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FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES DE BIOLOGIA: UMA ANÁLISE A PARTIR DA TEORIA ATOR-REDE

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Academic year: 2021

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FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES DE BIOLOGIA: UMA ANÁLISE A PARTIR DA TEORIA ATOR-REDE

Luciana Resende Allain (UFMG) Stella Maris Lemos Nunes (UFVJM) Santer Alvares de Matos (CENTRO PEDAGÓGICO – UFMG)

Resumo

O presente trabalho refere-se a um recorte de uma pesquisa de doutorado em andamento sobre a identidade profissional de licenciandos em Ciências Biológicas. Os dados referem-se a um levantamento quantitativo realizado no final de 2013 junto a 52 formandos em uma universidade pública mineira, que teve como objetivos mapear o perfil dos formandos e identificar se suas expectativas profissionais se modificaram ao longo do curso. Os dados foram submetidos à análise estatística utilizando-se o software SPSS. Os resultados apontam que 38,5% dos sujeitos pesquisados não pretende atuar como docente, 3,8% ainda não se decidiram e 57,7% desejam a docência como profissão. Parte considerável destes últimos pretende atuar no ensino superior (23,3%). Dentre os licenciandos que não desejam ser professores, 80% admitem que mudaram de opinião durante o curso de licenciatura e elencaram como principais desmotivadores: a remuneração da profissão (81,3%), o contato com a escola e a vivência de sua realidade (75%); o Estágio Supervisionado (50%); as disciplinas da Faculdade de Educação (37,5%) e o desestímulo da família ou dos amigos (37,5%). Ressalta-se que 84,6% dos sujeitos pesquisados declararam participar ou já ter participado de atividades de pesquisa na área da Biologia, 63,5% como bolsistas. Em uma perspectiva da Teoria Ator-Rede percebe-se a formação de poucas associações engendradas a favor da identidade docente e vários desvios durante a trajetória de formação inicial que parecem culminar com a formação de uma rede “contraidentitária” em relação a docência. A vasta oferta de bolsas de iniciação científica no instituto de Ciências Biológicas, somada aos aspectos desmotivadores já mencionados, aparecem como alguns dos actantes que promovem translações que desfavorecem a identidade docente.

Palavras-chave: Teoria Ator-Rede, identidade docente, formação de professores Introdução

Neste trabalho, que tem a Teoria Ator-Rede (TAR) como pressuposto teórico-metodológico, buscamos estudar a identidade docente em movimento, na sua performatividade. Admitimos que a identidade não é fixa, nem é dada por estruturas ou pertencente às pessoas, mas é performada de diferentes formas, na prática social. Portanto, não partimos de categorias pré-definidas, mas visamos descrever os movimentos dos atores (ou actantes), dentro da Rede, que contribuem para a produção de identidades. A Teoria Ator-Rede, que tem em Latour uma de suas principais referências, advoga que um fato científico só existe se for sustentado por uma rede de actantes e, portanto, o cientista nunca remete à natureza em si, mas aos seus colegas e à rede que o constitui como tal (Moraes, 2001). Latour considera, portanto, que, em

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última instância, uma ciência não se universaliza, mas sua “rede” se estende em grandes proporções e se estabiliza. Ao se estabilizar, esta rede pode transformar os fatos científicos em “caixas-pretas”, tornando-os assépticos, indubitáveis e destituídos de uma história. A Teoria Ator-Rede tem interesse em abrir as “caixas-pretas”, reconstituindo a trajetória de sua construção, revelando os processos de negociação, os interesses em jogo, as controvérsias e decisões produzidas nesta construção.

Importante destacar que a palavra “ator”, para Latour, não está relacionada à acepção sociológica do “ator social”. Um ator (ou actante) é tudo que age, que produz efeitos no mundo ou sobre ele, podendo ser uma pessoa, instituição ou coisas - animais, máquinas ou objetos. Portanto, na constituição de redes devem ser considerados tanto os elementos humanos quanto os não humanos: desta rede fazem parte os colegas, as instituições de financiamento, as rivalidades, a mídia, os periódicos de divulgação científica, o mercado consumidor. Com o objetivo de ultrapassar a separação moderna entre os humanos e os não-humanos, Latour (1994) defende que se dê igual importância de tratamento para a produção tanto dos primeiros quanto dos segundos, estudando-os ao mesmo tempo.

A palavra “rede” não se relaciona à rede cibernética, uma vez que, ao contrário do que acontece na internet - onde as informações são transportadas por longas distâncias sem sofrer alterações - na Teoria Ator Rede a “rede remete a fluxos, circulações e alianças, nas quais os atores envolvidos interferem e sofrem interferências constantes” (Freire, 2006:10).

