CASA DE SAÚDE DO ÍNDIO E ARTICULAÇÕES COM A ENFERMAGEM A Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI) definida pela Portaria nº 254/2002-MS, estabelece o modelo de Atenção à Saúde do Índio pautado no interesse coletivo, visando o diagnóstico e tratamento das doenças, e, também, a prevenção de agravos e promoção à saúde1, em conformidade com a Lei n. 9.836/1999 de criação do Subsistema. A Casa de Saúde do Índio (CASAI), compõe este modelo de atenção, como órgão vinculado ao Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI), estabelecido em 1999, pela Fundação Nacional da Saúde (FUNASA).2
No Brasil existem 76 Casas de Saúde do Índio, localizadas em municípios de referência dos DSEI. As CASAI são subordinadas a Divisão de Atenção à Saúde Indígena (DIASI) dos DSEI, e tem por finalidade a prestação de serviços de saúde2, a saber:
Essas Casas de Saúde deverão estar em condições de receber, alojar e alimentar pacientes encaminhados e acompanhantes, prestar assistência de enfermagem 24 horas por dia, marcar consultas, exames complementares ou internação hospitalar, providenciar o acompanhamento dos pacientes nessas ocasiões e o seu retorno às comunidades de origem, acompanhados das informações sobre o caso. Além disso, as Casas deverão ser adequadas para promover atividades de educação em saúde, produção artesanal, lazer e demais atividades para os acompanhantes e mesmo para os pacientes em condições para o exercício dessas atividades.2:6
A Casa de Saúde do Índio é uma especificidade do subsistema de saúde indígena, que tem por objetivo principal atribuição em dar apoio aos pacientes e acompanhantes indígenas durante o tratamento de saúde nas unidades de referência do Sistema Único de Saúde (SUS), caracterizando o perfil de atuação dela como modelo misto de albergue e centro de atendimento no processo saúde-doença.3
No estado de Roraima, a CASAI tem por finalidade:4
Prestar atendimento diferenciado aos pacientes indígenas encaminhados pela equipe multidisciplinar dos polos-base para tratamento de saúde, quando não há resolutividade em área;
Prestar assistência médica, farmacológica, fisioterápica, nutricional e de enfermagem aos pacientes e acompanhantes até a alta; transferência para outra unidade hospitalar ou Tratamento fora de Domicílio - TFD;
Acompanhar os pacientes para consultas, exames subsidiários e internação hospitalar na assistência especializada;
Fazer a referência e contra referência com os DSEI e Rede do SUS articulando o retorno dos pacientes e acompanhantes aos seus domicílios, por ocasião da alta.
Promover atividades de educação em saúde, atividades artesanais, recreação e outras para os acompanhantes e pacientes;
Apoiar pesquisas e trabalhos científicos conforme diretrizes no Núcleo Indígena de Pesquisa da DIASI;
Proporcionar meios para reabilitação dos pacientes preservando e respeitando seus costumes;
Promover ações de humanização interculturais;
Proporcionar serviço de tradução quando necessário: na CASAI, no ambiente hospitalar, nas consultas especializadas e na Rede do SUS.
A CASAI do estado de Roraima está localizada no bairro Cauamé, Colônia Monte Cristo, na BR-174, a 13 Km do centro de Boa Vista, espaço situado ao lado do campus Cauamé da Universidade Federal de Roraima (UFRR), representado na Figura n.1.
Figura n.1– Fotografia aérea da CASAI-RR.5
Ao visualizar a figura n.1, ela evidência indícios do que podemos chamar de efeito de lugar.6 Este é entendida como:
O espaço é um dos lugares onde o poder se afirma e se exerce... os espaços arquitetônicos cujas injunções mudas se dirigem diretamente ao corpo ... são tanto mais importantes em razão de sua invisibilidade, da simbólica do poder e dos efeitos reais do poder simbólico.6:160-63
O indício do efeito de lugar apontado se refere a aproximação da CASAI a UFRR, o que se acredita não ter ocorrido ao acaso. Neste sentido, o que se traz aqui como indício é uma das formas de chamar a atenção que a localização do CASAI, provavelmente, não ocorreu de forma aleatória, mas sim, estratégica. Ademais, articulado ao indício a CASAI de Boa Vista-RR foi pioneira no país, fundada em 13 de junho de 1976, na Praça Barreto Leite, com intuito de oferecer aos indígenas assistência médica e de enfermagem, em local provisório.7
Em 1978, ela foi transferida para novo endereço - rua Barão do Rio Branco, no centro de Boa Vista-, mantendo o mesmo tipo de assistência, onde permaneceu até 1982.7 Visando melhorias para o atendimento em saúde para a população indígena, o Governo do Estado por meio do Decreto nº092 de 26/09/1982 doou terreno no bairro Cauamé, onde está localizada atualmente.8
Com a doação do terreno, a CASAI passou a ter espaço para receber e alojar os indígenas e seus acompanhantes referenciados da área para tratamento e cuidado de saúde de média e alta complexidade na Capital. À época, a gestão da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) construiu estrutura denominada, pelos indígenas, de Maloca (Casa de madeira roliça e cobertura de palhas)
Xapono em Yanomami, no qual eram ofertados serviços de enfermagem 24 horas, farmácia,
odontológico e laboratório. Além de cozinha, com dispensa e espaço para descanso para os funcionários.7
A criação da CASAI, ocorreu para atender as demandas dos serviços de saúde, que não poderiam ser resolvidos em área indígena, à época gerido pela FUNAI (de 1967 a 1999) que referenciava de área pacientes graves e de difícil diagnóstico para a CASAI.9
Nesse período, a FUNAI em parceria com o Ministério da Saúde atuava em área com os serviços de saúde focados em situações de: surtos epidêmicos; ações emergenciais e controle de nascimentos e óbitos; campanhas de vacinação, atendimento odontológico, controle de tuberculose e; outras doenças transmissíveis.2, 9, 10.
