História Empresarial e a Formalização Social do Passado nas Organizações: um Estudo do Memória PETROBRAS

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História Empresarial e a Formalização Social do Passado nas Organizações: um Estudo do Memória PETROBRAS

Aluna: Carolina Martins Sauma

Orientadora: Profa. Alessandra de Sá Mello da Costa.

1. Introdução

Este projeto foi uma continuação do projeto iniciado em 2011 - 2012 que buscou identificar e entender como as empresas formalizam de forma estratégica as suas memórias. Uma das formas mais significativas, e que escolhemos para foco de estudo, é a criação de Centros de Memória e Documentação Empresariais.

De uma forma mais ampla, estes centros são espaços com função cultural, educativa e – principalmente – estratégica onde a história da empresa (e sua trajetória) é resgatada do passado, legitimada e tornada pública. De forma menos recorrente, os Centros de Memória também abrigam o histórico do ramo e da área de atuação da empresa, as histórias dos seus funcionários e da própria sociedade na qual está inserida a empresa. Ao mesmo tempo, memória empresarial pode ser entendida como uma facilitadora de relacionamentos, estreitando laços estratégicos da organização buscando: (a) aproximar a empresa de funcionários, colaboradores e parceiros; (b) fortalecer a marca e a identidade da empresa no mercado; (c) contribuir para a gestão de pessoas e para uma melhor comunicação interna e externa; (d) desenvolver mecanismos que viabilizem o autoconhecimento da organização por meio do resgate de processos, princípios e valores empresariais; (e) atender a pesquisadores, oferecendo informações históricas da organização; e (f) viabilizar uma integração de diferentes culturas empresariais provenientes de fusões, aquisições e reestruturações.

Nesse segundo momento do projeto conseguimos finalizar a coleta e a analise dos depoimentos disponibilizados no sítio eletrônico da Petrobras (http://www.petrobras.com.br/pt/) e os separamos em diferentes categorias, o que nos permitiu identificar no final quais eram as categorias mais relevantes e como estas contribuiam estrategicamente para a criação de uma memória organizacional pretendida.

Ao mesmo tempo, conseguimos realizar uma entrevista com a historiadora Miriam Collares Figueiredo, responsável pela gestão do Programa Memória Petrobras que muito contribuiu para um maior esclarecimento acerca de questões importantes, tais como: a importância do programa para a empresa na atualidade, a preocupação da empresa com a gestão da sua memória, a sua experiência na coleta dos depoimentos, entre outras.

De acordo com Figueiredo (2009), vários centros de memória foram criados no Brasil até hoje, por exemplo, o Núcleo de Memória Odebrecht (1999) o Centro de Memória Bunge (1994) o Memória Globo (1999), o Memória Votorantim

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2 (2002), o Projeto Memória Bosch (2003) e o Centro de Memória Natura (1992).

Ainda conforme esta autora, “as memórias das empresas se tornam (...) ferramentas de gestão empresarial (...) [e] buscam fundamentarem tomadas de decisão e o estabelecimento de uma comunicação mais direcionada com objetivos ligados ao fortalecimento da empresa junto aos seus públicos de interesse na sociedade” (Figueiredo, 2009, p.4). Esses diferentes projetos de Memória foram criados também com diferentes objetivos, alguns atribuem um valor maior à sua história e disponibilizam suas informações para serem usadas em pesquisas, outros preferem retratar a sua historia como uma trajetória de sucesso; muitas vezes são divulgados livros, fazem exposições e assim conseguem um registro histórico da sua trajetória. Podemos perceber também que nem sempre as empresas tem Centros de Memória estruturados, em alguns casos elas apenas comemoram seus inúmeros anos de existência como por exemplo, 40, 50 anos de empresa no mercado e ali incluem sua história, depoimentos, momentos de sucesso que também podem ser considerado Memória Empresarial.

Neste contexto (e com base no objetivo inicial de investigar historicamente a criação do Memória PETROBRAS e identificar e analisar quais foram as estratégias atreladas a esta criação), nessa segunda etapa do projeto buscamos (1) ampliar a pesquisa bibliográfica; (2) ampliar e finalizar a coleta dos dados; e (3) aprofundar e finalizar a categorização dos dados coletados.

