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Selves Itinerantes: a construção da confiança na temporalidade do circo

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Academic year: 2021

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(1)  .  . UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO INSTITUTO DE PSICOLOGIA      . SUARA BASTOS               Selves  Itinerantes:     a  construção  da  confiança  na  temporalidade  do  circo.                          . São Paulo 2017.

(2)  .  . SUARA BASTOS. Selves   Itinerantes:   a   construção   da   confiança   na   temporalidade   do  circo.. Tese apresentada ao Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, como parte dos requisitos para obtenção do grau de Doutora em Psicologia. Área de Concentração: Psicologia Experimental Orientador: Prof. Dr. Danilo Silva Guimarães. São Paulo 2017.

(3)  .  . AUTORIZO A REPRODUÇÃO E DIVULGAÇÃO TOTAL OU PARCIAL DESTE TRABALHO, POR QUALQUER MEIO CONVENCIONAL OU ELETRÔNICO, PARA FINS DE ESTUDO E PESQUISA, DESDE QUE CITADA A FONTE.. Catalogação na publicação Biblioteca Dante Moreira Leite Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo Dados fornecidos pelo (a) autor (a). Bastos, Suara. Selves Itinerantes: a construção da confiança na temporalidade do circo. / Suara Bastos; orientador Danilo Silva Guimarães. -- São Paulo, 2017. 414 f. Tese (Doutorado - Programa de Pós-Graduação em Psicologia Experimental) -- Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, 2017. 1. Circo . 2. Confiança . 3. Noção de Tempo. 4. Psicologia Cultural. 5. Atendimento Psicológico. I. Guimarães, Danilo Silva, orient. II. Título..  .

(4)  .   Nome: BASTOS, Suara. Título: Selves Itinerantes: a construção da confiança na temporalidade do circo.. Tese apresentada ao Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, como parte dos requisitos para obtenção do grau de Doutora em Psicologia. Área de Concentração: Departamento de Psicologia Experimental.. Aprovado em: Banca Examinadora Prof. Dr. ______________________________________________________ Instituição: ______________________________Assinatura: _____________ Prof. Dr. ______________________________________________________ Instituição: ______________________________Assinatura: _____________ Prof. Dr. ______________________________________________________ Instituição: ______________________________ Assinatura: _____________ Prof. Dr. ______________________________________________________ Instituição: _______________________________ Assinatura: ____________ Prof. Dr. ______________________________________________________ Instituição: ________________________________Assinatura: ___________.

(5)  .  . Ao Tempo. Que por vezes é inimigo, mal compreendido e impiedoso, mas também tão suave, gentil e generoso. Remédio e veneno. Tênue. Efêmero..

(6)  .   AGRADECIMENTOS. Ao meu orientador, Prof. Dr. Danilo Silva Guimarães, por me guiar ao longo desta intensa jornada de desenvolvimento intelectual e por me permitir revisitar de modo tão construtivo o universo do circo. À Profª. Associada Drª. Lívia Mathias Simão por todas as inestimáveis contribuições. Ao Prof. Dr. Mário Fernando Bolognesi pela amizade e disponibilidade de sempre. Ao Prof. Dr. Daniel Marques da Silva (Universidade Federal da Bahia) e às professoras doutoras Maria Luisa Sandoval Schmidt (Universidade de São Paulo) e Pina Marsico (Aalborg University) pelo pronto aceite em participar da banca de defesa dessa tese. Aos colegas do Grupo de Pesquisas em Psicologia Cultural e do Laboratório de Interação Verbal e Construção do Conhecimento pelos encontros, desencontros e reencontros. Agradeço especialmente ao Ramiro German Gonzalez Rial (Universidad San Sebástian-Chile) por se dispor tão generosamente a contribuir com este trabalho e aos queridos Juliano Casimiro de Camargo Sampaio e Larissa Laskovski, pelas boas risadas e pelo sempre afetuoso acolhimento. À minha filha Sinara Hope, por ser a razão de tudo. Ao meu marido José Carlos Maruoka por todo carinho, compreensão, paciência e apoio incondicionais. A minha mãe Mercedes pelo muito que, juntas, aprendemos a cada dia. Ao Billy por me fazer amar ainda mais a todos os animais. À Del por cuidar de mim e da minha família com tanto carinho. À Marlene Olímpia Querubin por todo o suporte na obtenção dos dados de pesquisa, por tudo o que ela representa para o circo, pelo bom humor e pela amizade que construímos. Ao Zeca e a todos do Circo de Teatro Tubinho pelo modo atencioso com que sempre me receberam. Aos participantes Valdete, Pingolé, Pepé (Circo Spacial), Angelita, Léo, Dionisio, Dona Cidinha, Ceceu e Riccielly (Circo de Teatro Tubinho) pela receptividade e preciosas contribuições..

(7)  .  . Ao José Wilson e à Alessandra (Circo Spadoni) por haverem me recebido de modo tão gentil. À Sônia Maria Caetano por todo o auxílio em relação às questões acadêmicas. À Maria Marta do Nascimento por toda atenção e auxílio. Ao Wagner Spolaor pela cautelosa revisão ortográfica. À Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) pela concessão da bolsa de doutorado.. E ao Circo por continuamente me seduzir...  .  .

(8)  .  . Suara Bastos (Acervo Particular) Circo Francisco Atayde – México..

(9)  .   RESUMO. Bastos, S. (2017). Selves itinerantes: a construção da confiança na temporalidade do circo. Tese de Doutorado, Instituto de Psicologia, Departamento de Psicologia Experimental. Universidade de São Paulo, São Paulo. A partir de minha experiência pregressa como artista circense, de desdobramentos do meu estudo preliminar (Bastos, 2013), das conversas informais e das entrevistas realizadas para este percurso de investigação, pude me certificar de que o sofrimento humano está presente também no universo do circo e que há uma demanda e um desejo por parte desta população por algum tipo de atenção psicológica que leve em conta as particularidades do modo de vida itinerante. Esta tese propõe que as especificidades nos modos de constituição do self da pessoa circense dizem respeito, em grande medida, à itinerância, a qual deve ser levada em conta pelo profissional que for atuar neste contexto cultural. Considerando que o modo de vida impacta em como se dá a construção das relações de confiança e na vivência da temporalidade, há necessidade de que profissionais da área se atentem para tais dimensões culturais constitutivas do self para que possa haver uma atenção psicológica adequada aos circenses. Esta é uma pesquisa qualitativa que envolveu a convivência com pessoas de dois circos itinerantes (Circo Spacial e Circo de Teatro Tubinho) e a realização de onze entrevistas que visaram elucidar as temáticas da confiança e temporalidade por serem centrais para o possível desenvolvimento de estratégias de intervenção psicológica nesse contexto cultural específico. A especificidade do modo de vida do circense aponta para possibilidades de um convívio, marcadamente itinerante, qualitativamente rico do ponto de vista do desenvolvimento humano, uma vez que é notável o estabelecimento de fortes laços comunitários capazes de superar dificuldades cotidianas, de se relacionar com a diferença e realizar projetos complexos, dinâmicos e altamente desafiadores. O estudo das temáticas da confiança e da temporalidade permitiu sofisticar a compreensão que se tem desses processos na psicologia cultural dialógica, na medida em que a itinerância e o sentido de realização do espetáculo são balizas extremamente salientes que guiam toda a vida do integrante do circo, a ponto das pessoas colocarem cotidianamente suas vidas em situação de risco na relação com os outros. Discuti a temática da confiança, que perpassa a noção de temporalidade a partir do referencial teórico da Psicologia Cultural em sua vertente semiótico-construtivista, área de estudos que aponta para a centralidade da cultura na compreensão dos processos afetivo-cognitivos do desenvolvimento humano (Simão, 2010, Valsiner, 2012). A discussão dos resultados que se deu por meio da noção de Multiplicação Dialógica (Guimarães, 2010, 2013) procurou: a) destacar as especificidades no contexto do circo itinerante que trazem implicações para a construção do self e b) investigar os processos psicológicos envolvidos na construção das relações de confiança frente à vivência da temporalidade. Para a análise dialógica dos dados, utilizei as noções de trajetórias descendentes e ascendentes (Guimarães, 2016b), que possibilitaram uma articulação entre os movimentos analítico e interpretativo e o mapeamento das antinomias.

