AS MÚLTIPLAS FACES
DA JUSTIÇA
(צדקה)
NO ANTIGO TESTAMENTO*
MARIOSAN DE SOUSA MARQUES** ROSEMARY FRANCISCA NEVES SILVA***
Resumo: o artigo propõe discutir o conceito e o vocábulo justiça no antigo testamento e seus principais usos, tendo em vista que a prática da justiça em Israel é um elemento essencial da sua identidade. A salvaguarda dos direitos, sobretudo das classes mais oprimidas e excluí-das, são um dever que se estende a todas as instâncias do exercício do direito e da justiça, incluindo a nação como um todo, condição sine qua non para a vivência da fidelidade à aliança com Deus.
Palavras-chave: Justiça. Direito. Antigo Testamento. Liberdade.
* Recebido 05.12.2018. Aprovado em: 11.12.2018.
** Doutorando na Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás). Mestre em Exegese Bíblica pelo Pontificium Institutum Biblicum de Roma. Graduado em Teologia pela PUC Goiás. Bacharel em Teologia e Filosofia pelo Instituto de Filosofia e Teologia Santo Alberto Magno-PR. Professor na PUC Goiás. E-mail: mariosansousa@ hotmail.com
*** Doutora e Mestre em Ciências da Religião pela PUC Goiás. Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal de Goiás. Professora no Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião da PUC Goiás e na Graduação de Teologia e Pedagogia. E-mail: [email protected]
DOI 10.18224/frag.v28i4.6976
ARTIGOS
ARTIGO
Cantai as justiças do Senhor, justiças em prol de suas aldeias e Israel.
(Jz 5,11)
O
direito do Estado de estabelecer, interpretar e fazer cumprir as leis é uma função significativa de qualquer sociedade, e desse direito depende também a imple-mentação e manutenção da justiça. No caso do antigo Israel, é difícil definir em detalhes, ao longo de sua história, o sistema legal e suas proceduras, embora seus aspectos básicos sejam claros. Como qualquer sistema legal, em Israel se procurou restaurar justiça, harmonia social e a ordem tão frequentemente interrompidas por qualquer infração civil oucriminal. Em princípio, o tribunal estava interessado em encontrar e revelar a verdade em um contexto de debate jurídico, em base à qual se restaurava a justiça em vista da equidade e da paz social.
Para compreender melhor o tema da justiça no Primeiro Testamento, abordaremos de forma introdutória três tópicos fundamentais: o conceito bíblico de justiça no Antigo Tes-tamento e o vocábulo צדק (= justiça) e seus principais usos.
O CONCEITO BÍBLICO DE JUSTIÇA (צדק) NO ANTIGO TESTAMENTO1
O conceito de justiça desenvolve um papel de primeira importância, seja na expe-riência religiosa, seja naquela política, moral ou jurídica2. Na experiência religiosa do povo de
Israel a ideia de justiça se baseia sobre a retidão de um comportamento no interior de uma relação bilateral. Sob esta perspectiva deve-se entender a justiça de Deus, que se revela “na sua maneira divina de operar em relação a seu povo, isto é, na sua ação redentora e salvífica” (SEEBASS, 1991, p. 790), com a qual Deus se mostra fiel às suas promessas, malgrado as repetidas infidelidades dos homens. Em âmbito político, a justiça se refere fundamentalmente à promoção do bem comum, essencialmente experimentado como harmoniosa justiça na paz (o shalom bíblico), através da tutela dos direitos fundamentais da pessoa e da justiça social.
Na experiência moral, a justiça possui um significado amplo de retidão integral ou santidade e um significado mais específico ligado às relações sociais entre as pessoas humanas e, de modo particular, àquelas situações nas quais, de um lado há a titularidade de um direito (à vida, à liberdade, etc.) e de outro lado o dever rigoroso de comportar-se de modo tal que o titular do direito possa gozar efetivamente do domínio sobre aquilo que lhe pertence.
Consequentemente, na Bíblia o termo justiça não significa somente justiça retribu-tiva, social ou econômica, mas é o horizonte de sentido de toda a realidade, cuja fonte está, antes de tudo, na aliança entre Deus e a humanidade, centrada sobre o ser humano. Portanto, o horizonte bíblico é um horizonte ético que misura a estatura dbo sujeito humano diante de Deus, na medida das suas relações sociais, onde a vocação à justiça possui precisas indicações no ordenamento jurídico dado por Deus a Israel3.
