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AS FLORES DE PLÁSTICO

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Academic year: 2021

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PREMIO ESTIMULO CURTA-METRAGEM 2018

(X) Ficção ( ) Animação ( ) Documentário Nome do Projeto: As Flores de Plástico

PSEUDÔNIMO do proponente: Sorelialism

AS FLORES DE PLÁSTICO

pseudônimo do proponente Sorelialism

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1 1. – OBJETO

1.1 – SINOPSE

Num período indefinido da workaholic São Paulo, Fábio (27) vive um relacionamento em crise com Ingrid (24) e o conflito de uma paixão reprimida por Maria (24), sua colega de trabalho. Mas o mergulho nesse triangulo amoroso se torna uma busca por amor em vidas pautadas pela eficiência e pragmatismo, que põe em cheque o quanto somos humanos e o quanto somos máquinas.

1.2 – POR QUE FLORES DE PLÁSTICO?

O curta-metragem As Flores de Plástico é uma obra de ficção, que se insere no gênero de Ficção Cientifica, e mais especificamente entre as obras que abordam diretamente o impacto que estes temas têm nas relações humanas, como Ela (Her, 2013) e Ex-Machina: Instinto Artificial (Ex-Machina, 2014), que acabam por ser classificadas também como Drama e Fantasia. Estas obras, no entanto, conservam o que há de mais essencial nas tramas de ficção cientifica, que é um olhar sobre o progresso pelo viés de um determinismo tecnológico.

Para os filósofos do determinismo tecnológico – sendo o mais notório deles Marshall MacLuhan, que cunhou o termo Aldeia Global e vislumbrou um modelo de redes de informação que previu a internet trinta anos antes de seu surgimento – os acontecimentos são decorrentes de condições prévias, ou seja, para todo acontecimento x há um acontecimento y dele decorrente. Neste caso, o surgimento de novas tecnologias/artefatos é que desencadeariam as mudanças pelas quais passam a sociedade ao longo da história. Logo, temos a figura do futurólogo, autodenominado futurista, pois se há um resultado determinado, o conhecimento do acontecimento x irá permitir a previsão do y decorrente (HELLER, 2014).

Em As Flores de Plástico, Fábio é um jovem financeiramente bem sucedido, mas com a vida afetiva em crise. Ele tem dificuldades em aceitar o amor de Ingrid,

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2 embora pareça correspondê-lo. Por outro lado é completamente apaixonado por Maria, sua colega de trabalho, amor que não pode se realizar já que as relações amorosas entre humanos são uma grave afronta aos bons costumes desta sociedade tecno-normativa.

Em uma realidade em que o peso do sucesso individual não mais permite que se dedique tempo e energia na tentativa de manter a equidade nos relacionamentos amorosos – depois de a mulher ter conquistado sua independência, deixando de ser um alicerce ao sucesso masculino – o mais alto nível de automação das relações foi alcançado, tornando o afeto humanista tão obsoleto quanto distante: os sexaroides. Androides do amor, cuja única motivação existencial é amar e servir ao seu proprietário.

O filme é batizado pelo refrão da música Flores, do grupo de rock Titãs, que em algumas interpretações difundidas na internet, supostamente versa sobre um suicídio, mas que para este enredo, no entanto, interessa a provocação feita no refrão. Em uma canção que aborda o sofrimento o refrão ironicamente vaticina que as flores de plástico não morrem.

Há aqui uma rica sugestão, que instiga reflexões sobre as quais se concebeu este projeto audiovisual, como uma espécie de homenagem a canção.

As flores de plástico são a negação da ação do tempo que aflige o sofrimento pela deterioração, pela morte. A negação da morte, no entanto, também é a negação da vida, o enclausuramento da beleza em prol da perenidade.

Ou, se não é uma negação da vida, é um elogio a outra forma de vida, a vida artificial.

1.3 – LIQUIDEZ E AUTOMAÇÃO, A TERCEIRA ONDA

Para além da questão dos sexaroides já existentes – a canadense Aiko ou a estadunidense RealDoll, por exemplo – o que interessa ao curta-metragem não está centrado no debate ético sobre esse produto propriamente, mas nas relações humanas num cenário pós-industrial, de laços frágeis que se criam e se desfazem com a facilidade automatizada do botão Adicionar aos Amigos do Facebook. É o amor liquido de que fala Zygmunt Bauman em seu livro mais vendido no Brasil, um

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3 amor pragmático, adestrado pela facilidade de desconexão, apoiado na automatização do afeto, como em lembretes digitais que nos informam quais amigos fazem aniversário hoje. É o amor possível numa existência atordoada pela velocidade e dinâmica da vida contemporânea, dos constantes e diversificados estímulos de consumo, da obsolescência e descartabilidade dos produtos e das pessoas como produtos.

E por isso, apesar das similaridades com outras obras da ficção cientifica, de Isaac Asimov à Ridley Scott, de Ela, do Spike Jonzi, à A. I. – Inteligência Artificial do Steven Spilberg, há uma mudança tão sensível quanto radical. Ao contrario destas obras não se trata de robôs que adquirem consciência, se rebelam e buscam seus direitos, com sua comovente humanidade, ou seja, da tecnologia que se humaniza. Em As Flores de Plástico os robôs não se humanizam para além do que foram programados, sempre coadjuvantes prestando apoio a nossa existência autocentrada. Aqui, são os humanos, em tempos líquidos, que se desumanizam.

Com sua premissa fantástica, o curta-metragem propõe um olhar sobre a fragilidade dos relacionamentos pós terceira onda econômica, marcados pela pressão por alta eficiência que resulta numa demanda cada vez maior por formação acadêmica e profissional, que avança sobre o tempo ocioso, e por isso solicita respostas no nosso padrão de consumo recreativo. E, retomando o que foi dito anteriormente a respeito do caráter de ficção cientifica, há aqui, neste último ponto exposto, uma noção de retroalimentação que nega a ideia vulgar de determinismo tecnológico e transporta a concepção do curta-metragem para uma ficção cientifica com uma abordagem menos interessada em futurologia especulativa.

A trama se passa entre os prédios da cosmopolita São Paulo, uma cidade erigida sob o signo do capital e que oferece como anestesia para a pressão pelo cumprimento de metas, uma vida noturna pulsante.

A época retratada é incerta, um futuro próximo intoxicado por tecnologia e moda do limiar do século XX. Um não lugar no tempo onde o futurismo não se evidencia pelo fetichismo tecnológico servido como prato principal, mas sim pelo impacto nas relações humanas, remetendo ao exercício de gênero proposto por Jean-Luc Godard em filmes como Il Nuovo Mondo (1963), Alphaville (1965) e Antecipation ou L’Amour en l’an 2000 (1967), ou na obra La Jetée (1962) de Chris Maker.

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4 Em Antecipation ou L’Amour en l’an 2000, um viajante vindo da Galaxie 4 visita o planeta Terra interessado em conhecer o amor e para tanto lhe é oferecida, pelo governo, uma prostituta, a qual recusa, pois ela não fala. A segunda, interpretada por Anna Karina, apenas recita poemas, mas não se desnuda. No curta-metragem sessentista, Godard já trabalha a noção de mercadoria nas relações humanas, ao abordar a prostituição. Mas não se limita a isso, para retratar nosso século XXI, suas personagens femininas, até por suas limitações comportamentais extremas, são robotizadas, sem que o filme se importe em afirmar serem sexaroides ou de fato prostitutas humanas desumanizadas. Importante notar, que já aqui a mercantilização do afeto desumaniza o corpo consumido mas também o que o consome, o viajante de outra galáxia que desconhece o amor e que ao fim do filme irá descobrir, junto com a garota que recita poemas, o beijo.

