• Nenhum resultado encontrado

Da relacional antropologia franciscana

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Da relacional antropologia franciscana"

Copied!
10
0
0

Texto

(1)
(2)

III memoriam

de

PEDRO P ARCERIAS (2112/1971-271712007)

ANTONIO PEREZ-ESTEVEZ (1933-1/6/2008)

Entre 0 convite para participar do presente volume e a preparayao do mesmo para ediyao,

e1es partiram para me1hor vida

JoAo

DUNS SCOTUS

(1308-2008)

Homenagem de scotistas lus6fonos

~

Luis A. De Boni

( arg.)

Roberto H. Pich, Joice B. da Costa, Cleber E. S. Dias, Thiago S. Leite

( co-organizadores)

ediPLICRS

UNIVERSlDADE

SAO FRANCISCO

Porto Alegre / Bragan,a Paulista 2008

(3)

© dos Autores

1 ~ edic;:ao: 2008

Capa e selepio de ifustrQ(;iies capitulares: Joice Bealriz da Costa

Jlllstra~iio da capa.·

Trabalho sabre vitral da Minaritcnkirche (K6In), no qual Duns Scatus

e

rcprcsenrado. Fonte dus ilustrQ(;oes:

www.centrodunsscoto.it/TN _1_ 200/iconografia Revisiio:

Luis Alberto De Bani e Thiago Soares Leite Projeto grafico e editora(iio:

[email protected]

Dados Internacionais de Cataloga9.1a na Publicac;:1io (CIP) J62 Joao Duns Scotus (1308~2008): homcnagem de scotistas lusOfonos I

Luis Alberto De Bani (Org.) - Porto Alegre: EST Edi<;oes; Braganr;a

Pauli,ta: EDUSF, 2008.

382 p.; 16x23cm.

ISBN 978-85-7517-107-3 (EST Edi,ile,) ISBN 978-85-7793-001-2 (EDUSF) ISBN 978-85-7430-800-5 (EDlPUCRS)

I. Antropologia 2. Cultura 3. Scotus, Joao Duns I. Titulo

If. Boni, Luis Alberto de.

CDU 572

BlblJotecana responsive1 KatJa Rosi Possobon CRB1011782

e

ediPUCRS

Av. Ipiranga, 6681 - Predio 33

Caixa Postal 1429 90619-900 - Porto Alegre - RS

Fone/fax: (51) 3320,3523

E-mail: [email protected] www.pucrs.br/edipucrs

Rua VCrlssimo Rosa, 311

9061 O~280 - Porto Alegre, RS Fone/fax: (51) 3336,1166 E-mail: frei ro vi I i [email protected] www.csleditora.com.br EDITORA UNIVERSITAAlA

sAo

FRANCISCO

Av. Sao Francisco de Assis, 218 Jardim Sao Jose J Prcdio Central 12916-900 - Braganc;:a Paulista-SP Fonc: (11) 4034-8448/4034-8092 Fax: (I 1)40341825 E~mail: [email protected] www.saofTancisco.edu.br/cd us f

Sumario

Contexto cultural da primeira fonnal'ao de Joao Duns Scotus 9

JoaoLupi

2

A faJacia de peti,ao de principio em Duns Scotus

15

Guillerme Wyllie

3

Duns Scotus e os universais logicos

25

nas Quaestiones ill PO/phyrii Isagogem Carlos Eduardo Nogueira Loddo

4 A teologia e seu metodo no prologo da Ordinatio de Duns Scotus

83

Sinivaldo

F.

Tavares

5

Joao Duns Scot e a subaitemal'ao das ciencias

108

Carlos Arthur Ribeiro do Nascimento

6

Duns Scotus sobre a credibilidade das doutrinas contidas nas Escrituras

125

Roberto Hojineister Pich

7 J oao Duns Escoto e 0 argumento anselmiano

156

Maria Leonor L. 0, Xavier

8

A questao da Onto-Teologia e a Metafisica de Joao Duns Escoto

175

Joaquil1l Cerqueira Gom;alves

9

Teologia positiva e Teologia negativa em Duns Scotus

186

Cesar Ribas Cezar

10 Sobre a univocidade do ente: Ockham leitor de Scotus

198

Pedro Leite Junior

11

Ontologia e teoria dos transcendentes na Metafisica de Duns Scotus

206

Thiago Soares Leite

12

Duns Scotus e sua Metafisica da Natureza 224

Antonio Perez-Estevez

13 A nOl'aO de individual'ao em Sao Tomas e Duns Escoto

235

Maria Malloela Brito Martins

14

Duns Escoto e 0 conceito heterogeologico de Tempo

253

(4)

IS Da relacional antropologia franciscana Jose M. S. Rosa

16 A lei natural em Duns Scotus Alfi'edo Culleton

17 Duns Scotus: a Politica Luis Alberto De Boni

18 Beditio Iterata: Scorns e as bases antropol6gicas da ressuITeiyao Andre Domingos dos Santos Alonso

19 Escotistas portugueses dos seculos XIV e XV Jose Francisco Meirinhos

20 Em tomo da recepyuo do pensamento de Joao Duns Escoto no Portugal quinhentista: 0 caso dos Jesuitas de Coimbra Mario Santiago de Carvalho

21 Bibliografia escotista - autores lus6fonos e bibliografia em lingua portuguesa Cleber Eduardo dos Salltos Dias indice onomastico 281 291 298 314 330 348 358 375

Apresenta9ao

o

presente volume constitui a contribuiyao de colegas lus6fonos as homenagens que estao sendo prestadas, em diversos paises, a JoJo DUllS Seotus, no ano em que se recorda 0 setimo centem\rio de seu falecimento. Com a mesma finalidade, alem deste trabalho, sen, realizado, no mundo lus6fono, urn congJ'esso na cidade do Porto e outro em Curitiba; ja em Porto Alegre, 0 Programa de P6s-Graduayao em Filoso-fia da Pontificia Universidade Cat6lica do Rio Grande do SuI dedicou a Duns Sco-tus 0 numero de setembro/2008 da revista Veritas.

Dentro do movimento, iniciado no final do seculo XIX, e que poderiamos clas-sificar como "redescoberta da Filosofia Medieval", a figura do Doctor Subtilis per-maneceu inicialmente um tanto it margem, embora nao ignorada, Alguns trabalhos pioneiros, da primeira metade do seculo XX, foram trazendo it tona urn pensador singular, dono de uma sintese filos6fico-teol6gica que nao se enquadrava nos es-quemas gerais em que se buscava, por vezes, encaixar todos os medievais. Depois, no decoITer do tempo, gray as ao ingente trabalho editorial da COlllmissio Scutistiea e do Franciscan Institllte (S1. Bonaventure), cujos resultados comeyaram a aparecer a partir de 1950 e prosseguem ate hoje com a ediyao das Opera Omnia, e grayas tambem aos inumeros congressos organizados a partir do setimo centemirio do nas-cimento de Scotus, houve uma mudan,a, que poderiamos qualificar de "radical", nos estudos scolistas.

