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Fluxos migratórios e formação da rede urbana de Roraima

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Academic year: 2021

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DOS MOVIMENTOS POPULACIONAIS À

PENDULARIDADE: UMA REVISÃO DO

FENÔMENO MIGRATÓRIO NO BRASIL

Antônio Tadeu Ribeiro de Oliveira

Palavras-chave: migração, movimentos populacionais, movimentos pendulares, escala.

Resumo

O objetivo deste artigo é revisitar os processos migratórios ocorridos no Brasil, desde as etapas dos ciclos econômicos até o momento atual, onde: a circularidade, os deslocamentos pendulares e conceitos de residência base ganham força, bem como, do seus rebatimentos no espaço e suas abordagens explicativas. Para tanto, é necessário delimitar em qual quadro teórico são compreendidos o fenômeno migratório e a questão espacial. Aqui, os deslocamentos populacionais serão tratados como processos sociais e o espaço pensado como construção social, diretamente relacionada aos mesmos processos.

O trabalho parte do marco teórico no qual os movimentos populacionais são observados como sendo fundamentalmente mobilidade da força de trabalho, daí a introdução da noção de “migração primitiva”, para melhor apreender os processos de deslocamentos de mão-de-obra não assalariada.

O artigo vai concluir sugerindo que a lacuna nas abordagens teóricas para melhor compreensão da migração está associada à incompleta incorporação da passagem sociedade moderna para a pós-modernidade, processo que perpassa as dimensões sociais, econômicas, políticas e culturais. Apontando que o desafio que se coloca é não só entender que se vive numa sociedade distinta da 25 anos atrás, mas como introduzir nas análises as mudanças que isso provocou. Perceber que as profundas desigualdades regionais também se expressam na transição para nova sociedade, reconhecer a coexistência de vários processos, em temporalidades distintas. Por fim, aceitar que a migração como mudança de residência em caráter definitivo, de uma divisão político administrativa a outra, pode não significar mais muita coisa.

Trabalho apresentado no XV Encontro Nacional de Estudos Populacionais, ABEP, realizado em Caxambú-

MG – Brasil, de 18 - 22 de Setembro de 2006.

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DOS MOVIMENTOS POPULACIONAIS À

PENDULARIDADE: UMA REVISÃO DO

FENÔMENO MIGRATÓRIO NO BRASIL

Antônio Tadeu Ribeiro de Oliveira ♣

Introdução

O objetivo deste artigo é revisitar as várias etapas pelas quais passaram os movimentos populacionais no Brasil, as abordagens explicativas e seus rebatimentos no espaço. Para tanto, é necessário delimitar em qual quadro teórico são compreendidos o fenômeno migratório e a questão espacial. Aqui, os deslocamentos populacionais serão tratados como processos sociais e o espaço pensado como construção social, diretamente relacionada aos mesmos processos.

Do ponto de vista das migrações elas serão entendidas dentro da visão histórico-estrutural, ...“Como qualquer outro fenômeno social de grande significado na vida das nações, as migrações internas são sempre historicamente condicionadas, sendo o resultado de um processo global de mudança, do qual elas não devem ser separadas. Encontrar, portanto, os limites da configuração histórica que dão sentido a um determinado fluxo migratório é o primeiro passo para o seu estudo” (SINGER, 1980, pp ). Em outra dimensão, a mobilidade da força será compreendida nas suas duas capacidades: de se adequar às exigências do capital e de se deslocar em direção a ele, aparecendo de forma distinta nos vários

espaços e setores, a acumulação do capital moldando a mobilidade do trabalho, não apenas a de caráter espacial (migracional), como também, a de caráter vertical (social) (GAUDEMAR, 1997). Todavia, nem todas as movimentações de mão-de-obra são equivalentes. Só interessam ao capital aquelas que asseguram a sua valorização,

Trabalho apresentado no XV Encontro Nacional de Estudos Populacionais, ABEP, realizado em Caxambú-

MG – Brasil, de 18 - 22 de Setembro de 2006.

