Contato com o autor: [email protected] CIP Brasil. Catalogação na Fonte. Câmara Brasileira do Livro, SP Freitas, André de Sousa. Filosofia, ciência e argumentação ateísta. 1ª Edição. São Paulo, 2011. 1. Filosofia e Teoria da Religião. 2. Apologética Cristã. 3. Ateísmo. I. Título. CDD210 Índice para catálogo sistemático: 1. Filosofia e Teoria da Religião 210
Última revisão: 21 de Julho de 2013.
Este livro é uma versão resumida e ilustrada da obra “As Máscaras do Ateísmo”, com 334 páginas do mesmo autor.
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comercial sem autorização expressa por escrito do autor, sujeitará o infrator nos termos da lei n. 6.895 de 17/12/1980, à penalidade prevista nos artigos 184 e 186 do código penal. Registrado na Fundação Biblioteca Nacional em 3 de Março de 2003, sob o número 370.829, livro 686, folha 489. “AS MÁSCARAS DO ATEÍSMO” - 2006SP_1258.
Sumário
INTRODUÇÃO...6
A MÁSCARA DA ERUDIÇÃO...8
David Hume e o empirismo do séc. XVIII...9
Friedrich Nietzsche e o Radicalismo do Séc. XIX...13
Bertrand Russell e a Filosofia Analítica...18
Jean-Paul Sartre e o Existencialismo do Séc. XX...22
Richard Dawkins e a nocividade da fé...25
Tendências atuais...28
AS MÁSCARAS DE CIÊNCIA...30
De Galileu a Einstein: a física contraria a fé?...30
A Evolução das Espécies...31
A Psicologia e a Fé...37
A Cultura Cristã e as Ciências Sociais...41
Confrontando a Fé com a História...47
I
NTRODUÇÃO
Ateísmo é a crença na inexistência de Deus. Os defensores dessa visão gostam de usar palavras sofisticadas e se valer de ideias filosóficas, fazendo com que as pessoas que estão tomando contato com essas ideias pela primeira vez fiquem com a impressão de que não podem combater tais pensamentos. Nesse primeiro contato, muitas pessoas religiosas sentem um duro golpe em suas convicções e somente depois de se refazerem é que começam a pensar em formas de defender sua crença na existência de Deus. As máscaras do ateísmo são os disfarces usados pelos ateus, disfarces esses que fazem com que seus argumentos se pareçam algo muito profundo e abrangente, que para serem compreendidos seja necessário conhecer muito de ciência e filosofia, quando na verdade não é bem assim, pois como veremos, em todas áreas da ciência e em várias formulações filosóficas, o ateísmo parte de um único e injustificável pressuposto: a incredulidade quanto ao sobrenatural. O pensamento ateu existe desde os tempos mais remotos. A formalização de seus argumentos, porém, pode ser estudado a partir dos pensadores gregos. O filósofo grego Epicuro (341270 a.C.) questiona, por exemplo, a origem dos males, já que Deus tem poder e desejo em eliminálos. Aristófanes (447385 a.C.) também aludiu a problemas na concepção do divino, quando alegou que mesmo nos seios dos deuses havia injustiça, já que o próprio Zeus, segundo a mitologia, teria destronado seu próprio pai.
Com a difusão do cristianismo, a filosofia se amoldou aos princípios cristãos, e somente na renascença o ateísmo voltou a ter força no pensamento erudito. Na ciência, o desenvolvimento da mecânica e das leis físicas através das quais o movimento dos corpos podiam ser previstos, surgiu a ideia de que assim como no funcionamento dos sistemas celestes (planetas, estrelas e corpos celestes em geral em relação a seus movimentos), todo e qualquer movimento, até mesmo os movimentos produzidos pelo corpo humano, também seriam preditos por leis. Dessa forma, não existiria vontade, livrearbítrio ou sobrenatural, pois tudo seria explicado a partir das leis da física. Nesse ínterim, a filosofia materialista usurpou o status de regra de fé dos filósofos e cientistas:
não existe sobrenatural, tudo o que há está na natureza (naturalismo), e todas as respostas estão na ciência (cientismo).
O ateísmo dessa época considerava ser impossível acreditar no sobrenatural, ou seja, o povo só acreditava em Deus porque não conhecia ciência e filosofia de forma suficiente para saber que tal crença era absurda. O filósofo David Hume (17111776) argumentou contra a crença em milagres, alegando ser impossível para a mente humana aceitar o sobrenatural. Com o passar do tempo, surgiu a teoria da evolução das espécies, o que na Busto de Epicuro. Uma máscara: a ocultação
da face como símbolo da manipulação ideológica.
opinião dos ateus fez diminuir ainda mais a possibilidade de se acreditar em Deus, particularmente na Bíblia. Nessa época, o determinismo (crença de que todo o futuro está previamente determinado e pode ser previsto pelas leis físicas) atingiu seu ponto máximo. Alguns filósofos como Nietzsche chegaram a dizer que a vontade era algo que não existia, era uma mera invenção humana que foi construída para culpar as pessoas e lhes condenar, mantendoas assim dominadas pelos sacerdotes de diversas religiões. O desenvolvimento das ciências sociais, da psicologia e da arqueologia também forneceram combustível para o ateísmo. Teorias sobre o surgimento das religiões foram construídas, bem como teorias sobre a criação da Bíblia, todas elas partindo do pressuposto da inexistência de Deus. Psicologistas escreveram sobre a religião como fruto da psique humana. A moral também não deixou de ser citada e justificada num cenário ateísta, e para isso filósofos existencialistas lançaram mão de sua erudição para mostrar que a ética não é um benefício produzido pela religião. Aliás, os mais recentes ataques contra as religiões seguem no sentido de dizer que as religiões destroem a ética, por perpetuarem erros do passado ao impor suas doutrinas e tradições formadas em épocas remotas.