Seculo XX adentro, por muitas vezes tentou-se harrnonizar Tomas de Aquino e Duns Scotus, it semelhan,a do que se procurara fazer com Platao e Aristoteles, pri-vilegiando, pon:m, a Tomas.

E

que na IgJ'eja Catoliea, a partir do Concilio de Tren-to, inslituira-se um ci'tnon de ortodoxia centralizado no Aquinate, cimon esse que veio a ser reforyado pel a Aeterni Patris, de Leao XIII, em 1879, e que ainda foi repetido por Joao Paulo II. Nesse ambiente, os Patres Editores de Quaracchi, na primorosa ediyao critica (1881-1901) da obra de sao Boaventura, em vez de ressal-tarem a originalidade de um dos maiores pensadores do seculo XIII, procuraram mostrar a consonancia do pensamento bonaventurino com 0 tomasiano. Nada a es-tranhar que 0 mesmo tenha acontecido com diversos scotistas, como se po de

consta-tar ate mesmo em alguns lextos, de born nivel, alias, provenientes dos primeiros congressos em homenagem a Scorns, a partir de 1966.

Mas os tempos mudaram. 0 leitor da presente obra nao eneontrara urn sequer, dentre os 21 textos que a comp6em, que ainda lei a Scorns e Tomas de Aquino em

(5)

_ _ _ . Systeme nouveau pOllr exp/iqller /a nature des substances clfeur COlllfllllllicatiolJ entre efles Qussi bien qlle /'/l1li01l de I'ame avec Ie corps. In: 10. Die philosophischen Schr!ften. Ed. C. Gerhardt'

Hildesheim: Georg Holms, 1961 (v. IV). '

_ _ _ Carta a De Bolder. In: ID. Die philosophischcf/ SchriftclI, Ed. C. Gerhardt. Hildcsheim: Georg Holms, 1961 (v. II).

. Carta Q Foucher. In: !D. Die philosophischell Schriftell. Ed. C. Gerhardt. Hildesheim: Georg

Holms, 1875 (v. I).

LYOTARD,1. -F. Economie libidinal. Paris: Minuit, 1974.

MAURicro DO PORTO HIBERNICO. Allllotafiollcs if/ioanllis DUlls Scoli theoremata. MOBIUS, A. F. Der barycclllrische Ca/cul. Leipzig: Johann Ambrosius Barth, J 827.

PARCERIAS, P. La pIer/lOre de I'etan/: multitude et devenir in via Scoli. Matosinhos: Fieri, 2006 (no prelo).

_ _ _ "Heterogeneidade c afirmac;ao do cnte: Duns Escoto e a estrutura da ontologia". Revista filosafica de Coimbra 25 (2004), p. 95-128.

_ _ _ . Pensar 0 excesso, P0l1o: Ediyoes Mortas, 2002.

_ _ _ . Duns Escoto. 0 pensind e u melajisica virtual. Volume monognifico de Medi{Cvalia. Textos e eSlIIdos 19 (200 I).

PLATAo. Parmellides. Plato Werke ill Acht Baendell. Griechisch unci Deutsch. ed. G. Eigler, Darmstadt: WBG, 1980.

PRIGOGINE, 1. La/in des cel1itudes. Paris: Odile Jacob, 1996.

SCHMIDT, A. "The concept of lime in theology and physics". In: BOULNOIS, O. ct a!. (cd.), Duns Scot

a

Paris 1302-2002. Tumhout Brepols, 2004, p. 595-606.

STENGERS, I. Cosmopo!itiques fI. 211 cd .. Paris: La decouverte/Poche, 2003.

WHITEHEAD, A. N. Process and reality. Ed. D. R. Griffin & D. W. Sherburne. Nova Iorque: The free press, 1978.

_ _ . "Axioms of geometry". In: rD. Science and philosophy. Nova Iorque: Philosophical library, 1948.

"Time". In: BRIGHTMAN, E. S. (Ed.). Proceedings of the sixth illlemaliollal cOllgress

0/

philosophy. Nova Iorquc: Longrnans Green, 1927, p. 59-64.

· COl/cept a/nature. Cambridge: CUP, 1920.

· Axioms o/projective geomet,:v. Cambridge: CUP, 1906.

· A treatise oJ/universal algebra, with applications. Cambridge: CUP, 1898.

WOLTER, A. B. The trallscendentals alld their jimetioll ill the metaphysics of DUllS Sea/us. Nova lorque: Franciscan Institute Publications, 1946.

280 Pedro Parcerias

Jose M, S, Rosa'

15

Da relacional antropologia

franciscana

**

1. Come~amos com urn paradoxo, pelo menos aparente: urn dos momentos altos

da antropologia franciscana reside na f6nnula de Joao Duns Escoto de que a perso-na est ultima solitudo (a pessoa e uma solidao derradeira). Esta expressao ocorre varias vezes na obra do Doutor Subtil. Afinna, por exemplo, na Ordinatio': Ad per-sonalitatem requiritur ultima solitlldo, sive negatio depen<ientiae actllalis et aptitu-dinalis ad personam alterills naturae (Para a personalidade requer-se a ultima soli-tudo ou nega~ao da dependencia actual ou aptitudinal). Duns Escoto interpretava assim a "pessoa" como uma radical nao-dependencia ontol6gica, vincando neste preciso sentido a ideia de incomlnullicabilitas, recolhida da definiyao pessoa de Ricardo de Sao Victor: Persona est intelleclualis naturae incolnmunicabilis existen-tia (A pessoa e uma existencia incomunicavel de natureza intelectual)2

A questao que emerge e, pois, a seguinte: como

e

que a afinna~ao de Duns Es-coto, considerada por alguns historiadores da filosofia como predecessora da mo-dema viragem para a subjectividade, e ate acusada de ter caucionado, por

antecipa-~ao, 0 individualismo e 0 solipsismo de uma res cogitans auto-subsistente, qual

ontologizayao do cogilo, ou, ainda, de ter pennitido uma interpreta~ao oclusa da

no~ao "pessoa" - "m6nada sem portas nem janelas" -, como e que tal definiyao de

"pessoa ", repetimos, pode ser considerada como expressao maior de uma antropo-logia relacional? Seria inutil responder: "Born, 0 Doutor Subtil nao e 0 unico

repre-sentante da Escola Franciscana, Regressemos a Boaventura e ao BreviloquiulIl, a De Reductione artiulIl ad theologiam, ou ao texto De mysterio Trinitatis, entre outros, e ai encontraremos uma antropologia indiscutivelmente relacional, sem as subtilezas de Duns Escoto". De facto, nao

e

esta escapat6ria facil, estulta alias, e em qualquer caso erronea, que nos interessa prop~r, ate porque, como havemos de reiterar, a nossa leitura ve na afinna,ao de Joao Duns Escoto justamente 0 coroamento

filos6-'" Universidade da Bcira Interior (Covilha).