(10)  .  . relacionadas ao campo-tema (Spink, 2003) do circo. Esse estudo torna-se relevante por apontar que a vivência da itinerância traz implicações para a constituição do self e que o conhecimento de tais implicações e das especificidades deste modo de vida são fundamentais para a compreensão das vulnerabilidades psicossociais apontadas pelos circenses ao longo da pesquisa. Adicionalmente, a pesquisa pôde propiciar reflexões sobre a possibilidade de inserção de psicólogos no universo do circo itinerante. Observo que tanto a Psicologia quanto a Psicologia Cultural, enquanto campo de reflexões e pesquisa, ainda não dispõem de conhecimentos suficientes sobre o modo de vida do circo e, por essa razão, não têm desenvolvido estratégias nem instrumentos para o trabalho psicológico nesse contexto. Ao lidar com a questão da singularidade da compreensão psicológica do universo cultural do circo, esta pesquisa me permitiu chegar à noção de self itinerante, o que pode auxiliar num maior entendimento sobre o contexto apresentado.. Palavras-chave: Circo, Confiança, Noção de Tempo, Psicologia Cultural, Atendimento Psicológico..

(11)  .   ABSTRACT. Bastos, S. (2017). Itinerant selves: the construction of confidence in the temporality of the circus. PhD Thesis, Institute of Psychology, Department of Experimental Psychology. University of São Paulo, São Paulo.. From my previous experience as a circus artist, as well as from the development of my preliminary study (Bastos, 2013), from the informal conversations and the interviews conducted for this research, I was able to certify myself that human suffering is also present in the universe of the circus. There is also a demand and a desire from the circus members for some kind of psychological attention that may take into account the particularities of the itinerant way of life. This thesis proposes that the specificities in the ways of constitution of the self of the circus person concerns, to a large extent, the itinerancy, that must be taken into account by the professional who will work in this cultural context. Taking into account that the way of life has an impact on the construction of relation of trust and the experience of temporality, there is a need for professionals in the area to attend to such constitutive cultural dimensions of the self so that there can be adequate psychological attention for circus members. This is a qualitative research that involved the conviviality with people from two traveling circuses (Circus Spacial and Circo de Teatro Tubinho). Eleven interviews were conducted in order to elucidate the themes of trust and temporality, both of central importance for the possible development of psychological intervention strategies in this specific cultural context. The specificity of the circus way of life points to the possibility of a markedly itinerant co-existence with others, qualitatively rich from the point of view of human development; it is worth mentioning that they form strong community bonds, capable of overcoming daily difficulties, relating to difference, and performing complex, dynamic, and highly challenging projects. The study of the themes of trust and temporality allowed to refine the understanding of these processes in cultural dialogical psychology. This because itinerancy and the sense of accomplishment resulting from performing the spectacle are extremely significant constrains that guide the whole life of the circus artist, to the point that people put their lives at risk in their relationship with others on a daily basis. I discussed the theme of trust that permeates the notion of temporality from the theoretical framework of Cultural Psychology in its semiotic-constructivist dimension, an area of study that points to the centrality of culture for the understanding of the affective-cognitive processes of human development (Simão, 2010, Valsiner, 2012). The discussion of the results was based on the notion of Dialogical Multiplication (Guimarães, 2010, 2013) and sought to a) highlight the specificities of the itinerant circus, which have implications on the construction of the self and b) investigate the psychological processes involved in the construction of relations of trust in experiencing temporality. For the dialogical analysis of the data, I used the notions of descending and ascending trajectories (Guimarães, 2016b), which allowed an articulation between the analytical and interpretative movements and the mapping of the.

(12)  .  . antinomies related to the theme-field (Spink, 2003). This study becomes relevant for pointing out that the experience of itinerancy has implications for the constitution of the self and that knowledge of such implications and the specificities of this way of life are fundamental for understanding the psychosocial vulnerabilities pointed out by circus members throughout the research. Additionally, the research was able to provide considerations on the possibility of insertion of psychologists in the itinerant circus universe. I observed that both Psychology and Cultural Psychology, as fields of research and study, still do not have enough knowledge about the way of life of the circus and for this reason have not been developing strategies or instruments for psychological practice in this context. In dealing with the issue of the uniqueness of the psychological understanding of the cultural universe of the circus, this research allowed me to arrive at the notion of the itinerant self that can help in better understanding the presented context.. Key words - Circus, Trust, Notion of Time, Cultural Psychology, Psychological Support..

(13)  .   LISTA DE QUADROS. Quadro 1: Diagrama da Multiplicação Dialógica .......................................... 25 Quadro 2: Diagrama de Processos de Harmonização Rítmica ................... 35 Quadro 3: Diagrama do Ritmo das Interações no Fluxo da Temporalidade..37 Quadro 4: Diagrama das Trajetórias Descedentes e Ascedentes ............... 46 Quadro 5: Demonstrativo dos Entrevistados ............................................... 56 Quadro 6: Diagrama dos Processos de Estabilidade, Dissipação e Emergência ................................................................................................... 78 Quadro 7: Zonas de Organização ou Coesão Social................................. 201 Quadro 8: Questões Psicológicas no curso da vida do Self Itinerante ...... 212 Quadro 9: Principais Antinomias Mapeadas............................................... 215 Quadro 10: Relação entre o Self Itinerante e outros selves....................... 216 Quadro 11: Ritmo das Interações no fluxo da temporalidade no contexto da relação entre o psicólogo que vai ao circo e o circense ............................. 217.

