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“Da senzala para onde?” Questões e Debates sobre um livro.
Paulo Eduardo Teixeira1
Introdução
Esse texto foi elaborado para o VIII Simpósio Nacional de História da População, do Grupo de Trabalho População e História da Associação Brasileira de Estudos Populacionais (ABEP), realizado em Campinas nos dias 16 e 17 de outubro de 2019, nas dependências do NEPO/Unicamp. Na sessão de discussão de livros publicados apresentei a resenha crítica do livro de Joana D‟Arc de Oliveira, Da senzala para onde? Negros e negras no pós-abolição em São Carlos-SP (1880-1910). São Carlos: FPMSC, 2018. Um dos objetivos que me
levou a escolha desse livro foi de difundir para um público mais amplo o resultado de uma pesquisa importante sobre o tema do pós-abolição no interior paulista. Assim, apresento ao leitor de forma resumida algumas informações sobre a autora e sua obra, para em seguida tecer considerações breves sobre o surgimento do tema mais amplo do pós-abolição no Brasil, passando a tratar cada sessão do livro, para finalizar com pontuais conclusões sobre o livro.
Sobre a autora: Joana D‟Arc de Oliveira é graduada em Ciências Sociais pela UNESP (Araraquara), ingressando em 2005 no Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da USP (IAU/USP-São Carlos) defendendo a dissertação Olhares invisíveis: arquitetura e poder na fazenda São Roberto. Durante o doutorado, realizado na mesma instituição, sob a orientação da Prof.ª Dr.ª Maria Angela Pereira Castro e Silva Bortolucci, desenvolveu a tese, com apoio da Fapesp, a pesquisa que dá nome ao livro que ora será apresentado.
Sobre o Livro: A publicação foi realizada pela Fundação Pró-Memória de São Carlos, em “consonância com o aniversário de 130 anos da Lei Áurea”. A Fundação Pró-Memória de São Carlos foi fundada em 1993, com a finalidade de preservar e difundir o patrimônio histórico e cultural do Município de São Carlos, e esse livro faz parte também da comemoração dos 25 anos de existência da Fundação, que está inserida na perspectiva de valorização da História regional e da criação de centros de documentação voltados para a preservação da memória. A Fundação Pró-Memória por
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intermédio do Museu de São Carlos fortalece sua conexão com o público ao realizar exposições temáticas destinadas também aos estudantes das escolas do município.
Ainda sobre o livro, vale destacar que o mesmo consta de Prefácio, subscrito pela orientadora, introdução, quatro capítulos, conclusão e referências. Como fruto da tese de doutorado o livro “está organizado em três capítulos”, enquanto o capítulo quarto é, para a autora, uma “análise das histórias de vida de nossos entrevistados, com o objetivo de revelar o que chamamos de „estratégias outras‟ de sobrevivência, materializadas, a nosso ver, na organização da família e do território doméstico como espaço de resistência.” (OLIVEIRA, 2018:21). Portanto, o que se apresentou na composição do livro foi para além de um trabalho acadêmico, mostrando o combate ao racismo e a importância de lutar pela cidadania num país de pessoas livres.