Efetivamente, començando pelo Decálogo e pelo Código da Aliança do Sinai, o Antigo Testamento está repleto de preceitos que regulam as relações de equidade entre as pessoas. Há ordenamentos sobre servos hebreus (Ex 21,2-11), sobre os homicídios e lesões corporais (Ex 21,12-26), sobre danos e penhor (Ex 22,4-14), sobre processos (Ex 23,1-9) etc. Também comportamentos como a usura, a fraude e a retenção do salário são condena-dos (Dt 23,20; 24,14-15). A literatura sapiencial apresenta muitos conselhos sobre a justiça: “Bem-aventurados aqueles que agem com justiça e praticam o direito em todo o tempo” (Sl 115,3), “de nada aproveitam os tesouros da iniquidade, mas a justiça livra da morte (Pr 10,2; cf. também Pr 11,1-6; Sl 17,25-26; 111,2-3; Sb 1,15).
O VOCÁBULO צדק (= JUSTIÇA) E SEUS PRINCIPAIS USOS
No Antigo Testamento hebraico, o termo que melhor expressa a ideia de justiça é
hq’d’c. = ṣәdaqah4. “O masculino ṣedeq ocorre 118 vezes; o feminino ṣәdaqah, 156 vezes”
(HARRIS; ARCHER; WALTKE, 1998, p. 1879). Há uma recorrência em aramaico hq’d>ci =
substanti-vos ṣәdeq (masculino) e ṣәdaqah (feminino). A maior parte das atestações dessa raiz se encon-tra nos livros proféticos (sobretudo no Dêutero Isaías), nos salmos e na literatura sapiencial, enquanto é bastante escassa a recorrência nos livros históricos. Esta raiz, em geral, não tem uma conotação originária de caráter jurídico mas denota muito mais uma conformidade a uma norma ética ou moral, que no AT é a natureza e a vontade de Deus.
O verbo qdc = ṣadaq, que recorre no Antigo Testamento não mais de 41 vezes5,
con-tém o significado principal “ser, andar reto” (GESENIUS, 1992, p. 702), usado para a direção de uma estrada já nas línguas siríaca e árabe (VINE, 1985, p. 205). Daí as aceções derivadas de “ser justo, irrepreensível”, e portanto, “sustentar uma causa justa” e também “declarar ou tornar alguém justo”, em referência sobretudo à pessoa e à ação de Deus e somente subsidiariamente às características e à ações dos homens piedosos (GESENIUS, 1992, p. 702)6.
Na forma verbal qal, com 22 recorrências, traz o significado de “ser justo, mani-ferstar-se justo, distinguir-se pela justiça” (CRÜSEMANN, 1976, p. 427). Como sujeito do verbo qdc, ṣadaq aparece Deus (Sl 51,6), ou os juízos (~yjiÛP’v.mii = mišpāṭîm) de Deus (Sl 19,10) ou os homens. Os enunciados com esse verbo, com frequência recorrem no confronto entre duas pessoas e àquele a quem é dado razão, é chamado de justo (uso estativo do verbo qdc, ṣadaq). Assim, uma pessoa pode ter razão em relação à outra. Vendo seus bens penhora-dos a uma suposta prostituta, Judá proclama diante de sua nora Tamar, grávida de seus filhos “Mais justa é ela do que eu (yNIM,êmi hq”åd>c’(), porquanto não a dei a Selá, meu filho. E nunca mais a possuiu” (Gn 38,26; o mesmo aparece em Ez 16,52). De outro lado, diante a Deus não se pode ter razão, ou justificar-se. Em Is 43,26 diz IHWH: “Aviva-me a memória; juntos entremos em processo (jpv), enumera as tuas razões, a fim de seres justificado (qD”(c.Ti ![;m;îl.). Nenhum vivente é justo diante de Deus. No Sl 143,2 o orante diz a Deus: “Não entres em juízo com o teu servo, porque à tua vista não se justifica (qD:Þc.yI-al{)) nenhum vivente”. A ques-tão sobre a possibilidade de um homem ser justo diante de Deus é continuamente reproposta no livro de Jó (Jó 4,17).
Em Dn 8,14 se usa a forma verbal niphal para referir-se ao templo: “Ele me disse: Até duas mil e trezentas tardes e manhãs; e o santuário será purificado” (vd<qo) qD:Þc.nIw>).