(14)  .   LISTA DE FIGURAS. Figura 1: Artistas do Circo de Soleil em apresentação de Duo de Faixas ... 20 Figura 2: Artistas do Circo de Soleil em apresentação de número de Lira .. 22 Figura 3: O Circo Spacial às margens da represa de Guarapiranga ........... 53 Figura 4: Palhaços do Circo Spacial ............................................................ 62 Figura 5: Marlene Querubin ......................................................................... 64 Figura 6: Capa da Revista de Atividades da Família Spacial ...................... 65 Figura 7: Família Spacial em cena .............................................................. 65 Figura 8: Zeca / Tubinho ............................................................................. 68 Figura 9: Tubinho em “O Rei do Gatilho”..................................................... 74 Figura 10: Zeca em cena na peça “Senta que o Tubinho vai entrar”........... 75 Figura 11: Capa da Revista Carta Capital ................................................. 116 Figura 12: Crianças do Circo de Teatro Tubinho ....................................... 133 Figura 13: Imagem de Doble Trapézio ...................................................... 141 Figura 14: Área externa do trailer de Marlene ........................................... 147 Figura 15: Tipo de amarração para Força Capilar ..................................... 162 Figura 16: Guincho utilizado no Circo Spacial ........................................... 163 Figura 17: Fotografia tirada por Riccielly (Araras, Maio/2015) .................. 191 Figura 18: Riccielly em cena com Tubinho ................................................ 195.

(15)  .   SUMÁRIO. 1. INTRODUÇÃO .............................................…………………...……......... 14 1.1. AS RELAÇÕES EU-OUTRO E A NOÇÃO DE MULTIPLICAÇÃO DIALÓGICA .................................................................................................. 24 1.2. A TEMPORALIDADE NA MULTIPLICAÇÃO DIALÓGICA ............... 31 1.3. A NOÇÃO DE CONFIANÇA E A MULTIPLICAÇÃO DIALÓGICA ... 36 2. METODOLOGIA ....................................................................................... 45 2.1. SOBRE A FORMA DE ANÁLISE DOS RESULTADOS ................... 48 2.2. PROCEDIMENTOS ........................................................................... 49 2.2.1. Companheiros de Viagem ………………………………............ 56 2.3. PÉ NA ESTRADA - Descrição dos Circos Participantes .................. 56 2.3.1. Marlene Querubin o Circo Spacial ........................................... 57 2.3.2. O Circo de Teatro Tubinho ...................................................... 66 3. RESULTADOS E DISCUSSÃO ............................................................... 76 3.1. OS TEMPOS NO CIRCO .................................................................. 76 3.1.1. A Temporalidade na Relação com a Sociedade Envolvente ...76 3.1.1.1. Processo de Emergência: o urgimento de uma nova praça . 79 3.1.1.2. Temporalidade marcada pela Dinâmica Interna do Circo ..... 85 3.1.1.3. A Mudança do circo como processo de Dissipação e Emergência ........................................................................................ 92 3.1.1.3.1. O Preconceito na Relação Eu-Outro .................. 107 3.1.1.4. O Processo de Envelhecimento no Circo Itinerante ......... 119 3.2. A CONVIVÊNCIA INTERPESSOAL NO INTERIOR DA LONA . 127 3.3. A CONFIANÇA NO CIRCO ………………………………............. 159 4. SELVES ITINERANTES: um desafio para a Psicologia ..................... 172 4.1. A HISTÓRIA DE RICCIELLY ...................................................... 177 4.2. A HISTÓRIA DE PINGOLÉ ......................................................... 195 4.3. ENCONTROS COM P.S, H.I. E OUTROS DIÁLOGOS ...............202 4.3.1. O Sr. P.S. ................................................................................202 4.3.2. A Sra. H.I. e outros diálogos ...................................................204 4.4. O SELF ITINERANTE NA CONSTRUÇÃO DO VÍNCULO PARA ESCUTA E TRABALHO PSICOLÓGICO ...................................................211 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS PARA ESTA PRAÇA .................................219.

(16)  .  . REFERÊNCIAS …………………………………………………………………227 APÊNDICE A – Entrevista Palhaço Pingolé (Gilmar Pedro Querubin) ......234 APÊNDICE B – Entrevista Marlene Querubin ............................................246 APÊNDICE C – Entrevista Palhaço Pepé (Peterson Luiz Jardim) .............300 APÊNDICE D – Entrevista Valdete Angelina Vargas ..................................309 APÊNDICE E – Entrevistas Circo de Teatro Tubinho – Zeca .....................327 APÊNDICE F – Entrevista Dona Cidinha ...................................................343 APÊNDICE G – Entrevista Dionísio Martins ...............................................354 APÊNDICE H – Entrevista Angelita Vaz .....................................................363 APÊNDICE I - Entrevistas Léo e Ceceu ...................................................375 APÊNDICE J - Entrevista Riccielly Lunardi ...............................................391 APÊNDICE K – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido ..................409 ANEXO A - Parecer de aprovação do Comitê de Ética e Pesquisa ...........413 ANEXO B - Reportagem Correio Popular ...................................................414.

(17)   14  .   1. INTRODUÇÃO. Em uma linda tarde de verão sigo direto do aeroporto para o circo. E ali, com uma pequena mala e uma bolsa de mão, me vejo pela primeira vez diante da imponente lona colorida. E desde então tudo foi intenso... Magia e encantamento.. E aqui me vejo novamente com meus pertences pessoais na entrada do circo. Desta vez, no lugar de minha pequena bagagem e do olhar pueril repleto de sonhos e fantasias, trago comigo um bloco de notas, muitas expectativas e uma enorme disposição para dar conta dessa desatinada aventura que é escrever uma tese de doutorado, além de, é claro, um coração que sempre se alegra ao revisitar o universo circense. O presente estudo emerge primeiramente a partir do encontro de dois interesses pessoais que insistem em dialogar: o Circo e a Psicologia e, também, de reflexões incitadas durante a consecução do meu mestrado, quando investiguei o cotidiano de um circo a partir da perspectiva do próprio circense (Bastos, 2013). O meu encantamento pelo universo do circo teve início em 1985 quando fui para o México trabalhar como artista circense. Por quatro anos, pude vivenciar o cotidiano de três diferentes circos, dois dos quais eram mexicanos.. Naquele. período,. tive. o. prazer. de. conhecer. pessoas. incrivelmente interessantes, muitas das quais ainda mantenho contato graças aos avanços tecnológicos das últimas décadas. Sinto-me grata pela oportunidade de vivenciar a cultura circense durante o referido período, pois conviver diariamente com o modo de vida do circo me propiciou a apreensão de aspectos íntimos e particulares de um cotidiano que, possivelmente, passariam despercebidos aos olhos de alguém que tivesse apenas uma estadia passageira. “Aprender uma cultura estrangeira é um longo processo” (Boesch, 1991, p. 8) e estar ali, presencialmente, por toda aquela temporada, foi muito significativo para meu desenvolvimento pessoal. Certamente, a experiência de participar ativamente do dia a dia do circo marcou definitivamente o meu jeito de ser por me fazer refletir sobre.

