UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE EDUCAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO
PATRICIA SERPA DE SOUZA BATISTA
ÉTICA
NO
CUIDADO
EM
SAÚDE
E
NA
FORMAÇÃO
UNIVERSITÁRIA NA PERSPECTIVA DA EDUCAÇÃO POPULAR
PATRICIA SERPA DE SOUZA BATISTA
ÉTICA
NO
CUIDADO
EM
SAÚDE
E
NA
FORMAÇÃO
UNIVERSITÁRIA NA PERSPECTIVA DA EDUCAÇÃO POPULAR
Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação, do Centro de Educação, da Universidade Federal da Paraíba, inserida na linha de pesquisa Educação Popular, como requisito para obtenção do título de doutor.
Orientador: Profo. Dr. Eymard Mourão Vasconcelos
B333e Batista, Patrícia Serpa de Souza.
Ética no cuidado em saúde e na formação universitária na perspectiva da educação popular/ Patrícia Serpa de Souza Batista. - - João Pessoa: [s.n.], 2012.
196f. : il.
Orientador: Eymard Mourão Vasconcelos.
Tese (Doutorado) – UFPB/CE.
1. Educação popular. 2. Ética-Educação popular. 3. Formação ética – Estudantes universitários. 4. Ética - Cuidados em saúde.
PATRICIA SERPA DE SOUZA BATISTA
ÉTICA NO CUIDADO EM SAÚDE E NA FORMAÇÃO UNIVERSITÁRIA NA PERSPECTIVA DA EDUCAÇÃO POPULAR
Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação, do Centro de Educação, da Universidade Federal da Paraíba, inserida na linha de pesquisa Educação Popular, como requisito para obtenção do título de doutor.
Aprovada em: ____/____/____.
BANCA EXAMINADORA
____________________________________________________ Profo. Dr. Eymard Mourão Vasconcelos – Orientador/PPGE/UFPB
____________________________________________________ Profº. Dr. Volnei Garrafa – PPGBioética/ UnB
____________________________________________________ Profª. Drª. Solange Fátima Geraldo da Costa – PPGENF/UFPB
__________________________________________________ Profº. Dr. José Francisco de Melo Neto – PPGE/UFPB
Aos participantes deste estudo, por sua valiosa
contribuição para a concretização desta
investigação, a partir da descrição de suas ricas
vivências no campo da ética na educação popular
AGRADECIMENTOS
A Deus, fonte de vida, por ter me concedido essa oportunidade de aprendizado e permitido
que recebesse a ajuda necessária ao êxito deste estudo;
Aos meus pais, Hugo e Sônia, pelo amor incondicional, pelo exemplo de caráter e de
generosidade e por terem me ensinado o valor e a importância do estudo;
Ao meu marido Joubert, que, com seu apoio e compreensão, muito contribuiu para a
concretização desse objetivo;
Aos meus filhos, Priscila, Joubert e João Pedro, que souberam compreender os momentos de
ausência, incentivando e apoiando a realização deste trabalho;
Ao orientador e amigo, Profº. Dr. Eymard Mourão Vasconcelos, por ter acreditado em mim,
pelas valiosas contribuições e pela disponibilidade durante o desenvolvimento deste
trabalho;
Aos professores Dr. Volnei Garrafa, Drª. Solange Fátima Geraldo da Costa, Dr. José
Francisco de Melo Neto e Dr. Severino Bezerra da Silva, por terem aceitado participar da
banca examinadora e por suas relevantes contribuições;
Aos professores Dr. Júlio Alberto Wong Un e Dr. Luiz Gonzaga Gonçalves, pela
participação como membros suplentes da banca, e à Dra. Maria Eliane Marques Duarte de
Souza, pela contribuição na banca de qualificação;
Ao coordenador e ao vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Educação,
professores Dr. Charliton José dos Santos Machado e Dr. Erenildo João Carlos, pelo apoio
durante o curso;
À chefe do Departamento e a ex-chefe do Departamento de Enfermagem Clínica, professoras
Dras. Maria das Graças Melo Fernandes e Maria Júlia Guimarães Oliveira Soares, bem como
aos professores e colegas que fazem parte deste Departamento, especialmente, os da área de
Enfermagem Clínica, pelo apoio recebido;
A todos os colegas do Doutorado, especialmente: Ana Cláudia, Clécia, Eleni, Goretti,
Lucinete, Nelsânia, Rossana, pelo convívio e crescimento adquirido em conjunto;
Aos participantes do Grupo de Pesquisa Educação Popular em Saúde: Ana Cláudia, Ana
Rita, Betânia, Dailton, Gildeci, Kátia, Marísia, Pedro, Socorro, pelo apoio e pela
colaboração;
Às amigas Solange Costa e Emília Limeira, pela amizade, pelo apoio e pelos incentivos
constantes durante toda a caminhada do Doutorado;
À amiga Socorro Trindade, pelo exemplo de persistência e coragem e pelo apoio em muitos
momentos dessa caminhada;
À amiga Gladys Ximenes Quintans, pelo estímulo e apoio incondicional, durante toda a
trajetória deste trabalho;
À diretoria da Associação Comunitária Maria de Nazaré e à equipe da Unidade Básica de
Saúde local, pelo apoio e colaboração recebidos;
Aos funcionários do Programa de Pós-Graduação em Educação, pela disponibilidade no
decorrer do curso;
RESUMO
BATISTA, P. S. S. Ética no cuidado em saúde e na formação universitária na perspectiva da educação popular. 2012. 196f. Tese (Doutorado) - Centro de Educação, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2012.
A educação popular em saúde inclui ações que envolvem as dimensões do diálogo, da problematização, do respeito e da valorização do saber popular. Atua também numa perspectiva política direcionada à busca por concretização de mudanças na realidade, de justiça social, trazendo, portanto, uma concepção específica de ética para a saúde e para a formação universitária. Este estudo objetiva analisar a ética nas ações educativas e de cuidado orientadas pela educação popular em saúde, com base na experiência de estudantes do projeto de extensão universitária, Educação Popular e Atenção à Saúde da Família (PEPASF), e analisar a formação ética de estudantes universitários na perspectiva da educação popular em saúde, com base na experiência do referido projeto. Partimos do pressuposto de que a ética, norteada pela educação popular em saúde, envolve uma concepção dialógica e problematizadora, que transpõe a perspectiva de cumprimento de códigos de ética profissional, usualmente valorizados nos ensinos em saúde, e que abrange a preocupação de estudantes com a justiça social. Trata-se de uma pesquisa qualitativa realizada numa perspectiva dialética. O cenário da investigação foi a Comunidade Maria de Nazaré, localizada no Município de João Pessoa – PB. Participaram da pesquisa cinco docentes e quarenta estudantes do PEPASF, três ex-extensionistas discentes, duas lideranças comunitárias, três agentes comunitários de saúde e seis moradores da comunidade. A coleta de dados realizou-se durante o ano de 2010, mediante utilização das técnicas de observação participante, grupo focal e entrevista. Foram também utilizados como fontes de dados empíricos, sete depoimentos escritos por seis estudantes e um ex-extensionista discente, para compor um livro sobre o PEPASF. O material empírico foi submetido à análise de conteúdo temática, originando dez categorias temáticas, dentre as quais destacam-se: o contato inicial do estudante com o âmbito comunitário e o processo gradativo de formação do vínculo com as famílias; aproximação do estudante com uma perspectiva ética integralizadora do cuidado no contexto familiar; o envolvimento com as lutas políticas comunitárias; o aprendizado da convivência com tensões e conflitos e a convivência ética entre professor e estudante no desenvolvimento do Projeto. Essa análise de dados deu origem a reflexões sobre a ética nas ações educativas e de cuidado de estudantes orientadas pela educação popular em saúde e sobre a ética norteadora da formação pedagógica de estudantes na perspectiva da educação popular em saúde. Este estudo possibilitou a confirmação de que a ética na perspectiva da educação popular no cuidado em saúde e na formação envolve principalmente a metodologia do diálogo e da problematização da realidade e a preocupação com a justiça social e que apresenta também o vínculo afetivo como estruturante de ações éticas. Desse modo, o estudo contribui para a construção de uma ética diferenciada no campo da saúde, norteada pela educação popular.
