Kendare. Tradução de Alexandra Guimarães

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Texto

(1)

K

endare

B

laKe

Tradução de Alexandra Guimarães

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locais e personagens

INDRID DOWN

Capital de Fennbirn, residência da Rainha Katharine

OS ARRON Natalia Arron

Matriarca da família Arron. Líder do Conselho Negro

Genevieve Arron

Irmã mais nova de Natalia

Antonin Arron

Irmão mais novo de Natalia

Pietyr Renard

Sobrinho de Natalia, filho do seu irmão Christophe

ROLANTH

Residência da Rainha Mirabella

OS WESTWOOD Sara Westwood

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Bree Westwood

Filha de Sara Westwood, amiga da rainha. Afinidade: fogo

WOLF SPRING

Residência da Rainha Arsinoe

OS MILONE Cait Milone

Matriarca da família Milone. Familiar: Eva, um corvo

Ellis Milone

Marido de Cait e pai das suas filhas. Familiar: Jake, um spaniel branco

Caragh Milone

Filha mais velha de Cait, banida para o Chalé Negro. Familiar:

Juniper, um cão de caça castanho Madrigal Milone

Filha mais nova de Cait. Familiar: Aria, um corvo

Juillenne “Jules” Milone

Filha de Madrigal. A naturalista mais forte desde há muitas dé-cadas e amiga da rainha. Familiar: Camden, uma puma

OS SANDRIN Matthew Sandrin

O filho mais velho. Ex-noivo de Caragh Milone

Joseph Sandrin

Filho do meio. Amigo de Arsinoe. Banido para o continente du-rante cinco anos

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OUTROS Luke Gillespie

Proprietário da Livraria Gillespie. Amigo de Arsinoe. Familiar:

Hank, um galo preto e verde William “Billy” Chatworth Jr.

Irmão adotivo de Joseph Sandrin. Pretendente das rainhas

Sra. Chatworth Jane

Emilia Vatros

Guerreira da Cidade de Bastian

Mathilde

Oráculo

O TEMPLO

Alta Sacerdotisa Luca Sacerdotisa Rho Murtra Elizabeth

Iniciada e amiga da Rainha Mirabella

O CONSELHO NEGRO

Natalia Arron, envenenadora Genevieve Arron, envenenadora Lucian Arron, envenenador Antonin Arron, envenenador

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Allegra Arron, envenenadora Paola Vend, envenenadora Lucian Marlowe, envenenador Margaret Beaulin, guerreira Renata Hargrove, sem dom

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chalé negro

400 anos antes do nascimento de Mirabella,

Arsinoe e Katharine

O trabalho de parto foi difícil e sangrento desde o início. Outra coisa não seria de esperar de uma rainha guerreira, sobretudo de uma tão aguerrida como Philomene.

A parteira encostou-lhe um farrapo frio à testa, mas a rainha empurrou-lhe o braço para longe.

– A dor não é nada – garantiu a rainha. – Acolho esta última luta de braços abertos.

– Acha que não vai ter de enfrentar mais guerras no país do Louis? – perguntou a parteira. – Mesmo que o seu dom desvaneça depois de sair da ilha, não imagino esse cenário.

A  rainha olhou para a  porta entreaberta e  vislumbrou Louis, o rei consorte, a andar nervoso de um lado para o outro. Os olhos negros dela brilhavam com a  excitação do parto. O  cabelo preto reluzia com o suor de tanto esforço.

– Ele só quer que isto acabe. Não sabia no que se estava a meter quando me conheceu.

Nem ele nem ninguém. Todo o reinado da Rainha Philomene fora marcado por intermináveis batalhas. Sob a sua liderança, os guerrei-ros ocuparam a capital, e a rainha mandou construir navios enormes e saqueou as aldeias costeiras de todas as nações, exceto a do seu rei consorte. Mas tudo isso acabara. Oito anos de uma bárbara regência guerreira chegavam ao fim. O reinado tinha sido curto, até para os padrões das rainhas guerreiras, ainda assim a ilha estava exausta. Uma rainha guerreira significava glória e intimidação. Proteção. Não

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foi só o marido que se sentiu aliviado quando a Deusa lhe enviou as trigémeas.