Sobre o Tema Pós-abolição
Em artigo de Ana Maria Rios e Hebe Maria Mattos (2004) intitulado “O pós-abolição como problema histórico: balanços e perspectivas”, as autoras tecem uma série de considerações que podem ser sintetizadas no seguinte parágrafo:
Ainda hoje, o processo de abolição da escravidão no Brasil foi bem mais estudado do ponto de vista econômico e político do que uma perspectiva social ou cultural. Enquanto problema econômico, quase naturalmente tendeu-se a privilegiar a questão da substituição quase absoluta do escravo negro pelo imigrante europeu. Aparentemente substituído pelo imigrante no Oeste Paulista e, em parte, também na cidade de São Paulo, tendeu-se a generalizar a experiência paulista para o conjunto do país. Sintomaticamente, os primeiros estudos de fôlego que trataram do liberto após a emancipação, de uma perspectiva sócio-cultural, diziam respeito a São Paulo, desde o clássico de Florestan Fernandes aos trabalhos mais recentes de Reid Andrews e Maria Helena Machado. (RIOS e MATTOS, 2004: 174) No processo de abolição do escravismo no Brasil e a consequente substituição do trabalho escravo pelo livre, os olhares dos pesquisadores se voltaram sobretudo ao imigrante europeu, causando a invisibilidade daqueles que vieram do cativeiro, e assim, durante a realização da pesquisa de mestrado de Joana D‟Arc Oliveira, ao estudar a fazenda São Roberto, a autora indagou: “para onde teriam ido os negros e negras que construíram, sob a égide da escravidão, a história daquela propriedade rural?” (OLIVEIRA, 2018:19)
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Os trabalhos apontados por Rios e Mattos (2004) remetem ao clássico A
Integração do Negro na Sociedade de Classes, de Florestan Fernandes, publicado pela
primeira vez em 1965, o estudo se aplica a entender a difícil adaptação do negro na sociedade brasileira do pós-abolição, postulando a ideia de que os negros fugiam de trabalhos considerados humilhantes, enquanto “a condição econômica melhor do imigrante decorria de sua disposição em enfrentar oportunidades de trabalho mais modestas” (SILVA, 2016:55). Por sua vez, as teses de Andrews (1991) foram importantes “para desfazer os mitos sobre a incapacidade do liberto e do afrodescendente para o trabalho livre e o exercício da cidadania.” (SILVA, 2016:27). Assim, tanto Negros e brancos em São Paulo, Brasil: 1888-1988, de George R. Andrews, quanto O plano e o pânico, de Maria Helena Machado foram lançados na década de 1990, assinalando uma mudança nas perspectivas historiográficas que se iniciou desde os anos de 1960 e 1970 com os trabalhos de Emília Viotti da Costa (1966; 1977) para nos anos de 1980 atingir a produção brasileira valorizando novos temas, novas fontes e novos métodos, influência da chamada Nova História, e que a pesquisa de Célia M. Azevedo (1987) bem exemplifica, recolocando o tema do pós-abolição em São Paulo com vigor nos anos iniciais desse século.
As autoras Ana Maria Rios e Hebe Maria Mattos (2004) ainda teceram comentários sobre “o problema das fontes”, pois quando se trata do período pós-emancipação “as designações de cor como via de acesso aos ex-cativos”, é um dos problemas a serem superados, uma vez que isso é uma dificuldade imposta por diversos tipos de documentos, como os registros paroquiais, processos cíveis e criminais, que não fazem menção da cor, e mesmo nos registros civis, onde citar a cor era legalmente obrigatório. Por isso, deve ser valorizado o uso que Joana D‟Arc de Oliveira fez do
Recenseamento Populacional de São Carlos para o ano de 1907, pois como são
conhecidas as deficiências do censo de 1890 e 1900, e porque o censo de 1920 não cuidou de informar a cor dos indivíduos, os dados encontrados no recenseamento de São Carlos permitiram a identificação dos habitantes, tais como nome, cor, idade, estado civil, filiação (sobretudo no caso de menores), profissão/ocupação, naturalidade, nacionalidade, endereço da residência, e nível educacional (saber ler e/ou escrever).
Assim, as informações contidas no Recenseamento Populacional de 1907 permitiu a autora identificar sujeitos que viveram debaixo do cativeiro e que também foram arrolados em outras fontes documentais, como o Almanaque Álbum de São
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cartas de alforrias (11) registradas no 1º Cartório de Ofícios de São Carlos, além de um inventário, quatro processos de liberdade, assim como registros de óbitos e jornais locais. Finalmente, cabe dizer que Joana D‟Arc de Oliveira também incorporou no rol de fontes de pesquisa, o relato, ou melhor, entrevistas com descendentes negros e moradores de São Carlos (18 pessoas).
Vale lembrar que Oswaldo Truzzi e Maria Silvia Bassanezi (2009) publicaram o artigo População, grupos étnico-raciais e economia cafeeira: São Carlos, 1907, cujo trabalho os autores deram tratamento ao Recenseamento Populacional de São Carlos de 1907 relatando sua origem bem como as características de sua estrutura, revelando o impacto que o imigrante europeu proporcionou no crescimento demográfico do município a partir do estudo de indicadores gerais de natalidade, fecundidade, nupcialidade e mortalidade. Também o estudo focalizou a distribuição da população por nacionalidade e cor, assim como outros indicadores sociais como o estado civil e a instrução escolar. Nas considerações finais, os autores afirmaram:
... é inevitável constatar que os negros, menos de duas décadas após a abolição, acumulavam handcaps significativos: profissionalmente, embora não excluídos (como supõe de modo geral a literatura) do regime de colonato, encontravam-se sobre-representados em profissões subalternas e alijados tanto de ocupações mais prestigiosas quanto dos cargos de comando; em relação a outros grupos, apresentavam ainda taxas elevadas de analfabetismo, dificuldade em se organizar, maior chance de habitar a periferia urbana, menos propriedades e menor interlocução junto às elites locais. (TRUZZI; BASSANEZI, 2009:215)
Portanto, tais questões dialogam com a proposta de Joana D‟Arc de Oliveira ao estudar a vida dos negros numa perspectiva não passiva, e assim, os relatos de vida procuraram recuperar as estratégias e formas de organização de vida dessa população, quer no espaço doméstico, quer no espaço urbano da cidade em construção.