(18)   15  .  . questões culturais, a existência de diferentes modos de vida e a forma como as pessoas agem em contextos sociais diversos, despertando, assim, o meu interesse pelos estudos da Psicologia. A partir de minha experiência pregressa como artista circense, de desdobramentos do meu estudo preliminar (Bastos, 2013), das conversas informais e das entrevistas realizadas durante este percurso de investigação, pude constatar que o sofrimento humano está presente também no universo do circo e que há uma demanda, e também um desejo por parte desta população, por algum tipo de atenção psicológica que leve em conta as particularidades de seu modo de vida. Contudo, essa atenção, para que se efetive com a qualidade merecida, precisaria ser feita segundo parâmetros ainda pouco delineados pela Psicologia, uma vez que, até o presente momento, ela não dispõe de conhecimentos suficientes sobre as especificidades do modo de vida do circo itinerante. A partir das conversas que estabeleci com os circenses, desde os meus contatos iniciais com os circos que visitei para a realização desta pesquisa, um significativo número de pessoas me contou fatos íntimos sobre suas vidas e demonstrou o desejo de receber orientações para situações específicas como, por exemplo, o alcoolismo, depressão, baixa autoestima, orientação a pais quanto à educação e criação das crianças, dificuldades para lidar com os problemas de saúde relacionados ao envelhecimento, entre outros. Casos como esses foram apresentados a mim ao longo de todo o período de coleta de informações, bem como o desejo apontado pelas pessoas com as quais entrei em contato de que pudessem receber algum tipo de suporte psicológico que levasse em conta as especificidades do circo itinerante. Estou ciente de que alguns dos temas dos meus diálogos neste período. de. realização. da. pesquisa. não. emergiram. por. acaso,. espontaneamente, muitos foram suscitados devido ao fato desta investigação ser conduzida por uma psicóloga. Na medida em que as pessoas com as quais tive contato estavam cientes disso, a possibilidade para a explicitação de demandas psicológicas foi favorecida já que, inevitavelmente, as questões.

(19)   16  .  . psicológicas acabavam sendo privilegiadas em minhas intervenções como pesquisadora. No entanto, é possível supor que as demandas por atendimento psicológico, como as apontadas acima, tenham emergido também porque os circenses usualmente não se submetem a nenhum tipo de assistência psicológica devido aos constantes deslocamentos do circo. Assim, viam no contato comigo uma oportunidade para expor suas dificuldades pessoais. Partindo da compreensão de que existe uma demanda para o trabalho do psicólogo no contexto do circo desenvolvi esta pesquisa que defende a tese de que há especificidades neste contexto cultural que necessitam ser conhecidas pelos profissionais da Psicologia dado que refletem nos modos de constituição do self do circense o qual, por sua vez, é fortemente marcado pela itinerância. Argumento que a itinerância tem impacto na construção das relações de confiança e de como o integrante do circo vive a temporalidade. Portanto, para que se desenvolva uma atenção psicológica adequada a essas pessoas defendo que há necessidade de que a Psicologia e os psicólogos se atentem para tais especificidades. Como forma de dar mais consistência às minhas reflexões sobre o tema em pauta, realizei uma pesquisa qualitativa que envolveu a convivência com pessoas de dois circos itinerantes e a realização de entrevistas com algumas delas, que pudessem elucidar a temática da confiança e da temporalidade. Tais temas foram focalizados, pois são centrais para o possível desenvolvimento de estratégias de intervenção psicológica nesse contexto cultural específico. Enfatizo ainda que a especificidade do modo de vida do circense aponta para possibilidades de um convívio itinerante, qualitativamente rico do ponto de vista do desenvolvimento humano, uma vez que é notável o estabelecimento. de. fortes. laços. comunitários. capazes. de. superar. dificuldades cotidianas, de se relacionar com a diferença e realizar projetos complexos, dinâmicos e altamente desafiadores. Ao lidar com a questão da singularidade da compreensão psicológica do universo cultural do circo, proponho nesta tese a noção de self itinerante que poderá auxiliar para um maior entendimento do contexto investigado..

(20)   17  .  . De modo a investigar o contexto brevemente apresentado até aqui, sigo pela vertente semiótico-construtivista (cf. Simão, 2010; 2015) da psicologia cultural, que vem se dedicando aos estudos do processo de desenvolvimento sociocultural individual por uma perspectiva dialógica e que tem buscado focalizar dimensões das relações intersubjetivas. Tal perspectiva teórico-metodológica é uma baliza orientadora de investigações qualitativas em Psicologia que vem se desdobrando a partir de ideias emergidas no final do século XX, [...] assentada de forma especial em proposições de Lev Vygotsky, Mikhail Bakthin, George Mead, Pierre Janet, Jean Piaget, Ernst Boesch e Jaan Valsiner sobre o processo de desenvolvimento simbólico individual, no qual as interações eu-outro, que se desenrolam no e, ao mesmo tempo, constituem o espaço cultural, têm papel construtivo principal. (Simão, 2004c, p. 13).. Para o desenvolvimento desta pesquisa parto da Multiplicação Dialógica (cf. Guimarães, 2010, 2013), noção que articula e sistematiza um conjunto de conceitos da área, dentre os quais temporalidade e alteridade, que irei abordar com maior aprofundamento nos próximos capítulos, e tem como foco as diferenças de trajetórias de compartilhamento em processos de construção semiótica. Esta noção pertence, por um lado, à tradição da psicologia em sua vertente semiótico construtivista que veio sendo proposta por Simão (cf. 2005, 2010) numa articulação entre Boesch, Valsiner e Marková, incluindo reflexões a partir da hermenêutica de Gadamer, do dialogismo de Bakhtin e de ideias de pensadores fenomenológicos como Bergson, Merleau-Ponty e Lévinas. No âmbito dessas reflexões, encontram-se o pensamento psicológico de Kurt Lewin, Vygotsky, James e Baldwin que influenciaram a elaboração da noção de multiplicação dialógica. Por outro lado, a noção de Multiplicação Dialógica se vincula à tradição que vem do pensamento antropológico do perspectivismo ameríndio a partir de Viveiros de Castro (1996; 2004; 2006), dentre outros. A articulação dialógica realizada por Guimarães entre as tradições selecionadas da psicologia e da antropologia se dá sob o foco da compreensão da participação de diferentes perspectivas no diálogo, as quais se remetem a questões da alteridade..

