almofada também vermelha sobre a qual muitos casais se entrelaçavam numa orgia como nunca antes pudera
imaginar. Homens e mulheres praticando sexo forte, selvagem, grupal. Se retorciam e gemiam alto. Aquela visão despertava seus instintos mais carnais, o excitava muito. Sentia um desejo incontrolável de entrar também naquela cena de sodomia total. Quando seus instintos voluptuosos se afloravam, seu sentido de “sobrevivência”
o despertou. E ao observar melhor, notou que na verdade aqueles corpos nus e envolvidos pela luxúria, pelo gozo, eram apenas um único ser, um híbrido gigantesco com vários sexos, uma criatura bestial que crescia a todo instante com o surgir de novos condenados por seus feitos, seus desvios de conduta, sua infidelidade e a cada fantasia erótica realizada. Aquele animal terrível tinha inúmeras cabeças que se movimentavam com o êxtase infinito, incansável. As cabeças se movimentava agressivamente e todas as direções até que repentinamente começaram a devorar a si próprio num ménage compulsivo de um canibalismo terrivelmente sexy. A criatura monstruosa o encara como a seduzi-lo, convidá-lo. Com o suor escorrendo em seu rosto, o desejo começando a consumi-lo e já não suportando mais aquela visão, ele fecha a porta com força e ofegante, sentindo um misto de desejo e horror se vê novamente parado no meio daquele infindo corredor.
Já não querendo mais continuar, Jeremias permanece pensativo, parado em frente à próxima porta.
“Por que estou aqui”? Seu inconsciente pede para continuar enquanto sua razão pede clemência. Sem resposta, sem saída, sem clemência, ele insiste.
Dependurada na porta uma tábua de cobre ostentava alguns arabescos margeando os dizeres: “morietur in aeternum”. Ele treme, hesita em abrir a porta.
Estranhamente reconhece a inscrição como se o latim fosse seu idioma natal: “Pelos séculos dos séculos morrerás”, era o que dizia. Por um instante, Jeremias permanece inerte tentando compreender o significado daquelas palavras, pois apesar de parecer óbvio, algo lhe soava estranho, até pelo fato de o óbvio ser algo não exatamente comum naquele lugar infernal. Enfim, tomou coragem e abriu vagarosamente até se dar conta do interior. Era uma floresta flamejante ao longe. Uma paisagem devastada. Onde incontáveis árvores retorcidas, num terreno árido de solo arenoso insistiam em existir, como se o ar desértico e austero não tivesse influência alguma. O Calor era tamanho que seu corpo sentia a intensidade, como se estivesse em frente a uma fornalha.
Em cada uma daquelas árvores havia um corpo pregado de braços e pernas abertas. Podia ouvir seus gritos pedindo clemência, misericórdia, mas pelo visto o tempo da misericórdia já havia passado. Jeremias continuou olhando, observando cada um. Seu olhar se fixou em um dos condenados, observando sua fisionomia. Tinha cabelos loiros e longos, barba rala, corpo esguio e olhos assustados de quem viu a morte chegando. Em dado
momento, o homem começou a se retorcer, gemer, gritar.
Da pele daquele pobre ser, brotava vermes que lhe devorava a carne. Da mesma forma ocorrera com todos outros. Vários outros. Incontáveis moribundos convalescendo em suas árvores malditas da mesma forma, cruel e absolutamente severa forma de execução...
uma que até então jamais imaginara existir. Uma que nem mesmo o mais cruel dos algozes nunca teria se utilizado em nenhum momento de toda a história. O céu acima daqueles infelizes, estava repleto de aves que voavam dando rasantes sobre as árvores posando e arrancando pedaços de carne dos moribundos que emitiam gritos de dor ao sentir seus corpos sendo dilacerados até não restar mais nada a não ser ossos secos. Um sentimento de piedade o tomou completamente, mas não conseguia parar de olhar. Pareciam todos mortos, mas por pouco tempo. Aqueles esqueletos lentamente começaram a obter órgãos, carne, músculos, nervos e pele novamente e novamente gritavam tornando à vida... uma vida tão fugaz que mal haveria tempo para indagar a algum o porquê de tanto sofrimento. Voltaram à vida apenas para novamente serem devorados por vermes e pássaros para todo o sempre. Enfim, pôde entender os dizeres na porta.
Sentindo-se impotente diante a tanto terror, andando para trás até estar fora do recinto apavorante, cruzou pela última vez o seu olhar misericordioso com a expressão de terror e aceitação daquele homem condenado.
Jeremias se colocou de joelhos no meio do corredor, percebendo sua infinda insignificância, olhando para o lado e vendo que o corredor não tinha fim...
notando que levaria toda a eternidade para conseguir ver todo o horror existente por trás de cada porta, implorou para que o tempo se esgotasse na ampulheta do demônio, quando um clarão, naquele instante tornou o corredor tão claro quanto o dia. As portas desapareceram uma a uma até que nem mesmo o infinito corredor podia ser visto, como se jamais existira. E ele se viu novamente na presença do majestoso “homem”, na sala do trono, frente a frente com a Estrela da Manhã.
_ Por favor! Não me deixe ver mais!
_ Ainda tenho algo a te mostrar! Seja você a testemunhar o que há dentro das águas do destino... Olhe na fonte e verá os que aguardo! O tempo se esgota para todos, tanto aqui, como na terra e como nos Céus!
O Anjo da Noite apontou para a límpida piscina.
