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Filosofia, ciência e argumentação ateísta

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Academic year: 2021

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Contato com o autor: [email protected] CIP ­ Brasil. Catalogação na Fonte. Câmara Brasileira do Livro, SP Freitas, André de Sousa. Filosofia, ciência e argumentação ateísta. 1ª Edição. São Paulo, 2011. 1. Filosofia e Teoria da Religião. 2. Apologética Cristã. 3. Ateísmo. I. Título.     CDD­210 Índice para catálogo sistemático: 1. Filosofia e Teoria da Religião ­ 210

Última revisão: 21 de Julho de 2013.

Este livro é uma versão resumida e ilustrada da obra “As Máscaras do Ateísmo”, com 334 páginas do mesmo autor.

Todos os direitos reservados ao autor. Reproduções da obra poderão ser feitas, desde que citada a fonte (autor, ano, editora e local) e não destinadas a uso comercial. O uso

comercial sem autorização expressa por escrito do autor, sujeitará o infrator nos termos da lei n. 6.895 de 17/12/1980, à penalidade prevista nos artigos 184 e 186 do código penal. Registrado na Fundação Biblioteca Nacional em 3 de Março de 2003, sob o número 370.829, livro 686, folha 489. “AS MÁSCARAS DO ATEÍSMO” - 2006SP_1258.

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Sumário

INTRODUÇÃO...6

A MÁSCARA DA ERUDIÇÃO...8

David Hume e o empirismo do séc. XVIII...9

Friedrich Nietzsche e o Radicalismo do Séc. XIX...13

Bertrand Russell e a Filosofia Analítica...18

Jean-Paul Sartre e o Existencialismo do Séc. XX...22

Richard Dawkins e a nocividade da fé...25

Tendências atuais...28

AS MÁSCARAS DE CIÊNCIA...30

De Galileu a Einstein: a física contraria a fé?...30

A Evolução das Espécies...31

A Psicologia e a Fé...37

A Cultura Cristã e as Ciências Sociais...41

Confrontando a Fé com a História...47

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I

NTRODUÇÃO

Ateísmo é a crença na inexistência de Deus. Os defensores dessa visão  gostam de usar palavras sofisticadas e se valer de ideias filosóficas, fazendo com  que as pessoas que estão tomando contato com essas ideias pela primeira vez  fiquem com a impressão de que não podem combater tais pensamentos. Nesse  primeiro   contato,   muitas   pessoas   religiosas  sentem   um   duro   golpe   em   suas  convicções e somente depois de se refazerem é que começam a pensar em formas  de defender sua crença na existência de Deus. As máscaras do ateísmo são os  disfarces   usados   pelos   ateus,   disfarces   esses   que   fazem   com   que   seus  argumentos  se  pareçam  algo  muito  profundo  e abrangente,  que  para  serem  compreendidos seja necessário conhecer muito de ciência e filosofia, quando na  verdade não é bem assim, pois como veremos, em todas áreas da ciência e em  várias   formulações   filosóficas,   o   ateísmo   parte   de   um   único   e   injustificável  pressuposto: a incredulidade quanto ao sobrenatural. O pensamento ateu existe desde os tempos mais remotos. A formalização  de seus argumentos, porém, pode ser estudado a partir dos pensadores gregos.  O filósofo grego Epicuro (341­270 a.C.) questiona, por exemplo, a origem dos  males, já que Deus tem poder e desejo em eliminá­los. Aristófanes (447­385  a.C.) também aludiu a problemas na concepção do divino, quando alegou que  mesmo nos seios dos deuses havia injustiça, já que o próprio Zeus, segundo a  mitologia, teria destronado seu próprio pai.

Com   a   difusão   do   cristianismo,   a   filosofia   se   amoldou   aos   princípios  cristãos, e somente na renascença o ateísmo voltou a ter força no pensamento  erudito. Na ciência, o desenvolvimento da mecânica e das leis físicas através das  quais o movimento dos corpos podiam ser previstos, surgiu a ideia de que assim  como   no   funcionamento   dos   sistemas   celestes   (planetas,   estrelas   e   corpos  celestes em geral em relação a seus movimentos), todo e qualquer movimento,  até   mesmo   os   movimentos   produzidos   pelo   corpo   humano,   também   seriam  preditos   por   leis.   Dessa   forma,   não   existiria   vontade,   livre­arbítrio   ou  sobrenatural, pois tudo seria explicado a partir das leis da física. Nesse ínterim,  a filosofia materialista usurpou o status de regra de fé dos filósofos e cientistas: 

não existe sobrenatural, tudo o que há está na natureza (naturalismo), e todas  as respostas estão na ciência (cientismo).

O   ateísmo   dessa   época   considerava   ser   impossível   acreditar   no  sobrenatural, ou seja, o povo só acreditava em Deus porque não conhecia ciência  e filosofia de forma suficiente para saber que tal crença era absurda. O filósofo  David Hume (1711­1776) argumentou contra a crença em milagres, alegando  ser impossível para a mente humana aceitar o sobrenatural. Com o passar do tempo, surgiu a teoria da evolução das espécies, o que na  Busto de Epicuro. Uma máscara: a ocultação

da face como símbolo da manipulação ideológica.

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opinião dos ateus fez diminuir ainda mais a possibilidade de se acreditar em  Deus, particularmente na Bíblia. Nessa época, o determinismo (crença de que  todo   o   futuro   está   previamente   determinado   e   pode   ser   previsto   pelas   leis  físicas) atingiu seu ponto máximo. Alguns filósofos como Nietzsche chegaram a  dizer que a vontade era algo que não existia, era uma mera invenção humana  que foi construída para culpar as pessoas e lhes condenar, mantendo­as assim  dominadas pelos sacerdotes de diversas religiões. O desenvolvimento das ciências sociais, da psicologia e da arqueologia  também forneceram combustível para o ateísmo. Teorias sobre o surgimento das  religiões foram construídas, bem como teorias sobre a criação da Bíblia, todas  elas partindo do pressuposto da inexistência de Deus. Psicologistas escreveram  sobre a religião como fruto da psique humana. A moral também não deixou de  ser citada e justificada num cenário ateísta, e para isso filósofos existencialistas  lançaram mão de sua erudição para mostrar que a ética não é um benefício  produzido   pela   religião.   Aliás,   os   mais   recentes   ataques   contra   as   religiões  seguem no sentido de dizer que as religiões destroem a ética, por perpetuarem  erros   do   passado   ao   impor   suas   doutrinas   e   tradições   formadas   em   épocas  remotas.

Se no início os ateus alegavam ser impossível para uma mente aberta  acreditar em Deus, agora alegam que apesar de ser possível acreditar em Deus,  essa crença é nociva, é responsável por muitos retrocessos e males na história  da humanidade. Apesar disso, cada vez mais a ciência avança e o espaço para a  crença   ateísta   se   encolhe.   A   arqueologia   moderna,   apesar   da   insistência   de  alguns   ateus   em   interpretarem   as   evidências   de   forma   a   contrariar   o  testemunho bíblico, expõe cada vez mais que a Bíblia é um livro verdadeiro em  suas   narrações,   e   lançando   fora   interpretações   forçadas   da   Bíblia,   não   há  qualquer evidência científica que a contrarie, o que faz com que ela seja cada  vez   mais   acreditada   nos   mais   altos   círculos   intelectuais.   Ultimamente,  evidências que sugerem a ação divina, como a impossibilidade da formação da  matéria viva a partir da matéria morta, como algum testemunho de milagre ou  como   o   surpreendente   fato   de   o   quanto   nosso   planeta   é   propício   a   vida,   é  contrariado pelos ateus com o uso da estatística, quando são obrigados a admitir  o fato a partir de uma probabilidade ínfima, como alguém ganhar na loteria  todas   as   vezes   desde   que   existe   loteria   por   pura   sorte.   Em   breve,   tais  justificativas não poderão mais ser aceitas, e o ateísmo será desmascarado. Sem  máscaras, ele não deixará de existir, mas mostrará sua verdadeira face, a face  da contrariedade a Deus, do anticristianismo. 6 Nietzsche: o filósofo da morte de Deus. Fóssil de um dinossauro. Descobertas científicas nem sempre se amoldam a crenças religiosas

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A M

ÁSCARA

 

DA

 E

RUDIÇÃO

Nessa  parte,   conheceremos   os  pensamentos  de  alguns  filósofos   que  os  levaram a afirmar que Deus não existe. Como veremos, esses pensamentos são  sempre falhos, seria sempre possível criar um raciocínio alternativo admitindo a  existência de Deus. Filósofos: como construtores do pensamento erudito, podem influenciar toda uma sociedade.