Também em As Flores de Plástico o high concept está a serviço de um comentário sobre o fenômeno que se desenha com o avanço da pós-modernidade, uma proposição que instiga a reflexão sobre possíveis caminhos na busca de compreender este momento histórico. Logo, não se fazem necessários efeitos especiais que evidenciem a natureza robótica de alguns de seus personagens, assim como nenhum casal conhece seus órgãos internos e nenhum consumidor está acostumado a abrir e revelar o interior de seus eletrônicos.

O curta-metragem é uma ficção cientifica dramática de caráter social, em sua abordagem franca e crua, remetendo a este cinema de gênero de Jean-Luc Godard, Chris Maker, Lynn Hershman Leeson ou mesmo Charlie Brooker, criador e roteirista da série Black Mirror. O high concept “como seria uma sociedade onde o amor é mais um serviço para consumo?” é apenas o gatilho para abordarmos poeticamente seus personagens em busca do sucesso individual, sem tempo e expertise para lidar com os desafios apresentados em uma vida a dois, atingidos por mudanças comportamentais que podem ser reflexos de uma geração que cresceu em ambiente digital, onde o início e termino de uma relação humana pode ser tão simples quanto apertar um botão de Amizade ou Desfazer Amizade num smartphone.

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5 1.4 – TECNOSEXUALIDADE

Se para os deterministas tecnológicos a evolução tecnológica é o principal propulsor das mudanças sociais na história, desconsiderando o peso que tal afirmação põe sobre o papel das tecnologias – o que alguns intelectuais como Raymond Williams (PEREIRA, 2006) já fazem – o fato é que a sentença expõe uma relação indissociável na evolução da sociedade, seja qual for seu grau de impacto. E aqui se faça a ressalva de que evolução está sendo usado no sentido de transformações em curso e não de aprimoramento seguindo uma linha de desenvolvimento.

O fundo de qualquer tecnologia ou artefato é tanto a situação que o origina, quanto a totalidade do ambiente(médium) de serviços e desserviços que ele coloca em ação. Esses efeitos colaterais ambientais impõem-se, quer queira, quer não, como uma nova forma de cultura. [PEREIRA apud MACLUHAN, 2006, p. 10]

No campo da sexualidade podemos vislumbra-la em cenários tão diversos quanto nos serviços de telesexo – uma experiência sexual propiciada pelo advento da telefonia – ou na biotecnologia, com a popularização do uso do Viagra.

Com a internet, dois fenômenos chamam mais a atenção: a pornografia, presente em muitas mídias, mas que só agora, com sua difusão facilitada através da rede, ganha status de debate sobre saúde pública referente ao vicio, e em outra via a popularização dos aplicativos de relacionamentos/encontros, como o Tinder, intermediando as relações humanas a tal ponto que o amor deixa de ser um evento casual do dia-dia para se tornar resultado de serviços de catálogos automatizados com potenciais parceiros sexuais e amorosos em que a efetivação depende de uma interface que propõe uma espécie de jogabilidade, ou seja, a gameficação do encontro de duas pessoas.

Em As Flores de Plástico a tecno-normatividade substituiu a heteronormatividade de hoje, e levou ao limite a noção de consumo de serviços da terceira revolução econômica.

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6 1.5 – ARGUMENTO

É manhã, FÁBIO, 27, acorda e ao seu lado, INGRID, 24, está em vigília. Ela quer entender qual erro cometeu para que o relacionamento deles chegasse neste ponto. Indisposto a encarar o amor e tristeza dela, Fábio é poupado pela campainha que toca.

À porta está ARLINDO, 50, um técnico de uma loja de eletrônicos, que veio atender a uma solicitação de Fábio. Com um clima pesado na casa, o técnico só quer entender qual o problema.

Em sua rotina no trabalho, Fábio é próximo de MARIA, 24, sua melhor amiga, companheira e confidente, por quem ele nutre uma paixão secreta. Fábio gostaria de leva-la para a praia São Valentino, o paraíso que sonha em conhecer, mas apesar do feriado prolongado à vista, Maria não tem folga de suas preocupações profissionais e acadêmicas. Ainda assim, ela aceita ir a um encontro da equipe do trabalho em um karaokê, onde, entre a agitação noturna colorida pelo artificial do neon, a dupla vai revelar seus olhares sobre aspectos da vida.

Mais tarde, a festa continua no apartamento de Fábio, mas sem Maria, que partiu cedo. Sem ela, Fábio sente-se deslocado mesmo entre seus amigos. A noite é preenchida pela sua fixação pela cantora pop JUNE, 24, e questionamentos inoportunos sobre sua opção por uma vida solitária.

Com estes sentimentos o atormentando, Fábio encontra coragem suficiente para declarar-se a Maria na volta ao trabalho depois do feriado prolongado. É perceptível que a falta de coragem dele não se apoia apenas na sua timidez, mas na estranha sensação de um amor proibido, que chega ao seu limite na repulsa de Maria sobre sua declaração.

Aqui, um elo se rompe entre eles.

Estamos de volta ao apartamento, ainda é a mesma manhã em que Arlindo, o técnico da loja que atende Fábio, vem responder ao seu chamado. O que acompanhamos neste intervalo, entre a chegada do técnico e o ponto em que

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7 estamos agora, nada mais é do que a explicação do motivo para a visita. Em uma sociedade tecnosexual, Fábio ousou amar outro ser humano, algo que ganhou o status de uma parafilia, desde que os relacionamentos foram aperfeiçoados com a aquisição de sexaroides, os robôs que substituíram o par humano dos relacionamentos em prol de uma relação unidimensional potencializadora da produtividade e sucesso individual do humano a qual pertence.

Com a ajuda de Arlindo, Fábio, proprietário de Ingrid, pôde reavaliar sua noção de amor verdadeiro e amor artificial, e aceitar o amor dela como alicerce para sua vida, levando a uma conciliação em seu relacionamento.

Maria, sozinha, acaba por visitar a praia São Valentino, talvez revivendo memórias do passado. Ao admirar o horizonte, um casal que brinca na areia lhe chama a atenção. Observando de longe, Maria reconhece Fábio acompanhado de uma jovem (Ingrid) com quem forma um casal. Um casal feliz.

2 – ESTRATÉGIA DE ABORDAGEM

2.1 – ABORDAGEM

A obra se realiza num cinema de dialogo com determinadas tendências contemporâneas, como o cinema de fluxo, que embora não se associe diretamente, é próxima em sua abordagem direta, uma recusa a se apoiar no maneirismo que poderia resultar em distração que distancia o discurso ao evidenciar o gênero ou o autor. Traz igualmente, tomando este direcionamento, uma mise-en-scène menos estilizada, em que seu simbolismo se dá menos em uma disposição artística controladora dos espaços e respectivamente dos elementos que o ocupam e mais na articulação dos signos do contemporâneo às quais a evolução narrativa vai se associando.

