4 CAPITULO I
FORMAÇÃO SOCIO-ESPACIAL DA ILHA GRANDE
Quanto à ocupação da Ilha Grande foram registrados diferentes tipos de assentamentos humanos que deixaram em seus sítios artefatos líticos lascados, artefatos em ossos, presença de moluscos e peixes, com presença de sítios cerâmicos. Os estudos mostraram a presença de culturas tupi-guaranis, mais propriamente os Guaianazes. Essas populações permaneceram a algumas centenas de anos, cercada por mar, restingas, lagoas, matas, manguesais, canais e aguá potável abundante. Das lagoas eles tiravam tainhas, dos manguesais caranguejos, da restinga roedores, da mata macacos e porcos do mato. Usavam folhas de palmeiras para cobrir as casas e troncos de guapuruvú (bacurubú) para construir canoas.
“O interesse pela ocupação colonial nas proximidades de Piraquara inicia-se na segunda metade do século XVIII, quando encontramos solicitação de carta de sesmaria na área do rio Mambucaba e a construção de uma capela dedicada à Nossa Senhora do Rosário próxima à foz mdo mesmo rio. De acordo com a carta de sesmaria do Padre Francisco da Nóbrega, administrador do Aldeamento de Nossa Senhora da Guia (Mangaratiba), este adquiriu terras em Piraquara para construção de uma engenhoca (1797), sendo estas contíguas às de sua fazenda na mesma região.” (OLIVEIRA; 2005:78)
O ciclo do ouro durante o século XVIII também fez com que o comércio de escravos se estendesse pela Ilha Grande, a qual estava na rota do conhecido “ caminho do ouro” que ligava as regiões exploradoras de Minas Gerais a Paraty.
A descida de carregamentos de ouro das Minas Gerais até Parati, de onde eram transportados por via marítima até Guaratiba, seguindo para a cidade do Rio de Janeiro, intensificou o interesse estrangeiro pela baía de Ilha Grande. A presença
5 constante de navios franceses nas águas sul fluminense torna-se responsável pela intensa entrada ilegal de escravos africanos para a região das minas e pelo “descaminho” do ouro. (OLIVEIRA; 2005:75)
O séc. XIX foi o século do café no país e a Ilha Grande não ficou de fora. Na ilha os grandes fazendeiros enriqueceram-se não só do café mas talvez sobretudo do tráfico de escravos. Desde 1810 a Inglaterra fazia pressão internacional para por fim a escravidão nas terras colonizadas, pois disso dependiam a expansão do capitalismo, o Brasil assinou assim vários tratados abolicionistas desde então e, por isso, o trafico de escravos tornava-se uma atividade de risco altamente rentável. O proprietário da Fazenda Dois Rios, por exemplo, foi um poderoso contrabandista. A vantagem de ancorar um navio negreiro na Ilha Grande era evitar a fiscalização da Inglaterra nos portos do litoral.
A primeira lavoura de grande porte no Brasil foi a de cana-de-açúcar, que se estabeleceu na Ilha Grande provavelmente no inicio do século XVIII, até o final do século.XX haviam diversos engenhos produzindo açúcar e aguardente de cana na enseada do Abraão, Enseada das Estrelas, Freguesia de Santana, Matariz, enseada do Sítio Forte e na fazenda de Longa.
“Na Ilha Grande, destacou-se como traficante Cunha Guimarães, proprietário da Fazenda de Dois Rios. Wilbeforce, que a visitou em 1851, diz ser ainda uma bonita Fazenda, muito embora já em estado de decadência. Duzentos escravos trabalhavam na lavoura de café, e havia algum gado. Impressionou-lhe a boa qualidade da construção dos ‘baracoons’, senzalas, comentando que por serem tão bem construídos poderiam servir para inúmeros outros fins. Embora não houvesse cais para a atracação de embarcações, a situação da marinha da dita fazenda apresentava todas as condições naturais para proceder a desembarques, sem que houvesse necessidade da construção de um para tal serventia.” (VIEIRA de MELO; 1987: 78).