2. Referencial teórico

O referencial teórico foi construído junto com a profa. orientadora e contemplou as seguintes temáticas: (a) Memória e Memória Empresarial; (b) Memória Petrobras

2.1 Memória e Memória Empresarial

Nesta pesquisa assume-se a definição de memória como a condição daquilo que se tem no presente e que pertence ao passado (Le Goff, 2008). Segundo Pollak (1989; 1992), a memória é um fenômeno construído socialmente e são duas as suas funções essenciais: a) manter a coesão interna; e b) defender as fronteiras daquilo que um grupo tem em comum. Em função dessa condição, transforma-se tanto em um quadro de referência quanto em pontos de referência por meio da identificação e do compartilhamento de significados, ou seja, em “uma memória estruturada com suas hierarquias e classificações, uma memória (...) ao definir o que é comum a um grupo e o que o diferencia dos outros, fundamenta e reforça os sentimentos de pertencimento e as fronteiras sócio-culturais” (Pollak, 1989, p. 3).

De acordo com Neves (2009, p.22), “em seu incessante artesanato, a memória entrecruza, necessariamente, pólos aparentemente antitéticos tais como o tempo lembrado e o tempo da lembrança; o individual e o coletivo; o registro e a invenção; o material e o simbólico; a rememoração e o esquecimento; as paixões e os interesses; a informação e o ocultamento; a razão e a emoção”. É neste sentido

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3 que, como argumenta Laborie (2009), as memórias: (1) são plurais; (2) podem ser utilizadas e empregadas de várias formas; (3) colocam em evidência eventos selecionados e com significação particular; (4) são encenações do passado; (5) congelam o tempo e a ‘verdade’; e (6) possuem uma função militante.

Assim, pensar o tema memória permite refletir sobre a ideia de que nenhum diálogo acerca do passado e do presente é neutro, uma vez que exprime um sistema de atribuições de valores. Tal como ocorre na história, a memória pode ser entendida como uma construção provisória e mutável (Neves, 2009). Por possuir uma condição modificadora - uma vez que vincula o conhecimento do passado com as perspectivas do presente - a memória, quando formalizada, torna possível uma (re)elaboração do mundo, transformando e sustentando realidades existentes (Ricoeur, 2007).

As memórias podem ser classificadas de diferentes maneiras, como memórias esquecidas, as quais não valem a pena serem lembradas; as memórias subterrâneas, desenvolvidas a partir de uma historia não oficial; memórias clandestinas, que são supostas na ilegitimidade do ponto de vista oficial; memórias silenciadas as quais são verdadeiras mas que não há desejo da organização em divulgá-las; memórias vergonhosas que demonstram muitas vezes decisões que falharam, causaram problemas a organização e as memórias proibidas onde não há nenhuma possibilidade de serem resgatadas.

Um passado harmonioso reflete em um futuro responsável, racionalmente produtivo, mas nem sempre as organizações são assim, existem momentos de conflitos, dificilmente uma empresa conhece a perfeição. Dentro dessa visão, porque ter que esquecer o que aconteceu de errado; ao invés de relatar o fato, e mostrar como a empresa conseguiu superar? O que lembrar e o que esquecer são perguntas inevitáveis aos seres humanos e passam a ser também para as organizações.

A memória dos indivíduos é baseada em fatos que foram vividos individualmente ou em grupo. A diversidade de versões para um mesmo fato, surge dessa individualidade, onde cada um pensa e interpreta de uma maneira, criando a sua versão através de um mesmo fato. Toda essa discussão pode ser transferida para a análise da gestão das memórias nas organizações: a memória empresarial - recorrentemente (re)construída, (re)enquadrada e disseminada - está presente no dia a dia da organização e pode ser identificada nas várias expressões da memória coletiva da empresa.

Cabe ressaltar que estas visões ainda privilegiam, no entanto, a função utilitária da memória tanto no que diz respeito ao processo de tomada de decisão empresarial por meio da elaboração de modelos mecânicos processados em sistemas de informação quanto por meio da utilização da trajetória empresarial como estratégia (Rowlinson et al., 2010). De acordo com Gourvish (2006), é inegável o foco instrumental das empresas. Focos tradicionais empresariais, como conseguir maior confiança do mercado, levar a cabo ações de relações públicas que

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4 melhorem a imagem da empresa, ou que proporcionem a adoção de modelos bem sucedidos no passado são alguns dos objetivos da história empresarial.

