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"As duas espadas do poder": as relações de tensão e conflito entre o poder secular e o poder eclesiástico na Bahia

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA

CAMILA TEIXEIRA AMARAL

“A

S DUAS ESPADAS DO PODER

”:

A

S RELAÇÕES DE TENSÃO E CONFLITO ENTRE O PODER SECULAR E O PODER ECLESIÁSTICO NA

B

AHIA

(1640-1750)

Orientador: Prof. Dr. Evergton Sales Souza

Salvador 2012

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CAMILA TEIXEIRA AMARAL

“A

S DUAS ESPADAS DO PODER

”:

A

S RELAÇÕES DE TENSÃO E CONFLITO ENTRE O PODER SECULAR E O PODER ECLESIÁSTICO NA

B

AHIA

(1640-1750)

Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em História Social da Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em História.

Orientador: Prof. Dr. Evergton Sales Souza

Salvador 2012

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___________________________________________________________________________

Amaral, Camila Teixeira

A485 “As duas espadas do poder” as relações entre o poder secular e o poder eclesiástico na Bahia (1640-1750) / Camila Teixeira Amaral. – Salvador, 2012.

144f.

Orientador: Prof. Dr. Evergton Sales Souza

Dissertação (mestrado) – Universidade Federal da Bahia, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, 2012.

1. Bahia – Período colonial (1640-1750). 2. Igreja e Estado. 3. Igreja – Conflitos. 4. Igreja – Bahia. 5. Poder (Igreja). I. Souza, Evergton Sales. II. Universidade Federal da Bahia, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. III. Título.

CDD – 282.81

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CAMILA TEIXEIRA AMARAL

“A

S DUAS ESPADAS DO PODER

”:

AS RELAÇÕES DE TENSÃO E CONFLITO ENTRE O PODER SECULAR E O PODER ECLESIÁSTICO NA BAHIA

(1640-1750)

Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em História Social da Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em História.

Orientador: Prof. Dr. Evergton Sales Souza

_________________________________

Evergton Sales Souza (Orientador)

Doutor em História Moderna e Contemporânea pela Université Paris IV Professor Adjunto - Universidade Federal da Bahia

_________________________________________ Avanete Pereira Sousa

Doutora em História Econômica pela Universidade de São Paulo Professora adjunta - Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

________________________________________ Bruno G. Feitler

Doutor em História e Civilizações pela L’École des Hautes Études en Sciences Sociales Professor adjunto da Universidade Federal de São Paulo

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Para meus avós maternos e paternos.

Para meus pais, Adilene e Geraldo.

Para meus irmãos, Juliana e Rodrigo.

Para meu sobrinho, Arthur.

Para meu bem, Pablo.

Meus amores e meus pilares.

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A

GRADECIMENTOS

Certa vez li um prefácio escrito pela Professora Célia Tavares que dizia que o trabalho de um historiador era solitário. Embora compreenda que Tavares refira-se ao momento da pesquisa, permiti-me discordar um pouco desta reflexão. Ao longo do tempo em que participei da iniciação científica e do mestrado muitas pessoas contribuíram mais ou menos para minha pesquisa e para que me tornasse quem eu sou. E aqui, nestas páginas, posso agradecer a todos e todas!

Ao orientador desta dissertação de mestrado e também da iniciação científica, Evergton Sales Souza por ter me dado a oportunidade de conhecer melhor o ofício do historiador e também por ter me apresentado o mundo da pesquisa nos arquivos. Sou grata ainda por abrir sua biblioteca e com isso permitir aos seus orientandos leituras enriquecedoras. Suas correções e sugestões sempre pertinentes e esclarecedoras foram imprescindíveis para o bom termo desta dissertação.

Às minhas colegas e amigas de iniciação científica e de mestrado, Rebeca de Souza Vivas e Ediana Ferreira Mendes, por me ajudarem a ser uma “pibiquinha” e por me receberem de braços abertos durante a pesquisa sobre São Francisco Xavier. A paciência ao me ensinar e corrigir as minhas primeiras aventuras com os documentos manuscritos não será esquecida. Serei eternamente grata a vocês. À outra colega de orientação, “irmã” mais velha, Laís Viena, por seus conselhos sempre preciosos e objetivos. À Larissa Almeida Freire, também colega de orientação, por principalmente nesta fase final ser muito solícita e por ter me ajudado quando mais precisei.

A Cândido Domingues, pelas valiosas conversas sobre os estudos e a vida e por compartilhar das horas de angústia durante a seleção do mestrado. Estivéssemos debruçados nos livros, em discussões acaloradas, em viagens ou em comemorações, sua amizade estava lá. Ainda agradeço a Edison Rodrigues, por me chamar atenção para as grandes contribuições que a Antropologia poderia fazer ao meu trabalho e também por ser um sábio amigo. Aos demais colegas de mestrado e companheiros do Grupo de Estudo de História Colonial, Iane Cunha, David Barbuda, Maria Ferraz, agradeço pelas ricas discussões nas tardes de sexta-feira.

Aos meus colegas e amigos do PROCAD, Carlos Francisco da Silva, Fabrício Lyrio e Jacira Primo, por tudo que vocês foram e fizeram durante nossa estadia em

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Barão Geraldo. Ter convivido com vocês foi maravilhoso e significou não só crescimento acadêmico, mas também um amadurecimento pessoal. Nossas conversas, as discussões, o suporte durante as aulas na Unicamp e as cotidianas idas à biblioteca me marcaram profundamente. Certamente sem vocês eu não conseguiria sobreviver aos longos, tediosos e frios fins de semana, que transformamos em pizza, filme, futebol e muitos risos. Aos bons amigos que fiz em Campinas, Marcão e Cássia, gaúchos do meu coração, pelas deliciosas conversas.

Ainda sobre o PROCAD gostaria de agradecer imensamente ao coordenador deste programa de intercâmbio acadêmico, à época Antonio Luiggi Negro, por ter me dado a grande oportunidade de conhecer a realidade de outro programa de pós-graduação e de dialogar com meus colegas “campineiros”. Obrigado pela atenção e preocupação com os meus estudos em Campinas.

À professora Lígia Bellini, coordenadora do Programa de Pós Graduação em História à época do meu ingresso, por estar sempre pronta a ajudar em tudo, sobretudo nos financiamentos das viagens para apresentação de trabalhos. Sua competência e seu esforço para elevar nosso programa aos altos níveis acadêmicos foram bem sucedidos e tiveram continuidade durante a coordenação de Evergton Sales Souza.

À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia, por financiar-me com uma bolsa de estudos no período de 2009-2011.

À professora Avanete Pereira de Sousa pela imensa disposição em ajudar uma jovem estudante e pesquisadora de História. A gentileza de me conceder sua tese de doutorado, à época ainda não publicada, bem como outro texto inédito seu foi de grande valia para a minha dissertação. Da mesma maneira, seu enorme conhecimento da documentação do Arquivo Municipal de Salvador e do açougue dos eclesiásticos contribuiu muito para o andamento daquela incipiente pesquisa.

Aos oficiaiss dos arquivos, meus agradecimentos por serem bastante prestativos. No Setor de Microfilmagem do Arquivo Público da Bahia tive ajuda sobretudo de Dona Marlene. No mesmo arquivo, mas no Setor Colonial, agradeço aos atendentes Djalma Melo e Uiara, pela atenção dispensada. Foi, contudo, no Arquivo Municipal de Salvador que encontrei a maior parte da documentação que encorpou esta pesquisa. Agradeço a “Seu” Felisberto e Adriana pela paciência e por dividir muitas tardes encaloradas na sala daquele arquivo.

Às minhas amigas e também colegas de faculdade, Lílian Antonino, Gabriela Baldacin Harrison, Andrea Souza, Kleidiane Santana e Carolina Mendonça, as

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8 Lazarentas, pelos conselhos, risadas, puxões de orelha, enfim, por tudo que se espera e

se preza em uma amizade. Vocês estavam lá no início dessa caminhada e agora, no final e em tempos tão difíceis, foram um grande alicerce para me dar forças e seguir em frente.

A Leonardo Coutinho, meu amigo Lazarento, pela amizade sincera e por me socorrer quando minhas limitações tecnológicas falaram mais alto.

