De quem é a rua, a casa e a escola?

Texto

(1)

D E Q U E M É A R U A , A C A S A E A E S C O L A ? zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

(WHOSE ARE THE STREET, THE HOUSE ANO THE SCHOOL?)

R E S U M O mlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

E ste tr a b a lh o a n a lisa a sp e c to s d o P r o g r a m a

" C r ia n ç a fo r a d a r u a , D e n tr o d a e sc o la " , p r in c ip a

l-m e n te o s r e la tivo s a e sc o la e fa m ília d a s c r ia n ç a s e

jo ve n s a te n d id o s. P a r a ta n to , n u m p r im e ir o m o m e n to

a p r e se n ta m -se a s c a r a c te r ístic a s g e r a is e , e m se

-g u id a , a b o r d a m -se o s se g u in te s te m a s: c o n te xtu a

-liza ç ã o e su r g im e n to d o p r o g r a m a , p a r c e r ia s e n tr e o s

o r g ã o s g o ve r n a m e n ta is e n ã o g o ve r n a m e n ta is, fa to

-r e s d e in o va ç ã o , a s -r e la ç õ e s c o n st-r u id a s n o s e sp a ç o s

d a r u a , e sc o la e fa m ília , o s r e fle xo s d o p r o g r a m a n a

c o m u n ic a ç ã o e n tr e o s a g e n te s p ú b lic o s e a so c ie d a d e

c ivil e , p o r fim , a lg u m a s liç õ e s d e ssa e xp e r iê n c ia .

Palavras-chave: criança, família, escola, rua

A B S T R A C T

Th e p r e se n t stu d y o f " C h ild r e n O u tsid e O fTh e

Str e e t, C h ild r e n ln sid e Th e Sc h o o l " a n a lyse s th e b a sic

p o in ts o fth e P r o g r a m : th e sc h o o l, th e c h ild r e n a n d th e ir

fa m ilie s. AIfir st, it g ive s a n e xp la n a tio n a b o u t lh e g e

-n e r a l c h a r a c te r istic s o fth e P r o g r a m o Ne xt, th e fo llo wi-n g

p o in ts a r e d isc u sse d : (I) h o w th e P r o g r a m wa s r a ise d ;

(2 ) th e p a r tn e r sh ip o f th e G o ve r n m e n ta l a n d No n

G o ve m m e n ta l O r g a n iza tio n ; (3)th e in n o va tio n a g e n ts;

(4 ) lh e r e la tio n sh ip s c o n str u c te d in sid e th e o b se r ve d

sp a c e s, su c h a s: str e e t, sc h o o l, fa m ily; (5) th e

c o m m u n ic a tio n b e twe e n lh e p u b lic a g e n ts a n d c ivic

so c ie ty; (6)so m e th in g le a r n e d fr o m th is e xp e r ie n c e .

Keywords: children, family, school, street

KELMA MATOSFEDCBAI

I N T R O D U Ç Ã O

Este artigo discute aspectos básicos do Progra-ma "Criança fora da rua, Dentro da escola", utilizan-do dautilizan-dos obtiutilizan-dos em pesquisas realizadas nos anos de

19972 e 1999, através de observação, pesquisa

docu-mental, visitas, e entrevistas semidirigidas com os res-ponsáveis pelo Programa, educadores sociais, diretores

de escola, professores, representante do Centro

Regi-onal de Desenvolvimento da Educação' (CREDE 21),

alunos atendidos, egressos, famílias beneficiadas e

desligadas. A tessitura destes dados será apresentada

a seguir, abordando o surgimento do programa, seus

objetivos e parcerias; os fatores de inovação dessa

proposta de trabalho com crianças "de e na rua";

al-gumas dificuldades e possibilidades para a criança nos

espaços da rua, da casa/família e da escola e por fim

as lições desta experiência, desenvolvida no Ceará,

com atuação centrada em Fortaleza.

O P R O G R A M A E S E U C O N T E X T O

Há no Brasil mais de 4.245 meninos e

me-ninas" confinados em internatos e instituições

asseme-lhadas, em razão de práticas consideradas delituosas.

A sociedade vê crescer assustadoramente a fome, a

miséria, a violência, inclusive nas escolas' e, em

con-seqüência, aumenta o número de meninos e meninas

que buscam sua sobrevivência nas ruas, seja através

do trabalho, seja por meios violentos.

Através de uma pesquisa realizada pela

Secre-taria de Trabalho e Ação Social (SAS) e Sistema

Na-IProfessora da Universidade de Fortaleza. Doutoranda em Educação do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Ceará

2Ver Matos, Kelma. Criança Fora da Rua, Dentro da escola. In: Fujiwara L. M., Aléssio, N. L., Farah, M. F. (orgs). 20e xp e r iê n c ia s d e g e stã o p ú b lic a e c id a d a n ia . São Paulo: Programa Gestão Pública e Cidadania. 1998

JO CREDE é um órgão de atendimento e acompanhamento às escolas, criado para descentralizar os serviços antes realizados pela Secretaria de Educação e Delegacias Regionais de Ensino. O CREDE 21 também incorporou nos seus trabalhos a linha dadescentralização, organizando o atendimento por regiões a 194 Escolas, Liceus e Centros Supletivos

4Ver BARROS, Andréa. Quando é bom ser muito perigoso. Ve ja , São Paulo, ano 30, n. 41. 15.10.97

IWEIS, Bruno, PADILLA, Ivan. Perigo! E sc o la ./sto É . Edição 1544. 05.05.1999. p.102-107

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O S IzyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

cional de Emprego (SINE) em 1994, estimou-se

ha-ver em Fortaleza cerca de 5.692 meninos e meninas,

em locais estratégicos da cidade, trabalhando para

ajudar suas famílias, além de 184 crianças morando nas ruas".