"'* Dedico este lexto aDS meus Profcssores Manuel Barbosa da Costa Freitas, OFM e Joaquim Cerqueira Gonya!vcs,OFM.

DUNS ESCOTO. Ord. III, d.l, q.1, n. 68: IX, p. 32. RICARDO DE sAo ViCTOR. 4, 22; PL t 96, p. 945.

(6)

, "'J

fico do horizonte relacional que marca toda a mundividencia franciscana desde a

, 3

sua ongem .

De facto, se olharmos para a experiencia religiosa de Francisco de Assis4, bern como para a da comunidade primitiva daqueles que se lhe juntaram, em ordem ao sonho de uma fratemidade radical, nao podemos deixar de reconhecer nessa

experi-encia as marcas intensas de uma vida in statu nascendi, vida nova, vivida sob 0

signo da rela,ao: de rela,ao com os elementos do mundo - haven:' texto de maior familiaridade oikol6gica e ontologica com 0 universo' que 0 Cantico di Frate Sole de Francisco? -; de rela,ao com os outros e consigo proprio; de rela,ao, enfim, com o Altissimu, onnipotente e bon Signore. E a base desta intensa vida em rela,ao

e

a auscultayao da experiencia evangelica, guiada pel as afirma,oes fundamentais da tradi,ao crista confessante: a doutrina da Encarnayao do Verbo, a confissao do Deus-Trindade e a doulrina da mistica rela,ao da alma com Deus, na Escatologia.

Estamos pois, convictos de que, independentemente do modo como a posterior

experiencia franciscana evoluiu e se compos em inumeras variayoes, se fraccionou

em anarquismos misticos mais ou menos heterodoxos (espirituais, ji-aticelli, joa-quimitas, etc.), ou superiormente se foi exprimindo nas sinteses filosoficas e teolo-gicas de Alexandre de Hales, de Boaventura e de Duns Escoto, a experiencia evan-gelica de Francisco, radicalmente diferenciadora, e 0 seu modo de viver as verdades da fe que professava foram sempre 0 ponto de referencia, a ancora e 0 garante de

unidade da mundividencia franciscana, da sua sensibilidade filos6fica para 0 singu-lar e do seu estilo proprio de por as quest6es. Neste senti do, alias, e bern conhecida, v.g., a afirma,ao de Etienne Gilson, em rela,ao a Boaventura, de que este teria pen-sado e elevado as categorias filos6fico-teo16gicas aquilo que Francisco sentira e vivera6, 0 lntinerarium mentis in Deum seria, assim, 0 Cantico di Frate Sole ao jeito proprio de Boaventura. Gilson, evidentemente, nao queria significar com isso que Boaventura apenas intelectualizou 0 que ele proprio nao teria vivido. Bern pelo contrario: queria exprimir apenas que Boaventura, afinando filosoficamente a expe-riencia vital de Francisco, a elevara as exigencias da racionalidade crente, exigen-cias estas que naturalmente 0 Poverello de Assis nao sentira e as quais so

excepcio-nal e relutantemente teria acedido, ja no fiexcepcio-nal da sua vida, permitindo que 0 Trmao Antonio de Lisboa estudasse teologia para assim melhor poder pregar e explicar a

sacra pagina aos irmaos.

2. Se a fei,ao relacional da antropologia franciscana encontra a sua raiz teologi-ca fundamental na doutrina da Trindade e na afirmayao veterotestamentaria do ho-1110 imago Dei, a expressao mais humana daquela encontra-se na atirmayao da En-carna,ao do Verbo. Mais tarde, Duns Escoto referir-se-a ao "primado absoluto de

3 Com uma rcscrva para Guilhcnne de Ockham, para quem a ad aliqllid e sempre e 56 acidente. cr.

BE-RETTA, B. 1999,

4 Cf. S. FRANCISCO DE ASSIS. Fontes Franciscanas. Escritos. Biograjias, 1982 (especiahnente a I~ Parte, os "Escritos de S. Francisco", p. 51-161).

; Cf. GONCALVES, J. C. 1998. , Cf. GILSON. E. 1953, p. 40 e 55.

282 Jose M. S. Rosa

Cristo" como 0 "primado da Encama,ao,,7 De facto, a huma~ayao do Verbo, cuja contemplayao no presepio comovia Francisco ate as lagrimas, e essenclal para com-preender 0 trayo relacional ou, nO caso da Santa Humamdade de Cnsto, melhor se

devera dizer mediacional, que Vlmos sublmhando. .

Mas ja no primeiro Mestre da Escola Franciscana de Pan,s, Alexandre de Hales (JJSS-t124S), tal dimensao e eolocada em evidencia. Na N bl?UlSztlO da S~ml/la T11eologica II, toda dedicada ao tema De HOll1me, ~epOls de por em dJa 0 slatus quaestionis antropologica a luz das autondades - Seneca, Agostmho, Casswdoro,

o

masceno - e da classica doutrina do hilemorfismo anstotehco (0 homem como

~

composto 'de materia/corpo e forma/alma), acaba por conduzir a fundamentayao

~:

antropologia para 0 campo da teologia do homo imago Dei e, desta, para 0 tema

central da Encamay1io, expressao mais evidentissima da bon dade de Deus. 0 aspec-to inovador do Docaspec-tor irrejragabilis consiste em afirmar que 0 homem, todo :le, e

nao apenas a alma (apesar de nao negar superioridade formal da alma em rcla,ao ao corpo),

e

imago Dei. Com efeito,

a tese difundida por Alexandre de Hales Ii: a de que 0 mundo mate~ial nao resulta da queda do espirito numa esfera inferior, nem se trata de uma d~grada:ao de ordem ~n.to­ logica [segundo 0 esquema neoplatonico], mas de uma ~amfesta'Yao do amor dlYllO [bondade]. Neste universo, perfeitamente planeado e orga?lzado, 0, homem tern? .lugar

privilegiado, como fim de toda a cria'Yao. No homem reahza-se a smtese de matena es-pirito, de corpo e alma8.

Contudo, 0 modelt> por excelencia da relayao alma-corpo e 0 da Encamayao, segundo a qual 0 Verbo nao se valeu da sua igualdade com Deus" mas assuml~do a natureza humana habitou entre nos'. A Santa Humamdade de Cnsto aparece Gon;'~ modelo Mediador por exceli'ncia, orienta,ao que ainda e de extrac,ao agostlmana , apesar de tudo 0 que ja foi dito em contritrio sobre a cnstologla de Agostmho.