(21)   18  .  . Diante do campo das relações culturais, e como forma de articular as noções de dialogismo e alteridade, Guimarães (2007) propõe um diagrama de multiplicação de perspectivas dialogicamente construídas a partir do entrecruzamento de diferentes planos relacionais, buscando evidenciar um plano intersubjetivo de relações dialógicas (relações sociais) depreendidas da realidade social concreta. Tal diagrama explicita de que forma os planos intra e intersubjetivos, percepção e imaginação, atuam na construção do sentido da experiência por meio de trajetórias singulares sejam nos âmbitos culturais, sociais ou pessoais. Dito de outro modo, seria uma articulação que se dá na esfera da vida pessoal, entre uma dimensão concreta de presença espaço-temporal com os outros,. portanto. uma. dimensão. intersubjetiva,. e. uma. outra. de. compartilhamento ou de divergência simbólica, no âmbito da perspectiva intrassubjetiva sobre uma determinada temática. Enquanto eixo norteador deste estudo, a noção de Multiplicação Dialógica é uma ferramenta que me permite, a partir dos dados do contexto empírico do circo itinerante, realizar um diálogo com as concepções de temporalidade em Guimarães (2015) e Guimarães & Nash (submetido) e de confiança em Gillespie (2008, 2008b), Cornejo (2014) e Guimarães (2016). Este diálogo possibilita a compreensão das tensões dialógicas existentes nas interações eu-outro no contexto empírico do circo, uma vez que tanto eu quanto outro estão falando desde posições fenomenológicas diferentes, ainda que em face a um mesmo objeto, ou quando esses objetos não coincidem. Sendo assim, a noção de Multiplicação Dialógica, enquanto um modo de compreensão das relações dialógicas, é relevante por permitir o entendimento de diferenças dos universos semiótico-culturais que tomam lugar na interação eu-outro, tanto inter quanto intrassubjetivamente e, por abordar o campo de trocas dialógicas, auxilia na sistematização teóricometodológica visando a compreensão de fenômenos psicossociais. Tomando o referencial teórico acima apontado e que será discutido de modo mais aprofundado adiante, focalizei a compreensão sobre os sentidos envolvidos, tanto pessoal quanto coletivamente, na construção e manutenção.

(22)   19  .  . das relações de confiança no fluxo da temporalidade, bem como suas implicações frente às especificidades do modo de vida do circo itinerante. A vivência da temporalidade é um processo importante para o desenvolvimento humano, pois o presente sofre influências do passado e também do futuro e esta vivência permite a articulação e a interação com os diferentes campos de significados (Valsiner, 2007). Assim, no contexto circense, observei as angústias e incertezas diante do futuro, dos novos desafios. impostos. pela. constante. itinerância,. da. nova. jornada. de. apresentações, da própria cultura e tradição circense, das constantes reinvenções artísticas diante das mudanças socioeconômicas e culturais que influem nessa área de trabalho, inclusive no que tange ao desenvolvimento das relações intersubjetivas. Dadas as especificidades culturais, o estudo da questão da confiança e da temporalidade no circo permite sofisticar a compreensão que se tem desses processos na psicologia cultural dialógica (Simão, 2010; Guimarães, 2010, 2013), na medida em que a itinerância, mas também o sentido de realização do espetáculo, são balizas extremamente salientes que guiam toda a vida do integrante de circo, a ponto das pessoas colocarem, inclusive, suas vidas em situação de risco na relação uns com os outros. O meu conhecimento das especificidades dos modos de vida e de trabalho das pessoas que residem em circos itinerantes me levou a constatar que a vivência cotidiana de experiências sentidas como arriscadas, sejam os riscos concretos (reais) ou ilusórios (imaginados/virtuais) e a necessidade de confiança intersubjetiva para a realização de atividades realizadas dentro ou fora do picadeiro são especialmente intensas nesse universo. Por esse motivo o circo, enquanto objeto de estudos, mostra-se um ambiente potencialmente rico para o estudo da construção da confiança na relação euoutro. A necessidade de confiar, para o circense, estabelece-se num grau que pode determinar, em grande medida, a vida ou a morte que, deliberadamente, o artista decide enfrentar cotidianamente. No circo, como aponta Bolognesi (2003), “o corpo desafia seus limites. O artista tem consciência de que pode fracassar. O desempenho artístico do acrobata e.

(23)   20  .  . sua possível queda não são ilusórios e não pertencem ao reino da ficção”. (p. 45). Cabe ressaltar que, juntamente com as apresentações individuais, grande parte dos números1 circenses é realizada por duas ou mais pessoas, trazendo maior complexidade para a questão da confiança. Além da exigência técnica, os números apresentados nos espetáculos demandam dos artistas tranquilidade e equilíbrio emocional para que se possa ter um bom desempenho. O sucesso na apresentação dos números requer concentração, flexibilidade, resistência, coordenação, leveza, agilidade, força física, autocontrole, entre outras características físicas e emocionais.. Figura 1: Artistas do Circo de Soleil em apresentação de Duo de Faixas2..                                                                                                                 Qualquer atuação circense que requeira ou não o uso de aparelhos, individuais ou não. Os palhaços, embora nem sempre usem aparelhos, também executam um número. (Silva & Abreu, 2009, p. 44). 2  Disponível em: http://dianadazzling.com/2012/06/27/dralion-by-cirque-du-solei/ 1.

(24)   21  .  . As relações que as pessoas estabelecem entre eu, outro e o mundo são, antes de tudo, trocas afetivas (Valsiner, 2012). O afeto primário, fisiológico e cultural é precursor da significação semiótica dos sentimentos e emoções. Quando os afetos são significados, características subjetivas e reflexivas semiótico-culturais emergem. (Guimarães & Cravo, 2015). Os afetos primários consistiriam, portanto, um tipo de campo nebuloso3 catalisador4, no sentido de Valsiner (2014), de aproximações e afastamentos nas relações com os outros e com o mundo, a partir do qual se desdobrariam possíveis compartilhamentos intersubjetivos. Concebendo que a tensão é inerente às relações eu-outro, como apresentar delicadeza de movimentos após uma crise de ciúmes do namorado? Como lidar com a responsabilidade de ter a vida da esposa nas mãos, tendo que segurá-la a metros de altura do chão após uma acalorada discussão de casal? Como apresentar-se sorrindo ao lado de colegas e/ou familiares após a perda de um ente querido? Além da necessidade de confiar em seu parceiro de picadeiro, em um número de risco, por exemplo, também há que se depositar confiança no aparato de trabalho e em toda a estrutura que sustentará o artista no ar, bem como nas pessoas que a manejam. É importante haver até mesmo uma preocupação com o figurino que irá se utilizar, uma vez que a má escolha do tecido com o qual será confeccionado pode comprometer a segurança própria e/ou do grupo durante a realização de uma apresentação. Por essas razões, considero o circo, enquanto campo situado de estudos, um ambiente favorável e promissor para a compreensão das temáticas apresentadas, ou seja, a vivência da confiança no fluxo da temporalidade frente às especificidades do modo de vida itinerante do circo..                                                                                                                 3. Entende-se por nebulosidade o fluxo afetivo pré-semiótico da experiência na fronteira do self, outro e do mundo (cf. Valsiner, 2007). 4  Este é um conceito complexo e em construção. Nesta tese uso essa noção para indicar o termo enquanto facilitador de um processo temporário de síntese, de elaboração.  .

