UM MUSEU PARA O ALTO DOURO VINHATEIRO
Gaspar MARTINS PEREIRA
Faculdade de Letras da Universidade do Porto / Grupo de Estudos de História da Viticultura Duriense e do Vinho do Porto
RESUMO
Na sociedade contemporânea, os museus constituem, cada vez ma is, instrumentos insubstituíveis para o desenvolvimento regional, enquanto pólos dinâmicos de representação, de conhecimento, de fruição e de acção cultural das regiões em que se integram. O Museu do Douro, criado pela Assembleia da República em 1997, com atribuições nas áreas da museografia, investigação e acção cultural, destina-se a promover a recolha, estudo, valorização e divulgação do património da Região Demarcada do Douro, uma das mais antigas regiões vitícolas demarcadas e regulamentadas do mundo, comum vasto património material e imaterial associado à vinha e ao vinho. Actualmente ainda em fase de instalação, este novo museu de território assume-se como espaço colectivo de memória e identidade da região vinhateira e, simultaneamente, como pólo dinâmico de acção cultural, integrando a participação activa das populações e instituições durienses.
1.- INTRODUÇÃO: MUSEUS E DESENVOLVIMENTO
Os museus, em especial os «museus de território», assumem-se, hoje, como pólos dinâmicos de representação e de conhecimento do património natural e cultural das regiões em que se integram, da sua história, das suas tradições, dos seus saberes e gestos, por vezes dos seus gostos, aromas e ambientes, numa palavra, da sua identidade. Os museus são, por isso, instrumentos e parceiros insubstituíveis para a preservação, valorização e divulgação dos patrimónios e, simultaneamente, para a sua utilização como valor de recurso e factor de desenvolvimento sócio-cultural regional. Nas últimas décadas, têm vindo a afirmar-se novas perspectivas sobre a missão dos museus na sociedade contemporânea, sujeita a profundas e rápidas mudanças, decorrentes dos processos cruzados de globalização, democratização e difusão das novas tecnologias. Neste sentido, temos assistido a alterações substanciais das políticas culturais e de património, das formas de gestão dos museus, das concepções museológicas e das práticas museográficas e de conservação. A evolução recente dos museus demonstra bem a sua capacidade para responder aos novos desafios. Se é verdade que o museu se mantém, e bem, fiel à sua vocação de instituição de preservação, estudo e divulgação de patrimónios, não é menos verdade que tem vindo a ultrapassar a sua velha missão de «guardião de tesouros», de «templo das Musas», filhas da Memória, e a assumir-se como espaço cultural multifuncional, como pólo de criação e irradiação cultural, aberto a públicos cada vez mais vastos, relacionando-se com os seus territórios de referência, com um papel-chave na vida das comunidades e no seu desenvolvimento social e cultural.
Esta evolução, que se traduz na passagem do foco de atenção das colecções para os públicos/comunidades(WEIL, 2003: 15), foi, há já quase vinte anos, substancialmente consagrada na definição de museu adoptada na XVI Assembleia-Geral do ICOM (Haia, 1989): «instituição de carácter permanente, sem fins lucrativos, ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público, que adquire, conserva, investiga, comunica e exibe, para fins de estudo, educação e fruição, testemunhos materiais do homem e do seu meio» (ALONSO FERNÁNDEZ, 2001: 31).
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Neste sentido, os museus devem assumir, frontalmente, a sua responsabilidade como instituições ao serviço do desenvolvimento da sociedade, participando na construção de hábitos e formas de integração que se traduzam num enriquecimento colectivo de saberes e de práticas, de capacidades de pensar e de agir localmente — ou seja, com raízes identitárias — mas, ao mesmo tempo, de capacidades de confronto com outras formas exógenas de conhecimento e de acção. Por isso, o Museu pode e deve ser, também, um lugar de encontro e de intercâmbio de culturas, assumindo o património como herança e recurso comum da humanidade. Por outro lado, face à democratização cultural do nosso tempo, já não se espera que os museus sejam meros transmissores de «uma verdade autorizada histórica, científica ou cultural» (MATARASSO, 2003: 134), mas sim verdadeiros «lugares de partilha de saberes» (CÔTÉ; VIEL, 1995).