Se no início os ateus alegavam ser impossível para uma mente aberta acreditar em Deus, agora alegam que apesar de ser possível acreditar em Deus, essa crença é nociva, é responsável por muitos retrocessos e males na história da humanidade. Apesar disso, cada vez mais a ciência avança e o espaço para a crença ateísta se encolhe. A arqueologia moderna, apesar da insistência de alguns ateus em interpretarem as evidências de forma a contrariar o testemunho bíblico, expõe cada vez mais que a Bíblia é um livro verdadeiro em suas narrações, e lançando fora interpretações forçadas da Bíblia, não há qualquer evidência científica que a contrarie, o que faz com que ela seja cada vez mais acreditada nos mais altos círculos intelectuais. Ultimamente, evidências que sugerem a ação divina, como a impossibilidade da formação da matéria viva a partir da matéria morta, como algum testemunho de milagre ou como o surpreendente fato de o quanto nosso planeta é propício a vida, é contrariado pelos ateus com o uso da estatística, quando são obrigados a admitir o fato a partir de uma probabilidade ínfima, como alguém ganhar na loteria todas as vezes desde que existe loteria por pura sorte. Em breve, tais justificativas não poderão mais ser aceitas, e o ateísmo será desmascarado. Sem máscaras, ele não deixará de existir, mas mostrará sua verdadeira face, a face da contrariedade a Deus, do anticristianismo. 6 Nietzsche: o filósofo da morte de Deus. Fóssil de um dinossauro. Descobertas científicas nem sempre se amoldam a crenças religiosas
A M
ÁSCARA
DA
E
RUDIÇÃO
Nessa parte, conheceremos os pensamentos de alguns filósofos que os levaram a afirmar que Deus não existe. Como veremos, esses pensamentos são sempre falhos, seria sempre possível criar um raciocínio alternativo admitindo a existência de Deus. Filósofos: como construtores do pensamento erudito, podem influenciar toda uma sociedade.DAVID HUME E O EMPIRISMO DO SÉC. XVIII
David Hume (17111776) nasceu em Edimburgo, na Escócia. Foi filósofo e historiador, e é considerado um dos mais importantes nomes do iluminismo. Seu pai faleceu quando ele ainda era criança. Frequentou a universidade dedicando se à carreira jurídica, mas a abandonou entregandose a filosofia. Estudou, como autodidata na França, onde lançou o livro “Tratado da natureza humana”. Seu livro não foi apreciado na época, embora tenha sido considerado posteriormente como obra de significado excepcional para a filosofia. Foramlhe recusadas cadeiras nas universidades de Edimburgo e Glasgow, pela sua concepção ateísta da realidade. Hume trabalhou como psiquiatra e como secretário, teve fama de literário e historiador. Seu trabalho teve grande prestígio quando Immanuel Kant (17241804) afirmou que este o despertou do sono dogmático.Ensaio sobre o Entendimento Humano
Esse livro foi lançado por Hume no ano de 1748, e nele Hume mostra seu pensamento sobre a origem
das ideias. Ele acredita que as ideias se originam das impressões, que são os contatos diretos com os objetos ou sentimentos. Olhando para um objeto, por exemplo, uma xícara de chá, você capta suas impressões: sua forma, cores, desenhos, tamanho etc. Quando você não está mais olhando para aquele objeto, ainda assim você pode se lembrar dele. Assim são as ideias, elas nascem das impressões, mas continuam existindo em
nossa mente
independentemente dos objetos.
Dessa forma, nossa mente pode criar objetos imaginários, apenas usando as ideias. Você pode nunca ter visto uma montanha de ouro, mas pode imaginar uma. Por isso a ideia de um ser majestoso e infinito, chamado Deus existiu: porque os homens usaram o poder de suas mentes em criarem seres imaginários.
8
David Hume: cérebre por seu empirismo e ceticismo filosófico.
Entre as muitas formas de conexão entre ideias, Hume destaca a associação por causaefeito: o efeito faz lembrar da causa. Ele acredita que quando dizemos que um efeito procede de uma causa, por exemplo, queimaduras procedem do contato da pele com o fogo, essa crença se baseia somente na experiência. Para ele, nada justifica a crença de que da próxima vez que alguém encostar no fogo se queimará de novo. Sabemos disso só porque até hoje isso sempre aconteceu dessa mesma forma. Da
mesma forma, sabemos que se soltarmos uma pedra ao ar livre, ela cairá, porque todas as vezes que alguém a solta, ela sempre cai.
Mas nem todos os efeitos são assim tão certos. Pense no caso de tomar um remédio: nem sempre aquele remédio faz a pessoa melhorar imediatamente, algumas vezes a pessoa melhora, outras não. Assim, as pessoas acreditam mais nos remédios que funcionaram mais vezes, e duvidam dos remédios que funcionaram poucas vezes. Se um remédio nunca funcionou, certamente ele não será mais usado. Até aqui, todos estamos de pleno acordo, mas observe o que ele pretende dizer, usando esse mesmo raciocínio, em relação a fé: milagres não existem, pois assim como o remédio que nunca funciona, nunca vemos nenhum milagre acontecer. Portanto, conclui ele, é impossível a mente humana aceitar um milagre, assim como é impossível a mente humana pensar que uma pedra possa ser solta no ar e não cair. É claro que esse raciocínio é muito fraco: por que temos que duvidar de algo que jamais aconteceu? Quem jamais viu neve deve duvidar que ela existe? Quem jamais viu o mar deve duvidar que ele existe? E devemos duvidar que o centro da Terra é quente só porque até hoje ninguém foi até lá? Essa conclusão de Hume é tão absurda que hoje não é aceita nem mesmo pelos ateus. Hume fala também nesse livro sobre vontade e livrearbítrio. Segundo ele, para se acreditar no livrearbítrio, é necessário acreditar também que alguns efeitos sejam independentes das causas, pois se tudo tiver uma causa definida, ninguém pode dizer que decidiu livremente. Mas por outro lado, ele alega que o livrearbítrio precisa supor que os efeitos dependam das causas, porque sem isso, como alguém poderia ser punido por algo que fez, se os efeitos de uma decisão errada não são decorrentes dessa escolha? Hoje em dia esse argumento não vale nada. Entendemos que a vontade própria e o livre arbítrio são perfeitamente possíveis, e isso não contraria o fato de que decisões implicam em consequências que podem ser positivas ou negativas. O pensamento dele está tão ultrapassado que chega parecer absurdo hoje acreditar que um filósofo pensou realmente
Por a mão no fogo causa queimaduras? Só acreditamos nisso por causa de nossas experiências cotidianas. Hume alega que nada pode provar que numa próxima experiência isso novamente ocorrerá. Vista parcial da atual cidade de Edimburgo, onde David Hume nasceu.
dessa maneira. Mas ele usa esse raciocínio para defender que o homem não tem, na verdade, um livrearbítrio, e dessa forma, Deus está envolvido nas culpas humanas, pois se o ser humano não é perfeito, foi porque seu criador o fez imperfeito. Essa ideia de culpar Deus pelos erros do ser humano é tão inválida que, mesmo se fosse verdade, não poderíamos nos queixar, pois o próprio Deus desceu da sua glória e pagou o resgate do ser humano levando consigo toda culpa e punição, dando ao homem a oportunidade de salvação de graça.
Na verdade, parece que nem ele tinha tanta convicção sobre esse argumento contra o livrearbítrio, tanto é que na continuação do livro ele volta a falar sobre milagres, deixando o assunto sobre livrearbítrio e causaefeito de lado. Agora ele começa a atacar os testemunhos de milagres, e seus argumentos são na verdade fortes, mas falsos. Ele diz que os milagres só existem onde não há ninguém que seja crítico, pois onde há alguém que questione os fatos, os milagres incrivelmente desaparecem. Escreve ainda que os maiores milagres da história ficaram testificados em livros sagrados, sendo que ninguém dos nossos dias presenciou tais coisas para confirmálos. Para ele, quanto mais leigo é um povo, mais eles acreditam em
milagres, e quanto mais estudado é um povo, menos se acredita em milagres. Isso sinalizaria que milagres sejam apenas ilusões sobre coisas que não puderam ser explicadas corretamente. Hume afirma que é mais fácil acreditar que determinada história de milagre seja mentira do que acreditar no milagre, pois milagre nunca se vê, e mentiras vemos todos os dias.