?

vinculo, 0 no, as nupcias e 0 abrayo entre Deus e a humamdade, que a E~carna,ao do Verbo patenteia, encontra 0 seu correlato antropologlCo na ~ehz umao entre a alma e corpo. Sintese de materia e espirito, 0 homem portanto, e todo Imago Del, expressao que the con vern mais que aosanjos (refor,o da tendenc13 antl-gnoshca).

7 DUNS ESCOTO. Ord. Ill, d. 7, q. 3, IJ. 55-72; IX, p. 284-291. APcsa~ da lese t~ol6gica do "prill1ado universal da Cristo" ser comum a muitos outros pensadores da I?ade Me.dla, a Ilovld:de ~e ,?uns Es:oto reside em deixar de suhordinar a Encamar;ao

a

Rcdenr;ao. A dlta "teona ham~rtlocel~tnea (que po: 0 pccado no centro da cconomia da salvar;ao) atinna que a Redenr;ao do ~e:ado c a ra~ao da Encamayao. Escoto por seu lado recusa subordinar a Encarnar;ao a qualquer condH;ao extern~ a vonta~c de D~us: D eus, qu r 'e endo livre~entc a Encamayao, nao pode ficar tolhido par llcnhuma condu;ao extenor, V b ' arnatum fii/sset alh~13 a sua vontade (tal como na Criar;uo). Quer dizer, utrum sf Adam no/] peccassel. er um /II~ _

(ainda que Adao nao tivesse pecado, 0 Verbo tena encamado) .. Cf. J. F. BONNEFOY .. 19)4, p. 327-68. MERINO J. A. 2004 p. 170 (0 autor cita as Glossa ill quat. Lib. Sent. Petri Lombar~l, ll, d. 1, n. ?6). .

9 Jo J, 14: '''Et verbwlI' caroJactlltl1 est e( habitavit fllllobis". Fi12, 5-7: "[ ... ] in .C/msto ~esu •. q~1 CL~m 111

Jorma Dei essel nOll rapillam arbitralus est esse se a~qll~lem Deo. s:,d semel lpsum exmall1vll IOll/lam servi accipiens in similitudinem hominum!acflis et habllullIvenlus [ ... ] . .

10 Espccialmente AGOSTINHO. De Trinital:, :'1m, v, 7.' p. 592-8; XIJI, x, 13.~ ~x, 26, p. 872-9:.8. Aq~1 se concentra 0 cssencial da cristologia agostllllana, conJulltamente com 0 Selnwo Do/beau 26, Co~t~a ~s

pagaos". Cf. BAILLEUX, E. 1971. p. 219-43;. REMY. G. 1991, p. 580-623; 10. 1979; SESBOU. ' 1988,

(7)

['

Cristo fez-se homem, nao anjo, 0 que impliea que a media,ao antropologica,

in-cluindo a corporea, e superior

a

angelologica. Acrescente-se que esta argumenta,ao de indole teologiea e fiducial nao reeusa, antes solieita, uma tematiza,iio e argu_ menta,ao filosofieas. E, no easo, a tematiza,ao passarol por uma recupera,iio positi-va da categoria da rela,ao em ambito prapriamente antropologico, que nao apenas na teologia lyinitaria (como se verifica em S. Tomas").

Assim, contra todas as formas larvares de gnose e maniqueismo, a "metaftsica da luz" que os Mestres de Oxford haviam aprafundado (verb; gratia, Roberto Gros-setesta, no opuseulo De luce sell de inchoatione Jormarum), lux de que a propria existeneia corporea e 0 esplendor (lumen), manifesta-se na valoriza,ao do corpo como uma inst1mcia positiva de rela,ao. Todo 0 universo, a come,ar pel a materia, e uma imensa cascata de luz. Estamos a urn passo do "exemplarismo divino do mun-do sensivel" de Boaventura e da ideia de que a luz amadurece e acorda as rationes seminoles latentes na cria,ao, desde 0 principio, solicitando depois a ac,ao do ho-mem, a come,ar pela actividade dos sentidos, tendo tal processo de "ilumina,ao" 0

seu auge na interioridade humana, sob a forma do conhecimento iluminativo e sapi-encia112.

Com efeito, apesar de nao estar total mente dirimida a questao de se Alexandre de Hales tera sido professor de Boaventura", este considera-se um seu continuador e perfilha integralmente a ideia de uma cosmo gonia luminosa - Dixit Deus: 'Fiat

IlL" - que converge para 0 "fruto madura" do universo sensivel, isto e, 0 corpo

hu-mano e, daqui, ate

a

ideia de Homem como sintese de corpo e alma, de acordo com um esquema diniimico de sucessivos incrementos de ser ou, por outras palavras, de determina,oes ontologicas cada vez mais ricas, cujo acumen se encontra na doutyina teologica da Encama,ao14. 0 Homem surge assim como 0 "termo" e 0 "meio" da cria,ao. ''Termo'' no sentido de que 0 mundo foi criado para 0 homem", a bem

II Quando Sao Tomas se interroga sabre "se 0 nome 'pcssoa' significa 'rcJar.;iio"!", responde que se for aplicada "as 'pcssoas divinas' significa uma rclavao subsistente" au "relavao rcal", Mas a n09ao de

"pessoa" fefenda ao homem

e

melhor dita pel a definit;ao de Boccio: "substancia individual de natureza

racion~I"> pais persona in hamillibus ef allgelis 11011 signijicaf relationem, sed aliquid absolutunI (cf.

TOMAS pE AQUINO. STh I, q. 28: "Dc relationibus divinis", c q. 29: "De Personis divinis", na integra). E este "elIoe origiller' au ambiguidade, presente no pensamento de S. Tomas. que da que pensar, confomlc as palavras de BRETON, S. 1951, p. 16: "Ce qui nOllsji'appe d'abord e'est une sONe d'aminomie. La relation aux dew: extremes du Ree/ represente, en bas, 'debilissifllllnl esse' et, dallS la Realite divine, 'id quod est dignissilllul/1 in natura rerum', a savoir, la persolllle. Ce qui II 'etail que pllCIIOmel1e d 'accompagllement, 'petite servallle', deviellt la rt?vJialion de ia Trilllfe. Ce passllge d'lIl1

'illJini a /'autre' mllrque une ambiguiu! du relatif que 'wus al/rolls a eclaircir"

12 Se estamos a urn passo de Boaventura, estarnos a dais de Duns Escoto c da doutrina da "fonna da corporcidadc", pela qual 0 corpo

e

Olais do que materia, adquirindo densidade onlol6gica propria, orientada, bern diferente de uma mera "coisa".

II Se, como se cre, dcu entrada na Ordem em 1243, pode ainda ter sido aluno de Alexandre de Hales, que morreu em 1245. Mas nao

c

certo que 0 tenha sido.

