Destaque Depec-Bradesco

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Texto

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Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos

O recrudescimento da pandemia levanta dúvidas quanto ao ritmo de retomada da atividade econômica. As preocupações sobre as novas variantes de Covid-19 e o aumento do número de casos,

óbitos e taxa de ocupação de leitos de UTI desde o final do ano passado adicionaram incertezas ao cenário neste curto prazo. Nas últimas semanas, aumentaram as restrições à mobilidade em algumas localidades, incluindo suspensão de algumas atividades em parte delas. Diante desse cenário, e levando em consideração os indicadores conhecidos até agora, esperamos, por ora, uma queda em torno de 0,5% para o PIB deste primeiro trimestre. Para o restante do ano, o avanço da vacinação e a consequente reabertura gradual das atividades devem dar continuidade à recuperação iniciada em meados do ano passado, com o PIB crescendo 3,6% em 2021.

Os primeiros sinais de arrefecimento da atividade já foram vistos em dezembro, no comércio varejista e em serviços. Especificamente sobre o comércio, um conjunto bastante amplo de vetores

parece explicar a intensa retração em dezembro e a queda esperada em janeiro, como: (i) menor mobilidade; (ii) a proximidade de saturação do consumo de alguns segmentos, como materiais de construção e móveis e eletrodomésticos; (iii) redução do valor do auxílio emergencial e, principalmente, maior cautela dos consumidores com a proximidade de seu fim e (iv) mudança na sazonalidade do consumo de alguns bens, com antecipação do 13º salário, por exemplo. Os indicadores conhecidos, em conjunto, apontam para queda adicional da atividade varejista no início deste ano, com alguma recuperação em fevereiro, sem compensar totalmente as quedas anteriores. As consultas ao SCPC divulgadas pela ACSP (uma proxy de atividade varejista paulista), por exemplo, recuaram mais de 7% em relação a dezembro e subiram apenas 2,4% no mês passado. Em março, poderemos ver novo resultado negativo, diante das maiores restrições ao setor.

Gráfico 1: Indústria, varejo e serviços

Dessazonalizados, 100 = 2014

Fonte: IBGE, Bradesco

Em relação aos serviços, o efeito das restrições tem sido sentido nas atividades mais dependentes da circulação de pessoas, como transportes, e, principalmente, aqueles prestados às famílias.

Assim como no comércio, a manutenção ou o aperto adicional das restrições em algumas regiões se traduziu em piora da mobilidade em janeiro e pode levar a uma nova redução em março, intensificando a perda de tração do setor. O comportamento dos serviços prestados às famílias na região Sul nos últimos meses de 2020 é bastante ilustrativo. Com a piora das curvas de Covid-19, a região intensificou as medidas de distanciamento social mais cedo que as demais localidades, resultando em queda dessas 10 de março de 2021

Destaque Depec-Bradesco

Considerações sobre a atividade no curto prazo

Ariana Zerbinatti Myriã Bast Indústria Varejo (ampliado) Serviços 62,0 67,0 72,0 77,0 82,0 87,0 92,0 97,0 102,0 14 15 16 17 18 19 20 21

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atividades já a partir de novembro, o que não foi observado em regiões relativamente mais abertas. Adicionalmente, a piora da pandemia tende a impactar também serviços mais difíceis de serem mensurados e monitorados, como saúde e educação. Houve postergação e cancelamento de procedimentos eletivos, por exemplo, bem como adiamento de parcela de novas matrículas no ensino superior.

Gráfico 2: Serviços prestados às famílias – por região

Dessazonalizados, 100 = 2014

Fonte: IBGE, Bradesco

A redução da mobilidade, inclusive, parece se sobrepor a outros fatores restritivos como explicação da perda de tração no comércio e em serviços. Um exemplo disso é o caso de Manaus¹,

em que os gastos com varejo e serviços prestados às famílias mostraram queda muito intensa no começo do ano, especialmente em janeiro, enquanto que, no restante do país, o desempenho dos segmentos foi de ligeira contração ou de estabilidade, a despeito da redução dos estímulos fiscais, com destaque para o auxílio emergencial. Na mesma direção, nossos dados proprietários mostram que, nas regiões em que houve aumento de medidas de distanciamento social, a desaceleração da atividade foi mais intensa.