Philomene contraiu-se ao sentir outra pontada e fletiu o joelho para ver mais uma rajada de sangue a escurecer os lençóis.

– Está tudo bem – mentiu a parteira. Mas o que sabia realmente ela? Era jovem e entrara recentemente ao serviço do Chalé Negro. Tinha o dom de ser envenenadora, e por isso boa curandeira, e, em-bora já tivesse ajudado muitas crianças a nascer, nenhuma dessas experiências anteriores a preparara para o nascimento das rainhas.

– Eu sei – concordou Philomene, com um sorriso. – É normal que uma rainha guerreira sangre desta forma. Mesmo assim, acho que vou morrer disto.

A parteira voltou a humedecer o farrapo na água fria e torceu-o, preparando-o para ser usado, caso Philomene o permitisse. Talvez o fizesse. Afinal de contas, quem iria saber? Para a ilha, a rainha morreria assim que as trigémeas nascessem. Os cavalos que a leva-riam, assim como a Louis, à barcaça que depois os transportaria até ao navio já estavam selados e a aguardá-los. E depois de partirem, Philomene e  Louis jamais regressariam. Até a  dedicada parteira se esqueceria dela a partir do momento em que os bebés nasces-sem. Dava ares de preocupada, mas o seu único objetivo era manter Philomene viva até ao nascimento das trigémeas.

A rainha olhou para a mesa cheia de ervas, panos pretos limpos e frascos de poções para aliviar as dores – tudo recusado, evidente-mente. Também estavam facas lá pousadas. Para libertar as novas rainhas, caso a anterior fosse demasiado fraca para as pôr cá fora. Philomene sorriu. A parteira era uma rapariga pequena e submissa. Tentar cortá-las de dentro dela seria um feito digno de se ver.

A contração passou e Philomene respirou fundo.

– Elas estão com pressa – disse. – Tal como eu estava. Com pressa desde que nasci, para deixar a minha marca. Talvez soubesse que ia ter pouco tempo para o fazer. Ou talvez tenha sido a pressa que aca-bou por me encurtar a vida. Vieste do templo, não foi? Antes de vires para cá, para este isolamento?

– Foi lá que recebi os meus ensinamentos, minha rainha. No templo de Prynn. Mas não cheguei a fazer o juramento.

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– Claro que não. Vejo que não tens pulseiras tatuadas nos teus braços. Não sou cega.

Outro espasmo de dor e novo jorro de sangue para cima dos lençóis. As contrações eram cada vez mais seguidas.

A parteira levantou-lhe o queixo e puxou-lhe as pálpebras para trás.

– Está a perder as forças.

– Não estou nada.  – Philomene deitou-se na cama. Pousou as mãos sobre a barriga grande e distendida num gesto quase mater-nal. Mas não ousaria fazer perguntas sobre as rainhas bebés. Não são dela, não lhe cabe preocupar-se com elas. Pertencem à Deusa, e somente à Deusa.

A custo, Philomene voltou a erguer-se, apoiando-se nos cotove-los. Uma expressão de sombria determinação percorreu-lhe o rosto. Estalou os dedos para que a parteira tomasse o seu lugar entre os joelhos dela.

– Está pronta para puxar – disse a parteira. – Vai correr tudo bem, a rainha é forte.

– Pensei que tinhas dito que estava a perder as forças – resmun-gou Philomene.

A primeira rainha nasceu em silêncio. A respirar, mas nem se-quer chorou quando a parteira lhe deu uma palmada. Era pequena, perfeita e bastante rosada para um parto tão difícil. A parteira se-gurou-a nos braços para a mostrar a Philomene e, por um instante, sangue régio fluiu entre ambas através do cordão umbilical.