Então Jeremias se viu no reflexo, admirado por não estar deformado, por se encontrar com a mesma aparência que sempre teve. Uma brisa fria percorreu todo o ambiente. A água tornou-se rubra como sangue e seu reflexo deu lugar
a imagem de pessoas comuns. Não conseguindo compreender, olhou para o homem, como a pedir alguma explicação. Não obtendo resposta, prosseguiu a observar.
As pessoas que apareciam no reflexo, eram homens e mulheres todos muito bem vestidos. Pareciam alegres, felizes, ostentando muito dinheiro, mansões inimagináveis, carros importados caríssimos, iates, aviões, entre outras coisas mais. Mas aquela riqueza toda não os livraria de um destino impiedoso. E surgiram outros que se apresentavam em mesas postas com verdadeiros banquetes e comiam de forma a desdenhar da própria comida e deixando cair no chão os seus restos, desperdiçando as sobras de sua gula. Comiam displicentemente, mordendo frutas e jogando fora uma a uma com desprezo. Por fim, mulheres se despiam para uma plateia de homens afoitos que depositavam dinheiro em suas roupas íntimas as tomando nos braços e as possuíam em casas de prostituição enquanto suas mulheres se deleitavam com seus amantes e outras choravam abraçadas aos filhos, sofrendo o abandono que seus maridos lhes impuseram. Por fim, acabou por compreender que aquelas pessoas estavam todas condenadas a passar por todos os horrores que vira nas portas. Jeremias não queria mais ver nada, mas pode pensar quantos castigos terríveis haveriam por detrás daquelas outras portas, reservados para tantas pessoas vis, que desperdiçam suas vidas desfrutando e se deleitando em seus desejos carnais, sem se dar conta de quanto
prejuízo e quanta tristeza vem causando em outras, as quais tem como único erro estar amando. Então parou de olhar para a “água do destino”, encarando o homem. Foi então que ouviu fortes latidos e rosnados na direção da porta. Ao olhar viu um enorme cão, grande como jamais pode imaginar.
_ Este é Cérbero. O guardião!
_ Sempre pensei que ele guardasse a entrada.
_ É um engano comum! Ele guarda a saída! Mas isso não é importante. O que importa é que o seu tempo acabou...
Seu corpo todo estremeceu. Pensou estar condenado. Começou a imaginar qual das portas estaria reservada para passar a sua eternidade. Lembrou de cada um de seus deslizes, de cada mágoa que causou, de cada coração que partiu.
_ Você me perguntou se estava morto e eu lhe disse que tudo tem seu tempo... este é seu tempo...
Nesse momento tudo se tornou em trevas.
Escuridão total. Novamente o breu. Jeremias sentiu seu corpo ser sacudido com força. Seu peito pressionado e dolorido. Muitas vozes vindas de várias direções ao mesmo tempo, até que pode ouvir uma voz se aproximando rapidamente... mais alto... mais forte. Seu corpo balançando cada vez mais. Um forte clarão e:
_ Você está bem? Está me ouvindo?
Enfim acordara deitado no asfalto quente.
Olhando para pessoas de azul e outras de roupas laranjadas... um dos amigos que o ajudara a despertar se encontrava aos prantos. Encontrava-se agora sentado no chão, ao lado de uma multidão que se formou em volta.
Vários curiosos observavam os socorristas do SAMU e do Corpo de Bombeiros que o estavam atendendo, comemorando sua volta após o inexplicável acidente que acontecera há apenas alguns minutos.
Aliança
“... até mesmo o mais cético dos homens pode ver e ouvir um demônio... quando, na mais absoluta escuridão da noite, desejar com toda a sua alma!”
Sebastian lia as instruções em um antigo livro de bruxaria que herdara de sua avó paterna. Seu corpo tremia ao avançar na leitura, mas seu desejo ilimitado por conhecer o oculto apenas era inferior à sua intensa avidez por riqueza e glória, se tornar conhecido, rico, famoso, um excepcional guitarrista. Vinha lendo artigos e estudando sobre magia negra há alguns meses, se preparando para um momento específico, o dia certo, a hora certa. Aquela seria a noite ideal. Haveria um grande evento no céu, uma Lua de Sangue. Sua ansiedade se misturava com a obstinação e uma certa volúpia o consumia com o passar lento das horas. As emoções não o deixavam avaliar os “prós e contras”, mas seu natural ceticismo o levava a duvidar, por alguns breves instantes, o que afetava diretamente em sua decisão. Enfim, estava se aproximando o momento tão aguardado. Àquela hora, já avançada da noite, a lua cheia já clareava as ruas pouco iluminadas do bairro da periferia onde morava e já havia
se iniciado o eclipse. Quase não havia nuvens no céu e em decorrência do horário, poucas eram as pessoas que se atreveriam a transitar pelas ruas, naquele que era considerado um dos mais perigosos lugares para se morar. Ele se põe a caminhar por uma estrada de terra, sem iluminação e por consequência, deserta. Caminhou por mais de uma hora até, finalmente, chegar ao lugar que um amigo o havia indicado. Era um ponto bastante afastado das casas, mas dava pra ver ao longe as luzes da cidade. Um lugar onde duas estradas se cruzavam.