Como ele já havia dito, é impossível para a mente humana acreditar num milagre, mas ele tem um problema aqui: há quem acredite em milagres. E agora? Sua resposta é: acreditar num milagre é um milagre! É claro que ele afirma isso quase zombando de quem crê no
sobrenatural, mas por mais incrível que pareça, essa conclusão é a própria prova de que sua teoria está errada. Evidentemente, Hume entende que um milagre é uma ação sobrenatural, mas alegar que é impossível a mente humana aceitar um milagre é mostrar que não entende a extensão de um milagre: se o ser divino pode intervir no curso da natureza, pode também intervir na mente humana, tornandoa apta a aceitar a fé. Há uma consideração importantíssima sobre sua conclusão de que quanto mais ignorante o povo, mais se crê em milagres. O filósofo Gilbert Chesterton (18741936) falou sobre isso, mostrando que quem considera ignorante um povo 10
“A multiplicação dos peixes”, de Rafael Sanzio de Urbino. Para Hume, os milagres só são acreditados por pessoas ingênuas.
que crê em milagres é porque já decidiu que crer em milagres implica em ignorância. Quem considera ajuizado um povo que não crê em milagres, é porque já decidiu que duvidar de milagres é racional. Mas essas decisões são realmente sábias? Muitas pessoas, especialmente ateus, afirmam que a crença no sobrenatural parte de um dogma, enquanto que quem duvida do sobrenatural assim pensa porque é um livre pensador. Chesterton observou que o que acontece é o contrário:
o intelectual que não crê em milagre, não crê porque tem um dogma a sustentar, o dogma do materialismo; enquanto isso o leigo que crê no sobrenatural, crê porque viveu uma experiência pessoal assusta dora ou maravilhosa, portanto, crê porque pode interpretar suas experiên cias de forma independente de quaisquer doutrinas preestabelecidas, ou seja, ele sim, é um livre pensador.
R E S U M O
Filósofo:
David Hume (1711-1776)Argumentação ateísta:
a) Se existe livre-arbítrio, então a sequência de causas e efeitos fica quebrada, já que a livre decisão humana não parte de uma causa (pois assim não seria livre), mas nesse caso, o homem não pode ser culpado por seus atos. Mas se a sequência de causas e efeitos for válida, então Deus é culpado pelos pecados humanos, pois estes não são mais que consequências de sua obra. b) Milagres não podem ser aceitos pela mente humana, pois contraria o testemunho dos sentidos, mas havendo quem os testifique, é mais plausível pensar que tal pessoa esteja enganada ou esteja tentando enganar, o que não contraria os sentidos. Por isso, milagres só são acreditados por pessoas ignorantes.Refutação:
Hume erra ao pensar que uma vez quebrada a sequência de causas e efeitos, ela fica totalmente inválida. O homem escolhe livremente, mas suas escolhas desencadeiam consequências que podem ser julgadas. Assim, inocentar o homem e culpar a Deus pelos pecados é um erro grosseiro. Mas apesar de não ser o culpado pelos pecados humanos, o próprio Deus quitou a dívida do homem pagando o preço dos seus pecados na cruz. Quanto aos milagres, se há um Deus que pode fazer um milagre na natureza, também o pode na mente humana, fazendo-a aceitar o milagre. Milagres sempre foram aceitos mesmo por pessoas de elevado nível de conhecimento, e a história dá forte testemunho disso (Galileu, Newton, Pascal, Pasteur, Kierkegaard etc).“Dr. House”: o seriado traz a figura caricata de um intelectual cético, cuja incredulidade é
supostamente justificada por sua saliente
FRIEDRICH NIETZSCHE E O RADICALISMO DO SÉC. XIX
Friedrich W. Nietzsche (18441900), filósofo alemão nascido em Rocken, é considerado um dos mais importantes filósofos de todos os tempos. Filho de protestantes, doutrina a qual fora educado em toda a infância, perdeu o pai e o irmão aos cinco anos de idade, e mudouse para Naumburg, a morar com a mãe, a irmã, duas tias e a avó. Em 1858, conseguiu uma bolsa de estudos na escola de Pforta. Sob a influência dos professores, começou a afastarse do cristianismo; e estudou muito o latim e os clássicos gregos. Saindo de Pforta, foi a Bonn, onde estudou filosofia e teologia. Nietzsche viveu um período de entrega às orgias e aos vícios, ao cigarro e à bebida, mas depois as deixou, julgando serem prejudiciais à percepção e ao pensamento. Foi músico amador e amigo do compositor alemão Richard Wagner (18131883), a quem mais tarde criticou. Suas principais obras são: “O princípio da tragédia” (1872), “Assim falou Zaratustra” (188385), “Genealogia da moral” (1887), “O Anticristo” (1888), “O crepúsculo dos ídolos” (1889), entre outras. Nietzsche sofreu frustrações amorosas, e o fim de sua vida foi trágico: vitimado pela loucura, dizia ser o sucessor do ‘deus morto’ e escrevia cartas assinando como ‘o crucificado’. Ao fim da vida, a obra de Nietzsche começa a ganhar notoriedade, e após sua morte, influencia os formadores dos regimes totalitaristas europeus posteriores, como o nazismo.
Crepúsculo dos Ídolos
Nesse livro, lançado em 1889, Nietzsche afirma que o ser humano vive em decadência. Para ele, a humanidade começou a contrariar seus instintos de vida e poder desde os pensadores gregos. A própria criação da moral resume essa decadência. Ele pensa que no lugar de controlar os instintos como vingança, ambição, desejo e poder, o ser humano deveria cultiválos, pois quando em nome da moral esses desejos são retraídos, o homem passa a cultivar o tédio pela vida. Nietzsche alega que as religiões mostram Deus como inimigo da vida, pois ele sempre está ordenando a moral e o controle dos instintos. Ele menciona o sermão em que Jesus ensina a cortar a mão e arrancar o olho caso estes venham a ser motivo de escândalo a seu possuidor. Contrário a esse ensino, ele desabafa: não devemos admirar os dentistas que arrancam
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Nietzsche: em seu obituário escreveu-se: “Um notável Anticristo”.
os dentes para eles não doerem mais, mas devemos admirar os dentistas que recuperam os dentes sem precisar arrancálos.
Igual a Hume, Nietzsche não acredita no livrearbítrio, ele diz que vontade própria não existe: nossas decisões e atitudes não passam de um equilíbrio entre efeitos físicos, químicos e biológicos em nosso organismo. Sendo assim, ninguém pode ser responsabilizado pelo que faz, pois só é possível agir de forma inevitável. Sua opinião sobre a religião é a de que elas são formas de adestramento humano, ou seja, formas de tornar as pessoas adestradas. Ele explica que um animal selvagem é forte, instintivo e vigoroso, mas o animal adestrado é enfraquecido e vive de forma doentia. Da mesma forma, o ser humano religioso é doentio e enfraquecido, ensinado a conformarse com o que tem e renunciar sua própria vida. Se as religiões são meios de enfraquecer os homens, o cristianismo para Nietzsche é a forma mais extrema de se atingir esse objetivo: no judaísmo, pelo menos eles se identificavam como uma nação, e por essa identificação lutavam e mostravam bravura, seu Deus era muitas vezes tido como um capitão a frente de exércitos. No cristianismo, não há luta física, não há um país ou uma bandeira territorial a ser defendida, a luta do indivíduo é contra ele mesmo, contra seus instintos de força e beleza, seu próprio Deus não representa força ou vigor, é um Deus bondoso e humilde, que se entrega a morte sem sequer reclamar.