Na forma verbal piel contam-se cinco ocorrências, das quais três (Jr 3,11; Ez 16,51.52) indicam como com os seus pecados a irmã Judá faz parecer justa a irmã Israel. As outras duas estão em Jó 32,2 (onde supostamente Jó pretendeu ser mais justo do que Deus) e Jó 33,32 (onde Eliú instiga Jó a falar, com o desejo de justificá-lo (contingencialmente, pelo menos).
A forma hiphil do verbo qyDIÞc.hi = hiṣdîq recorre onze vezes7, com o significado de
“declarar justo, ajudar a obter justiça, absolver” visto que é uma conjugação ativa de uma ação causativa (JOÜON; MURAOKA, 2007, p. 167). O sujeito agente é o juiz ou quem, em vir-tude da própria posição, pode confirmar e, portanto, fazer valer a justiça ou o direito de uma pessoa. Quem é pobre ou oprimido tem direito a obter justiça, e ser justiçado, uma acepção que explica a passagem ao significado de “libertar, salvar, socorrer” que a forma hiphil assume (Is 50,8; 53,11; Sl 82,3; Dn 12,3).
O adjetivo ṣaddiq = justo, presente também nas línguas aramaica e fenícia, recorre 206 vezes no AT e segue o significado do verbo, em relação, sobretudo a IHWH, o justo por excelência (BONORA, 1991, p. 19). É um atributo de pessoa (Deus ou homem), não usado para referir-se a coisas ou ações. Somente em Dt 4,8 se diz que os estatutos (~yQIïxu) e os juízos (~yjiÞP’v.mi) são justos (~qI+yDIc; = ṣaddiqîm). Quando se diz que Deus é ṣaddiq, no contexto se
encontra regularmente uma ação com a qual Ele mostra a sua justiça. Não se descreve uma virtude estática de Deus, mas sim a sua intervenção salvífica. Deus é justo enquanto salvador e libertador (Is 45,21). Nesse contexto ṣaddiq é usado paralelamente com outros importantes termos (JONES, 1964): ḥannȗn, raḥȗm, ḥāsîd (dysiªx’;w> ~Wxår:w> !WNàx;) = benigno, misericordio-so e fiel, como se pode ver em Sl 112,4; 116,5, 145,17 (BAUER, 2000, p. 223).
Com suas ações justas, Deus põe fim à malvadeza dos ímpios e socorre os pequenos para fazer valer os seus direitos (Jr 20,12; Sl 7,10.12; 11,7; 129,4). O homem deve render honra a Deus proclamando que Ele é justo (Dt 32,4; Is 41,26; Sl 119,137). O acusado, em pleito com Deus, pode reconhecer que o adversário seja ṣaddiq e admitir a própria culpa (Ex
9,27; Jr 12,1). Mesmo quando se diz que Deus pune o povo pela sua malvadeza, Ele conti-nua a ser justo. A punição tem a intenção de reconduzir ao arrependimento (Sf 3,5). Assim, admitir-se que IHWH é justo e, por isso mesmo, pode-se esperar em sua consolação (LOF-THOUSE, 1938-9, p. 345).
Notável destaque é dado ao cuidado de IHWH pelos pobres e por aqueles que são oprimidos, que se encontra à mercê dos prepotentes, diante dos quais é impossível obter justiça. São pessoas a quem resta somente o recurso a Deus. Os “pobres de IHWH” rece-bem um significado moral e religioso: os humildes, os puros de coração, aqueles que põem a confiança em Deus, como se pode constatar em Sl 39,18; Pr 21,5 (VON RAD, 1958, p. 225s). Deus, rei e pastor do seu povo, toma a defesa dos fracos (Pr 22,22-23; Ex 34,2-4.10). Isso acontecerá de modo pleno nos tempos messiânicos (Sl 71,12-14; Is 25,1-8; Ez 34,11-31; Is 61,1-2). Os israelitas são exortados a cuidar especialmente das pessoas mais expostas à opressão (VERKINDÈRE, 2001, p. 11): órfãos, viúvas, estrangeiros (Dt 10,18-19), pobres e necessitados (Dt 15,11), aqueles que se encontram em qualquer aflição (Dt 22,1-4), escra-vos (Dt 23,16-17), endividados (Dt 24,10-11), o assalariado pobre (cf. Dt 24,14-15), etc. O justo deve tomar a peito a causa dos miseráveis, deve arrancar o oprimido do poder do opressor, deve tratar como um pai aos indefesos (Pr 29,7; sobretudo Eclo 4,9-10: “Arranca o injustiçado da mão do injusto e não sejas medroso no teu julgar. Sê para os órfãos como um pai e como um marido para as viúvas”).