Sebastian observou o local a procura de algum espaço onde pudesse preparar-se para recepcionar a entidade. Ele notou que o local estava repleto de oferendas, bebidas diversas, comidas em pratos, muitas velas, algumas ainda acesas que exalavam um cheiro único que se misturava com o odor da putrefação das carcaças de animais que outrora foram sacrificados ali. Após verificar qual seria o melhor local, entre tantos já ocupados e preocupado em não violar nenhuma oferenda, tendo em vista selecionar um bom espaço, passou a dispor dos objetos que trouxera em sua mochila. Por fim, deu início ao ritual.
Após ter selecionado um bom lugar, tendo feito um grande círculo com sal grosso, afinal não desejava um contato físico que poderia ser muito desagradável ou até mesmo fatal, desenhou um pentagrama, conforme ia lendo no livro de capa dura e páginas já amareladas pelo
tempo. Depositou em cada ponta da estrela invertida uma porção dos quatro elementos dispostos conforme as instruções. Numa ponta uma vela acesa, numa outra um pequeno vaso com água, um incensário na outra extremidade, um vaso com a terra que havia recolhido do cemitério para aquele único propósito, uma adaga cerimonial e um recipiente no centro onde acendeu uma pequena chama sobre ervas aromáticas. Despiu-se e assentou-se no centro do pentagrama. Segurou com firmeza e determinação a adaga e com ela fez uma pequena incisão no pulso esquerdo, deixando que o sangue pingasse sobre os elementos ali dispostos e em seguida passou a recitar a evocação:
“Homo sanguinis pura et munda,
De hac terra immaculatos quattuordecim...
Quod genuina est sanguis,
May ortum est ex odore aeris ut per hoc dulcis aura spirat
Inde fumo flammam castis In hac aqua purum
Cum effuderit sanguinem iustum
Vocatis coram vobis sum nam et ego inde animorum impetus excitetur
Veni ad me.”
“Puro sangue de homem puro, Sobre esta imaculada terra...
Que este sangue genuíno,
Que o odor suba pelos ares ao soprar desta doce brisa Com a fumaça casta deste fogo sagrado
E ao tomar desta água límpida e pura Com sangue justo derramado
Clamo por vossa presença e evoco Vindi até a mim!”
Ao terminar a recitação do diabólico poema de evocação, uma brisa fria começou a rodear o círculo. Um calafrio quase insuportável percorreu-lhe todo o corpo. O fogo da vela já fraquejava ao sopra do vento e o que queimava a oferenda no centro do círculo tornou-se uma grande e forte labareda azul, subindo em espiral a uma certa altura, zumbindo e rodando em torno do círculo de
sal. Sebastian estremeceu, quase se arrependendo, mas manteve-se firme em um tipo transe, sentindo seu corpo balançar num ritmo lento e um cheiro forte tomou conta de todo o lugar. Por fim uma voz grave e rouca ressoou semelhante a um grande trovão. Sentiu o seu sangue gelar, seus calafrios aumentaram significativamente e aos seus ouvidos zumbiam como se uma bomba houvesse estourado ao seu lado.
“Quid tibi vis, insect?”
“Quid ad me voca?”
“O que você deseja, inseto?”
“Porque chama por mim?”
Curiosamente compreendia perfeitamente aquele idioma até então desconhecido para ele. E foi respondendo:
“Desejo fama e riquezas... desejo me tornar um grande músico, um esplêndido guitarrista... quero ser o maior de todos, ser reconhecido!”
“Quae retribuit mihi?”
“O que me oferece em troca?”
Não esperava aquela pergunta, nem imaginava o que oferecer, então respondeu em sua natural inocência de adolescente:
“Uma oferenda, um sacrifício!”
A entidade soltou uma terrível gargalhada. Em seguida o fitou bem fundo nos olhos. Só então pode verdadeiramente ver com quem estava conversando. Era uma criatura singular. Tinha a aparência de homem, mas a princípio parecia estar nu, porém ao observar melhor pode notar um tipo de roupa elástica com uma couraça sobre os ombros e extremidades. Tudo muito complicado de ver porque seu corpo todo era apenas uma silhueta envolto na densa fumaça. Sem pelos, sem sexo, apenas forma. Um par de asas negras parecidas com as de um morcego se abriram em suas costas, uma espada grande pendia sobre uma sinta dourada e o seu olhar era como
lava incandescente, mas profundos, cheios de dor, remorso e tristeza. Da sua boca saía uma fumaça espessa e fétida. Sebastian ficou perplexo com aquela terrível visão e por pouco não notaria o pergaminho que surgira bem ao seu lado, dentro do círculo. Enfim, despertara do transe.
“Nolo vestra hostiam stultum, Sed interest mihi anima tua!
Ego quaeritur te: tu animam tuam sacrifice Subscribere cum sanguine
Veniam autem ad vos adepto per victor tempus tuam”
“Eu não quero o seu sacrifício de tolo, No entanto, sua alma me interessa!
Eu te pergunto, sacrificaria sua alma?
Assine com seu sangue
E virei te buscar ao vencer o seu tempo!”
Compreendeu que o demônio não aceitaria nenhum tipo de sacrifício, ele acabara de dizer que se
assinasse com sangue aquele pergaminho, conseguiria tudo o quando estava desejando. Então tentou ler, mas estava escrito em algum tipo de linguagem muito antiga, desconhecida. Então assinou sem pensar, o desejo pela riqueza e fama era maior que o medo pelo desconhecido.