Aos meus amigos de fora da academia, mas não menos valorosos: Gabriele Hayne, Juliana Ribeiro, Karoline Bittencourt, Leonardo Frugoni e Cainan Costa, minha sincera gratidão. Vocês me fizeram enxergar o mundo acadêmico como o meio e não o fim. Sem vocês minha vida social estaria seriamente comprometida!

À Erica Almeida, Ericlene Almeida, Marinalva Barbosa e Raimundo Almeida (in memorian), respectivamente, cunhadas, sogra e sogro, por terem me recebido com tanto carinho na sua família.

Aos meus pais, Adilene e Geraldo, irmãos, Juliana e Rodrigo, avós Terezinha e Nilce e avôs Armando e Pedro e sobrinho Arthur: obrigado pelo amor e apoio incondicional. Vocês sempre me ensinaram a batalhar pelos meus objetivos e respeitaram minhas escolhas, permanecendo ao meu lado em todos os momentos. Ao meu tio José Gomes (in memorian), que sem nem saber me ensinou a importância diária de lutar pela vida. A dor da perda é grande, mas a felicidade de termos compartilhado décadas de convivência é ainda maior. Aos meus familiares geograficamente distantes, os Vieira e os Amaral, meus sinceros agradecimentos. Estar longe não significa amar menos. Sobretudo a minha priminha linda, Fernanda Amaral, por ser tão amiga e tão amável.

Por último, mas não menos importante, agradeço a Pablo Barbosa, por ser tão maravilhoso, compreensivo e por me apoiar o tempo inteiro. Não há palavras que descrevam o valor e a importância do nosso tempo compartilhado.

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E que justiça a resguarda?... Bastarda. É grátis distribuída?... Vendida. Que tem, que a todos assusta?... Injusta. Valha-nos Deus, o que custa O que El-Rei nos dá de graça. Que anda a Justiça na praça Bastarda, vendida, injusta. Que vai pela clerezia?... Simonia. E pelos membros da Igreja?... Inveja. Cuidei que mais se lhe punha?... Unha Sazonada caramunha, Enfim, que na Santa Sé O que mais se pratica é Simonia, inveja e unha.

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R

ESUMO

A presente dissertação tem como objetivo a análise das tensões e dos conflitos entre o poder secular e o poder eclesiástico na Bahia Colonial entre 1640 e 1750, inserindo-a em uma perspectiva mais ampla das relações entre a Igreja e o poder civil no Império português. A partir do estudo mais aprofundado de dois conflitos pretendemos também fazer um exame acerca das superposições das jurisdições e ainda buscaremos compreender melhor o cotidiano político-administrativo de Salvador e perceber nele as disputas por poder, privilégio e distinção.

Palavras chave: Conflitos, relação Igreja-poder secular, Bahia colonial.

Abstract

This work aims to analyze the tensions and conflicts between the ecclesiastical power and secular power in Colonial Bahia between 1640 and 1750, placing it in a broader perspective of the relations between Church and State in the Portuguese Empire. From the further study of two conflicts we also intend to take an exam about the overlapping of jurisdictions and still seek a better understanding of the everyday political-administrative Salvador and realize it disputes for power, privilege and distinction.

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A

BREVIATURAS

AHU – Arquivo Histórico Ultramarino AMS – Arquivo Municipal de Salvador APB – Arquivo Público da Bahia

ANTT – Arquivo Nacional da Torre do Tombo BNL – Biblioteca Nacional de Lisboa

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L

ISTA DE

G

RÁFICOS

Gráfico 1 Rendimentos da Câmara de Salvador com a arrematação de talhos

(1701-1800). P. 99.

L

ISTA DE FIGURAS

Figura 1 Vista de cidade de Salvador feita por William Dampier. P. 25.

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S

UMÁRIO AGRADECIMENTOS ... 6 RESUMO ... 10 ABREVIATURAS ... 11 LISTA DE GRÁFICOS ... 12 LISTA DE FIGURAS ... 12 INTRODUÇÃO ... 15 Capítulo I ... 23

Salvador, cidade de mercês e privilégios. ... 23

1-Oficiais régios e instituições na cidade da Bahia ... 24

2- Salvador, cidade de mercês e privilégios. ... 33

3-As relações entre Poder civil e Igreja na Bahia colonial: da colaboração ao conflito ... 39

Capítulo II ... 49

Os tons da convivência: jurisdição e litígios no contexto da Restauração ... 49

1-“Liberdade portuguezes Viva El Rey Dom João o Quarto” ... 50

2- As dificuldades no Império após a Restauração de 1640 ... 56

3- A notícia da aclamação de Dom João IV e suas consequências na Bahia ... 60

4- As nuances da relação Igreja x Poder civil: as contendas entre um Governador e um Bispo ... 64

Capítulo III ... 90

O açougue eclesiástico: disputa de poder e conflito de jurisdição no início do século XVIII ... 90

1- A Câmara Municipal e o abastecimento da cidade de Salvador ... 93

2- Problemas de jurisdição: querelas entre um Ouvidor e um Arcebispo. ... 100

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 125

Lista dos monarcas de Portugal (1600-1750) ... 128

Vice-reis e governadores gerais do Brasil (1600-1750) ... 128

APÊNDICE II ... 130

Lista de Bispos e Arcebispos da Bahia (1600-1750) ... 130

FONTES ... 131

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14 Fontes impressas ... 136 BIBLIOGRAFIA ... 138

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I

NTRODUÇÃO

O tema proposto nesta dissertação nasceu como parte de um projeto muito maior. A pesquisa propiciada pela iniciação científica, sob a orientação também de Evergton Sales Souza, foi o pontapé inicial do presente trabalho. Estudar e pensar sobre a impopularidade do padroeiro da cidade de Salvador, São Francisco Xavier, permitiu um maior conhecimento da documentação sobre a Bahia colonial. Partindo daí e enviesando pelo sub-tema das tensões e dos conflitos entre o poder local e o poder eclesiástico, considerando sobretudo as relações entre a Câmara e o Cabido, pudemos investigar os matizes da convivência entre o poder civi e a Igreja naquele período. Posteriormente, ampliamos as balizas temporais e modificamos um pouco o foco, centrando-nos principalmente nas contendas entre autoridades régias e episcopais. Acreditamos que desta forma seria possível alçar maiores voos no que diz respeito às relações entre essas “duas espadas do poder”. Para tanto, devemos nos atentar rapidamente nesta introdução a dois eixos temáticos: primeiramente sobre a Igreja e a Coroa e depois nos direcionaremos para um debate historiográfico acerca da política administrativa dispensada pela Coroa portuguesa ao Brasil.

Quando se pensa sobre as relações entre a Igreja e o poder civil na modernidade o que vem à cabeça, em geral, é a imbricação entre essas esferas. Refletir sobre as monarquias entre meados do século XVI ao XVIII significa refletir também sobre sua sacralidade. O rei, além de ser a representação política maior de um Estado, vestia-se igualmente de um corpo sagrado, como vigário de Deus. O monarca não podia prescindir da Igreja em muitos níveis. Na Europa ocidental, os Estados modernos souberam utilizar os elementos da religiosidade católica para alcançar a sociedade e assim exercer um maior controle sobre ela. Portugal não foi uma exceção. Às grandes navegações, por exemplo, coube a Roma legitimar. A descoberta de novos territórios e sua colonização foi tema de muitas bulas papais e seus ideais passaram também a ser os ideais de um catolicismo sedento de expansão (principalmente se considerarmos o contexto da Reforma protestante).