Nietzsche afirma que o valor de uma coisa reside no que se paga por ela, e nem tanto no quando se pode adquirir com ela. Ele fala isso tendo em mente a liberdade que a fé religiosa restringe e oferece ao ser humano. A religião restringe os apetites instintivos, mas oferece a liberdade da vida, enquanto isso, Nietzsche se queixa do quanto se paga por essa liberdade (o abandono dos instintos selvagens). Mas quanto tempo uma sociedade sobreviveria se permitisse tudo o que seus indivíduos desejassem? Roubos, vinganças, violações de todas as naturezas, domínio do mais forte entre outras arbitrariedades seriam certamente dominantes. A filosofia de Nietzsche deu muita força aos regimes fascistas e nazistas, que levaram o mundo a testificar um de seus piores capítulos nas grandes guerras. O Anticristo Este livro é uma moção de repúdio de Nietzsche ao cristianismo. Aqui ele diz tudo o que pensa sobre a fé cristã, expressando que para ele essa crença foi a pior coisa que aconteceu na história da humanidade, em suas palavras, o cristianismo é a imortal vergonha da humanidade. Ele começa o livro dizendo que felicidade é ter poder. O bem, para ele, é conquistar o poder, enquanto que o mal é a fraqueza, é a perda de poder. Como já dito, ele acredita que o cristianismo é uma forma de adestramento do ser humano. Enquanto Cristo pregava a compaixão, ele acredita que a compaixão Um animal selvagem expressa força e
vitalidade. Para Nietzsche, um cristão é uma “doentia besta humana”.
Foto do regime nazista: apesar de amplamente negado, a filosofia de Nietzsche contribuiu com a formação desse regime bárbaro.
enfraquece o ser humano, pois ele deixa de dominar quando se compadece. A compaixão do próprio Deus pelo ser humano assusta Nietzsche: para ele, a cruz significa a inversão de valores, pois o próprio Deus sendo todo poderoso, mostra compaixão e se deixa enfraquecer e morrer pelo homem, um espetáculo de fraqueza e perda de poder. Ele diz que a ideia de um Deus bondoso e fraco surgiu da experiência de servidão dos
judeus. Eles teriam invertido o significado de bem e mal para se manter em vantagem. Evidentemente, essa concepção é equivocada, pois o cristianismo não foi uma adequação do judaísmo (os judeus recusaram o próprio Cristo), e outra: os judeus também recusaram a servidão, não se conformaram a ela, pois ainda no primeiro século da era cristã, eles se insurgiram contra o império dominante numa fracassada revolta.
Nietzsche diz que prefere o budismo como religião, pois nele não há combate ao pecado, e sim combate ao
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Acima: estátua do Buda em Hong Kong. Abaixo: concentração de monges budistas na Tailândia. A substituição de orações por regimes e do combate ao pecado pelo combate ao sofrimento fez Nietzsche considerar essa religião mais realista.
sofrimento; não há orações, mas sim regimes. Assim, o budismo aceita muito mais o corpo, compreende suas necessidades e prega uma virtude que se direciona aos valores humanos. Ele faz essa comparação para dizer que, lendo os evangelhos, entendeu que Jesus ensinou uma forma budista de filosofia de vida, mas como foi mal interpretado, mudaram sua mensagem original e criaram a religião cristã. Para ele, se tirar os acréscimos que a igreja colocou nos evangelhos, o que sobra é o tipo psicológico de Jesus: um estilo de vida sem reações. Como ele chegou nessa conclusão? Removendo dos evangelhos o que decidiu remover, e acrescentando o que desejou acrescentar. Assim, não só os evangelhos mas qualquer livro pode se tornar um ensinamento budista.
Na sequência, ele procura justificar como o suposto evangelho budista de Jesus se tornou o evangelho que conhecemos. Para ele, os discípulos não entenderam nada quando Jesus morreu. Se ele era filho de Deus, porque não sobreviveu ou não reagiu e venceu seus algozes? Logo encontraram uma justificativa: morreu pelos pecados. Nietzsche alega que foi Paulo quem criou tais conceitos, ele o
chama de disangelista (ao contrário de evangelista, que significa portador da
boa nova, disangelista significa portador da má nova), afirmando que é
necessário usar luvas para ler o Novo Testamento, já que ali existe muita sujeira! Seu ponto seguinte é alegar que a religião cristã envenenou o mundo com sua contrariedade ao conhecimento. O filosófico pensamento grego e romano sucumbiu, e a teologia cristã reinou por muitos anos. Nesse tempo, pessoas foram mortas e verdades foram escondidas. Nietzsche sugere que o próprio texto bíblico mostra a má intenção dos sacerdotes em relação ao conhecimento: na história do Éden, por exemplo, o homem foi expulso do paraíso por se alimentar do conhecimento, e mesmo com todas as armas divinas contra a ciência (trabalho desgastante, maldição, dores de parto, doenças e morte), o conhecimento começou a prosperar e para parálo, o próprio Deus decide afogar a espécie humana, poupando apenas um religioso fiel com sua família. É evidente que a árvore do conhecimento do bem e do mal apresentada na Bíblia não representa o conhecimento científico, e a razão pela qual o dilúvio aconteceu não foi a prosperidade da ciência, mas a prosperidade do mal. Nietzsche sabia disso, mas com a intenção de difamar a fé, ele ignora essa compreensão e tenta surpreender os ingênuos com sua equivocada interpretação.
É bastante surpreendente a conclusão que Nietzsche chega em relação a reforma protestante. Ele louva a igreja romana quando ela vivia sua maior corrupção, o que não é surpresa, já que ele define o bem como o uso do poder e o mal como renúncia ao poder. Para ele, essa igreja vivia um momento de vida e beleza, quando não estavam preocupados em
Acima: o Apóstolo Paulo, por Rembrandt. Para Nietzsche, o culpado em deturpar o ensinamento budístico de Jesus.
Abaixo: Lutero, o alemão reformador da fé: 'os alemães serão os culpados se o cristianismo não desaparecer da Terra', disse Nietzsche.
negar a própria vida, mas em rechear de ouro suas suntuosas catedrais, dominar os povos e conquistar riquezas. Lutero desferiu um golpe contra a secularização da igreja, e Nietzsche lamenta esse golpe. Afirma que se o cristianismo não for abolido do mundo, a culpa é dos alemães, pois Lutero era alemão e a Alemanha foi o principal berço da reforma.