Em Jr 23,5 se promete um ṣemaḥ ṣaddiq, qyDI_c; xm;c,ä, isto é, um renovo justo, o qual
reinará com sabedoria e fará mišpāṭ e ṣәdaqah (hq”ßd”c.W jP’îv.mi), direito e justiça. Em Zc 9,9
o rei é descrito como ṣaddiq, além de vitorioso e humilde. O rei é ṣaddiq quando se comporta justamente com Deus e com os seus súditos (2Sm 23,3)8.
O substantivo masculino ṣedeq (qd,c,) indica o princípio estabelecido, divino, mas
apresenta também o aspecto dinâmico de uma intervenção. O acento no dinamismo está presente em várias passagens. Em Is 51,5 Deus diz: “Perto está a minha justiça” (literalmente, “o meu [sic] justiça”: ‘yqid>ci); ela procede Dele e o segue (Sl 85,14). IHWH faz resplandecer
a justiça do salmista como a luz (Sl 37,6); a justiça do povo O precederá (Is 58,8). A justiça olha do céus (Sl 85,12). IHWH a faz descer das núvens (Is 45,8; Os 10,12). A justiça é como o cinto do rei (Is 11,5). Ela vai ao encontro do rei Ciro (Is 41,2).
Em outras recorrências a acentuação é posta sobre a estabilidade, sobre a certeza estática. O ṣedeq juntamente com mišpāṭ aparecem como fundamento do trono (Sl 89,15; 97,2). O rei ou o juíz deve amar o ṣedeq e julgar o ṣedeq (Dt 1,16; Sl 45,8; Pr 31,9)9.
Quando se esforça para obter ṣedeq, há um outro aspecto que se destaca: o direito é legítima pretensão que se baseia sobre a ordem fixada por Deus, mas também sobre a ação libertadora. Deve-se perseguir a justiça (Dt 16,20; Is 51,1), deve-se revestir da justiça (Sl
132,9; Jó 29,14). É preciso fazer justiça (Is 64,4; Sl 15,2; 119,121), dar ṣedeq a Deus (Jó 36,3), isto é, atribuir-lhe honra descrevendo corretamente Deus e sua obra (Is 62,2 onde justiça e a glória de Sião estão em paralelo). A atribuição a Deus da justiça se concretiza nos elementos concretos da relação com Deus e com a comunidade de Israel. Nesta perspectiva pode-se recordar uma série de passagens, onde se fala das “balanças justas” - qd<c,_-ynEz>amo - (Lv
19,36; Dt 25,15 = “pesos justos”; Ez 45,10 Jó 31,6), de sacrifícios justos - qd<c,_-yxeb.zI - (Dt
33,19; Sl 4,6; 51,21). Essa prática da justiça é condição para que Israel se torne o “lugar da justiça” - qd<C,Þh; ~Aqïm
.
- (Ecl 3,16), “morada da justiça” - qd<c,Þ-hwEn> - (Jó 8,6; Jr 31,23; 50,7). Siãotem uma vocação para ser a “cidade da justiça” - qd<C,êh; ry[iä - (Is 1,26), com “portas de justiça”
- qd<c,_-yrE[]v; - (Sl 118,19), onde habita um povo com “lábios de justiça” - qd<c,_-ytep.fi - (Pr 16,13).
O profeta Jeremias (Jr 22,13) acusa o rei de construir a própria casa sem ṣedeq ( qd<-c,ê-al{B.() e sem mišpāṭ (jP’_v.mi al{å), uma vez que o rei ideal (SWETNAM, 1965, p. 29s) deve
executar o direito e a justiça na terra (Jr 23,5). A ligação entre ṣedeq-mišpāṭ, justiça-direito (Dt 16,18; Sl 119,160) significa asseverar um sentença sobre a base da justiça. Os
mišpәṭê--ṣedeq (qd<c,ê-yjeP.v.mi) são os juízos ou mandamentos justos de Deus (Is 58,2; Sl 119,7.62,106),
pois Ele tem uma “mão destra de justiça” - qd,c, !ymiy> - (Is 41,10) e com “palavras de justiça”
- qd,c, tr:îm.ai - (Sl 119,123) Ele governa Israel, sendo “justo juiz” - qd<c,ê jpeävo - (Jr 11,20; Sl
9,5) a quem o pobre (cf. Sl 4,2) pode invocar como “Deus da minha justiça” - yqid>ci yheÛl{«a/ -
(WEIJDEN, 1952, p. 238)10.