Esses indicadores serviram de alerta para a

ne-cessidade de realizar-se um melhor atendimento a

crianças e adolescentes em situação de risco pessoal e

social, complementando a atuação da Secretaria de

Trabalho e Ação Social em projetos como ABC's, Pólo

Central de Atendimento ao Menino e Menina de Rua

(Albergue), Núcleo de Iniciação ao Trabalho

Educativo, Casa do Menino Trabalhador, Casa da

Ju-ventude, Atleta do Ano 2000, Criança Feliz,

Circo-Escola Respeitável Turma e S.O.S Criança'.

Das reflexões de uma equipe de técnicos da

Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor do Ceará

(Febemce) sobre como otimizar as diretrizes de

tra-balho surgiu em janeiro de 1996, o "Projeto Vale

Cidadão", que passou a chamar-se "Programa passos

para a Cidadania", colocando-se como medida

emergencial para crianças e adolescentes em situação

de mendicância.

Este Programa transformou-se no "Criança fora

da rua, Dentro da escola", cuja proposta consiste em uma série de ações e parcerias entre o poder público, o setor empresarial e a sociedade civil" , no sentido de

arrecadar recursos junto aos três parceiros; abordar

crianças e adolescentes na rua e reconduzi-los à

famí-lia e à escola; garantindo-se às famílias, além de

ori-entação para o trabalho, a complemori-entação inicial de

renda por seis meses, que foi ampliada, de acordo com depoimento dos técnicos, para um ano. Outra modifi-cação foi com relação à faixa etária de crianças e

ado-lescentes atendidos, que constava nos documentos

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entre 7 e 14 anos e passou para O a 18, em virtude dos

encaminhamentos feitos aos demais familiares.

De acordo com o Conselho Municipal de

Di-reitos da Criança e do Adolescente (COMDICA) há

em Fortaleza cerca de 469 instituições? trabalhando

com a problemática das crianças e adolescentes, em

situação de risco pessoal e social. São organizações

governamentais estaduais e municipais, organizações

não governamentais, associações de moradores,

es-colas, centros espíritas e outros órgãos assistenciais.

Entretanto, percebe-se que a problemática da criança

nas ruas é bastante presente, assim como ainda é alto

o índice de analfabetismo entre jovens e

adolescen-tes!". O Censo Educacional Comunitário de 1996

pesquisou 219.438 famílias, atingindo 80% das

crian-ças e adolescentes entre 6 e 1mlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

i

anos de idade, e

cons-tatou que na faixa de 11 a 17 anos há 5.700 crianças e

adolescentes analfabetos (7,63%). Dos 133.400 entre

6 e 17 anos, 16.132 estavam fora da escola (12,09%).11 Neste contexto, o "Criança fora da rua, Dentro da escola" propõe-se a retirar a criança da rua, procurando reduzir a prática de infrações e de mendicância, assim como afastar outras crianças - irmãos da criança benefi-ciada - de semáforos e praças da cidade. Para tanto atua

através de abordagens em pontos estratégicos da cida-de, realizadas por 57 educadores sociais; visitas

domici-liares para o cadastro das famílias; obtenção do

compromisso dos pais de que seus filhos freqüentarão a

escola; encaminhamento de crianças e adolescentes a

escolas, creches e programas socioeducativos e encami-nhamento das famílias à Fundação de Ação Social. Para atingir as metas a que se propôs tem por objetivo princi-pal garantir a admissão e a permanência de crianças e adolescentes nas escolas públicas e nos programas sociais, governamentais ou não-govemamentais.

6De acordo com a referida pesquisa 27,4% da população de Fortaleza tinha entre 05 e 17 anos, ou seja, havia cerca de 480.000 pessoas nesta faixa etária

7Para maior detalhamento ver" Relatório do Planejamento das Ações". Departamento de Ações Preventivas e Profissionalizantes. Secretaria de Trabalho e Ação Social. Fortaleza. 1997

8A responsabilidade do Programa é da Se c r e ta r ia d e Tr a b a lh o eAç ã o So c ia l e d a F u n d a ç ã o E sta d u a l d o Be m -E sta r d o M e n o r d o C e a r á , que têm como parceiros: a Fundação de Ação Social (FAS), Secretaria de Educação Básica do Ceará, o Sistema Nacional de Empregos (SINE), a Secretaria de Saúde do Ceará (SESA), a Secretaria de Segurança Pública (SSP), o Juizado da Infância e Adoles-cência, o Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente (CEDECA), a Delegacia de Combate a Exploração da Criança e do Adolescente, a Polícia Militar de Fortaleza, o Conselho Tutelar da Criança e do Adolescente, a classe empresarial e a sociedade civil. Para um maior detalhamento ver E ta p a s C h a ve s d e im p le m e n ta ç ã o d o P r o g r a m a c r ia n ç a fo r a d a r u a , D e n tr o d a e sc o la . Fortaleza. Setembro. 1997