Nietzsche conclui seu livro promulgando uma lei contra o cristianismo. Ele escreveu: “Com isto concluo e pronuncio meu julgamento: eu condeno o cristianismo; lanço contra a Igreja cristã a mais terrível acusação que um acusador já teve em sua boca. Para mim ela é a maior corrupção imaginável; busca perpetrar a última, a pior espécie de corrupção [...] Denomino o cristianismo a grande maldição, a grande corrupção interior, o grande instinto de vingança, para o qual nenhum meio é suficientemente venenoso, secreto, subterrâneo ou baixo – chamolhe a imortal vergonha da humanidade...” As leis dele são: I) Renunciar a própria vida é vício; II) Colaborar na obra de Deus é crime; III) O lugar onde Jesus viveu deve ser transformado no lugar mais horrível e indesejado da Terra; IV) Castidade é um pecado contra o espírito santo da vida; V) Padres e pastores devem morrer de fome; VI) História sagrada será maldita, Deus será nome de xingamento; VII) O resto nasce a partir daqui. No final, ele assina essa lei como “Nietzsche, o Anticristo”. Nietzsche fica indignado com a fé cristã. Ele não compreende como as pessoas aceitam que o próprio Deus, que deveria ser o mais forte e intocável, seja sofredor e prove da morte. Por causa dessa indignação ele enunciou que “Deus morreu”. Ele prega o homem que valoriza sua própria vida, que remove os obstáculos de seu caminho e atinge seus objetivos. Contrário a Jesus, esse Superhomem despreza a compaixão e o considerar os outros superiores a si mesmo; ele domina e compete com outros para ser sempre o melhor. Por isso, Nietzsche escreveu: “Deus morreu, agora nós queremos que viva o super homem”.
Existem muitas contradições nessas ideias. A primeira delas, é a de que ao mesmo tempo que ele louva o uso do poder, ele condena a religião por adestrar as pessoas e mantêlas dominadas pelos sacerdotes. Ora, se o uso do poder é louvável, então por que não aplaudir os sacerdotes quando eles supostamente dominam? A segunda grande contradição é a sua condenação da igreja cristã sobre a destruição das culturas e ciências gregas e romanas. A dominação da igreja romana, que não era algo verdadeiramente cristão, é condenada por impedir a ciência e a diversidade cultural, mas essa mesma dominação é vista como positiva quando ele critica a reforma protestante. Afinal, Nietzsche elogia o uso do poder, mas condena o uso do poder quando esse uso é realizado pelos seus adversários ideológicos. Flagrantemente parcial e contraditório.
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“Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? (…) Nunca existiu ato mais grandioso, e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê deste ato, de uma história superior a toda a história até hoje!” - Nietzsche. A anunciação nietzschiana
da morte de Deus não é uma simples declaração de descrença, mas a constatação de que os valores religiosos deixaram de vigorar como norma de conduta na sociedade.
R E S U M O
Filósofo:
Friedrich Nietzsche (1844-1900)Argumentação ateísta:
a) Deus é inimigo da vida, pois prega a autorrenúncia. A religião domestica os homens, os tornando fracos e malogrados. b) Divindade cristã é o colapso da divindade judaica. c) Doutrinas cristãs refletem a lógica do ódio disseminada por Paulo, pelas quais culturas gregas, romanas e islâmicas foram destruídas.Refutação:
a) Nietzsche identifica o bem como o uso do poder, mas lamenta o uso do poder dos que dominaram em nome de uma religião. Só a autorrenúncia pode frear os instintos nocivos do ser humano. b) Os judeus jamais se adaptaram a servidão e sempre recusaram a fé em Jesus. c) A adulteração do evangelho por Paulo é inventiva, e a destruição de culturas se deu pelo anseio de dominação, e não pela prática do evangelho como Cristo propôs.BERTRAND RUSSELL E A FILOSOFIA ANALÍTICA
Bertrand Arthur William Russell (18721970), matemático e filósofo britânico, foi um dos mais importantes popularizadores da filosofia no século XX. Recebeu o prêmio Nobel da Literatura em 1950, pelos seus ideais humanitários e pela sua contribuição à liberdade do pensamento. Russell pertenceu a uma família aristocrática inglesa; seus pais morreram quando ele ainda era criança. Estudou filosofia na Universidade de Cambridge, tornouse membro do Trinity College em 1908, mas perdeu a cátedra por recusarse alistar à primeira guerra mundial. Em 1939, foi lecionar nos Estados Unidos, na Universidade da Califórnia. Foi nomeado professor no City College, em Nova Iorque, mas teve sua nomeação anulada por ser considerado moralmente impróprio. Foi um militante pacifista, mediou o conflito dos mísseis de Cuba a fim de evitar um ataque militar; organizou com Albert Einstein o movimento Pugwash, com o objetivo de combater a proliferação de armas nucleares.
Elaborou a tese da fundamentação logicista da matemática, onde assegura que todas as verdades matemáticas podem ser deduzidas de umas poucas verdades lógicas; concebeu ainda a teoria das descrições definidas, e formulou algumas teses de teoria do conhecimento. Russell escreveu várias obras, entre as quais se destaca “The principles of Mathematics”, de 1903; os três volumes em coautoria com Whitehead, publicados entre 1910 e 1913, intitulados “Principia Mathematica”. Mas a obra que Russell desbancase em defender sua moral em detrimento da moral religiosa (especificamente a moral cristã) é o ensaio escrito a partir de uma palestra dada em 1927 sob o título “Why I am not a Christian” (“Porque eu não sou cristão”). E esse é o livro que vamos analisar.
Porque não sou Cristão
Nesse livro, Russell escreve as razões sobre sua escolha em rejeitar a doutrina cristã, e ele fará isso baseado em dois fundamentos, que ele acredita ser os dois fatores que determinam a identidade de um cristão: acreditar em Deus e na imortalidade da alma, e atribuir alguma supremacia a pessoa de Jesus de Nazaré, considerandoo pelo menos o mais sábio dentre os homens.
Sobre a existência de Deus, ele trata de mostrar inconsistências nas provas clássicas da existência de Deus, que são: o argumento da Primeira Causa, o argumento da Lei Natural, o argumento da Prova Teológica e o argumento da Moral. Quanto ao argumento da Primeira Causa, ele questiona se o próprio Deus é efeito de alguma causa. Como se alega que Deus não precisa ter uma causa, então a suposição inicial de que todas as coisas tem uma causa está errada, e assim o argumento é inválido. Já em relação ao argumento da Lei Natural, Russell pergunta: “Por que Deus lançou essas leis, e não outras?” Se respondermos que as leis da natureza foram essas porque são elas que tornam o mundo possível, então nem Deus poderia se livrar dessa regra, ou seja, não é onipotente. Já se dissermos que Deus criou essas leis porque assim o quis, então há um rompimento na sequência de leis naturais, o que invalidaria o argumento envolvendo Deus e as leis naturais. Mas esse rompimento é necessário e não invalida o argumento: o argumento não diz que a existência de Deus implica nessas ou naquelas leis, mas que Deus criou leis que fazem o universo
Bertrand Russell: o nobre e sábio galês que não
compreendeu a essência da fé.