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DAVID HUME E O EMPIRISMO DO SÉC. XVIII

David Hume (1711­1776) nasceu em Edimburgo, na Escócia. Foi filósofo e  historiador, e é considerado um dos mais importantes nomes do iluminismo. Seu  pai faleceu quando ele ainda era criança. Frequentou a universidade dedicando­ se à carreira jurídica, mas a abandonou entregando­se a filosofia. Estudou, como  autodidata na França, onde lançou o livro “Tratado da natureza humana”. Seu  livro não foi apreciado na época, embora tenha sido considerado posteriormente  como   obra   de   significado   excepcional   para   a   filosofia.   Foram­lhe   recusadas  cadeiras nas universidades de Edimburgo e Glasgow, pela sua concepção ateísta  da realidade. Hume trabalhou como psiquiatra e como secretário, teve fama de  literário e historiador. Seu trabalho teve grande prestígio quando Immanuel  Kant (1724­1804) afirmou que este o despertou do sono dogmático.

Ensaio sobre o Entendimento Humano

Esse livro foi lançado por Hume no ano de 1748, e nele Hume mostra seu  pensamento   sobre   a   origem 

das ideias. Ele acredita que  as   ideias   se   originam   das  impressões,   que   são   os  contatos   diretos   com   os  objetos   ou   sentimentos.  Olhando para um objeto, por  exemplo, uma xícara de chá,  você capta suas impressões:  sua   forma,   cores,   desenhos,  tamanho   etc.   Quando   você  não está mais olhando para  aquele   objeto,   ainda   assim  você   pode   se   lembrar   dele.  Assim   são   as   ideias,   elas  nascem das impressões, mas  continuam   existindo   em 

nossa   mente 

independentemente   dos  objetos.

Dessa   forma,   nossa  mente   pode   criar   objetos  imaginários,   apenas   usando  as   ideias.   Você   pode   nunca  ter visto  uma  montanha   de  ouro,   mas   pode   imaginar  uma. Por isso a ideia de um  ser   majestoso   e   infinito,  chamado   Deus   existiu:  porque os homens usaram o  poder   de   suas   mentes   em  criarem seres imaginários.

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David Hume: cérebre por seu empirismo e ceticismo filosófico.

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Entre   as   muitas   formas   de  conexão entre ideias, Hume destaca  a   associação   por   causa­efeito:   o  efeito   faz   lembrar   da   causa.   Ele  acredita   que   quando   dizemos   que  um efeito procede de uma causa, por  exemplo, queimaduras procedem do  contato   da   pele   com   o   fogo,   essa  crença   se   baseia   somente   na  experiência. Para ele, nada justifica  a crença de que da próxima vez que  alguém   encostar   no   fogo   se  queimará de novo. Sabemos disso só  porque   até   hoje   isso   sempre  aconteceu   dessa   mesma   forma.   Da 

mesma   forma,   sabemos   que   se   soltarmos   uma   pedra   ao   ar   livre,   ela   cairá,  porque todas as vezes que alguém a solta, ela sempre cai.

Mas nem todos os efeitos são assim tão certos. Pense no caso de tomar um  remédio: nem sempre aquele remédio faz a pessoa melhorar imediatamente,  algumas vezes a pessoa melhora, outras não. Assim, as pessoas acreditam mais  nos   remédios   que   funcionaram   mais   vezes,   e   duvidam   dos   remédios   que  funcionaram poucas vezes. Se um remédio nunca funcionou, certamente ele não  será mais usado. Até aqui, todos estamos de pleno acordo, mas observe o que ele  pretende dizer, usando esse mesmo raciocínio, em relação  a  fé: milagres não  existem, pois assim como o remédio que nunca funciona, nunca vemos nenhum  milagre acontecer. Portanto, conclui ele, é impossível a mente humana aceitar  um milagre, assim como é impossível a mente humana pensar que uma pedra  possa ser solta no ar e não cair. É claro que esse raciocínio é muito fraco: por  que temos que duvidar de algo que jamais aconteceu? Quem jamais viu neve  deve duvidar  que  ela existe? Quem jamais viu  o mar deve  duvidar que ele  existe? E devemos duvidar que o centro da Terra é quente só porque até hoje  ninguém foi até lá? Essa conclusão de Hume é tão absurda que hoje não é aceita  nem mesmo pelos ateus. Hume fala também nesse livro sobre vontade e livre­arbítrio. Segundo ele,  para se acreditar no livre­arbítrio, é necessário acreditar também que alguns  efeitos sejam independentes das causas, pois se tudo tiver uma causa definida,  ninguém pode dizer que decidiu livremente. Mas por outro lado, ele alega que o  livre­arbítrio precisa supor que os efeitos dependam das causas, porque sem  isso, como alguém poderia ser punido por algo  que fez, se os efeitos de uma decisão errada  não são decorrentes dessa escolha? Hoje em  dia   esse   argumento   não   vale   nada.  Entendemos que a vontade própria e o livre­ arbítrio   são   perfeitamente   possíveis,   e   isso  não contraria o fato de que decisões implicam  em consequências que podem ser positivas ou  negativas.   O   pensamento   dele   está   tão  ultrapassado que chega parecer absurdo hoje  acreditar   que   um   filósofo   pensou   realmente 

Por a mão no fogo causa queimaduras? Só acreditamos nisso por causa de nossas experiências cotidianas. Hume alega que nada pode provar que numa próxima experiência isso novamente ocorrerá. Vista parcial da atual cidade de Edimburgo, onde David Hume nasceu.

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dessa maneira. Mas ele usa esse raciocínio para defender que o homem não tem,  na verdade, um livre­arbítrio, e dessa forma, Deus está envolvido nas culpas  humanas, pois se o ser humano não é perfeito, foi porque seu criador o fez  imperfeito. Essa ideia de culpar Deus pelos erros do ser humano é tão inválida  que, mesmo se fosse verdade, não poderíamos nos queixar, pois o próprio Deus  desceu da sua glória e pagou o resgate do ser humano levando consigo toda  culpa e punição, dando ao homem a oportunidade de salvação de graça.

Na   verdade,   parece   que   nem   ele   tinha   tanta   convicção   sobre   esse  argumento contra o livre­arbítrio, tanto é que na continuação do livro ele volta a  falar sobre milagres, deixando o assunto sobre livre­arbítrio e causa­efeito de  lado. Agora ele começa a atacar os testemunhos de milagres, e seus argumentos  são na verdade fortes, mas falsos. Ele diz que os milagres só existem onde não  há ninguém que seja crítico, pois onde há alguém que questione os fatos, os  milagres incrivelmente desaparecem. Escreve ainda que os maiores milagres da  história ficaram testificados em livros sagrados, sendo que ninguém dos nossos  dias presenciou tais coisas para confirmá­los. Para ele, quanto mais leigo é um  povo,   mais   eles   acreditam   em 

milagres,   e   quanto   mais  estudado é um povo, menos se  acredita   em   milagres.   Isso  sinalizaria que milagres sejam  apenas ilusões sobre coisas que  não   puderam   ser   explicadas  corretamente.   Hume   afirma  que é mais fácil acreditar que  determinada   história   de  milagre   seja   mentira   do   que  acreditar   no   milagre,   pois  milagre nunca se vê, e mentiras  vemos todos os dias.