9Conforme "Listagern de Entidades Registradas no COM DICA". A Fundação da Criança da Cidade (FUNCI), órgão municipal. também atua com as crianças nas ruas de Fortaleza, realizando visitas domiciliares e reuniões com os pais; encaminhando as crianças abordadas com sucesso às Unidades Militares (onde funciona o Projeto "Integração da Criança à Sociedade" atendendo jovens de 14 a 17 anos) ouàEscola Ambiental Semear (crianças de 7 a 12 anos). Nestes locais, realizam-se atividades socioeducativas e profíssionalizantes, no período em que as crianças não estão na escola

1 0Ver Crianças e Adolescentes: indicadores sociais do município de Fortaleza por bairros e setores censitários /IBGE, Departamento de

População e Indicadores Sociais. Rio de Janeiro. IBGE. 1996

I ICenso Educacional Comunitário de Fortaleza - 1996. Secretaria da Educação Básica. Coordenadoria de Planejamento e Modernização Educacional. Diretoria de Estatística Educacional (DEE), 1996

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Das empresas, onde era esperada uma maior participação relativa aos recursos, garantidos pela Lei federal 8.069/90, art.260 - que permite o repasse de 1% do Imposto de Renda, devido pelos empresários e

população em geral, através da compra de Bônus

-constata-se ainda dificuldades na arrecadação. Outras

dificuldades, indicadas pela Coordenação do

"Crian-ça fora da Rua" são a inexistência de um local para

retaguarda, por exemplo, de um Centro de atendimento e internação para crianças viciadas em drogas; a

ne-cessidade de maior articulação e apoio da Secretaria

de Educação; a falta de disciplina nas universidades

que tratem dessa questão e sobre o Estatuto da

Crian-ça e do Adolescente. Ressaltam que seria necessário

investir no esclarecimento da população sobre a

cida-dania das crianças e a função social do Programa.mlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

H á a inda uma cobr a nça da socieda de pa r a que

o P r ogr a ma r esolva tudo. Nã o compr eendem

que o menino tem cida da nia e por ta nto dir eito

de ir e vir . Alguns quer em que o educa dor dê

um jeito em tudo, que pr enda m. Ta lvez pr

eci-sa sse a inda ma is de escla r ecimentos, de

divul-ga çã o do pr ópr io P r ogr a ma e ta mbém de outr os

ór gã os pa r ceir os. (CoordenadoradoCriançaFora

da rua,Dentroda escola)A

F A T O R E S D E I N O V A Ç Ã O

As inovações trazidas pelo Programa "Criança fora da rua, Dentro da escola" são o trabalho

integra-do entre órgãos governamentais, no sentido de formar

uma rede de assistência, envolvendo também as famí-lias dos menores em situação de risco pessoal e

so-cial; a prevenção à permanência na rua dos irmãos

dos menores atendidos, e o lançamento de campanhas

na mídia local, principalmente no início do projeto,

alertando a popu-lação para não reforçar a mendicân-cia das crianças. O Programa trouxe, ainda, uma mu-dança na imagem da Febemce!".

Os educadores sociais trabalham com uma

far-da conhecifar-da por a ba dá . Atualmente são chamados

de os a ma r elinhos, e facilmente identificados, o que

se por um lado pode trazer alguma dificuldade com

as crianças no processo de abordagem, por outro

deixa claro para a população as ações que estão sendo realizadas.

A concessão de "Bolsa Aprendizagem"- cujo

valor varia entre 5 0 % e 1 0 0 % do salário minirnc" ,

em função do número de filhos - também pode ser

considerada uma inovação do programa. Esta bolsa é repassada às famílias, segundo critérios predefinidos, tanto para a concessão, quanto para o desligamento, funcionando como estímulo efetivo à permanência das crianças na escola.

Os critérios para o repasse são: comprovação de renda per capita de até 30% do salário mínimo;

assinatu-ra de um termo de responsabilidade pelo qual os pais comprometem-se a enviar todos os filhos para creches e

escolas públicas"; participação nos programas

socio-educativos e de capacitação profissional e geração de renda. O desligamento ocorre quando forem descumpridas as condições preestabelecidas; não haver mais necessi-dade do subsídio ou no término de prazo de seis meses. (Projeto. 1996:6). Como foi citado anteriormente, com a

verificação de que o período determinado para a bolsa

era exíguo, houve uma ampliação do prazo para um ano.

Sã o r a r a s a s fa mília s beneficia da s que a pr

esen-ta m a pena s um dependente e qua ndo é só um

dependente é só uma bolsa . Va r ia de seis meses

a um a no a bolsa e a té ma is qua ndo h á

necessi-da de, na medinecessi-da que sã ofeitos osdesliga mentos, vã o

entr a ndo novos gr upos

(AssistenteSocialdoCrian-çaForada Rua,DentrodaEscola).

