• Nenhum resultado encontrado

Do universo escolar para o mundo digital: o estudo da escrita, reescrita e suas práticas no contexto virtual

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Do universo escolar para o mundo digital: o estudo da escrita, reescrita e suas práticas no contexto virtual"

Copied!
11
0
0

Texto

(1)

Do universo escolar para o mundo digital: o estudo da escrita,

reescrita e suas práticas no contexto virtual

(From the school universe to the digital world: a study on the writing, rewriting and theirpractices in the virtual context)

Flávia Danielle Sordi Silva1

1Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)

[email protected]

Abstract: This study is part of a MA dissertation that analyzes four virtual Orkut communities whose topics permeate the writing and rewriting of texts. The study is done in order to observe the peculiarities of these texts which circulate in the digital world, and also aims to discuss the writing practices on this site. By adopting the concept that “Writing is to offer something to be read” (MARCUSCHI, 2005, p. 13), the compositions posted on this social network can be classified as texts that were written for various interlocutors. The compositions allow us to analyze the level of textual production: the criteria used to evaluate these productions and even the view these people have about the act of writing.

Keywords: reading and writing; rewriting; orkut; internet.

Resumo: Este trabalho pretende apresentar o início de uma pesquisa de mestrado que analisa quatro comunidades virtuais do ambiente Orkut cujos temas tangem a escrita e reescrita de textos, a fim de observar as peculiaridades dessas produções textuais que circulam no meio digital. Este artigo tem o objetivo de discutir práticas de escrita realizadas em fóruns específicos de tal site de relacionamentos. Tendo em vista a ideia de que “escrever é oferecer algo para ler” (MARCUSCHI, 2005, p. 13), pode-se classificar as redações disponibilizadas pelos membros dessa rede social como textos que se propõem a vários interlocutores, sendo possível observar os níveis de produção textual daquilo que escrevem; os critérios utilizados para avaliação dessas produções e até mesmo as concepções dessas pessoas acerca do ato de escrever.

Palavras-chave: leitura e escrita; reescrita; orkut; internet.

Introdução: a construção de uma pesquisa

Muitos pesquisadores inseridos no campo dos estudos da linguagem, como Luiz Paulo da Moita Lopes (2006), B. Kumaravadivelu (2006), Kanavillil Rajagopalan (2006) e Marilda Cavalcanti (2006), discutem a importância de as pesquisas voltarem-se aos interesses da sociedade, buscando responder a questões emergentes no mundo contemporâneo. Nesse sentido, Moita Lopes declara:

O projeto que vejo como parte de uma agenda ética de investigação para a LA envolve crucialmente um processo de renarração ou redescrição da vida social como se apresenta, o que está diretamente relacionado à necessidade de compreendê-la. Isso é essencial para que o linguista aplicado possa situar seu trabalho no mundo, em vez de ser tragado por ele ao produzir conhecimento que não responda às questões contemporâneas em um mundo que não entende ou que vê separado de si como pesquisador: a separação entre

teoria e prática é o nó da questão.1 (MOITA LOPES, 2006, p. 90)

(2)

Diante dessa perspectiva que procura unir teoria e prática, exigindo novas investigações e, por conseguinte, novas formas de fazê-las, pode-se perguntar quais seriam, então, as nossas “questões contemporâneas”, a fim de que sejam desenvolvidas pesquisas situadas “no mundo” e relacionadas à “vida social”? Visando a uma resposta pertinente a tal indagação torna-se indispensável dedicar atenção ao estudo de um processo que surgiu e vem crescendo vertiginosamente nos últimos anos, atingindo uma quantidade muito ampla de pessoas pertencentes a diversos grupos sociais: a interação humana com as novas tecnologias digitais, com destaque para a atuação dos indivíduos no que se convencionou como ciberespaço.2

Muitos são os questionamentos que emergem quando o ciberespaço é abordado, sobretudo no tocante aos aspectos relativos às práticas de leitura e escrita que nele acontecem – e, especialmente, às mudanças ocorridas com o aumento da presença dessas novas tecnologias, como o computador e a Internet –, já que se trata de uma situação ainda em andamento cuja estrutura final não é possível precisar. Assim, em meio a todas essas interrogações, resolvi aprofundar-me na investigação delas, construindo um trabalho que pudesse ser capaz de atender às exigências já apontadas por Moita Lopes.