Sobre os Capítulos
Introdução: A autora expõe o principal objetivo que é responder a questão central de sua tese: Da senzala para onde? Na sequencia discorre sobre as fontes utilizadas no percurso da pesquisa, assim como pesquisadores que influenciaram na sua compreensão do objeto de pesquisa.
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Capítulo I - Os caminhos para a liberdade: Nesse primeiro capítulo foi tratado do período final do processo abolicionista, a partir de 1871 quando da publicação da Lei 2.040 de 28 de setembro, conhecida como Lei do Ventre-livre. A autora observou que após a edição da lei o número de escravos no município de São Carlos foi crescendo, passando de 1.568 pessoas em 1874 para 2.464 em 1877, e para aumentar ainda mais até 1885, quando a população cativa chegou a 3.725 indivíduos, sendo 2.228 homens e 1.498 mulheres, o que atesta a força que teve o tráfico interprovincial pouco antes da emancipação proclamada pela Princesa Isabel em 13 de maio de 1888. (OLIVEIRA, 2018:30-31)
Por sua vez, a Lei dos Sexagenários (1885) libertou 205 escravos em São Carlos, porém 78 deles tiveram que prestar serviços de 1 a 3 anos para com seus senhores. (OLIVEIRA, 2018:37) Esse foi o contexto que possibilitou a pesquisadora a estudar as Ações de Liberdade da Junta de Classificação do Município, pois foram emitidas 26 cartas de alforria, a maior parte delas sob condição, libertando 42 cativos, 34 homens e 8 mulheres. A maioria dessas cartas foram concedidas em 1887 (22 delas), e que em razão disso, alguns autores teriam afirmado que o fim do cativeiro teria ocorrido em dezembro de 1887. No entanto, como demonstrou Joana D‟Arc de Oliveira, o reduzido número de libertos, somado aqueles que tinham adquirido a liberdade “sob condições” que muitas vezes prorrogaram para além de 1888 o início da liberdade para muitas dessas pessoas. (OLIVEIRA, 2018:50-52)
O capítulo foi encerrado com um mapeamento do tema “O Pós-abolição: um campo de análise em construção”, no qual a autora apontou para a estruturação desse campo de investigação, assinalando as principais contribuições de pesquisadores nacionais, como já assinalamos anteriormente (FERNANDES, 1965; COSTA, 1966; 1977), e estrangeiros (GUTTMAN, 1976; TOPLIN, 1975, 1978; FONER, 1988; GENOVESE, 1988), ao propor o “negro escravo como agente social de seu destino” (OLIVEIRA, 2018:54), uma das principais características que marcou a proposta da autora.
Capítulo II – Conflitos e vivências no espaço urbano no pós-abolição: Neste segundo capítulo foi apresentada a metamorfose sofrida pela cidade de São Carlos durante os anos finais do século XIX, indicando os equipamentos urbanos que foram instalados na cidade que passou por rápido crescimento populacional, e para isso os Códigos de Posturas foram fundamentais para entender como ocorreu esse processo de adequação aos tempos de modernização da cidade.