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quer correspondam a uma intensificação ou a uma produtivização acrescidas, do trabalho, quer se dirijam para os espaços da polarização capitalista, próprios para os absorver. É sem dúvida aí, na vontade de apenas encorajar estas únicas movimentações, que reside o caráter novo das estratégias contemporâneas da mobilidade. (GAUDEMAR, 1977).

O trabalho será subdividido em itens, que buscam ser uma proxy das periodizações para as quais se encontravam informações disponíveis e mais ou menos datavam cada uma das etapas de desenvolvimento do país. Assim, temos as etapas do ciclo econômico, introdução da mão-de-obra assalariada, integração do mercado nacional, desenvolvimentismo e pós-modernidade. Nas considerações finais, se indaga e sugere-se alguns caminhos para melhor apreensão do fenômeno migratório no Brasil.

2. O PERÍODO DOS CICLOS ECONÔMICOS

O período que vai da chegada dos colonizadores até à metade do século é marcado por deslocamentos populacionais que contribuíram decisivamente para a configuração do território brasileiro. Foi ao sabor dos ciclos econômicos que se deram os movimentos de população e a conformação de novos espaços. As migrações internas se pautavam pelos ciclos de atividade econômica - pau-brasil, açúcar, pecuária, mineração, borracha, café – que ao deslocar o eixo geográfico da atividade econômica também ocupou novos territórios e provocou a aparição de novos núcleos de assentamentos. (SINGER, 1973, MARTINE,

1990, apud PATARRA, 2003).

Embora muitos autores entendam esse processo como sendo migrações internas, a parcela mais expressiva das pessoas envolvidas nesses movimentos era de escravos ou indígenas, dependendo do tipo de atividade. “A implantação da grande lavoura de exportação deu

origem ao tráfico de escravos africanos, um movimento de população forçado que perdurou por três séculos (até 1850) e introduziu aqui cerca de 4 milhões de cativos” (BASSANEZI, 1995, p2). Portanto, o que se colocava era o comércio de pessoas, que,

subjugadas, eram obrigadas a deslocar-se de acordo com a vontade e a necessidade de seus “proprietários”. Desse modo, não obstante a dinâmica demográfica daqueles espaços

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estivesse marcada por esses movimentos forçados, parece mais pertinente pensar o fenômeno como deslocamentos de população ao invés de interpretá-lo como migração, ou melhor, uma “migração primitiva”, dado que se tratava de força de trabalho não assalariada.

Os estudiosos divergem a respeito dos processos associados aos movimentos populacionais que ocorreram entre um ciclo de atividade econômica e outro, para Castro “... Todo surto

decadente servia de fonte; todo movimento ascendente, de destino para a mão-de-obra rural...” (CASTRO, 1971, v.2, p13,apud PATARRA, 2003), enquanto que para Faria “... O importante, no entanto, é que [...] essa nova atividade exportadora não absorvia a população resultante da atividade anterior.” (FARIA, 1973; 95-96, apud PATARRA, 2003). A constituição e consolidação dos núcleos de cidades, naquele momento ainda não

articulados, sugerem que cada ciclo econômico tinha sua dinâmica populacional específica, emprestando muito pouco da atividade precedente.

Na primeira metade do século XIX surge uma outra modalidade de movimento populacional: deslocamentos internacionais de mão-de-obra livre. Portugueses, alemães, suíços e outras nacionalidades chegaram para trabalhar na cafeicultura do Oeste-Paulista, sob regime de parceria. Uma parcela, sobretudo de portugueses, direcionou-se para o trabalho de obras de infra-estrutura. Essa experiência não obteve bons resultados, o que levou à re-emigração. Estima-se que 350 mil estrangeiros entraram no Brasil, entre 1820 e 1876. (BASSANEZI, 1995). Embora tivesse sido uma experiência de mobilidade de força de trabalho, as relações mantidas com essas pessoas, não se pautavam pelo assalariamento, marcando uma fase ainda pré-capitalista.