14 Cr., v.g., BOA VENTURA. BreviloquiulIJ, IV; V, p. 241 ~52.

15 Cr., BOA VENTURA. Brevifoquium, 11, n. 9~11; V, p. 226-30. AGOSTINHO. De Civitate Dei, XJI, 20,4; PL 41, p. 371: "Hoc ergo ut esse!. creaws esl 1I0mo, ante quem Ill/liliS/uil".

284

Jose M. S. Rosa

. . . " . . I robrar a

afirma~ao

agostiniana, e "meio" no sentido (tambem agostiniano'6) de , ;ue se ele encontra entre 0 mundo e Deus, entre 0 finito e 0 infinito, em vlrtude de

ser siroultaneamente criatura temporal e espmtual. . . . . , .

De nOVO 0 homem surge como um no ou feixe de posslbilldades: Ja nas clo:o ortas do corpo, isto e, pelos cinco sentidos17, 0 homem'8apresen:a uma

dlme~~ao

p seneialmente relacional e de abertura a todo 0 umverso . Tambem 0 tema aJ lstO-e~r de que "a alma e capaz de ser todas as coisas"" (unico lugar, no Estagmta,

:n~eo

haveria possibilidades para uma doutrina positiva sobre a re1a,ao,

afirm~,M.

Baptista Pereira'o), e aqui recuperado e transftgurado segundo a doulnna das

!lu-mina90es". . " , 2 1 fi _

Deste modo., ao inves da convic,ao dos pltagoncos e de Empedoc1e~ , re or,a da pelo Fee/on de Platao, de que 0 corpo

e

um tumulo para a al:na .(celebre tropo

eufonico: s6ma-sema, corpo-tumulo), para Boaventura a alma naO e de modo ne-nhum prisioneira aqui em baixo; 0 corpo nao e essa "lama que SUJa as asas da alma e faz decair do sequito de urn deus". Pelo contrario: a alma_esta deJacto no corpo Mal's "a alma nao e totalmente fehz se nao estlver ul1lda ao

cor-como em sua casa. , . _ - . 1 ~

0,,22. Por isso, se houve algum desarranJo na cna,ao, tal nao resultou das lo!

uen-~ias

nefastas do corpo, mas da subversao da vontade.

~pesar

dlSSO, por ,;la

boecla-na Boavenlura acolhe sem problemas as teses anstotellcas do homem ammal ;a-.' 1,,23 e da alma como "forma do corpo". De facto, para Boaventura a alma e a

ClOna , . . d' 'd se

forma do corpo. Todavia, dejure, naD carece da matena para se 10 lVl uar, como estivesse sujeita

a

necessidade especifica de informar um corpo e, presa desta. ne-cessidade, acabasse por perecer com a sua corrup,ao. ASSlm, ao mformar de

Ja~to

0 corpo mais do que uma necessidade especifica antenor ou de qualquer c~rencla ontol6gica, a alma espelha aO seu nivel a mesma bondade

d~divDsa

do PnnclplO

.~o

ser e, mais ainda, a bondade generasa patente na Encarna,ao: :ender para a umao com 0 corpo e nela um desejo de comunica,ao das suas perfelyoeS, de se doar gra-tuitamente, nao a expressao de indigencia Ontiea. A rela,ao entre alma e co~o ex-prime de Jacto 0 apetite natural e a mutua inclina,ao com que Deus, na cna,ao, os

. 24 A ' . 's de buscar um corpo para receber dele um supposllUIIl

mate-untu. SSlm, ao mve .

rial, no sentido de que sem se unir a ele seria uma forma 1Ocompleta (confonne a doutrina tomista), a alma une-se natural mente ao corpo para conslltUlr uma

tolallda-. 8 7' PL 35 P 2039' "Supra Ie deus' infra Ie pecora:

16 AGOSTINHO. III episltl/am fohal1l1lS ad ParlllOs, ." . ',," ,

a Ilo~ce eum qui .wpm te est, ut agnoscant Ie quae Infra te sllnl '. ' . ' ,,'

17 c~ BOAVENTURA DE BAGNOREGIO. De Redllctione arlmm ad fheologwlIl, 3. 10. 111~,ela.lll1m

. . . D 2 3· "Hoilio igilur qui didlur minlls mUlIdus, habet quinque sensus quasI qumque mentis III eum, , . ' . , . ' . . , "

porlas, per quas intral cogllilio oll/niuIlI, ql/ae sun! in 1~IWldo sellslblfl. lfl all/mam IplUS

18 Cf. AGOSTINHO. Con/essiolles, X. VI. 9, p. 448 pasSl1Il.

19 ARISTOTELES. De Anima, JIl, 429 a 10. " PEREIRA. M. 8.1990. p. 166.

21 cr. as "Purificayoes" em BOLLACK, J. EmpMoc/e, 1965~9.

22 BOA VENTURA Serl1lo fin Sabalo Sallcto, 4; IX, p. 267. . I 23 . 'b' S I d 25 . I q 2 concl· 1 p. 439: "Homo est animal ratIOnale, morale; et IOC

ID. Comm. 11l II. en!. " , a. , . , ." . , el hoc modo solum aggregatu/11 modo vemlll esl, quod definitio dicil aggregatiollem el composlllOnem.

est definibiie ". . - )

24 cr. ID. Brevi/oquil/f/I, p. VII, c. 5;V, p. 286s. (0 contexto coda ressurrcH;ao dos corpos .

(8)

i

, I I I

I

II

de perfeita, um~_ unidade essencial, urn homem: isto

e,

uma existencia humana con_ creta e smgular-).

3. Para Boaventura, a alma pode entender-se como uma instancia radicalmente comunicativa e relacional; encontra-se au carrejaur do reel, orientada para fora para dentro e para cirna. Confira-se, verbi gratia, 0 Itinerarium mentis in Deum I'

4: Mens nostra tres habet aspectus principaies. Unus est ad corporalia exteri;ra' secundum quem vacatur animalitas seu sensualitas: alills intra se et in se,

secun~

dum quem dicitllr spiritus; tertius supra se, secundum quem dicitur mens.

E

esta mphce estrutura ou ilumina9ao que determina as varias fonnas de abertura gnosio-16gica: sensus, ratio, intellegentia, cujo acumen se denomina apex mentis.

o homem, portanto, desde a sua sensibihdade II sua inteligencia, comporta em

si a n09aO de referencia e de polaridade inmnsecas: "vern de" (portanto, e sempre ex) e orienta-se para (e sempre ad), confonne a palavra inaugural de COl7fissoes, de Agostinho: Fecisti nos ad Ie et inquietum est cor nostrum dOllee requiescat in te26

.

Assim, quando se refere II persona como rela9ilo, Boaventura apenas prolonga e reconhece ai 0 apice, ou a suma expressilo, de uma relacionalidade que come,a na corporeidade. 0 liomem todo e radicalmente urn ser em aberto, desde a sua inscri-,ao corporea no cosmos ate ao gume do espirito (acies mentis):

e

esse ill e, simulta-neamente, esse ad, "ser-em-si" e "ser-para-outrem", onto16gica intencionalidade27

.