Gráfico 3: Mobilidade e atividade

Dessazonalizados, 100 = 2014

Fonte: IBGE, BCB, Bradesco

1 Para mais detalhes ver o Boxe do último Relatório Regional do BCB, “ Comparação de indicadores de atividade econômica de alta frequência do

Amazonas”, disponível em: https://www.bcb.gov.br/content/publicacoes/boletimregional/202102/br202102b2p.pdf

20,0 40,0 60,0 80,0 100,0 120,0

fev/20 mar/20 abr/20 mai/20 jun/20 jul/20 ago/20 set/20 out/20 nov/20 dez/20

Serviços prestados às famílias

Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste

-45 -38 -31 -24 -17 -10 -3 4 -15 -13 -11 -9 -7 -5 -3 -1 1

fev/20 mar/20 abr/20 mai/20 jun/20 jul/20 ago/20 set/20 out/20 nov/20 dez/20 jan/21 fev/21

Título do Gráfico

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A queda generalizada dos índices de confiança também aponta para moderação neste primeiro trimestre. Ainda que tenhamos poucos dados efetivos relativos ao início deste ano, todos os segmentos

registraram retração na média dos últimos três meses, movimento que refletiu, majoritariamente, a piora da avaliação da situação corrente de empresários e consumidores, em linha com a menor mobilidade da população.

Gráfico 4: Índices de Confiança

Setores e consumidor, dessazonalizados

Fonte: FGV, Bradesco

O ciclo de recomposição de estoques tende a impulsionar a indústria², mas a insuficiência de insumos e as paralisações podem alongar tal processo. Os estoques se elevaram marginalmente nos

primeiros meses do ano, mas seguem bastante abaixo da média histórica. Em janeiro, vimos uma retração da produção de bens duráveis, justamente a categoria mais afetada por paralisações, majoritariamente pela insuficiência de insumos, e, em menor medida, pelas restrições à mobilidade (com destaque para Manaus). O percentual de empresas que reportam falta de matérias-primas se elevou do final do ano passado para o começo deste, mas tal aumento se concentrou em alguns segmentos (como automotivo, produtos de metal e limpeza e perfumaria).

A forte elevação de importações de bens de capital e de intermediários está em linha com o observado em ciclos anteriores, nos quais a recomposição dos estoques se dá com continuidade do crescimento da produção, utilizando insumos importados. Dessa forma, acreditamos que a

normalização dos estoques ocorrerá ao longo do primeiro semestre. Nesse contexto, os preços de bens industriais seguirão como ponto de atenção para a inflação ao consumidor nos próximos meses, diante da desvalorização cambial e da alta dos preços de matérias-primas.

Gráfico 5: Indústria

Estoques Falta de insumos como fator limitante

Fonte: IBGE, Bradesco

50,0 60,0 70,0 80,0 90,0 100,0 110,0 120,0 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 Sondagens - Agregado

Indústria Serviços Comércio Consumidor Construção

Nível neutro

2Para maior detalhamento, ver Destaque Depec de 02 de dezembro de 2020:

http://economiaemdia.com.br/BradescoEconomiaEmDia/static_files/pdf/pt/publicacoes/destaque_depec/DestaqueDepec_02_dez_20.pdf 20,0 0 5 10 15 20 25 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 Título do Gráfico 105,9 95,9 90,0 95,0 100,0 105,0 110,0 115,0 120,0 125,0 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 Título do Gráfico

Média Histórica Nível de estoques estoques invertidos

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Com o avanço da vacinação e flexibilização das medidas de distanciamento social, deveremos ver avanço da atividade a partir do segundo trimestre. A vacinação do grupo prioritário até o final do

segundo trimestre, se não houver atrasos adicionais, tende a reduzir a pressão sobre os sistemas de saúde, como visto em outros países. Assim, deveremos ver uma gradual reabertura das atividades, que deve ser intensificada no segundo semestre.

Nesse cenário, o mercado de trabalho, com destaque para o emprego informal, deve ser favorecido. No último semestre do ano passado, assistimos a uma recuperação bastante intensa do

mercado de trabalho formal, cujo ritmo de contratação líquida encerrou 2020 superando o dobro do observado nos meses que precederam a pandemia. Já o emprego informal³, mais relacionado à atividades dependentes de aglomeração, mostrou aceleração mais evidente apenas no quarto trimestre, refletindo as reaberturas no período, principalmente dos serviços prestados às famílias. Essa melhora da ocupação, mais intensa que a redução do desalento, até levou a pequenas quedas da taxa de desemprego em novembro e dezembro. Esperamos que a taxa permaneça em patamares elevados nos próximos meses. A retomada da atividade, especialmente do setor de serviços, deve contribuir para criação de vagas ao longo do ano. Como comentamos em publicações anteriores, as medidas mais simples de produtividade sugerem que a economia estaria cerca de 8% mais produtiva em relação ao período pré-pandemia, o que nos parece muito intenso, a despeito dos ganhos com novas tecnologias. Assim, acreditamos que haverá uma recuperação do emprego ao longo do ano, com criação de cerca de três milhões de vagas. De modo geral, o emprego tende a se recuperar mais lentamente do que a atividade, mas no caso desse último ciclo, por conta das restrições à mobilidade, a defasagem parece ter aumentado, o que explicaria esse aumento “artificial” das métricas de produtividade.