Na maior desse período, no qual o Brasil foi regido por de Portugal, com apenas algumas décadas de Brasil Império, foi marcado, basicamente, por uma economia que passou de extrativista à agrária-exportadora, com emprego de mão-de-obra não assalariada, fortemente vinculada ao exterior, de onde obtinha os trabalhadores e para onde dirigia sua produção. Experimentava-se, já naquele momento, uma espécie de “mundialização” desses processos demográficos, sociais e econômicos, que no caso brasileiro envolvia ao menos

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três continentes: Americano, Africano e o Europeu. Esse fenômeno manifestava-se com uma temporalidade bem mais lenta, onde transportes e comunicações se confundiam.

3. A INTRODUÇÃO DA MÃO-DE-OBRA ASSALARIADA

A quadra da história nacional que segue da segunda metade do século XIX ao início dos anos 30 do século seguinte, apesar da ainda atravessar uma etapa do desenvolvimento econômico marcada pelo modelo primário-exportador, experimenta uma mudança preponderante nas relações de produção, a introdução da mão-de-obra assalariada.

O acelerado desenvolvimento da economia cafeeira conjugado ao fim do tráfico negreiro e, posteriormente, o fim da escravidão, numa fase de forte demanda por força de trabalho, levou à importação de trabalhadores estrangeiros. Mão-de-obra que se dirige ao Brasil financiada pelos produtores brasileiros. “O veloz crescimento da economia cafeeira em

São Paulo subsidiou a imigração estrangeira, que, baseada na ideologia liberal do momento, tornava o imigrante europeu extremamente necessário à construção da nova sociedade. (BASSANEZI, 1995, p3)”.

A vinda desses trabalhadores é facilitada não só pelos subsídios, como também pelos processos demográfico e econômico que atravessa a Europa naquela oportunidade. Registra-se a vinda de imigrantes no contexto das grandes migrações humanas do final século XIX, início do XX, fruto do processo de transição demográfica e expansão do capitalismo que estavam tendo lugar no continente europeu. (BASSANEZI, 1995).

Nessa etapa é possível falar de mobilidade da força de trabalho subordinada ao capital, que atuou sobre ela na escala global e na escala local, levando-a, num primeiro momento, a um deslocamento ultramarino, para, posteriormente já no Brasil, implementar deslocamentos internos. Esses imigrantes, quando aqui chegaram, dirigiram-se principalmente para São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. (PATARRA, 2003).

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Esse período caracteriza-se pelos movimentos migratórios internacionais, pelas migrações internas, com correntes predominantemente rurais-rurais. Cabe ressaltar que também se verificavam as primeiras correntes rurais-urbanas, fruto, em parte, pela poupança obtida pelos imigrantes, que permitiu que alguns deles re-emigrassem para as áreas urbanas, deslocamentos esses que seguiram forjando novos espaços.

4. A INTEGRAÇÃO DO MERCADO INTERNO

A partir dos anos 30, com a economia cafeeira dando sinais de declínio e sob o regime do Estado Novo, o país começava a passar por profundas transformações, tanto na economia, quanto nas políticas públicas. Na economia a ênfase passou a ser dada ao processo de industrialização, voltada intensamente para a substituição de importação, e à integração do mercado interno. Por outro lado, o Estado implementou políticas públicas nas áreas da saúde coletiva, assistência médica, previdência social, educação básica e leis trabalhistas.

“... É preciso mencionar que, a partir de 30, inicia-se o processo de unificação do espaço econômico, ou seja, a unificação dos mercados de capital e trabalho, tendo a indústria como fulcro do processo de acumulação de capital. (LOPES & PATARRA, 1975, apud PATARRA, 2003)”. Todo esse processo refletiu fortemente na construção de

novas espacialidades, produzindo uma rede urbana mais densa, porém ainda desconcentrada.