6 O negro escravo foi a maior riqueza da Ilha Grande. Nas inúmeras fazendas da ilha, como, por exemplo, a fazenda da praia da Júlia, os negros eram selecionados, aclimatados, engordados, aprendiam o português, adquiriam novos hábitos alimentares e eram vendidos pelos melhores preços no mercado de escravos. Um escravo valia, em geral, 4 vacas de leite. Os de Ilha Grande valiam muito mais.
A compra da Fazenda do Holandês (no Abraão) e Dois Rios no final do séc.XIX pela coroa simbolizou o declínio do mercado do café e o inicio de um longo período de isolamento da Ilha Grande, principalmente com o estabelecimento da Colônia penal de Dois Rios em 1903.
Entre 1893 e 1903 a antiga fazenda de Dois Rios foi convertida em prisão, sendo que desde 1886, a fazenda na vizinha praia do Abraão vinha sendo usada como hospital de quarentena para imigrantes recém-chegados da Europa que fossem suspeitos de portar doenças infecto-contagiosas (Wunder 2006: 113). No século XIX, a Ilha Grande ficou gradualmente marginalizada dos centros de econômico, apesar de sua localização privilegiada do ponto de vista geográfico. (COSTA; 2004: 21)
... “O avanço da de plantation fez da Ilha Grande um significativo centro agrícola durante todo o século XIX. A demanda por terras se multiplicou e grandes posses de terras foram estabelecidas em locais como Abraão, Dois Rios e Parnaióca. Os principais produtos plantados eram a cana-de-açúcar, o cacau e o café...” (COSTA; 2004: 20)
Entretanto, ao lado das grandes fazendas, a Ilha Grande passou a abrigar pequenos roçados caiçaras conforme estudos clássicos de EmilioWillems (1952) e Gioconda Mussolini (1980). A população vivia do cultivo do milho, inhame, mandioca, batata doce e etc. Salgando peixes, dependendo da cidade grande só para obter alguns gêneros básicos como sal, óleo, fósforo e querosene. A presença da pequena lavoura camponesa produtora de gêneros sempre esteve presente de modo complementar à grande lavoura no Brasil.
7 Por volta de 1930 começaram a se estabelecer as fábricas de sardinha introduzidas por imigrantes japoneses nas praias do lado continental. Nessas fábricas trabalharam muitas mulheres da ilha, atualmente a pesca se mantem com força em Provetá. A pressão das empresas de pesca sobre os pescadores artesanais levou ao empobrecimento muitas famílias de pescadores. Por causa do interesse voltado para o pescado e do manejo caiçara da terra, de certa forma sustentável, a floresta se manteve até os impactos que começaram a ocorrer a partir dos anos 70.
8 A partir da década de 60, com a aceleração da expansão econômica e a modernização do Brasil, Angra também vive mudanças substanciais, sofrendo abalo em sua estrutura social, demográfica e econômica, com alguns fatores decisivos nesse processo, como a instalação da Verolme Estaleiros Reunidas do Brasil S.A; abertura da Rio Santos; o crescimento do porto; construção da usina nuclear e alguns empreendimentos turísticos que geraram novos empregos, trazendo mão de obra especializada.
Dentro deste contexto, Angra dos Reis sofreu sérios problemas de ordem social, refletindo em várias esferas da vida das comunidades da ilha. A deficiência de atendimento se fez também na área educacional, pois não havia infra-estrutura para atender a essa demanda.
Freguesia de Santana
A comunidade que já foi considerada centro não só da ilha, como da cidade, os colonizadores acreditavam que a vila estava ligada ao continente, mais tarde percebendo que era somente parte de uma ilha, acaba por ser definida:
Um lugar em que a história da ilha produziu muitas marcas é a Freguesia de Santana, com habitações dispersas, mata fechada e uma igreja, intacta, do século 19. O local foi um centro industrial e agrícola no período colonial, com plantações de café e cana, além de engenho de açúcar e cachaça. (Delduque, 2005)
A igreja de Freguesia de Santana é a maior (católica) da ilha, com mais de século de existência, hoje suas poucas festas estão marcadas por grande número de barcos, ficando restrito ao dia do evento e a uma pequena servidão para essas ocasiões as demais áreas da comunidade estão restringidas.
