PEC 55 – A FACE PERVERSA DO ESTADO BRASILEIRO
Ana Paula Ferreira Miranda1 Juliana Aparecida Cobuci Pereira2 Lorhana Luiza Lopes3
RESUMO
Pretendemos com este artigo delinear algumas considerações a respeito da Proposta de Emenda Constitucional de número 55 (PEC 55), aprovada em 2016, como um dos elementos centrais de um programa de governo - que não foi democraticamente eleito - que prevê um reajuste fiscal a partir da limitação dos gastos públicos.
Não esgotaremos este complexo e relevante debate, mas nos propomos a contextualizar a PEC 55 expondo elementos que a identificam com a face perversa do Estado. Nesse sentido, apresentaremos os retrocessos na PEC 55 de modo a sublinhar os impactos desta Proposta para os trabalhadores no Brasil.
PALAVRAS-CHAVE: PEC 55; Estado; Fundo público; políticas
sociais;
ABSTRACT
With this article, we intend to outline some considerations regarding the Constitutional Amendment Proposal number 55 (PEC 55), approved in 2016, as one of the central elements of a government program - which was not democratically elected - that provides for a fiscal adjustment from Limiting public spending.
We will not exhaust this complex and relevant debate, but we propose to contextualize PEC 55 exposing elements that identify it with the perverse face of the State. In this sense, we will present the setbacks in PEC 55 in order to underline the impacts of this Proposal for workers in Brazil.
KEYWORDS: PEC 55; State; Public fund; social politics;
1
Graduada em Serviço Social. Mestranda em Serviço Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF e-mail [email protected]
2
Graduada em Serviço Social. Mestranda em Serviço Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF e-mail [email protected]
3
Graduada em Serviço Social. Mestranda em Serviço Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF e-mail [email protected]
I- INTRODUÇÃO
Antes de iniciarmos nossas considerações a respeito da Proposta de Emenda Constitucional 55 é importante fazer uma contextualização histórica buscando demonstrar que esta Proposta não diz respeito a um fato isolado na sociedade brasileira, ao contrário, revela traços arraigados de nossa cultura política que se desenvolveram e complexificaram no desenrolar de nossa formação social.
Sendo assim, devemos relembrar que no Brasil, as transformações com vistas a modernização se deram pelo que Gramsci denominou de Revolução Passiva, como processo, segundo autor, que carrega forças antigas, tradicionais que imperavam no passado. Com isso, traz o novo fazendo com que o velho venha em seu bojo, através de um arranjo entre as classes dominantes que determinam o destino da sociedade, daí, a “revolução passiva”, por um acordo de cima para baixo, sem participação ativa e efetiva dos trabalhadores.
(...) ao invés de ser o resultado de movimentos populares, ou seja, de um processo dirigido por uma burguesia revolucionária que arrastasse consigo as massas camponesas e os trabalhadores urbanos, a transformação capitalista teve lugar graças ao acordo entre as frações das classes economicamente dominantes, com a exclusão das forças populares e a utilização permanente dos aparelhos repressivos e de intervenção econômica do Estado. (...). (COUTINHO, 2007, p. 196).
A partir disso, devemos destacar alguns elementos que serão necessários para compreender a conjuntura em que se forja a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 55, isso porque o processo de revolução passiva, que marca a formação social brasileira, será sempre uma resposta a um subversivismo esporádico, isto é, uma resposta de cima para baixo a alguma movimentação das camadas populares que esporadicamente questionam determinadas contradições do sistema. Para evitar que este subversismo esporádico se torne um movimento político coeso e unitário as camadas dominantes se articulam para apresentar propostas que contenham sempre um elemento de renovação, para acalmar as massas, mas sempre garantindo a restauração da ordem, com isso, tendem a fortalecer o Estado em detrimento da fragilidade da sociedade civil. (COUTINHO, 2007).
Além disso, outra característica importante para pensar a particularidade da sociedade brasileira, que tornou-se capitalista pela ausência de uma revolução burguesa clássica, é justamente o fundamento utilizado pelas classes dominantes que tende a tratar a sociedade civil como frágil, amorfa, justificando assim a atuação de um Estado autoritário e interventor. Contudo, Florestan (2005) nos alerta que este processo não clássico traz implicações para todas as classes brasileiras, demonstrando que trabalhadores e burgueses
têm dificuldade de trazer para o cenário da luta de classes um projeto de sociedade efetivo, sendo que estes últimos utilizam-se do aparato estatal para manter sua dominação.