ABSTRACT
BATISTA, P. S. S. Ethics in the care in health and in university education in the perspective of popular education. 2012. 196f. Thesis (Doctorate) – Center of Education, Federal University of Paraíba, João Pessoa, 2012.
The popular health education includes actions involving the dimensions of the dialogue, the problematization, the respect and the appreciation of popular knowledge. It also operates in a policy perspective directed to the search for implementation of changes in reality, of social justice, bringing, thus, a specific conception of ethics for the health and for the university education. This study aims to analyze ethics in educational and care actions guided by the popular health education, based on the experience of students from the university extension project, Popular Education and Attention to the Family‟s Health (PEAFH), and analyze the ethical training of university students from the perspective of popular health education, based on the experience of that project. We assume that ethics, guided by popular health education, involves a dialogical and problematizing conception, which transposes the perspective of compliance of codes of ethics, usually valued in teaching health, and that includes the concern of students with social justice. This is a qualitative research conducted in a dialectical perspective. The investigation scenario was the Maria de Nazaré Community, located in the city of João Pessoa – PB. Participated in the survey five teachers and forty students of PEAFH, three ex students from the extension, three community leaders, three health community agents and six community residents. Data collection took place during the year of 2010, by use of participant observation techniques, focal group and interview. Were also used as empirical data sources, seven statements written by six students and an ex student from the extension, to compose a book on the PEAFH. The empirical material was subjected to thematic content analysis, originating ten thematic categories, among which stand out: the initial contact of the student with the community and the gradual process of formation of bond with the families; approximation of the student a complementizer ethics perspective of care within the family; and the involvement with political struggles of the community; the learning to live with tensions and conflicts and ethical living between teacher and student in the development of the Project. This data analysis gave rise to reflections on ethics in educational and care actions of students guided by popular health education and about the guiding ethics of pedagogical training of students in the perspective of popular health education. This study enabled the confirmation that ethics in the perspective of popular health education in the care of health and in formation mainly involves the methodology of dialogue and problematization of reality and the concern with social justice and also shows an affective bond as structuring of ethical actions. Thus, the study contributes to building a differentiated ethics in the health field, guided by popular education.
RESUMEN
BATISTA, P. S. S. Ética en cuidado en salud y en la formación universitaria desde la perspectiva de educación popular. 196f.Tesis (Doctorado) - Centro de Educación, Universidad Federal de Paraiba, João Pessoa, 2012.
La educación popular en salud incluye acciones que envuelvan el dialogo, la problematización y la valoración del saber popular. Actúa también una perspectiva política hacia la concreción de cambios en la realidad, de justicia social, aportando, sin embargo una concepción específica de ética a la salud y la formación universitaria en salud. Este estudio objetiva analizar la ética en acciones educativas y de cuidado orientada por la educación popular, con base en la experiencia de estudiantes en el proyecto de extensión universitaria, Educación Popular y Atención a la Salud de la Familia (PEPASF), y analizar la formación ética de estudiantes universitarios desde la perspectiva de educación popular en salud, con base en dicho proyecto. Partimos del presupuesto de que ética, norteada por la educación popular en salud, abarca una concepción dialógica y problematizadora, que transpone la perspectiva de cumplimiento de códigos de ética profesional, comúnmente valorados en enseñanza en salud, y que alcanzan la preocupación de estudiante con justicia social. Se trata de una investigación cualitativa realizada desde una perspectiva dialéctica. El escenario de la investigación fue la Comunidad Maria de Nazaré, ubicada en Joao Pessoa – PB. Participaron de la investigación cinco docentes y cuarenta estudiantes de PEPASF, tres ex extensionistas discentes, dos liderazgos comunitarios, tres agentes comunitarios de salud y seis residentes de la comunidad que recibieron el acompañamiento de extensionistas. La coleta de datos se realizó durante el año de 2010, mediante utilización de técnicas de observación participante, grupo focal y entrevista. Se utilizaron también como fuentes de datos empíricos, siete testimonios escritos por seis estudiantes y un ex extensionista discente, para componer un libro sobre PEPASF. El material empírico fue sometido al análisis de contenido temático, originando diez categorías temáticas, entre las cuales se destacan: el contacto inicial del estudiante con el ámbito comunitario y el proceso gradual de formación de vinculo con las familias; acercamiento del estudiante con una perspectiva ética integralizadora de cuidado en el contexto familiar, la participación activa con las luchas políticas comunitarias, el aprendizaje de convivencia con tensiones y conflictos y la convivencia ética entre profesor y estudiante en el desarrollo del proyecto. Ese análisis de datos origino reflexiones sobre ética en acciones educativas y de cuidado de estudiantes orientadas por la educación popular en salud y sobre la ética hilo de la formación pedagógica de estudiantes desde la perspectiva de educación popular en salud. Este estudio posibilitó la confirmación de que ética desde la perspectiva de educación popular en el cuidado en salud y en la formación abarca principalmente la metodología del dialogo y de la problematización de la realidad y la preocupación con la justicia social inherente a la intencionalidad política de la educación popular y que también presenta vinculo afectivo como estructurador de acciones éticas. Así, el estudio contribuye para la construcción de una ética diferenciada en el campo de la salud, norteada por la educación popular.
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
ACOMAN – Associação Comunitária Maria de Nazaré ACS – Agente Comunitário de Saúde
ANEPOP – Articulação Nacional de Extensão Popular
ANEPS – Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular em Saúde CEBES – Centro Brasileiro de Estudos e Saúde
CEBs – Comunidades Eclesiais de Base
CEPLAR – Campanha de Educação Popular da Paraíba CHESF – Companhia Hidrelétrica do São Francisco CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil CNEPS – Comitê Nacional de Educação Popular em Saúde EE – Ex-extensionista Estudante
EP – Educação Popular
EPS – Educação Popular em Saúde ESF – Estratégia de Saúde da Família GFE – Grupo Focal dos Estudantes GFP – Grupo Focal dos Professores LC – Liderança Comunitária
M – Moradores
MCP – Movimento de Cultura Popular MEB – Movimento de Educação de Base MOPS – Movimento Popular de Saúde
MST – Movimento dos Trabalhadores Sem Terra ONG – Organização Não Governamental
PACS – Programa de Agentes Comunitários de Saúde
PETI – Programa de Erradicação do Trabalho Infantil PSF – Programa de Saúde da Família
UBS – Unidade Básica de Saúde
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO... 15
1.1 1.2 1.3
Aproximação inicial com o tema... Apresentando a temática do estudo... Percurso metodológico...
15 18 28
2 EDUCAÇÃO POPULAR EM SAÚDE... 37
3 ÉTICA NA EDUCAÇÃO POPULAR: DESTAQUE DO PENSAMENTO DE PAULO FREIRE... 45
4 ÉTICA NO CUIDADO EM SAÚDE E NA FORMAÇÃO
UNIVERSITÁRIA... 55
5 A FORMAÇÃO ÉTICA DE ESTUDANTES NO PROJETO EDUCAÇÃO POPULAR E ATENÇÃO À SAÚDE DA FAMÍLIA... 69
5.1 5.2 5.3 5.4 5.5 5.6 5.7 5.8 5.9 5.10
O contato inicial do estudante com o âmbito comunitário e o processo gradativo de formação do vínculo com as famílias...