Assim que terminou, um forte cheiro de couro queimado preencheu o ar e uma fumaça avermelhada tornou totalmente turva a sua visão. Novamente aquela gargalhada infernal o ensurdeceu. Quando a fumaça abaixou, tanto o pergaminho quanto o ser demoníaco haviam desaparecido, assim como todos os elementos que levara. Sebastian passou o olhar por todas as oferendas que jaziam ao seu redor e pensou o quão simplórios foram os que estiveram lá antes dele, o quão vãos foram os sacrifícios e os rituais inúteis e que nada conseguiriam sem pagar o devido preço.
Com o passar dos anos, Sebastian fora esquecendo aquele evento macabro até não restar nenhuma lembrança daquela noite. Havia ingressado em uma banda de rock, gravado o primeiro CD. Estavam em plena tour pelo país inteiro. Seus compromissos eram intermináveis, com shows, apresentações em programas de TV, sessões de fotos para revistas internacionais. Estava no auge da sua carreira arrebatadora. Fãs de todos os lugares mandavam cartas e os pedidos de autógrafos vinham de vários locais.
Não conseguia atender a tantos pedidos e já não havia
tempo para mais compromissos. Havia conquistado toda a riqueza que jamais pensara possuir. Era dono de várias mansões, jatos, carros. Tinha tantas mulheres quanto desejasse. Enfim, seu mundo já não era aquele da adolescência, seus momentos de dificuldades, de pobreza, já não faziam mais parte da sua vida. E o tempo foi passando rapidamente. A banda agora se preparava para participar do maior festival de rock de todos os tempos.
Fizeram fotos promocionais, gravaram clips, propagandas e deram várias entrevistas. Os preparativos foram todos revisados incansáveis vezes. Até que, enfim, chegara o grande dia. O dia mais esperado de toda a sua vida. O sonho de tocar num grande festival estava há apenas algumas horas de ser realizado. Sua banda subiria ao palco principal no mesmo dia em que tocariam seus maiores ídolos, ícones da música que Sebastian jamais imaginaria poder estar dividindo o mesmo espaço. Essa seria a maior oportunidade de sua história. Faria o melhor. Até o maior do mundo o veria realizar o solo mais intenso, forte e bem executado até então. Todo o mundo veria, através das emissoras de TV internacionais e entrariam no mais completo êxtase ao som de sua eletrizante guitarra.
Sebastian era, naquele momento, um jovem bonito. Tinha longos cabelos loiros e lisos. Seus olhos verdes inconfundíveis lançavam para as fãs verdadeiros
disparos de sensualidade. Tinha um corpo esbelto e ligeiramente robusto, com seus 1,85 de altura em suas roupas coladas e cores extravagantes, seus colares, braceletes e sua guitarra preta com botões dourados e contornos pontiagudos vibraram ao ritmo de seu coração ao ouvir o nome de sua banda ser anunciado.
O público de mais de 450.000 alucinados gritavam e pulavam freneticamente com a entrada dos jovens músicos e ao ouvirem os primeiros acordes. E o show começou. Sebastian revezava os vocais com o vocalista e, por vezes, em sua performance se colocava em frente ao baixista, sacudindo a cabeça, fazendo com que seus cabelos balançassem no ritmo daquele som eletrizante e alucinado. Tudo estava indo conforme os preparativos anteriores. Perfeito. Seus companheiros de banda estavam visivelmente felizes. O show estava chegando na metade. O público cantava todas as músicas.
O palco todo escureceu. A plateia em silêncio aguardava pelo que seria o apogeu da apresentação. A guitarra de Sebastian emitiu o tão esperado som e a “Cidade do Rock” explodiu em euforia. Chegara a hora, o grande momento, o auge. A música era a melhor, o grande hit das paradas, a mais aguardada, aquela que Sebastian tanto se preparou para executar. Era um Heavy Metal perfeito, uma música com um espaço muito longo para solo e estava sendo tocada com maestria por toda a banda.
Enfim chegara o seu momento. Sebastian se colocou à frente dos companheiros e iniciou o histórico solo.
Balançou a cabeleira. Levantou um dos braços com um ar um tanto soberbo, jogando o corpo para trás e para frente.
Seu improviso estava tão perfeitamente executado que seus próprios companheiros já se entreolhavam, perplexos com tamanho desempenho. A plateia extasiada.
As câmeras e os holofotes todos se voltavam para aquele jovem guitarrista que agora se ajoelhava de frente para o público enquanto executava o melhor solo jamais tocado, no show mais esperado da turnê internacional. O mundo inteiro o estava ouvindo. Mas Sebastian ouvia uma outra coisa... um grande estrondo! Ao abrir os olhos pode observar que uma sombra terrivelmente monstruosa sobrevoava a multidão. Seu corpo estremeceu, mas continuou tocando como se sua vida dependesse exclusivamente de sua performance. Seus dedos doíam, como se estivessem queimando e seu peito rasgando. Seu corpo parecia flutuar. O solo continuava a fluir de sua guitarra enquanto sentia seu sangue escorrer por seus dedos, umedecendo o braço do instrumento e faíscas saiam das cordas enquanto o público se mostrava cada vez mais eufórico e seus amigos espantados. Sua vista escureceu completamente até não poder mais ver o seu apaixonado público. Agora tudo o que podia ver era um deserto vermelho, com fogo por todos os lados e só o que podia ouvir eram gritos de dor... e aquela gargalhada demoníaca veio a sua mente, trazendo de volta suas
lembranças do passado, voltando à encruzilhada no exato momento em que aquela entidade terrível disse:
“Veniam autem ad vos adepto per victor tempus tuam”
“E virei te buscar ao vencer o seu tempo”
Sentindo todo o horror, com seu sangue na garganta o impedindo de respirar, Sebastian nem conseguiu perceber que não estava mais executando o seu tão bem ensaiado solo, nem que a banda parara de tocar e nem ouvia os gritos de desespero das pessoas que estavam mais próximas do palco. E tudo tornou-se apenas um grande breu às suas vistas.