É neste sentido que, por um lado, as histórias empresariais buscam engrandecer os seus feitos do passado, a narrar de forma épica dificuldades dos anos iniciais, a romantizar a atuação dos líderes em períodos-chave, enfim, a contar a história da empresa como se tratasse de um relato oficial e único de fatos – e não de uma versão, entre as várias possíveis (Leblebici e Shah, 2004). E, por outro lado, essas mesmas histórias buscam silenciar e procurar esquecer momentos históricos não tão convenientes, o que vem sendo estudado por pesquisadores como Black (2001) quando pesquisa o caso da aliança estratégica entre a Alemanha nazista e a IBM; Booth et al. (2007) quando pesquisa o caso da editora alemã Bertelsmann; entre outros.

2.2 Memória Petrobras

Sociedade anônima de capital aberto e economia mista, a Petrobras é a maior empresa do Brasil, a oitava do mundo em valor de mercado e a terceira maior companhia de energia do mundo (Petrobras, 2012). Fundada em 1953, desenvolve atividades em vinte e oito países atuando nas áreas de exploração e produção, refino, comercialização, transporte e petroquímica, distribuição de derivados, gás natural, biocombustíveis e energia elétrica (Petrobras 2012). Ainda de acordo com o site oficial possui mais de cem plataformas de produção, dezesseis refinarias, trinta mil quilômetros em dutos e mais de seis mil postos de combustíveis. Suas reservas provadas estão em torno de 14 bilhões de barris de petróleo, mas a perspectiva é de que esse número, no mínimo, dobre nos próximos anos. De forma a destacar a importância desta empresa no contexto brasileiro, além das informações já mencionadas, cabe ressaltar que com a descoberta de petróleo e gás na região do pré-sal existe a previsão de que o Brasil possa ser o quarto maior produtor de petróleo do mundo em 2030 (Petrobras, 2011; 2012).

Consta em seu Relatório de Sustentabilidade 2010 a informação de que a empresa tem por objetivo criar um bom relacionamento com seus públicos de interesse assim como proporcionar um ambiente transparente em torno de sua imagem e reputação (Petrobras, 2011). De acordo com este relatório, são considerados públicos de interesse os grupos de indivíduos ou organizações com questões e necessidades comuns de caráter social, político, econômico, ambiental e cultural, que estabelecem ou podem estabelecer relações com a empresa são capazes de influenciar ou ser influenciados por atividades, negócios e pela reputação da companhia. Ainda no que diz respeito às suas práticas de governança corporativa e responsabilidade socioambiental, a empresa está entre as mais sustentáveis do mundo e desde 2006 faz parte do Índice Dow Jones de Sustentabilidade (Petrobras 2011; 2012).

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5 De acordo com a empresa, todas as suas práticas de gestão são fundamentadas e orientadas pelos seus valores organizacionais que foram sistematizados no quadro I a seguir:

Quadro I - Descrição dos Valores da Petrobras

Fonte: Petrobrás

O Projeto Memória dos Trabalhadores da Petrobras foi criado oficialmente em 2002 com o objetivo de ser um projeto de registro histórico, conservação de documentos e coleta de depoimentos dos empregados da companhia (Petrobras 2012). Este projeto teve inicio a partir de uma proposta anterior do sindicato dos petroleiros cujo objetivo era contar a história da empresa por meio da visão dos empregados. Nesta proposta inicial, entretanto, as informações coletadas ainda apresentavam-se dispersas e com uma estrutura ainda incipiente. Com o início do governo Lula em 2002, os sindicatos se fortaleceram e o projeto adquiriu uma maior relevância (Petrobras, 2003).

Em 2004, o Projeto Memória dos Trabalhadores se transformou em um programa permanente de memória, o Programa Memória Petrobras e desvinculou-se da égide dos sindicatos. Conforme expresso no livro editado pela empresa – Energia da Memória: As lições da Petrobras (Petrobras, 2010, p.168), esta transformação ocorreu “por conta da percepção do tema como importante ferramenta estratégica da companhia”. O então novo programa incorporou o Projeto Memória dos Trabalhadores como uma de suas quatro linhas de pesquisa, que também passaram a incluir a memória do conhecimento, que retrata como a

Valores Descrição Desenvolvimento

Sustentável

Sucesso dos negócios com uma perspectiva de longo prazo, contribuindo para o desenvolvimento econômico e social e para um meio ambiente saudável nas comunidades onde atua.

Integração Maximização da colaboração e captura de sinergias entre equipes, áreas e unidades, assegurando a visão integrada da companhia nas ações e decisões. Resultados Geração de valor para as partes interessadas - com foco em disciplina de

capital e gestão de custos – e reconhecimento de pessoas e equipes com alto desempenho.