Aproximação do estudante com uma perspectiva ética integralizadora do cuidado no contexto familiar...
A valorização do sigilo e da privacidade no cotidiano dos estudantes...
O enfrentamento de dilemas éticos no cuidado em saúde no âmbito comunitário...
A convivência com a problemática do narcotráfico...
O cuidado além do problema imediato: cuidar de um projeto de vida futuro...
O envolvimento com as lutas políticas comunitárias...
O aprendizado da convivência com tensões e conflitos...
A convivência ética entre professor e estudante no desenvolvimento do projeto...
O processo de saída dos estudantes do projeto... 70 80 95 105 110 118 124 132 137 144
6 A ÉTICA NAS AÇÕES EDUCATIVAS E DE CUIDADO DE ESTUDANTES EM COMUNIDADE ORIENTADAS PELA EDUCAÇÃO POPULAR EM SAÚDE... 149
8 CONSIDERAÇÕES FINAIS... 171
REFERÊNCIAS... 177
APÊNDICES
APÊNDICE A − Termo de consentimento livre esclarecido - Professores... APÊNDICE B - Termo de consentimento livre esclarecido - Estudantes 1... APÊNDICE C - Termo de consentimento livre esclarecido - Ex-extensionistas estudantes... APÊNDICE D - Termo de consentimento livre esclarecido - Estudantes 2... APÊNDICE E - Termo de consentimento livre esclarecido – Moradores... APÊNDICE F - Termo de consentimento livre esclarecido – Agentes Comunitários de Saúde/ Lideranças comunitárias... APÊNDICE G − Instrumentos de coleta de dados...
188
189
190 191 192
193 194 ANEXO
1 INTRODUÇÃO
1.1 Aproximação inicial com o tema
Nossa aproximação com o tema que envolve a ética parte da própria experiência que tivemos como enfermeira docente, participante do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (área de concentração em saúde pública) do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal da Paraíba. Nessa oportunidade, desenvolvemos a dissertação intitulada Ética no Cuidar em Enfermagem: discurso de enfermeiros assistenciais. Após o desenvolvimento dessa pesquisa, continuamos os estudos contemplando esse tema mediante a orientação de outros trabalhos desenvolvidos com a participação de estudantes do Curso de Graduação em Enfermagem (Trabalhos de Conclusão de Curso, Iniciação Científica) e de pesquisadores que atuam no campo da ética. Essa vivência foi reforçada com a nossa inclusão entre os membros do Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Lauro Wanderley e entre os pesquisadores do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Bioética, do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
Desde que ingressamos como docente, em 2002, no Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Federal da Paraíba, por meio de concurso público, buscamos nos dedicar também aos trabalhos que envolvem a extensão universitária. Nesse âmbito de atuação, destaca-se a inserção, durante o período de 2003 a 2005, no projeto de extensão “Prevenindo o Câncer de Colo Uterino e de Mamas em Unidades Básicas de Saúde”. Esse projeto, desenvolvido no Bairro São José, em João Pessoa (PB), tem como finalidade principal a prática educativa direcionada às mulheres daquela comunidade, com ações desenvolvidas de forma individual e coletiva, com o objetivo de prevenir o câncer e promover-lhes saúde, contribuindo para a autonomia e a melhoria na qualidade de vida.
Foi durante o desenvolvimento desse curso que tivemos a oportunidade de conhecer o Projeto de extensão universitária Educação Popular e Atenção à Saúde da Família (PEPASF). Lembramos com emoção o primeiro dia em que estivemos como visitante desse Projeto. Era uma manhã de sábado ensolarada. Com muitas expectativas do que iríamos conhecer, seguíamos com uma colega e um estudante do Projeto para a Comunidade Maria de Nazaré, situada no Bairro Funcionários III, na periferia urbana de João Pessoa. Quando chegamos, participamos de uma rápida e produtiva reunião na Unidade de Saúde local. Nessa reunião, professores, estudantes e visitantes apresentaram-se e falaram um pouco sobre a saúde, numa concepção ampliada, considerada como resultante de aspectos sociais, econômicos, políticos, inerentes à realidade em que as pessoas vivem. Em seguida, os estudantes foram divididos em duplas e saíram para visitar as famílias de que cuidavam. Fomos acolhidas por uma das duplas e, com muita emoção, dispusemo-nos a acompanhá-los em suas visitas naquela manhã.
Uma das imagens inesquecíveis que guardamos viva na memória diz respeito à saída dos estudantes que iam deixando a Unidade a fim de terem acesso às casas que visitavam. Alguns subiam o terreno cheio de ladeiras, enquanto outros desciam pelo lado oposto, e outros, mais adiante, dobravam em becos da comunidade. Observamos o quanto o Projeto era estimado por aqueles que participavam dele: estudantes, professores, pessoas da comunidade. Aquela era a teoria posta em prática. Aquela vivência representava a concepção ampliada de saúde que, há poucos instantes, tínhamos compartilhado na Unidade Básica de Saúde. Naquele dia, percebemos que aquele também era o nosso lugar. A identificação com o trabalho foi natural. Queríamos estar unidas com aqueles professores e estudantes e colaborar com eles no cuidado em saúde sob a orientação da Educação Popular, em cujo mundo adentramos.
Nessa perspectiva, desde abril de 2006, iniciamos nossa participação no PEPASF. Nesse mesmo ano, além de fazer parte do Projeto, coordenamos, junto com outra professora de Enfermagem, o Projeto Educação Popular em Saúde na Atenção a Gestantes e a Puérperas e começamos a participar do Grupo de Pesquisa Educação Popular em Saúde, ligado ao Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPB. Além disso, tivemos a oportunidade de orientar pesquisas, escrever artigos e capítulos de livros e de participar de eventos científicos da área.
a partir da pedagogia dialógica, e desperta nessa população e nos estudantes a busca da autonomia.
Durante a nossa vivência nesse Projeto orientado pela Educação Popular, observamos uma ampla rede de relações entre os extensionistas (professores e estudantes) e as pessoas da comunidade e entre os próprios extensionistas. Desse modo, é relevante valorizar aspectos éticos, tais como: o respeito, o sigilo de informações, a valorização da justiça, o estímulo ao exercício da cidadania, a busca por melhores condições de vida e de saúde da população comunitária. Portanto, outro passo significativo nessa aproximação com o tema da ética na educação popular em saúde diz respeito à experiência acadêmica que adquirimos como docente participante do PEPASF. Essa experiência na extensão universitária, norteada pela educação popular, traz uma concepção de ética específica para a saúde e para a formação universitária em saúde, que nos motivamos a estudar neste trabalho de doutoramento.
Em nossa trajetória aproximativa com essa temática, buscamos na literatura nacional e internacional, trabalhos direcionados à ética na educação popular, visando melhor compreendê-la na prática de extensionistas. Nessa busca, observamos um número representativo de pesquisas no campo da ética em geral. Entretanto, localizamos poucos estudos que contemplam a ética e a educação popular.
Nessa área específica, encontramos algumas referências, entre as quais se ressaltam: Radicalidade ética da pedagogia do oprimido (ANDREOLA, 2001); A reinvenção de uma sociedade mais ética: o sonho possível de Paulo Freire (ARAÚJO FREIRE, 2001); Ética nas proposições pedagógicas de Paulo Freire: o engajamento ético-pedagógico do educador (CUNHA, 2003); Ética, política e pedagogia na perspectiva freireana (SOUZA, 2004); Paulo Freire: ética, utopia e educação (STREK, 2004).
pedagogia do oprimido (2011); Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos (2000); Pedagogia do oprimido (2005); Política e educação (2002); entre outras.