Como ele já havia dito, é  impossível   para   a   mente  humana   acreditar   num  milagre,   mas   ele   tem   um  problema   aqui:   há   quem  acredite em milagres. E agora?  Sua resposta é: acreditar num  milagre é um milagre! É claro  que   ele   afirma   isso   quase  zombando   de   quem   crê   no 

sobrenatural,  mas  por  mais incrível  que  pareça,  essa   conclusão   é  a  própria  prova de que sua teoria está errada. Evidentemente, Hume entende que um  milagre é uma ação sobrenatural, mas alegar que é impossível a mente humana  aceitar um milagre é mostrar que não entende a extensão de um milagre: se o  ser divino pode intervir no curso da natureza, pode também intervir na mente  humana, tornando­a apta a aceitar a fé. Há uma consideração importantíssima sobre sua conclusão de que quanto  mais ignorante o povo, mais se crê em milagres. O filósofo Gilbert Chesterton  (1874­1936) falou sobre isso, mostrando que quem considera ignorante um povo  10

“A multiplicação dos peixes”, de Rafael Sanzio de Urbino. Para Hume, os milagres só são acreditados por pessoas ingênuas.

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que   crê   em   milagres   é   porque   já   decidiu  que   crer   em   milagres   implica   em  ignorância.   Quem   considera   ajuizado   um   povo   que   não   crê   em   milagres,   é  porque já decidiu que duvidar de milagres é racional. Mas essas decisões são  realmente sábias? Muitas pessoas, especialmente ateus, afirmam que a crença  no   sobrenatural   parte   de   um   dogma,   enquanto   que   quem   duvida   do  sobrenatural assim pensa porque é um livre pensador. Chesterton observou que  o que acontece é o contrário: 

o intelectual que não crê em  milagre, não crê porque tem  um   dogma   a   sustentar,   o  dogma   do   materialismo;  enquanto   isso   o   leigo   que  crê   no   sobrenatural,   crê  porque   viveu   uma  experiência pessoal assusta­ dora   ou   maravilhosa,  portanto,   crê   porque   pode  interpretar   suas   experiên­ cias de forma independente  de   quaisquer   doutrinas  preestabelecidas,   ou   seja,  ele   sim,   é   um   livre  pensador.

R E S U M O

Filósofo:

David Hume (1711-1776)

Argumentação ateísta:

a) Se existe livre-arbítrio, então a sequência de causas e efeitos fica quebrada, já que a livre decisão humana não parte de uma causa (pois assim não seria livre), mas nesse caso, o homem não pode ser culpado por seus atos. Mas se a sequência de causas e efeitos for válida, então Deus é culpado pelos pecados humanos, pois estes não são mais que consequências de sua obra. b) Milagres não podem ser aceitos pela mente humana, pois contraria o testemunho dos sentidos, mas havendo quem os testifique, é mais plausível pensar que tal pessoa esteja enganada ou esteja tentando enganar, o que não contraria os sentidos. Por isso, milagres só são acreditados por pessoas ignorantes.

Refutação:

Hume erra ao pensar que uma vez quebrada a sequência de causas e efeitos, ela fica totalmente inválida. O homem escolhe livremente, mas suas escolhas desencadeiam consequências que podem ser julgadas. Assim, inocentar o homem e culpar a Deus pelos pecados é um erro grosseiro. Mas apesar de não ser o culpado pelos pecados humanos, o próprio Deus quitou a dívida do homem pagando o preço dos seus pecados na cruz. Quanto aos milagres, se há um Deus que pode fazer um milagre na natureza, também o pode na mente humana, fazendo-a aceitar o milagre. Milagres sempre foram aceitos mesmo por pessoas de elevado nível de conhecimento, e a história dá forte testemunho disso (Galileu, Newton, Pascal, Pasteur, Kierkegaard etc).

“Dr. House”: o seriado traz a figura caricata de um intelectual cético, cuja incredulidade é

supostamente justificada por sua saliente

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FRIEDRICH NIETZSCHE E O RADICALISMO DO SÉC. XIX

Friedrich W. Nietzsche (1844­1900), filósofo alemão nascido em Rocken, é  considerado um dos mais importantes filósofos de todos os tempos. Filho de  protestantes, doutrina a qual fora educado em toda a infância, perdeu o pai e o  irmão aos cinco anos de idade, e mudou­se para Naumburg, a morar com a mãe,  a irmã, duas tias e a avó. Em 1858, conseguiu uma bolsa de estudos na escola de  Pforta. Sob a influência dos professores, começou a afastar­se do cristianismo; e  estudou muito o latim e os clássicos gregos. Saindo de Pforta, foi a Bonn, onde  estudou filosofia e teologia. Nietzsche viveu um período de entrega às orgias e  aos   vícios,   ao   cigarro   e   à   bebida,   mas   depois   as   deixou,   julgando   serem  prejudiciais   à   percepção   e   ao   pensamento.   Foi   músico   amador   e   amigo   do  compositor   alemão   Richard   Wagner   (1813­

1883),   a   quem   mais   tarde   criticou.   Suas  principais obras são: “O princípio da tragédia”  (1872),   “Assim   falou   Zaratustra”   (1883­85),  “Genealogia da moral” (1887), “O Anticristo”  (1888), “O crepúsculo dos ídolos” (1889), entre  outras. Nietzsche sofreu frustrações amorosas,  e o fim de sua vida foi trágico: vitimado pela  loucura, dizia ser o sucessor do ‘deus morto’ e  escrevia cartas assinando como ‘o crucificado’.  Ao fim da vida, a obra de Nietzsche começa a  ganhar   notoriedade,   e   após   sua   morte,  influencia   os   formadores   dos   regimes  totalitaristas   europeus   posteriores,   como   o  nazismo.

Crepúsculo dos Ídolos

Nesse livro, lançado em 1889, Nietzsche  afirma que o ser humano vive em decadência.  Para ele, a humanidade começou a contrariar  seus   instintos   de   vida   e   poder   desde   os  pensadores gregos. A própria criação da moral  resume   essa   decadência.   Ele   pensa   que   no  lugar de controlar os instintos como vingança,  ambição, desejo e poder, o ser humano deveria  cultivá­los,   pois   quando   em   nome   da   moral  esses desejos são retraídos, o homem passa a  cultivar o tédio pela vida. Nietzsche alega que  as  religiões  mostram   Deus  como  inimigo da  vida, pois ele sempre está ordenando a moral  e   o   controle   dos   instintos.   Ele   menciona   o  sermão em que Jesus ensina a cortar a mão e  arrancar   o   olho   caso   estes   venham   a   ser  motivo   de   escândalo   a   seu   possuidor.  Contrário   a   esse   ensino,   ele   desabafa:   não  devemos admirar os dentistas que arrancam 

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Nietzsche: em seu obituário escreveu-se: “Um notável Anticristo”.

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os   dentes   para   eles   não   doerem  mais,   mas   devemos   admirar   os  dentistas  que  recuperam  os dentes  sem precisar arrancá­los.

Igual a Hume, Nietzsche não  acredita no livre­arbítrio, ele diz que  vontade   própria   não  existe:   nossas  decisões   e  atitudes   não  passam   de  um   equilíbrio   entre   efeitos   físicos,  químicos   e   biológicos   em   nosso  organismo.   Sendo   assim,   ninguém  pode   ser   responsabilizado   pelo  que  faz, pois só é possível agir de forma  inevitável. Sua opinião sobre a religião é  a de que elas são formas de adestramento humano, ou seja, formas de tornar as  pessoas adestradas. Ele explica que um animal selvagem é forte, instintivo e  vigoroso, mas o animal adestrado é enfraquecido e vive de forma doentia. Da  mesma  forma,   o  ser   humano   religioso   é   doentio   e  enfraquecido,   ensinado  a  conformar­se com o que tem e renunciar sua própria vida. Se as religiões são  meios de enfraquecer os homens, o cristianismo para Nietzsche é a forma mais  extrema   de   se   atingir   esse   objetivo:   no   judaísmo,   pelo   menos   eles   se  identificavam como uma nação, e por essa identificação lutavam e mostravam  bravura, seu Deus era muitas vezes tido como um capitão a frente de exércitos.  No cristianismo, não há luta física, não há um país ou uma bandeira territorial  a ser defendida, a luta do indivíduo é contra ele mesmo, contra seus instintos de  força  e  beleza,  seu próprio  Deus não representa  força  ou vigor,   é  um  Deus  bondoso e humilde, que se entrega a morte sem sequer reclamar.