São Tomás de Aquino: um dos formuladores das provas da existência de Deus, as quais Russell contra argumenta.
funcionar. Refutando a prova Teológica da existência de Deus, Russell afirma que o mundo está longe de ser o resultado da obra de um ser infinitamente sábio, poderoso e bondoso. Para isso, ele cita regimes totalitários e grupos de terrorismo envolvidos em ações de intolerância social. Não é, porém, uma ideia cristã pensar que Deus pretenda tornar este mundo um paraíso perfeito. Sobre os argumentos da Moral, desfere fortes críticas. Um argumento concebido por Kant põe Deus como um padrão de bem. Pode ser verdadeiro, mas não tem qualquer valor como prova da existência de Deus, pois não há como verificarmos essa suposição. Agora ele tratará de mostrar o que pensa de Jesus, mostrando que ele não era tão sábio. A primeira coisa que Russell aponta é o ensinamento de Jesus que leva a entender que o fim do mundo ocorreria nos dias daquela geração, o que não aconteceu. Jesus disse aos discípulos, quando proferia profecias sobre o final dos tempos, que tudo aquilo aconteceria ainda antes que os seus seguidores percorressem todas as cidades da judeia. Evidentemente, se trata de uma interpretação particular e equivocada, pois Cristo ainda não voltou, mas até hoje as aldeias de Israel não foram totalmente alcançadas com seu evangelho. Russell alega que Cristo usava de ameaças quando censurava os fariseus, tipo de atitude que outros sábios não usariam. Fala também do fato de Jesus ter amaldiçoado a figueira e permitido que os espíritos imundos entrassem na manada de porcos, atestando assim sua indiferença com a natureza. Mas o conteúdo e a essência dos ensinamentos de Cristo não são mencionados, de modo que as acusações indicadas não passam de argumentação irrisória.
Com todas essas considerações, Russell afirma que as religiões são dotadas de crueldade. Ele diz que nas épocas de maior apego a fé, maiores horrores foram cometidos. Mas ele não se preocupa em ressaltar que, nessas épocas e na prática desses horrores, os próprios ensinamentos bíblicos foram esquecidos.
A Religião Contribuiu para a Civilização?
Um outro ensaio de Russell, que leva o nome deste título, também trata de sua descrença em Deus. Ele indica que a religião não trouxe muita contribuição para a civilização, aliás, as únicas contribuições que ele reconhece são a fixação do calendário e a predição de eclipses pelos sacerdotes egípcios. Russell se vale de interpretações duvidosas da Bíblia para argumentar: ele diz que é impossível olhar
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Vista do mura das lamentações, em Jerusalém: mesmo sendo o berço do cristianismo, a judeia não é um território predominantemente cristão.
Com o objetivo de desmoralizar a fé, Russell apela: 'somente sendo tão cruel quanto o Deus em que se crê para afirmar que o sofrimento de crianças doentes seja consequência de sua imoralidade'. Evidentemente, essa crítica não cabe a crença cristã.
para o sofrimento em um hospital infantil e concluir que aquelas crianças sofrem por serem pecadoras, mas essa é uma atitude equivocada dentro da religião cristã: Cristo manifestava misericórdia aos necessitados, não lhes apontava culpas.
Diz Russell ter duas principais razões contra a religião. Uma delas é intelectual, e é a de que não há razão alguma para se supor que determinada religião seja
verdadeira. A outra é moral, e se resume no fato de que as religiões nasceram em uma época em que os homens eram mais cruéis, e a prática dessas religiões fazem perpetuar muitas ações desumanas. Quanto a primeira razão, apenas fica manifesto sua falta de imaginação: a existência de algo independe de nossas suposições. Em relação à perpetuação de ações desumanas, essa crítica não vale para a fé cristã, cuja essência é o amor ao próximo. Ele afirma ainda que a religião coíbe alguns impulsos que servem para amenizar o egoísmo. Estes impulsos são: a família, o patriotismo e o sexo. Sobre a família, é uma fantasia pensar que a Igreja cristã coíbe sua instituição. O patriotismo não é contrariado pelo evangelho, mas colocado em segundo plano. Mesmo assim, a patriação celestial é um impulso ainda mais importante em atenuar o egoísmo das pessoas. Já sobre o sexo, o padrão cristão é o da restrição ao matrimônio, e é muito questionável se a prática sexual faz diminuir o egoísmo de alguém. O matrimônio cumpre esse papel, mas o ato sexual em si pode ser realizado num puro surto egoísta de satisfação carnal.
Russell também apela para a ciência para justificar algumas de suas suposições. O apelo que faz, entretanto, é flagrantemente errôneo: ele diz que não existe livrearbítrio, pois a ciência pode prever o desenvolvimento de qualquer sistema a partir de leis físicas bem estabelecidas. O problema que ele não menciona é que as leis estabelecidas não explicam como é possível agirmos por decisão própria.
Mesmo sendo um matemático logicista muito importante, Russell reconheceu que é impossível provar a inexistência de Deus. Ele ficou tão incomodado com essa impossibilidade que tratou, astutamente, de dizer que quem tem que provar qualquer coisa são os religiosos, e não os ateus. Dizia ele: suponha que exista um bule chinês celestial em órbita do Sol, mas a uma grande distância da Terra. Por ser pequeno esse bule, os telescópios não podem encontrálo. Assim, ele poderia tentar fazer alguém acreditar que esse bule realmente existe, mas as pessoas não acreditariam sem uma prova disso. Da mesma forma, se Deus existe, são os religiosos quem devem provar sua existência, não sendo obrigação dos ateus provarem sua inexistência. Isso está certo, mas não é intenção de um religioso provar a existência de Deus. O religioso diz, em conformidade com sua convicção: é necessário ter fé.
Voltando a questão original deste tópico, se a religião contribuiu com a
Madre Tereza de Calcutá. Impossível associar sua imagem com egoísmo, mas de uma forma curiosa e não bem argumentada, Russell considera que os ensinamentos da Igreja estão fundamentados no ódio e egoísmo.
Se alguém alegar que existe um bule de chá no espaço, em órbita do Sol, terá de prová-lo, caso contrário, jamais será acreditado. O ônus da prova é de quem afirma, não de quem contesta. Com esse argumento, Russell questiona se os ateus precisam argumentar contra a existência de Deus, ou se são os religiosos que precisam comprová-la.
civilização, temos de dizer, ao menos em nome da fé cristã, que muitas foram as contribuições. Só para exemplificar, em vilas e vilarejos, bem como em grandes cidades, em seus subúrbios e periferias, a quantidade de pessoas, especialmente jovens, que mudaram de vida saindo da marginalidade para uma vida devota, de trabalho e compromisso familiar, é indescritível. Mas são realizações silenciosas, que não trazem uma bandeira estampada, que não é homenageada em festas populares nem lembrada nos grandes círculos intelectuais.