De junho a dezembro de 1996, primeiro

semes-tre de atuação do Programa, foram abordadas e

ca-dastradas nas ruas de Fortaleza cerca de 2.536 crianças

e realizados 2.724 encaminhamentos, sendo 492

fei-tos para a escola e a grande maioria, 1.304, para os

ABCs. Nos três meses seguintes (janeiro a março de 97), o número de abordagens diminuiu, alcançando a média de 130 por mês, para em seguida, no período

compreendido entre abril a setembro de 1997,

elevar-se para 148 abordagens por mês."FEDCBA

1 2Uma adolescente, em entrevista concedida à autora, explicou que nas primeiras vezes que foi abordada pelos educadores sociais do

programa, fugiu porque outros jovens haviam dito que o carro era da Febemce (entrevista realizada no Circo-Escola. Conjunto Palmeiras em 29.09.97). Hoje, de acordo, com depoimento de uma educadora (13.06.99) algumas mães fortalecem a imagem de que as crianças devem temer os amarelinhos: "Menino, se não entrar em casa, os amarelinhos vão te pegar", mas acrescenta que não existe mais o receio de serem enviados para o Juizado de Menores, como ocorria antes da implantação do Programa

1 3FEBEMCE. Q u a d r o d e m o n str a tivo d e Bo lsa -Ap r e n d iza g e m . Fortaleza. setembro, 1997

14Todos os meses as mães devem levar para a reunião a comprovação de pelo menos 90% da freqüência de seus filhos à escola e ABC's para receberem a bolsa

15Programa Criança fora da rua, Dentro da escola. Relatório do Atendimento Geral (até 31.12.96: até 31.03.97; até 29.09.97: até 30.04.99). Fortaleza, Cearà. 1999

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D E Q U E M É A F A M í L I A ? D E Q U E M É A

E S C O L A ? D E Q U E M É A R U A ?zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Foram beneficiadas, até agosto de 1997,4.062

crianças e adolescentes, ou seja, 66% do total das que

se encontravam nas ruas. Ainda de acordo com os

dados do programa, houve um índice de 80% de

per-manência nos encaminhamentos para escola e

progra-mas socioeducativos.

O foco nas abordagens tem sido, em 79% dos

casos, centrado na faixa etária entre 7 e 16 anos" . De

um total de 5.583 atendimentos em Fortaleza, 3.225

foram crianças entre 12 e 16 anos, e 1210 entre 7 e 11

anos. A experiência de umamlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAed u ca d o r a so cia l reafir-ma este resultado:

Em Fortaleza é alta a proporção de domicílios chefiados por mulheres (23,3%)20. Em alguns bairros,

como o Centro da cidade, em 40% das casas

verifica-se esta situação.FEDCBAÉ normal a participação em

progra-mas sociais, em conseqüência do seu rendimento

mensal, em 62% dos casos chegando, no máximo, a dois salários mínimos. Destas, 39% recebem apenas um salário" . Com relação ao Programa faz-se a

mes-ma observação. A grande maioria das mães é gestora

das bolsas, assim como também chefe de família".

A g en te a ten d e d e zer o a 1 7 ,q u a n d o visita

o s ir mã o s. Na s a b o r d a g en s é ma is 8, 1 3 , 1 2

a n o s. O s en ca min h a men to s q u e sã o p a r a o s

ABC : S d e 7a 1 7 . A p a r tir d e 16r eco men d a

-mo s q u e a mã e p r o cu r e q u e ele fa ça lo g o u m

cu r so profissionalizante, e d a mo s en ca

mi-n h a memi-n to ta mb ém p a r a o Nú cleo d e Tr a b a

-lh o E d u ca tivo .

A ma io r ia sã o mã es solteiras. Op a i co n viveu

p o u co temp o efo i emb o r a , a mã e su sten ta 3 ,

4filh o s, a s vezes d o is o u u m, r eceb e a b o lsa esse

d in h eir o é p a r a d ivid ir co m to d o mu n d o p a r a a

a limen ta çã o . E la s r ecla ma m p o r ca u sa d o co r te

p o r q u e q u a n d o sa em n ã o têm o q u e fa zer , a té p r o

-cu r a m emp r eg o ma s n ã o en co n tr a m ...(Técnica

do ABC do BairroV) Os dados apresentam ainda, desde o início do

Pro-grama, o repasse de 27.134 bolsas (R$ 1.751.569,00)17.

Sendo formados 26 grupos atendidos, com cerca de 50 famílias em cada um deles. Em contrapartida 668 famílias já foram desligadas (até 015° grupo)".

A proposta assemelha-se, em alguns pontos, ao

Programa Bolsa- Escola" , de Brasíl ia, que após três anos de funcionamento conseguiu demonstrar resultados in-teressantes como a redução de 860 para menos de 600 crianças na rua; a baixa no índice de evasão escolar de

10% para 0,4%; o índice de repetência é de 8%,

en-quanto a média geral é de 17%; atinge mais de 20.000 famílias, com a participação de 42.480 crianças.

A aquisição das bolsas eleva o status dos

bene-ficiados, antes totalmente negado no bairro pela

au-sência de uma renda mensal. Assim, os pequenos

comerciantes tornam acessíveis as compras a prazo,

sem ultrapassar o limite do recurso concedido,

segun-do atesta o depoimento de uma mãe.