(...) Ao contrário de outras burguesias, que forjaram instituições próprias de poder especificamente social e só usaram o Estado para arranjos mais complicados e específicos, a nossa burguesia converge para o Estado e faz sua unificação no plano político, antes de converter a dominação socioeconômica (...). (FERNANDES, 2005. p. 240).
A partir disso é possível afirmar que a sociedade brasileira não teve uma burguesia que fosse capaz de mobilizar amplos setores sociais para seu projeto “revolucionário”, ao contrário, tornou-se dominante sem ser dirigente utilizando-se da esfera estatal como mecanismo de dominação, e isso trará implicações concretas para a organização e luta das classes.
No mesmo sentido afirmamos que a PEC 55 é uma das expressões da face perversa do Estado brasileiro, pertinente com a cultura política hegemônica no país advinda dos processos recorrentes de revolução passiva.
Para elucidar melhor nossa afirmação, tomaremos como marco histórico o ano de 2013 que guarda na memória do povo brasileiro o momento em que a juventude, principalmente, toma as ruas das principais capitais do país denunciando a negligência do Estado com o transporte público, a educação, a saúde, trazendo à tona, ainda que sem unidade em torno de um projeto societário, pautas que, de um lado, expunham os impactos da crise capitalista que se desenrolava desde 2008, por outro lado, deixavam clara a falência do sistema político brasileiro.
A crise capitalista deflagrada em 2008, no berço do imperialismo, é uma crise econômica, política, social e de valores, e o que presenciamos desde então foi uma onda de retrocessos em todo o mundo como tentativa de saída da crise. Sendo assim, a burguesia brasileira alinhada aos interesses do capital internacional buscouimplementar na sociedade brasileira as medidas previstas no programa neoliberal do grande capital. Medidas estas que atingem diretamente a capacidade de mobilização popular e tem como ápice, em 2016, um arranjo entre os poderes executivo, legislativo e judiciário na consolidação de um golpe de Estado expresso no afastamento de uma presidenta democraticamente eleita.
Com o golpe de Estado, engendrado pela burguesia e a alta classe média brasileiras em acordo com interesses do capital internacional, o que se tem presenciado no país é uma onda avassaladora de retrocessos e conservadorismo, e uma das expressões deste processo que pretendemos desenvolver neste artigo é justamente a PEC 55 que tem sido anunciada como uma das saídas necessárias para crise econômica do país. Isso porque, supostamente, a PEC 55, ao limitar o investimento público por vinte anos, conseguiria estabilizar a dívida pública e acelerar o crescimento econômico.
II- A DISPUTA EM TORNO DO ORÇAMENTO DO ESTADO
Antes de investigar os efeitos nefastos da PEC 55 para o conjunto dos trabalhadores faz-se necessário relacionar esse debate com a configuração do orçamento público que é um campo de disputa da classe trabalhadora e dos detentores do capital, ao garantir a concretização das ações planejadas do Estado.
Ainda nesse sentido, o debate do Fundo Público também se mostra essencial, tendo em vista a indicação de Oliveira (1997) de que este componente é estrutural e insubstituível no processo de acumulação diante da incapacidade do contínuo processo de valorização do capital se dar de forma autônoma e ainda com o intuito de aceleração desse processo de valorização capitalista perante a insuficiência do lucro as novas possibilidades de progressos técnicas.
Ainda que o fundo público opere nessa lógica de ser o responsável por propiciar o atendimento das “diversas necessidades da reprodução social” (Oliveira, 1997a, p. 40), fazendo com que a classe capitalista reconheça a necessidade de redirecionar parte do fundo público para o processo de reprodução da força de trabalho, ainda se prevalece à disputa por recursos. Nesse sentido, a luta de classes além de acontecer na esfera da produção também passa a existir em torno do orçamento do Estado.
Vale expor que o investimento indireto do fundo público na reprodução da força de trabalho é duplamente vantajoso para o capital, uma vez que se retiram os custos da reprodução da força de trabalho do capital e ainda se libera parte do salário indireto com a perspectiva de aumentar o consumo, tornando assim a participação do fundo público na força de trabalho um elemento também essencial:
A presença dos fundos públicos, pelo lado, desta vez, da reprodução da força de trabalho e dos gastos sociais públicos gerais, é estrutural ao capitalismo contemporâneo, e, até prova em contrário, insubstituível. (OLIVEIRA, 1997, p. 23)
No que tange a essa participação, pode-se colocar que ela acontece por meio das políticas públicas, ou seja, através do investimento em políticas de saúde, educação, habitação, previdência social e outras que, no entanto sofrem interferências de acordo com a correlação de forças sociais hegemônicas que podem indicar maior ou menor grau de destinação dos gastos públicos redirecionados para esse investimento.