As políticas públicas, sobretudo as direcionadas às áreas de saúde e previdência social, aliadas à importação dos avanços nas áreas de medicina e farmacêutica, já experimentados nos países desenvolvidos, contribuíram de forma decisiva para a redução da mortalidade no Brasil, levando o país a passar por um forte crescimento vegetativo.

Período Imigrantes 1872 - 1879 176.337 1880 - 1889 448.622 1890 - 1899 1.198.327 1900 - 1909 622.407 1910 - 1919 815.647 1920 - 1929 846.647 1930 - 1939 332.768

Fonte: LEVY, 1974. Apud BASSAN

Entrada de Imigrantes no Brasil 1872 - 1939

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Isto gerou um excedente populacional nas áreas rurais, produzindo fluxos migratórios com correntes rurais-rurais e rurais-urbanas, essas últimas sustentando os processos de urbanização e industrialização, pelos quais passava o país.

Esses deslocamentos populacionais foram em muito facilitados pelas redes de transportes e comunicações que estavam sendo implantadas, no âmbito da agenda de políticas públicas do Estado Novo.

Nessa etapa de nosso desenvolvimento, os movimentos populacionais são marcados pelas migrações internas, rumo às cidades e ao campo, destacando-se aí o início do processo de expansão das áreas de fronteiras agrícolas, no Paraná, interior de São Paulo, Goiás e Mato Grosso. Os fluxos de imigrantes internacionais diminuem, devido ao fim dos incentivos à imigração, fruto do menor dinamismo do setor cafeeiro e, por outro lado, pela etapa da transição demográfica européia, que naquela altura já registrava taxas de natalidade bem baixas. Desse modo, as lentes para compreensão do fenômeno migratório passaram a estar voltadas para as escalas regionais e locais.

5. O DESENVOLVIMENTISMO

A fase que vai dos anos 50 aos 70 levou a marca do desenvolvimentismo na economia brasileira, foi um período de industrialização pesada, baseada no modelo de produção fordista. Isto demandava um expressivo contingente de mão-de-obra, o que impulsionou ainda mais as migrações internas, que já eram os deslocamentos de população predominantes nas duas décadas anteriores, intensificando ainda mais o processo de urbanização no país. Assistia-se a subordinação da agricultura à indústria, o que levou ao ainda maior êxodo rural. Essa etapa se caracterizou, por um lado, pelo auge da explosão urbana, com uma urbanização concentrada nas regiões metropolitanas, e, por outro, pelo início da desconcentração produtiva.

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O mercado assistia a integração econômica das diversas regiões, que aliada às migrações, produziam novos espaços no território nacional. “A consolidação de um território

nacional integrado, um processo que começou nos anos 1930, completa-se não apenas pela integração comercial e, posteriormente, pela integração econômica (Guimarães, 1986) das várias regiões, mas também por uma articulação nacional do mercado de trabalho” (PATARRA, 2003, p 22).

O modelo aprofundava as assimetrias observadas entre as regiões do país, implantada a indústria pesada e de bens duráveis em São Paulo, a integração do mercado nacional bloqueava as possibilidades de crescimento de eventuais “industrializações autônomas”, resultando numa sensível concentração regional da indústria brasileira (PATARRA, 2003).

Esse modelo de produção, concentrador das atividades econômicas e de população, começa a dar sinais de esgotamento nos anos 70. Os fatores de aglomeração que impulsionaram seu desenvolvimento, como por exemplo, exército de mão-de-obra de reserva, infra-estrutura urbana e mercado consumidor já não sobrepujavam as ditas deseconomias de aglomeração, entre elas: valor do solo, força de trabalho sindicalizada, poluição, violência. Com isto, as

Regiões Metropolitanas r % r % Belém 3,93 0,86 4,3 1,33 Fortaleza 4,36 1,44 4,3 2,1 Recife 3,99 2,38 2,74 2,15 Salvador 4,19 1,56 4,41 2,39 Belo Horizonte 5,47 2,54 4,64 3,68 Rio de Janeiro 3,71 8,81 2,44 7,28 São Paulo 5,64 12,64 4,46 17,22 Curitiba 4,3 1,13 5,78 2,4 Porto Alegre 4,48 2,21 3,8 2,75 Total 4,54 33,58 3,79 41,31

Fonte: IBGE, Censos Demográficos (MARTINE, 1994).