Prontidão para Mudanças

Busca por mudanças e responsabilidade de inspirar e criar mudanças positivas.

Empreendedorismo e inovação

Superação de desafios e geração e implementação de soluções tecnológicas e de negócios inovadoras que contribuam para o alcance dos objetivos estratégicos da empresa.

Ética e transparência Orientação por Princípios Éticos do Sistema Petrobrás.

Respeito à vida Respeito à vida em todas as suas formas, manifestações e situações e buscamos a excelência nas questões de saúde, segurança e meio ambiente. Diversidade humana e

cultural

Valorização da diversidade humana e cultural nas relações com pessoas e instituições. Respeito às diferenças, da não discriminação e da igualdade de oportunidades.

Pessoas Fazer das pessoas e de seu desenvolvimento um diferencial de desempenho da empresa.

Orgulho de ser Petrobras

Orgulho de pertencer a uma empresa brasileira que faz a diferença onde quer que atue, por sua história, suas conquistas e por sua capacidade de vencer desafios.

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6 Petrobras contribuiu na tecnologia do país, nessa linha, recolheram muitos depoimentos dos trabalhadores das áreas de explosão e Produção, Engenharia, do Centro de Pesquisa e refinarias; a memória do patrocínio onde mostra em quais eventos que a Petrobras foi patrocinadora, nas áreas de cultura, esportiva e sócio-cultural, contrinuindo assim para a formação de uma memória social coletiva e de uma identidade brasileira; e a memória das comunidades, na qual vários depoentes falaram da importância dos projetos sociais preocupados com a responsabilidade social, pois com a chegada da Petrobras em alguns lugares, desenvolveu determinados impactos para as áreas e comunidades.

Por fim, conforme divulgado em seu sítio eletrônico, além das linhas de pesquisas internas qualquer trabalhador da empresa ou qualquer cidadão pode dar o seu depoimento, bastando para isso que seja preenchido um formulário padrão sempre disponível (Petrobras 2102). Cabe destacar que até o momento estes depoimentos não informavam as datas em que foram registrados, mas há indicação que o site está em reformulação e que a partir de seu lançamento todos os depoimentos trarão esta informação (Figueiredo, 2012).

3. Metodologia

Pesquisa historico-institucional que, para a construção do corpo de dados, utilizou como fonte documentos institucionais e depoimentos dados à empresa pelos seus trabalhadores. disponíveis no sitio eletrônico. Assim, além dos Relatórios de Sustentabilidade e Relatórios Anuais, foram coletados 575 depoimentos concedidos à empresa por seus trabalhadores na ativa e já aposentados. Os depoimentos foram salvos em formato digital e possuem em torno de uma a oito páginas transcritas, totalizando uma média de 2700 páginas de material bruto. Cabe a ressalva de que não foi possível obter as entrevistas pretendidas anteriormente com todos os criadores e gestores do projeto e com demais funcionários da empresa.

De forma a embasar e conduzir os protocolos metodológicos requeridos, os dados foram analisados e categorizados segundo análise do discurso. Assume-se neste projeto que a análise do discurso é o estudo sistemático de um conjunto de textos que tem por objetivo desvendar a forma como os discursos adquirem significado por meio de atividades que incluem a produção, a distribuição e o consumo destes mesmos textos. Mais do que interpretar a realidade social como ela existe, a análise do discurso busca compreender como a realidade social é produzida. Como desdobramento, por meio da análise de um conjunto de discursos pode-se encontrar as motivações de um dado grupo, o que desvendaria os interesses estratégicos existentes em um contexto específico.

As seguintes atividades foram desenvolvidas nesse processo: (1) Revisão de bibliografia (junto com a profa. orientadora) sobre o tema história e memória empresarial. Início do processo de coleta de dados acerca do Memória PETROBRAS; (2) Finalização do processo de coleta de dados acerca do Memória

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7 PETROBRAS; (3) e finalização da categorização (junto com a profa. orientadora) dos dados coletados.

4. Categorização dos Dados

A partir da leitura dos depoimentos, estes foram separados em quatro grandes categorias, quais sejam: (1) a natureza do trabalho da empresa; (2) a importância da empresa para o Brasil e o mundo; (3) a importância da empresa para o indivíduo; e (4) O Programa Memória Petrobras. No quadro II abaixo, podemos entender melhor a relação entre cada categoria e sua descrição:

Quadro II - Descrição das categorias criadas.