Nietzsche afirma que o valor de uma coisa reside no que se paga por ela, e  nem tanto no quando se pode adquirir com ela. Ele fala isso tendo em mente a  liberdade   que   a   fé   religiosa   restringe   e   oferece   ao   ser   humano.   A   religião  restringe os apetites instintivos, mas oferece a liberdade da vida, enquanto isso,  Nietzsche   se   queixa  do  quanto  se paga  por  essa   liberdade  (o  abandono   dos  instintos   selvagens).   Mas   quanto   tempo   uma   sociedade   sobreviveria   se  permitisse tudo o que seus indivíduos desejassem? Roubos, vinganças, violações  de   todas   as   naturezas,   domínio   do   mais   forte   entre   outras   arbitrariedades  seriam certamente dominantes. A filosofia de Nietzsche deu muita força aos  regimes fascistas e nazistas, que levaram o mundo a testificar um de seus piores  capítulos nas grandes guerras. O Anticristo Este livro é uma moção de repúdio de Nietzsche ao cristianismo. Aqui ele  diz tudo o que pensa sobre a fé cristã, expressando que para ele essa crença foi a  pior   coisa   que   aconteceu   na   história   da   humanidade,   em   suas   palavras,   o  cristianismo é a imortal vergonha da humanidade. Ele começa o livro dizendo que felicidade é ter poder. O bem, para ele, é  conquistar o poder, enquanto que o mal é a fraqueza, é a perda de poder. Como  já dito, ele acredita que o cristianismo é uma forma de adestramento do ser  humano. Enquanto Cristo pregava a compaixão, ele acredita que a compaixão  Um animal selvagem expressa força e

vitalidade. Para Nietzsche, um cristão é uma “doentia besta humana”.

Foto do regime nazista: apesar de amplamente negado, a filosofia de Nietzsche contribuiu com a formação desse regime bárbaro.

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enfraquece o ser humano, pois ele deixa de dominar quando se compadece. A  compaixão do próprio Deus pelo ser humano assusta Nietzsche: para ele, a cruz  significa a inversão de valores, pois o próprio Deus sendo todo poderoso, mostra  compaixão   e   se  deixa   enfraquecer   e  morrer   pelo   homem,   um   espetáculo   de  fraqueza e perda de poder. Ele diz que a ideia de um Deus bondoso e fraco  surgiu   da   experiência   de   servidão   dos 

judeus.   Eles   teriam   invertido   o  significado de bem e mal para se manter  em   vantagem.   Evidentemente,   essa  concepção   é   equivocada,   pois   o  cristianismo não foi uma adequação do  judaísmo (os judeus recusaram o próprio  Cristo),   e   outra:   os   judeus   também  recusaram   a   servidão,   não   se  conformaram   a   ela,   pois   ainda   no  primeiro   século   da   era   cristã,   eles   se  insurgiram contra o império dominante  numa fracassada revolta.

Nietzsche   diz   que   prefere   o  budismo como religião, pois nele não há  combate   ao   pecado,   e   sim   combate   ao 

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Acima: estátua do Buda em Hong Kong. Abaixo: concentração de monges budistas na Tailândia. A substituição de orações por regimes e do combate ao pecado pelo combate ao sofrimento fez Nietzsche considerar essa religião mais realista.

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sofrimento; não há orações, mas sim regimes. Assim,  o  budismo  aceita   muito  mais  o  corpo,   compreende  suas   necessidades   e   prega   uma   virtude   que   se  direciona   aos   valores   humanos.   Ele   faz   essa  comparação   para   dizer   que,   lendo   os   evangelhos,  entendeu que Jesus ensinou uma forma budista de  filosofia   de   vida,   mas   como   foi   mal   interpretado,  mudaram   sua   mensagem   original   e   criaram   a  religião cristã. Para ele, se tirar os acréscimos que a  igreja colocou nos evangelhos, o que sobra é o tipo  psicológico de Jesus: um estilo de vida sem reações.  Como ele chegou  nessa conclusão? Removendo  dos  evangelhos o que decidiu remover, e acrescentando o  que desejou acrescentar. Assim, não só os evangelhos  mas qualquer livro pode se tornar um ensinamento  budista.

Na   sequência,   ele   procura   justificar   como   o  suposto   evangelho   budista   de   Jesus   se   tornou   o  evangelho   que   conhecemos.   Para   ele,  os  discípulos  não entenderam nada quando Jesus morreu. Se ele  era   filho   de   Deus,   porque   não   sobreviveu   ou   não  reagiu   e   venceu   seus   algozes?   Logo   encontraram  uma  justificativa:  morreu pelos  pecados.  Nietzsche  alega que foi Paulo quem criou tais conceitos, ele o 

chama de  disangelista  (ao contrário de evangelista, que significa portador da 

boa   nova,  disangelista  significa   portador   da   má   nova),   afirmando   que   é 

necessário   usar   luvas   para   ler   o   Novo   Testamento,   já   que  ali   existe   muita  sujeira! Seu ponto seguinte é alegar que a religião cristã envenenou o mundo com  sua contrariedade ao conhecimento. O filosófico pensamento grego e romano  sucumbiu, e a teologia cristã reinou por muitos anos. Nesse tempo, pessoas  foram mortas e verdades foram escondidas. Nietzsche sugere que o próprio texto  bíblico mostra a má intenção dos sacerdotes em relação ao conhecimento: na  história do Éden, por exemplo, o homem foi expulso do paraíso por se alimentar  do   conhecimento,   e   mesmo   com   todas   as   armas   divinas   contra   a   ciência  (trabalho   desgastante,   maldição,   dores   de   parto,   doenças   e   morte),   o  conhecimento começou a prosperar e para pará­lo, o próprio Deus decide  afogar a espécie humana, poupando apenas um religioso fiel com sua  família.   É   evidente   que   a   árvore   do   conhecimento   do   bem   e   do   mal  apresentada na Bíblia não representa o conhecimento científico, e a razão  pela qual o dilúvio aconteceu não foi a prosperidade da ciência, mas a  prosperidade   do   mal.   Nietzsche   sabia   disso,   mas   com   a   intenção   de  difamar   a   fé,   ele   ignora   essa   compreensão   e   tenta   surpreender   os  ingênuos com sua equivocada interpretação.

É   bastante   surpreendente   a   conclusão   que   Nietzsche   chega   em  relação a reforma protestante. Ele louva a igreja romana quando ela vivia  sua maior corrupção, o que não é surpresa, já que ele define o bem como o  uso do poder e o mal como renúncia ao poder. Para ele, essa igreja vivia  um   momento   de   vida   e   beleza,   quando   não   estavam   preocupados   em 

Acima: o Apóstolo Paulo, por Rembrandt. Para Nietzsche, o culpado em deturpar o ensinamento budístico de Jesus.

Abaixo: Lutero, o alemão reformador da fé: 'os alemães serão os culpados se o cristianismo não desaparecer da Terra', disse Nietzsche.

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negar   a   própria   vida,   mas   em   rechear   de   ouro   suas   suntuosas   catedrais,  dominar  os  povos e  conquistar  riquezas.  Lutero   desferiu  um golpe  contra  a  secularização   da   igreja,   e   Nietzsche   lamenta   esse   golpe.   Afirma   que   se   o  cristianismo não for abolido do mundo, a culpa é dos alemães, pois Lutero era  alemão e a Alemanha foi o principal berço da reforma.