Gráfico 6: Emprego por tipo de ocupação (*)

Fev/20 = 100

(*) Os dados de emprego privado com carteira assinada têm divergido das informações disponibilizadas pelo Caged, que têm apontado para um quadro mais benigno do emprego formal.

Fonte: IBGE, Bradesco

O uso da poupança formada ao longo de 2020 e os novos pagamentos do auxílio emergencial também deverão impulsionar a retomada nos próximos meses. De acordo com as nossas estimativas,

a poupança das famílias formada ao longo de 2020 foi quase 60% superior à registrada no ano anterior, e, tal incremento, caso totalmente gasto, seria capaz de suavizar a retirada dos estímulos relacionados à renda. Há sinais, ainda que muito preliminares, de que essa poupança começou a ser gradualmente reduzida: os dados de caderneta de poupança mostraram saída líquida de recursos em janeiro 40% acima 3 Privado sem carteira assinada e, principalmente, conta própria.

88,9 82,9 78,1 104,2 87,7 94,9 65 70 75 80 85 90 95 100 105 110

fev-20 mar-20 abr-20 mai-20 jun-20 jul-20 ago-20 set-20 out-20 nov-20 dez-20

Ocupação

Privado com carteira Privado sem carteira Doméstico Público Empregador Conta própria

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da verificada no mesmo período do ano passado (cerca de R$ 6 bilhões), em termos reais, enquanto os agregados monetários sugerem que o auge da acumulação de recursos foi no final de 2020. Além disso, uma nova rodada de pagamentos do Auxílio Emergencial tende a sustentar parcela do consumo, embora deva ter efeito menor que o observado no ano passado, seja porque sua extensão deva ser menor, seja porque algumas categorias de consumo de bens parecem perto de uma saturação, como móveis e eletrodomésticos e materiais de construção.

Gráfico 6:Proxyde poupança das famílias (*)

Trimestral, em R$ bilhões

(*) Diferença entre o consumo das famílias e a soma da massa salarial , transferências de renda e concessão de crédito.

Fonte: IBGE, Bradesco

Adicionalmente, a retomada da economia global constitui mais um fator favorável à recuperação brasileira. O cenário internacional tem se tornado mais positivo, diante da redução dos casos e óbitos e

avanço da vacinação, principalmente nos países desenvolvidos. A nova rodada de pacotes fiscais nos Estados Unidos e na Europa, além da sinalização de que a política econômica deverá permanecer estimulativa neste ano, complementam o ambiente mais construtivo no exterior. Nossos ciclos econômicos são bastante correlacionados com os globais, a despeito de nossa economia ser relativamente fechada, e devemos nos beneficiar, em alguma medida, da aceleração do crescimento internacional e da elevação dos preços de commodities.

Em resumo, o recrudescimento da pandemia deve impactar negativamente o PIB deste primeiro trimestre, mas a atividade deve voltar à sua trajetória de recuperação no restante do ano. A

despeito da piora da doença vista nos últimos meses e seu impacto sobre a mobilidade e a atividade econômica, os fundamentos para o crescimento neste ano seguem presentes. Não podemos descartar anúncios de novas medidas de restrição e ampliação da extensão das que já foram anunciadas, mas, por ora, a perda de tração da economia nos parece menos intensa do que a registrada no ano passado. O

avanço de algumas tecnologias, como a forte ampliação do e-commerce, também tende a mitigar o

impacto negativo observado no ano passado. Por fim, as curvas de contágio, mortes e ocupação de leitos tendem a desacelerar com a vacinação e com as próprias medidas de intensificação de distanciamento social, tornando a queda do PIB transitória, circunscrita aos primeiros meses do ano.

0 50 100 150 200 250 300 350 400 ju n-13 de z-13 ju n-14 de z-14 ju n-15 de z-15 ju n-16 de z-16 ju n-17 de z-17 ju n-18 de z-18 jun-19 de z-19 ju n-20 de z-20 Título do Gráfico

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Equipe Técnica

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Diretor de Pesquisas e Estudos Econômicos Fernando Honorato Barbosa

Economistas Ariana Stephanie Zerbinatti / Constantin Jancsó / Ederson Luiz Schumanski /

Fabiana D’Atri/ Felipe Wajskop França / Myriã Tatiany Neves Bast / Priscila Pacheco Trigo / Renan Bassoli Diniz / Robson Rodrigues Pereira / Thiago Coraucci de Angelis / Thomas Henrique Schreurs Pires

Assistentes de pesquisa Ana Beatriz Moreira dos Santos

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Referências

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