Categoria Descrição

1. Natureza do trabalho da empresa. Esta categoria descreve o que a empresa faz na visão do trabalhador.

2. Importância da empresa para o Brasil

e o Mundo. Esta categoria descreve os benefícios das atividades da empresa para a economia do país, para a sociedade e para a vida de cada um dos seus trabalhadores.

3. Importância da empresa para o

individuo. Esta categoria descreve a importância da contribuição da empresa com vários aspectos positivos, para o sucesso de cada trabalhador.

4. Programa Memoria Petrobras” Essa categoria descreve o projeto de registro histórico, conservação de documentos e coleta de depoimentos dos colaboradores da companhia.

4.1 Categoria 1 - Natureza do Trabalho da Empresa

A primeira categoria citada acima, “A natureza do trabalho da empresa”, diz respeito as percepções relatadas pelos trabalhadores acerca do próprio negócio da empresa e de quais são as suas práticas de gestão e foi dividida em três conjuntos temáticos de depoimentos: (a) responsabilidade sócio-ambiental; (b) relações de trabalho; e (c) área internacional.

Estas três construções interligam-se e adquirem importância em função da própria natureza da empresa – extrativista – e de seu projeto de expansão internacional (Petrobras, 2010). O meio ambiente/responsabilidade

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8 socioambiental, subcategoria importante na análise, fala sobre as relações da empresa com o contexto sócio-ambiental no qual ela está inserida. Ao mesmo tempo, outras atividades também desenvolvidas por esta empresa, como a exploração de bacias de gás localizadas em área de conservação ambiental mundial como Urucus (na floresta Amazônica) ou na mata Atlântica da região sudeste do Brasil, prevêem, no curso do seu processo de exploração, algum grau de destruição. Não à toa, a Petrobras é uma das grandes investidoras em projetos sociais, culturais, ambientais e esportivos: apenas em 2010 a empresa investiu algo em torno de U$350 milhões em 1.770 projetos (Petrobras, 2011).

No que diz respeito às relações de trabalho, podemos perceber que os discursos relatam o dia a dia dos colaboradoes, as condições de trabalho e suas tecnologias. Muitos outros depoimentos revelam também o prazer e a alegria de fazer parte da empresa, mostrando a felicidade de se trabalhar em uma empresa como a Petrobras.

O terceiro tema, área internacional, contém as narrativas alocadas pelo Programa Memória Petrobras que falam sobre a atuação da empresa no mundo e de suas experiências de trabalho no exterior. Para os depoimentos analisados, a internacionalização da empresa já é realidade e motivo de orgulho e satisfação.

4.2 Categoria 2 - Importância da Empresa

A segunda categoria construída foi “A importância da empresa para o Brasil e o Mundo”, e relata exatamente os benefícios que a empresa gerou não só para o Brasil, como para sua sociedade e também para o mundo. E foi divida em, em três conjuntos temáticos de depoimentos: (a) cultura Petrobras; (b) imagens da Petrobras; e (c) sonho. Na cultura Petrobras, muitos depoentes revelam com orgulho o trabalho realizado na organização. O segundo tema, imagens da Petrobras, apresenta o conjunto das narrativas que abordam como a empresa é vista pelos entrevistados como exemplo no Brasil e fora dele. Há uma relação da Petrobras com outras empresas no mundo e também com empresas nacionais. Também identificamos a subcategoria do Sonho, onde muitos contam dos seus sonhos de trabalhar em uma empresa como a Petrobras, do desejo de anos em participar dos concursos e ser aprovado, de ajudar junto a empresa a fazer o país crescer.

4.3 Categoria 3 - Importância da Empresa para o Indivíduo

A terceira categoria, “A importância da empresa para o individuo, diz respeito as contribuições individuais para a organização e como os valores da empresa se assemelham aos dos seus colaboradores. Esses depoimentos também são expressados de forma muito emotiva. Engloba temas como (a) Ser Petroleiro e (b) Avaliação.