Por fim, a palavra “teoria” presente na TAR também não se refere a um sistema de referência que possa ser aplicado a algo, mas antes de tudo, é um caminho para se seguir a construção e fabricação de fatos científicos. Rezzadori e Oliveira (2011) afirmam que a partir da ação de diferentes atores e dos fatos a eles relacionados, a TAR permite-nos descrever e enfatizar “os movimentos, os fluxos, as circulações, as alianças, as estratégias e táticas de associação e negociação utilizadas por estes na construção de uma rede, antes que esta se torne uma estrutura rígida”, isto é, uma “caixa-preta”. Portanto, o grande desafio desta teorização é mostrar como se constroem estas “caixas-pretas”, alinhando “cada etapa com as que a antecedem e sucedem, de modo que, começando pela última, possa-se regressar à primeira.” (Latour, 2001, p. 81)

Desta forma, a tarefa dos cientistas de transformar uma alegação em um fato científico torna-se cada vez mais complexa, dependendo da operação que Latour (op. cit.: 178) chamou de translação, ou seja, da “interpretação dada pelos construtores de fatos aos

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seus interesses e aos das pessoas que eles alistam”. Para ele, a caixa-preta “se torna duradoura somente através da ação de muitas pessoas; se não houver mais ninguém para adotá-la, ela acabará, desaparecerá, por maior que seja o número de pessoas que a tenham usado antes” (Latour, 2000, p. 227).

O conceito de translação é uma referência central para a prática científica, uma vez que, para Latour (2000: 194) “transladar interesses significa, ao mesmo tempo, oferecer novas interpretações desses interesses e canalizar as pessoas para direções diferentes”. Então, para realizar as translações é necessário lançar mão de estratégias que desviem interesses e reforcem associações.

Moraes (2001) explica que um fato não se constitui por sua racionalidade, mas antes pelos efeitos de racionalidade produzidos a partir do momento em que ele é acolhido na comunidade científica, e para tanto precisa interessar, convencer, produzir informação nova. Uma vez constituído, um fato implica uma combinação simultânea da natureza e da sociedade. Neste trabalho temos a intenção de identificar as translações relativas à formação da identidade docente em licenciandos em Ciências Biológicas.

Metodologia

Os dados foram coletados por meio de um questionário com questões fechadas, aplicado a uma amostra de 52 licenciandos matriculados no 2º semestre de 2013 na disciplina Estágio Supervisionado III, ofertada no último período do curso de Ciências Biológicas. O objetivo do questionário foi caracterizar o perfil dos formandos; identificar suas expectativas profissionais e a percepção do curso por parte dos formandos. Os dados foram submetidos a uma análise estatística descritiva, por meio do Programa SPSS® (Statistic Package for Social Sciences) da IBM.

Resultados e Discussão

Os dados de caracterização dos sujeitos pesquisados apontam que grande parte dos formandos é do sexo feminino (76,9%) e têm em média 25,7 anos de idade. Mais de 80% deles estudam no período noturno, sendo que parte considerável deles não trabalha (71,2%) e possui renda familiar entre 3 a 6 salários mínimos (30,8%). Outros 28,8% auferem renda familiar entre 1 a 3 salários mínimos. A maioria dos formandos realizou o Ensino Médio em escolas públicas (53,8%). Consideramos que a opção profissional dos acadêmicos é embasada em grande parte por representações anteriores ao curso, focadas desde o momento da sua escolha. O conhecimento do foco do curso para a formação de professores e o imaginário sobre a profissão docente também nos parecem fatores importantes na construção da identidade profissional docente. O levantamento

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destes dados mostra que grande parte dos formandos, ao ingressar na graduação, não tinha como primeira opção o curso de licenciatura (42,3%). A despeito disso, a grande maioria deles (80,8%) sabia que a licenciatura tem foco na formação de professores. Em relação ao imaginário sobre a profissão de professor, embora 67,3% dos sujeitos considerem a docência uma profissão importante para a formação de todos os profissionais, sobressaem as concepções negativas em relação à docência, já que 67,3% a consideram uma profissão desvalorizada e mal remunerada e 55,8% a considerem uma profissão muito desgastante e pouco reconhecida.