No que se refere à temática ética na educação popular em saúde e ética na formação universitária norteada pela educação popular em saúde, não foi possível encontrar estudos específicos. A educação popular em saúde é um campo do conhecimento em consolidação no Brasil e na América Latina e demanda ainda um aprofundamento teórico nesse tema. Apesar de ser possível perceber a presença da ética nessas práticas e nessa formação orientada pela educação popular, elas ainda precisam ser melhor analisadas teoricamente. Observamos a necessidade de uma discussão mais significativa sobre tal questão.
Com base nessas considerações, desenvolvemos este estudo de natureza qualitativa, que contribuirá para o aprofundamento do debate teórico sobre a ética na saúde e na formação universitária de estudantes baseada nas práticas de educação popular em saúde, desenvolvidas no projeto de extensão universitária Educação Popular e Atenção à Saúde da Família.
1.2 Apresentando a temática de estudo
A ética é considerada por Vásquez (2008) como a teoria ou ciência que estuda o comportamento moral do ser humano, ou seja, o comportamento adequado diante dos valores socialmente aceitos pelos grupos a que o ser humano pertence. O comportamento moral relaciona-se aos modos de agir cotidianos, às decisões que vão sendo tomadas, de acordo com os valores e os princípios adequados àquela sociedade específica.
Atualmente, a ética tem sido enfocada por diferentes áreas do conhecimento e ocupa espaço nas discussões sobre meio ambiente, saúde, política, comunicação, educação, entre outros. Isso decorre, principalmente, do crescente avanço da ciência e da tecnologia, o qual, embora tenha trazido inúmeros benefícios, trouxe também situações negativas, como agressão ao meio ambiente, manipulação genética, pesquisas com células-tronco, entre outros. Cabe ressaltar que houve um aumento da capacidade e do poder do homem de intervir na natureza e na sociedade. Novas possibilidades de intervir, que surgiram a partir do desenvolvimento de novas tecnologias, criam situações novas, ainda não pensadas pela tradição, que requerem discussões no campo da ética. Além disso, convive-se com grandes problemas, principalmente procedentes da política neoliberal e do processo de globalização, como desigualdades socioeconômicas e injustiças sociais.
Nesse sentido, ressalta-se a necessidade da realização de reflexões éticas sobre o agir do homem na sociedade. Conforme Freire (2000, p. 102), “[...] quanto maior vem sendo a importância da tecnologia, tanto mais se afirma a necessidade de rigorosa vigilância ética sobre ela. De uma ética a serviço das gentes, de sua vocação ontológica, a do ser mais.” Portanto, é preciso o desenvolvimento de uma consciência ética, que implica uma reflexão sobre o ser humano, sua presença no mundo e com o mundo, como um ser de relações que merece ser respeitado em sua dignidade, em sua capacidade de desenvolver potencialidades.
A ética sempre foi necessária à vida em sociedade. No mundo atual, principalmente, as relações humanas estão muito individualistas e competitivas, voltadas para a lógica do mercado, para a concentração de renda. Vivenciamos, portanto, um momento em que o ser humano clama por respeito, dignidade, não violência, melhores oportunidades de emprego, de saúde, por melhores condições de vida. Para tanto, precisamos valorizar a ética, principalmente na prática educativa, com o intuito de contribuir para o desenvolvimento de uma consciência crítica das pessoas, de modo que possam despertar para a luta por uma melhor qualidade de vida.
No âmbito da educação, Goergen (2005), refere ser essencial considerar a dimensão da ética, com vistas à formação de sujeitos críticos, conscientes de sua responsabilidade, para a construção de uma sociedade humana e justa. Para esse autor, a ética, na prática educativa, relaciona-se à construção da cidadania. Tal construção é entendida como a formação de um indivíduo capaz de contribuir para a concretização de um modelo social, com o qual todos possam se realizar como seres humanos.
político-pedagógico centrado no ser humano, sujeito histórico transformador. Essa concepção educacional compreende elementos ético-políticos relacionados à construção de relações equitativas e justas mediante uma pedagogia dialógica, crítica, que busca o desenvolvimento pleno das capacidades humanas cognitivas, emocionais e valorativas (HOLLIDAY, 2006). As práticas de educação popular constituem-se mecanismos de democratização, sobre as quais se refletem os valores da solidariedade e da reciprocidade, gerando conhecimento e transformação social (GADOTTI, 2000).
Em seus escritos, Freire (2006b) evidencia uma ética universal do ser humano, associada ao respeito pela dignidade humana. Esse autor apresenta uma ética que condena os interesses do lucro e direciona-se à conscientização do oprimido, tornando o processo educativo uma prática para a liberdade. Os autores Trombetta e Trombetta (2008, p. 178) evidenciam que “a ética da libertação e da solidariedade, em Freire, assume o compromisso de lutar pela dignidade do oprimido, do excluído e pela justiça global.” É uma ética que se encontra firmada nos valores da solidariedade, da amorosidade, do respeito à diversidade e aos saberes, da valorização da autonomia coletiva, da perseverança na construção de mudanças (WANDERLEY, 2010). Uma ética direcionada à conscientização e à transformação da realidade.
Portanto, na perspectiva da educação popular, a ética está presente no desenvolvimento de uma prática emancipatória. Nela, pode-se perceber a presença da ética na concretização de uma prática que valoriza o saber popular, mediante a dimensão do diálogo, que favorece o compartilhar de experiências de forma justa e igualitária. A ética está presente no compromisso do educador com o desenvolvimento de um ser humano autônomo, consciente de sua cidadania e no seu modo de agir, ao se preocupar com os problemas cotidianos dos indivíduos subalternos, buscando torná-los altivos, na luta por melhores condições de vida, o que contribui para a construção de uma sociedade democrática e sem opressão.
Na área da saúde, a ética também é bastante enfocada. Entretanto, especialmente na formação acadêmica, a maioria das disciplinas direcionadas a esse tema é pautada em uma ética normativa profissional, isto é, do agir segundo o dever. Essa ética toma por base o cumprimento de Códigos de Ética profissional específicos, que norteiam o agir no exercício das profissões em saúde. Desse modo, também é necessário valorizar a dimensão da ética norteada pela educação popular na formação universitária em saúde.
dinâmica que envolve o adoecimento e a cura. A educação popular em saúde realiza ações que envolvem as dimensões do diálogo, do respeito e da valorização do saber popular, sendo considerada um instrumento de construção para saúde mais integral e adequada à vida da população (VASCONCELOS, 2006b). A educação popular traz para o trabalho em saúde aspectos condizentes com uma educação problematizadora, que procura, por meio de uma relação dialogada, prevenir doenças, promover saúde à população e apoiá-la na luta por melhores condições de vida e de saúde.
As práticas de educação popular têm sido incorporadas na formação universitária em saúde, principalmente através de atividades de extensão. São propostas mais centradas nas demandas sociais e na participação popular, que caracterizam um perfil de extensão denominado “extensão popular.”
Os trabalhos de extensão popular abrangem ações educativas em movimentos sociais e outros instrumentos organizativos da sociedade civil, norteados pelo referencial teórico-metodológico da educação popular. Assumindo a dimensão do popular, a extensão universitária adquire como trabalho social e útil a intencionalidade de transformação social, numa perspectiva ética de busca da concretização dos anseios de justiça e liberdade das classes populares (MELO NETO, 2006). Norteada pela educação popular, essa extensão contempla um espaço de interação, no qual profissionais e estudantes mantêm um contato próximo com a população empobrecida, preocupando-se em compartilhar conhecimentos e dar um apoio efetivo aos problemas sociais e de saúde identificados. Este estudo está associado a essa perspectiva de extensão universitária popular.