1940-1970 1970-1980

Taxas de crescimento e participação no crescimento demográfico nacional da Regiões Metropolitanas, Brasil

-1940-1980. Tabela 2

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atividades produtivas começam a buscar novas localizações, momento no qual se observou o aumento das taxas de crescimento populacional das cidades médias, fruto supostamente da combinação de taxas de natalidade ainda altas, migração e desconcentração produtiva.

Nesse período verifica-se além o início do processo de desconcentração industrial, sinais de esgotamento de algumas áreas de fronteiras agrícolas (Sul). Também cabe destacar que esses processos não respondiam a sua dinâmica própria, “autônoma”, mas sim a políticas públicas explícitas nos Planos de Desenvolvimento Nacional – PND´s, que, entre outras metas, estimulavam a implantação de atividades econômicas na Região Nordeste e incentivaram a abertura da fronteira norte, visando a ocupação da Amazônia.

Como visto, tratou-se um período muito dinâmico, não só na economia, como também, na sua dimensão social, sobretudo nas migrações internas, que para serem mais bem apreendidas deveriam ser observadas nas escalas nacional, regional e local, uma vez que o fenômeno apresentou fortes rebatimentos espaciais, passando de deslocamentos de longas distâncias a de curta e média, desconstruiu espaços rurais em determinadas regiões, reconstruindo-os em outras. Redesenhou espaços urbanos, seja no processo de aglomeração nas Regiões Metropolitanas, seja no momento que se dirige à periferia metropolitana e aos centros urbanos médios. Processos.

Classes de tamanho Pop urbana Centros Pop urbana Pop urbana Centros Pop urbana (em mil hab.) (em mil) urbanos total (%) (em mil) urbanos total (%)

Brasil 16.277 1.826 100,0 52.906 3.850 100,0 < 20 5.747 1.745 35,3 13.849 3.574 26,2 20 |--- 50 1.623 55 10,0 5.632 177 10,6 50 |--- 100 1.215 16 7,5 3.430 49 6,5 100 |--- 250 787 4 4,8 4.832 34 9,1 250 |--- 500 1.237 3 7,6 1.865 6 3,5 500 |--- 2000 630 1 3,9 8.263 8 15,8 2000 ou mais 5.038 2 31,0 14.935 2 28,2

Fonte: IBGE, Censos Demográficos (ANDRADE & SERRA, 1999).

1950 1970

População urbana, número de centros urbanos e percentual na população urbana total, segundo classes de tamanho dos centros urbanos - Brasil - 1950 e 1970

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6. TEMPOS PÓS-MODERNOS

A partir dos anos 80 são percebidas grandes transformações na dinâmica demográfica brasileira, a fecundidade, que iniciara sua trajetória de queda na década de 60, intensifica de forma definitiva sua tendência de declínio, passando a ser observada em mulheres nas diversas regiões do país e em todos segmentos sociais. A redução das taxas de natalidade, combinada à menor intensidade nos saldos migratórios, determinou o menor crescimento das metrópoles. Em outro sentido, correntes migratórias importantes passaram a ter como destino as periferias metropolitanas e as cidades de porte médio, fazendo com que espaços experimentassem as maiores taxas de crescimento populacional. Neste período, observa-se também o incremento das migrações intra-regionais, a diminuição da migração rural-urbana e o aumento da migração de retorno.