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A existência da interpenetração entre a Igreja e a Coroa em Portugal não significou que o interesse destas instituições tenha sido sempre consonante. Primeiramente porque a Igreja não era um corpo coeso. Antes de tudo ela era constituída por pessoas que obedeciam a uma hierarquia e tinham interesses próprios. Como afirma José Pedro Paiva, a Igreja era uma instituição pluricelular, cheia de facções e conflitos internos.1 Desta forma, a precipitada ideia de unidade no seio desta instituição pode resultar na interpretação equivocada de que o poder eclesiástico agia como um bloco na sua defesa em relação ao Estado.2 Fica mais fácil compreender estas assertivas quando pensamos sobre a nomeação dos Bispos, tarefa que cabia ao monarca. Indicá-los para a sagração do Papa transformava estes eclesiásticos também em agentes do rei, reconhecendo que sua ascensão à condição episcopal era fruto do arbítrio real e que uma progressão em sua carreira dependia da mercê régia.3

Por outro lado, devemos pensar que muitos homens de Igreja exerceram papéis importantes na monarquia portuguesa, como confessores reais, conselheiros ou pregadores e chegando até mesmo a cargos mais políticos no Conselho de Estado, no Desembargo do Paço ou na Mesa de Consciência e Ordens.4 No ultramar português a interpenetração entre Igreja e o poder civil é ainda mais intensa, pois em função do padroado régio a Coroa possuía uma série de competências em relação à administração da Igreja. É o caso da ereção e provimento das igrejas, do recolhimento e pagamento dos dízimos eclesiásticos e da composição do cabido da Sé, entre outros. Por outro lado, o poder eclesiástico desempenhou uma função essencial para a dominação e preservação política destas áreas. Segundo Paiva, “sem a Igreja não teria havido Império e sem as armas do Império a ação evangelizadora da Igreja dificilmente teria tido o êxito que alcançou”.5

No bojo desta discussão sobre interpenetração e interdependência entre Igreja e a Coroa surgiram dois conceitos que ainda nos dias atuais estão presentes nos trabalhos sobre o tema: confessionalização e disciplinamento social. Podemos dizer que no âmbito das práticas cotidianas o Estado buscou constantemente instrumentalizar os elementos religiosos numa tentativa de melhor controlar a sociedade. E é neste âmbito

1 José Pedro Paiva, “A Igreja e o poder”, in Carlos Moreira de Azevedo, História religiosa de Portugal,

Lisboa, Círculo de Leitores, 2000, p. 135.

2

Evergton Sales Souza, “Igreja e Estado no Período pombalino”, Lusitânia Sacra, vol. 23, 2011, pp. 207-230.

3 Paiva, “A Igreja e o poder”..., p. 138. 4

Idem, pp. 138-139.

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que se encaixam os dois conceitos acima citados. O primeiro, elaborado inicialmente pelo alemão Gerhard Oestreich, reconhece o papel que a noção de disciplina teve nos discursos do período moderno e, consequentemente, “como denominador comum dos diferentes processos – político, religioso, social e cultural”.6 Para Palomo, a proposta do alemão esteve por muito tempo associada apenas ao campo da história política e ao processo de consolidação do poder das monarquias ocidentais modernas. Anos mais tarde surgiria outro conceito que passaria a considerar o papel da história religiosa na esfera política da sociedade. A noção de confessionalização, proposta por Wolfgang Reinhard e Heinz Schilling, historiadores alemães, estabelece um vínculo entre o poder político e os agentes eclesiásticos, na medida em que exalta a importância das confissões religiosas para o disciplinamento social, colocando em contato os diferentes contextos que fazem parte de uma sociedade, quais sejam, os religiosos, políticos, sociais e culturais.

Para José Pedro Paiva a ideia de confessionalização enquanto reforço interno e externo das unidades territoriais não pode ser aplicada ao caso português, na medida que as fronteiras físicas e confessionais de Portugal já estavam definidas desde antes do século XVI.7 Também a interpretação de que o processo confessional reforçou o disciplinamento da sociedade tem alguns problemas, já que pode sugerir que foi possível construir uma sociedade homogênea e disciplinada.8 O ponto mais controverso deste conceito para o historiador português, entretanto, é o que afirma que a confessionalização provocou um aumento da intervenção do Estado na Igreja.9 Esta é uma interpretação limitada, pois só permite enxergar a preponderância do poder secular sobre o poder eclesiástico. A influência da Igreja sobre o Estado também existiu no período moderno.

A imbricação entre a Igreja e o Estado é inegável, mas ela não se deu forma desenfreada e nem significou que estas duas instituições eram coesas. Não havia competências perfeitamente delimitadas, muito pelo contrário: em diversos setores tinha lugar a interpenetração dos dois.10 A relação entre eles era pautada na constante busca de ambos pela expansão e manutenção do poder e também numa relação de

6 Federico Palomo, A contra reforma em Portugal (1540-1700), Lisboa, Livros Horizonte, 2006, p. 11. 7

José Pedro Paiva, “El Estado en la Iglesia y la Iglesia en el Estado”, Manuscrits: revista d´història moderna, n. 25, 2007, pp. 45-57.

8 Idem, p. 49. 9

Idem ibid.

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dependência mútua, pelo menos até meados do século XVIII, quando é inaugurado um novo período nas relações entre a Igreja e o Estado.11

Para entender a relação entre as redes de poder presentes na Bahia entre 1640 e 1750 é necessário dialogar com os estudos sobre a administração do Império português. Nossa análise seguirá o debate mais recente sobre o assunto, protagonizado por Laura de Mello e Souza e Antonio Manuel Hespanha.12 Ambos desenvolveram abordagens antagônicas e enriquecedoras para os estudos sobre os meandros administrativos do Brasil colônia.

No primeiro capítulo de O sol e a sombra, Souza fez uma importante reflexão na qual analisou as principais produções historiográficas – brasileiros e brasilianistas – sobre a administração e a política na colônia. Para dar conta desta exposição e análise, a autora faz uma retrospectiva para discorrer sobre o problema da administração a partir de duas perspectivas: a de Raymundo Faoro e a de Caio Prado Jr.13 Ela acredita que estes dois historiadores foram responsáveis por demonstrar que era possível que a historiografia brasileira trabalhasse o tema. Os dois, aliás, representaram duas formas opostas de análise.

Ao atribuir ao Estado português uma importância quase que incomensurável ressaltando sua centralização excessiva (que é representada na expressão hipertrofia do

Estado) e defendendo a tese de que por ser centralizado o governo português foi capaz

de transferir com sucesso o seu sistema administrativo para o Brasil colônia, Faoro não só minimizou o papel da dinâmica social e das contradições como também negligenciou as situações específicas e desviantes tão presentes na colônia luso-americana. Quinze anos antes, Caio Prado Jr. havia feito uma leitura completamente diferente sobre a mesma questão: ele defendeu a existência de um Estado português caótico, irracional e contraditório, cheio de órgãos complexos, com confusão de funções e um burocratismo exagerado. Prado Jr. ainda alegou que o funcionalismo aqui existente era inútil, numeroso e deliberativo. Contudo, e como demonstra Laura de Mello e Souza, outros historiadores “nadaram” na direção contrária à de Faoro e de Caio Prado e procuraram

11

Sales Souza, pp. 16 e sgts.

12 Laura de Mello e Souza, O Sol e a Sombra: política e administração na América portuguesa do século

XVIII. São Paulo, Companhia das Letras, 2006. Antônio Manuel Hespanha, Depois do Leviathan, Almanack Braziliense, nº 05, Maio de 2007, pp. 55 – 66.

13

Raymundo Faoro, Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro, 4ª edição, São Paulo, Globo, 2008. Caio Prado Jr, Formação do Brasil Contemporâneo. Colônia, São Paulo, Livraria Martins Editora, 1942.

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entender, através do exame das instituições metropolitanas e do estudo da carreira de administradores, o funcionamento do Império português, acreditando em uma política administrativa menos rígida como foi o caso de Russell-Wood e Charles Boxer14.

Souza, porém, guarda boa parte do seu capítulo para a análise das últimas contribuições historiográficas de António Manuel Hespanha. Ponto de desacordo inicial entre eles, a concepção de Antigo Regime defendida por Hespanha parece, à historiadora brasileira, bastante inadequada se transplantada à realidade da América portuguesa, criticando os trabalhos que esteiam suas reflexões na ideia da existência de um Antigo Regime nos trópicos. Portanto, ela dá seguimento a tese de Fernando Novais ao defender a ideia de que existia um Antigo Sistema Colonial, caracterizado pela existência da escravidão e do exclusivo metropolitano que diferenciava o regime governamental do Brasil.

Para além desta discussão conceitual sobre o Ancien Régime, há um debate que é o eixo central dessa longa revisão, qual seja, o papel do Estado português na administração ultramarina. No que diz respeito à percepção de que o sistema administrativo lusitano da época tinha um padrão de ação político-administrativa jurisdicional – baseado na ciência do direito e das leis portuguesas – não parece haver discordâncias entre os dois historiadores. Entretanto, Hespanha, ao tentar balancear a ação do poder central e a do poder local na colônia, tende, por ter grande apreço “ao esquema sinodal e à microfísica do poder”, a enfraquecer excessivamente o papel do Estado.15 Souza vê problema nessa concepção aplicada ao século XVIII, já que ela acredita haver uma maior centralização praticada pelo governo de D. João V.