Cabe destacar que, desde a década de 1970, nas periferias urbanas e em áreas rurais, práticas sociais implementadas por estudantes, técnicos e intelectuais permitiam a aproximação entre os universitários e a população e iam estruturando referências para se estudar a realidade dos pobres e se pensar em caminhos de superação da situação política vigente. Inicialmente, essas práticas de extensão universitária podiam ser consideradas clandestinas, pois não faziam ainda parte da burocracia universitária. Somente a partir de meados da década de 1980, com o processo de redemocratização da vida política brasileira, a educação popular deixa de ser uma prática clandestina, para ser tolerada internamente pelas instituições. Na vida universitária, ela continua presente, agora sob a forma de Projetos de Extensão, oficializados com algum apoio institucional (VASCONCELOS, 2011b).
movimento nacional, que aglutina, principalmente, professores, estudantes universitários e lideranças comunitárias, encontra-se organizado na Articulação Nacional de Extensão Popular (ANEPOP), criada no ano de 2005, e compõe um espaço em que se compartilham, além de experiências, discussões e estratégias de fortalecimento da luta política comunitária.
Cabe ressaltar que a extensão, no âmbito da saúde, desponta como espaço pioneiro de entrada da educação popular na formação universitária em saúde. O desenvolvimento de projetos de extensão dessa natureza tem-se mostrado extremamente rico pedagogicamente. A metodologia problematizadora proporciona uma melhor compreensão da dinâmica do processo de adoecimento e cura e do cotidiano das classes populares, o que contribui para uma formação mais comprometida com os problemas sociais vigentes, tais como dificuldades de acesso aos serviços de saúde e à educação de qualidade, humanizada, crítica e reflexiva.
No contexto da Universidade Federal da Paraíba, destacam-se projetos de extensão universitária em saúde orientados pela educação popular, que são considerados referências para outras universidades do país, a exemplo do Projeto Educação Popular e Atenção à Saúde da Família. Esse Projeto, de caráter interdisciplinar, aglutina sete professores (uma bióloga, duas enfermeiras, dois fisioterapeutas, uma psicóloga e um médico) e quarenta estudantes de diversos cursos da UFPB (Enfermagem, Fisioterapia, Medicina, Nutrição, Odontologia, Farmácia, Psicologia, Técnico de Enfermagem, entre outros). É realizado na Comunidade Maria de Nazaré, localizada na periferia de João Pessoa (PB), e desenvolvido, principalmente, mediante visitas domiciliares. Semanalmente, cada dupla interdisciplinar de estudantes acompanha duas ou três famílias fixas, com ações direcionadas ao cuidado em saúde orientado pela educação popular. Dessa maneira, é estabelecida uma relação horizontalizada entre famílias e estudantes, que permite um diálogo sobre os problemas de saúde e sociais presentes, buscando as soluções adequadas para cada família e para a coletividade. Os profissionais e estudantes que fazem parte do PEPASF realizam ações de cuidado que envolvem ações técnicas e ações educativas com a intencionalidade política de transformar.
Além do acompanhamento às famílias, os extensionistas (professores estudantes) participam de atividades, como: grupos educativos (crianças e gestantes), reuniões com a Associação Comunitária Maria de Nazaré (ACOMAN), atividades educativas organizadas pela Unidade Básica de Saúde local, reuniões semanais para discussão de problemas sociais e de saúde enfrentados pelas famílias, estudos teóricos, planejamento e avaliação das atividades desenvolvidas no Projeto, entre outras. Desse modo, o Projeto visa à promoção da saúde e à autonomia da população, mediante diálogo entre o saber popular e o científico, de modo que se proporcione aprendizado mútuo e ação transformadora. Um de seus aspectos primordiais diz respeito ao seu caráter interdisciplinar. Essa abordagem foi construída aos poucos, à medida que estudantes e professores de distintas áreas se interessaram em participar dele, trazendo os olhares diferenciados, as suas perspectivas teóricas, proporcionando um compartilhar contínuo de saberes entre os integrantes e entre estes e a comunidade.
Consideramos a interdisciplinaridade uma característica fundamental do Projeto. Esses extensionistas se deparam com uma infinidade de necessidades de saúde diferenciadas, o que torna primordial o aspecto interdisciplinar. O caráter global dos problemas que acontecem na comunidade vai além dos limites do olhar de cada profissão, e isso requer, muitas vezes, a busca de elementos teóricos em outros campos do conhecimento. Como afirma Gadotti (1999), a ação pedagógica mediante a interdisciplinaridade permite a construção participativa do conhecimento na formação do sujeito social. Articular saberes e vivências é o objetivo da interdisciplinaridade, que pode contribuir para a prática de um trabalho solidário. Assim, o trabalho em saúde fica mais fortalecido, os diversos saberes trazidos pela Universidade vão misturando-se aos saberes das pessoas da comunidade por meio do diálogo, construindo, coletivamente, um novo saber.
No Projeto Educação Popular e Atenção à Saúde da Família, as relações que se estabelecem entre estudantes e professores e entre estes e as pessoas da comunidade são muito intensas e requerem comportamentos éticos adequados em práticas educativas e de cuidado em saúde desenvolvidas com as famílias e os grupos comunitários.
estudante e a busca por soluções adequadas a cada situação. Observa-se que há uma necessidade de se relacionarem, de modo ético, com famílias e grupos, nos quais sejam valorizados aspectos, tais como o respeito à dignidade humana e à autonomia dos indivíduos, o estabelecimento de um tratamento justo, além de reflexões sobre o seu fortalecimento, na luta contra a opressão.
Por outro lado, pessoas que fazem parte dessa comunidade abrem as portas de suas residências para recebê-los, deixando que seu espaço privado se torne conhecido, que suas mais íntimas formas de viver sejam expostas. Desse modo, observa-se a necessidade de conhecer como essas pessoas da comunidade, inclusive lideranças comunitárias e agentes comunitários de saúde que atuam naquela área e têm um maior contato com os estudantes, percebem a dimensão da ética nessas visitas ou no desenvolvimento de ações coletivas no meio comunitário.
Os estudantes também podem ter contato, durante a execução do Projeto, com situações que eles considerem um dilema ético. Segundo Lalande (1999), o dilema pode ser considerado um sistema de duas proposições contraditórias na condução de uma situação, entre as quais, eles são colocados na obrigação de escolher. No referido Projeto, tais situações podem advir do convívio com os indivíduos e as famílias da comunidade. Pode acontecer, por exemplo, que tenham acesso a informações muito sigilosas e até comprometedoras que pertencem apenas àquele indivíduo ou à família e, ao mesmo tempo, saibam que há naquela família uma situação de sofrimento que pode requerer uma atuação externa, como a do conselho tutelar. Então, estudantes podem sentir-se diante de um dilema que requer reflexões éticas em busca de soluções pertinentes a cada realidade.
Com base nessas considerações, destacamos o nosso interesse em realizar este estudo qualitativo, que apresenta as seguintes questões norteadoras: Como ocorre a ética nas ações educativas e de cuidado na experiência de estudantes do Projeto Educação Popular e Atenção à Saúde da Família? De que modo ocorre a formação ética de estudantes desenvolvida no âmbito do referido Projeto? Para responder a esses questionamentos, o desenvolvimento deste trabalho contempla os seguintes objetivos:
Analisar a ética nas ações educativas e de cuidado orientadas pela educação popular em saúde, com base na experiência de estudantes do Projeto Educação Popular e Atenção à Saúde da Família;
Analisar a formação ética de estudantes universitários na perspectiva da educação popular em saúde, com base na experiência do referido Projeto.