Dessa forma, este artigo apresenta o início de minha pesquisa de mestrado,3 visando

a discutir práticas de escrita realizadas no ciberespaço, em particular, na rede social Orkut – no qual se insere o corpus da pesquisa em questão – a partir de uma perspectiva teórica que considera o estudo do texto relacionado com suas condições de produção sócio-históricas e segundo práticas contextualizadas em universos socioculturais específicos (BAKHTIN, 2003), o que inclui os próprios contextos virtuais.

Um espaço no ciberespaço

O número expressivo confere ao orkut lugar de destaque dentre as redes sociais e é indicador, para o estudioso em Ciências Humanas, de material a ser investigado. (KOMESU, 2007, p. 102)

Navegar pelas páginas da WWW – World Wide Web – tornou-se atividade comum a pessoas de todo o mundo, não excluindo, portanto, os brasileiros. De acordo com pesquisa recente divulgada pelo Ibope sobre os usos da internet no Brasil, o acesso a redes sociais e sites de relacionamento no país chegou ao número de 31,7 milhões de pessoas que utilizam tais ambientes por aproximadamente quatro horas e meia diariamente.4 Em meio

a esses espaços virtuais frequentados pelos brasileiros, destaca-se o Orkut, que, idealizado pelo engenheiro Orkut Buyukkokten, da empresa Google, encontra-se disponibilizado desde 2004 no endereço eletrônico www.orkut.com. Esse site de relacionamentos da web

2 O termo ciberespaço refere-se a uma “rede gigantesca de transmissão e acesso” (SANTAELLA, 2003, p. 71),

que conecta as pessoas em nível mundial. De acordo com Pierre Lévy (2003), o nome designa tanto o aspecto material da comunicação digital, como o universo das informações que contém e os seus usuários.

3 A pesquisa em questão teve início em março de 2010 e recebe o apoio financeiro da CAPES, inserindo-se no

Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL-UNICAMP), sob a orientação da Profª. Drª Raquel Salek Fiad.

4 As estatísticas mencionadas foram disponibilizadas pelo Ibope no primeiro trimestre de 2010. Consultado

em http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL1552813-6174,00-BRASIL+TEM+MILHOES+DE+ PESSOAS+COM+ACESSO+A+INTERNET+SEGUNDO+IBOPE.html.

(3)

2.05 (O’REILLY, 2005) foi fortemente acolhido e promovido em território nacional,

superando a aceitação em seu próprio país de origem (EUA), o que lhe conferiu uma versão em português e o status de rede social com maior evidência ao lado de outras como o Twitter e o Facebook, sendo, porém, a mais utilizada delas.6

No Orkut, cada usuário cria seu próprio perfil no qual escolhe uma imagem ou foto para apresentar-se e faz uma descrição de si. Através dessas páginas pessoais, os “orkuteiros” podem realizar uma série de atividades online, como se conectarem a amigos, jogar, promover eventos, associarem-se a comunidades virtuais, compartilharem imagens, vídeos e músicas, dentre outras possibilidades. Segundo Knobel e Lankshear (2008), podemos entender a participação em redes sociais de uma perspectiva sociocultural como práticas de letramento em diversos modos por pessoas comuns que vivem seu cotidiano em maior ou menor proporção na internet (KNOBEL; LANKSHEAR, 2008, p. 277).