Neste sentido podemos citar o cineasta Eric Rohmer, uma proposta de relação um pouco mais clássica com a linguagem, se posto como referencial o

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8 cinema moderno, fruto de rupturas que talvez tenham tido seu apogeu nos anos sessenta, mas que são também profundamente marcadas pelo maneirismo setentista e oitentista, que formou a mais popular noção de bom gosto da sétima arte sobre figuras como Scorcese e Kubrick, para citar poucos. Ao contrario destes, aproximando-se mais a Rohmer, e em partes nas tendências de fluxo de cineastas como Gus Van Sant, As Flores de Plástico pretende fugir de um sentido de certo modo moralista, daquele que é capaz de articular uma realidade e lhe orquestrar num sentido rígido e direcionado.

O escritor ainda tem autoridade moral para inventar um mundo auto-suficiente e isolado, para supervisionar seus personagens como um examinador, conhecendo todas as questões de antemão? Pode deixar de fora tudo aquilo que prefere não compreender, o que inclui suas próprias motivações, preconceitos e psicopatologia? (BALLARD, 2007, p. 8)

Mesmo em seu final provocativo, em razão de sua ambiguidade discursiva, o curta-metragem retira o público de um lugar-comum e cômodo da ficção cientifica industrializada que critica o contemporâneo, contaminada por um forte viés tecnofóbico, a partir de uma visão externa, do alto de sua superioridade moral, fazendo-se incapaz da autocrítica proposta por J. G. Ballard ao batizar com seu próprio nome o protagonista de Crash, obra de grande importância tanto para a literatura cyberpunk como para a literatura contemporânea como um todo.

Eu pessoalmente sinto que o papel do escritor, sua autoridade e sua licença para agir mudaram radicalmente. Sinto que, num certo sentido, o escritor não sabe mais coisa alguma. Não tem postura moral alguma. (...) Seu papel é o do cientista que se defronta, seja num safári, seja em seu laboratório, com um terreno ou um objeto desconhecido. Tudo o que pode fazer é desenvolver várias hipóteses e testá-las em face dos fatos. (BALLARD, 2007, p. 8)

Posto aqui o ponto em que a obra formalmente se dissocia, a principio, com o exercício de gênero – em prol de um cinema mais aberto em sua relação com o público, que ao mesmo tempo em que se pretende uma abordagem mais direta referente ao seu discurso rejeita a autossuficiência narrativa num sentido moralizador – faz-se igualmente oportuno demonstrar em que ponto a obra não rejeita o gênero, muitas vezes entendido como um cinema menor, em desacordo com um determinado bom gosto encarnado em certa parcela dos críticos.

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9 Cabe, além dos já citados Jean-Luc Godard e Chris Maker, no que se refere ao exercício do gênero, trazer a figura de Kiyoshi Kurosawa, diretor e roteirista japonês reconhecido em festivais ao redor do mundo, já homenageado em retrospectiva na Mostra Indie, da Zeta Filmes. O cineasta encontrou seu lugar num cinema autoral de gênero, eventualmente se renovando em sua abordagem, com trabalhos circulando entre o drama, comédia, ação, ficção cientifica, mas principalmente o terror. Ele, diferente de alguns cineastas menos experientes do atual pós-terror, não rejeita o rotulo, se assumindo um artista de gênero, ao mesmo tempo em que sua arte não está limitada criativamente e discursivamente por ele.

Dele, As Flores de Plástico herda principalmente a articulação dos signos reconhecíveis do gênero em nome de um cinema existencialista, que tanto rejeita maneirismos como recusa a dilatação do tempo sem propósito narrativo ou mesmo conceitual que muitas vezes têm sido uma fraqueza do autoral contemporâneo, inclusive presente em parte da cinematografia nacional, em obras que se utilizam da tendência de slow cinema para forçar uma noção de arte elevada ao resultado de uma concepção audiovisual pouco aprofundada.

Antes, optamos por uma abordagem cinematográfica que não se omite da busca por um resultado artístico apurado, e ao mesmo tempo não tutela o ônus da responsabilidade por essa qualidade ao publico, no sentido de que articula como plenamente viável um cinema pop de gênero, que é generoso com o publico sem com isso abrir mão de seu ideal de conteúdo e forma.

2.2 – PLANO DE PRODUÇÃO

A produção de As Flores de Plástico se pauta na economia orçamentária através de uma concepção de encenação direta e objetiva, na qual um dos exemplos bem sucedidos na atualidade se encontra na linguagem cinematográfica desenvolvida pela produtora Blumhouse, através de diretores como Mike Flanegan.

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10 A produção será distribuída por seis meses, se iniciando a partir do anuncio dos projetos contemplados a pré-produção, da qual em parte já se encontra bem desenvolvida, mas que deve ser revista para então dar continuidade.

Um novo tratamento do roteiro pode ser realizado, para aprimorar os diálogos e a funcionalidade de cada cena, mantendo suas características gerais desenvolvidas até o presente momento. O roteiro anexado ao projeto encontra-se em seu terceiro tratamento. Bem como uma revisão da decupagem deve ser realizada, visando aprimoramento da linguagem cinematográfica, mantendo o essencial do trabalho já realizado de forma a não gerar impacto no plano de produção, mas sim aumentar a precisão do trabalho de set.

2.3 – LOCAÇÕES

A escolha das locações se deu de forma a potencializar o orçamento, preferindo montar o set em locais já próximos da concepção proposta ao uso de estúdios. Escritório já mobiliado, apartamento já mobiliado e até mesmo o karaokê, no caso já em negociação com o Tequilas Bar e Karaokê, no bairro Liberdade, serão adereçados seguindo a proposição do design de produção.

A praia fictícia de São Valentino representa para trama o desejo por um amor verdadeiro – um amor natural, real – tomando aqui a praia como um símbolo do encontro amoroso, “leve-me para uma praia deserta”. O desejo de Fábio por conhecer São Valentino é o seu desejo por um amor não artificial, e por isso, convida Maria para descobrir esse lugar ideal. Maria, no entanto, nega esse amor humanista, da natureza ou primitivo, em concordância com o momento cultural em que vive. Já Ingrid, que contempla logo no inicio do curta-metragem o cartão postal de São Valentino, este um simulacro desse lugar ideal, se comove pela confusão da natureza real ou artificial de seu próprio amor. Depois de examinar o simulacro da praia, examina a si mesma no espelho e então chora.

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11 Está articulado aqui um forte simbolismo para a obra, de forma que se considerou importante que efetivamente esta locação fosse indexada a associação de signos nesta composição artística, apesar de seu razoável impacto orçamentário. Escolhemos para a filmagem a Praia do Cedro, uma praia deserta presente na Trilha das Sete Praias, rota turística que parte da Praia da Lagoinha e com fácil acesso através de táxi-boat.

2.4 – PÓS-PRODUÇÃO

A pós-produção se apoia na escolha de profissionais experientes do mercado tanto para o processo de finalização, de captação e mixagem de som e de conversão DCP e correção de cor.

Inclui diárias de estúdio para a dublagem da maior parte da obra, com poucas exceções de cenas mais dramáticas.

Conta também com a aquisição de um notebook com configuração segura para os trabalhos de ilha de edição, permitindo independência e maior imersão e flexibilidade no processo de montagem, além da sua disponibilidade para todo o processo de finalização.

3 – ESTRUTURA

O roteiro apresenta em uma estrutura em três atos, que servirá de base para a inflexão do tema abordado, que é tão extenso quanto complexo. A estrutura então deve trabalhar não para torna-lo mais hermético, e sim para fazê-lo mais palatável e principalmente sensorial.