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9 Na verdade, o que é ser petroleiro? Para quem trabalhou lá, essa expressão engloba valores, sonhos, desejos, contribuições, erros e acertos. Eles se consideram uma grande família, pois todos colaboram quando há um problema maior, se respeitam e convivem durante muitos anos juntos. Na empresa eles construíram uma vida juntos, criaram uma Nação chamada Petrobras. O desenvolvimento pessoal esta atrelado ao desenvolvimento da empresa, é com essa visão que eles falam do trabalho, não é um qualquer e simples emprego. As narrativas analisadas expressam sentimentos de pertencimento a uma espécie de comunidade como uma nação. O segundo tema dessa categoria é avaliação, onde eles avaliam o trabalho e o impacto disso na vida de cada um. Também foi identificado nos relatos a avaliação de que existe um grande respeito por parte da empresa para com todos que trabalham nela e, por isso, busca fazer das pessoas e de seu desenvolvimento um diferencial de seu desempenho.

4.4 Categoria 4 - Programa Memória Petrobras

Todos os relatos analisados são encerrados com uma mesma solicitação explícita de opinião sobre o Programa Memória Petrobras, formando então nossa quarta categoria. Este tema fixo diz respeito às narrativas sobre as percepções dos trabalhadores acerca do próprio Programa. Nessa categoria, todos falam da importância do projeto, e também de como é bom poder relatar sobre as qualidades adquiridas no trabalho, da oportunidade de expor experiências vividas, a trajetória profissional, projetos realizados, e muitos outros tópicos oferecidos pelo projeto Memória Petrobras.

Foi relativamente fácil perceber, nos discursos coletados, como a iniciativa do projeto é importante para cada um de uma forma diferente, mas sempre falando da oportunidade de fazer parte da historia da empresa, de deixar guardada a experiência deles e poder compartilhar com o país a contribuição dessa equipe junto a Petrobras. Há também uma enorme valorização dos trabalhadores, pois cada equipe é uma ferramenta que a empresa utiliza para crescer e as equipe também crescem muito com os trabalhos realizados.

Considerações Finais

Este projeto teve por objetivo dar continuidade à etapa anterior (2011-2012) e (1) ampliar a pesquisa bibliográfica; (2) ampliar e finalizar a coleta dos dados; e (3) aprofundar e finalizar a categorização dos dados coletados. A partir da leitura dos depoimentos, estes foram separados em quatro grandes categorias, quais sejam: (a) a natureza do trabalho da empresa; (b) a importância da empresa para o Brasil e o mundo; (c) a importância da empresa para o indivíduo; e (d) O Programa Memória Petrobras.

Cabe ressaltar, no entanto, que outros temas também poderiam ser destacados como a Trajetória Profissional (mostram as oportunidades que a

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10 empresa oferece para se crescer la dentro); a Campanha o Petróleo é nosso (onde muitos trabalhadores lutavam para a criação de uma empresa que oferecesse ao país auto-suficiência em petróleo), entre outras. No entanto, optamos por nos focarmos nos temas mais recorrentes nos depoimentos.

A análise dos discursos dos trabalhadores – materializadas nos depoimentos coletados - nos permitiu identificar como a constituição deste Programa parece contribuir para o alcance do objetivo estratégico de promover um maior entendimento do que a empresa é hoje e de quais são os seus principais valores. Os discursos individuais podem ter múltiplas interpretações acerca dos eventos passados e das antigas práticas de gestão, no entanto, quando estas memórias individuais transformam-se em memória coletiva empresarial torna-se possível a identificação de nuances de produção e reprodução de interpretações dominantes do passado. No caso desta pesquisa, as escolhas empresariais selecionam e enquadram as suas fontes buscando definir e legitimar uma determinada trajetória histórica.

Enfim, podemos perceber como a vida desses trabalhadores esta relacionada a empresa em questão, muitos dividem suas experiências, sonhos, dificuldades e contam também sobre o seu dia a dia; a fim de contribuir para a construção da memória da empresa. Reforçando a importância atribuída ao individuo, o resgate da história adquire uma relevância ainda maior nos relatos analisados porque, na visão dos depoentes, é feito não do ponto de vista do historiador, mas do ponto de vista dos próprios trabalhadores que viveram – efetivamente – a trajetória histórica da empresa.

No nosso entender, este processo precisa ser problematizado, o que nos leva a sugerir a necessidade de pesquisas futuras acerca da memória e seu lugar nos estudos de Administração. A referência ao passado, bem como a apropriação de interpretações acerca desse passado, torna possível a coesão e a definição do papel da empresa na sociedade. Mais do que a mera ilustração cronológica de acontecimentos anteriores, a construção da trajetória histórica de uma empresa diz respeito, em última instância, à legitimidade que possuem os empresários e seus representantes de definir o que deve ser lembrado naquele contexto organizacional específico.

Referências bibliográficas

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