A recorrência feminina do substantivo ṣәdaqah (157 vezes) vai além do masculino ṣedeq na direção da concretização (PROCKSCH, 1950, p. 569) e, como tal, recorre no plural ṣәdaqôt, como atos nos quais se manifesta a justiça. Há uma ṣәdaqah de IHWH cuja caracte-rística é a estabilidade, semelhante “às montanhas imensas” (Sl 36,7) que “se eleva até ao céus” (Sl 71,19:
~
Arïm’ñ-d[; ~yhiªl{a/ ^ït.q'd>ci = a tua justiça ó Deus se eleva até às alturas), que jamaiscessa (Is 51,6 = tx’(te al{ï ytiÞq’d>ci = minha justiça não terá fim), porque existirá para sempre (Sl
112,3: d[;(l’ td<m,î[o Atªq’d>ciw>÷ = a tua justiça permanece para sempre), por toda a eternidade (Sl
119,142: ~l’_A[l. qd<c,ä ^åt.q'd>ci). Deus se reveste de ṣәdaqah como de uma couraça (Is 59,17: !y”ër>ViK; ‘hq’d”c. vB;Ûl.YI = revestiu-se da justiça como de uma armadura).
A ṣәdaqah é sobretudo a intervenção positiva e salvadora de Deus, mas também é um compromisso que o povo deve assumir (Dt 6,25: taZO©h; hw”åc.Mih;-lK’-ta, tAfø[]l; rmo’v.nI-yKi( WnL’_-hy<h.Ti( hq”ßd”c.W = Serás justiça para nós quando tivermos cuidado de cumprir todos estes
mandamentos). Trata-se da justiça forence (VELLA, 1964, p. 137). Ao restituir o mando do pobre, então sim isto será justiça diante de IHWH (Dt 24,13: hw”ïhy> ynEßp.li hq’êd”c. hy<åh. Ti ‘^l.W). Em Gn 15,6 a ṣәdaqah é computada por IHWH a Abraão; em Gn 15,6 (hq”)d”c. ALß h’b,îv.x.Y:w: hw”+hyB;¥ !mIßa/h,) pelo seu ato de fé (VON RAD, 1951, p. 130).
Na literatura sapiencial, em geral, as recorrências de ṣәdaqah expressam tanto a atividade divina quanto a humana. A justiça, fruto do espírito infundido, habitará no jardim (Is 32,16: bve(Te lm,îr>K;B; hq”ßd”c. = habitará no pomar). Ela liberta da morte (Pr 10,2; 11,4: tw<M”) mi lyCiîT; hq’ªd”c.W÷), proteje os que caminham na integridade (Pr 13,6: %r<D”_-~T’ rCoæTi hq’d”c.â).
De outro lado, a terra faz brotar a justiça (A resposta do homem à ṣәdaqah de IHWH é a proclamação do seu louvor e da sua justiça: Sl 22,32; 40,11; 51,16; 71,15; Mq 6,5). Se Israel observasse os mandamentos de IHWH, a sua paz seria como um grande rio e a sua ṣәdaqah como as ondas do mar (Is 48,18; Am 5,24: a justiça como um rio perene).
A ṣәdaqah, como movimento de concretização de ṣedeq, está em relação com um movimento, comparada frequentemente com a água ou com algo em crescimento ou
desen-volvimento (Is 61,11:
‘
hq’d”c. x:ymiÛc.y: hwI©hy> = IHWH fará brotar a justiça; Jl 2,23: hr<ÞAMh;-ta, ~k,²l’ !t:ïn”-yKi( ~k,êyhel{)a/ hw”åhyB; ‘Wxm.fiw> WlyGIÜ hq”+d”c.li = Alegrai e exultai no IHWH, vosso Deus,porque Ele vos dará a chuva em justiça; cf. também Am 5,7; 6,12; Sl 72,3; Pr 11,18). CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em conclusão, embora em muitos casos o substantivo masculino ṣedeq e o femini-no ṣәdaqah seja intercambiáveis, há, contudo, uma diferenciação de uso11. O ṣedeq,
sobretu-do na linguagem metafórica está mais ligasobretu-do com o céu, enquanto a ṣәdaqah está mais ligada à terra e à sua fertilidade. Referidos a IHWH, ṣәdeq e ṣәdaqah parecem sinônimos, pois Ele é garante do princípio da justiça celeste e ao mesmo tempo Ele mesmo intervém para que ṣedeq se torne ṣәdaqah na terra. Da mesma forma, as ações humanas justas expressam, fazem crescer e frutificam a ṣәdaqah na terra12.