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12 Ao mesmo tempo não tenciona direcionar um julgamento moral, mas sim permitir uma pós vida à obra baseada nas interpretações pessoais e na reflexão sugerida.

No primeiro ato se estabelece o conflito: um relacionamento amoroso desgastado onde desconhecemos as necessidades não atendidas do protagonista, ausência de respostas essa que atormenta a personagem coadjuvante, Ingrid, que o ama.

Assim se estabelece nosso setup do enredo, centrado na busca pela realização de um amor idealizado, a expectativa de amar e ser amado à qual todos nós, cedo ou tarde, vivenciaremos.

O plot point que nos direcionará ao segundo ato se dá exatamente na pergunta “Então, me diga... o que aconteceu?” feita por Arlindo, personagem introduzido como se estivesse alheio a questão motriz de As Flores de Plástico, mas desde já funciona sublinhando a sensação de que algo não está ocorrendo como deveria.

No segundo ato acompanhamos o cotidiano de Fábio, o protagonista, e o desenvolvimento da paixão por sua amiga Maria. Este ato funciona como um drama romântico de amor impossível, um jovem infeliz apaixonado por uma garota idealizada que é capaz de dar sentido a sua vida, a manic pixie dream girl de Inquietos (2011), Amor à queima-roupa (1993), Scott Pillgrim contra O Mundo (2010), Clube da Luta (1999) entre outros.

Esta sensível mudança da namorada Ingrid para o amor platônico por Maria pode agir de modo ao público buscar neste outro lugar dramático as respostas para o que se estabeleceu anteriormente, ou até servir como uma distração induzindo ao esquecimento do propósito inicial da obra, mantendo, no entanto a premissa temática do curta-metragem. O importante é que tanto num caso como noutro, está a serviço da construção dramática e articulação discursiva da obra, como veremos no terceiro ato.

Mas antes, contrariando as leituras mais pragmáticas e superficiais feitas dos importantes e populares manuais de roteiro, o clímax dramático de nossa narrativa

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13 encontra-se ainda no desfecho deste segundo ato: a desastrosa declaração de amor do protagonista à Maria.

Interessante aqui notar que neste clímax se flexiona ao máximo a sensação de estranheza que perpassa a obra, onde alguns elementos desestabilizadores surgem, especialmente a June e o discurso sobre relacionamentos de Adilson. A fala de Maria aqui, além de servir como a grande derrota antes da vitoria – prevista na jornada do herói – na busca de Fábio por realização amorosa, também desestabiliza a obra no sentido de que:

Primeiro, a coadjuvante Maria rejeita o modelo clichê de personagens femininas de apoio ao protagonismo masculino, a manic pixie dream girl. Agora sabemos que ela não abrirá mão de ser o centro de sua própria existência.

Segundo, agora definitivamente não é possível ignorar que nesta busca do herói por realização amorosa há um elemento importante que ainda desconhecemos.

É deste modo que somos lançados de volta ao apartamento de Fábio, na continuação de sua conversa com Arlindo, efetivamente o plot point para o terceiro ato.

No terceiro ato fica claro que tudo o que acompanhamos anteriormente, entre Fábio e Maria, trata-se de um flashback ilustrativo da resposta do protagonista àquela pergunta de Arlindo: “Então, me diga... o que aconteceu?”.

Reconciliando-se aos manuais de roteiro, que são antes estudos de padrões cognitivos que regras, encontramos no terceiro ato o plot twist final, que irá juntar as três tramas, o relacionamento desgastado com Ingrid, o problema que trouxe Arlindo ao apartamento e a paixão platônica rejeitada por Maria. Trata-se da descoberta de que Ingrid é na verdade um robô cujo objetivo é aplacar as necessidades humanas por amor, companhia, apoio e sexo. Assim o elemento desconhecido até então surge. Fábio ousou amar e se declarar a outro ser humano numa sociedade em que relacionamentos inter-humanos caíram em desuso, ganhando o status de parafilia.

Com ajuda de Arlindo, Fábio sai desta jornada com um novo olhar sobre o que julga ser artificial e natural. Atingindo assim a resolução de seu conflito, se

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14 reconcilia com Ingrid, mercadoria que Arlindo representa, e realiza sua noção de amor ideal.

O desfecho, na praia que representa o amor verdadeiro, é um ultimo comentário sobre a noção contemporânea de relacionamentos, além de um lugar provocativo à moral contrastada da cultura pop.

4 – PROPOSTA DE DIREÇÃO E OU CONCEPÇÃO AUDIOVISUAL

4.1 – TOM E ESTÉTICA

As Flores de Plástico possui um tom de drama romântico leve, que valoriza momentos dramáticos distribuídos em pequenas e eficientes doses no percurso da trama. Baseia-se na otimização de seus recursos de linguagem, evitando um tecnicismo ou um mise-em-scène histriônico custoso.

Seu tom de drama romântico encontra ecos nas já citadas obras de Jean-Luc Godard, bem como em seus pares contemporâneos citados. Trata-se de obras de ficção cientifica focadas no relacionamento de seus personagens, de orçamento modesto, uma vez que o não está apoiada em elementos mais comuns do sci-fi de aventura e ação, a exploração de efeitos especiais e o fetichismo tecnológico e futurista. É particularmente inspirador o caso de Il Nuovo Mondo do Godard, em que a caracterização do cenário no que se refere à temporalidade é bastante naturalista, o que estabelece uma relação mais inventiva com o roteiro.

Os recursos audiovisuais devem trabalhar em busca de uma obra com respiro, trazendo para a composição os espaços vazios e apostando em uma movimentação suave. A poesia visual de Shunji Iwai, em filmes como Hana & Alice (2004) e Vampire (2011), são uma boa fonte de inspiração na composição de cenas mais claras, com um valor um tanto etéreo, especialmente no quarto, locação que abre o curta-metragem.

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15 Já nas cenas noturnas, o colorido das luzes artificiais localiza o filme na metrópole, desestabiliza sua noção de época retratada, uma vez que o neon está tanto em referencias de filmes de época quanto em futuristas como Blade Runner (1980) e Ghost in the Shell (2016) – e lhe confere uma atmosfera de artificialidade, que se une, como noite e dia, a dualidade apresentada em seu conflito motriz.

O colorido da fotografia neon em sua vocação vintage representa hoje uma tendência internacional na estética audiovisual, presente em produções como Bom Comportamento (2017) da produtora A24 ou Like Me (2018) da produtora Glass Eye Pix. Um exemplo bastante interessante está no episodio San Junipero de Black Mirror, produzido pela Netflix.

4.2 – FOTOGRAFIA

A escolha pela câmera RED Scarlet, com jogo de lentes Canon Prime, se dá por ser um equipamento de alta performance, 4k e com diárias acessíveis para o tamanho da produção, estando compatível com o resultado de esmero visual, privilegiando as cores fortes da iluminação e dressing, em concordância com a abordagem.

A iluminação conta com um jogo de 4 cabeças de fresnéis e uso de gelatina, além de iluminação de LED colorida no dressing e jogo LED para correção de sombras. Assim alcançamos ambientes noturnos coloridos e atmosféricos, modernos e urbanos.

4.3 – DESIGN DE PRODUÇÃO

Para o design de produção, é importante frisar que a obra não pretende apresentar um futuro fantástico e altamente tecnológico visualmente. Vale lembrar

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16 aqui o naturalismo da ficção cientifica de Godard ou a trama atemporal de San Junipero, em que os personagens passeiam por ambientes futuristas, noventistas e oitentistas na cidade virtual homônima.