Aí melh o r o u min h a filh a p o r q u e n in g u ém

q u er ia me ven d er fia d o p r á co mer , co mo

vo cê sa b e eu a n d a va p ed in d o , d ep o is q u e

en tr ei n o p r o g r a ma eu co mp r o n a s b o

-d eg a p r á p a g a r co m essa s b o lsa , a g en te

16Quantitativo das Crianças e Adolescentes cadastrados por localidade de Residência (Fortaleza). Programa Criança Fora da Rua, Dentro da Escola. 1996 - 1999. Observou-se que entre 2 e 6 anos, 281 crianças foram beneficiadas. O quantitativo referente aos jovens com mais de 16 anos foi de 845 casos

17Cf. Tesouro Estadual. Q u a d r o d e m o n str a tivo d e d e sp e sa s (m a io /9 6 a a b r il/9 9 ). Ver ainda E vo lu ç ã o fin a n c e ir a d o fu n d o e sta d u a l d a c r ia n ç a e a d o le sc e n te . Documento emitido pela SAS em 29.09.97

18Atualmente são repassadas 1000 bolsas, cada uma no valor de R$ 68,00. Ver D a d o s c o m p le m e n ta r e s - D o 1°a o 22" G r u p o .

01.06.99. Programa Criança fora da rua, Dentro da escola. Fortaleza, Ceará

19""Casae escola. Governo do Distrito Federal ajuda crianças pobres e também seus pais". Ve ja . Edição 1516, ano 30. n.40. 08.10.97.

20Crianças e Adolescentes: indicadores sociais do município de Fortaleza ...o p . c it

21Depoimentos colhidos em uma reunião, em 1997, da qual participaram 36 mães de crianças atendidas pelo programa, expressaram: a sua situação de carêncía, a ansiedade em perder a bolsa concedida (descumprimento dos critérios e término do prazo); a dificuldade em organizar/chefiar uma família de muitos filhos, sem condições de oferecer-Ihes uma vida digna com escola, moradia e alimentação. O mesmo quadro apresentou-se em 1999 por ocasião da coleta de depoimentos e observação de uma reunião de repasse da bolsa com cerca de 50 mães

22 De 3568 crianças atendidas de jun/96 a dez/97, 1568 moram com os pais, 1426 só com a mãe, 94 só com o pai e 480 com outros familiares. Observa-se que mesmo os que moram com os pais tem em grande maioria a mãe como gestora do beneficio. Ver Secretaria de Trabalho e Ação Social! FEBEMCE/ Programa Criança Fora da Rua, Dentro da Escola. "Cadastrados por condições de Moradia Familiar, segundo os grupos de localidade de Fortaleza". Fortaleza. 1997

(5)

se a pega com a bolsa e na bodega o povo

vende a té o tota l da quele dinheir inho, a í

diz: "P r onto a gor a nã o dá ma is, no pr

ó-ximo mês você compr a de novo. "zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA(Mãe

participante do Programa, cinco filhos)

Afirmam que o dinheiro não supre todas as ne-cessidades mas garante, por um período, a

alimenta-ção para poderem pensar em outras estratégias de

sobrevivência. Os Centros Comunitários, através do

Serviço Social" tentam contribuir para que ao

térmi-no do recurso, existam alternativas de trabalho e

melhoria de vida. Nessa parceria percebem-se

dese-jos e esforços em atender a família, o que não se

con-cretiza satisfatoriamente, dada a fragmentação da

política social, expressa na falta de continuidade do

trabalho, de recursos financeiros e de pessoal.

Nos centr os comunitá r ios a s a ssistentes socia is

nã o sã o suficientes pa r a o númer o de fa mília s

a tendida s. P or exemplo, no ba ir r o "x" sã o 196

fa mília s pa r a ser em visita da s por uma a ssistente

socia l (...) nã o fa zem visita s por conta da fa lta

de tr a nspor te, por que é só uma a ssistente

soci-a l.(EducadoraSocialdo Programa)

P oder ia a umenta r os r ecur sos pr á gente

po-der ir ma is vezes, esta r ma is per to a compa

-nha ndo, por que tem ca sos que a gente se sente tã o

sem condições de a juda r que tir a do pr ópr io

bol-so por que estã o chor a ndo, pedindo. Épositivo

por que pelo menos nã o estã o na r ua , estã o em

uma a tivida de dentr o do centr o e em a lguns ca sos

melhor a m (Coordenadorado CentroSocialY)

A dificuldade em encontrar trabalho, devido a

falta de formação básica e qualificação profissional,

é outro fator decisivo que mina resultados mais

rápi-dos e eficazes esperarápi-dos pelo Programa.

Sófiz começa r um cur so ma s nã o pa ssei, er a de la va deir a . Nã o pa ssei no teste de escr ever .

E u hoje la vo r oupa e engomo na comunida

-de. Sustento os meninos peleja ndo, tr a ba lhei

dois meses na pr efeitur a . As vezes nós va i pa r a

a r ua por que é o jeito (Mãe desligada,4 filhos.

Grifomeu).

Em relação a parceria com as escolas, algumas anunciam a falta de uma equipe interdisciplinar para tor-nar o trabalho mais consistente. Observam-se casos de indisciplina acentuada, utilização de drogas, e os

profis-sionais de educação reclamam que não contam com um

serviço especializado nem pa r a seus pr ópr ios a lunos.