A CASAI de Boa Vista-RR, modelo de instituição de saúde semi-aberto, serve de apoio para os usuários referenciados de área indígena para cuidado e tratamento nos hospitais de referência do SUS da Capital do Estado (Hospital Geral de Roraima, Hospital Materno Infantil e Hospital da Criança); atende aos DSEI-Y (etnias Yanomami, Ye’kuana) e DSEI-Leste (etnias Macuxi, Wapichana,
Taurepang, Ingaricó, Wai wai, Patamona e Sapará). Além dos indígenas provenientes do estado do
Amazonas e dos países vizinhos, tais como: República Bolivariana da Venezuela e República Cooperativista da Guyana.11 A organização deste modelo de atenção à saúde dos indígenas está representado na figura n.2.
Figura n. 2 – Organização do DSEI e modelo assistencial.12
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Os serviços de saúde ofertados pela CASAI de Boa Vista-RR, vão além dos previstos na PNASPI2, o que a torna diferenciada das demais CASAI’s no país. A prestação de serviços de saúde está focada na atenção primária e secundária, atuando nos seguintes serviços: acompanhamento de Pré-natal de auto risco, exame ginecológico e clínico das mamas, Imunização, Tuberculose, Saúde Bucal, Análises Clínicas, Unidade de Vigilância e Epidemiologia em Saúde, Doenças Crônicas
Degenerativas, Educação em Saúde, Nutrição, Farmácia, Fisioterapia, Enfermagem, central de material e esterilização, consultas e tratamentos médicos e serviço social.4
Destacamos o papel da enfermagem, que atua 24 horas/dia, sob responsabilidade do Coordenador de Enfermagem que tem por uma de suas atribuições, elaborar escala dos serviços nos postos de enfermagem do DSEI-Y e DSEI-Leste e enfermarias, além dos serviços no setor de curativo, nebulização, esterilização, imunização, ginecologia e coordenação dos interpretes indígenas.4
Como consequência do Movimento da Reforma Sanitária na década de 1980, aconteceu na 8ª Conferência Nacional de Saúde, concomitantemente com a 1ª Conferência de Saúde Indígena (1986), como o tema: “Proteção à Saúde do Índio”. Este levou à reflexão e necessidade de se transferir a responsabilidade dos serviços de saúde para o Ministério da Saúde, atual órgão gestor do SUS, restando a FUNAI à prestação dos serviços de demarcação e controle da integridade territorial das terras indígenas.13
Várias mudanças aconteceram no período de 1982 a 1991, melhoria na estrutura física, nos serviços de saúde e no quadro de recursos humanos com a realização de concurso público pela Fundação Nacional de Saúde (FUNASA)7, que passou a assumir a administração da CASAI em 1999 através do Decreto nº 3.156/99.
A partir do ano de 2002, a CASAI de Boa Vista recebeu novos investimentos e aquisições, como a construção do bloco de isolamento para pacientes portadores de doenças infectocontagiosas e a construção do Centro de Nutrição e Dietética. Em fevereiro de 2005, a CASAI foi contemplada com a construção de um refeitório e lavanderia industrial para atender a demanda crescente dos usuários. Para tanto, foi construído o Centro Social e Cultural, área para necrotério, blocos de enfermaria para atender os indígenas do DSEI-Y e DSEI-Leste de Roraima, entre outras melhorias.11 Mediante ao exposto, com a demanda crescente dos serviços de saúde prestados pela CASAI-RR, acreditamos ser o momento de construir a narrativa da trajetória deste espaço institucional, onde cuidados são prestados, mas cabe os questionamentos: Como se deu a trama para a materialização da CASAI, para além dos efeitos produzidos pelos dispositivos legais? Quais foram as alianças simbólicas para a criação da instituição? Quais foram as estratégias empreendidas para a implementação da CASAI? Qual o efeito simbólico com a criação e implementação da CASAI?