4.4 – DIREÇÃO DE ELENCO

Embora alguns nomes já estejam cogitados, o casting será realizado se confirmada a contemplação do projeto. No geral composto por jovens, entre os vinte e trinta anos de idade, independentes e sofisticados.

A direção do elenco, conforme o usual fora do Brasil, fica a cargo do próprio diretor do filme e deve privilegiar o naturalismo na interpretação, o casual e o improviso, sempre apoiado por uma firme e extensiva pré-produção que alicerça com segurança o processo criativo durante a produção e auxilia na comunicação do sentimento e intenção de fala pretendido para cada cena.

Tanto a decupagem, quanto o mise-en-scène e a montagem devem auxiliar a interpretação dos personagens, seja privilegiando com espaço e tempo a atuação, seja buscando o ângulo ideal ou o extracampo.

4.5 – DIREITOS AUTORAIS

Os direitos autorais da música Flores do grupo Titãs, de autoria de Tony Bellotto, Sérgio Britto, Charles Gavin e Paulo Miklos, foi negociado com Flávia Cesar, da Warner Chappell, por indicação da produtora Deyse Simões, em assessoria para banda.

A licença de uso especifico prevê o uso na cena do karaokê, sendo no contexto do filme uma base instrumental de karaokê sobre a qual Maria canta. Portanto, é uma versão, pré-produzida, com arranjos eletrônicos de roupagem lo-fi

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17 remetendo a estética karaokê vintage, com vocais gravados em estúdio pela própria atriz que interpreta Maria ou uma cantora, ainda a definir.

A mesma versão da música cantada por Maria será usada nos creditos finais do filme.

5 – PÚBLICO ALVO

O target são admiradores de filmes de gênero, carentes por conteúdos como o de ficção cientifica na produção audiovisual brasileira. Este público abrange desde geeks até cinéfilos, e pode ser encontrado em mostras dedicadas aos gêneros, como a Cine Phenomena.

Nesse sentido a obra parece transcender aspectos de classe, tendo maior relevância aspectos de grupos de interesses, como citado acima. De todo modo, possui apelo para cativar um público de classe C menos interessado em tendências de slow cinema.

Acrescido a estes, a obra se destina também ao público interessado em obras ficcionais que articulam temáticas sociológicas e filosóficas do contemporâneo, como pesquisadores e universitários, que poderá ter acesso a obra através de rodas de debates em aparelhos culturais, privilegiando especialmente casas de cultura em regiões periféricas, trabalhando temas como relações amorosas contemporâneas, a liquidez nas relações humanas, relações de poder no âmbito pessoal, mercantilização dos corpos entre outros temas correlatos.

Além disso, há a intenção de inscrever a obra em festivais nacionais e internacionais, razão pela qual já foi previsto no orçamento a inclusão de legendas em inglês para público externo.

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18 6 – CRONOGRAMA Cronograma de Trabalho Preparação: 25/02/2019 a 17/03/2019 Pré-Produção: 18/03/2019 a 28/04/2019 Produção e Filmagem: 29/04/2019 a 02/06/2019 Pós-produção: 03/06/2019 a 12/08/2019 Lançamento: 24/08/2019 7 – ORÇAMENTO

ORÇAMENTO

Fotografia

Locação de Kit Câmera (Câmera RED Scarlet, jogos de lente cine prime canon [ef 14/24/35/50/85/135mm), tripé de câmera, 2

cartões de memória de 128G, matte box) R$ 10.500,00

Follow Focus Wireless R$ 800,00

Locação Kit ARRI iluminação (4 fresnéis de 650w com lamp 110v e

220v + tripé + prolonga de 10m) R$ 1.400,00 Painél de LED 30x30 120w R$ 1.260,00 Steadicam movimento de câmera R$ 2.800,00

Total R$ 16.760,00 Arte Objetos R$ 6.000,00 Figurino R$ 1.000,00 Maquiagem R$ 500,00 Intervenções de arte R$ 500,00 Total R$ 8.000,00

Áudio Kit lapela wireless R$ 700,00

Total R$ 700,00

Locação

Set Apto Fábio R$ 250,00

Set Karaokê R$ 500,00

Set Ruas da cidade/loja R$ 200,00

Set Escritório R$ 6.000,00

Total R$ 6.950,00 Alimentação

Vale Alimentação (equipe e atores) 16,00 por pessoa por dia R$ 1.904,00

Água R$ 300,00

(20)

19 Transporte

São Paulo x Ubatuba (equipe e atores) R$ 761,00

Táxi-boat Ubatuba R$ 1.280,00

Táxi comum Ubatuba R$ 120,00

Ubatuba x São paulo (equipe e atores) R$ 761,00 Vale transporte (equipe e atores) 8,00 por pessoa por dia R$ 136,00 Transporte de equipamentos R$ 728,00

Total R$ 3.786,00 Hospedagem Hospedagem em Ubatuba - gravação Set Praia R$ 600,00

Pós-produção

Conversão para DCP R$ 1.000,00

Correção de cor R$ 2.000,00

Mixagem de áudio para cinema R$ 2.000,00

Transcrição/legenda R$ 1.000,00

Dublagem R$ 5.000,00

Ilha de edição R$ 9.000,00

Trilha sonora e direitos autorais R$ 5.000,00

Total R$ 25.000,00 Insumos Pilhas, fita crepe, fitas adesivas, fita Hellerman, tesoura, sacos de

lixo, kit primeiros socorros R$ 600,00

Cachês Atores R$ 8.400,00 Diretor R$ 2.000,00 Roteirista R$ 1.500,00 Diretora de Arte R$ 2.000,00 Diretor de Fotografia R$ 2.000,00 Técnico de áudio R$ 2.000,00 Editor e finalizador R$ 2.000,00 Produtor R$ 1.500,00 Ass. de direção R$ 500,00 Ass. de produção R$ 500,00 Total R$ 22.400,00 TOTAL R$ 87.000,00 BIBLIOGRAFIA

HELLER, Barbara. Critica ao determinismo tecnológico: teóricos da sociedade da informação e periódicos de tecnologia. São Caetano do Sul: Comunicação & Inovação, v. 15, n. 28:[105-113] jan-jun 2014.

PEREIRA, Vinicius Andrade. Marshall McLuhan, o conceito de determinismo tecnológico e os estudos

dos meios de comunicação contemporâneos. São Leopoldo: Unirevista, v. 1, n. 3, 2006.

(21)

ANEXO I – PERSONAGENS

(22)

Toro Y Moi

(23)
(24)

AS FLORES DE PLÁSTICO by

(25)

INT. QUARTO - DIA

FÁBIO, 27, e INGRID, 24, estão deitados em uma cama box. O quarto é organizado e moderno sem excessos.

Fábio olha para o teto, visivelmente acabou de acordar, enquanto Ingrid está deitada de lado, observando-o, provavelmente a um longo tempo.

INGRID

Eu posso tentar ser melhor.

Demoradamente e sem olha-lá, Fábio responde. FÁBIO

Não tem nada que precise melhorar. INGRID

Então por quê?

Ele vira o rosto para o outro lado da cama, evitando encará-la.

INGRID

Eu só queria entender onde eu errei.

(pausa)

Eu posso ser melhor.