(25)   22  .  . Figura 2: Artistas do Circo de Soleil em apresentação de número de Lira5.. Ao refletir sobre as inquietações que emergem a partir das relações eu-outro-mundo (Simão, 2010), parto do pressuposto de que toda relação implica risco (cf. Guimarães, 2010), ao mesmo tempo em que se faz necessário o estabelecimento de um grau mínimo de confiança para que ela possa se desdobrar. O estudo desses aspectos também se torna relevante, por apontar para a necessidade da compreensão dos riscos envolvidos nos processos de construção de confiança no dia a dia do circo, uma vez que seus desdobramentos poderão contribuir para o entendimento das relações que todos nós estabelecemos com os outros do nosso mundo e, portanto, das relações da pessoa na cultura de modo geral. Dentre os diferentes tipos de riscos existentes no cotidiano circense é possível destacar os que são mais concretos e reais, como os riscos de morte e/ou acidentes durante a consecução de números de altura, ou os enfrentados nas estradas devido aos constantes deslocamentos do circo e, também, as referências subjetivas dos riscos que são o foco desta                                                                                                                  Disponível em: http://www.independent.co.uk/news/world/australasia/cirque-du-soleilperformer-falls-from-trapeze-in-horrific-accident-a7442286.html. 5.

(26)   23  .  . investigação. Tais riscos estão relacionados com as possibilidades e limites impostos ao self e pelo self, diante do encontro com os tantos outros do mundo frente à vivência da itinerância. Confiar no outro é correr riscos. O confiar ou o não confiar é constitutivo, ou melhor, é inerente na construção e manutenção das relações interpessoais de modo geral (Marková, Linell & Gillespie, 2008), pois se busca sentir minimamente seguro para seguir adiante com qualquer tipo de relação. Sem isso, não se lança totalmente no desafio que é a possibilidade da construção de um relacionamento. Com base no exposto e dado que há no contexto do circo itinerante uma experiência tanto da confiança quanto da temporalidade muito peculiar, este estudo se justifica ao acrescentar discussões acerca das temáticas apresentadas visando contribuir conceitualmente com direcionamentos para futuras reflexões teórico-metodológicas e para a construção de novos conhecimentos no campo da Psicologia Cultural, área de estudos que aponta para a centralidade da cultura para a compreensão dos processos afetivocognitivos do desenvolvido humano (Valsiner, 2012), Nesta direção, o conhecimento construído a partir do alcance dos objetivos propostos neste estudo, ou seja, trazer ao foco as especificidades do modo de vida do circense itinerante e suas implicações para a constituição do self, bem como o entendimento sobre os aspectos relacionados à forma como as relações de confiança se estabelecem, de que forma são mantidas e de que modo interferem nas atividades artístico-laborais dentro e fora do picadeiro frente à vivencia da temporalidade, é fundamental para a compreensão das vulnerabilidades psicossociais6 apontadas pelos circenses. E também por permitir reflexões sobre os possíveis modos de atuação do psicólogo no universo do circo itinerante, uma vez que, tanto a Psicologia quanto a Psicologia Cultural ainda não conhecem suficientemente ou não têm desenvolvido estratégias para o trabalho psicológico nesse contexto. Ao me reaproximar do universo circense com o intuito de compreender as questões aqui apresentadas, me deixei novamente seduzir por seus                                                                                                                 6  Esta. noção será trabalhada mais à frente no capítulo intitulado ‘Selves Itinerantes: um desafio para a Psicologia’..

(27)   24  .  . encantos e pelas instigantes reflexões sobre as relações eu-outro-mundo frente a vivência da itinerância dos circos participantes. Nos subcapítulos a seguir, apresento como se dá o entendimento sobre as relações eu-outro e sobre noções de temporalidade e confiança sob as lentes da Multiplicação Dialógica.. 1.1.. AS RELAÇÕES EU-OUTRO E A NOÇÃO DE MULTIPLICAÇÃO DIALÓGICA No presente capítulo discutirei de que forma a noção de Multiplicação. Dialógica (Guimarães, 2010, 2013) propõe a compreensão de processos intersubjetivos e relações de alteridade no âmbito do construtivismo semiótico-cultural em Psicologia, perspectiva teórico-metodológica que vem dando especial enfoque em seu campo de investigação para os fenômenos humanos. fundamentados. intrinsicamente. nas. relacionadas. ao. relações. intersubjetivas. desenvolvimento. e. humano. que. estão. coletivo. e. individual em seu contexto sociocultural. Como explicitado anteriormente, a noção de Multiplicação Dialógica aborda as múltiplas perspectivas dialogicamente construídas a partir do entrecruzamento de diferentes planos relacionais e tem como foco as diferenças de trajetórias de compartilhamento em processos de construção semiótica. A noção de Multiplicação Dialógica traz uma concepção de intersubjetivade para além da ideia de duas ou mais pessoas em interação, mas a ideia de um diálogo interculturas assim como em diferentes níveis das dimensões inter e intrassubjetivas do self. Neste sentido é uma ferramenta que, ao preservar os constituintes da relação levando em conta as diferentes perspectivas, possibilita acesso a um campo de intensas trocas afetivas sem um sentido absoluto entre eu e outro. (Guimarães, 2010). Tal processo pode fazer emergir novos elementos simbólicos, possibilitando mudanças no campo de ação cultural de cada uma das partes na interação. Ao permitir pensar os planos de injunção e disjunção em meio a diferentes perspectivas, a noção de Multiplicação Dialógica (Guimarães, 2011, 2013) procura dar conta da diferença entre os percursos da experiência.

(28)   25  .  . do encontro com a alteridade em um plano nebuloso de mútua afetação frente à irreversibilidade do tempo (cf. Valsiner, 1998).. Quadro 1 – Diagrama que sistematiza aspectos inerentes às relações eu-outro no construtivismo semiótico-cultural em Psicologia. (Guimarães, 2010, p. 127).. O quadro acima explicita de que forma os planos inter e intrassubjetivos atuam na construção do sentido da experiência por meio de trajetórias singulares sejam nos âmbitos culturais, sociais ou pessoais. E ilustra que diferentes perspectivas se afetam mutuamente em um campo nebuloso de afetações e têm caminhos de desenvolvimento singulares por conta das distintas experiências pessoais que se desenvolveram em diferentes campos sociais (cf. Guimarães, 2015). Neste percurso, a elaboração simbólica pode emergir como forma de dar sentido às tensões dialógicas que se dão na fronteira do plano relacional frente o encontro com a alteridade. Alteridade é uma noção filosófica da qual a Multiplicação Dialógica partiu para reflexões, no âmbito psicológico, sobre a relação com aquilo que excede a si mesmo (cf. Figueiredo, 1997; Coelho Jr., 2007). Esta noção nos auxilia a pensar nas relações eu-outro-mundo ao nos referirmos às dimensões inapreensíveis, ou seja, que escapam, deste outro, deste mundo e do próprio eu. Levando em conta que alguma dimensão do outro na sua alteridade sempre vai escapar à compreensão do self, supõe-se que sempre.