Em contrapartida, Hespanha apresenta seus argumentos para rebater as interpretações sobre seus trabalhos feitas por Souza. Reafirma sua posição em defender a redução da administração da Coroa à passividade, sustentando a ideia de que a centralidade do direito se traduzia na centralidade dos direitos normativos locais.16 Para ele, então, mais importante do que o direito geral é o direito local, já que atribui uma

14 Souza, O sol e a sombra..., pp.41-46. Os dois historiadores brasilianistas realizaram importantes

estudos acerca das micro-estruturas administrativas (poder local), e demonstraram uma importante papel desempenhado por elas. Para mais sobre o tema veja-se, principalmente: A. J. Russel-Wood Fidalgos e Filantropos. A Santa Casa de Misericórdia da Bahia(1550-1755), Brasília, Edunb, 1981; Centros e periferias no mundo Luso-brasileiro, 1500-1808, Revista brasileira de História, vol. 18, nº 36, 1998, pp.187-249. Charles Boxer Portuguese society in the tropics. The municipal councils of Goa, Macao, Bahia and Luanda, 1510-1800. Madison, University of Wiscosin Press, 1965.

15 Laura de Mello e Sousa, O sol e a sombra... p. 49.

16 Antonio Manuel Hespanha, “Depois do Leviathan”, Almanack Brazilense, n. 05, 2007, pp. 55-66.

Conferir também As vésperas do Leviathan: instituições e poder político em Portugal, século XVII, Coimbra, Ed. Almedina, 1994.

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grande importância às particularidades de cada caso e às sensibilidades jurídicas locais. Para dar base à sua teoria usa como argumento os muitos casos em que se verifica a flexibilidade da apelação nos tribunais. Acredita num Estado português corporativo, que possuía redes de poderes locais, enfatizando que as forças centrífugas da colônia tinham grande capacidade de neutralização do poder central – forma contrária à que Souza defende, pois crê que, ao fim, tudo se fazia em nome do Rei. Para corporificar suas reflexões ele baseia-se nos mesmos brasilianistas citados pela historiadora brasileira: Rusell-Wood e Charles Boxer. Para Hespanha, os trabalhos realizados por eles ratificam o caráter localista do sistema administrativo português, não só no seu centro, mas também em suas colônias.17 Já para Laura de Mello e Souza tais trabalhos apenas demonstram que havia um modelo pendular de administração – que praticava a política do “morde e assopra” -, mas que não sugere de forma alguma a quase ausência do poder real.

Acreditamos que existam ressalvas em ambas as análises, pois é perceptível que há pouca flexibilidade na conclusão dos dois sobre o real papel do Estado moderno português na política administrativa do seu ultramar. Enquanto Hespanha defende a total descentralização do poder metropolitano e valoriza bastante os poderes locais, Souza manifesta-se a favor da ideia de que, apesar da existência de instituições de mando local extremamente importante na colônia e por vezes autônoma, qualquer atitude realizada aqui era em nome do monarca. Sem incorrer no erro de relativizar absolutamente tudo, nesse caso há a necessidade de buscar um ponto de equilíbrio entre essas duas maneiras de pensar esta problemática de fundamental importância para esta dissertação. Cremos que o estudo das relações entre o poder secular e o poder eclesiástico na Bahia beneficia-se destas reflexões e, ao mesmo tempo, pode contribuir através do exame detido da atuação da coroa na resolução dos conflitos aqui ocorridos.

O foco central deste estudo, portanto, são as tensões e os conflitos entre o poder civil e o poder eclesiástico na Bahia entre 1640-1750. Focaremos nossas análises e reflexões nas querelas pessoais, entre autoridades das duas esferas de poder. Optamos por observar como os interesses pessoais unidos à forte personalidade de algumas personagens tratadas (além das questões contextuais, como a economia) aqui interferiram nas suas relações com as demais autoridades. A partir deste exame

17 Idem, p.62.

(21)

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procuraremos compreender melhor o cotidiano político da cidade da Bahia nos seiscentos e setecentos.

Há duas justificativas que nos fizeram escolher o período entre 1640 e 1750 como recorte temporal desta dissertação. Em primeiro lugar entendemos que esses 110 anos representam um ciclo, inaugurado por D. João IV e encerrado por D. João V, que vai do estabelecimento à consolidação dos Bragança na monarquia portuguesa. Com efeito, todos os reinados deste período têm em comum o desejo de fortalecer a posição da nova dinastia. Para tanto, foi necessária a adoção de políticas adequadas aos diferentes contextos e somente no reinado de D. João V a dinastia estava consolidada, permitindo que este monarca adotasse uma postura bem mais centralizadora do que seus antecessores. Já com D. José I, principalmente a partir de fins dos anos 1750, foi inaugurada uma política muito mais centralizadora – que alguns viriam a caracterizar como despótica - e, marcada por uma influência maior das “luzes” no cenário político luso. Esse novo ciclo iniciado modificou bastante a relação do poder central com os poderes da América portuguesa e também com a Igreja. Daí parecer-nos mais coerente limitar nosso recorte cronológico ao final do reinado de D. João V. Defendemos que em maior ou em menor grau a ocorrência dos conflitos estava ligada à situação do poder central.

Dois arquivos foram extremamente relevantes para esta pesquisa. O Arquivo Histórico Ultramarino, consultado através dos CDs do Projeto Resgate nos fundos

Luiza da Fonseca e Avulsos Bahia, forneceu sobretudo as respostas e determinações da

Coroa portuguesa às petições feitas pelas mais diversas autoridades atuantes em Salvador. Já no Arquivo Municipal de Salvador nos debruçamos principalmente sobre as atas das reuniões da Câmara, as cartas enviadas pelo Senado ao monarca, a correspondência entre a instituição e os eclesiásticos e as provisões reais. Em geral esta documentação e a do Arquivo Histórico Ultramarino são complementares e tornam-se, por isso, muito proveitosos para nosso trabalho. De forma menos intensa, mas bastante relevante, as Ordens Régias no Arquivo Público da Bahia, os Documentos Históricos, publicados pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e alguns documentos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo foram também usados na construção desta dissertação.

Este trabalho está dividido em três capítulos. No primeiro buscamos apresentar a cidade de Salvador enquanto representante do Antigo Regime e compreender a

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efervescente busca dos seus moradores por mercês e privilégios. A apreensão desta sociedade é bastante relevante para perceber melhor os conflitos entre os agentes eclesiásticos e seculares, na medida em que eles são reflexos da estrutura social moderna, profundamente hierarquizada e pautada na distinção entre as pessoas. Nos outros dois capítulos, buscamos nos ater ao estudo de dois conflitos entre representantes do poder civil e o poder eclesiástico em momentos diferentes. Embora tenham um viés de independência entre si, ambos estão ligados por um fio de Ariadne: as tensões e os litígios entre as autoridades da Igreja e do poder civil na Bahia colonial. Além disso, nota-se o fator econômico também como forte motivador destas querelas. Portanto, no segundo capítulo nos aprofundamos no contexto pós-Restauração, debruçando-nos sobre a contenda entre o Bispo D. Pedro da Silva Sampaio e o Governador geral Antonio Telles da Silva, que acabou por envolver outras autoridades da administração colonial, como o Provedor mor e o Ouvidor geral. Enfim, no terceiro capítulo analisamos uma querela que eclodiu entre o Ouvidor Miguel Manso Preto e o Arcebispo Dom Sebastião Monteiro da Vide em torno do açougue dos eclesiásticos e que durou mais de uma década.

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Capítulo I

Salvador, cidade de mercês e privilégios.