Depois de um breve silêncio a campainha toca. Fábio passa as mãos pelo rosto, esfrega os olhos e levanta-se para atender a porta.

Ingrid segura sua mão impedindo-o de sair. Por um breve momento eles ficam assim, sem que ele tenha coragem para olhar em sua direção, até que ele se desvencilha sutilmente de sua mão. Sai do quarto, enquanto ela continua na cama, com o olhar perdido no vazio.

INT. SALA - DIA

Fábio abre a porta do apartamento, um HOMEM com uma

PASTA/BOLSA e vestindo um MACACÃO azul claro com LOGO da EMPRESA TECTOY se apresenta.

ARLINDO

Bom dia, espero não ter chego muito cedo. Prazer, pode me chamar de Arlindo, o senhor deve ser Fábio, certo?

(estende a mão)

Vim atender a sua solicitação aberta na Tectoy.

(26)

CONTINUED: 2.

FÁBIO Sei, pode entrar.

ARLINDO Com licença.

Fábio indica um sofá de dois acentos para o visitante sentar.

FÁBIO Aceita um café?

ARLINDO (sorrindo)

Café eu nunca nego, ainda mais essa hora da manhã.

Fábio não sorri de volta, apenas dirige-se à cozinha. Da sala ARLINDO, 50, consegue ver que ele prepara o café em uma máquina caseira de expresso.

POV: INGRID

Por uma fresta da porta do quarto, Ingrid observa Arlindo na sala por um momento.

INT. QUARTO - CONT.

Ingrid fecha a fresta e encosta na porta, descansando os olhos por um momento.

Abrindo novamente os olhos ela dá com o olhar

involuntariamente num CARTÃO POSTAL pendurado num quadro de avisos sobre a mesa do computador ao lado da porta.

Apanha-o e observa a PRAIA RETRATADA NELE. A areia é cercada por um lado pelo mar e pelo outro por pedras. Depois das pedras, vegetação baixa cobre o solo. Não há pessoas na foto, apenas o cenário paradisíaco.

INT. SALA - CONT.

Arlindo ouve o BARULHO DA PORTA do quarto, e virando em sua direção vê Ingrid passar cabisbaixa, descalça, em passos rápidos, porem, sutis. Ela não o cumprimenta, nem olha em sua direção, apenas segue em linha reta até a porta do

banheiro, onde entra e se tranca. Uma aparição silenciosa e breve.

Ao mesmo momento em que a porta do banheiro fecha, na porta ao lado, Fábio volta trazendo duas XÍCARAS DE CAFÉ.

(27)

CONTINUED: 3.

FÁBIO

O senhor precisa de açúcar? ARLINDO

Pode me chamar de Arlindo, apenas. Não, está perfeito assim.

INT. BANHEIRO - CONT.

Ingrid se olha no espelho com as mãos apoiadas no lavabo. De seu rosto escorre água.

Ela passa a mão no rosto, secando algumas gotas que escorriam. Observa seu reflexo por um longo tempo.

Então despe-se, entra no box e liga o chuveiro. Com uma das mãos apoiada no azulejo da parede, apenas deixa a água cair em seu corpo.

Lentamente esmorece, dobrando o joelho e curvando-se, até estar encolhida no chão e o jato de água se misturar com suas lágrimas.

INT. SALA - CONT.

Arlindo toma um gole de café e pousa a xícara no pires que segura na mão esquerda.

ARLINDO

Então, me diga... o que aconteceu?

Diante da pergunta, Fábio deixa seu olhar cair em direção ao carpete, enquanto busca a resposta.

FUSÃO PARA:

EXT. AV. PAULISTA - DIA

A cidade de São Paulo no horário de rush da manhã.

Trânsito intenso, calçadas cheias de pessoas apressadas e auto centradas.

(28)

4.

INT. COPA - DIA

Fábio engole um comprimido bebendo toda a água de um copo descartável de plástico leitoso 200ml num só gole,

inclinando a cabeça para trás.

Joga o copo no lixo reciclavel e apanha outro copo

descartável sobre o balcão, desta vez um copo de isopor contendo café.

INT. ESCRITÓRIO - CONT.

Com o COPO EM MÃOS caminha até sua posição de trabalho, passando por outras tantas mesas onde jovens e adultos trabalham focados em seus monitores, alguns fazendo

anotações em blocos de papel ou folheando sulfites impressas com textos, tabelas, gráficos.

Cada funcionário do escritório está posicionado em uma mesa dividida para dois, sentados um de frente para o outro, mas escondidos cada qual atrás de seus monitores.

Do lado contrário da posição de trabalho de Fábio está

MARIA, 24. Ela está concentrada em seu trabalho, mas desvia brevemente o olhar e sorri para Fábio quando ele está

sentando.

FÁBIO Oi Maria!

Fábio desbloqueia a tela de seu computador e inicia seu trabalho, entre um e outro gole de café.

Por um momento distrai-se com a mão de Maria movimentando-se sobre o mouse. Inclinando-se discretamente, acompanha com o olhar a mão da jovem quando ela solta o mouse e apoia o maxilar, descansando a cabeça com o cotovelo na mesa. Com o olhar, ele acaricia a bochecha, os lábios, olhos, o cabelo escorrido sobre o rosto de Maria.

Sua distração é interrompida por uma NOTIFICAÇÃO SONORA do computador. Fábio verifica o novo EMAIL em sua caixa de entrada, que para sua surpresa foi enviado por Maria, sem assunto. O corpo da mensagem dizia apenas: "Buuuu".

Quando Fábio olha novamente para sua colega, ela lhe direciona um sorriso travesso.

MARIA

Eai, vai ficar me dando banho de pestana mesmo? Quer tirar pra dançar?

(29)

CONTINUED: 5.

FÁBIO

(sorrindo ruborizado) Me distrai.

MARIA

Já ficou sabendo que confirmaram a ponte do próximo feriado?

FÁBIO

Sério. Uooooou, beleza. MARIA

Vamos ficar cinco dias em casa, trabalhar até terça-feira e depois só na segunda. Tipo assim, mini férias hein?

FÁBIO

Sim. Mas também vou ficar devendo horas pra caramba, porque já tenho um monte acumulada, vai ser foda repor. E você já fez planos?

MARIA

Faço doutorado Fáfa, não preciso de planos.

FÁBIO Credo. Que triste.

MARIA

O que? Só de pensar que eu vou dormir oito horas cinco dias

seguidos, já é o paraíso. E você, vai finalmente realizar seu sonho e conhecer São Valentino?

ADILSON, 33, interrompe a conversa antes que Fábio pudesse responder.

ADILSON

Eai meu povo, vocês vão no karaokê hoje né?

MARIA Uhhhhhh.

ADILSON

Não quero nem saber, depois todo mundo fala que o povo não

confraterniza, não bebe. Agora todo mundo vai nesse inferno.

(30)

CONTINUED: 6.

MARIA

Ai amigo, depois de um convite tão delicado desse o que eu vou dizer?

ADILSON

Olha, eu nem vim aqui pra vocês dizerem nada, era só pra vocês saberem que eu tô de olho, viu? Eles riem.

INT. KARAOKÊ - NOITE POV: MARIA

Passando pelos FREQUENTADORES do lugar, à distância é possivel ver Fábio ao lado de Adilson e outros colegas de trabalho divertindo-se. A iluminação é vibrante, colorida e neon.

Ao fundo um palco espelhado onde os frequentadores cantam, sozinhos ou em duplas, ao seu turno.