REFERÊNCIAS
1. GARNELO L. Política de Saúde dos Povos Indígenas no Brasil: Análise Situacional do Período de 1990 a 2004. Porto Velho, RO: Edit. Centro de Estudos em Saúde do Índio de Rondônia, 2004.
2. BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria n. 254 de 31 de janeiro de 2002. Aprovar a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas. Diário Oficial da União, Brasília-DF, de 06 de fevereiro de 2002, nº 26, Seção 1, p. 46.
3. GARNELO L. Política de Saúde Indígena no Brasil: notas sobre as tendências atuais do processo de implantação do subsistema de atenção à saúde. In: GARNELO, Luiza; PONTES, Ana Lúcia (Orgs.). Saúde Indígena: uma introdução ao tema. Brasília: MEC-SECADI, 2012. p. 18-59.
4. CASAI-RR, Casa de Saúde do Índio de Roraima. Relatório Anual 2013/CASAI-RR. Elaborado pelo Coordenador em Saúde da CASAI-RR. Localizada no bairro Cauamé, Colônia Monte Cristo - BR 174. Fone/Fax: (95) 3627 1825. Entregue a Chefia da CASAI-RR no dia 29 de janeiro de 2014.
5. Google Maps, 2016. Acessado em: 21/09/2016 Disponível em:
https://www.google.com.br/maps/place/Boa+Vista+-+RR/@2.8676642,-60.7088498,366m/data=!3m1!1e3!4m5!3m4!1s0x8d930671dfccf45b:0x5a5220c771594d34!8m2! 3d2.8235023!4d-60.6758606
6. BOURDIEU, P. Efeito de lugar. In: A Miséria do mundo. Petrópolis: Vozes, 1997.
7. HAYD RLN; OLIVARES AIO; FERREIRA MLS; LUITGARDS-MOURA JF. Um olhar sobre a saúde indígena no estado de Roraima. Mens Agitat, Volume III, nº 1, 2008, p. 89-98. 8. BRASIL - Território Federal de Roraima. Decreto nº092 de 26 de outubro de 1982 (E). Boletim Oficial, ano XXXVI, nº 192, Boa Vista/RR, 29/10/1982, pág. 13 e 14.
9. BERNARDES AG. Saúde indígena e políticas públicas: alteridade e estado de exceção. Interface, v. 15, n. 36, p. 153-164, jan./mar., 2011.
10. GARNELO L; PONTES AL. (orgs.). Saúde indígena: uma introdução ao tema. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão; UNESCO, 2012. (Coleção educação para todos; v. 38. Série Vias dos Saberes; n.5). 11. BRASIL. Secretaria Especial de Saúde Indígena. Casa de Saúde do Índio de Roraima - CASAI-RR, 2005.
12. BRASIL. Secretaria Especial de Saúde Indígena – SESAI, 2012. Acessado em: 21/09/2016.
Disponível em: https://www.google.com.br/search?q=Imagem+organiza%C3%A7%C3%A3o+do+DSEI+e +modelo+assistencial&espv=2&biw=1517&bih=681&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved= 0ahUKEwjuk9vf9OXPAhUKXR4KHTsMBpcQ_AUIBigB&dpr=0.9#imgdii=_5t8X02ZQKe P-M%3A%3B_5t8X02ZQKeP-M%3A%3BQaemN4tQkWr8qM%3A&imgrc=_5t8X02ZQKeP-M%3A
13. VERANI CBL. A Política de Saúde do Índio e a Organização de Serviços no Brasil. Boletim do Museu Paraense Emilio Goeldi. Zoologia, Belém-Pará, v. 1, n.b, p. 143-164, 1999.
Autores: Raphael Florindo Amorim
Enfermeiro. Mestrando - Programa de Pós-Graduação Mestrado em Enfermagem da UNIRIO Professor e Coordenador do Curso de Enfermagem da UFRR E-mail: [email protected]
Dr. Fernando Porto
Enfermeiro e Historiador. Dr. em Enfermagem com pós-doutoramento pela USP.Líder do grupo de pesquisa LACUIDEN. Presidente da Academia Brasileira de Enfermagem (ABRADHENF). Bolsista FAPERJ. (Orientador). E-mail: [email protected]
Como citar este post (Vancouver adaptado): AMORIM RF, PORTO F. Casa de Saúde do Índio e articulações com a Enfermagem. [internet]. Rio de Janeiro (BR); 2016 [Acesso em: dia mês (abreviado) ano]. Disponível em: https://journaldedados.wordpress.com.br (completar com dados do site).