Assim, a "pessoa" exprime e sintetiza, em quia sma, quer a individualidade (ad se) quer a relacionalidade (ad aliud) que encontramos em todos os niveis do ser huma-no. Por outras palavras, a estrutura onto logic a do homem e "urn ser em e para a rel a9

ao".

Boaventura e urn pensador fulgurante de sinteses superadoras. Aceita por isso sem problemas as fonnulas tradicionais ja consagradas, como a de Boecio: a perso-na e uma individua substalltia ratioperso-nalis perso-naturae28• Mas tal integra,ao pacifica no

seu pensamento nilo significa que Ihe adira sem mais. Simplesmente, a no,ilo de Boecio da conta do caracter substante, da dimensao individual absolllta (ad se) da persona. Acto continuo, porem, e sem qualquer espalhafato ou inutil polemica,

Boa-ventura trata de acrescentar a dimensao que tal defini,ao nao comportava. Qual? Justamente a dimensilo relacional, que alguns teologos reservavam exclllsivamente para a Trindade sem se atreverem a aplica-la ao homem. Afinna assim nas Quaesti-ones disputatae De mysterio Trinitatis: "A pessoa define-se pel a substancia ou pel a relal'ilo; se se define pela rela,ao, a pessoa e a rela9ao sao conceitos identicos"". Continuamos a citar, agora 0 Primeiro eomentario aos Quatro livros de Sentenr,;as de Pedro Lombardo: "A pessoa e para 0 outro e, por conseguinte, e ela que exprime

:: Cf. 10. Camm. iI/lib. Sellt. n, d. I, p. 2, a. 3, q. 2, f. 2; II, p. 50; ID. d. 3], a.l, q. 1, cone!.; II, p. 742.

AGOSTINHQ. Conjessiones 1, I, 1, p. 4. Cf. GAL V AO, H. N. 2002, p. 39-55.

"

A antropologia fenomenol6gica dini, mais tarde, que "0 movimento para 0 outro e a essencia original da

consciencia" (cf. MISRAHI, R. 1968, p. 37).

28 BOA VENTURA. COlllm. ill lib. Sent. II, d. 3, p.l, a. 2. q. 2 ad 1; fI, p. 106s.

29 ID. De mysterio Trinitalis, q. 2, a. 2. n. 9; V, p. 62.

286 Jose M. S. Rosa

a re1ayao,,30. E conclui: BA relay8.0 nao

e

na pessoa urn aCldente,,31, Ao inves, a

atri-1 · , d d . 13'

buil'ao da re a,ao a pessoa e e or em essencJa -. . .

Evidentemente, por tudo 0 que ja se disse, fica tambem claro que a relaClOnah-dade humana nao se esgota na intencionalirelaClOnah-dade para 0 mundo nem para com os

Qutros. Para Boaventura, 0 homem vive "com" as coisas, I'com" os outros, mas em abertura ao Criador, mesmo que disso se possa esquecer. 0 homem e, assim, menos urn estado, uma natureza fechada, que urn vector, urn processo, urn raio de luz aspi-rando Ii sua fonte, uma flecha no universo cujo alvo e 0 Infmito, v6rtice de Amor absolutamente pessoallrelacional e, por isso, diferenciador. Numa palavra: 0 Deus trinitario ao qual toda a sua abra e imenso hino, porque 0 Amor gera sempre Pes-soas distintas em rela,ao, sem confusoes nem cisoes. 0 amor

e

0 "meio" activo da maxima transcendencia.

4. Gostaria de culminar 0 itinerario indicativo, aqui tao-so esbo,ado, retomando o paradoxo por onde COrne9amos. Na Ordinatio, afinna Escoto: "Ace ito a defini,ao [de pessoa] que da Ricardo de S. Victor [De Trinitate, 4, 22], a saber, que 'a pessoa e a existencia incomunicavel de natureza intelectual', cuja defini,ilo expoe e corrige a defini9ao de Boecio, que afinna: 'a pessoa e uma substancia individual de natu-reza racional', [e corrige-a] porque esta definil'ao implicaria que a alma fosse

pes-'~l ,,33

soa, 0 que e 1a so .

A expressao existentia incommunicabilis encerra em si mesma urn paradoxo de-liberado: substituindo, na defini9ao de Boecio, 0 tenno "substancia", que implicava

"ser em si mesmo" (ideia de autonomia de uma ousia que e sempre sujeito e nunca predicado), 0 "ex-" da "ex-istencia" exprime ao inves 0 "ser a partir de", isto

e,

diz

uma rela,ao de origem. No caSO das Pessoas divinas, a expressao propria para dizer isto e a circuminsessio (circumincessao), quer dizer: 0 movimento pericoretico au a "danl'a em coro" na qual as "figuras divinas" emergem umas das outras (geral'ao, processao, espira9ao activa e passiva), como se houvesse na Trindade numa conti-nua "ebuli9ao interna", uma Vida ekstatica e nunca estatica. No casO da pessoa humana, ex-istir quer tambem dizer "ser a partir de" (da "-istencia"). Por outras palavras: ser por participa9ao no Ser. Assim, quando 0 homem toma consciencia de si e do facto de 0 Ser ser para si, homem, uma dadiva que ele nunca poderia pedir, entao este "ente" tOlna-se "ex-istente", emerge para "fora" ("ex") do em "em-si" e torna-se consciente "para-si" (intellectualis naturae). Abre, pois, uma diferen,a ontologica (urn "abismo", para utilizannos a celebre expressao de Agostinho34 que Heidegger canonizou35) no proprio amago de uma co-perten9a ontologica

inamissi-30 ID. Comm. in lib. Sent. !. d. 9, a. un., q. 2, sol. 3; J, p. 183: "Persona est ad a/illlll, ideo genera/tlr el refertur".

31 !D. op. cit .. 1, d. 25, a. I, q. I; I, p. 4365.: "[ ... J personam in accidentibus lion posse cOllstitui ". 32 Cf.ID. Collationes ill HexaemerOIl, coil. 12, n.14; Y, p. 386.

B DUNS ESCOTO. Ord. I, d. 23, n.I5; V, p. 3555.

34 AGOSTINHO. Confessiones, X, II, 2, p. 436: "abyssus humanae conscientiae".

]5 HEIDEGGER, M. 1982, p. 28: "Aus diesem Salz ill! Sinne einer Aussage is! ul1!erwegs cin Sat:; geworden 1'011 de,. Art eines Spnlllges, dersich vom Sein als dem Grund des Seieflden abselz! lilld so ill

(9)

r~1

I

I.