Fábio olha em nossa direção. POV: FÁBIO

Maria entrando no salão, esgueirando-se entre outros FREQUENTADORES. Ela acena e sorri em nossa direção. VOLTA À CENA

Fábio destaca-se um pouco do grupo de amigos quando Maria o alcança, eles se abraçam forte e calorosamente, só então ela se dirige aos demais, não tão calorosa, mas plenamente

amigável.

INT. KARAOKÊ - NOITE - MAIS TARDE

Fábio e Maria estão encostados numa coluna próxima da pista em frente ao palco, destacados de seus colegas.

FÁBIO

Eu só não queria ir sozinho, seria legal ter uma companhia.

MARIA

Ah, comigo não tem dessa não viu. Se quero viajar eu vou, sozinha, tanto faz. Eu vi o link que você passou, a praia parece linda mesmo.

(31)

CONTINUED: 7.

FÁBIO

Então, tá vendo. Por que a gente não vai juntos?

MARIA

Ah Fáfa, agora não posso. (pausa)

Não é porque eu não quero ir com você, é a pós mesmo. Conciliar o trabalho com o doutorado tá

complicadíssimo. FÁBIO

Eu sei. Quando fiz meu doutorado também sumi da vida. E como tá sua tese?

MARIA

Complexa. Não quero dar um passo maior que a perna. Isso é só o início de um projeto maior, se eu conseguir levar a tese às pessoas certas.

FÁBIO

Claro! Gente interessada nesse trabalho não vai faltar.

MARIA

Entããão! Pense: se conseguirmos decodificar a cultura humana

através da Big Data como o Genoma fez com o DNA, poderiamos isolar e entender a evolução de um meme, e quem sabe até restartar um costume, uma verdade. Imagina isso!

FÁBIO

E ai quem sabe poderiamos entender por que alguém pode não concordar com algo imposto e que todos acham que é normal.

MARIA

Com certeza! Seria interessante estudar essa pessoa.

(pausa)

É assim que você se sente?

No AUTO-FALANTE Maria é anunciada como a próxima a subir no palco.

(32)

CONTINUED: 8.

FÁBIO Olha! É você.

A MÚSICA inicia, numa versão sintetizada lo-fi.

Maria segura o microfone sem tira-lo do pedestal e sorri enquanto começa a entoar os versos da música FLORES, do grupo TITÃS.

MARIA

Olhei até ficar cansado

De ver os meus olhos no espelho Chorei por ter despedaçado

As flores que estão no canteiro

Maria passeia o olhar pela platéia, até encontrar Fábio. Eles trocam sorrisos.

MARIA (CONT’D) Os pulsos os punhos cortados O resto do meu corpo inteiro Há flores cobrindo o telhado E embaixo do meu travesseiro

Então Maria assume uma feição séria e seu olhar passa a não se fixar em ninguém, concentrando-se apenas na música.

MARIA (CONT’D) Há flores por todos os lados Há flores em tudo o que eu vejo A dor vai curar essas lástimas O soro tem gosto de lágrimas As flores tem cheiro de morte A dor vai fechar esses cortes

Fábio continua a observá-la, entre goles em seu drink e balançando no ritmo da música.

MARIA Flores, flores

As flores de plástico não morrem

EXT. RUA NO CENTRO - NOITE

Fábio caminha pela calçada fumando cabisbaixo. Letreiros luminosos incidem sobre ele.

Ao passar pela vitrine de uma loja de eletrônicos têm sua atenção fisgada pelo VÍDEO de uma APRESENTAÇÃO MUSICAL de uma cantora pop transmitido por um TELEVISOR de 60

polegadas. Na legenda do vídeo lê-se o nome da cantora, JUNE, 24.

(33)

CONTINUED: 9.

June têm um visual OITENTISTA, algo como Debbie Gibson. A apresentação provavelmente foi filmada em um ESTÚDIO de TV extremamente MODESTO.

NOTA: June e Ingrid são interpretadas pela MESMA ATRIZ. Fábio permanece um tempo assistindo o vídeo enquanto fuma. Até que um carro estaciona no meio fio, e o motorista lhe atira uma lata de cerveja vazia.

FÁBIO Ei!

Fábio vira-se surpreso. No carro estão alguns dos seus colegas de trabalho vindos do karaokê.

COLEGA 01

Cê é doidão? Fugiu do karaokê pra ficar assistindo TV na rua?

INT. SALA - NOITE

O apartamento de Fábio possui LUZ led COLORIDA na sala e MÚSICA chillwave toca enquanto seus colegas, os MESMOS do carro, bebem e fumam.

Fábio está sentado sobre um PUFF no chão, terminando uma lata de cerveja.

Adilson e seu NAMORADO, 25, estão sentados no sofá. O Namorado com as pernas sobre o colo de Adilson.

ADILSON

E a Maria gente, o que aconteceu? COLEGA 01

Ela disse que ia acordar cedo, não ficou muito no karaokê.

ADILSON

Ai, que povo mais sem graça. (para seu namorado)

Gato, pega bebida pra gente. Trás pro Fábio também.

COLEGA 01

Os meninos colocaram tudo na geladeira.

FÁBIO Pode abrir.

O Namorado de Adilson sai de cena.

(34)

CONTINUED: 10.

ADILSON

Me fala uma coisa, você é assexuado?

Fábio não responde, apenas sorri. ADILSON

Não, sério. O que você tá fazendo sozinho? Olha esse puta apê legal. Arruma logo uma gata pra cuidar de você, da casa, ué. Até parece que tá pagando penitência.

FÁBIO

Ah, não sei. Eu não quero dividir com alguém eu acho... quer dizer, só se fosse com alguém especial.

O Namorado de Adilson volta e entrega as bebidas, logo

sentando ao lado dele novamente. Põe-se a acariciar o cabelo de Adilson enquanto ele fala com Fábio.

ADILSON

Ué, e como não vai ser alguém

especial? Com seu salario você pode ter qualquer uma, depende só do seu bom gosto e criatividade.

Adilson abraça seu Namorado trazendo a cabeça dele para junto de seu corpo.

FÁBIO

Bom... na verdade tem alguém. ADILSON

Uuuhh. Então você quer uma versão. É, se for alguém com direitos

abertos tá bom. Eu prefiro fazer do zero, confio no meu bom gosto.

O casal se agarra com intensa paixão sem se importar com as demais pessoas na sala.

Fábio deixa o corpo cair para trás, deitando no PUFF e fechando os olhos.

FADE OUT

(35)

11.

EXT. RUA NO CENTRO - DIA

Fábio está indo para o trabalho, tem um copo descartavel de isopor com café na mão e carrega uma bolsa masculina com a alça transpassada pelo corpo.

Passa na frente da mesma loja de eletrônicos, onde o vídeo da apresentação da cantora June continua sendo exibido. Ele apenas observa de relance, seguindo seu caminho.

INT. CORREDOR DA EMPRESA - DIA

Fábio caminha apressado passando por diversas pessoas e posições de trabalho, alguns ele cumprimenta.

INT. COPA - CONT.

Fábio entra, deposita a bolsa sobre o balcão e cumprimenta Maria, que está encostada no móvel tomando café, cujo copo ela segura com as duas mãos.

FÁBIO

Eeeeeei, bom dia. Tudo certo? MARIA

Nossa, tô morrendo de sono. Dormi muito tarde ontem.