Incorrendo sobre esses domínios, pergunta elementar seria, então, que tipo de práticas letradas os “orkuteiros” exercem nessa rede social, em particular? E a resposta não se mostra difícil, uma vez que dentro do site há um imenso conjunto de atividades em que seus membros têm de ler, escrever, interpretar, seja nas mensagens que enviam para seus amigos, nos jogos que utilizam, nas conversas que estabelecem, nos fóruns de que participam, entre outros.

Contudo, gostaria de destacar aqui a existência de práticas letradas que ocorrem em algumas comunidades virtuais7 do Orkut e se assemelham fortemente às práticas de

letramento realizadas em contextos escolares, a saber, os fóruns online em comunidades virtuais que tangem a escrita e a reescrita de textos. Entre esses ambientes é bastante comum se encontrar fóruns cujos temas são as produções textuais de modo geral e verificar que neles, muitas vezes, ocorre um processo no qual eles mesmos são convertidos em locais para a própria prática da escrita de textos, que é, posteriormente, compartilhada com os outros usuários da rede social.

Nesse sentido, não seria a internet a mudar as atividades dos indivíduos, mas os próprios “comportamentos que mudam a Internet” (CASTELLS, 2004, p. 273), na medida em que um meio dedicado, sobretudo, ao entretenimento, informação rápida e comunicação, passa a fomentar também discussões importantes, abordando assuntos complexos e de alta relevância como o ensino da escrita e, simultaneamente, propiciar além de uma análise, a própria construção do conhecimento, tanto individual, como coletivo, dentro da própria rede, ao comportar práticas letradas características de universos escolares.

5 Há uma distinção entre a web 1.0 e a web 2.0. A primeira seria, em termos gerais, enquadrada como a

internet em que há uma nítida divisão entre o papel do usuário e do programador, enquanto a web 2.0, criada em 2004, destaca-se, sobretudo, por um processo colaborativo dos usuários, como é o caso de ambientes como o Youtube, Google, Wikipédia, Orkut etc. Para mais informações sobre web 2.0, consultar O’Reilly (2005).

6 Alexa e Google divulgaram dados a partir dos quais foi possível elaborar um mapa com as redes sociais

mais utilizadas em cada país. Embora o Facebook seja a rede preponderante na maioria das nações, o Orkut continua dominando no Brasil. Informações extraídas de “Mapa mostra qual a rede social mais utilizada em cada país”, disponível em http://tecnologia.pt.msn.com/noticias/article.aspx?cpdocumentid= 151470756. Consultado em 04-02-2010. Além disso, em pesquisa recente realizada pelo Ibope Inteligência, juntamente com a Worldwide Independent Network of Market Research (WIN), a respeito do acesso a redes sociais em nível global, pude constatar, a partir de entrevista exclusiva com a diretora executiva Laure Castelnau (Julho/2010), que o Orkut é, de fato, a preferida dos brasileiros.

7 Em meu projeto de mestrado são quatro as comunidades virtuais do Orkut analisadas: “Livros, textos e

(4)

Observando práticas de escrita em contextos digitais: o Orkut como uma porta de entrada

A multiplicação das telas anuncia o fim do escrito, como dão a entender certos profetas da desgraça? Essa ideia é muito provavelmente errônea. (LÉVY, 1997, p. 50)

A escrita é uma prática comum a todas as comunidades do Orkut, pois as discussões em seus fóruns são feitas por meio dela, ou seja, ela é a ferramenta pela qual as pessoas interagem uma com as outras dentro dos espaços virtuais. Além disso, existem vários tipos de interações nesses ambientes. A pesquisadora Marcela Lima, que analisou uma comunidade virtual da rede em sua dissertação de Mestrado, considerou que não se pode fixar as características de um fórum online:

Participar de um fórum online do orkut é diferente de participar de um fórum online de um outro site; assim como participar do fórum online da referida comunidade é diferente de participar de um fórum online de uma outra comunidade do mesmo orkut. Apesar de haver elementos comuns a qualquer um desses contextos, pois todos são fóruns online, há uma série de características que sempre os distinguem dos demais. (LIMA, 2010, p. 92) Como apontado por Lima, mesmo dentro do Orkut existe uma amplitude de comunidades cujos fóruns articulam-se de maneira distinta a depender de seus temas, perfil dos membros, período histórico etc. Assim, dentro da rede social, um membro pode associar-se a comunidades em que participe desde fóruns nos quais troque receitas culinárias com seus amigos até discussões religiosas ou mesmo partilhe comentários de crítica literária, por exemplo. As possibilidades temáticas e de atividades são, portanto, bastante variadas, bem como as práticas letradas, sendo que chamam atenção algumas comunidades, em particular, por estabelecerem ambientes em que um público familiarizado com práticas de escrita veiculadas em contextos educacionais tenta reproduzir tais atividades nos fóruns online, destacando-se, sobretudo, a produção do tipo de texto conhecido popularmente como “redação”. Ao observar fóruns dentro de tais espaços, então, foi que se estabeleceu a pesquisa apresentada.

Abaixo, estão reproduzidas as páginas iniciais de alguns desses ambientes8 nas

quais se pode conhecer o objetivo para que foram criados observando seus títulos e suas descrições:

8 As imagens apresentadas são reproduções das comunidades virtuais que constituem o corpus de minha

pesquisa de mestrado, contudo não são as únicas do Orkut que tangem a temática, podendo ser encontradas muitas outras delas dentro da rede social.

(5)

Figura 1- Página inicial da comunidade “Livros, Textos e Redação” do Orkut (Disponível em http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=8148414)

Figura 2- Página inicial da comunidade “Redigir Redação” do Orkut (Disponível em http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=22247907)

(6)

Figura 3 - Página inicial da comunidade “Eu amo Redação” do Orkut (Disponível em http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=579077)

Figura 4 - Página inicial da comunidade “Aprendendo Redação” do Orkut (Disponível em http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=48249)

A existência de comunidades como essas ora apresentadas é muito reveladora, na medida em que a superioridade da produção de “redações” (que consistem basicamente em narrativas, cartas e dissertações) e não outros tipos de textos quaisquer está diretamente relacionada ao universo escolar. Pode-se afirmar que grande parte das produções textuais desenvolvidas nos fóruns online desses ambientes, na realidade, é motivada por solicitações de professores e voltará para a escola de alguma maneira, por exemplo, quando um estudante que postou seu texto e obteve correções dos orkuteiros, reescreve sua obra e a entrega para seu professor.

Ademais, tal gênero textual pode ser tão frequente no Orkut em função de seu alto valor para exames como os Vestibulares e concursos, de modo geral, já que a maior parcela dos orkuteiros é composta por jovens9 e esta é a produção escrita solicitada em tais provas, 9 De acordo com dados demográficos disponíveis pelo próprio Orkut, 53, 48% de seus associados são jovens

(7)

destacando-se, sobretudo, o que se denomina por “dissertação”. A redação passou a constar no vestibular brasileiro desde a década de 70 do século passado quando foi inserida no exame do CESCEM – Centro de Seleção de Candidatos de Escolas Médicas e Biológicas. (PIETRI, 2007, p. 285) e desde então é a produção textual mais desenvolvida também em contextos escolares e cursos preparatórios para tais exames vestibulares.

Assim, a maioria irrefutável das postagens de textos nas comunidades observadas é de redações e ainda de suas respectivas correções, embora também aconteça a produção de outros gêneros textuais como crônicas e poesias – ainda que em menor número – existindo, portanto, uma vasta quantidade de material para análise e reflexão. Por outro lado, os orkuteiros que divulgam seus textos nesse tipo de comunidade sabem que suas produções estarão à disposição de interlocutores e não apenas têm essa consciência, como esperam por isso e as direcionam a alguém. Nesse sentido, a questão da interlocução em tais locus online está em contiguidade com a perspectiva bakhtiniana de que:

[...] mesmo que não haja um interlocutor real, esse pode ser substituído pelo representante médio do grupo social ao qual pertence o locutor. A palavra dirige-se a um interlocutor”. (BAKHTIN, 1997, p. 112)

Além disso, no Orkut, aqueles que partilham suas redações com outros não somente esperam serem lidos, mas anseiam uma interação explícita, isto é, as pessoas que disponibilizam seus textos almejam leitores que comentem sobre suas escritas, deem sugestões, façam indicações e assim por diante. Pode-se verificar visitando as comunidades apresentadas que essas análises esperadas e mesmo solicitadas dos textos ocorrem de fato e dão-se das mais variadas maneiras possíveis, sendo que neste artigo algumas deles serão abordadas, em especial. Inicialmente, um tipo muito frequente de consideração ao texto do outro que pode ser observado é a correção pontual a aspectos linguísticos e estruturais: ortografia, respeito à gramática normativa e escolhas lexicais, tais como pode ser verificado no exemplo a seguir:10

(1) Vamos lá:

• Logo no começo você usou a expressão “Com certeza”.

- Isso torna o texto repetitivo e cansativo. Se você a tirar verá que não fará falta alguma na coerência textual. • No 2º parágrafo você usa a preposição “Na” vida de uma pessoa... em vez de colocar o artigo “a”. Pois as escolhas influenciarão a vida da pessoa e não “na”. No mesmo parágrafo você usa o pronome “se” na forma de próclise, usa-se apenas no início de uma frase, ou seja o correto é: Buscar “se” conhecer.

• No 3º parágrafo Se você trocar a palavra “hoje”, por JÁ dára mais coerência. Também no mesmo parágrafo, você poderia eliminar “no assunto”, pois ocorre o vício do pleonasmo, já que “especializado” já demonstra que é “no assunto”.

• No 5º parágrafo novamente vc se torna repetitivo com “atualmente”. Elimine o termo. Você usa o verbo impessoal “Há” e na mesma oração o advérbio “Atrás”. Ou usa o verbo ou o advérbio.

- o 6º e o 7º parágrafo não consegui encontrar nenhum erro...

No geral sua redação está bacana. Usou muito bem os conectores de coesão e está bem coerente. Cuidado apenas com o pleonasmo...

Sobre o título está pouco atraente e simplista demais...

Busque revistas como Veja, Istoé, entre outras para treinar os títulos... Abraço.

10 Os exemplos que serão apresentados foram transcritos sem modificações em relação à maneira como

(8)

(Disponível em:

http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=8148414&tid=5487538586366541231&kw=est%C3 %A1+pouco+atraente. Acesso em: 27 jun. 2010.)

O exemplo (1) é a transcrição de uma avaliação feita por um orkuteiro sobre o texto de outro usuário do Orkut que havia disponibilizado sua redação na comunidade “Livros, textos e redação”. Nota-se que o corretor em questão faz ponderações bem precisas, destacando elementos parágrafo a parágrafo, dentro dos quais realiza apontamentos em relação à coerência, colocação pronominal, escolhas lexicais, vícios de linguagem e coesão. O avaliador sugere ainda que o autor do texto que analisou recorra à leitura de revistas, acreditando que elas poderão auxiliá-lo na criação de títulos mais adequados e interessantes, já que julgou o título da obra que leu como “pouco atraente e simplista demais”.

É interessante notar que correções como a acima, na maioria dos casos, não são feitas por pessoas especialistas na área, mas apenas por quem gosta de escrever e se interessa por questões de escrita. O orkuteiro que realizou a avaliação transcrita, por exemplo, é um estudante de Ensino Médio. Logo, as correções que efetua podem não ser integralmente adequadas da perspectiva da gramática normativa se o aluno não dominar todas as regras desta, necessitando haver um filtro por parte de quem as recebe. Um exemplo é o caso da observação que o avaliador faz em (1) acerca da colocação pronominal do texto que leu: algumas declarações como “você usa o pronome ‘se’ na forma de próclise, usa-se apenas no início de uma frase, ou seja o correto é: Buscar ‘se’ conhecer” não corresponde totalmente aos preceitos gramaticais tradicionais, na medida em que esta denomina por “ênclise” o que o corretor chamou de “próclise” (isto é, a colocação do pronome posteriormente ao termo que acompanha). Poder-se-ia pensar que o corretor fez apenas uma confusão terminológica, entretanto o que ele afirmou em seguida sobre uma possível regra de que a ênclise aconteceria somente no início de frases tampouco é plausível do ponto de vista gramatical.