Um tal gesto solidário implica uma mudança do paradigma de museu e uma redefinição da sua missão. Antes de mais uma ruptura com a noção convencional de museu-edifício-colecção, para fazer do museu um lugar aberto e interactivo com o seu território de referência, que é também o seu objecto primordial, considerando que a noção global de território integra as comunidades que aí vivem, produtoras e detentoras de patrimónios diversos. Poderíamos dizer aqui, com André Desvallées: «Não mais colecções de história natural, de objectos de arte, de objectos científicos e objectos técnicos por si mesmos, mas um meio natural e cultural a perceber como um todo que se recebe como herança, que se apropria, que se transmite com a consciência das transformações provocadas pelas criações — e pelas destruições — do homem, e do qual não se retiram testemunhos senão para explicar a natureza e a história dessa herança» (cit. POULOT, 2005: 179). Neste sentido, mais do que as colecções do Museu, expostas ou guardadas nas reservas, visitáveis ou não, mais até do que o conjunto do património, é o processo que conta, se este se revelar um instrumento valorizador do conhecimento e da acção das comunidades que integram e partilham um território e o seu património. Como salientou Joaquim Pais de Brito, «será mais importante o património de entendimento, com o que pode transportar de sonho e inutilidade, que somos capazes de criar do que o património que ansiosamente procuramos guardar. Os museus podem certamente ter este importante papel de ajudar a desmontar os seus próprios registos de funcionamento e de se constituírem mais enquanto projecto e acção do que memória» (BRITO, 2003: 276).
2. – O CASO DO MUSEU DO DOURO
2.1.- Um Museu para uma região vinhateira
A experiência museológica que irei apresentar aqui enquadra-se nesta linha de concepção e de acção. Trata-se do projecto do Museu do Douro, que tem por missão a representação do território e do património do Alto Douro, uma região que possui uma vincada identidade cultural:
• é uma das mais antigas regiões vitícolas demarcadas e regulamentadas do mundo;
• é uma paisagem cultural, evolutiva e viva, consagrada pela UNESCO como Património Mundial; • possui um vasto património cultural associado à vinha e ao vinho.
Apesar de corresponder a uma velha reivindicação da região vinhateira, suscitando, ao longo do século XX, diversas propostas e iniciativas para a sua concretização (PEREIRA, 2001: 22), o
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Museu do Douro só foi criado em 1997, por uma lei da Assembleia da República (Lei 125/97), aprovada por unanimidade e consensualmente acarinhada pela região duriense.
Em síntese, essa lei:
• criou o Museu do Douro, com sede na cidade da Régua, com estrutura polinuclear distribuída por toda a Região do Douro;
• definiu as atribuições do Museu nas áreas da museografia, investigação e acção cultural, competindo-lhe, nomeadamente: i) identificar, preservar, estudar e divulgar todas as fontes históricas e antropológicas, espirituais e materiais do património cultural e natural da região do Douro, em particular o ligado à produção, promoção e comércio dos vinhos do Douro, em especial do vinho do Porto; ii) promover e apoiar, no País e no estrangeiro a realização, publicação e divulgação de estudos sobre a Região, o seu património, o Museu e as suas colecções; iii) promover exposições, congressos, conferências, seminários, etc.
• determinou, ainda, a incorporação no Museu dos arquivos das principais instituições reguladoras da Região Demarcada do Douro e do Vinho do Porto, nomeadamente, o Arquivo da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro (séculos XVIII-XIX) e, eventualmente, os arquivos do Instituto do Vinho do Porto e da Casa do Douro (século XX).
A lei consagra, assim, claramente, nas suas linhas gerais:
• um modelo de Museu de Território, de âmbito regional e com estrutura polinuclear;
• um projecto museológico integrado, com atribuições nas áreas da museografia, documentação, investigação e acção cultural, vocacionado para a preservação e divulgação do património duriense, especialmente o que se relaciona com a actividade vitivinícola;
• uma instituição intimamente ligada à região, com participação de entidades públicas e privadas na gestão do Museu.
2.2.- O processo de instalação
Apesar das hesitações e, até, da incompreensível resistência inicial em cumprir a Lei por parte do Ministério da Cultura, a primeira Comissão Instaladora, definiu, em 1998-1999, de acordo com o espírito da lei, um modelo de «museu de território», amplamente participado pelas instituições da região. No entanto, o trabalho da primeira Comissão Instaladora sofreu a oposição dos responsáveis do Instituto Português de Museus, defensores de uma concepção museológica mais tradicional e pouco abertos às correntes da «nova museologia», o que se traduziu no atraso de alguns anos na instituição do Museu. O processo só viria a ter um novo desenvolvimento a partir de 2001, com novos responsáveis pelo Ministério da Cultura. Em Janeiro de 2002, foi criada uma Estrutura de Projecto, com a missão de desenvolver um programa de acção para a instalação do Museu do Douro.