Naquela mesma noite, todos os jornais do mundo noticiaram a morte de Sebastian o grande guitarrista em pleno palco durante uma das melhores apresentações que jamais houve. Nenhum médico fora capaz de elucidar a causa da hemorragia que resultara no trágico fim da meteórica carreira do famoso músico.
O Sexto Anel
Os amantes da noite, como vagabundos, prostitutas e boêmios como na época fora, não vem o sono como necessidade vital. Algumas horas do dia são suficientes para o relaxamento e quando chega a noite...
ah! A noite aguça os pensamentos, exaltam-se os sentimentos, as emoções ficam a flor da pele e a volúpia toma conta dos mais ávidos amantes. O inimaginável torna-se visível para os adeptos do ópio ou quaisquer outros ácidos, bem como às mais incomuns figuras inebriadas pelas fachadas de neons dos bordeis e completamente imaginável e até palpável em muitos casos para uns poucos indivíduos mais sensíveis frente ao improvável, ao inexplicável... como sonhar acordado. O sonho não é algo comum para quem permanece parte do dia dormindo e a noite toda semiacordado, talvez um whisky a mais fizesse da vida um delírio, enfim.
Nunca havia estado tão cansado, como naquela ensolarada manhã de outono. O mal-estar resultante de uma noite agitada pela mistura quase sádica do álcool, os ácidos e o calor de um corpo feminino, verdadeiramente poderia ser a causa do latejar das têmporas que tanto
incomodava naquele instante... mal podia andar. Eram 10:30 e o sol escaldava as mentes e os corações dos amantes do calor, embora a brisa fria da estação insistisse em minimizar a sensação. Até os pequenos pardais repousavam à sombra, estafados e as folhas dos ipês davam lugar às flores multicoloridas... “interessante como essas árvores tão incomuns florescem fora da primavera”, pensava debruçado sobre as mãos, na janela do quarto. Adormecera sobre a janela, observando o trabalho lento do vento esculpindo formas variadas nas nuvens. E o tempo não dorme, nem devaneia.
“As nuvens formavam rostos belos, novos e velhos, esculpidos pelos ventos e eu os via flutuarem, navegando o límpido azul do céu, mas via também abutres, planando em seu voo majestoso, salpicando de manchas pretas a beleza da imensidão celeste. A suavidade daquele belo e único momento nunca poderia ser abalada. Havia uma melodia doce e suave que invadiu o ambiente vasto e infinito... eu permanecia estático, embriagado pelo devaneio. As belezas que via, não sei dizer se realmente existiam ou se eram apenas uma variação da imaginação como aquelas que as crianças têm, seriam efêmeras. Subitamente mudariam. E houve um grande clarão, um relâmpago talvez, seguindo de um forte e ressoante estrondo que certamente poderia ser ouvido por todo o mundo. Houve gritos de horror, de dor,
medo e uma sensação de solidão principiou-se em minh‘alma. A bela paisagem celeste desaparecera por completo, dado lugar a um céu enegrecido que fora tomando conta do mundo lentamente com o passar do raio, como se o lindo dia de outrora fosse se descortinando, como um véu que se rasga ao meio e se desfaz. E eu apenas acompanhava perplexo a tudo... um evento que julguei sobrenatural. Rapidamente surgiu uma terrível serpente que se arrastava pelo céu denso e negro deixando um rastro de fogo e seu rastro foi queimando o véu da dama da noite e por trás dele foram surgindo estrelas reluzentes enquanto caía e queimava. Tão forte era o calor desse fogo que o sentia passear por todo o meu corpo até subir pelas pontas dos meus dedos.
Estremeci, febril. Então olhei para as minhas mãos e vi surgir, um a um, seis anéis distintos. Foram aparecendo conforme olhava, três na mão esquerda e outros três na destra. Nesse momento, senti um forte sacolejão e despertei em meu quarto... assustado, procurei pelos anéis em minhas mãos, olhando para os lados, procurando sinais de realidade, de alguma sanidade... eles estavam lá.
A paisagem sombria também se fazia presente... a serpente se esgueirava pelas paredes permitindo o surgimento de uma pintura por trás dos escombros do que restara da imagem enegrecida do céu. Procurava entender o que estava havendo... o que seriam aqueles anéis. Até que uma névoa rosada invadiu o quarto, preenchendo o ambiente e com ela uma silhueta angelical se formou a
minha frente. O ser de aparência serena pôs-se a bailar conforme a melodia e foram surgindo novos elementos na pintura... seres que me contavam sobre os estranhos anéis. Eles me foram presenteados em épocas diferentes e tinham como ornamentos pedras preciosas de várias cores e formato. Cada um trazido por alguém ou algum ser diferente e que foram se apresentando e desvendando seus significados.
No dedo mínimo da destra havia um anel com pedra azul e um pequeno menino, tão belo quanto um querubim, com olhos tão azuis quanto a pedra que me entregara, cabelos loiros e uma pele tão branca como a neve, apareceu fazendo estripulias com a brincar. Estava totalmente nu e dizia coisas como: ‘Os mais belos campos cobertos de lis ornam os mais importantes acontecimentos, como o azul da paz do teu espírito e o sorriso nos teus lábios que reflete o ardor das infindas paixões que hão de vir e cobrir de amor a toda a Terra’.