A crise econômica dos 80 impõe uma diminuição no volume das migrações interestaduais, que vem a se recuperar sem muito vigor na década seguinte. Ademais, uma outra modalidade migratória volta ao cenário dos estudos populacionais, a migração internacional. Agora com duas faces: a emigração para o EUA, Japão e Europa e a imigração, que vai desde paraguaios, coreanos e bolivianos, muitos deles ilegais, até a gerentes e técnicos europeus que chegam no processo de privatização das empresas estatais concessionárias de serviços públicos.

Pode-se depreender dos processos assinalados acima, que os movimentos populacionais no Brasil experimentaram mudanças significativas pós década de 80, deixando a questão de quais seriam as lentes necessárias à melhor apreensão do fenômeno migratório em nosso país?

Nos tópicos anteriores foram apresentadas, de forma bem resumida, as diversas etapas dos deslocamentos populacionais no Brasil, onde era possível observar que se tratava de um fenômeno profundamente ligado ao estágio de desenvolvimento da sociedade da época, fosse nos aspectos econômicos, sociais, políticos ou culturais, quer dizer, as migrações internas ou internacionais como resultado do processo histórico e social. Portanto, para apreender o que se passa nos dias de hoje com os movimentos de população, deve-se voltar

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as lentes para a sociedade, e aí se perceberá que esta já não é mais a sociedade dos anos 70/80. O mundo vive um outro momento, o momento de passagem para a pós-modernidade, que afeta as diversas dimensões da vida social dos mais variados países, com temporalidades e ritmos distintos.

Por volta da metade da década de 60, o modelo de desenvolvimento fordista entra em crise.

“O fordismo aparece como perda de velocidade, entravado em seu impulso pela conjunção de uma crise de eficácia e de um esmorecimento de legitimação: a cadeia de produção peca por “rigidez”, ao passo que a “cadeia” das certezas de um desenvolvimento inexaurível é quebrada de maneira patente” (BENKO, 1996, pp 19).

Como as estratégias iniciais dos capitalistas no enfretamento da crise não surgiram efeito, a saída foi alterar os modelos econômicos e políticos. O capitalismo renasce com vigor, baseado numa matriz neoliberal, na qual o tamanho do estado deve ser mínimo (HARVEY,

1992). Do ponto de vista da acumulação, essa passa a ser flexível, alterando de forma decisiva o regime de produção, “a reestruturação produtiva, que emerge neste contexto,

flexibilizando a gestão e a produção de bens e produtos. Nesse novo modelo diminui-se a demanda por mão-de-obra, sendo que as plantas industriais, também de menor porte, poderiam estar subdivididas em várias partes do planeta. Ou seja, a produção pode ir ao encontro da força de trabalho, não sendo mais necessário lançar mão dessa flexibilidade presente entre os trabalhadores. Ao encontrar a mão-de-obra nos países em desenvolvimento, barateiam-se os custos da produção e maximizam-se os lucros” (OLIVEIRA, 2005).

O novo regime de acumulação1, em suas dimensões econômica e política, irradia-se por todas as regiões do planeta. No Brasil, manifesta-se, primeiramente na forma da já referida crise da década de 80, para logo na década seguinte, aprofundar o modelo político neoliberal e iniciar o processo de reformulação produtiva.

1 Deve-se reiterar que a implantação deste modelo foi facilitada pelo estágio de desenvolvimento tecnológico,

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Não de outro modo, é nessa nova ordem política, econômica, social e cultural que faltam abordagens teóricas que apreendam o fenômeno migratório no Brasil. O desafio colocado é o de compreender novos processos que se manifestam numa nova sociedade.