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R E S U M O
Filósofo:
Bertrand Russell (1872-1970)Argumentação ateísta:
a) Russell questiona as provas clássicas da existência de Deus, e afirma que Jesus não foi tão sábio quanto outros, por ameaçar seus oponentes com o inferno e ensinar que seu advento seria nos dias daquela geração, além de ser indiferente com a natureza. b) Aponta duas objeções contra a fé: a objeção intelectual, de que não há razão para se acreditar em Deus, e a objeção moral, de que a religião perpetua a crueldade herdada da época em que foi criada. c) Alega que a tarefa de provar a existência de Deus é dos teístas, não sendo responsabilidade dos ateus argumentar sobre sua inexistência.Refutação:
a) A existência de Deus não depende das provas clássicas, elas não são mais do que tentativas de racionalização da fé; ainda assim, Russell tropeça em sua refutação da prova da lei natural. Suas críticas a Jesus são irrisórias, a base moral que ele usa para sustentá-las são frutos da ampla difusão dos valores evangélicos ao longo de séculos. b) A objeção intelectual não tem fundamento, seria esse o caso se o ser humano não demonstrasse necessidades espirituais, e a objeção moral não se aplica a fé cristã, que prega o amor. c) Assim como o astrônomo não precisa provar a existência da galáxia de Andrômeda para seus céticos, o religioso não precisa provar a existência de Deus.Imagens de outdoors criados pela Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, que foram publicados em Porto Alegre (RS) em 2011.
JEAN-PAUL SARTRE E O
EXISTENCIALISMO DO SÉC.
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JeanPaul Sartre (19051980), filósofo francês nascido em Paris, é considerado o maior intelectual do Existencialismo. Devido ao falecimento do pai dois anos após seu nascimento, foi morar com o avô paterno, protestante. Graduouse em 1929 pela École Normale Supériure e passou a viver com Simone de Beauvoir. Após o curso de filosofia, prestou o serviço militar como meteorologista. Teve grande influência do pensamento existencialista de Soren Kierkgaard (18131855). Foi prisioneiro dos alemães entre 194041, e após ser solto por razões médicas, fundou o grupo “Socialismo e Liberdade” a fim de atuar junto à resistência contra os alemães. Apesar de ter exaltado a liberdade em suas primeiras obras, após a guerra Sartre volta sua atenção para as questões da responsabilidade civil.
Embora fosse um admirador do marxismo, decepcionouse com as ações de guerra da União Soviética. Foi contemplado ao prêmio Nobel de Literatura por sua obra “As Palavras” (1964), mas recusouo. Ficou cego em seus últimos anos, e faleceu em 1980 devido a um tumor pulmonar.
As principais obras de Sartre são: “A Imaginação” (1936), “A Náusea” (1938), “O Muro” (1939), “O Imaginário: Psicologia fenomenológica da Imaginação” (1940), todas dominadas pelo seu pensamento de liberdade, onde propunha a descrição dos fenômenos sem qualquer ideia preestabelecida. Na fase de guerra publicou o “O Ser e o Nada” (1943), considerada a obra fundamental da teoria existencialista, e a peça teatral “As moscas” (1943), uma crítica camuflada ao regime totalitarista alemão. Anos mais tarde ele se direciona à produção de obras de teatro, dentre as quais destacamse: “Entre quatro paredes” (1945); “Mortos sem sepultura” (1946); “A prostituta respeitosa” (1947), “O diabo e o bom Deus” (1951) entre outras. Em todas essas peças Sartre busca expor a inclinação má do ser humano em relação a seu próximo. Em 1946 publica “O existencialismo é um humanismo”, procurando esclarecer críticas feitas às ideias do existencialismo expostas em “O Ser e o Nada”. Em “O fantasma de Stálin” (1956), critica ao marxismo; filosofia ao qual não rejeita, mas salienta seus problemas. Sartre foi editor, junto a outros intelectuais, do jornal “Tempos modernos” de 1945 a 1955.
Jean-Paul Sartre: se Deus existe ou não, não há qualquer diferença.
O Existencialismo é um Humanismo
Existencialismo é uma doutrina que afirma que o ser humano não tem uma essência primordial, ou seja, não existem valores ou padrões preestabelecidos para sua conduta, todos os valores, sejam eles de ordem moral ou social foram criados posteriormente pelo próprio ser humano. Assim, o homem primeiro existe, depois constrói sua identidade humana. Essa construção envolve todos os indivíduos, num processo chamado subjetividade: as decisões humanas fazem estabelecer seus valores. Quando alguém se casa, está escolhendo o modelo do matrimônio como ideal para si, e mesmo sem pensar nisso, o escolhe também para toda humanidade. Logo, toda decisão que alguém toma envolve a humanidade na construção de seus valores, de modo que não existe um padrão a ser seguido, não há uma orientação prévia de quais serão as escolhas bem sucedidas, de modo que o ser humano se flagra abandonado em suas decisões. Percebendo essa condição de abandono, pois não há um sobrenatural que o possa direcionar para o bem ou para o mal, o homem vive sua angústia, a angústia de quem precisa decidir mas não dispõe sequer de um sinal sobre qual decisão tomar, e mesmo não decidindo está escolhendo não decidir, o que é já uma decisão. Desse raciocínio, Sartre diz que o homem é condenado a ser livre. É fácil ver que essa concepção é materialista em sua própria construção. Quando Sartre diz que não existe um padrão estabelecido ao ser humano, está testificando o fundamento ateu de sua doutrina. Para a doutrina cristã, o ser humano foi criado com propósitos definidos pela soberania divina, e os padrões centrais de conduta determinados ao ser humano estão fixados na consciência de cada indivíduo.
Uma crítica muito forte que a doutrina existencialista recebia (principalmente por pessoas que viveram os horrores das guerras), era a de que pelas suas suposições não se podia condenar quem quer que seja por suas ações, já que não existiam padrões preestabelecidos. Em relação a isso, Sartre escreveu que as ações poderiam ser julgadas quando fossem consideradas de máfé, ou seja, quando por essas ações se privava a liberdade de alguém. Com um discurso técnico e extenso, ele
tenta justificar essa ideia sem deixar transparecer que está se contradizendo, mas na verdade, quando diz que ações que privam a liberdade são ações más, está escolhendo a liberdade como padrão preestabelecido, o que vai contra sua própria tese.