Cidade da Bahia. Duas em uma só. Observou Froger, ao visitá-la, que era alta a baixa e poucas ruas eram retas.18 Sua parte baixa, destinada ao comércio, abrigava o porto mais importante da América portuguesa por pelo menos dois séculos. Ali navios de todo tipo atracavam, trazendo uma enorme variedade de carga. Ali a cidade se abastecia de alimentos e de homens. Navios cheios de negros africanos muniam o mercado de escravos baiano, ajudando na manutenção de uma sociedade escravista que se assentava na exploração de homens e mulheres arrancados de sua terra para, no Brasil, encontrar seu inferno. A grande maioria era mandada para as grandes plantations do Recôncavo (região próxima a Salvador), onde trabalhavam exaustivamente na colheita da cana e na produção do açúcar. Segundo os relatos de Antonil, em 1710 existiam 146 engenhos na Bahia e, em 1724, Soares da Franca afirmou existirem 139 engenhos, número que Schwartz acredita ser impreciso.19 Já na parte elevada da cidade, além dos prédios da administração, ficavam casas que pertenciam, em grande parte, aos homens bons, ricos mercadores ou senhores de engenho. Dampier afirmou haver, em 1699, mais ou menos duas mil casas, que tinham paredes grossas e fortes feitas em pedras.20 Seus habitantes, homens da elite, não poupavam para ostentar sua riqueza. Possuíam um enorme número de escravos negros homens e mulheres, que cuidavam dos serviços domésticos, fato que chamou a atenção do viajante inglês.

Salvador foi a capital da América portuguesa entre 1549 e 1763. Sua fundação significou uma mudança para a colonização dessa parcela do ultramar, já que efetivou concretamente sua conquista. Desde o seu primeiro ano de existência houve uma crescente burocratização do corpo de oficiais reais, que inicialmente esteve assentado na tríade Governador geral, Ouvidor geral e o Provedor mor. Enquanto foi sede da colônia

18 No original se lê “elle est haute et basse, et à peine y a-t´il une rue soit droite”. François Froger,

Relation d´un Voyage de La mer Du sud detroit de Magellan, brésil, cayenne e les isles antilles, Amsterdam, 1715, p. 140

19 Stuart Schwartz, Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial, 1550-1835, São Paulo,

Companhia das Letras, 1988, p.186.

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abrigou as principais autoridades régias. Também residiu ali o Bispo da Bahia, responsável pela administração eclesiástica não só da cidade como da colônia.

Nesse capítulo, portanto, montaremos inicialmente um panorama político administrativo de Salvador, tratando das atribuições e jurisdições de alguns oficiais régios e também da instituição de poder local e do Tribunal da Relação. Em seguida nos deteremos nos aspectos da sociedade soteropolitana, enfocando nos esforços cotidianos de alguns corpos sociais para distinguirem-se e na economia simbólica das mercês. Por fim, trataremos das relações entre a Igreja e o poder civil na cidade da Bahia durante os seiscentos e a primeira metade dos setecentos, nos valendo de exemplos já trabalhados pela historiografia e trazendo alguns novos litígios como base para a compreensão do cotidiano político de disputas de poder, distinção e status quo tão comuns a uma sociedade do Antigo Regime.

1-Oficiais régios e instituições na cidade da Bahia

A Bahia é cidade d´El Rei, e a côrte do Brasil, nela residem os Sr. Bispo, Governador, Ouvidor geral, com outros oficiais e justiça de sua Majestade.

Foi com essas palavras que o Padre Fernão Cardim procurou descrever a cidade de Salvador na sua Narrativa Espistolar de uma viagem e Missao Jesuitica, entre os anos de 1585 e 1590.21 E não era sem razão. Capital da colônia portuguesa desde sua fundação, em 1549, até 1763, a cidade da Bahia era sede militar, política e religiosa de um dos principais territórios ultramarinos de Portugal. William Dampier, em seu relato de viagem nos traz uma imagem de Salvador em 1699 que corrobora a descrita pelo jesuíta e nos dá uma ligeira ideia da sua organização urbana.

21

Fernao Cardim, Narrativa Espistolar de uma viagem e Missao Jesuitica, Lisboa, 1847, pp. 9-10. A ortografia das fontes utilizadas aqui foi atualizada e as abreviaturas desdobradas.

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25 Figura 1

Fonte: William Dampier, A new Voyage around the world, Londres, 1703, p.48.

Nela é possível perceber algumas características marcantes da colonização na região. O local escolhido para a ereção de Salvador não foi fruto do acaso. A preocupação com a defesa do território foi determinante para que a cidade fosse construída em uma área que oferecesse uma proteção natural e que funcionasse como barreira contra possíveis invasões. Dessa maneira, a capital da América portuguesa foi erguida em um terreno elevado e plano, que possuía uma visão privilegiada da Baía de Todos os Santos e que preenchia os requisitos protecionistas. Tradicionalmente as monarquias europeias não prescindiam das organizações militares e com Portugal não foi diferente. Segundo Stuart Schwartz, a estrutura militar no Brasil seguiu os modelos portugueses, sofrendo por vezes alterações dependendo da realidade do local.22

A partir do reinado de Dom Sebastião a organização militar lusitana sofreu algumas alterações, adotando modelos espanhóis. Essa reestruturação se aprofundou no período da União Ibérica, mas não vingou. O terço da armada real, criado em 1618, foi a

22

Alcir Pécora e Stuart B. Schwartz (orgs.), As excelências do governador: o panegírico fúnebre a d. Afonso Furtado, de Juan Lopes Sierra, São Paulo, Companhia das Letras, 2002. p. 317.

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primeira unidade desse tipo a ser formada numa nação europeia ocidental.23 Com a Guerra de Restauração (1640-1667) todo o exército português sofreu uma mudança com base nessa unidade. Na colônia luso-americana a atenção com a proteção do território não foi menor. Alguns aspectos da imagem indicam isso, como as três fortificações (duas na terra e uma no mar), todas voltadas para o mar. Essas construções denotam o cuidado com que eram tratadas questões relativas à defesa, sobretudo quando Portugal já amargava a experiência das invasões holandesas no seu litoral (Salvador foi invadida em 1624 e ficou por um ano sob o comando dos inimigos). A construção da cidade em um terreno elevado também não se deu por acaso. O objetivo era erguer a capital em um lugar onde, ao mesmo tempo, fosse possível perceber a presença do inimigo e não ficar vulnerável.

Ao longo dos séculos XVI e XVII foram criadas algumas instituições para efetivar a administração da cidade. A Câmara Municipal de Salvador, instalada no mesmo ano de fundação da cidade, representava o poder local e funcionava como principal mediadora entre a Coroa e seus súditos, e embora ela não apareça no desenho acima, está até hoje localizada na mesma praça que a casa dos governadores. Na chamada “Praça da parada”, afirma Affonso Ruy, “foram localizadas as casas destinadas aos serviços públicos, levantadas todas por Luiz Dias".24 Embora sua construção não ostentasse qualquer luxo, apresentando a modéstia das outras casas da cidade (por causa do tempo e falta de material adequado), a Câmara começou a funcionar em meados daquele ano.

Ela era composta, inicialmente, por dois juízes ordinários (ou do povo), três vereadores e de um procurador da Cidade, todos eleitos anualmente no mês de dezembro por um corpo eleitoral composto pelos homens bons da cidade.25 A eleição dos camaristas permaneceu assim até 1696, quando a Coroa ordenou que os juízes da Relação passassem a verificar cuidadosamente das listas eleitorais trienais, de onde o Vice-rei ou Governador geral selecionaria anualmente os indivíduos que serviriam

23 Segundo Pécora e Schwartz, “o terço em tese era composto de dez companhias, cada qual com cem

homens sob a liderança de um capitão. O mestre de campo era o comandante do terço, patente que pode ser mais bem entendida como a de um coronel da infantaria, já que só era utilizada em regimentos dessas unidades. O sargento-mor era o segundo em comando, uma posição que não poderia ser, de forma alguma, comparada àquela que detinha, no sistema militar britânico, o oficial de mesma patente.” Cf. Pécora e Schwartz, As excelências do governador... pp. 317-318.

24 Affonso Ruy, História da Câmara Municipal da cidade do Salvador, 2ª Ed., Salvador, Prefeitura

Municipal de Salvador, 1996, p. 21.