Partimos do pressuposto de que a ética na educação popular em saúde, exposta pelo Projeto em suas ações educativas e de cuidado e em suas ações formativas, compreende uma perspectiva dialógica e problematizadora, que transpõe a concepção de ética condizente com Códigos de Ética das profissões de saúde, visto que não se restringe ao cumprimento de normatizações específicas. Essas ações se concretizam no contexto familiar e coletivo, locais onde se convive com situações inusitadas e imprevistas, que requerem problematização específica, portanto, não se adéquam a uma ética normativa inerente aos Códigos de Ética. Pressupomos também que essa é uma ética que envolve uma intencionalidade política, coerente com a perspectiva teórica da educação popular. Nesse sentido, envolve a preocupação de estudantes com a justiça social, com a concretização de mudanças na realidade direcionadas à melhora da qualidade de vida e de saúde da população.
Para o alcance dos objetivos propostos, foi realizada a pesquisa de natureza qualitativa. A opção por esse tipo de pesquisa deveu-se ao fato de considerarmos a referida metodologia como um caminho adequado para o desenvolvimento deste estudo, uma vez que pretendemos trabalhar com aspectos subjetivos que fazem parte da vivência dos atores participantes, inseridos em um contexto social. Segundo Minayo (2010), esse tipo de pesquisa se preocupa em compreender e explicar o universo de significados, crenças, valores e atitudes, que envolvem a dinâmica das relações sociais, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações que não podem ser reduzidas à operacionalização de variáveis. Desse modo, possibilita uma compreensão mais ampla da vivência humana, a partir da interpretação das experiências do cotidiano.
é algo claro, facilmente identificado. É processual, construído, sobretudo, no cotidiano das ações desenvolvidas com as famílias acompanhadas e com a comunidade em geral. É algo que se constrói também no relacionamento estabelecido entre os próprios estudantes e entre eles e professores do Projeto.
Sendo assim, a concepção de ética, nas ações educativas e de cuidado e na formação de estudantes no PEPASF, foi se revelando com mais clareza a partir da análise qualitativa do processo de caminho de aprendizagem do estudante em sua participação no Projeto. Essa trajetória tem início com a chegada do estudante no âmbito comunitário e finaliza com sua saída do Projeto. Ressaltamos que, ao ser desvelado o caminho percorrido por esses estudantes, durante sua atuação no Projeto, foi possível analisar a ética que envolve as ações educativas e de cuidado de estudantes no PEPASF e a formação ética desenvolvida por eles no Projeto.
Convém enfatizar que a análise qualitativa foi realizada numa perspectiva dialética. A dialética busca compreender a realidade em todo o seu dinamismo e provisoriedade, considerando a sua historicidade e as suas contradições, em um movimento de permanente transformação (MINAYO, 2008). O exercício dialético considera como fundamento as relações sociais, as quais são dinâmicas, antagônicas e contraditórias entre grupos, classes e culturas. Busca apreender a prática social de indivíduos em seu movimento contraditório (MINAYO; DESLANDES, 2003).
Na área da saúde, a lógica dialética é considerada por Minayo (2008), como a que melhor responde as necessidades das pesquisas que vinculam a teoria à prática, onde a realidade social se mostra de forma contraditória e transitória. Nessa perspectiva, analisa a realidade em toda a sua complexidade e contraditoriedade, a partir da experiência e da fala dos sujeitos da pesquisa, demonstrando pertinência com a realização de pesquisas qualitativas. No campo da educação popular, a dialética é bastante utilizada por pesquisadores, uma vez que tais experiências podem ser compreendidas como unidades ricas e contraditórias que se encontram num movimento próprio e constante. O pensamento dialético trata de apreender toda essa complexa dinâmica (IBÁÑEZ, 1996). As pesquisas que utilizam a dialética na área da educação popular permitem guardar coerência entre a realidade vivenciada e os níveis de abstração ou análises sobre ela, o que proporciona uma nova compreensão dessa realidade e a projeção de novas ações transformadoras, capazes de superar o mero ativismo (ANTILLÓN, 1996).
norteada pela educação popular, no âmbito do PEPASF, é uma temática que abrange o estudo sobre o comportamento de estudantes em seu cotidiano na atenção primária à saúde. Nesse cenário, os extensionistas convivem com o complexo processo de adoecimento e de cura, em uma realidade cheia de contradições, o que explica a necessidade de compreendê-la de forma dialética, contemplando-se suas características e adversidades de forma problematizadora e crítica.
Conforme Araújo (2007, p. 51), seguindo uma perspectiva dialética, o estudo segue três movimentos: “a) um primeiro movimento de síntese; b) um movimento seguinte de análise; c) e um novo movimento de síntese.”
Nesse sentido, seguindo um movimento dialético, iniciamos este trabalho com a elaboração do primeiro movimento de síntese, que se encontra firmado na teoria construída a partir das publicações referenciadas sobre a temática do estudo. Essa construção teórica está contida nos capítulos: “Educação popular em saúde”, “Ética na educação popular: destacando o pensamento de Paulo Freire”, e “Ética na saúde e na formação universitária”, que expressam a compreensão de autores sobre a educação popular em saúde, a ética na educação popular e a ética na saúde e na formação universitária.
Em seguida, procedemos ao segundo movimento, o de análise ou abstrações, que tomou por base a análise qualitativa dos dados empíricos apreendidos, considerando suas peculiaridades e contradições. Esse movimento gerou o capítulo intitulado “A formação ética de estudantes no Projeto Educação Popular e Atenção à Saúde da Família”, que descreve a trajetória realizada por estudantes no PEPASF, destacando aspectos éticos que fazem parte desse percurso.
Assim, partimos para a construção do último movimento, representado pela elaboração de uma nova síntese, para além da síntese primeira. Essa etapa inclui reflexões que abrangem as temáticas: “A ética nas ações educativas e de cuidado de estudantes em comunidade orientadas pela educação popular em saúde” e “A ética norteadora da formação pedagógica de estudantes na perspectiva da educação popular em saúde”. Esses capítulos explicitam uma nova síntese que abrange a ética expressa no cuidado e na formação universitária em saúde norteada pela educação popular, com base na experiência de estudantes no PEPASF e, em conjunto com as considerações finais, representam o produto final deste trabalho.
1.3 Percurso metodológico
Esta pesquisa de natureza qualitativa, realizada numa perspectiva dialética, teve como cenário a Comunidade Maria de Nazaré, localizada no Bairro Funcionários III, visto que o referido Projeto é desenvolvido nesse espaço físico. Essa comunidade fica limitada com os Bairros Funcionários II, Grotão e Funcionários III, inserindo-se no contexto da periferia urbana da cidade de João Pessoa (PB). Segue um mapa indicando a localização da Comunidade Maria de Nazaré.
Mapa 1: Localização da Comunidade Maria de Nazaré
A Comunidade Maria de Nazaré se estabeleceu no ano de 1987, após uma ocupação irregular de uma área pertencente ao Estado, que faz parte do Bairro Funcionários III, realizada por famílias que moravam em regiões vizinhas. É situada em terreno de relevo acidentado, irregular, em condições precárias de infraestrutura, tais como falta de saneamento básico e destino inadequado do lixo. A maioria das casas é construída de
F U N C I O N Á R I O S IV F U N C I O N Á R I O S III F U N C I O N Á R I O S II GROTÃO
alvenaria, entretanto, algumas estão posicionadas em locais impróprios para habitação, correndo o risco de desabar (LUNA, 1999).
Por ocasião de sua constituição, essa comunidade não fazia uso de água encanada nem energia elétrica, as casas eram bastante precárias, e a higiene deficiente. Era conhecida como Favela do Gato, principalmente devido ao fato de alguns moradores usufruírem de energia elétrica mediante o uso de gambiarras provenientes dos postes de eletrificação das ruas próximas, formando os conhecidos “gatos.” (WIESE, 2011). O nome Maria de Nazaré veio do grupo pioneiro na organização política local, inicialmente ligado à Igreja Católica, que influenciou positivamente em suas organizações, lutas e conquistas.