A Bíblia judaica proclama a justiça, o que é ser justo, e como fazer justiça. Há pouco interesse no que seja a justiça, do ponto de vista abstrato. Insiste, ao contrário, em exemplos de justiças e injustiças na vida do povo. A tarefa da tradução de ṣdq é, em última instância, de tornar viva para o presente a visão de justiça que formou as vidas dos escritores bíblicos. Verdade é que a interpretação da bíblia é sempre determinada pelo contexto social do intér-prete. Lutero, por exemplo, se debateu com o problema, na baixa Idade Média, da relação de um Deus justo com a humanidade pecadora e traduziu o Deus da justiça em Deus de amor. Hoje a tarefa parece ser inversa, isto é, a de traduzir o amor de Deus em ações de justiça para com o próximo.
Notas
1 Nossa análise se restringirá ao conceito e alguns usos do termo fundamentalmente na versão hebraica do Antigo Testamento. Para uma ideia satisfatória do uso do termo em grego, dikaiosyne (=justiça) e seus limites na versão grega Septuaginta pode-se consultar A. DESCAMPS, La justice de Dieu dans la Bible grecque. Studia Hellenistica 5 (1948), pp. 69-92. Também excede ao nosso propósito o tema da justiça e da justificação dentro da teologia do Novo Testamento. Para uma ideia fundamental das discussões se pode consultar: J.M. FIEDLER, Der Bregriff der δικαιοσυνη im Evangelium des Matthäus, auf seine Grundlagen untersucht. Diss., Halle, 1957; E. KÄSEMANN, Gottesgerechtigkeit bei Paulus. ZThK 58 (1961), pp. 367-378. Para uma ideia do tema da justiça na literatura de Qumran e sua influencia em Paulo se pode consultar: W. GRUNDMANN, Der Lehrer der Gerechtigkeit von Qumran und die Frage nach der Glaubengerechtigkeit in der Theologie des Apostels Paulus. Revue de Qumran 2 (1960), pp. 237-259.
2 Foge ao nosso escopo uma análise das influências dos Códigos de Leis do Antigo Oriente sobre a legislação e jurisprudência em Israel e suas práticas de justiça. Para tal se pode consultar: BOTTÉRO, Jean. Mesopotamia: Writing, Reasoning and the Gods (Traduzido por Zainab Bahrani e Marc van de Mieroop) Chicago: University of Chicago Press, 1992. BOECKER, Hans Jochen. Law and the Administration of Justice in the Old Testament & Ancient East (Traduzido por Jeremy Moiser), Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1980. Para uma abordagem feminina se pode ver: PRESSLER, Carolyn, “Sexual Violence and the Deuteronomic Law”, In: Athalya Brenner (Org.), A Feminist Companion to Exodus to Deuteronomy (FCB, 6; Sheffield: Sheffield Academic Press, 1994). WASHINGTON, Harold C., ‘“Lest He Die in the Battle and Another Man Take Her”: Violence and the Construction of Gender in the Laws of Deuteronomy 20-22’, In Bernard M. Levinson, Victor H. Matthews and Tikva Frymer-Kensky (Orgs.) Gender and Law in Hebrew Bible and the Ancient Near East (JSOTSup, 262; Sheffield: Sheffield Academic Press, 1998, pp. 185-213.