Esta, porém, não é a maneira única pela qual os textos são avaliados nessas comunidades virtuais e, portanto, não se pode considerar que algumas correções equivocadas desmereçam seus fóruns como espaços propícios ao ensino-aprendizagem. Ao observar outros fóruns das mesmas comunidades, pode-se notar como existem formas variadas e bastante interessantes de analisar as produções textuais: alguns redigem um texto geral sobre aspectos que consideraram virtuosos ou problemáticos nos textos que julgaram, revelando suas concepções de escrita; outros se centram na temática do texto e sua argumentação, e grande parte deles reescreve trechos fazendo sugestões de escrita. Para ilustrar melhor este último artifício, observe:

(2) Corrijam Para mim!

...A QUALIDADE DOS PROGRAMAS AOS DOMINGOS ...

O domingo é um dia que pessoas de todo o mundo reserva para seu descanso semanal, junto de seus familiares. A maioria dos brasileiros possuem o canal de TV aberta, e tem que optar pela baixa qualidade de programa-ção que é transmitida ao vivo e sem censura, com cenas de violência e apologia ao sexo. (...)

(Disponível em:

http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=8148414&tid=5406875715699798928&kw=Domingo +%C3%A9+um+dia+em+que+grande+. Acesso em: 11 jan. 2010.)

(9)

(3) Domingo é um dia em que grande parte das pessoas de todo o mundo reserva para seu descanso semanal, junto de seus familiares, ou não.

Todos os brasileiros têm acesso - ou deveriam ter - aos canais de TV aberta, e poucos podem pagar por uma TV a cabo. Os que têm de optar pela baixa qualidade de programação que é transmitida pelas emissoras, em alguns momentos até com cenas de violência e apologia ao sexo

(Disponível em:

http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=8148414&tid=5406875715699798928&kw=Domingo +%C3%A9+um+dia+em+que+grande+. Acesso em: 11 jan. 2010)

No exemplo (2) encontra-se o início de uma produção compartilhada também na comunidade “Livros, textos e redação”. A autora dele resolveu disponibilizá-lo em um fórum que criou com o seguinte título: “Corrijam para mim!”. Diferentemente do corretor do exemplo (1), na correção de (2) que vem transcrita logo abaixo dele em (3), o avaliador optou por reescrever o texto em vez de pontuar o que deveria ser melhorado ou alterado pela autora. Assim, ele, que também não é um estudioso da área, mas músico, valeu-se da estratégia da reescrita, em que realizou uma série de modificações em várias partes do texto original e sob vários aspectos, a fim de chegar a um texto final que, a seu modo, estivesse mais satisfatório.