O trabalho realizado pela Estrutura de Projecto, entre 2002 e 2004, utilizou uma metodologia de processo, integrando a participação activa das populações e instituições durienses na formação do seu Museu, como espaço colectivo de memória e identidade regionais e como pólo dinâmico de acção cultural. Nesse sentido, seguiu os caminhos conceptuais da «nova museologia», valorizando, como elementos centrais do museu, o território, o património e as comunidades que o integram, desviando-se da «museologia convencional», excessivamente centrada na trilogia edifício-colecções-públicos.
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Em pouco mais de dois anos, com o carinho e o apoio de toda a região, foi possível lançar as bases deste novo Museu de Território, conseguindo-se, nomeadamente:
• instalar a sede provisória e os serviços mínimos do Museu, bem como adaptar uma área de exposições (cedida pelo IVDP) e uma área de reservas de peças;
• estabelecer centenas de contactos e parcerias institucionais;
• realizar mais de uma centena de acções culturais de envolvimento da população (exposições, debates, conferências, cursos, concursos, concertos, etc.) nos 21 concelhos da RDD;
• criar a Associação dos Amigos do Museu do Douro, que reúne, actualmente, cerca de 500 associados;
• desenvolver diversas acções de recolha e inventariação de património móvel, reunindo, por doação ou depósito, quase 2 mil peças, além da inventariação do Arquivo Histórico do Instituto do Vinho do Porto, cedido ao Museu;
• organizar e abrir ao público a exposição programática «Jardins Suspensos» que recebeu, num ano, cerca de 30 mil visitantes, um terço dos quais crianças e jovens em idade escolar, que o Serviço Educativo do Museu acompanhou com actividades pedagógicas paralelas;
• definir as bases programáticas do Museu;
• criar as condições para a aquisição do edifício para sede do Museu pelo Ministério da Cultura (Junho 2004);
• criar as condições para a instituição de uma Fundação para gerir o Museu (PEREIRA, 2004). Infelizmente, com o fim da missão da Estrutura de Projecto, em Abril de 2004, o trabalho desenvolvido não teve sequência imediata, devido às vicissitudes políticas.
3.- PERSPECTIVAS PARA O FUTURO PRÓXIMO
Só muito recentemente, em Janeiro de 2006, foi, finalmente, instituída a Fundação Museu do Douro. Com a organização dos respectivos serviços, será agora possível ganhar capacidade técnica e de gestão para completar a fase de instalação e retomar o trabalho no território de referência.
Prevê-se, nesta fase, até ao final de 2008:
• criar um corpo técnico habilitado para o desenvolvimento das funções do Museu; • instalar a sede e estruturar o núcleo central do Museu;
• organizar uma Rede de Museus do Douro e acompanhar a organização de núcleos locais, em colaboração com as autarquias e instituições públicas e privadas da região;
• reorganizar a Exposição «Jardins Suspensos», de modo a configurar a Exposição Permanente; • lançar e desenvolver novos programas de inventariação de património, de acção cultural, de
formação, etc., nos 21 concelhos da região;
— 5 — 5 BIBLIOGRAFIA CITADA
ALONSO FERNÁNDEZ, Luis (2001): Museología y museografía. 2ª ed. Barcelona. Ediciones del Serbal.
BRITO, Joaquim Pais de (2003): Museu, memória e projecto. In PORTELA, José; CALDAS, João Castro, eds. — Portugal Chão. Oeiras. Celta Editora.
CÔTÉ, Michel; VIEL, Annette, dir. (1995): Le musée: lieu de partage des savoirs. Québec. Musée de la Civilisation.
MATARASSO, François (2003): After Nietzsche: Museums in a Multicultural Society. In DOMINGOS, Álvaro; SILVA, Isabel; LOPES, João Teixeira; SEMEDO, Alice, org. — A
Cultura em Acção: Impactos Sociais e Território. Págs. 131-138. Porto. Afrontamento.
PEREIRA, Gaspar Martins (2001): O Museu da Região do Douro. «DOURO — Estudos e Documentos», nº 11. Págs. 21-26. Porto. GEHVID.
PEREIRA, Gaspar Martins, coord. (2004): Estrutura de Projecto do Museu do Douro —
Relatório de Missão (2002-2004). Régua. Museu do Douro.
POULOT, Dominique (2005): Une histoire des musées de France, XVIIIe-XXe siècle. Paris. Éd. La Découverte.
WEIL, Stephen E. (2003): Museums and Communities: Their Changing Relationship. In DOMINGOS, Álvaro; SILVA, Isabel; LOPES, João Teixeira; SEMEDO, Alice, org. — A