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como oficiais da Câmara.26 A criação do cargo de juiz de fora, precisamente no mesmo ano, significou igualmente um aumento da interferência da Coroa no poder local, através de seus oficiais régios. Aliás, uma carta dos desembargadores da Relação ainda em 1677 já deixava entrever que eles eram favoráveis a criação do cargo em questão. Defendiam que

Para boa administração da justiça, e melhor expediente das causas, necessita muito esta cidade de ter um juiz de fora, e particularmente para os negócios crimes, que os juízes ordinários além de não saberem o que devem fazer, não acodem aos casos de morte e outros delitos graves, nem tiram as devassas como são obrigados; E o Ouvidor geral que despacha em Relação não pode acudir a tudo; E quando nas férias sai ao termo a devassar, por os {juízes} não fazerem sua obrigação, é depois de ter acontecido o delito um ano; E mais, no que é a justiça muito prejudicada; E havendo juiz de fora letrado a vista de uma Relação será a justiça melhor administrada [...] 27

Denunciaram também os oficiais da Câmara, que segundo eles não estavam cuidando das rendas do Conselho, causando prejuízo ao sustento da infantaria e à fazenda real. Embora a missiva contenha tons de urgência no seu conteúdo, o cargo foi criado na Bahia. Ele representaria um novo período para a história dessa instituição. Antes constituída por pessoas da terra e baseada nos costumes locais, seria presidida por um ministro letrado nomeado pelo Rei, que “fomentaria a aplicação do direito oficial, e com isso não deixaria de ser um elemento de desagregação da autonomia do sistema jurídico-político local”.28

De acordo com Francisco Bethencourt, as Câmaras ultramarinas funcionaram como pilares do Império português. Afirma que elas permitiram o enquadramento político das populações nessas novas regiões, sobretudo no século XVIII, quando a elevação de povoações à categoria de vilas cresceu exponencialmente.29 Criadas segundo o modelo de Câmara reinol, se adaptaram a realidade local (mas sem criar

26 Charles R. Boxer, Portuguese Society in the tropics…, p. 74.

27 Arquivo Histórico Ultramarino (AHU), Luiza da Fonseca, caixa 23, documento 2780 [21 de Agosto de

1677].

28

Maria Fernanda B. Bicalho, “As câmaras ultramarinas e o governo do Império” in João Fragoso, Maria Fernanda Baptista Bicalho, Maria de Fátima Gouvêa (org.), O Antigo Regime nos trópicos: a dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-XVIII), Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2001, pp.189-221.

29 Francisco Bethencourt e Kirti Chaudhuri (dirs.), História da expansão portuguesa, vol. 3, Lisboa,

Circulo de Leitores, 1998, p. 270. Silvia H. Lara trata um pouco do conceito da categoria “vila” no período moderno, que tinha um significado muito mais político do que geográfico e estava intimamente ligada às Câmaras e suas jurisdições. Cf. Sivia H. Lara, Fragmentos setecentistas: Escravidão, cultura e poder na América portuguesa, São Paulo, Companhia das Letras, 2007, pp. 29-30.

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diferenças significativas entre elas) e representaram uma continuidade administrativa no Império que os governadores, Bispos e magistrados não podiam garantir pelo seu caráter passageiro, explica Boxer.30 Era através desse órgão que as elites econômicas e políticas da região produtora de açúcar da Bahia (Recôncavo) enfeixavam seus interesses, já que eram eles, senhores de engenhos e de escravos, que ocupavam os lugares no Senado da Câmara de Salvador. Ainda esse órgão o responsável pela regulamentação da vida cotidiana da cidade e também, a partir de 1625, pelo pagamento e fornecimento de comida e fardamento para a guarnição.31

Muitos exemplos podem ser retirados dos documentos para fundamentar a representação dos interesses da sociedade local pela Câmara. Nas sessões do Senado cotidianamente se discutiam os problemas da cidade da Bahia e algumas vezes, se necessário, era estabelecida uma comunicação com a Coroa para fins de concretizar seus desígnios. Para exemplificar, tomemos o caso do pedido de privilégios aos cidadãos soteropolitanos.32 Em 1646 uma consulta do Conselho Ultramarino revela-nos timidamente o trâmite da concessão de tal mercê. Segundo os conselheiros, na petição os oficiais da Câmara dizem

Que o povo dela [Salvador] há muitos anos tem servido a Vossa Majestade com grande demonstração, nas ocasiões que se ofereceram, do serviço desta Coroa, em razão do que Vossa Majestade com cartas suas prometendo de lhe fazer mercê, e porque até agora a dita Câmara não tem privilégio algum e Vossa Majestade foi servido de os conceder a Câmara do Maranhão, e é justo que os tenha também a Câmara da Bahia, como cabeça de todo o estado do Brasil33

Pediam para serem agraciados com os mesmos privilégios da cidade do Porto (1490), pelos seus préstimos de fidelidade ao rei Dom João IV.34 Os cidadãos de Salvador, assim como os portuenses, a partir de então não poderiam ser submetidos a

30 Charles Boxer, O Império colonial português (1425-1825), Lisboa, Edições 70, 1969, p. 263 e sgts. 31 Avanete Pereira de Sousa, “Poder Local e cotidiano: a Câmara de Salvador no século XVIII”

(dissertação de mestrado), Salvador, Universidade Federal da Bahia, 1996, especialmente o capítulo 2. Vale ressaltar que a partir do capítulo 3 a autora aborda individualmente as diferentes atribuições da Câmara Municipal de Salvador, a exemplo da urbanização, a higiene pública, as cerimônias e o abastecimento da cidade. Sobre esse último aspecto trataremos no capítulo 3 dessa dissertação.

32 Segundo Maria Fernanda B. Bicalho, os cidadãos no Antigo Regime eram os homens eleitos para

desempenhar uma função nos cargos administrativos da Câmara. Eles eram responsáveis pelo bom governo da República, articulando-se à governança da comunidade que faziam parte. Bicalho, “As câmaras ultramarinas...”, pp. 203-205.

33 AHU, Luiza da Fonseca, caixa 10, documento 1176 [3 de Março de 1646]. Ainda há um anexo do

parecer do procurador da Coroa sobre o mesmo assunto no documento 1177, na mesma caixa.

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tormentos, não seriam presos em cadeias públicas e sim em suas residências, os seus caseiros, amos e lavradores não poderiam ser obrigados a servir nas guerras, não seriam obrigados a dar pousada contra a sua vontade e poderiam portar armas durante o dia e a noite.35 Não tardou para chegar um alvará em fins de Março do mesmo ano confirmando tais privilégios aos peticionários.36 Embora possamos questionar a aplicação real desses privilégios à cidade da Bahia – que, diga-se de passagem, foram concedidos mais de cento e cinquenta anos depois do caso do Porto, num contexto totalmente distinto – importa saber que dentro da lógica na qual estavam inseridos esses homens, enobrecer era um imprescindível elemento de distinção e prestígio. Interessava mesmo ter títulos e privilégios, independente de sua aplicação.

Representada com destaque na figura 1, a casa do Governador estava localizada na mesma praça que a Câmara, como citado anteriormente. Muitas eram as atribuições de um Governador, que além de representar o governo civil, passava a ser chefe militar da colônia (possuía a patente de capitão geral do Estado do Brasil). Munidos de regimentos individuais, deveria superintender todos os governadores das outras capitanias e cuidar do tesouro real.37 Nomeados diretamente pelo Rei, os governadores gerais permaneciam, normalmente, três anos no cargo e depois retornavam a Portugal. Mas, como é possível ver no apêndice I desse trabalho, nem sempre esse tempo era respeitado. 38 Entre 1549 e 1760, de um total de trinta e oito governadores e vice-reis

35 Na obra de Affonso Ruy encontra-se uma transcrição completa da carta de confirmação dos privilégios

concedidos à cidade do Porto. Affonso Ruy, História Política e Administrativa, Salvador, Tipologia Beneditina, 1949, pp. 196-201.

36 “Eu El Rei faço saber aos que meu alvará virem que tendo respeito ao que se me representou por parte

dos Oficiais da Câmara da Cidade do Salvador, Bahia de todos os Santos, em razão dos muitos serviços que me tem feito nas ocasiões que se ofereceram prometendo eu por este respeito lhes fazer mercês e pedindo-me ora lh’ a fizessem (por não ter aquela cidade privilégio algum) de que pudesse gozar os mesmos que tem e goza a câmara da cidade do Porto, assim como se concedeu à cidade de São Luiz do Maranhão, e visto por mim seu requerimento e os serviços que os moradores da Bahia me tem feito com tanto amor e lealdade, impondo sobre si subsídios e vintenas para acudir aos sustento do presídio dela, e as outras contribuições precisas, hei por bem de lhe fazer mercê de que goze dos mesmos privilégios que tem e goza a cidade do Porto [...]”. Esse alvará também foi publicado em Affonso Ruy, História Política e Administrativa..., pp. 195-196.