Seu entendimento sobre as decisões humanas o fazem acreditar que mesmo provando a existência de Deus nada mudaria, ou seja, o homem continuaria abandonado em suas escolhas, pois até mesmo se um anjo lhe falasse, seria ele quem teria de decidir que a voz foi de um anjo e não de um demônio, ou 22
Acima, um presídio; abaixo, tanques de guerra. O que torna um ato aceitável ou condenável? O certo e errado, para Sartre, é uma construção humana, construção essa não guiada ou justificada por qualquer padrão preestabelecido. O homem está, portanto, “condenado a ser livre”.
se aquela voz não foi de seu próprio inconsciente. Tentando mostrar que a doutrina cristã não dá respostas, ele fala de algo que lhe aconteceu: um jovem o procurou para pedir um conselho. O jovem queria uma opinião para decidir se deixava a mãe solitária em casa e se alistava na guerra afim de vingar a morte de seu irmão, ou se deixava de lado o desejo de vingança e ficava com a mãe já velha em casa acolhendoa. Diante dessa circunstância, sua resposta ao jovem foi: “Invente, você é livre”. Ou seja, qualquer decisão seria correta, desde que tomada em concordância com sua vontade. Nesse ponto, Sartre faz uma infeliz afirmação: nem a doutrina cristã teria uma resposta para esse jovem. Certamente ele deixou de considerar muita coisa para dizer isso, basta lembrar que Cristo ensinou o amor ao próximo, não havendo espaço para vingança na conduta cristã. Uma ilustração poderá deixar mais claro o equívoco aqui flagrado: dois homens seguiam por certo caminho. Um deles chamavase Existencialista, e o outro, Cristão. A certo ponto, o caminho fez uma bifurcação: cada um decidiu ir por um lado, embora ambos seguissem ao mesmo destino: procuravam a residência da senhora Liberdade. Existencialista seguiu pelo caminho chamado
“O nascimento do novo homem” de Salvador Dali (1943): uma crítica à guerra e à promessa de transformação social. A doutrina existencialista leva a responsabilidade das barbaridades ao próprio homem, já que ele é o único responsável por escolher o que é bom ou não para si. Mas os valores de natureza moral seriam mesmo criados pelo ser humano ou seriam absolutos, dado que todos seres humanos concordam com os mais fundamentais deles, como o direito a liberdade?
‘ateísmo’, e Cristão seguiu pelo caminho chamado ‘fé’. Perderamse de vista. Após longa caminhada, tanto para um quanto para o outro, finalmente Existencialista vislumbra o final de seu caminho: uma mansão antiga com inscrições ao alto: “Liberdade”. Alegrase, mas ao entrar, sua alegria transformase em angústia, pois se vê desamparado, quando observa que no interior daquela residência não há ninguém, e tudo está abandonado às traças. Angustiado, sai pelos fundos da casa e vê a chegada do caminho chamado ‘fé’, também dando na mesma residência. Rise consigo mesmo e diz: “Meu amigo Cristão não terá vantagem alguma em ter escolhido o caminho da fé, pois ambos remetem a esse mesmo lugar; logo aqui ele chegará também. A única vantagem minha é que o caminho do ateísmo era mais espaçoso que o caminho da fé”. Passase o tempo e nada de Cristão chegar. Somente depois de muito esperar, é que Existencialista indignado volta tomando o caminho da fé esperando encontrarse com o amigo ainda em viagem. A certa altura do caminho, ele percebe que seu amigo já está longe, pois somente no caminho da fé havia mensageiros do Rei anunciando que a mansão da liberdade havia se mudado, transferindose do reino da terra para o reino dos céus, e por isso os viajantes tomavam um atalho chamado Cruz, apontado pelos mensageiros, para irem à nova mansão da Liberdade. Não sei se Existencialista chegou ao atalho da cruz em tempo, pois as portas da mansão da Liberdade iriam se fechar a meianoite; mas se não chegou, perdeu toda a viagem. 24
R E S U M O
Filósofo:
Jean-Paul Sartre (1905-1980)Argumentação ateísta:
a) A existência humana precede sua essência (valores de certo e errado). Nenhuma moral religiosa pode dar ao homem respostas absolutas. b) É indiferente Deus existir, pois mesmo nesse caso, o homem tem de lidar com suas próprias escolhas.Refutação:
a) Embora considere que não existam valores fundamentais preestabelecidos, Sartre precisa eleger a liberdade como valor absoluto (sem admitir) para consolidar sua defesa ao existencialismo quanto a acusação de anarquismo. A moral cristã é enfática em defender o amor ao próximo como compromisso social, e esse compromisso dá respostas. b) A existência de Deus muda tudo no cenário existencialista, pois então existem valores preestabelecidos ao ser humano.Liberdade: um padrão absoluto que rege as ações na construção dos valores humanos.
Balança: símbolo de justiça. A ausência de padrões
preestabelecidos ao ser humano faz da justiça uma livre criação humana. Mas há um padrão pelo qual nossas ações são
avaliadas, que indica quais atitudes são consideradas corretas e incorretas. Esse padrão é universal, independe de cultura ou época, e é através dele que o senso comum de justiça se estabelece. A própria existência desse padrão
explicita a invalidade da visão materialista do mundo.
RICHARD DAWKINS E A NOCIVIDADE
DA FÉ
Clinton Richard Dawkins (1941 ), zoólogo e etnólogo queniano, conhecido como “Rottweiler de Darwin”, dado o rigor com que defende o darwinismo; é um dos maiores divulgadores do ateísmo na atualidade. Através de palestras, participação em programas de TV, livros e documentários, ele tem disseminado suas ideias contrárias à fé em todo o mundo. As principais obras dele são: “O gene egoísta” (1976), “O Rio que saía do Éden” (1995), “A escalada do monte improvável” (1997), “Desvendando o arcoíris” (1998), “O capelão do diabo” (2003) e “Deus, um delírio” (2006). O mais conhecido de seus documentários intitula se “Raiz de todos os males?” (“The Root of All Evil?”), feito para a televisão inglesa, onde enfatiza a inutilidade das religiões, garantindo que o mundo seria melhor sem as mesmas. O documentário de cerca de noventa minutos, dividido em dois episódios, foi exibido pela primeira vez em 2006, e temos a seguir uma análise de vários dos seus argumentos.
Raiz de todos os Males
No documentário, Dawkins tenta estabelecer uma relação entre religião e ódio. Ele mostra imagens de um atentado suicida e afirma que aquilo não é o problema de uma religião específica, mas de todas as religiões, inclusive a cristã. Seguindo as ideias de Bertrand Russell, ele fala da escassez de milagres entre pessoas de maior nível intelectual. Visitando um santuário mariano na França, ele sugere que os milagres ali testificados não são examinados rigorosamente, e se fossem, se constataria que não são milagres. Depois disso, ele conversa com judeus, muçulmanos e cristãos, salientando as questões de intolerância religiosa entre os judeus e muçulmanos, e a contrariedade com a ciência da evolução por parte de pastores protestantes. Com isso, ele conclui que as religiões atrapalham o desenvolvimento social e científico.
Dawkins identifica a fé como um vírus ideológico. Baseado em seu conhecimento em biologia, ele diz que o padrão de propagação das ideias religiosas é o mesmo padrão de propagação dos vírus, além disso, o vírus geralmente prejudica quem o contrai; da mesma forma, a fé além de não trazer benefícios a seu possuidor, ainda o prejudica.
Toda crítica que Dawkins faz contra a religião sempre é baseada em erros que as pessoas religiosas cometem, por exemplo, como dizer que a ciência está errada ou como matar pessoas de outras religiões por não concordar com elas. Em relação ao cristianismo, esses atos errôneos não fazem parte dos ensinamentos, embora sejam muitas vezes praticados; mas nesses casos, errados estão quem os cometem, e não a doutrina religiosa em si.
Richard Dawkins: um dos maiores proselitistas ateu da atualidade.
Vírus Influenza: seu padrão de propagação é semelhante, para Dawkins, ao da difusão de ideias religiosas.