E repentinamente, após dizer estas palavras, dando uma cambalhota tornou-se parte da pintura na parede. Me fitando como aqueles quadros cujo olhar nos acompanha para onde quer que sigamos.
No dedo médio, o anel tinha uma pedra vermelha e vi descer do céu um dragão cuspindo fogo e com o fogo
saía também duras palavras: ‘Vermelho o fogo vem do céu e a vastidão do cogumelo que consome aos homens surge implacável e devastador ao fundo da mais bela paisagem. A dor é maior que a inocência dos jovens e o desejo de vingança domina os corações mais humildes e cheios de paz, fugaz e pérfida é a paz quando não é buscada através do coração’! E tornou-se mais um elemento a completar a pintura da parede.
O anel de pedra verde do dedo anelar surgia junto com um pequeno duende que sorria muito e entre uma cambalhota e outra dizia: ‘Contrasta com o fogo do dragão o verde claro das mais vastas e belas matas deste globo, onde tudo é vida, onde tudo renasce das cinzas dos vulcões e a esperança aguarda uma chance’. E num salto acrobático, único e ágil foi absorvido pela pintura.
Juntamente com o forte reluzir do branco da pedra do anel do dedo mínimo da mão esquerda, a dama do lago ergueu-se majestosa em meio às claras águas: ‘A transparência da tua alma abraça as mais lindas damas e o desejo do teu coração as domina, fascina e seduz como a mim seduziu. A sensualidade do teu ser é arma mortal, dominando-a dominaras o mundo’! E o brilho do seu olhar tornou-se o fundo da pintura.
Era de latão reluzente e sem nenhuma pedra o anel trazido pela prostituta oriental que o colocou no meu dedo anelar como uma aliança: ‘Apossa-te do meu amor e do meu corpo como a este anel! Cortejar-te-ei para todo o sempre, pois sou as musas que cruzarão os teus caminhos, que invadirão o teu coração e se entregarão aos teus caprichos e já circulam em volta de ti como tua língua em meus seios e meus olhos em suas órbitas orgasmaticamente enquanto me invades o ser’. E a pintura ganhou um tom mais sensual, erótico.
Ainda restava um anel, rodeado de diamantes, refletindo as cores dos outros anéis. Mas ninguém apareceu. A escuridão, o medo e a solidão dominaram todos os cantos da Terra. Uma brisa suave balançava as cortinas e como se do nada viesse, até que apareceu uma ave cintilante a sobrevoar o quarto de um lado para outro.
O bater de suas asas emitia um som forte, como um trovão. Ela percorreu todo o mundo e parou frente a minha mão, arrancando do meu dedo o anel, voou rumo à pintura, resgatou todos os que lá estavam e sumiu no horizonte dos meus sonhos. Comecei a chorar compulsivamente... queria de volta a pintura... queria todos lá, mas se foram, levados pela ave. O calor foi substituído por um intenso frio e despertei”.
Já havia amanhecido. Dormira por quase vinte e quatro horas... ao despertar me dei conta que havia passado por um sonho dentro do sonho. Algo que nunca antes acontecera. Um evento singular. Tudo estava como antes. Não havia me levantado. Não estivera debruçado na janela. Minha jaqueta estava jogada em um canto sobre o coturno empoeirado e minha camiseta, com a estampa de uma banda de rock tinha marcas de batom e cheiro de whisky, marcas da noite anterior. Porém havia algo... uma coisa estava fora de cena... uma pequena caixa preta sobre a cômoda me chamou a atenção. Me aproximei, tomei-a em minhas mãos e ao abrir, lá estavam depositados todos os anéis que me queimaram os dedos durante toda a noite. Apenas o sexto anel não estava entre os outros e por fim percebi que o sexto anel significava apenas o equilíbrio entre o sonho e a realidade e surgiria todas as vezes que a capacidade de voltar dos sonhos estivesse ameaçada pelo meu inconsciente.
192 Horas
As tardes de inverno trazem de volta minhas mais ocultas reminiscências, lembro-me de fatos da infância, a inocência, as brincadeiras... “bons tempos”, falo comigo, e fatos que sinceramente preferia não os ter vivenciado.
Dentre esses, alguns bem fortes na lembrança, como se passassem neste exato momento. Outros mais longínquos na memória, mas que vem à tona como se nuvens carregadas se dissipassem e o sol surgisse repentinamente. Angústias, medo, solidão e prazer, tudo numa incrível e quase sádica mistura, que muitas vezes me levam a temer o ruído dos próprios passos ou uma projeção da própria sombra na parede. Imagens vão aparecendo e desaparecendo... uma projeção de slides na minha cabeça... latejo das têmporas... ranger dos dentes e, por fim vejo com nitidez:
Eu tinha dezenove anos quando abracei ao militarismo como uma provável forma de vida... ilusão de jovem que aspira crescimento, respira altivez e vive de sonhos. Durante nove meses tudo correu razoavelmente bem, tudo dentro do considerado normal na rotina de um soldado. Tudo parecia dar certo. Mas aquela altivez
desaparecera, os sonhos se tornaram em outros ideais, a rotina já não era mais tão aceitável... e veio a repentina mudança nos objetivos. Não queria mais ser militar, não aspirava mais por uma vida de privações e subserviência... assim, o mais desejável era que o tempo do período obrigatório corresse como o vento, logo poderia me ocupar com outras vontades, experimentar outras ideias. Foi quando, por um motivo vago, sem muita relevância e porque não dizer involuntário, fui levado a passar alguns dias na SIC (Seção de Investigação e Captura) do Batalhão de Infantaria do VI Comando Aéreo Regional. Estava preso, recluso como um bandido. Não achava que era para tanto... não aceitava aquilo como medida punitiva, mas como uma arbitrariedade de um comando insano e vil, que ao meu ver, não possuía a menor equiparação com a inteligência que imaginava ter. Mas não havia volta, estava condenado, a poucos dias, mas condenado.