Nietzsche conclui seu livro promulgando uma lei contra o cristianismo.  Ele  escreveu:   “Com isto concluo  e pronuncio  meu julgamento: eu condeno o   cristianismo;   lanço   contra   a   Igreja   cristã   a   mais   terrível   acusação   que   um  acusador já teve em sua boca. Para mim ela é a maior corrupção imaginável;   busca   perpetrar   a   última,   a   pior   espécie   de   corrupção   [...]   Denomino   o  cristianismo a grande maldição, a grande corrupção interior, o grande instinto   de   vingança,   para   o  qual   nenhum   meio   é   suficientemente   venenoso,   secreto,   subterrâneo ou baixo – chamo­lhe a imortal vergonha da humanidade...” As leis dele são: I) Renunciar a própria vida é vício; II) Colaborar na obra  de Deus é crime; III) O lugar onde Jesus viveu deve ser transformado no lugar  mais horrível e indesejado da Terra; IV) Castidade é um pecado contra o espírito  santo da vida; V) Padres e pastores devem morrer de fome; VI) História sagrada  será maldita, Deus será nome de xingamento; VII) O resto nasce a partir daqui. No final, ele assina essa lei como “Nietzsche, o Anticristo”. Nietzsche fica indignado com a fé cristã. Ele não compreende como as  pessoas aceitam que o próprio Deus, que deveria ser o mais forte e intocável,  seja sofredor e prove da morte. Por causa dessa indignação ele enunciou que  “Deus morreu”. Ele prega o homem que valoriza sua própria vida, que remove os  obstáculos   de   seu   caminho   e   atinge   seus   objetivos.   Contrário   a   Jesus,   esse  Super­homem despreza a compaixão e o considerar os outros superiores a si  mesmo; ele domina e compete com outros para ser sempre o melhor. Por isso,  Nietzsche   escreveu:   “Deus   morreu,   agora   nós   queremos   que   viva   o   super­ homem”.

Existem muitas contradições nessas ideias. A primeira delas, é a de que  ao   mesmo  tempo   que   ele   louva   o  uso   do   poder,   ele   condena   a   religião   por  adestrar as pessoas e mantê­las dominadas pelos sacerdotes. Ora, se o uso do  poder   é   louvável,   então   por   que   não   aplaudir   os   sacerdotes   quando   eles  supostamente dominam? A segunda grande contradição é a sua condenação da  igreja cristã sobre a destruição das culturas e ciências gregas e romanas. A  dominação   da   igreja   romana,   que   não   era   algo   verdadeiramente   cristão,   é  condenada  por impedir a ciência e a diversidade cultural,  mas  essa mesma  dominação   é   vista   como   positiva   quando   ele   critica   a   reforma   protestante.  Afinal, Nietzsche elogia o uso do poder, mas condena o uso do poder quando esse  uso é realizado pelos seus adversários ideológicos.  Flagrantemente parcial e  contraditório.

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“Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? (…) Nunca existiu ato mais grandioso, e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê deste ato, de uma história superior a toda a história até hoje!” - Nietzsche. A anunciação nietzschiana

da morte de Deus não é uma simples declaração de descrença, mas a constatação de que os valores religiosos deixaram de vigorar como norma de conduta na sociedade.

R E S U M O

Filósofo:

Friedrich Nietzsche (1844-1900)

Argumentação ateísta:

a) Deus é inimigo da vida, pois prega a autorrenúncia. A religião domestica os homens, os tornando fracos e malogrados. b) Divindade cristã é o colapso da divindade judaica. c) Doutrinas cristãs refletem a lógica do ódio disseminada por Paulo, pelas quais culturas gregas, romanas e islâmicas foram destruídas.

Refutação:

a) Nietzsche identifica o bem como o uso do poder, mas lamenta o uso do poder dos que dominaram em nome de uma religião. Só a autorrenúncia pode frear os instintos nocivos do ser humano. b) Os judeus jamais se adaptaram a servidão e sempre recusaram a fé em Jesus. c) A adulteração do evangelho por Paulo é inventiva, e a destruição de culturas se deu pelo anseio de dominação, e não pela prática do evangelho como Cristo propôs.

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BERTRAND RUSSELL E A FILOSOFIA ANALÍTICA

Bertrand   Arthur   William   Russell   (1872­1970),   matemático   e   filósofo  britânico, foi um dos mais importantes popularizadores da filosofia no século  XX.   Recebeu   o   prêmio   Nobel   da   Literatura   em   1950,   pelos   seus   ideais  humanitários   e   pela   sua   contribuição   à   liberdade   do   pensamento.   Russell  pertenceu a uma família aristocrática inglesa; seus pais morreram quando ele  ainda era criança. Estudou filosofia na Universidade de Cambridge, tornou­se  membro   do   Trinity   College   em   1908,   mas   perdeu   a   cátedra   por   recusar­se  alistar à primeira guerra mundial. Em 1939, foi lecionar nos Estados Unidos, na  Universidade da Califórnia. Foi nomeado professor no City College, em Nova  Iorque,   mas   teve   sua   nomeação   anulada   por   ser   considerado   moralmente  impróprio. Foi um militante pacifista, mediou o conflito dos mísseis de Cuba a  fim de evitar um ataque militar; organizou com Albert Einstein o movimento  Pugwash, com o objetivo de combater a proliferação de armas nucleares.

Elaborou   a   tese   da   fundamentação   logicista   da   matemática,   onde  assegura que todas as verdades matemáticas podem ser deduzidas de umas  poucas verdades lógicas; concebeu ainda a teoria das descrições definidas, e  formulou   algumas   teses   de   teoria   do   conhecimento.   Russell   escreveu   várias  obras, entre as quais se destaca “The principles of Mathematics”, de 1903; os  três   volumes   em   coautoria   com   Whitehead,   publicados   entre   1910   e   1913,  intitulados “Principia Mathematica”. Mas a obra que Russell desbanca­se em  defender sua moral em detrimento da moral religiosa (especificamente a moral  cristã) é o ensaio escrito a partir de uma palestra dada em 1927 sob o título  “Why I am not a Christian” (“Porque eu não sou cristão”). E esse é o livro que  vamos analisar.

Porque não sou Cristão

Nesse livro, Russell escreve as razões sobre sua escolha em rejeitar a  doutrina cristã, e ele fará isso baseado em dois fundamentos, que ele acredita  ser os dois fatores que determinam a identidade de um cristão: acreditar em  Deus e na imortalidade da alma, e atribuir alguma supremacia a pessoa de  Jesus de Nazaré, considerando­o pelo menos o mais sábio dentre os homens.

Sobre   a   existência   de   Deus,   ele   trata   de   mostrar   inconsistências   nas  provas   clássicas   da   existência   de   Deus,   que   são:   o   argumento   da   Primeira  Causa,   o   argumento   da   Lei   Natural,   o   argumento   da   Prova   Teológica   e   o  argumento da Moral. Quanto ao argumento da Primeira Causa, ele questiona se  o próprio Deus é efeito de alguma causa. Como se alega que Deus não precisa  ter uma causa, então a suposição inicial de que todas as coisas tem uma causa  está errada, e assim o argumento é inválido. Já em relação ao argumento da Lei  Natural, Russell pergunta: “Por que Deus lançou essas leis, e não outras?” Se  respondermos que as leis da natureza foram essas porque são elas que tornam o  mundo possível, então nem Deus poderia se livrar dessa regra, ou seja, não é  onipotente. Já se dissermos que Deus criou essas leis porque assim o quis, então  há um rompimento na sequência de leis naturais, o que invalidaria o argumento  envolvendo Deus e as leis naturais. Mas esse rompimento é necessário e não  invalida o argumento: o argumento não diz que a existência de Deus implica  nessas   ou   naquelas   leis,   mas   que   Deus   criou   leis   que   fazem   o   universo 

Bertrand Russell: o nobre e sábio galês que não

compreendeu a essência da fé.