Inicialmente, em grande parte das escolas, o acesso das

crianças encaminhadas pelo programa, foi visto como

um tr a ba lho a ma is: controle de freqüência mensal,

ava-liação de comportamento e conteúdos, e o próprio lidar

com umacr ia nça de/na r ua . Processualmente, com um

trabalho de sensibilização" , foram acontecendo mudan-ças, mas em muitas instituições ainda paira o rótulo "do

menino, da menina que é da Ação Social" e que

portan-to deve ser mais acompanhado por quem o trouxe para

a escola.

A sugestã o é que a Açã o Socia l nã o fica sse

somente na a ná lise da s ficha s, tr ouxesse

téc-nico ca pa cita do que a escola nã o tem. Oa

lu-no está pr esente na escola , é a luno do P r ojeto

F or a da r ua , D entr o da escola . Agor a nem

sempr e o a luno do pr ojeto é o ma is da na do ...

(Diretorade EscolaQ)

Os técnicos do Programa concordam que

de-veriam contar com uma equipe para resolver casos

mais especiais, como por exemplo com meninos

dro-gados, porque não há instituições locais de

interna-mento, para tratamentos mais rigorosos, quando o

menino está na rua e perdendo totalmente os

víncu-los com a família. Outro empecilho verificado é com

relação ao número de vagas, que foi ampliado, mas

com a matrícula única muitas crianças foram

enca-minhadas para outros bairros, tendo de pegar

ôni-bus, onerando a renda e ficando sem condições de

freqüentar diariamente as aulas.

Vou e vejo a escola se sentindo impotente

di-a nte de di-a lgumdi-a s situdi-a ções. Se o pr oblemdi-a é com

dr oga s, só em você ir à instituiçã o se sente ma is

a poia da . Tem a lguém pa r a pa r tilha r o pr

oble-ma , embor a nã o r esolva . Na s r euniões fa lo que

tem ca sos que ultr a pa ssa m o limite do pr ogr a ma

e da escola (Pedagogado Programa)

23 As famílias são orientadas para buscar a profissionalização durante esse período em que estão recebendo o benefício. São feitos encaminhamentos para auxílio à moradia, balcão de emprego, financiamento para instrumental de trabalho, serviços de saúde. cestas básicas, documentos, entre outros. Ver FARrAS, Rosélia. M. F. M. de. C r ia n ç a s e m situ a ç ã o d e r isc o e m F o r ta le za : o Programa "Criança fora da rua, Dentro da Escola" no contexto do enfrentamento à pobreza. Monografia de especialização. UECE.1998

24No Programa há duas pedagogas da Febemce. Participam de reuniões mensais por Região do CREDE buscando a sensibilização. pedido de um tempo para o Programa na pauta. Encaminham ofícios para os Diretores e visitam as escolas onde há problemas

(6)

s Acreditam que precisa ser feito um trabalho de

sensibilização ainda maior para concretizar cada vez

mais essa parceria, porque o aluno encaminhado tem

direito à escola tanto quanto os outros.mlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

A esco la p r ecisa ter meio s p a r a a tr a ir esses

men in o s. Nã o p a ssa r esse p r eco n ceito p r a cr

i-a n çi-a d e q u e ele é d ifer en te, é d i-a n i-a d o d emi-a is.

H o je mesmo u ma mã ezin h a a q u i fa lo u q u e a

esco la d isse q u e o men in o er a d e r u a e isso p r

e-ju d ica , sem d ú vid a (EducadoraSocial)FEDCBA

É interessante a discussão acima porque

gran-de parte dos meninos e meninas encaminhados pelo

programajá freqüentavam a escola", utilizando a rua

como espaço para trabalho e liberdade, no outro

ex-pediente. Algumas vezes vão acompanhados pelas

mães, noutras "reinam" sozinhos onde, além da

so-brevivência, conseguem a "posse" do lugar, que não

é de ninguém, e é de todos. A rua é deles, talvez mais deles que a escola, que a família. Na rua se

identifi-cam, aceitam-se entre si. Fogem da kombi do

Pro-grama, conversam com as pessoas, contam histórias

e estórias. Na rua intimidam, aprendem artes e

peri-go. Na rua correm periperi-go. Fica difícil trocar a rua por

locais menos atrativos, menos fascinantes. Fica

difí-cil prescindir da "liberdade", com riscos, mas

liber-dade ... fica difícil freqüentar num expediente a escola,

noutro fazer atividades, sendo a rua agora espaço proi-bido. Eles sabem, às vezes, dos perigos, das drogas,

das gangues, do envelhecimento precoce, do trabalho

noturno que explora" , da prostituição infantil, da

po-lícia que prende e às vezes bate, mas precisam de

uma escolha que ofereça vantagens mais imediatas,

precisam de locais que os acolham, onde os

enten-dam, que tenham prazer em ficar, precisam de

res-postas imediatas e firmes para a fome e miséria que

os empurram para a rua.