Dessa forma, quando se coteja (2) e (3), ou seja, o texto original e a reescrita dele feita pelo corretor, percebe-se que este excluiu alguns termos da versão inicial (como o artigo “o” em “o domingo”), acrescentou outros que julgou mais adequados e/ou coerentes ou mesmo fez modificações escriturais: ao se comparar o primeiro texto (“um dia que pessoas de todo o mundo reserva para seu descanso semanal, junto de seus familiares”) e sua retextualização (“um dia em que grande parte das pessoas de todo o mundo reserva para seu descanso semanal, junto de seus familiares, ou não”), observa-se como houve um cuidado por parte do avaliador em não fazer uma generalização das práticas dominicais das pessoas, inserindo a expressão “grande parte” e ainda relativizando o hábito de se estar em família nos momentos de lazer ao acrescentar uma ressalva – “ou não” – na afirmação de que o momento do descanso semanal é feito em companhia dos familiares, como havia sido apresentado, inicialmente, pela autora. Nesse processo, embora não haja uma indicação explícita por parte do corretor sobre o que apreciou/depreciou no texto que leu, por sua reescrita, depreende-se algumas de suas razões e pode-se mesmo compreender parte de suas concepções de escrita, já que a retextualização não apenas elucida eventuais obscuridades e desfaz equívocos, como mostra novas possibilidades. Esse procedimento, então, merece destaque, pois, como é bem apontado por Fiad (2009), “a reescrita é uma prática que não se dissocia da escrita, que pode e deve ser incorporada ao ensino de escrita, que pode levar os alunos a se descobrirem nas possibilidades da língua e a gostarem de reescrever” (FIAD, 2009, p. 11).

A existência dessa prática no Orkut, portanto, pode também levar os orkuteiros a construírem conhecimento e novas reflexões nos fóruns das comunidades virtuais de que participam. O que resta descobrir ainda é até que ponto as atividades letradas em contexto digital que foram explicitadas neste artigo mostram-se inovadoras ou apenas reproduzem situações escolares. Pergunta esta ainda sem uma resposta definitiva e dependente dos usos que os indivíduos fazem e continuarão fazendo das novas tecnologias, o que suscita reflexão sobre tais usos.

(10)

Considerações finais

Ao partir de uma perspectiva dentro da Linguística Aplicada, que busca investigar questões presentes e com implicações sociais, mostrou-se essencial abordar o ciberespaço, uma vez que, atualmente, as pessoas desempenham as mais variadas atividades em contextos digitais e virtuais. Considerando que os indivíduos também realizam práticas letradas nesses ambientes, minha intenção foi observar algumas ações que são desenvolvidas dentro deles, nesse sentido.

O Orkut, sendo a rede social mais utilizada pelos brasileiros, mostrou-se um locus rico para essa análise, demandando o entendimento da dinâmica e funcionamento de suas comunidades, já que comporta práticas de leitura e escrita muito expressivas e intimamente relacionadas ao contexto escolar. Investigando quatro de suas comunidades em especial pude verificar como existe uma intensa produção textual nelas, destacando-se sobremaneira a escrita de “redações”. Ademais, tais textos são revistos e até retextualizados por uma gama de interlocutores que não só realizam ações escriturais, como refletem e discutem sobre o ato de escrever.

Assim, esta pesquisa pretende mostrar-se como um trabalho que contribua para se pensar mais profundamente nas atividades de leitura e escrita propiciadas por essas novas tecnologias, inclusive dentro do próprio ensino escolar, convertendo-se em um canal que suscite discussões também em tal nível. Não se trata, porém, de enaltecer as práticas letradas existentes no ciberespaço considerando-as inovadoras, mas de realmente refletir acerca da existência de tais ações no universo virtual e instigar a investigação delas a fim de compreendê-las melhor e pensar quais os seus efeitos e possibilidades para o ensino--aprendizagem. Inegavelmente, há construção de conhecimento coletivo e individual nas comunidades do Orkut analisadas, mas a questão que emerge é se esse conhecimento é novo ou apenas a reprodução de tudo o que a escola e os professores já vêm realizando durante muito tempo?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997. 196 p.

______. Os gêneros do discurso. In: ______. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003 [1952-1953]. p. 279-326.

CASTELLS, M. Internet e sociedade em rede. In: MORAES, Dênis de (Org.). Por uma outra comunicação: mídia, mundialização cultural e poder. Rio de Janeiro: São Paulo: Editora Record, 2004. p. 255-287.

CAVALCANTI, Marilda. C. Um olhar metodológico e metametodológico em pesquisa em linguística aplicada: implicações éticas e políticas. In: MOITA LOPES, Luiz Paulo da (Org.). Por uma linguística Aplicada Indisciplinar. São Paulo: Parábola Editorial, 2006. p. 233-252.