A comunidade possui atualmente dois mil e quatrocentos moradores em setecentos e noventa famílias, com renda mensal, em geral, inferior a um salário mínimo atual, que é o de seiscentos e vinte e dois reais. A principal fonte de renda é o trabalho informal dos profissionais, tais como: feirante, doméstica, lavadeira, faxineira, pedreiro, catadores de lixo. A população enfrenta dificuldades socioeconômicas, convive com o alcoolismo, com o narcotráfico e com a consequente violência, inclusive com a ocorrência de homicídios.
De acordo com o Censo Demográfico 2010 (IBGE, 2010), a taxa de analfabetismo, no Bairro Funcionários, em que a comunidade se encontra inserida, é de apenas 2,1%. Entretanto, não há escolas dentro da comunidade. Essa população frequenta algumas escolas localizadas próximas. Entre as mais utilizadas por essa população, destacam-se: a Escola Estadual Governador Antônio Mariz, localizada no Bairro Funcionários III; a Escola Municipal Moema Tinoco Cunha Lima e a Escola Estadual Professora Débora Duarte, localizadas no Bairro Funcionários II. Esta última oferece, no período noturno, Educação de Jovens e Adultos (EJA). Além disso, tem acesso a dois Centros de Referência em Educação Infantil (CREIs), um localizado dentro da comunidade, e outro, no Bairro Funcionários II.
Fotografia 1: Associação Comunitária Maria de Nazaré (ACOMAN)
Outra forma de organização comunitária diz respeito à Igreja Católica. Há um grupo pastoral que se reúne numa Igreja que foi construída dentro da comunidade denominada Maria de Nazaré. Além disso, a comunidade conta com três Igrejas Evangélicas e o Candomblé dentro de seu território. Essa é uma população que cultua muito a religião.
A Comunidade Maria de Nazaré apresenta uma história de lutas e de conquistas, principalmente através da atuação da Associação Comunitária Maria de Nazaré (ACOMAN), que, com o apoio de suas lideranças e do PEPASF, tem conseguido muitas melhorias para a comunidade. Foi assim na luta pela moradia, CREI, Unidade de Básica de Saúde local e rádio comunitária. Além disso, os moradores contam com o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), destinado à realização de trabalho educativo com crianças.
É importante evidenciar que foi aprovado pela Secretaria Municipal de Habitação da Prefeitura Municipal o projeto de urbanização da comunidade, com o início das obras previsto para o ano de 2012. Além disso, recentemente, foi inaugurado o Centro de Referência para a Inclusão Produtiva e Social da Comunidade Maria de Nazaré, financiado pela Companhia Hidrelétrica do São Francisco (CHESF) e pela Prefeitura Municipal de João Pessoa, em parceria com a Universidade Federal da Paraíba, mediante o PEPASF e outros projetos, e com a ACOMAN. Esse Centro está oferecendo atualmente os cursos de Construção Civil, Informática e Gastronomia, contribuindo efetivamente para a geração de empregos para essa população.
O primeiro passo para a realização do estudo consistiu na apresentação do projeto de pesquisa à presidência da Associação Comunitária Maria de Nazaré e na solicitação para realizá-lo na comunidade. Naquele momento, foi aceito e devidamente autorizado para ser desenvolvido na comunidade. Em seguida, foi encaminhado ao Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Lauro Wanderley da UFPB, para apreciação e aprovação. Com a autorização para realizá-lo (Anexo A), procedemos à apresentação aos extensionistas (professores e estudantes) que fazem parte do PEPASF, seguida do convite para a participação no estudo.
Cabe ressaltar que o universo populacional da pesquisa é amplo. Consta de sete professores e quarenta estudantes que participam do Projeto, cinco lideranças comunitárias atuantes na comunidade, cinco ACSs que fazem parte da equipe de saúde da família local e mantém contato com as atividades do Projeto, cinquenta famílias que são acompanhadas pelo Projeto e centenas (não há contabilidade certa) de ex-extensionistas estudantes que passaram pelo PEPASF, nesses quatorze anos de atuação na comunidade Maria de Nazaré.
Deste universo populacional, foi retirada a amostra da pesquisa, que constou de cinco docentes e quarenta estudantes do PEPASF, três ex- extensionistas estudantes que ainda mantinham contato com o Projeto, duas lideranças comunitárias, três ACSs e seis moradores da comunidade que recebem acompanhamento de extensionistas. Todos com idade superior a 18 anos, com saúde física e mental e que aceitaram fazer parte da pesquisa. Essa amostragem se deu por acessibilidade, sendo definida a partir do contato da pesquisadora com o universo populacional da pesquisa.
No que se refere a caracterização dos participantes do estudo, dos cinco docentes pesquisados, quatro são do sexo feminino, e um, do sexo masculino; dois realizam atividades acadêmicas no Curso de Fisioterapia, um no Curso de Medicina, um no Curso de Psicologia e um no Curso Técnico de Enfermagem da UFPB. Todos têm idade entre trinta e nove e cinquenta e um anos e têm pós-graduação: um é doutor, três são doutorandos, e um é mestre. Todos os participantes vêm desenvolvendo atividades no PEPASF por um período que varia entre quatro e treze anos.
As três ACSs pesquisadas apresentam idade entre trinta e seis e trinta e nove anos. Todas residem na comunidade há um tempo que varia entre quatro e dezenove anos. Quanto ao grau de escolaridade, duas cursaram o Ensino Médio completo, e uma cursa o Ensino Fundamental. Das três ACSs, duas já receberam a visita de extensionistas em suas famílias, por um período entre três e quatro anos, e uma acompanha o Projeto desde o início como ACS.
As duas lideranças comunitárias participantes do estudo têm idade entre trinta e quatro e cinquenta e quatro anos, respectivamente, e residem na comunidade há cerca de vinte anos. Já receberam estudantes em suas residências: uma, quando passava por problemas de saúde e sentiu necessidade; a outra, para visitação à mãe, por aproximadamente quatro anos.
As seis moradoras da comunidade participantes da investigação apresentam faixa etária entre trinta e oito e setenta e oito anos de idade. Quase todas cursaram o Ensino Fundamental incompleto e são trabalhadoras do lar, exceto uma, que exerce a função de costureira. Todas residem na comunidade, há cerca de seis a vinte e três anos. As moradoras entrevistadas recebem a visita de extensionistas, há um tempo que varia de seis a treze anos.
Para a apreensão dos dados, foram utilizadas as técnicas de observação participante, grupo focal e entrevista. Segundo Minayo (2008), o uso de mais de uma técnica de coleta de dados permite uma melhor articulação entre os dados empíricos da pesquisa e ajudam o pesquisador a obter uma melhor compreensão sobre o tema investigado. Esclarecemos que o desenvolvimento das referidas técnicas de coleta de dados teve início com a solicitação para a realização do estudo, mediante a apresentação da proposta de estudo e do consentimento livre e esclarecido aos participantes (Apêndice A).
Nesse sentido, foram consideradas, as observâncias éticas da pesquisa que envolve seres humanos, preconizadas pelo Conselho Nacional de Saúde e contempladas na Resolução 196/96 do Ministério da Saúde (BRASIL, 2006a). Portanto, primou-se pelo consentimento livre e esclarecido dos participantes, resguardando-se, entre outros aspectos, o direito sobre sua participação no estudo e à sua privacidade durante todo o processo de desenvolvimento da pesquisa. A coleta de dados transcorreu normalmente, atingindo os objetivos propostos para o estudo, contemplando a riqueza da vivência dos respectivos participantes.
envolvimento nas atividades das pessoas pesquisadas, se houver oportunidade. No caso específico deste estudo, a observação participante apresentou esse duplo aspecto, uma vez que desenvolvemos, como professora, atividades no Projeto, participando, em conjunto com outros professores e estudantes extensionistas, das ações propostas por ele.