Ao discutir o papel da participação do fundo público na perspectiva de contribuir para a reprodução capitalista, cabe colocar que essa intervenção se da de forma direta, através da produção de valor que acontece por meio das empresas estatais, ou de forma indireta via isenção de impostos, subsídios, investimento em infraestrutura, financiamento de
pesquisas, entre outros. Tal forma de financiamento é demonstrada claramente por Oliveira (1997, p. 20):
A descrição das diversas formas de financiamento para a acumulação de capital seria muito mais longa: inclui desde os recursos para ciência e tecnologia, passa pelos diversos subsídios para a produção, sustentando a competitividade de exportações, vai através dos juros subsidiados através dos setores de ponta, toma em muitos países a forma de vastos e poderosos setores estatais produtivos, cristaliza-se numa ampla militarização (as indústrias e os gastos em armamento), sustenta a agricultura (o financiamento dos excedentes agrícolas dos Estados Unidos e a chamada “Europa Verde” da CEE), e o mercado financeiro e de capitais através de bancos e/ou fundos estatais como blue chips, intervém na circulação monetária de excedentes pelo open market, mantem a valorização dos capitais pela via da dívida pública etc.
Todas essas funções desempenhadas pelo fundo público comprovam seu papel estrutural e insubstituível no processo de reprodução capitalista tanto no que se refere a seu investimento na reprodução do capital, quanto nas políticas oferecidas que permitem a reprodução e a melhor qualidade de vida da força de trabalho. Essa condição, de ser um ente essencial na reprodução de dois sujeitos antagônicos – capital e trabalho, faz com que o Estado sempre busque a redução dos recursos destinados a classe trabalhadora.
Pode-se afirmar dessa forma que foi pautando o desvio de maior parte dos recursos do fundo público para o financiamento direto do capital que se criou o falacioso discurso de que os investimentos na área social são os responsáveis pela crescente dívida pública do Estado.
Conforme os estudos de Behring (2009, p. 46), a tendência contemporânea de alocação dos recursos do Fundo Público se refere ao redirecionamento - e não a diminuição do fundo público na perspectiva de propiciar as condições de produção e reprodução do capital em detrimento da alocação de recursos junto a demandas dos trabalhadores que ainda carrega consigo a perversa combinação de perda de direitos e criminalização da pobreza.
Na perspectiva de comprovar essa tendência, Behring (2009, p. 49) explicita que no Brasil, apesar da evolução crescente do orçamento na seguridade social, quando são deflacionados esses recursos se verifica que eles não acompanham o crescimento da carga tributária e a demanda da população que ainda sofre com os desvios dos recursos, tendo em vista que:
Um dos grandes vilões do Orçamento da Seguridade e das contas públicas em geral, no contexto do duro ajuste fiscal brasileiro, é o mecanismo de superávit primário – e não o gasto previdenciário, tão desqualificado na mídia falada e escrita –, instituindo após o acordo com o FMI, em 1999. O volume de recursos retidos para a formação do superávit primário tem sido muito maior que os gastos nas políticas de seguridade social, exceto a previdência social. (BEHRING, 2009, p. 50)
Ainda conforme indicações da autora (BEHRING, 2009, p. 51) o superávit primário, alimentado pela Desvinculação das Receitas da União – DRU é responsável por
desvincular 20% das receitas de impostos e contribuições sociais, gerando um efeito nefasto nos recursos da seguridade social que são transferidos para o mercado financeiro, formam o superávit primário e ainda realiza o pagamento da dívida pública.
Perante tal configuração do orçamento, o presente estudo corrobora com a afirmação de que a configuração do fundo público no Brasil é um instrumento que age de forma a propiciar o desenvolvimento e a valorização do capital, de forma que o atendimento dos interesses da classe trabalhadora é exponencialmente negligenciado tendo em vista que:
A não institucionalização da seguridade social e de seu orçamento, conforme previsto na Constituição de 1988, o financiamento regressivo do fundo público e adoção de politicas econômicas, particularmente as políticas monetária e fiscal que beneficiam o capital portador de juros e impõem restrições para universalização e expansão das políticas sociais, são determinantes na configuração do atual Estado Social no Brasil. Um Estado Social que não reduz a desigualdade social, pois é sustentado pelos trabalhadores e pelos mais pobres, que não faz redistribuição de renda e com políticas sociais de padrão restritivo e básico, não universalizando direitos. (SALVADOR, 2010, p. 394)
Nesse sentido, considera-se que a PEC 55, expressão de um novo regime fiscal, é mais uma forma do Estado manifestar seu compromisso em garantir e propiciar o processo de acumulação do capital ao redirecionar parte do Fundo Público para a valorização do capital, perante o mecanismo do superávit primário, ao mesmo tempo em que contribui para as péssimas condições de vida da classe trabalhadora ao congelar os gastos sociais por vinte anos.