Q u a n d o p a sto r a va ca r r o tin h a p er ig o lá , e

mu ito mesmo . Tin h a a g a n g u e d o ca stelo q u e

to ma va m o d in h eir o meu e d o Tiã o ...(Criança

egressado programa- 13anos)

Ten h o 14,ia p r á p r a ia p ed ir . E r a n o Ná u tico a í

q u a n d o a feir a d o Ná u tico ta va se a ca b a n d o

ia p r á Ir a cema e d ep o is p r á ca sa . E u e ele

a í, q u e tem n o ve a n o s. Vo lta va tr ês h o r a s d a

ma n h ã . Se a mã e d eixa r d e r eceb er eu vo u

vo lta r a p ed ir , n ã o vo u d eixa r mo r r er d e fo me,

n em r o u b a r , n em d eixa r min h a mã e se

p r o stitu ir , vo u p ed ir (Criança participando do

programa).

o

"pavor" em perder a bolsa também é

demons-trado pelas mães que apresentam um discurso onde

aparece a falta de perspectiva, a dependência do

bene-fício, a falta de horizontes para o "depois da bolsa". Temem inclusive ser "cortadas" antes do prazo final e

para que isso não aconteça, conversam com os filhos para não pedirem na rua, para .c.ontinuarem indo à

es-cola, mesmo quando falta o vale-transporte, para não

se atrasarem nas atividades do ABC, e ameaçam que

vão voltar pra rua quando findar o recurso.

Se fo r p r á ser co r ta d o n ó s va mo s p ed ir d e n o vo

p o r q u e n ó s n ã o tem d e o n d e tir a r , n ó s n ã o tem

d e o n d e tir a r n a d a (Mãe participantedo

Progra-ma.3 filhosGrifomeu).

De acordo com as informações da

Coordena-ção do "Fora da Rua, Dentro da Escola" o índice de

reincidência às ruas é de apenas 5%. Os depoimentos

indicam que mesmo alguns que recebem a bolsa,

uti-lizam outras estratégias para pedir: vão às casas de

família ou em locais menos conhecidos dos

educado-res sociais.

J á foi encontr a do na ca sa de uma instr

uto-r a u m mo n te d e men in o lá p ed in d o e d

isse-r a m tia vo cê mo r a a q u i? E a í co r r em

p en sa n d o q u e a g en te va i d izer e va i ser

co r ta d o . M a s isso é a n ecessid a d e d e co

mi-d a mesmo (Técnica de Informática do ABC.

Bairro V).

É visível que o período da bolsa, mesmo tendo

sido ampliado, em alguns casos até para dezoito

me-ses, ainda é pouco tempo em relação ao processo

desestruturador que vem atingindo essas pessoas.

Se-ria interessante repensar um prazo mais estendido

mes-mo após o encerramento, fazer um acompanhamento

25Das 3.568 crianças cadastradas até 1997,2.143 estudavam, 1.096 não estavam estudando na época e apenas 329 nunca haviam estudado. Secretaria de Trabalho e Ação Social/Programa Fora da Rua, Dentro da escola. "Cadastrados por condição de escolaridade. segundo os grupos de localidades". Fortaleza,jun/dez.1997

26Sobre a situação mundial de exploração do trabalho infantil conferir: Fundo das Nações Unidas para a Infância. Situ a ç ã o M u n d ia l d a In fâ n c ia 1997. 8rasília: UNICEF. 1997

(7)

2 7zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAPara um maior aprofundamento sobre a questão da formação do educador social de rua ver GRACIANI, Maria Stela S.mlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAP e d a g o g ia so c ia l d e r u a : análise e sistematização de urna experiência vivida. São Paulo: Cortez: Instituto Paulo Freire.1997. Ver ainda, GADELHA

(1998) sobre a atuação dos profissionais do social que trabalham com a menor- idade

mais próximo de todos os que já participaram do

pro-grama. Se isto não for repensado, é grande o risco do investimento feito se perder.

Vo cê a ch a q u e co m meia b o lsa tem co n d içã o

d e se so b r eviver ? E u fiz a visita a u ma mã e,

(..) eu ch eg u ei lá n em p ã o p r á d a r a s men

i-n a s ela tii-n h a . E sse mês éoú ltimo mês d o g r u

-p o d ela . Ser á q u e está cer to d a r u ma a u xílio

d e seis meses, d e u m a n o ? (..) d ep o is d e ter

-min a d a a b o lsa ter ia d e ser d a d a u ma a

ssis-tên cia a essa fa mília , n ã o sei se p sico ló g ica ,

p r o fissio n a l, ma s ter ia q u e ser feito , eu n ã o

ten h o co n h ecimen to se se fa z (Técnico de

Es-portes do ABC. Bairro V)

As crianças e adolescentes também param de

freqüentar as atividades alternativas por problemas

de deslocamento. Morando em locais de difícil

aces-so, correm riscos até chegar à escola ou aos ABC's,

e nesse tempo "livre", se houve profissionalização,

passam a trabalhar no que conseguem, se não for

desta forma, a rua os espera, com dentes afiados e

braços abertos.