FIAD, R. S. Reescrita de textos: uma prática escolar e social. ORGANON, Porto Alegre, v. 23, n. 46, p. 147-159, 2009.

(11)

KNOBEL, M.; LANKSHEAR, C. Digital literacy and participation in online social networking spaces. In: ______. Digital literacies: concepts, policies and practices. New York/ Washington, D.C/Baltimore, Bern/ Frankfurt/ Berlin/ Brussels/ Vienna: Peter Lang, 2008. p. 249-278.

KOMESU, F. Internetês para interneteiros: (velhas questões) sobre escrita. Estudos Linguísticos, Araraquara: UNESP/UNIP, v. 36, n. 3, p. 1000-1007, set.-dez. 2007.

KUMARAVADIVELU, B. A linguística aplicada na era da globalização. In: MOITA LOPES, Luiz Paulo da (Org.). Por uma linguística Aplicada Indisciplinar. São Paulo: Parábola Editorial, 2006. p. 129-148.

LÉVY, P. O que é o virtual? Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Editora 34, 1997. 160 p. ______. Cibercultura. Tradução de Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 2003. LIMA, M. Escrita, interlocução e moderação em um fórum online do Orkut. 2010. 129 f. Dissertação (Mestrado em Linguística Aplicada. Área de concentração: Língua Materna) - Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP. MARCUSCHI, L. A. Tudo o que você queria saber sobre como construir um bom texto sem se estressar. In: ANTUNES, I. Lutar com palavras: coesão e coerência. São Paulo: Parábola Editoral, 2005. p.11-13.

MOITA LOPES, Luiz Paulo da (Org.). Por uma linguística Aplicada Indisciplinar. São Paulo: Parábola Editorial, 2006. 279 p.

O’REILLY, T. What is web 2.0: design patterns and business models for the next generation of software. 2005. Disponível em: http://oreilly.com/web2/archive/what-is-web-20.html. Acesso em: 07 jan. 2010.

PIETRI, E. A constituição da escrita escolar em objetos de análise dos estudos linguísticos. Trabalhos em Linguística Aplicada, Campinas, v. 46, n. 2, p. 283-297, jul.-dez. 2007. RAJAGOPALAN, Kanavillil. Repensar o papel da linguística aplicada. In: MOITA LOPES, Luiz Paulo da (Org.). Por uma linguística Aplicada Indisciplinar. São Paulo: Parábola Editorial, 2006. p. 149-168.

SANTAELLA, L. Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura. São Paulo: Paulus, 2003.

Referências

Documentos relacionados

de lôbo-guará (Chrysocyon brachyurus), a partir do cérebro e da glândula submaxilar em face das ino- culações em camundongos, cobaios e coelho e, também, pela presença

One of the main strengths in this library is that the system designer has a great flexibility to specify the controller architecture that best fits the design goals, ranging from

Você está sendo convidado para participar do projeto de pesquisa intitulada “NÍVEL DE ATIVIDADE FÍSICA, OBESIDADE ABDOMINAL E FATORES ASSOCIADOS EM POLICIAIS MILITARES DE

O presente trabalho teve os seguintes objetivos: (1) determinar as alterações na composição químico-bromatológica e nas frações protéicas e de carboidratos, determinar as taxas

AC AC TROMBONE II a VIII JLA JLA METAIS 4. AC AC

Ao longo do processo a instituição museológica teve sua denominação modificada e seus espaços físicos mudados de endereço, fatos que não impediram, mesmo

Os principais resultados obtidos pelo modelo numérico foram que a implementação da metodologia baseada no risco (Cenário C) resultou numa descida média por disjuntor, de 38% no

5 “A Teoria Pura do Direito é uma teoria do Direito positivo – do Direito positivo em geral, não de uma ordem jurídica especial” (KELSEN, Teoria pura do direito, p..