III- ALGUNS APONTAMENTOS SOBRE A PEC 55
Passemos agora a considerar os elementos mais diretamente ligados à PEC55. Os articuladores da PEC 55 objetivaram instituir um novo regime fiscal, através da limitação por vinte exercícios fiscais dos gastos do poder executivo, supremo tribunal federal, senado federal, ministério público e defensoria pública da união a fim de conter o rombo nas contas públicas e superar a crise econômica. A aprovação da PEC 55 prevê que a despesa deste ano deverá considerar a taxa de inflação prevista em 7,2% e a partir de 2018 seguirá a variação da inflação acumulada conforme o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
Na prática isto significa um congelamento dos gastos públicos, especialmente saúde e educação, por vinte anos. O objetivo de tamanha restrição se justificou na busca pela maior eficiência na gestão do dinheiro público. Contudo, podemos considerar inicialmente que eficiência de gestão pública não se garante por força de lei, mas por capacidade de administrar. A retrospectiva apresentada no inicio desta reflexão sobre o
processo de formação social brasileiro nos permite afirmar que o espaço público brasileiro é tradicionalmente ocupado por políticos que representam os interesses da elite e não do conjunto da população. Isto resulta na perpetuação de medidas que sufocam os trabalhadores e favorecem o setor privado. A PEC 55 é mais uma medida que segue nesta direção, ela intensifica a disputa por recursos nos setores que contam com um orçamento já bastante reduzido se compararmos com o montante destinado, por exemplo, ao pagamento da dívida pública.
A PEC 55 não permite que o governo gaste nada além do mínimo previsto com saúde e educação. Isso significa uma queda nas despesas em duas políticas fundamentais para o bem estar do conjunto dos trabalhadores, que não pode pagar pela formação de seus filhos ou com planos de saúde. Tudo isto em um país que apesar da decrescente taxa de natalidade tem uma tendência de aumento prevista pela ONU de 20,8 milhões de pessoas até 2030 (ONU, 2015). Importante destacar também que áreas como cultura, ciência e tecnologia e assistência social não tem mínimo previsto para despesas no cenário de restrição colocado pela PEC corremos o risco de que essas áreas sofram com recursos escassos restringindo ainda mais suas ações a programas de pouco impacto.
Outro ponto que vale ser destacado é que nenhum outro país jamais aplicou uma regra tão longa. A Holanda que foi utilizada como exemplo pelo relator da PEC 55, Darcísio Perondi (PMDB-RS), adotou um modelo de restrição dos gastos públicos revisto a cada quatro anos que previu também um limite ao pagamento da dívida pública. Vale ressaltar que desde 2008 o plano foi largamente alterado para que a economia holandesa fosse capaz de reagir aos impactos da crise recessiva. O mesmo ocorreu com o Japão que previu uma limitação dos gastos por cinco anos, mas teve que abandonar a proposta também devido à crise mundial.
O texto da PEC 55 impede que sejam realizadas alterações no orçamento mesmo em conjunturas adversas. Outros países que também adotaram planos de restrição de gastos seguiram a tendência observada na Holanda, na Suécia a redução foi adotada por três anos, Dinamarca e Finlândia optaram por planos de quatro anos. Além disso, é importante destacar que nenhum destes países alterou sua Constituição para estabelecer as regras sobre os gastos, ou seja, um maior agravante no caso brasileiro é quese altera o texto constitucional sem a convocação de uma assembleia constituinte, órgão colegiado com poder de redigir ou modificar a Constituição. Normalmente as propostas de redução de gastos ocorrem através de planos, que podem ser revistos e modificados com mais facilidade, no entanto, o que se vê no Brasil com a PEC 55 é o completo engessamento dos investimentos em áreas fundamentais ao desenvolvimento do país.