E les vem d e p é e vã o d e p é, n ã o tem va le-tr a n

s-p o r te, a tr a vessa n d o r io , se vo cê vêfica h o r

-r o -r iza d a . G a sta 3 0min u to s a té a b eir a d o r io ,

q u a n d o ch eg a lá tem u ma tá b u a d o ta ma n h o

d essa mesa co m d u a s câ ma r a s d e a r , o h o

-mem a ma r r a a q u i n a cin tu r a e a á g u a n o o

m-b r o p a r a p a ssa r essa s cr ia n ça s, u m d ia d esse

oh o mem ta va b eb o , so lto u fo i tu d o d en tr o e

ia mo r r en d o tu d o er a a fo g a d o (Mãe

participan-do participan-do Programa-três filhos)

No r ma lmen te q u a n d o o men in o é co r ta d o

eled esa p a r ece d a q u i, mu ita mã e d iz q u e só

Vin h a p o r ca u sa d esse d in h eir o p o r q u e mo

-r a m d ep o is d o r io (Professora de Reforço

doABC)

Para os técnicos, o que garante que a criança

não retome às ruas é a permanência da mãe no

Cen-tro Comunitário, para tanto faz-se imprescindível

acompanhamento e atendimento continuados às

fa-mílias desligadas. Assim, é necessário a

formula-ção e implementaformula-ção de políticas sociais federais,

estaduais e municipais, que visem a família como

um todo, na perspectiva de assegurar resultados

sig-nificativos.A

L I Ç Õ E S D A E X P E R I Ê N C I A D E S E N V O L V I D A

o

programa consiste em idéias e ações

sim-ples e com possibilidades de eficácia, no sentido de

redirecionar a população às políticas públicas já

exis-tentes, desestimulando a permanência das crianças

e adolescentes nas ruas, e tornando mais

transpa-rentes para as famílias as oportunidades de trabalho.

Dentre elas, destaca-se a proposta de articulação

entre órgãos estatais, no sentido de atender a

crian-ça e sua família, através da garantia da freqüência à

escola (Secretaria de Educação Básica), da

capacitação para o emprego (SINE) e o acesso a

outros projetos socioeducativos.

Outro fator a ser ressaltado é a bolsa destina-da às famílias, que tem um sentido social mais amplo

do que a "simples retirada" da criança da rua, pois

garante as condições mínimas de sobrevivência econô-mica. Por outro lado, seria interessante que o número

de famílias beneficiadas pela "Bolsa-Aprendizagem"

fosse maior, assim como o prazo de recebimento desta

complementação de renda, mesmo tendo sido

amplia-do. Somado a isso, como já foi indicado, o

acompa-nhamento às famílias desligadas é essencial para o

sucesso do trabalho.

As parcerias apresentam-se mais fortes com

al-guns dos órgãos e projetos governamentais,

especial-mente com os ABC's, através do encadeamento do

trabalho com as crianças e suas famílias. Com a Secre-taria de Educação Básica observa-se uma ligação cres-cente, precisando alcançar ainda um elo mais firme,

com articulação planejada e resultados mais eficientes. A proposta de retirar a criança da rua e

mandá-Ia à escola, expressada de forma clara pelo

progra-ma, traz uma característica inovadora que aponta para

a formação da cidadania. No entanto, este também

é, ao mesmo tempo, um dos pontos frágeis porque

há que se investir no acompanhamento pedagógico e

psicológico, para a adaptação e permanência da

cri-ança na escola, visando a sua ressocialização.

A atuação e formação dos educadores" têm

sido aperfeiçoadas nos últimos dois anos. Em 1999 os

educadores participam de diversos treinamentos,

(8)

pacitando-se para o tratamento adequado com

crian-ças e famílias.FEDCBAÉ importante dinamizar ainda mais essa

capacitação"', assim como possibilitarmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAC u id a r m a is d o

c u id a d o r , de acordo com as palavras de uma

educado-ra social. O educador de rua é um pesquisador e

preci-sa refletir sistematicamente sobre a sua interação com

as "diversas identidades em construção". Assim é

ne-cessário formação e cuidados permanentes.A

R E F E R Ê N C I A S B I B L I O G R Á F I C A S

BARROS, Andréa. Quando é bom ser muito perigo-so. Ve ja . Ediçãol517. Ano 30. N. 41. 15.10.97. p.98-103.

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___ o Q u a n tita tivo d a s C r ia n ç a s e Ad o le sc e n te s C a -d a str a -d o s p o r lo c a lid a d e d e Re sid ê n c ia

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SECRETARIA de Trabalho e Ação Social!

FEBEMCE/ Programa Criança Fora da Rua, Den-tro da Escola. C a d a str a d o s p o r c o n d iç õ e s d e M o

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WEIS, Bruno, PADILLA, Ivan. Perigo Escola! Isto

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TESOURO ESTADUAL. Q u a d r o D e m o n str a tivo

d e d e sp e sa s (maio/96 a abril/99).

28As mães reclamaram que alguns educadores quando as encontram nas ruas em situação de mendicãncia fazem abordagens que as deixavam envergonhadas e culpadas pela situação de pedintes. " O s a m a r e lin h o se vo c ê vaip r a p r a ia p e r g u n ta o q u e vo c ê tá fa ze n d o a q u i? P e d in d o e sm o la . Vo c ê n ã o te m m a r id o n ã o ? Te m m a s éd o e n te m e n ta l. Vo c ê te m q u a n to s filh o s? Tr ê s. Te n h a ve r g o n h a vá tr a b a lh a r , vá c r ia r se u s filh o s q u e vo c ê ém u ito n o va . M a s m o ç o e u n ã o p o sso d e ixa r m e u s filh o s só n ã o p o r q u e m e u m a r id o já to c o u fo g o n a m in h a c a sa tr ê s ve ze s, a í p r o n to e le s p a ssa r a m u m c a r ã o p o r q u e to d o s p a ssa m m e sm o " .(Mãe participando do programa.

Três filhos)

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Referências