!

vel que sempre continua a manter-se; cria no ser insil1lul 0 espa,o de uma distin,ao e de lima relayao: em suma, urn ex-istente determina-se como "um-ser-em-relayao", uma unidade relacional (como se tambem no Ser houvesse uma dissimil "ebuli,ao intern a" analogavel

a

da dita pericorese trinitaria). Joao Duns Escoto, contudo, pre-cisa bern 0 alcance dos termos, para evitar qualquer ruptura insamivel: 0 "ex" da

ex-istencia exprime apenas uma dependencia potenlialis, nao uma dependencia aclua-lis nem aptitudinalis. Assim, para alem de tal rela,ao de origem constituir a "ex-istencia" como uma distancia e uma abertura no ser (uma "clareira", diria ainda urn certo Heidegger), a "pessoa" apresenta-se igualmente aberta em rela,ao aos outros-sohdaria com 0 "tu com 0 "nos" -, aberta em rela,ao a fins e, sobretudo, capax Dei

36 '

em demanda do Infinito .

E

e

exactamente esta "ex-istencia" que

e

incommunicabilis OU, por outras pal a-vras, actual e aptitudinalmente independente, nao confundivel nem transferivel para outrem, 0 que vale tanto para as Pessoas divinas como para a pessoa humana. 0 caracter "incomunicavel" exprime, por conseguinte, a impossibihdade de a "ex-istencia" ser ontologicamente derrogada, de nao poder ser repetida, duplicada, clo-nada, transferida, policopiada ... 0 primado ontologico do singular, peculiar da Es-cola Franciscana, exprime-se como a plena perfei,ao de "este ser aqui" (haecceilas) e nao de "outro,,)7. E, pois, na n09ao de persona que se unem e convergem, em qui-asma, a "existencia" e a "incomunicabilidade". Assim, a pessoa

e

impar, singular, rigorosamente "fora de serie". Numa palavra: vive em continuo "estado de excep-,ao". A islo J. D. Escoto chama incol1llllullicabilitas ul quod e e neste sentido que a pessoa e uma solidao derradeira". "A personalidade exige uma ultima solitudo, estar livre de qualquer dependencia real ou derivada de ser a respeito de outra pes-50a,,39. A pessoa experimenta-se a 8i me sma e vive-se como misterio insondavel de Liberdade. Mas 0 paradoxo reside exactamente aqui: e por ser incomunicavel, por

ser uma solitudo ontologica - exactissimamente por isso! -,

e

que a pessoa

e

"Al-guem,,40 que pode comunicar e subsistir em rela,ao" e que, inclusive, pode abdicar de si pel a "potencia obediencial" (ul quo). Se a pessoa fosse de algum modo "co-mum", entao, Oll nada haveria que comunicar ou ela diluir-se-ia num processo de rela,ao, como pretendem 0 modalismo sabeliano e certas "misticas oceanicas". S6 e precisamente porque ha uma ultima solitudo

e

que pode haver comunica,ao e, 0 que

e

mais, s6 por isso

e

que as personae podem ser responsaveis, quer dizer, capazes de responder a urn Apelo e de entrar livremente em comunhao de inteligencias, de vontades, de amor e de Vida.

den Abgrund spril/gt. Doell diesel' Abgllflld is! weder das !eere Nicht /loch eine jillsfere Wir!'nis, sondern: das Ereigllis ".

36 DUNS ESCOTO. Onl. II. d.l. n. 326; VII, p. 158. Cf. LO/RET, F. 2003.

n cr. SONDAG, G. 2005.

'" DUNS ESCOTO. Ord.lII, d.l. p. I, q.l, n. 49; IX, p. 21s. cr. FREITAS, M. B. C. 2004, p. 239-46; 247-55; 257"63, respectivamente.

w ill. Ord. III, d.l, p. q. I, n. 68; IX, p. 32.

40 ID. Rep. Par. I, d. 25, q. 1, n. 5; XXII, p. 285.

41 ID. Quodlibeta, q. 3, n. 4; XXV, p. 120: "[ ... ] a esscncia e a relaryaa canstituem a pcssoa".

288 Jose M. S. Rosa

A persona diz, por conseguinte, em simultaneo, uma "solidiio" e uma "rela,ao", uma independencia e uma abertura: se a enigmatica expressao ultima solitudo quer exprimir a maxima autonomia e perfei,ao do ser humano, a relatio trascendentalis diz da sua abertura a todos os seres, mas, sobretudo, exprime a maxima referencia ao horizonte ilimitado do Ser. A ultima solitudo

e,

assim, metafisicamente comple-mentar do plano da relatio transcendentalis. Nao ha, portanto, qualquer perigo de solipsismo ou cau,ao da deriva egolatrica, como pro domo sua certos historiadores da Filosofia parecem temer em Duns Escoto. Et lux ill tenebris lucet: urn clarao brilha nas trevas. Quer dizer, a luz revela a noite como noite. Do mesmo modo que a linguagem revela 0 fundo de siH~ncio e de nao-linguagem que a possibilita; tal como a visibilidade e a figura criam 0 fundo onde se recortam, assim 0 abra,o da

solitudo e da relatio, na antropologia franciscana e muito especialmente na escotis-ta, dao aver 0 problema fundamental do Uno e do Multiplo, do Ser e da sua

Dife-renr,:a onto logic a primordial.

Bibliografia

1. Obras de Duns Escoto

DUNS ESCOTO. Ordinatio I-III. Opera omnia. Civitas Vaticana: Typis Vatican is, 1950-2007. · Ordinalio IV. Opera omnia. Paris: Vives, 1891-1895.

· Quodlibew. Opera omnia. Paris: Vives, 1891-1895.

· Reportata Parisiellsia . Opera om Ilia. Paris: Vives, 189! -1895. 2. Demais auto res

AGOSTINHO. lon{essiones. COllfissoes. cd. bilinguc, trad. Arnalda do E. Santo et alii, intrad. Manuel

B. C. Freitas, Lisbo~: Irnprensa Nacional, 2. cd. 2004.

· De Civitate Dei. Patrologia Latina. Paris: Migne, 1846 (vol 41).

_ _ _ . Trindade. De Trillilafe. Ed. bilingue, trad. Arnalda do E. Santo ct alii, introd .. Jose M. S. Rosa, PriorVelho: Paulinas, 2007.

_ _ _ . III epistulam fohannis ad Partfws. Paris: Migne. J 845 (vol. 35), p. 1977-2062.

ALEXANDRE DE HALES. Magislri A/e.-wndri de !lates. G/ossa ill Quattllor Libras Selltellliarul1l Petri Lombardi. Quaracchi: Call. S. Bonavcntume, 1951-1957 (4 voL).

ARISTOTELES, De Anima, Ed. Bekker, Berlin: Academia Borussica, 1859.