A PEC 55 não era a única alternativa para a crise econômica brasileira. Propostas como a implementação do imposto progressivo sobre as grandes fortunas, aumentar as taxas do imposto de rendaou o fim de isenções fiscais ao grande capital são mais eficientes para a arrecadação de recursos e aplicadas em diversos países como é o caso dos Estados Unidos. A PEC 55 além de reduzir despesas essenciais diminui significativamente a prestação de serviços públicos penalizando fortemente os trabalhadores. Além disso, o texto prevê punições em caso de descumprimento.
Caso o governo gaste mais do que o limite previsto para o ano fica impedido de aumentar suas despesas obrigatórias (pagamento de aposentadorias, pensões, salários de servidores e benefícios assistenciais) impactando diretamente sobre o conjunto da classe trabalhadora do país.
Vale lembrar que a Constituição determina que sejam destinados da arrecadação com impostos 18% para educação e 13,2% para a saúde. Mesmo que o governo tenha estipulado reajustes pelo IPCA de gastos efetivamente ocorre a redução do montante de recursos para aplicação naquelas áreas, pois o índice da inflação tem sido mais baixo que o percentual oficialmente definido.
A redução das despesas obrigatórias carrega ainda um impacto sobre o salário mínimo ao qual está vinculado. O texto da emenda não trata explicitamente do salário, contudo se o governo for obrigado a reduzir os gastos com as despesas obrigatórias, por descumprimento do teto o aumento fica proibido atingindo diretamente o poder de compra da população, que se reduz drasticamente.
A Auditoria Cidadã da Dívida4 demonstra que no Brasil são gastos apenas 4% em saúde, pouco mais de 4% em educação e pouco mais de 3% assistência social. Por outro lado 45% dos recursos são destinados ao pagamento de juros e amortizações da dívida pública. Fica claro que o governo preferiu penalizar as áreas que tradicionalmente recebem a menor quantidade de recursos preservando os interesses dos grandes grupos financeiros. Afinal o limite de gastos previsto pela PEC 55 não inclui a diminuição do montante destinado ao pagamento dos juros da dívida.
Sendo assim, reafirma-se a hipótese de que o sistema político brasileiro segue, desde sua origem, privilegiando os grupos sociais de maior poder econômico. Ora, se com o orçamento atual os serviços públicos são insuficientes para o atendimento da população após vinte anos sem investimentos a situação de vida da população trabalhadora chegará a níveis de verdadeira tragédia afinal a necessidade de serviços públicos não para de aumentar.
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Procuramos demonstrar, com os argumentos expostos, que a Proposta de Emenda Constitucional 55 – proposta e aprovada pelo governo Temer (PMDB)– penaliza todo o conjunto da classe trabalhadora brasileira, pois pressiona os salários para baixo e precariza os serviços públicos. Desta forma, portanto, a PEC 55, um dos elementos centrais do pacote de políticas neoliberais, foi um instrumento para favorecer o grande capital, afinal o setor financeiro continuará recebendo os recursos oriundos dos impostos pagos pelo conjunto da população, especialmente através do pagamento da dívida que segue sem alterações.
IV- CONSIDERAÇÕES FINAIS
Buscamos demonstrar que a formação social brasileira tem particularidades que vão desenhar de forma específica as relações sociais no país, a constituição das classes e a relação destas com o Estado. Nesse sentido, ressaltamos que o processo que culminou na aprovação da PEC 55 não se tratou de um episódio extraordinário na sociedade brasileira, ao contrário, foi expressão da face perversa do Estado, de uma cultura política marcada por traços conservadores, em que os sujeitos que historicamente têm se mantido no poder não demonstram preocupação em garantir a soberania nacional e melhoria das condições de vida dos trabalhadores.
No entanto, é importante frisar que a PEC 55 instaura uma conjuntura sem precedentes na realidade brasileira, representa um dos maiores ataques aos direitos da classe trabalhadora ao congelar, por vinte anos, os investimentos públicos, principalmente, nas áreas sociais. Com isso, institui-se uma atmosfera de instabilidade e retrocesso social, com novas e complexas expressões da questão social, além de acirrar as contradições do sistema político brasileiro explicitamente falido.
Nesse sentido, acreditamos que a saída para a crise social anunciada e aprofundada pelas políticas neoliberais que vem sendo adotadas pelo governo Temer, por se tratar de questões estruturais, exigirá do conjunto dos trabalhadores ações mais complexas, que sejam capazes de articular políticas que atendam às necessidades emergenciais da classe trabalhadora, mas que estejam vinculadas a um projeto societário que seja capaz de construir reformas estruturais, que garantam a soberania do povo brasileiro.
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