3 Vale lembrar que estamos no horizonte teocrático de Israel, no qual Deus dá a sua lei por meio de Moisés. Historicamente, que os resultados do labor legislativo de Israel estão essencialmente agrupados no Pentateuco, a Torá. Três textos fundamentais de inegável importância constituem as coleções de leis que se relacionam mais particularmente com a vida social e econômica, sem excluir, todavia, as prescrições cultuais sobre o
santuário e as festas religiosas. Todavia, o direito israelita poder ser dividido, em razão do conteúdo, em seis códigos, que por ordem cronológica são os seguintes: 1- Código da Aliança (Ex 20,22-23,19): séculos IX e VIII (com tradições que remontam a Moisés); 2- Código cultual ou Decálogo ritual (Ex 34,10-26): século IX; 3- Código Deuteronômico (Dt 12-26): segunda metade do século VII; 4- Decálogo (Ex 20,2-17; Dt 5,6-21): duas redações (séculos VIII-VII) com ligeiras mas importantes variantes, enxertadas nas narrações do Sinai até o final do século V; 5- Código de Santidade (Lv 17-26): nos tempos do Exílio, século VI; 6- Código Sacerdotal, cujos elementos legais se encontram dispersos por todo o Pentateuco: século V (inclui algumas leis antigas, anteriores a Moisés?). Para mais detalhes de pode consultar ALT,A., Die Ursprünge des israelitischen Rechts. Leipzig 1934 [= “The Origins of Israelite Law”, in: Essays on Old Testament History and Religion (Traduzido por Robert A. Willson), Garden City, NY, Doubleday, 1967, pp. 101–171.
4 A primeira ocorrência do substantivo “justiça” está em Gn 15,6: “Ele (Abraão) creu no IHWH e isso lhe foi imputado como justiça”, ao passo que o adjetivo “justo” figura em Gn 6,5: “Noé era homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos; Noé andava com Deus”.
5 A maior parte das recorrências deste verbo se encontra no livro de Jó (17 vezes) e raramente em outros livros do Antigo Testamento.
6 Entre outros textos, Gesenius (1992, p. 702s) cita as passagens de Sl 23,3 para a acepção originária de “andar reto”; os textos de Sl19,10; 51,6; 143,2 para “ser justo”; os trechos de Gn 38,26; Jó 9,15.20 para “ter uma justa causa” e os textos de Ex 23,7; Jó 33,32; Ez 16,15 para “declarar, tornar alguém justo”.
7 As ocorrências estão em Ex 23,7; Dt 25,1; 2Sm 15,4; 1Rs 8,32; Is 5,23; 50,8; 53,11; Jó 27,5; Pr 17,15; Sl 82,3; Dn 12,3.
8 Para um tratamento mais extenso sobre o justo se pode consultar o texto de R. VOELTZEL, Le juste, RHPhR 62 (1982), pp. 233-238.
9 Para um estudo mais detalhado sobre o papel do rei em relação à justiça se pode consultar Keith W. WHITELAM, The Just King. Monarchical Judicial Authority in Ancient Israel. In: JSOT Supplement Series 12. Sheffield: 1979. Sobre o rei como o executor da justiça em favor dos pobres, pode-se consultar Valmor SILVA, O rei como juiz de pobres, órfãos e viúvas, em provérbios do Antigo Oriente Médio e da Bíblia. In: Caminhos 13 (2015), pp. 254-269.
10 Trata-se da tese de doutorado de Athanasius H. van der Weijden, “Die ‘Gerechtigkeit’ in den Psalmen” (Nijmegen, 1952), defendida em 1950 no Instituto Bíblico de Roma, que indaga sobre a dimensão da “justiça” (ṣedeq) em base aos textos. Na primeira parte trata da justiça em relação aos homens (p. 1-126) e analisa a terminologia concernente aos justos. Amplo espaço é dado ao agir dos justos em contraposição ao agir dos malvados e seu destino. Na segunda parte o autor indaga sobre a justiça em relação a Deus (pp. 127-240), em particular aprofundando o apelo à justiça de IHWH e o louvor da sua justiça. O autor define o justo (ṣaddiq) com uma série de sinônimos: reto, fiel, temente a Deus e servo de IHWH (cf. p. 80). 11 A. JEPSEN (1965, p. 78-99) e H. H. SCHMID (1968) fazem distinção entre as duas palavras. Jepsen sugere
que ṣedeq refere à reta ordem na comunidade; enquanto ṣedeqah se refere à order na criação. A justiça de Deus é o seu desígnio salvador em ação (1965, pp.76, 81). Schmid segue Jepsen. Para Schmid, ṣedeq diz respeito à ordem adequada enquanto sedeqah significa a ordem adequada do mundo. De acordo com Schmid, ṣedeq relaciona-se à ordem em seis esferas: lei, sabedoria, natureza, culto, reinado e guerra (1968, pp. 67,179).
12 Para mais elementos sobre a evolução do campo semântico do conceito em questão se pode consultar Elio TOAFF, Evoluzione del concetto ebraico di ṣәdaqâ, (1969), pp. 110-122.
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