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Para uma avaliação dessas transformações, a autora se valeu do uso dos processos crimes que envolveram negros, e assim por meio de uma análise exaustiva dos 24 processos, sendo 4 por homicídio, 17 por lesão corporal, 2 por vadiagem e 1 por furto, ela demonstrou a existência do racismo e as consequências do mesmo, que em geral eram desfavoráveis aos negros de São Carlos. Finalmente, cabe dizer que ao estudar as pessoas envolvidas nesses processos, notou-se que “a vivência da liberdade através do exercício de ir e vir” foi determinante para essas pessoas se sentirem como cidadãs, uma vez que essa foi uma condição negada durante o regime escravista. (OLIVEIRA, 2018:81) Foi possível observar que não foram apenas os negros que buscaram essa mobilidade geográfica, uma vez que nos processos estudados vários habitantes eram provenientes da Europa, e de outras localidades de povoamento mais antigo no Brasil, revelando que os processos migratórios foram intensos nesse período da história de São Paulo. (OLIVEIRA, 2018:106, 116, 144, 154)
Capítulo III – Estratégias de resistência no espaço urbano no pós-abolição: Neste capítulo a autora procurou explorar o Recenseamento da população de São Carlos de 1907 e conhecer aspectos que caracterizaram a população negra a partir do cruzamento da informação contida sobre o local de residência, para assim estudar o perfil da população instalada no centro da cidade, e nos bairros que foram construídos nesse processo de crescimento e modernização. Assim, os negros foram identificados pelos bairros da Vila Nery, Vila Pureza, Vila Izabel e Subúrbio. De 38.642 habitantes que residiam em São Carlos em 1907, 4.816 eram pretos (3.815) e mulatos (1.001), correspondendo a 12% da população total, lembrando que a maior parte dos negros residia no meio rural (3.487 pessoas, contra 1.329 na zona urbana). (OLIVEIRA, 2018:161)
Aqui cabem duas considerações sobre a exploração do censo de 1907, sendo a primeira a falta de diálogo para com o artigo de Truzzi e Bassanezi (2009). A segunda que a partir dos dados dessa documentação, temos que a população negra que vivia no meio urbano, o centro da cidade era o local de residência de 944 pessoas, sendo que destas 567 eram mulheres, em sua maior parte solteiras, e, no entanto, não há uma problematização desse fato e possíveis correlações com as profissões, uma vez que embora o censo não relacione a ocupação de prostituta, os processos crimes sinalizaram para a presença de mulheres que exerciam tal atividade. (OLIVEIRA, 2018:166, 167, 178)
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Capítulo IV – Estratégias outras: família, trabalho, moradia e cidadania no pós-abolição: No último capítulo, encontramos as histórias de vidas de oito conjuntos de familiares negros que viveram em São Carlos, e que revelaram a mobilidade geográfica, já assinalada nos capítulos anteriores, como uma expressão da nova condição social, o ser livre! Revelam também o preconceito racial presente nas relações sociais estabelecidas na cidade de São Carlos, como o largo da igreja de São Benedito, local e “território de footing de negros na cidade”, ou ainda o Salão Sofia que não cortava “cabelo de gente de cor”. (OLIVEIRA, 2018: 229, 236)
O capítulo é rico em detalhes que partem da memória que guarda as lembranças de muitas histórias vividas pela população que descende de sujeitos que foram escravizados, e que poderiam ter sido potencializadas por meio do diálogo com autores como M. Halbwachs, Michael Pollak e outros que apontam para uma problematização da memória. Também seria útil alguns parágrafos comentando sobre a metodologia empregada nas entrevistas,
Conclusão: A autora finaliza com a indagação: Para onde foram homens e mulheres negras após o dia 13 de maio de 1888? Foram em busca do gozo de suas liberdades, e isto significava serem capazes de fazer escolhas, e, portanto, ela conclui, “como sujeitos ativos e determinados a reescreverem suas trajetórias e que não se cansaram de buscar por condições melhores.” (OLIVEIRA, 2018: 265)
Algumas Considerações
O trabalho de Joana D‟Arc de Oliveira denota a importância dos Centros de Documentação nos municípios para a difusão e preservação de fontes documentais, muitas vezes inéditas, como o Censo de 1907 da cidade de São Carlos. Além disso, o impacto dessa documentação na construção e reconstrução da memória local, demonstrando o quanto o conhecimento histórico, social e demográfico pode ser um campo em disputa.
Outro ponto que merece atenção pode ser visto pelo uso restrito de fontes demográficas, como os Censos, por cientistas das humanidades sem o conhecimento específico da demografia, algo que poderia ter ampliado ainda mais as análises sobre o comportamento da população negra em São Carlos.
Ao final da leitura, a despeito de tudo que foi comentado, pode ser observado que a hipótese que norteou a pesquisa de Joana D‟Arc de Oliveira demonstrou que a participação ativa das mulheres e homens negros resultou “na conquista da liberdade e
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nos enfrentamentos no espaço urbano de São Carlos nesse período de franca política eugênica e racista”. (OLIVEIRA, 2018: 18)
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