Fábio toma um comprimido enquanto conversa com a amiga. Depois de dispensar um copo plástico descartavel apanha outro, para o café.

FÁBIO

Você foi embora cedo na sexta né? Depois o pessoal foi pra minha casa.

MARIA

Sim, fiquei sabendo. Vi os stories. É que eu tinha muita coisa pra

resolver no fim de semana. E não é muito a minha cara ficar até tarde mesmo.

FÁBIO

Nossa Maria! Você precisa

desacelerar. Até pela sua saúde física... e mental também.

Ela ri olhando para o piso, logo voltando a encara-lo.

(36)

CONTINUED: 12.

MARIA

Você cuida de mim né? Eu acho isso tão fofo.

(pausa)

Por que você é tão bom pra mim?

Ele apenas ri, enquanto ela continua a encara-lo, sorrindo, com um olhar gentil, porém firme e interrogativo.

Fábio ensaia dizer algo, embaraçado, ri novamente. Quando seu olhar encontra o dela novamente, se recompõe.

FÁBIO Você é diferente.

(pausa)

Já sentiu que você não faz parte desse mundo? Como se o mundo

inteiro estivesse louco e só você sã.

MARIA

Sim. Acho que também me sinto assim, as vezes.

FÁBIO

Que bom que ainda resta você nesse mundo.

Eles riem.

MARIA

Vamos restartar o mundo. FÁBIO

Juntos?

(pausa)

Que loucura isso... eu te amo. MARIA

Uauu. Nossa. Obrigada Fáfa. Você é um querido, meu.

FÁBIO

Sério. Faz tempo, mas eu não sabia como dizer.

MARIA Por quê?

FÁBIO

Ah, sei lá. É que as outras pessoas acham estranho, nojento, louco... sei lá. Tinha medo de que você fosse igual a eles.

(37)

CONTINUED: 13.

MARIA

Ué? Agora não tô entendendo. (ri)

Você tá falando de gostar... tipo, como se fosse namorado? Não né?

FÁBIO

Sim, isso. Você entendeu o que?

Enquanto ele ruboriza, sem graça, Maria assume uma expressão de imensa repulsa, levando a mão a boca.

MARIA

Não acredito Fábio! Como você pensou isso de mim? É sério?

(pausa)

Nunca imaginei isso de você. (lágrimas caem)

Tô me sentindo... um lixo, meu. Quê você pensa que eu sou?

Empurra-o.

FÁBIO

Maria, desculpa, eu sinto muito. (pausa)

Mas você precisa entender. Isso é natural. Tratar isso como se fosse nojento, doença... é completamente cultural... anti-natural...

MARIA

Você é doente, cara.

Maria atira seu copo de café nele, saindo da copa de volta para o escritório.

Ele passa um momento imovel, em choque.

Voltando à si aos poucos, senta-se num dos bancos e afunda a cabeça entre os braços sobre o balcão.

INT. SALA - DIA

Arlindo está depositando calmamente o pires e xicara na mesa de centro que separa ele de Fábio, voltando a relaxar no encosto do sofá.

ARLINDO Bom, eu te entendo.

(pausa)

Não há nada de doentio nisso.

Imagina, eu encontro todos os tipos (MORE)

(38)

CONTINUED: 14.

ARLINDO (cont’d)

de fetiches, você não é o único. Mas...

Fábio permanece calado.

ARLINDO (CONT’D) Eu preciso te deixar claro uma coisa. Quando você fala sobre um amor verdadeiro, você também está se referindo a algo que foi

fabricado. (pausa)

Existe uma vasta literatura,

especialmente no campo da biologia e neuropsicologia, que elucida esse fenomeno. Livre-arbitrio é como Deus... uma ideia reconfortante diante da complexidade assustadora da realidade. A resposta, quando não há resposta.

(pausa)

Mas a verdade é que todos nós fomos programados. Eles por um software, nós... por um conjunto de genes egoístas.

Arlindo inclina-se em direção a Fábio, juntando as mãos. ARLINDO (CONT’D)

Nós não te oferecemos uma farsa. O que nossos androides sentem é essa mesma afetividade, a ciência apenas a otimizou.

Fábio continua impassivel e distante. ARLINDO (CONT’D)

Eles não tem sonhos, eles não tem carreiras profissionais, sem

familia e sem amigos. O mundo deles se resume a você. Me diz, quem pode te amar desse jeito?

Finalmente Fábio ergue o olhar diante destas palavras do representante da Tectoy.

ARLINDO

Olha, eu não recebo comissão, não me interessa cliente insatisfeito. Eu posso te recomendar para o

programa de reposição. O senhor nos devolve a Ingrid, ela vai ser

(MORE)

(39)

CONTINUED: 15.

ARLINDO (cont’d)

avaliada por uma equipe técnica e constatada a conservação da unidade fisica, ela passa por um processo de reinicialização para a versão de fabrica do sistema, dai você vai poder recuperar e customizar a

setup da inteligencia artificial em um modelo mais avançado, pagando apenas a diferença de valor.

FÁBIO

Não... A Ingrid não é o problema. Ela... ela... ela é incrivel.

Nesse momento Arlindo tem a atenção fisgada para outro ponto da sala, atrás de Fábio, que instintivamente olha na mesma direção.

Ingrid, que esteve de pé ouvindo a conversa, não contem a emoção nas últimas palavras de seu próprietário e engasga. Seu cabelo está úmido e bagunçado. Usa a mesma roupa de antes, mas sem as peças de baixo, e tem a toalha jogada sobre o ombro, pendurada pelo pescoço.

Ao ser percebida, foge, trancando-se no quarto. ARLINDO

Se ela é incrivel, valorize. Fábio considera com pesar estas palavras.

FUSÃO PARA:

INT. QUARTO - DIA

Ingrid está terminando de vestir outro conjunto de roupas quando Fábio abre a porta e entra. Permanecem alguns

segundos em um silêncio incomôdo. FÁBIO

É dificil... pra mim, entender o que eu sinto... desculpa.

INGRID

Eu só quero te pedir uma coisa. (pausa)

Nunca diga que o que eu sinto por você não é verdadeiro. É verdadeiro pra mim.

(40)

16.

CORTA PARA:

EXT. RESTAURANTE - DIA

Maria paga a conta do almoço, cujo os restos ainda estão sobre a mesa de madeira rústica.

O local é bem aberto, como um grande quisque, aproveitando a paisagem do LITORAL.

MATCH CUT:

EXT. LITORAL - DIA

Caminhando, Maria passa por uma barraca de memoriabilias e um CARTÃO POSTAL da praia de São Valentino lhe chama a atenção.

NOTA: O CARTÃO É IDÊNTICO ao que aparece no QUARTO de Fábio no INICIO da história.

Ela o observa por um tempo.

MATCH CUT:

EXT. LITORAL - CONT.

Maria caminha sobre as pedras, observando a praia de São Valentino. Traz em sua mão o CARTÃO POSTAL e um chapeu de palha a protege do sol escaldante.

Se detém diante do belo horizonte.

Após algum tempo, um GRITO FEMININO lhe chama a atenção. Ao longe, na areia da praia, um CASAL se diverte. A moça RI ALTO.

Maria se surpreende quando percebe que o acompanhante da moça é FÁBIO.

Não conhece INGRID, mas a forma como os dois se comportam na areia deixa claro que formam um casal.

Um casal feliz. FADE OUT

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