São Tomás de Aquino: um dos formuladores das provas da existência de Deus, as quais Russell contra argumenta.

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funcionar.   Refutando   a   prova   Teológica   da   existência   de   Deus,  Russell afirma que o mundo está longe de ser o resultado da obra  de um ser infinitamente sábio, poderoso e bondoso. Para isso, ele  cita   regimes   totalitários   e   grupos   de   terrorismo   envolvidos   em  ações de intolerância social. Não é, porém, uma ideia cristã pensar  que Deus pretenda tornar este mundo um paraíso perfeito. Sobre  os argumentos da Moral, desfere  fortes críticas. Um argumento  concebido por Kant põe Deus como um padrão de bem. Pode ser  verdadeiro, mas não tem qualquer valor como prova da existência  de Deus, pois não há como verificarmos essa suposição. Agora ele tratará de mostrar o que pensa de Jesus, mostrando que ele não  era tão sábio. A primeira coisa que Russell aponta é o ensinamento de Jesus que  leva a entender que o fim do mundo ocorreria nos dias daquela geração, o que  não aconteceu.  Jesus disse aos discípulos, quando  proferia profecias sobre o  final   dos   tempos,   que   tudo   aquilo   aconteceria   ainda   antes   que   os   seus  seguidores percorressem todas as cidades da judeia. Evidentemente, se trata de  uma interpretação particular e equivocada, pois Cristo ainda não voltou, mas  até   hoje   as   aldeias   de   Israel   não   foram   totalmente   alcançadas   com   seu  evangelho. Russell alega que Cristo usava de ameaças quando censurava os  fariseus, tipo de atitude que outros sábios não usariam. Fala também do fato de  Jesus   ter   amaldiçoado   a   figueira   e   permitido   que   os   espíritos   imundos  entrassem   na   manada   de   porcos,   atestando   assim   sua   indiferença   com   a  natureza. Mas o conteúdo e a essência dos ensinamentos de Cristo não são  mencionados, de modo que as acusações indicadas não passam de argumentação  irrisória.

Com   todas   essas   considerações,   Russell   afirma   que   as   religiões   são  dotadas de crueldade. Ele diz que nas  épocas de maior apego a fé, maiores  horrores foram cometidos. Mas ele não se preocupa em ressaltar que, nessas  épocas e na prática desses horrores, os próprios ensinamentos bíblicos foram  esquecidos.

A Religião Contribuiu para a Civilização?

Um   outro   ensaio   de  Russell,   que   leva   o   nome  deste título, também trata de  sua  descrença  em  Deus.  Ele  indica   que   a   religião   não  trouxe   muita   contribuição  para   a   civilização,   aliás,   as  únicas   contribuições   que   ele  reconhece   são   a   fixação   do  calendário   e   a   predição   de  eclipses   pelos   sacerdotes  egípcios.   Russell   se   vale   de  interpretações   duvidosas   da  Bíblia   para   argumentar:   ele  diz   que   é   impossível   olhar 

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Vista do mura das lamentações, em Jerusalém: mesmo sendo o berço do cristianismo, a judeia não é um território predominantemente cristão.

Com o objetivo de desmoralizar a fé, Russell apela: 'somente sendo tão cruel quanto o Deus em que se crê para afirmar que o sofrimento de crianças doentes seja consequência de sua imoralidade'. Evidentemente, essa crítica não cabe a crença cristã.

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para   o   sofrimento   em   um  hospital infantil e concluir que  aquelas   crianças   sofrem   por  serem   pecadoras,   mas   essa   é  uma atitude equivocada dentro  da   religião   cristã:   Cristo  manifestava   misericórdia   aos  necessitados, não lhes apontava  culpas.

Diz   Russell   ter   duas  principais   razões   contra   a  religião.   Uma   delas   é  intelectual, e é a de que não há  razão   alguma   para   se   supor  que   determinada   religião   seja 

verdadeira. A outra é moral, e se resume no fato de que as religiões nasceram  em uma época em que os homens eram mais cruéis, e a prática dessas religiões  fazem perpetuar muitas ações desumanas. Quanto a primeira razão, apenas fica  manifesto sua falta de imaginação: a existência de algo independe de nossas  suposições. Em relação à perpetuação de ações desumanas, essa crítica não vale  para a fé cristã, cuja essência é o amor ao próximo. Ele afirma ainda que a  religião   coíbe   alguns   impulsos   que   servem   para   amenizar   o   egoísmo.   Estes  impulsos são: a família, o patriotismo e o sexo. Sobre a família, é uma fantasia  pensar que a Igreja cristã coíbe sua instituição. O patriotismo não é contrariado  pelo  evangelho,   mas  colocado   em  segundo   plano.   Mesmo   assim,   a  patriação  celestial   é   um   impulso   ainda   mais   importante   em   atenuar   o   egoísmo   das  pessoas. Já sobre o sexo, o padrão cristão é o da restrição ao matrimônio, e é  muito questionável se a prática sexual faz diminuir o egoísmo de alguém. O  matrimônio cumpre esse papel, mas o ato sexual em si pode ser realizado num  puro surto egoísta de satisfação carnal.

Russell   também   apela  para   a ciência  para   justificar  algumas  de  suas  suposições. O apelo que faz, entretanto, é flagrantemente errôneo: ele diz que  não   existe   livre­arbítrio,   pois   a   ciência   pode   prever   o   desenvolvimento   de  qualquer sistema a partir de leis físicas bem estabelecidas. O problema que ele  não menciona é que as leis estabelecidas não explicam como é possível agirmos  por decisão própria.

Mesmo   sendo   um   matemático   logicista   muito   importante,   Russell  reconheceu   que   é   impossível   provar   a   inexistência   de   Deus.   Ele   ficou   tão  incomodado com essa impossibilidade que tratou, astutamente, de dizer que  quem tem que provar qualquer coisa são os religiosos, e não os ateus. Dizia ele:  suponha   que  exista   um   bule  chinês  celestial   em   órbita   do   Sol,   mas   a  uma  grande distância da Terra. Por ser pequeno esse bule, os telescópios não podem  encontrá­lo.  Assim,   ele  poderia  tentar fazer  alguém  acreditar  que  esse  bule  realmente existe, mas as pessoas não acreditariam sem uma prova disso. Da  mesma   forma,   se   Deus   existe,   são   os   religiosos   quem   devem   provar   sua  existência, não sendo obrigação dos ateus provarem sua inexistência. Isso está  certo,   mas   não   é   intenção   de   um   religioso   provar   a   existência   de   Deus.   O  religioso diz, em conformidade com sua convicção: é necessário ter fé.

Voltando a questão original deste tópico, se a religião contribuiu com a 

Madre Tereza de Calcutá. Impossível associar sua imagem com egoísmo, mas de uma forma curiosa e não bem argumentada, Russell considera que os ensinamentos da Igreja estão fundamentados no ódio e egoísmo.

Se alguém alegar que existe um bule de chá no espaço, em órbita do Sol, terá de prová-lo, caso contrário, jamais será acreditado. O ônus da prova é de quem afirma, não de quem contesta. Com esse argumento, Russell questiona se os ateus precisam argumentar contra a existência de Deus, ou se são os religiosos que precisam comprová-la.

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civilização, temos de dizer, ao menos em nome da fé cristã, que muitas foram as  contribuições. Só para exemplificar, em vilas e vilarejos, bem como em grandes  cidades, em seus subúrbios e periferias, a quantidade de pessoas, especialmente  jovens, que mudaram de vida saindo da marginalidade para uma vida devota,  de   trabalho   e   compromisso   familiar,   é   indescritível.   Mas   são   realizações  silenciosas, que não trazem uma bandeira estampada, que não é homenageada  em festas populares nem lembrada nos grandes círculos intelectuais.