Nesse contexto, a forma como a mobilidade populacional se apresenta passa a ser rediscutida, surgindo questões como circularidade, retorno, contra-urbanização, residência base, etc. Villa e Rodríguez perceberam que na América Latina de um modo geral: i), o número de grandes centros urbanos continuava aumentando, mas que as taxas de crescimento demográfico evoluíam numa velocidade menor do que a do resto dos sistemas urbanos nacionais; ii) uma diminuição das taxas de imigração, a partir dos anos 70, com a década de 80 registrando aumento da emigração, resultando a redução do saldo migratório nas grandes cidades; iii) o incremento da mobilidade de população no interior dos grandes centros urbanos (VILLA e RODRÍGUEZ, 1997). Neste sentido, os autores estariam indo ao encontro do conceito de contra-urbanização, referido ao processo de desconcentração de população, enquanto funcionalidade do sistema de assentamento urbano. Assim, urbanização seria empregada no contexto do padrão tradicional de aumento da concentração populacional nos quais os grandes centros crescem a maiores taxas do que os centros menores (CHAMPION, 1998). Os autores sinalizam estar ocorrendo um novo processo de localização espacial das pessoas e das atividades produtivas, seja no plano interno, seja no plano global, que se manifesta mundialmente. Contudo, para ser mais bem apreendido o fenômeno precisa ser pensando numa dimensão interescalar, que una o local ao global.

Buscando romper com formas tradicionais de olhar as migrações, surgem aportes que sugerem apreciar todos os tipos de deslocamentos e suas modalidades de duração, periodicidade e seqüências, que não necessariamente impliquem em mudança de residência. Dentro deste escopo, são apresentados conceitos de residência base e de reversibilidade dos fluxos. Como residência base, entende-se o lugar ou conjunto de lugares a partir do qual(is) os deslocamentos têm uma probabilidade de retorno mais elevada, qualquer que seja a duração da permanência no outro lugar. Os fluxos reversíveis estriam associados a uma residência base, que seria o ponto de partida para novos deslocamentos, que poderiam ter

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destinos distintos, mas a mesma origem. Os fluxos irreversíveis, por sua vez, são implementados sem referência ou recurso a nenhuma residência anterior, que já não intervem no sistema de reprodução familiar do grupo de migrantes (DOMENACH e

PICOUET, 1990). Ou seja, as estratégias dos migrantes se alteram em função da nova

realidade, traduzida na flexibilidade produtiva, precariedade do mercado de trabalho e encolhimento/ausência de políticas sociais. Ao procurarem novas estratégias, mudam o modo como se processavam as migrações no modelo de acumulação anterior, no qual aos movimentos de médias e longas distâncias correspondiam mudanças definitivas de residência.

No caso brasileiro, além da lacuna nas abordagens teóricas explicativas, uma outra modalidade de deslocamento populacional, que não é considerado migração, tem tido pouca relevância nos estudos sobre movimentos populacionais, a mobilidade pendular. Apesar de captada de forma parcial no Censo Demográfico de 2000, onde foram levados em consideração apenas os movimentos para trabalho e estudo fora do município de residência, ficando de fora outros serviços, como saúde e lazer, os resultados do Censo proporcionam informações preciosas, como por exemplo: o volume de 7,4 milhões de pessoas que faziam movimentos pendulares em todo território nacional, em 2000; Goiás ser a UF que mais acessa o mercado de trabalho e escolar dos outros estados; Paraná, como mais ou menos previsível, a UF com maior pendularidade internacional.

Esse fenômeno, ao contrário do que se imagina, embora esteja mais presente nas áreas metropolitanas, não é exclusivo desses espaços, sendo em muitas das Unidades da Federação, sobretudo nas do Centro-Sul, a principal modalidade de deslocamentos.

A pendularidade e as novas modalidades de movimentos populacionais poderiam ser vistas como uma das faces do modo como se desenvolvem os movimentos migratórios, expressando relações entre espaços que foram socialmente construídos, ao mesmo tempo expressão de uma nova sociedade, que experimenta a mudança no seu regime de acumulação e de todas as demais implicações sociais, políticas e culturais que daí advêm.

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Tentando da conta de muitos dos aspectos apontados acima, vários estudiosos da mobilidade populacional sugerem novas maneiras de obtenção das informações sobre migração, reconhecendo o caráter limitado dos censos de população, apontando a necessidade de levantamentos específicos sobre migração, onde fossem investigados lugares de origem e destino, bem como, as diversas etapas e/ou deslocamentos migratórios.