A cela, quase como um quarto com cerca de 3 metros por 2,5m, tinha uma porta comum de madeira, uma grade por fora e uma mesinha num canto. Havia uma cama que rangia tanto que preferi colocar o colchão direto no chão. E uma janela gradeada muito alta pela qual vez por outra, para fugir da solidão podia ver o jardim externo do batalhão e ouvir o cantar dos pássaros.
O tempo enclausurado faz do homem indigno de sua própria compaixão. O torna rude, primitivo, duro e o faz mudar de aparência e até de personalidade. Durante o tempo que passei naquela clausura, me tornei tão frio quanto o próprio ambiente de ar pesado, sujo e fétido. Os dias se passavam lentamente e contava as horas e devorava livros para não perder os sentidos. No entanto, sentimentos muito diferentes passaram a me dominar. Já não dormia. Via vultos e sombras pelos cantos a me espreitar e, vez ou outra, uma voz doce e gentil me sussurrava coisas aos ouvidos... coisas agradáveis as vezes e coisas cruéis a todo instante. Quando conseguia dormir, acordava de súbito, assustado e trêmulo. Numa certa manhã, após uma noite atípica de sono, acordei com a incômoda certeza de ter passado toda a noite na companhia de uma mulher... “transamos a noite inteira”, pensei. Incrivelmente meus pensamentos eram afirmativos... “transamos sim... tenho certeza, mas... com quem transei”? Foi um longo dia. Longo e mórbido! A falta da mulher que estivera comigo me apunhalava o coração... a ausência de uma lembrança retorcia aquele punhal que sentia adentrar o peito. E a voz sussurrada e suave me veio soprar aos ouvidos: “... você gostou, eu sei”! Era quase meio dia e ela não parava. Uma tristeza incontrolável me assolou como num nocaute. “Você está horrível... está mal por estar aqui! Mas eu posso resolver isso... posso tirar você dessa clausura... você quer”? Ela parecia ouvir meus pensamentos. Não consegui comer a
refeição que o recruta me trouxe. “Me diz... você quer sair? Você me quer? Vou tirar você daqui hoje ainda...
vamos dançar na chuva que virá para resfriar a noite...
será uma longa noite... os demônios vão dançar ao nosso redor... seremos dois demônios dançando na chuva... e o mundo vai parar”! Depois daquelas palavras, ela se foi.
Senti sua falta durante boa parte da tarde. “A solidão é bem pior que a voz que me assombra”, pensei enquanto procurava algum pedaço de papel para escrever uma carta. E eis que relatei tudo pelo que estava passando, meus sonhos sensuais, meus transes alucinados, as visões das sombras e os vultos que se deslocavam na cela por todos os lados. Enfim, tudo confidenciei naquele pedaço de papel a um grande amigo:
Brasília, 07 de maio de 1994.
“Caríssimo amigo Alan
Das sombras renasce o caos, quando só há traição e injustiça, onde toda obra termina, onde nada tem explicação, na morte premeditada... o fim! Se por um lado existe o medo, por outro há uma singular beleza na solidão do quarto vazio (uma cela) e frio... o mortiço! As paredes brancas, manchadas pelo tempo estampam
lutuosamente o macabro ritual que presenciara...
expressa em poucas palavras, a poesia da morte:
‘Daqui de baixo
Parece não haver saída E nunca vou alcançar o teto!
Equívoco!
Posso transpassar a parede E seguir rumo à liberdade...
Sim, posso passar através da parede Eu vi isso na TV,
É simples!
Enfim a lâmina passa E escorre dos meus pulsos O que há de valor em mim
E aquilo que apenas eu posso tirar de mim...
A dignidade!
Não me arrependo e assino...
1ª Turma de 1991’
Não é lindo? Sua assinatura avermelhada, estranho eu não conseguir ler o nome, mas torna o ambiente mais atrativo e agradavelmente lúgubre... é como flores no jardim, como a natureza morta a ornamentar a sala de jantar. Assentado ao piso de tacos envelhecidos, já sem brilho e coberto de poeira, fitando o teto branco, deixou- se a esperar que a última gota do néctar da vida escorresse por entre as frestas dos tacos. A morte enfim chegara e sobre o lago escarlate agora dorme por toda a eternidade. Observe a beleza dos fatos embora tenha o infeliz cometido a maior das covardias que se possa cometer! É estranho ver a morte de perto, meu amigo.
Ela não é um monstro! Ela é linda como a imensidão do espaço. Ela fala como se beija os lábios de quem está apaixonado. Eu transei com ela ontem... sim... seus cabelos negros me cobriram como a noite, me enlouqueceu completamente, me arrepiando e provocando os mais intensos delírios diante ao eterno e infinito limbo que era o seu corpo. Ela vai me tirar para dançar esta noite.