(29)   26  .  . haverá a possibilidade de emergência de alguma tensão nesta relação e, portanto, esforços simbólicos no sentido de reduzir tais tensões. No eixo horizontal da figura dá-se a relação intersubjetiva (orientada pela percepção) entre eu e outro, ou seja, instância que permite pensar a relação do self com elementos externos que tanto o influenciam quanto são influenciados por ele. No eixo vertical dá-se a relação da intrassubjetividade (imaginação) que possibilita reflexões sobre a relação do self com seus conteúdos internos atuantes nas elaborações que faz das experiências vivenciadas (cf. Guimarães, 2010, 2013). Por essa perspectiva, toda relação é sempre permeada por tensões dialógicas levando em conta o campo nebuloso frente ao encontro com as diferentes alteridades que se apresentam diante do fluir contínuo, dinâmico e imprevisível da vida. Este movimento faz com que haja uma busca do self em direção a minimizar tais tensões e é nesse processo, ou seja, na busca pelo compartilhamento semiótico que alguma novidade pode emergir. O processo que possibilita a emergência de novidades e a constituição de estabilidades (ainda que temporárias), é especialmente caro para o construtivismo semiótico-cultural em Psicologia (cf. Simão, 2005, 2010) por investigar os fenômenos inerentes ao processo comunicativo. Questões referentes ao compartilhamento e diferenças intersubjetivas são compreendidas a partir de proposições pertencentes ao campo da hermenêutica gadameriana denominado fusão de horizontes (cf. Gadamer, 1985) no qual a busca pelo compartilhamento semiótico das experiências vividas requer um esforço em direção ao ajuste das diferentes perspectivas em interação como forma de alinhar as diferentes posições no diálogo, bem como sobre as diferentes temáticas que são discutidas. Como cada participante do diálogo entra na interação à partir de suas preconcepções (cf. Gadamer, 1985) é importante que leve em conta o fato de que o outro com o qual interage também o faz, ou seja, parte também de suas próprias preconcepções à respeito de uma determinada temática e que tais pontos de vista nem sempre convergem entre si. O conhecimento deste fato é relevante pois permite que self e outro não entrem no diálogo buscando convencer um ao outro a compactuar com as próprias ideias. Para tanto é necessário estar aberto às diferentes.

(30)   27  .  . perspectivas mesmo que diante de diferentes preconcepções, pois nesse processo algumas delas podem ser transformadas e outras coconstruídas sobre o assunto que pode emergir. Em outras palavras, há na experiência da interação do self com os outros do mundo, enquanto alteridade, uma busca pelo compartilhamento intersubjetivo que, por demandar um esforço para ajustar as diferentes posições que ocupam nesse campo relacional heterogêneo, leva a mudanças e novas construções em ambos na relação. O compartilhamento intersubjetivo seria um domínio temporário de significados. compartilhados. entre. indivíduos. ou. entre. níveis. de. funcionamento em um mesmo sujeito. Embora não seja possível o completo compartilhamento, sua idealização é importante para a pessoa, pois demanda renegociações de sentido ao longo da vida (Guimarães, 2010). Vale destacar aqui o caráter temporal e processual da intersubjetividade, sendo que, ela mesma, é coconstruída na interação entre eu-outro-mundo. Assim, compreender a relação eu-outro enquanto uma relação de alteridade significa assumir a impossibilidade do completo compartilhamento que o eu experimenta frente à existência do outro e também de si mesmo. É assumir que, ainda que a relação seja possível de se dar, o outro continuamente perturba o campo das convicções do self, confronta-o, o faz repensar, reconsiderar, reposicionar, o faz sofrer. É um assumir que, ainda que seja impossível compreendê-lo em sua totalidade, este outro, em alguma medida, o afeta. Por serem dinâmicas e estarem em constante transformação, as relações que eu e outro estabelecem estão sujeitas a aproximações e também a afastamentos, ou seja, tanto ao reconhecimento mútuo, quanto a tensões, rupturas e quebra de expectativas. Isso se dá uma vez que há distintas dimensões humanas em comunicação durante a interação e compartilhamento de experiências. Estão em jogo distintas subjetividades, diferentes modos de existir e reconhecer-se no mundo, e também de vivenciar e significar o tempo em seu curso irreversível (cf. Valsiner, 2012), seja individual ou coletivamente. Os encontros que o self estabelece com o (os) outro (os) do mundo o transforma, assim como transformam a esse (s) outro (s), propiciando a.

(31)   28  .  . emergência de uma nova organização de ambos individualmente e de ambos em e na relação e, consequentemente, da construção de novos sentidos, pois pode ser que, tanto um quanto outro, sejam conduzidos por caminhos distintos do que os inicialmente imaginados por eles. Cada nova organização demanda do sujeito reorganizações semióticas afetivo-cognitivas que podem variar de grau e de intensidade no mesmo indivíduo (cf. Valsiner, 1998). Deste modo, a pessoa reorganiza aspectos de sua cultura reposicionando balizas e produzindo novas canalizações, ou seja, os encontros sociais e os investimentos individuais sobre a realidade transformam as relações, reconfigurando a própria realidade vivida. Como a noção de Multiplicação Dialógica parte da concepção de um self que se constitui na relação com o outro, ou seja, a partir do diálogo entre o si mesmo e os outros, está aí necessariamente implicada a sua relação com a alteridade. O self é tomado como uma dimensão de tensões dialógicas entre identidades e alteridades que envolve as significações das experiências vividas.. Assumindo. esta. perspectiva,. não. concebemos. um. sujeito. individualizado, mas em relação. Não há Self sem Outros, não há autoconsciência sem a consciência do outro: uma determina a outra. Não tem sentido fazer referência a Ego-Alter fora do reino da comunicação; Ego e Alter são gerados na e através da comunicação simbólica. [...] Ego-Alter pertence a uma ontologia dialógica na qual Ego e o Alter são interdependentes, um constituindo o outro. (cf. Marková, 2003a, p. xiii).. A noção de dialogicidade toma como ponto de partida a compreensão de uma relação de interdependência entre Ego-Alter. Esta perspectiva focaliza o “fosso” inapreensível, ou seja, as tensões presentes no processo de comunicação intersubjetiva em que eu e outro se constituem mutuamente, sem entretanto fundir-se (Simão, 2010). Ressalta o fato de que a subjetividade é uma construção que se dá na relação entre eu e outro, ainda que sejam e estejam existencialmente separados. Estamos aqui próximos à noção de separação inclusiva entre elementos (cf. Simão & Valsiner, 2007) na qual não há coincidência entre ambos, uma vez que são concebidos em sua interdependência e fazem parte de um campo relacional que possibilita e amplia diferentes campos de ação..