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7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O fenômeno migratório no Brasil experimentou diversas fases. Como processo social que é, esteve fortemente marcado pelas construções sociais de cada período. Teve sua fase pré-capitalista, na qual predominou o deslocamento de mão-de-obra não assalariada, principalmente a escrava. Depois, no período capitalista, experimentou as diversas transformações nos modelos de acumulação do capital, suas crises e revigoramento. Ao longo dessas fases, sem dúvida, contribuiu de forma decisiva na constituição de novos

Regiões e UF´s Mesma UF Outra UF Outro País Total

BRASIL 6.034.665 696.217 49.281 6.780.163 Norte 170.272 27.941 4.099 202.312 Rondônia 7.191 3.276 724 11.191 Acre 2.157 384 599 3.140 Amazonas 6.728 1.559 1.079 9.366 Roraima 1.944 425 345 2.714 Pará 133.988 10.520 696 145.204 Amapá 4.312 4.626 574 9.512 Tocantins 13.952 7.151 82 21.185 Nordeste 733.479 208.705 1.736 943.920 Maranhão 84.830 41.116 516 126.462 Piauí 31.938 14.368 20 46.326 Ceará 142.998 14.987 332 158.317

Rio Grande do Norte 94.733 9.367 250 104.350

Paraiba 100.155 26.631 223 127.009 Pernambuco 393.503 26.830 419 420.752 Alagoas 47.097 11.583 57 58.737 Sergipe 74.347 6.938 93 81.378 Bahia 218.532 56.885 1.167 276.584 Sudeste 3.926.028 195.966 15.023 4.137.017 Minas Gerais 678.411 96.434 4.149 778.994 Espírito Santo 195.398 19.748 845 215.991 Rio de Janeiro 955.628 22.466 2.070 980.164 São Paulo 2.096.591 57.318 7.959 2.161.868 Sul 1.131.860 85.501 23.806 1.241.167 Paraná 373.494 45.147 16.666 435.307 Santa Catarina 234.645 26.978 1.483 263.106

Rio Grande do Sul 523.721 13.376 5.657 542.754

Centro-Oeste 73.026 178.104 4.617 255.747

Mato Grosso do Sul 23221 8239 4140 35600

Mato Grosso 49805 6758 477 57040

Goiás 165829 156419 1060 323308

Distrito Federal 6688 260 6948

Fonte: IBGE, Censo Demográfico de 2000. Tabela 4

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espaços, incremento demográfico, miscigenação, diversificação cultural e consolidação do território.

Para cada uma dessas etapas de desenvolvimento foram construídos arcabouços teóricos que, de forma satisfatória, deram conta de explicar os movimentos populacionais que aqui tiveram lugar. Seguindo a conceituação de migração adotado no início deste artigo, percorreu-se desde deslocamentos populacionais de força de trabalho não assalariada, entrando num período de mobilidade de mão-de-obra a serviço do capital, considerada como migração e que tem seu auge no modelo de produção fordista, até chegar-se a um período onde o conceito torna-se fluido, seja pelo peso da pendularidade, seja pelo conceito de residência-base.

A explicação do fenômeno, desde da década de 80, vem circulando em torno da desconcentração industrial/populacional, reestruturação produtiva, redução nos volumes dos fluxos migratórios, baixa atratividade das metrópoles nacionais, mudança no mundo do trabalho, etc. Argumentações que ora se sustentam, ora se confirmam em parte ou são desprovidas de sustentabilidade. O desafio que se coloca é não só entender que se vive numa sociedade distinta da de duas décadas atrás, mas como introduzir nas análises as mudanças provocadas por esse fenômeno. Perceber que as profundas desigualdades regionais também se expressam na transição para nova sociedade, reconhecer a coexistência de vários processos, em temporalidades distintas. Por fim, aceitar que a migração como mudança de residência em caráter definitivo, de uma divisão político administrativa a outra, pode não significar mais muita coisa.

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