A observação participante constou de uma observação livre, sem roteiro específico, para apreender os aspectos considerados relevantes no campo da ética, experienciados por estudantes no PEPASF. Ressaltamos que quarenta estudantes do Projeto, sujeitos da observação participante, assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, para que pudessem ser observados em suas práticas de educação popular em saúde, realizadas, principalmente, no contexto das visitas às famílias, nas atividades coletivas e na relação com outros estudantes e professores. Para ilustração das atividades, foram reproduzidas fotografias com autorização prévia dos participantes do estudo.
O registro das informações coletadas por meio da observação participante, foi realizado por meio do diário de campo, considerado por Minayo (2008) como um “amigo silencioso”, que contempla percepções, questionamentos, informações acerca do objeto de estudo que, usualmente não são obtidas com a utilização de outras técnicas de coleta de dados. Esse instrumento permitiu que as situações, que já são naturalmente vivenciadas pelo grupo específico, fossem registradas e refletidas dialeticamente, num processo de reelaboração do vivido.
É pertinente acrescentar que as situações vivenciais registradas em diário de campo estão presentes no capítulo referente à análise e à discussão de dados empíricos da pesquisa. Entretanto, para não ficar repetitivo, optamos por não mencionar repetidamente que tais vivências foram retiradas do diário de campo. Elas farão parte do texto, de modo a trazer para a descrição analítica a realidade concreta vivenciada no contexto do PEPASF.
A realização do grupo focal ocorreu no mês de julho de 2010. Procedemos a dois grupos focais, que abrangeram grupos distintos de participantes: um envolveu professores, e o outro, estudantes extensionistas. Foram realizados em dia e horário agendados com os integrantes, em ambientes do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal da Paraíba, de modo que eles se sentissem à vontade para expressar suas contribuições para a temática do estudo.
É oportuno acrescentar que participamos de uma oficina sobre grupo focal, no Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFPB, em período anterior ao da coleta de dados. Tivemos a oportunidade de aprimorar nossos conhecimentos teóricos e práticos acerca dessa técnica, o que contribuiu significativamente para sua aplicação em nosso estudo.
Quanto ao número de participantes, a orientação sobre a técnica de grupo focal recomenda que ele deve conter seis a quinze pessoas, podendo-se também reduzir o contingente, o que corresponde a um minigrupo. Quando se quer gerar um número maior de ideias, organizam-se grupos maiores; quando se espera aprofundar a temática na discussão, opta-se por números menores (DALL‟AGNOL; TRENCH, 1999; GATTI, 2005). Neste estudo, o grupo focal dos docentes foi composto por cinco participantes inseridos no chamado minigrupo - os professores que fazem parte do PEPASF. Em relação ao grupo focal dos discentes, participaram do encontro seis estudantes do Projeto.
A operacionalização do grupo focal se faz mediante a atuação da moderadora ou facilitadora do grupo e a de uma observadora que proporcione apoio à organização do encontro, aos registros necessários de expressões não verbais detectadas e às discussões posteriores aos encontros (DALL‟AGNOL; TRENCH, 1999; RESSEL et al., 2008). Desse modo, na condição de pesquisadora, atuamos como moderadora dos grupos, e uma colega do Curso de Doutorado atuou como observadora, apoiando a operacionalização do encontro, registrando expressões e compartilhando suas impressões a respeito do momento.
Procuramos promover um ambiente acolhedor, para que todos os participantes relatassem, de forma dialogada e espontânea, suas concepções e experiências acerca da ética nas práticas de educação popular em saúde que são desenvolvidas por estudantes no PEPASF. Os grupos focais tiveram duração em torno de duas horas.
As entrevistas foram realizadas entre os meses de junho e julho de 2010. Essa técnica é considerada um importante meio para a obtenção de dados em pesquisas qualitativas, um momento de apreensão de opiniões, sentimentos, condutas, comportamentos, experiências, tudo relacionado com o objeto de pesquisa (MINAYO, 2004). No caso específico deste estudo, a entrevista individual foi feita com três ex-extensionistas discentes, duas lideranças comunitárias, três ACSs e seis moradoras.
As entrevistas foram realizadas nos seguintes locais: com os ex-extensionistas estudantes, em salas de aula da UFPB; com as moradoras, em seus próprios domicílios; com as lideranças e com as ACSs, na Associação Comunitária. A apreensão dos relatos foi realizada mediante utilização de sistema de gravação digital, posto que capta fielmente os discursos dos pesquisados e teve duração de cerca de vinte minutos. Após o consentimento livre e esclarecido dos participantes, procuramos deixar que se expressassem com espontaneidade, por meio de um diálogo informal, de modo que fossem desveladas as suas observações acerca da temática em estudo, de acordo com as suas experiências no âmbito do Projeto.
Foram também utilizados como fontes de dados empíricos trechos de sete depoimentos de vivências escritos por seis estudantes e um ex-extensionista discente, inclusos no livro sobre o PEPASF (VASCONCELOS, E. M.; CRUZ, P. J. S. C. (Org.). Educação popular na formação universitária: reflexões com base em uma experiência. São Paulo: Hucitec, 2011.), os quais foram disponibilizados pelos autores para compor material empírico deste estudo. Eles foram incluídos neste estudo devido a expressarem com clareza e densidade aspectos significativos vivenciados no Projeto, pertinentes aos seus objetivos. Ressaltamos que os depoimentos foram obtidos durante o período de coleta dos dados empíricos.
Os dados apreendidos foram analisados através da técnica de análise temática de conteúdo. Segundo Bardin (2009), a análise de conteúdo diz respeito a um conjunto de técnicas de análise das comunicações. A descrição analítica funciona segundo procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens.
determinados temas denota os valores de referência e os modelos de comportamento presentes no discurso.
Para Bardin (2009), esse tipo de análise é constituído por três fases. A primeira etapa é a pré-análise, quando se procede à leitura flutuante ou superficial do material, escolhem-se os documentos a serem analisados e se retomam o objetivo proposto e os recortes do texto que orientarão a análise temática. A segunda etapa, exploração do material, é uma fase longa, que consiste, essencialmente, em operações de codificação e agregação dos dados em categorias temáticas. A terceira etapa propõe o tratamento e a interpretação dos resultados obtidos.
Nesse momento, é possível ao pesquisador analisar e interpretar o material coletado, de acordo com o seu quadro teórico. Assim, os dados empíricos obtidos são analisados de acordo com as categorias temáticas que se revelarem a partir da pesquisa, e respaldados à luz da literatura pertinente ao tema em estudo.
Com base nessas considerações, inicialmente, procedemos à transcrição dos dados. Em seguida, realizamos leituras dos textos originados dos grupos focais, das entrevistas, da observação participante e dos depoimentos vivenciais, procurando realizar recortes, de acordo com os objetivos do estudo. Em uma fase subsequente, procedemos a leituras sucessivas e minuciosas dos textos, buscando reconhecer e apreender categorias temáticas que representassem os pontos de convergência dos relatos dos participantes. A terceira etapa compôs a discussão dos dados empíricos, quando foram evidenciados, também, as contradições que os relatos apreendidos sobre a temática revelaram, em um movimento interpretativo realizado numa perspectiva dialética e respaldado na literatura pertinente ao tema em estudo. Acrescentamos que, como refere Minayo (2008), o movimento dialético origina um produto final provisório, resultado de todas as etapas de pesquisa, o qual, por sua vez, em momento posterior, servirá de subsídio ao desenvolvimento de outros estudos a respeito dessa temática, em um movimento de constante vir a ser.