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R E S U M O

Filósofo:

Bertrand Russell (1872-1970)

Argumentação ateísta:

a) Russell questiona as provas clássicas da existência de Deus, e afirma que Jesus não foi tão sábio quanto outros, por ameaçar seus oponentes com o inferno e ensinar que seu advento seria nos dias daquela geração, além de ser indiferente com a natureza. b) Aponta duas objeções contra a fé: a objeção intelectual, de que não há razão para se acreditar em Deus, e a objeção moral, de que a religião perpetua a crueldade herdada da época em que foi criada. c) Alega que a tarefa de provar a existência de Deus é dos teístas, não sendo responsabilidade dos ateus argumentar sobre sua inexistência.

Refutação:

a) A existência de Deus não depende das provas clássicas, elas não são mais do que tentativas de racionalização da fé; ainda assim, Russell tropeça em sua refutação da prova da lei natural. Suas críticas a Jesus são irrisórias, a base moral que ele usa para sustentá-las são frutos da ampla difusão dos valores evangélicos ao longo de séculos. b) A objeção intelectual não tem fundamento, seria esse o caso se o ser humano não demonstrasse necessidades espirituais, e a objeção moral não se aplica a fé cristã, que prega o amor. c) Assim como o astrônomo não precisa provar a existência da galáxia de Andrômeda para seus céticos, o religioso não precisa provar a existência de Deus.

Imagens de outdoors criados pela Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, que foram publicados em Porto Alegre (RS) em 2011.

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JEAN-PAUL SARTRE E O

EXISTENCIALISMO DO SÉC.

XX

Jean­Paul Sartre (1905­1980),  filósofo francês nascido em Paris, é  considerado   o   maior   intelectual   do  Existencialismo.   Devido   ao  falecimento   do   pai   dois   anos   após  seu nascimento, foi morar com o avô  paterno,   protestante.   Graduou­se  em   1929   pela   École   Normale  Supériure   e   passou   a   viver   com  Simone de Beauvoir. Após o curso de  filosofia,   prestou   o   serviço   militar  como   meteorologista.   Teve   grande  influência   do   pensamento  existencialista de Soren Kierkgaard  (1813­1855).   Foi   prisioneiro   dos  alemães   entre   1940­41,   e   após   ser  solto por razões  médicas, fundou o  grupo   “Socialismo   e   Liberdade”   a  fim   de   atuar   junto   à   resistência  contra   os   alemães.   Apesar   de   ter  exaltado   a   liberdade   em   suas  primeiras   obras,   após   a   guerra  Sartre   volta   sua   atenção   para   as  questões   da   responsabilidade   civil. 

Embora   fosse   um   admirador   do   marxismo,   decepcionou­se   com   as   ações   de  guerra da União Soviética. Foi contemplado ao prêmio Nobel de Literatura por  sua obra “As Palavras” (1964), mas recusou­o. Ficou cego em seus últimos anos,  e faleceu em 1980 devido a um tumor pulmonar.

As principais obras de Sartre são: “A Imaginação” (1936), “A Náusea”  (1938),   “O   Muro”   (1939),   “O   Imaginário:   Psicologia   fenomenológica   da  Imaginação” (1940), todas dominadas pelo seu pensamento de liberdade, onde  propunha a descrição dos fenômenos sem qualquer ideia preestabelecida. Na  fase   de   guerra   publicou   o   “O   Ser   e   o   Nada”   (1943),   considerada   a   obra  fundamental da teoria existencialista, e a peça teatral “As moscas” (1943), uma  crítica   camuflada   ao   regime   totalitarista   alemão.   Anos   mais   tarde   ele   se  direciona à produção de obras de teatro, dentre as quais destacam­se: “Entre  quatro paredes” (1945); “Mortos sem sepultura” (1946); “A prostituta respeitosa”  (1947), “O diabo e o bom Deus” (1951) entre outras. Em todas essas peças Sartre  busca expor a inclinação má do ser humano em relação a seu próximo. Em 1946  publica “O existencialismo  é um humanismo”, procurando  esclarecer críticas  feitas   às   ideias   do   existencialismo   expostas   em   “O   Ser   e   o   Nada”.   Em   “O  fantasma de Stálin” (1956), critica ao marxismo; filosofia ao qual não rejeita,  mas salienta seus problemas. Sartre foi editor, junto a outros intelectuais, do  jornal “Tempos modernos” de 1945 a 1955.

Jean-Paul Sartre: se Deus existe ou não, não há qualquer diferença.

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O Existencialismo é um Humanismo

Existencialismo é uma doutrina que afirma que o ser humano não tem  uma   essência   primordial,   ou   seja,   não   existem   valores   ou   padrões  preestabelecidos para sua conduta, todos os valores, sejam eles de ordem moral  ou   social   foram   criados   posteriormente   pelo   próprio   ser   humano.   Assim,   o  homem   primeiro   existe,   depois   constrói   sua   identidade   humana.   Essa  construção envolve todos os indivíduos, num processo chamado subjetividade: as  decisões humanas fazem estabelecer seus valores. Quando alguém se casa, está  escolhendo o modelo do matrimônio como ideal para si, e mesmo sem pensar  nisso, o escolhe também para toda humanidade. Logo, toda decisão que alguém  toma envolve a humanidade na construção de seus valores, de modo que não  existe um padrão a ser seguido, não há uma orientação prévia de quais serão as  escolhas bem sucedidas, de modo que o ser humano se flagra abandonado em  suas   decisões.   Percebendo   essa   condição   de   abandono,   pois   não   há   um  sobrenatural que o possa direcionar para o bem ou para o mal, o homem vive  sua angústia, a angústia de quem precisa decidir mas não dispõe sequer de um  sinal sobre qual decisão tomar, e mesmo não decidindo está escolhendo não  decidir, o que é já uma decisão. Desse raciocínio, Sartre diz que o homem é  condenado a ser livre. É fácil ver que essa concepção é materialista em sua  própria construção. Quando Sartre diz que não existe um padrão estabelecido ao  ser   humano,   está   testificando   o   fundamento   ateu   de   sua   doutrina.   Para   a  doutrina cristã, o ser humano foi criado com propósitos definidos pela soberania  divina, e os padrões centrais de conduta determinados ao ser humano estão  fixados na consciência de cada indivíduo.

Uma   crítica   muito   forte   que   a   doutrina   existencialista   recebia  (principalmente por pessoas que viveram os horrores das guerras), era a de que  pelas suas suposições não se podia condenar quem quer que seja por suas ações,  já   que   não   existiam   padrões   preestabelecidos.   Em   relação   a   isso,   Sartre  escreveu que as ações poderiam ser julgadas quando fossem consideradas de  má­fé, ou seja, quando por essas ações se privava a liberdade de alguém. Com  um discurso técnico e extenso, ele 

tenta   justificar   essa   ideia   sem  deixar   transparecer   que   está   se  contradizendo,   mas   na   verdade,  quando diz que ações que privam  a  liberdade  são  ações  más,   está  escolhendo   a   liberdade   como  padrão preestabelecido, o que vai  contra sua própria tese.

Seu entendimento sobre as  decisões   humanas   o   fazem  acreditar que mesmo provando a  existência   de   Deus   nada  mudaria,   ou   seja,   o   homem  continuaria abandonado em suas  escolhas, pois até mesmo se um  anjo lhe  falasse,   seria  ele  quem  teria de decidir que a voz foi de  um anjo e não de um demônio, ou  22

Acima, um presídio; abaixo, tanques de guerra. O que torna um ato aceitável ou condenável? O certo e errado, para Sartre, é uma construção humana, construção essa não guiada ou justificada por qualquer padrão preestabelecido. O homem está, portanto, “condenado a ser livre”.