– Leonine – chamou Philomene, dando nome à pequena rainha. – Naturalista.

A  parteira repetiu as palavras da rainha em voz alta e  levou a bebé para ser limpa e colocada num berço, envolvida numa manta verde-clara com flores bordadas. Não demorou muito até a segunda bebé nascer, desta vez a gritar e com as minúsculas mãos cerradas.

– Isadora – disse a rainha, enquanto a bebé chorava e piscava os seus enormes olhos negros. – Oráculo.

– Isadora. Oráculo – repetiu a parteira. E levou a bebé para ser embrulhada numa manta em tons de cinza e amarelo, as cores dos videntes.

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A terceira rainha chegou com um jorro de sangue, como uma onda. A cena foi tão sangrenta e macabra que a boca de Philomene se abriu para anunciar a chegada de uma nova rainha guerreira. Mas não foram essas as palavras que lhe saíram.

– Roxane. Elemental.

A parteira repetiu o último nome e afastou-se, limpando a bebé antes de a  embrulhar numa manta azul e  de a  deitar no último berço. Philomene arquejava na cama. Tinha razão. Conseguia senti--lo. O parto matara-a. Como era forte, talvez sobrevivesse tempo suficiente para ser embrulhada e colocada na sela, mas Louis leva-ria para casa um cadáver para ser sepultado na cripta da família ou atirado borda fora em alto-mar. O seu dever para com a ilha estava terminado, e a ilha não teria mais nada a dizer sobre o seu destino.

– Parteira! – gritou Philomene, ao ser trespassada por outra dor. – Sim, sim – respondeu a parteira, tentado tranquilizá-la. – É só a placenta, já vai passar.

– Não é a placenta. Não é…

Outro espasmo, e Philomene mordeu o lábio enquanto puxava mais uma vez.

Do útero da rainha guerreira saiu outro bebé. Com relativa faci-lidade e sem barulho. A bebé abriu os enormes olhos pretos e respi-rou fundo. Outro bebé. Outra rainha.

– Uma rainha azul – murmurou a parteira. – Nasceram quatro. – Dá-ma cá.

A parteira limitou-se a olhar para Philomene. – Dá-ma já!

A parteira levantou a bebé e Philomene arrancou-lhe a criança das mãos.

– Illiann – anunciou. – Elemental. – O seu rosto exausto e consu-mido mostrou um sorriso. Qualquer réstia de desilusão por não ter dado à luz uma rainha guerreira desaparecera por completo. Porque ali estava um grande destino. Uma bênção para toda a ilha. E tudo graças a ela, Philomene.

– Illiann – repetiu a parteira, ainda em estado de choque. – Ele-mental. A Rainha Azul.

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– Illiann! – gritou. – A Rainha Azul!

Eram longos os dias passados à espera que alguém chegasse ao Chalé Negro. Após o nascimento da Rainha Azul, os mensageiros re-gressaram às respetivas cidades com a notícia. Tinham permanecido no Chalé Negro para saberem as novas, de cavalos selados e prontos para seguir viagem desde o momento em que o parto começara.

Quatro bebés. Era um acontecimento tão raro que alguns acre-ditavam não passar de uma lenda. Após o anúncio da parteira, ne-nhum dos jovens mensageiros soubera o que fazer. Fora preciso ela gritar-lhes.

– Uma Rainha Azul! Abençoada pela Deusa! Chamem todos. Todas as famílias! E a Alta Sacerdotisa também! Vão!

Se tivessem nascido só três, apenas as três respetivas famílias e um pequeno grupo de sacerdotisas iriam ao Chalé Negro. Os Traverse para a rainha naturalista. Os prolíferos Westwood para a elemental. E os Lermont para a pobre rainha oráculo, para supervisionar o afo-gamento. Mas a chegada de uma Rainha Azul obrigava à presença dos líderes das famílias mais fortes de todos os dons da ilha. O clã Vatros, que habitava a capital e a cidade guerreira de Bastian. E até os Arron, os envenenadores de Prynn.