É importante registrar que nos pequenos núcleos caiçaras ainda permanecem as técnicas de roçado (rodízio de plantações, produção de farinha) e da pesca (rede de espera) também se mantêm.
9 Segundo (Wiefesls, 2009), as clareiras demosntram a existência de área em regeneração depois de agricultura intensa, o que significa a antiga existência de uma comunidade; por toda a ilha são visíveis essas clareiras, demonstrando a ocupação anterior da prática agrícola. Como é o caso da chamada Lagoa Azul, nome fictício (criado pelas agencias que vendem passeios ao local), baseado no filme de mesmo nome, pela semelhança com uma ilha deserta.
10 Diversos ciclos econômicos também marcaram a vida do local, plantações de cana e café e criação de gado, alem de formas mais recentes de trabalho como a pesca embarcada e o turismo.
Durante a construção da BR101 Sul RJ, os caiçaras do litoral sofreram diversos impactos, Como diz Maria Luiza Marcílio no livro Caiçaras, e os insulares não ficaram fora, com a construção da Usina Nuclear Angra I, os estaleiro Verolme e o Terminal da Baia da ilha Grande da Petrobrás (TEBIG), atraindo grande número de caiçaras jovens. A partir dos anos 70, com a abrerura do intervalo da BR101, Rio Santos. Trecho esse que liga o município com o norte e sul do país, a construção do Terminal Petrolífero e da Usina Nuclear observando à partir dai um surpreendente crescimento populacional. Os mais antigos do lugar perderam 155 Km de orla marítima, cachoeiras, montanhas, 106 praias, costões, 193Km² na extensão total em 36Km de comprimento por 13 de largura.
A ocupação humana dos solos da ilha se deu preferencialmente da praia em direção aos fundos dos vales elevando-se por toda vertente do relevo potencialmente agricultável. Os assentamentos dessas populações edificavam-se entre as roças e as praias. A partir da década de 1970 as diversas unidades de conservação existentes hoje na ilha foram criadas expulsando as populações caiçaras desprovidas de títulos de propriedades de sua terra (território). Após a proibição da pratica da roça por parte da legislação ambiental parte da população que não deixou a ilha em direção das favelas de Angra dos Reis se agruparam onde desembocam os principais rio e seus vales. Desta forma as comunidades são definidas hoje na ilha pelo nome das praias onde se encontram. (WIEFESLS; 2009: 03)
11 Em Maio de 1994, foi implodido o segundo presídio da ilha, encerrando o ciclo carcerário da Ilha, os moradores que dependiam diretamente do presídio para reforço de renda.
Até o inicio dos anos de 1990, a ilha era um paraíso preservado e protegido do interesse imobiliário, por causa do Instituto Penal Cândido Mendes, que era conhecido como Caldeirão do Inferno, sendo também conhecido como de segurança máxima e seus internos serem de alta periculosidade.
Desde 1994, quando foi implodido o Instituto Penal Candido Mendes, que ficava na Praia de Dois Rios, próxima ao Abraão – porta de entrada da Ilha Grande – o turismo tornou-se sua principal atividade econômica. A Ilha possui 106 praias3, entre as quais pelo menos 13 abrigam comunidades, que podem variar em número de habitantes, tipos de ocupação e de atividades de trabalho, mas que em maior ou menor grau têm o turismo como uma atividade rentável. (ZANATA; 2010)
As praias do Abraão e do Aventureiro abrigam toda uma diversidade de situações que podem ser pensadas a partir do atual
12 cenário turístico que vem tomando conta da Ilha Grande há cerca de 15 anos, desde a desativação do Instituto Penal Cândido Mendes. (ZANATA; 2010)
O turismo, que chegou ao Aventureiro doze anos atrás, com a desativação do presídio Candido Mendes, mesmo sendo uma atividade recente, é mais uma atividade que entra na vida do caiçara, tendo de chegar a padrões de adaptação e inovações conjugados à manutenção do trabalho familiar e de práticas como a pesca artesanal e as roças.