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se aquela  voz  não  foi  de  seu  próprio  inconsciente.   Tentando   mostrar  que  a  doutrina cristã não dá respostas, ele fala de algo que lhe aconteceu: um jovem o  procurou para pedir um conselho. O jovem queria uma opinião para decidir se  deixava a mãe solitária em casa e se alistava na guerra afim de vingar a morte  de seu irmão, ou se deixava de lado o desejo de vingança e ficava com a mãe já  velha em casa acolhendo­a. Diante dessa circunstância, sua resposta ao jovem  foi: “Invente, você é livre”. Ou seja, qualquer decisão seria correta, desde que  tomada em concordância com sua vontade. Nesse ponto, Sartre faz uma infeliz  afirmação:   nem   a   doutrina   cristã   teria   uma   resposta   para   esse   jovem.  Certamente ele deixou de considerar muita coisa para dizer isso, basta lembrar  que Cristo ensinou o amor ao próximo, não havendo espaço para vingança na  conduta cristã. Uma ilustração poderá deixar mais claro o equívoco aqui flagrado: dois  homens seguiam por certo caminho. Um deles chamava­se Existencialista, e o  outro, Cristão. A certo ponto, o caminho fez uma bifurcação: cada um decidiu ir  por   um   lado,   embora   ambos   seguissem   ao   mesmo   destino:   procuravam   a  residência da senhora Liberdade. Existencialista seguiu pelo caminho chamado 

“O nascimento do novo homem” de Salvador Dali (1943): uma crítica à guerra e à promessa de transformação social. A doutrina existencialista leva a responsabilidade das barbaridades ao próprio homem, já que ele é o único responsável por escolher o que é bom ou não para si. Mas os valores de natureza moral seriam mesmo criados pelo ser humano ou seriam absolutos, dado que todos seres humanos concordam com os mais fundamentais deles, como o direito a liberdade?

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‘ateísmo’, e Cristão seguiu pelo caminho chamado ‘fé’. Perderam­se de vista.  Após   longa   caminhada,   tanto   para   um   quanto   para   o   outro,   finalmente  Existencialista   vislumbra   o   final   de   seu   caminho:   uma   mansão   antiga   com  inscrições   ao   alto:   “Liberdade”.   Alegra­se,   mas   ao   entrar,   sua   alegria  transforma­se em angústia, pois se vê desamparado, quando observa que no  interior daquela residência não há ninguém, e tudo está abandonado às traças.  Angustiado, sai pelos fundos da casa e vê a chegada do caminho chamado ‘fé’,  também dando na mesma residência. Ri­se consigo mesmo e diz: “Meu amigo  Cristão não terá vantagem alguma em ter escolhido o caminho da fé, pois ambos  remetem a esse mesmo lugar; logo aqui ele chegará também. A única vantagem  minha é que o caminho do ateísmo era mais espaçoso que o caminho da fé”.  Passa­se o tempo e nada de Cristão chegar. Somente depois de muito esperar, é  que   Existencialista   indignado   volta   tomando   o   caminho   da   fé   esperando  encontrar­se com o amigo ainda em viagem. A certa altura do caminho, ele  percebe  que seu  amigo  já está longe,  pois somente  no caminho da  fé havia  mensageiros do Rei anunciando que a mansão da liberdade havia se mudado,  transferindo­se do reino da terra para o reino dos céus, e por isso os viajantes  tomavam um atalho chamado Cruz, apontado pelos mensageiros, para irem à  nova mansão da Liberdade. Não sei se Existencialista chegou ao atalho da cruz  em tempo, pois as portas da mansão da Liberdade iriam se fechar a meia­noite;  mas se não chegou, perdeu toda a viagem. 24

R E S U M O

Filósofo:

Jean-Paul Sartre (1905-1980)

Argumentação ateísta:

a) A existência humana precede sua essência (valores de certo e errado). Nenhuma moral religiosa pode dar ao homem respostas absolutas. b) É indiferente Deus existir, pois mesmo nesse caso, o homem tem de lidar com suas próprias escolhas.

Refutação:

a) Embora considere que não existam valores fundamentais preestabelecidos, Sartre precisa eleger a liberdade como valor absoluto (sem admitir) para consolidar sua defesa ao existencialismo quanto a acusação de anarquismo. A moral cristã é enfática em defender o amor ao próximo como compromisso social, e esse compromisso dá respostas. b) A existência de Deus muda tudo no cenário existencialista, pois então existem valores preestabelecidos ao ser humano.

Liberdade: um padrão absoluto que rege as ações na construção dos valores humanos.

Balança: símbolo de justiça. A ausência de padrões

preestabelecidos ao ser humano faz da justiça uma livre criação humana. Mas há um padrão pelo qual nossas ações são

avaliadas, que indica quais atitudes são consideradas corretas e incorretas. Esse padrão é universal, independe de cultura ou época, e é através dele que o senso comum de justiça se estabelece. A própria existência desse padrão

explicita a invalidade da visão materialista do mundo.

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RICHARD DAWKINS E A NOCIVIDADE

DA FÉ

Clinton   Richard   Dawkins   (1941­         ),  zoólogo   e   etnólogo   queniano,   conhecido   como  “Rottweiler de Darwin”, dado o rigor com que  defende   o   darwinismo;   é   um   dos   maiores  divulgadores do ateísmo na atualidade. Através  de palestras, participação em programas de TV,  livros   e   documentários,   ele   tem   disseminado  suas ideias contrárias à fé em todo o mundo. As  principais   obras   dele   são:   “O   gene   egoísta”  (1976),   “O   Rio   que   saía   do   Éden”   (1995),   “A  escalada   do   monte   improvável”   (1997),  “Desvendando o arco­íris” (1998), “O capelão do  diabo”   (2003)   e   “Deus,   um   delírio”   (2006).   O  mais conhecido de seus documentários intitula­ se “Raiz de todos os males?” (“The Root of All  Evil?”),   feito   para   a   televisão   inglesa,   onde  enfatiza a inutilidade das religiões, garantindo  que o mundo seria melhor sem as mesmas. O  documentário   de   cerca   de   noventa   minutos,  dividido   em   dois   episódios,   foi   exibido   pela  primeira vez em 2006, e temos a seguir uma  análise de vários dos seus argumentos.

Raiz de todos os Males

No documentário, Dawkins tenta estabelecer uma relação entre religião e  ódio. Ele mostra imagens de um atentado suicida e afirma que aquilo não é o  problema   de   uma   religião   específica,   mas   de   todas   as   religiões,   inclusive   a  cristã. Seguindo as ideias de Bertrand Russell, ele fala da escassez de milagres  entre pessoas de maior nível intelectual. Visitando um santuário mariano na  França,   ele   sugere   que   os   milagres   ali   testificados   não   são   examinados  rigorosamente, e se fossem, se constataria que não são milagres. Depois disso,  ele conversa com judeus, muçulmanos e cristãos, salientando as questões de  intolerância religiosa entre os judeus e muçulmanos, e a contrariedade com a  ciência da evolução por parte de pastores protestantes. Com isso, ele conclui que  as religiões atrapalham o desenvolvimento social e científico.

Dawkins   identifica   a   fé   como   um   vírus   ideológico.   Baseado   em   seu  conhecimento   em   biologia,   ele   diz   que   o   padrão   de   propagação   das   ideias  religiosas   é   o   mesmo   padrão   de   propagação   dos   vírus,   além   disso,   o   vírus  geralmente prejudica quem o contrai; da mesma forma, a fé além de não trazer  benefícios a seu possuidor, ainda o prejudica.

Toda crítica que Dawkins faz contra a religião sempre é baseada em erros  que as pessoas religiosas cometem, por exemplo, como dizer que a ciência está  errada ou como matar pessoas de outras religiões por não concordar com elas.  Em   relação   ao   cristianismo,   esses   atos   errôneos   não   fazem   parte   dos  ensinamentos,   embora   sejam   muitas   vezes   praticados;   mas   nesses   casos,  errados estão quem os cometem, e não a doutrina religiosa em si.

Richard Dawkins: um dos maiores proselitistas ateu da atualidade.

Vírus Influenza: seu padrão de propagação é semelhante, para Dawkins, ao da difusão de ideias religiosas.

Referências

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