37Os regimentos dos governadores gerais do Brasil buscavam estabelecer as regras de funcionamento

desse cargo. Era o documento que definia os procedimentos próprios do ofício. Até 1677 eles eram individuais e específicos, misturando os elementos permanentes com outros que procuravam atender as necessidades conjunturais. Com o regimento do governador geral Roque da Costa Barreto, em 1677, a Coroa compilou todos os avanços dos regimentos anteriores e os governadores passaram a se orientar por ele. Para mais detalhes sobre o tema, ver Francisco Carlos Consentino, Governadores gerais do Estado do Brasil (Séculos XVI-XVII): ofícios, regimentos, governação e trajetórias, São Paulo/Belo Horizonte, Annablume/Fapemig, 2009.

38Conferir o apêndice 1 da obra de Stuart B. Schwartz, Burocracia e Sociedade no Brasil Colonial: A

Suprema corte da Bahia e seus juízes (1609-1751), São Paulo, Editora Perspectiva, 1979. Foi publicada recentemente uma nova edição deste livro com modificações na tradução. Cf. Stuart B.

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(sem contar as juntas provisórias), treze ficaram mais de quatro anos no governo. Ainda se incluirmos aqueles que permaneceram quatro anos (que já significaria uma extrapolação do período previsto) esse número fica maior, passando para vinte e seis.

Mafalda Soares da Cunha assevera que os critérios seguidos na escolha do governante eram tanto sociais quanto aqueles pré-definidos pela Monarquia para cada território.39 Como agentes reais, os governadores representavam as vontades da Coroa e administravam em seu nome. Para Pedro Puntoni, a presença do governo geral orientava a empresa colonial de acordo com os interesses do centro e dos localmente negociados.40 Então, podiam os governantes tomar decisões sem antes consultar o Rei, o que lhes dava certa autonomia, mas suas provisões deveriam depois receber a confirmação régia. Podemos tomar como exemplo o caso do açougue eclesiástico, que será tratado no capítulo três dessa dissertação. Após um tempo fechado, o açougue dos padres foi reaberto por Jerônimo de Ataíde (Conde de Atouguia), Governador geral do Brasil entre 1654 e 1657, e depois confirmado pelo Rei através de uma provisão.

A partir de 1720 os indivíduos escolhidos para governadores gerais do Brasil ganharam o título de vice-rei. Em termos de administração e jurisdição nada foi mudado, mas há que se observar uma alteração no perfil das pessoas escolhidas para o cargo. Se antes eles eram os secundogênitos que dispensaram uma carreira eclesiástica e vieram para o ultramar para fazerem fortunas, agora essas características se alterariam.41 Como afirma Gouvêa, esses homens passaram a ser arregimentados do interior da nobreza titulada a partir de então e passariam períodos mais prolongados no cargo.42 Comparativamente, na vizinha América espanhola, o poder e a jurisdição dos Virreyes eram bem mais amplos do que no Brasil. Juan de Solórzano Pereira, na sua Politica

Indiana, consagra um tópico à discussão do papel do vice-rei nessa porção do território.

Diferente de outros tratados jurídicos, geralmente escritos por homens que não

Schwartz, Burocracia e sociedade no Brasil colonial: o Tribunal Superior da Bahia e seus desembargadores (1609-1751), São Paulo, Companhia das Letras, 2011.

39 Mafalda Soares da Cunha, “Governo e governantes do Império português do Atlântico (século XVII)”

in Maria Fernanda Bicalho, Vera Lúcia Amaral Ferlini (orgs.), Modos de governar: idéias e práticas políticas no império português (séculos XVI a XIX), São Paulo, Alameda, 2005.p.73.

40

Pedro Puntoni, “’Como coração no meio do corpo’: Salvador, capital do Estado do Brasil” in Laura de Mello e Souza, Júnia Ferreira Furtado, Maria Fernanda Bicalho (orgs.), O governo dos povos, São Paulo, Alameda, 2009, p. 373.

41 Virgínia Rau, “Fortunas ultramarinas e a nobreza portuguesa no século XVII”, in José Garcia Manuel

(int. e org.), Estudos sobre história econômica e social no Antigo Regime, Lisboa, Editorial Presença, 1984, pp.29-46.

42 Maria de Fátima Gouvêa, “Poder político e administração na formação do complexo atlântico

português (1645-1808)” in João Fragoso, Maria Fernanda Baptista Bicalho, Maria de Fátima Gouvêa (org.), O Antigo Regime nos trópicos: a dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-XVIII), Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2001, pp. 285-315.

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conheciam a realidade ibero-americana, Politica Indiana adequou a legislação reinol à realidade colonial, já que seu autor foi Ouvidor da Audiência de Lima por onze anos e também Governador e visitador das minas de Huancavelica. Afirmou em seu tratado que os Virreyes eram como representantes do Rei em terras americanas e os vassalos deveriam obedecê-los como ao próprio soberano,

aunque ellos pequen, i despues puedan ser por el (Rei) castigados, como y alo tengo dicho em otros capitulos [...]. I la razon de esto es, el que siempre se debe presumir por los Virreyes, i lo que hazen, lo debemos juzgar como hecho por el Rey, que los nombrò[...].43

Embora tudo o que caiba a um vice-rei seja, sem dúvida, imposto pelo Rei, afirma Solórzano, aquele que assumisse o cargo poderia conferir aquilo que seu soberano faria em nome do bom governo e da segurança, sobretudo no que diz respeito aos índios. Assim, os vassalos poderiam tratar dos seus problemas com agilidade, sem ter que recorrer à Coroa, que estava distante.44 Na vizinha portuguesa, um Governador geral (ou vice-rei) também poderia dar provimentos e tomar decisões por conta própria, mas, como foi citado anteriormente, dependia sempre da posterior confirmação real.

No que diz respeito à justiça, a posição do vice-rei tanto na América espanhola quanto na portuguesa eram semelhantes. Segundo o jurista espanhol, não deveriam os vice-reis se intrometer nos assuntos concernentes à justiça. Afirma que

Solo se puedan, i deban entrometer em las dichas visitas (realizadas pelos Magistrados para promover as questões de justiça), em las causas i negocios que tuvieren peligro en la tardança, i se pudieren sustanciar, i determinar brevemente i plano, remitiendo las demas à los juezes, ò Tribunales a quien pertenezcas.45

Em outras palavras, eles poderiam interferir nas questões de justiça em nome do bem comum, em caso de última necessidade. No Brasil, para auxiliar os governadores nos foros da justiça, foi implantando o cargo de Ouvidor geral, que deveria presidir as audiências dos recursos das sentenças proferidas pelos Ouvidores das capitanias, servir como magistrado local na Bahia e ainda visitar as demais capitanias para inspecionar a situação da justiça. Segundo Schwartz, a introdução desse cargo no Brasil refletiu não só um desejo de melhorar a justiça ali por parte da Coroa, mas também a sua vontade

43 Juan de Solorzano Pereira, Politica Indiana, Madrid, Diego Diaz de la Carrera, 1648, pp.874. 44

Idem, pp. 873-875.

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em aumentar o controle real.46 E as visitas realizadas pelos Ouvidores gerais denotavam esse desejo.

Mas o aparato burocrático da justiça na colônia não se reduziu a aquele agente. Na verdade o seu grande acúmulo de funções foi a grande razão de ter sido instalado na Bahia o Tribunal da Relação. No início do século XVII (1609) foi implantado esse grande aparelho judiciário cujo principal papel era fixar as leis e funcionar como um tribunal de justiça.47 Um corpo de oficiais (incluindo o Ouvidor geral, que passou a fazer parte do quadro da Relação) era incumbido de colocar em prática o objetivo maior do tribunal nos trópicos: “a proteção legal dos interesses reais e a imposição das leis”.48 Porém, como afirma o historiador, foram os homens e não as leis que fizeram do Tribunal uma instituição dinâmica. E certamente devemos nos recordar disso mais à frente nesse trabalho, pois como homens representavam também seus interesses e por isso, embora a Relação existisse para por em execução a justiça, ela não estava isenta de conflitos. Sobretudo no capítulo três desta dissertação, veremos que o envolvimento entre desembargadores e o Ouvidor geral causou muitas suspeitas quanto à eficácia judiciária na Bahia.