Os dados também apontam que 30 dos 52 sujeitos pesquisados (57,7%) pretendem, inicialmente, atuar como docentes. No entanto, quando questionados sobre onde pretendem atuar, apenas 6,7% deles desejam trabalhar em escolas públicas da Educação Básica. Boa parte deles pretende atuar no Ensino Superior (23,3%), outros 26,7% gostariam de atuar em qualquer nível de ensino e 20% preferem atuar em escolas particulares da Educação Básica. Outros 23,3% afirmaram que podem atuar em qualquer rede de ensino. Os dados acima nos parecem alarmantes, se consideramos o baixo interesse dos licenciandos em atuar na escola pública e, em contrapartida, um número relativamente elevado de sujeitos que manifestaram desejar atuar no Ensino Superior. Parte dos licenciandos assume a possibilidade de atuar na docência, mas não em “qualquer” docência. Somado a isso, nos surpreendeu o fato de que parte considerável dos sujeitos pesquisados não deseja atuar como docente (38,5%), muito embora conhecessem o foco de um curso de licenciatura. Os demais 3,8% ainda não sabem se querem ou não atuar como docentes.

Questionamos os licenciandos se escolheram ou não ser professores antes da entrada na universidade ou se mudaram de opinião durante o curso. Observamos que, dentre os 57,7% dos sujeitos que escolheram a docência como profissão, 73,3% já entraram no curso com a opção pela atuação no magistério e 26,7% mudaram sua opinião durante o curso. Para 75% destes, o contato com a escola durante os estágios obrigatórios motivou a mudança de opinião. No entanto, dos 20 licenciandos (38,5%) que afirmaram escolher não atuarem na docência, 16 deles (80%) mudaram de ideia ao longo do curso. Ao elencaram os motivos desta mudança, colocam que os principais desmotivadores para serem professores são: a remuneração da profissão (81,3%), o contato com a escola e a vivência de sua realidade (75%); o Estágio Supervisionado (50%); as disciplinas da Faculdade de Educação (37,5%) e o desestímulo da família ou dos amigos (37,5%). Outro dado interessante revela que 84,6% dos sujeitos pesquisados já participou ou

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participa de pesquisa na área da Biologia, sendo 63,5% como bolsistas. Considerações Finais

Do ponto de vista da Teoria Ator-Rede, podemos inferir que uma série de actantes tem se associado na criação de uma rede “contraidentitária” com a docência. O curso de Ciências Biológicas e as escolas - espaços formativos onde a docência deveria ser estimulada - não têm realizado associações entre actantes que fortaleçam esta identidade docente. Isso se verifica quando boa parte dos licenciandos aponta que durante sua trajetória acadêmica mudaram de opinião sobre a possibilidade de atuação profissional no magistério. No curso de licenciatura, o interesse pela docência pode estar sendo desviado pela grande oferta de bolsas de iniciação científica nos laboratórios de pesquisa do Instituto de Ciências Biológicas. Ademais, o contato tardio com a Faculdade de Educação pode ser um actante desfavorável à identidade docente, uma vez que as oportunidades de estudos e pesquisas na área de educação acabam sendo pouco acessíveis aos licenciandos, especialmente os novatos. A escola também parece ter papel fundamental no desvio do interesse pela docência, já que a vivência dos estágios obrigatórios, para muitos deles, é desestimulante. Soma-se a isso o imaginário da docência como uma profissão mal remunerada, muito desgastante e pouco reconhecida. A isonomia profissional dos licenciandos com os bacharéis em Biologia também pode ser um forte actante que promove associações para a construção desta rede contraidentitária, uma vez que boa parte dos licenciandos acaba optando por oportunidades de trabalho na área de atuação dos biólogos, oportunidades estas mais vantajosas que a docência.

Referências

FREIRE, L. de L. Seguindo Bruno Latour: notas para uma antropologia simétrica. IN: Comum - Rio de Janeiro, v.11, nº 26, p. 46 a 65, janeiro / junho 2006.

MORAES, M. A ciência como rede de atores: ressonâncias filosóficas. História, Ciências,

Saúde – Manguinhos, v.11, nº2, p. 321-333, 2001.

LATOUR, B. Jamais fomos modernos: ensaio de Antropologia simétrica. (Trad. Carlos Irineu da Costa) Rio de Janeiro: Ed.34. 1994.

__________. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. São Paulo: UNESP. 2000.

__________. A esperança de Pandora: ensaios sobre a realidade dos estudos científicos. São Paulo: EDUSC. 2001.

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REZZADORI, C. B. D. B. e OLIVEIRA, M.A. A rede sociotécnica de um laboratório de Química do Ensino Médio. In: Experiências em Ensino de Ciências, v. 6, nº3, p. 16-37, 2011.

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