BAPTISTA PEREIRA, M. Modernidade e Tempo. Para WI/a teilllra do discurso moderno. Coirnbra: Livraria Minerva, 1990.

BAILLEUX, E. "La Christologie de saint Augustin dans Ie De Trillitate". Recherches allgllstinielll1es 7 (1971).

BERETTA. B. Ad aliquid. La relation chez Guillaume d'Ockham. Friburgo: Presses Universitaires de Fribourg, 1999.

BOAVENTURA. Breviloquitlm. Opera omllia. Quaraechi: Coil. S. Bonaventurac. 1882-1902, v. V. · Collationes illllexaemero1J. Opera omllia, v. V.

· COlIIlJlelltaria ill Quatllor Libras Selltentiaml1l. Opera omnia, v. I-IV. · De reductione artium ad Theo!ogiam. Opera omnia. v. V.

(10)

_ _ _ ' Quaestiones disputate de myslerio Trinitatis. Opera Omnia, v. V.

_ _ _ . Senno J in Sabato SancIa, 4. Opera Omnia, v. IX. BOLLACK, J Emplfdocle (4 vols.). Gallimard, Paris, 1965-9.

BONNEFOY,1. F. "La question hypothetiquc: 'Utrum si Adam non peccasset Verb .

c · IUlsse au t' XIII e slee c. " I " R eVlsta . Espatiola de Teolagia , urn mcarnaturn

J 4 (1954), p. 327-68. BRETON, S. L'''esse in" et /'''esse ad" dalls la Mitaphysique de fa R / ('

. . . D e a IOn Rama: Scuola

mlSSlOnana omenicana, 1951. .

MERINO, 1. A. (Coord.). Manual de Filosojia Franciscana. Madrid: BAC, 2004.

FRA~CISCO DE ASS'S. Failles Franciscanas. Escritm;. Biografias. Documelltos Editorial Franclscana, Braga: 1982 (especiaimente a fa Parte, os "Escritos de S. Francisco", p. 51-166.

FR~r::' AS, M. B. C. "Da pessoa em, E.scoto"; "A pessoa e 0 seu fundamento ontol6gico ern Escoto",

259, Natureza e fundamento ontologlco da pessoa em Duns Escoto" In' ID 0 S f ' ~.

. F" ifi . . . er e os seres. tmera_

nos I oso leos, vol. J, Llsboa: Editorial Verba, 2004.

GILSON, E. La philosophie de saint Bonaventure. Paris: Vrin, 1953.

GON<;ALVES, 1. C. Em Louvor da vida e da morte. Lisboa: Colibri, 1998.

HEIDEGGER, M. fdentitiit und Dijferenz. Pfullingcn: Verlag Gunther Neskc 1975 (S' bt A fl

1982). ' Ie e u age,

LOIRET, F. Volonte et in/ini chez Duns Scot. Paris: Edition Kime, 2003.

MISRAHI R. Martin Suber, philosop/te de fa relation. Paris: Editions Seghers, 1968.

NORONHA GAL V Ao, H. "0 cor inquietum como chave hermeneutica das Confissocs" In' A I I

(

Colll~redsso lllteurn~cioll.adl

As

Conf!.~.w3es

de Salllo Agostinilo 1600 alIOS depois: Presen(,a

~ A~tu~f~:a~~

rea Iza 0 na mYers] ade Catohea Portugucsa - Lisboa, 13-16 de Novembro de 20(0) L' b .

Universidade Catolica Editora, 2002. . 15 oa.

REMY. G. "La theologie de la mediation selon saint Augustin. Son actualite" Rev T' . ( 91

(1991), p. 580-623. . ue "IOIIIIS e

1979. . Le Christ l1uidiateur dans I '(1!uvre de saint Augustin. Lille-Paris: Librairic Honore Champion,

RICARDO DE sAo ViTOR. De Trinilale. Patrologia Latina. Paris: Migne (vol. 196), 1855.

SESBOOE, B. Jesus-Christ, ['unique mediatellr. Essai sur fa redemption et Ie saltll Paris' D I' d

Brouwer,1988. . . esc ee e

SONDAG, O. Duns Scot.·La metaphysique de fa singularite. Paris: Vrin, 2005.

TOMAs DE AQUINO. Summa Theologiae. Madrid: La Editorial Cataliea, BAC, 1961-5.

290 Jose M. S. Rosa

Alfredo Culleton'

16

A lei natural em Duns Scotus

A

teoria da lei natural e 0 cora,ao da Clica de Scotus. 0 que, nela, ocupa urn lugar

de destaque e 0 compromisso com a lei natural entendida como razao da verdade

pratica e nao como a adequa,ao

a

tinalidade natural, como e manifesto nas eticas das virtudes.

Diferentemente de outras abordagens da etica medieval, a estrutura da proposta de Scotus nao e a da etica das virtudes. A filosofia pn\tica de Scotus tern as suas raizes em duas fontes. Por urn lado, ela parte da concep,ao aristotdica de ciencia, que 0 motiva a pensar a teologia como ciencia, e, por outro, como parte da tradi,ao franciscana, e marc ada pelo carater pratico da teologia.

Na tradi,ao classica, a lei natural

e

entendida como a natureza que nao pode ser mudada pela a,ao humana e, por isso, tern validade universal: porque os proprios seres humanos pertencem

a

natureza, e1es sao, em principio, capazes de conhecer a lei correspondente .

A tradi,ao crista entende a natureza como determinada pelo plano criador de Deus. Tomas de Aquino, por exemplo, subordina esta cria,ilo

a

lei etema, e a lei natural devera ser entendida como uma participa,ao na lei etema e, por isso, tem urn carater universal. 0 que ha de comum entre a lei etema e 0 homem

e

a razao, 0

que, por sua vez, permite a comunical(ao entre ambas as ordens.

Que 0 ser humano nao possa alterar a subordinayao da lei natural

a

lei etema

pa-rece necessario e obvio. 0 problema que se apresenta a Scotus consiste em saber se o proprio Deus estaria igualmente subordinado. Em ultima instimcia, a pergunta e se a lei natural admite exce,oes e, mais ao fundo ainda, subjaz a pergunta sobre a co-nexao entre os atos da vontade de Deus e a capacidade human a de conhecer a lei natural atraves da razao. Dentre os comentadores do Doctor Subtilis, 0 sistema ttico

de Scotus pode ser entendido de tres perspectivas distintas, quais sejam: a) aqueles que entendem que 0 acesso racional

a

etica teria ficado reduzido; b) aqueles que entendem que, para Scotus, 0 conhecimento moral so pode ser a\can,ado atraves da revelayao divina; e c) aqueles que entendem urn residuo de naturalismo em Scotus e que, posteriormente, sera confrontado com urn voluntarismo radical. Nos

pretende-* Universidade do Rio dos Sinos (UNISINOS) I Sao Leopoldo.

Referências

Documentos relacionados