Sem mais, G. Maximilan”
O dia seguinte veio de repente. Nem mesmo notei o passar das horas. Estava frio... muito frio. Uma névoa tensa cobria o jardim que eu sempre via ao subir na janela. O sabiá que sempre cantava no ipê roxo ao lado da cela estava calado. Névoa estranha que insistia em adentrar o meu aposento, bem como parecia querer adentrar também a minha alma. Eu me sentia flutuar e observei que havia alguma coisa escrita no canto da parede, bem próximo ao rodapé, então me debrucei ao chão para alcançar e enfim poder ler. Era um poema escrito à caneta preta e assinado de vermelho, um vermelho muito escuro, quase marrom. A coisa mais original e singularmente terrível que jamais vira. Mas eu não pude alcançar, não consegui ler. Ouvi um forte ruído de dobradiças rangendo. Alguém estava entrando. Vários soldados. Eu passei o ver tudo de cima. “Ainda estou sonhando”, pensei. Um dos homens, dava ordens. Os outros, com fardamento branco, carregaram algo para fora da cela. Um enorme embrulho. Não consegui ver o que era. Falavam sem parar. Uns pareciam estar muito consternados. Vasculharam tudo. Por fim, ficaram apenas dois e eu pude ouvir o que diziam:
“O que é isso escrito na parede? Parece uma poesia”... Um soldado se debruçou e leu:
Daqui de baixo
Parece não haver saída E nunca vou alcançar o teto!
Equívoco!
Posso transpassar a parede E seguir rumo à liberdade...
Sim, posso passar através da parede Eu vi isso na TV,
É simples!
Enfim a lâmina passa E escorre dos meus pulsos O que há de valor em mim
E aquilo que apenas eu posso tirar de mim...
A dignidade!
Não me arrependo e assino...
S2 G. Maximilian 1ª Turma de 1991”
Estavam lá as memórias do suicida, seus medos e delírios expressados naqueles poucos versos. Confesso
que senti calafrios por todo o corpo. Depois de analisar e muito pensar, o medo deu lugar a curiosidade e passei a tentar imaginar como teria sido seus últimos momentos, reproduzir a cena mentalmente. O que faria em seu lugar?
Que sentimento levaria um homem ao extremo? As respostas eram as mais variadas e a vastidão de possibilidades me cansavam e esgotavam os pensamentos. Pensar que houve um suicídio naquele mesmo lugar onde me encontrava era de arrepiar realmente, porém eu achava o medo algo benéfico naquele momento. Tantas perguntas e nenhuma resposta!
Algo estava muito estranho. Minha companheira, a voz sensual, não havia me agraciado ainda. Queria muito saber quem eram aqueles homens e o que retiraram da minha cela. E adormeci. Um sono profundo e até mesmo sonhei com o fato, sonho este que supriu a minha necessidade de saber sobre o caso, já que ninguém me diria se perguntasse. Em meu sonho a voz me dizia: “...
192”! Apenas isso me dizia... até que vi a porta da cela se abrir e parei nela, observando o pátio, todos os homens em forma para o hasteamento da bandeira... fiquei em posição de sentido... prestei continência e depois saí...
sim... eu saí da cela após ouvir a voz sensual e doce me dizer: “... estás livre”!
Nunca mais seria o mesmo após aqueles oito dias terríveis e belos que passei “hospedado” na maldita SIC, o poema ficou gravado em minha memória e para ser sincero me senti como se não fosse eu o próprio S2 G.
Maximilian e provavelmente teria enlouquecido se não tivesse me ocupado em contar as horas para passar o tempo... foram 192 horas exatas até que as grades se abriram.
Ainda visito o lugar. Ainda me vejo sobre os tacos desalinhados da cela fria e vazia. Sim... ninguém nunca mais foi preso na minha eterna cela.
Fui encontrado no dia seguinte por um amigo que fora visitar-me. Estava branco como neve, mas ostentava um estranho e leve sorriso, como se a morte fosse a coisa mais bela que vira nos últimos dias de minha agonia, sorriso que deve ter se utilizado de minhas últimas forças.
Ao meu lado havia uma lâmina de um barbeador quebrado e uma caixa de cigarros pela metade, um livro de Edgar Alan Poe e um pequeno toca fitas com uma fita onde apenas uma música se repetia e em seu refrão a frase: all you need is love.
A Sombra dos Ataúdes
Impera o silêncio nas ruas estreitas. O soar do sino da igreja anuncia o lutuoso momento. Em passos lentos o cortejo surge no alto da ladeira. Enquanto os homens se revezam nas alças, as senhoras, todas de preto, entoam cânticos religiosos e alguns cochicham paralelamente.
Lágrimas escorrem por trás dos óculos escuros. Há flores nas mãos das crianças, o olor dos crisântemos é exalado e pode-se senti-los de longe. A cena é a mesma que há anos se repete, quando algum dos poucos moradores “parte dessa para uma melhor”.
Essa é a vez da Srta. Luana, filha do leiteiro. A pobre vinha sofrendo há dez dos seus quinze anos de uma doença degenerativa que nem os médicos tinham explicações ou tratamento. É realmente triste sepultar alguém tão jovem, com toda a vida pela frente. Não é fácil conciliar os sentimentos e a necessidade do emprego, assim as lágrimas enchem os meus olhos ao passo que a minha pá joga para fora a terra, a mesma que em alguns instantes cobrirá a pobre Srta. Luana, a mesma vem cobrindo a muitos. Sete palmos duros de cavar e