No interior do chalé, sob os mastros escuros que suportavam o teto, quatro berços estavam encostados à parede leste para apa-nharem a luz do sol da manhã. Estavam todas tranquilas, à exceção da bebé com a manta cinzenta. A pequena oráculo não sossegava. Talvez porque, sendo oráculo, soubesse o  que lhe estava prestes a acontecer.

Pobre pequena. O seu destino fora traçado havia muito tempo. Desde a altura da Louca Rainha Elsabet, que usara o seu dom pro-fético para assassinar três famílias inteiras, alegando que tinham conspirado contra ela, que as rainhas oráculo eram afogadas à nas-cença. Depois de retirar o poder a Elsabet, o Conselho Negro redi-giu o decreto. Não se arriscariam a testemunhar outro massacre tão injusto como aquele.

Nos dias que se seguiram ao nascimento, a  parteira queimou os lençóis de Philomene. Não tinham salvação, tão ensopados que

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estavam em sangue. Não se questionou onde estaria a antiga rainha ou como estaria. Olhando para o estado dos lençóis, só podia presu-mir que Philomene estava morta.

A primeira família chegou cerca de uma semana depois dos nas-cimentos. Os Lermont, oráculos da cidade de Sunpool, a noroeste do Chalé Negro. Era a cidade mais próxima do chalé, mas os Ler-mont insistiram que tinham vaticinado a chegada da criança e que estavam prontos para partir quando o mensageiro chegou. Esprei-taram para os quatro berços e demoraram-se solenemente na pe-quena rainha oráculo.

Os Westwood chegaram um dia depois, ainda inexperientes no seu domínio elemental e pouco sensatos. Murmuraram infantilida-des junto ao berço da sua rainha e ofertaram-lhe uma manta azul forte.

– Mandámos fazer para ela – revelou Isabelle Westwood, a ma-triarca da família. – Não há qualquer motivo para que não o tenha, ainda que a vida dela vá ser curta.

Depois deles apareceram os Traverse, de Sealhead, e,  nessa mesma noite, os Arron e os valentes Vatros chegaram com poucos minutos de diferença para testemunharem silenciosamente o acon-tecimento. Os Vatros, ricos e bem-sucedidos graças ao reinado da rainha guerreira, trouxeram a Alta Sacerdotisa com eles da capital.

A parteira ajoelhou-se diante dela e revelou-lhe os nomes das ra-inhas. Assim que anunciou Illiann, a Alta Sacerdotisa juntou as mãos. – Uma Rainha Azul  – murmurou, aproximando-se da bebé. – Mal posso acreditar. Pensei que os mensageiros se tinham enga-nado. – A sacerdotisa baixou-se para pegar na criança, embalando-a nos braços cobertos pela longa túnica branca.

– Uma Rainha Azul elemental – acrescentou Isabelle Westwood, mas a Alta Sacerdotisa silenciou-a imediatamente com um olhar.

– A Rainha Azul pertence a todos. Não vai crescer numa casa elemental. Vai crescer na capital. Em Indrid Down. Comigo.

– Mas… – interrompeu a parteira. Todas as cabeças se voltaram para ela. Por momentos, tinham-se esquecido de que ela estava ali.

– Tu, parteira, abaterás as irmãs da rainha. E depois virás connosco. A parteira baixou a cabeça.

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A rainha naturalista foi deixada na floresta, à mercê da terra e dos animais. A pequena e condenada rainha oráculo foi afogada no riacho. Quando a rainha elemental foi posta na pequena barcaça para ser levada pelo rio até ao mar, já a Alta Sacerdotisa e a parteira choravam. Leonine, Isadora e Roxane. Devolvidas à Deusa que lhes dera Illiann para tomar a coroa em vez delas.

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Referências

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