Vale ressaltar que para além das questões de justiça, economia ou política, existiu uma administração eclesiástica que cuidava da espiritualidade dos colonos e que tinha um papel político imprescindível para a Coroa portuguesa. É importante salientar que no Antigo Regime a Igreja e seus símbolos marcaram profundamente o poder profano. Como afirma Pedro Cardim, assim como o mundo jurídico, “o mundo eclesiástico, nomeadamente, também gerou um volume enorme de programas de ordenação social”49

, que serviu muito bem para a manutenção do poder real português, sobretudo nas porções ultramarinas do Império. Constituiu um poder eficaz em vários níveis de influência, desde as ações cotidianas e imediatas, como a família e as comunidades, até um âmbito internacional, entre os reis e imperadores. Como afirma Hespanha, de um extremo ao outro a influência disciplinar da Igreja exercia-se continuamente.50

46Schwartz, Burocracia e Sociedade..., pp. 24-28. 47 Idem, p.114.

48 Idem, p.123. 49

Pedro Cardim, Cortes e cultura política no Portugal do Antigo Regime, Lisboa, Edições Cosmos, 1998, p.15.

50 Antonio Manuel Hespanha, “As estruturas políticas em Portugal na época moderna” in José

Tengarrinha (org.), História de Portugal, Bauru/São Paulo/Portugal, Edusc/Unesp/Instituto Camões, 2001, pp. 117-181.

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Sobre a Igreja e suas ações na Bahia trataremos com mais vagar no terceiro tópico deste capítulo. Feita uma breve análise da estrutura administrativa estabelecida da capital da América portuguesa, atentaremos agora à estrutura dessa sociedade marcadamente do Antigo Regime, sobretudo ao comportamento cotidiano da elite e ao seu esforço para demonstrar publicamente seu poder e sua distinção.

2- Salvador, cidade de mercês e privilégios.

Tanto Dampier quanto os viajantes franceses, Froger e Frezier, observaram com curiosidade uma cena que provavelmente era cotidiana nas ruas soteropolitanas. Tratava-se de um transporte utilizado pelos homens de posse; uma “rede de algodão à moda das Índias ocidentais, geralmente tingida em azul, com longas franjas caídas dos dois lados”, que era carregada pelos “ombros dos negros com a ajuda de um bambu com 12-14 pés de comprimento”.51 A essa espécie de carruagem Froger chamou palanquim, embora Frezier tenha afirmado que o nome correto era serpentina.52 A definição dada por Bluteau indica que ele tinha razão, pois além de citar a Bahia e o Brasil nesse verbete, sua descrição se assemelha com o desenho publicado na obra de Frezier.53

Figura 2

51 Lê-se no original: “The main thing is a pretty large cotton hammock of the west India fashion, but

mostly dyed in blue, with large fringes of the same, hanging down each side. This is carried on the negros´s shoulder by the help of a bamboo about 12 or 14 foot long, to which the hammock is hung.”Dampier, A new voyage..,, p. 59.

52 Amédée F. Frezier, Relation Du Voyage de la Mer du Sud aux côtes du Chily et du Perou, fait pendant

les anées 1712, 1713 et 1714, Amsterdam, 1717, p. 527.

53 No dicionário Bluteau encontramos as seguintes descrições. Serpentina: é uma rede, coberta com

tecido, e cortinas a modo de liteira. Dois homens a levam com uma cana de Angola nos ombros; e como as primeiras levavam por remates a cabeça e a cauda de uma Serpente, foram chamas Serpentinas. Palanquim: espécie de cadeira, ou leito portátil, com um varal por cima, que dois homens levam às costas, e serve de carruagem na Índia. Consultado em:

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Fonte: Amédée François Frezier, Relation Du Voyage de la Mer du Sud aux cotes du Chili, du Perou et du Brésil, fait pendant les anées 1712, 1713 et 1714, tomo II, Amsterdam, 1717.

Palanquins ou serpentinas, o fato é que os homens ricos, a “nobreza da terra” não estava disposta a se expor ao sol escaldante dos trópicos ou às chuvas que atingiam Salvador em certos meses do ano. Passeavam pelas ruas de pedra da cidade recostados confortavelmente em seus travesseiros, saudando as pessoas de seu conhecimento.54 Como relata Froger, apenas “les gens de qualité”, as pessoas importantes, eram transportadas assim.55 Constituía, portanto, mais uma forma de distinção.

Segundo Dom José Botelho de Matos, Arcebispo da Bahia, em 1706 a cidade possuía “4.296 fogos e almas de confissão 21.601” divididas em seis freguesias.56

Já para 1755 noticiava serem 6.719 fogos e 37.543 almas, mas agora divididas entre nove freguesias. Eram homens e mulheres livres, escravos e criados que dividiam cotidianamente os mesmos espaços, sobretudo na cidade e no Recôncavo (juntos eles somavam 80% da população da capitania em 1724).57

Típica sociedade corporativa do Antigo Regime, profundamente marcada pela justiça e pela pluralidade jurisdicional, a capital do Brasil testemunhava dia após dia uma luta incessante dos corpos sociais pelo poder e pela diferença. Notou bem Frezier ao se referir ao costume da “gente rica” de usar serpentinas, pois “não anda[va]m a pé, sempre diligentes para encontrar maneiras de se distinguir dos outros homens, na

54 Dampier, A new Voyage..., pp.59-60.

55 Froger, Relation d´un Voyage de La mer Du Sud..., p.143. 56

AHU, Castro e Almeida, caixa 11, documento 2010 [30 de agosto de 1755].

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América como na Europa, teriam vergonha de usar as pernas que a natureza nos deu para caminhar”.58

Além do meio de transporte, havia muitos outros elementos usados como ferramentas da distinção. Era uma luta simbólica e na maior parte das vezes silenciosa. Os trajes, por exemplos, não poderiam exceder mais do que sua condição permitisse. O simples ato de usar sapatos era uma maneira de marcar posição naquela sociedade e os escravos não deveriam utilizá-los.

Na documentação há toda sorte de reclamação relacionada ao modo de se vestir dos negros e mulatos. Em três de Julho de 1641, incomodados pela ação escandalosa da grande quantidade de mendigos da cidade, os oficiais da Câmara procuravam um remédio para esse problema. Diziam que

Entre eles havia muita gente que podia trabalhar e ganhar de comer sem mendigar e outros o tinham por ofício e se podiam remediar o que era bem se atentasse para que os pobres e aleijados só o pudessem fazer e isto se entendera também com as mulheres que pedem e assim mais que esta cidade estava mais dissoluta no traje das escravas que chegavam a tanto que com as muitas galas que lhes davam os seus amigos que chegavam a tanto extremo que por eles muitos casados deixavam suas mulheres e a fazenda perecia.59

A mendicância, ao fim, não constituiu o principal ponto dessa mesa de vereação. Ela servira de pano de fundo para outro problema, qual seja a maneira de se vestir das escravas. Invocando o argumento do bem comum, afirmaram que esse comportamento era a causa da desgraça dos casamentos e das fazendas. Fazia-se, portanto, necessário restaurar o equilíbrio social, colocando cada um no seu lugar – as escravas deveriam voltar a se vestir enquanto tal. Outro caso semelhante foi tema de uma carta enviada ao Conselho Ultramarino pelo Governador geral, Dom João de Lencastre, em 1695. Queixava-se que

Costumam os mulatos, e mulatas, e algumas negras desta cidade, e seu Recôncavo, vestir-se de toda a seda, com escândalo geral dos inconvenientes que resultam da liberdade, e modo com que se trajam: porque as mulatas, ou negras que são escravas, principalmente das casas menos ricas, vendo-se as filhas com uma saia de baeta, e as suas escravas tão luzidas, seguem

58 No original, se lê: “ne marchent point à pied, toujours industrieux à trouver des moyens pour se

distinguer du reste des hommes, en Amerique comme en Europe, ils auroient honte de se servir des jambes que la nature nous à donné pour marcher”. Frezier, Relation du Voyage de la Mer Du Sud...

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