(32)   29  .  . Tomando a ideia da distância existencial entre eu e outro, ambos encontram-se inevitavelmente imersos em um campo nebuloso de afetações, ou seja, encontram-se diante da possibilidade de reconhecer algo comum entre si, mas também diante de algo que é inapreensível em sua totalidade. Sendo assim, eu e outro se afetam mutuamente sem nunca reconhecer-se totalmente e, ainda que diante de um campo nebuloso (Valsiner, 1998, 2007c) no qual os sentidos da experiência ainda não estejam claros, por se tratar de um campo de fluxo caótico e dinâmico de afecções, este serve de base para possíveis significações. Como apontado, tal processo não acontece sem a presença constante de tensões, pois ela se faz presente a cada instante e em diversas dimensões como, por exemplo, no próprio pesquisador que, por se ver no campo nebuloso de afetações, é ou pode ser afetado de diferentes modos e em diferentes intensidades nos diversos campos de sua vida durante todo o percurso. de. uma. investigação.. Como. pontua. Valsiner. (2012),. os. pesquisadores enquanto seres humanos subjetivos estão pessoalmente envolvidos, com suas preferências e posições pessoais, a partir das quais consideram os assuntos de sua pesquisa. Sendo assim, desde a decisão de iniciar uma trajetória como a de escrever esta tese de doutorado até o momento final de entrega deste estudo, a negociação de sentidos frente às inúmeras tensões diante dos desafios apresentados ao longo de todo o percurso foram constantes e levaram a transformações não somente no próprio objeto de investigação, mas também em mim mesma. Refletindo sobre a relação entre pesquisador e participante da pesquisa, penso que o meu mundo subjetivo, enquanto pesquisadora, particular, singular, se distingue do mundo subjetivo do participante, também particular e singular. Nesse processo, os sistemas intrapsíquicos que articulam as experiências pessoais e suas elaborações simbólicas tanto de um quanto de outro, por serem distintos, fazem com que ambos saiam desse encontro transformados. O conhecimento que o participante constrói ao se relacionar comigo é diferente do que eu, pesquisadora, construo ao me relacionar com ele. Afinal,.

(33)   30  .  . somos pessoas diferentes, com diferentes histórias de vida e, portanto, com trajetórias diferentes que nos levam a caminhos diferentes. Deste modo, diante do diálogo que acontece na relação entre um e outro e também com as suas próprias reflexões, ambos medeiam internamente o que conseguem elaborar de suas experiências. Estão aí presentes o dialogismo do pesquisador que, ao trazer suas memórias, seus sentimentos, percepções e impressões pessoais, elabora as próprias experiências e, a partir dessas elaborações e desse processo dialógico, seleciona aspectos teóricos e empíricos que, por sua vez, são também colocados em diálogo. Enquanto pesquisadora, parto de certas noções teórico-metodológicas que vieram me acompanhando desde o meu mestrado e também de minhas experiências pessoais, não somente as que vivenciei no passado enquanto artista de circo, mas as vivenciadas para a consecução da pesquisa anterior e, também, as que vivenciei durante o percurso de realização deste estudo. Ao ir para o diálogo com os circos participantes desta pesquisa, todas estas instâncias estiveram em interação e mediaram os sentidos que produzi entre os dados empíricos e teóricos. À partir desse intenso diálogo foram produzidos novos conhecimentos sobre os temas desse estudo, que geraram, além desta tese, a minha participação em congressos internacionais, artigos e capítulos de livro, como no caso de uma publicação em comemoração aos 15 anos da companhia de Circo de Teatro do Tubinho (no prelo), da qual faço parte7. Desse modo, não apenas pessoas saem transformadas da relação, como modificam o contexto no qual estão inseridas. O reconhecimento da impossibilidade de completo acesso ao outro traz implicações instigantes para a compreensão sobre as especificidades de como se dão as relações eu-outro-mundo frente à itinerância circense, se considerarmos que os constantes deslocamentos e o intenso convívio interpessoal são, ou podem ser, um complicador para o desenvolvimento das relações interpessoais..                                                                                                                . 7  Explicarei  a  respeito  da  minha  participação  nesta  obra  no  capítulo  de  Procedimentos  desta  tese.  .

(34)   31  .  . Por auxiliar na sistematização teórico-metodológica de fenômenos psicossociais a noção de Multiplicação Dialógica é uma ferramenta útil para este percurso de investigação por me permitir compreender como diferentes aspectos das tensões dialógicas existentes no contexto empírico do circo itinerante se articulam, propiciando, assim, um melhor entendimento sobre as diferenças dos universos semiótico culturais que tomam lugar na interação do circense com os outros do seu mundo, seja dentro ou fora do picadeiro.. 1.2. A TEMPORALIDADE NA MULTIPLICAÇÃO DIALÓGICA As noções de tempo e temporalidade são significadas de modos diferentes. por. diferentes. povos. e. culturas. podendo. nortear. os. compartilhamentos intersubjetivos e guiar trajetórias de vida (Valsiner, 2007b). Temporalidade8 aqui é entendida não enquanto o tempo cronológico, ou seja, uma sucessão de eventos, mas se relaciona à reciprocidade de ações e atividades mutuamente compartilhadas (cf. Ingold, 2000). Esse aspecto tem sido abordado a partir da noção de Multiplicação Dialógica considerando o ritmo da atenção nas trocas intra e interpessoais. (cf. Guimarães, 2015). A temporalidade, enquanto um modo de compreensão da apreensão do tempo vivido subjetivamente está como pano de fundo das nossas relações cotidianas na medida em que somos afetados pelo tempo em suas distintas dimensões, seja do presente, passado ou voltadas para o futuro. Nesse sentido, ela organiza e regula ações pessoais e coletivas. Nos encontros que as pessoas estabelecem com as outras ao longo do curso de suas trajetórias, elas se deparam com experiências distintas dos modos como o tempo e temporalidade são vivenciados, o que exige uma                                                                                                                 8  Vale ressaltar que há um vasto campo de reflexões e produções recentes na área discutindo o tema da temporalidade. Contudo, o meu objetivo aqui não foi discutir conceitualmente a temporalidade, mas me apropriar de uma noção que desse conta de compreender a especificidade cultural do circo que pressupõe uma maneira própria das pessoas se organizarem no tempo, organizarem seus tempos pessoais, coletivos, etc., ou seja, compreender como a cultura organiza o tempo das pessoas nas suas relações com os outros. Entre as recentes produções destaco:   L. M. Simão, D. S. Guimarães & J. Valsiner (Orgs.), (2015). Temporality: Culture in the flow of human experience. Charlotte, NC: IAP – Information Age Publishing..

(35)   32  .  . constante busca por algum tipo de adaptação como forma de facilitar a comunicação com pessoas de/em diferentes contextos. As distintas experiências de tempo apontam para a pluralidade das formas como se compreende e se concebe o desenvolvimento humano. (Simão, 2015b). No caso do circo, os frequentes deslocamentos propiciam aos seus integrantes o contato com distintas temporalidades uma vez que cada região que percorrem tem suas próprias particularidades nos modos de viver e de dar sentido ao tempo. Visando favorecer e prolongar a estadia na cidade a busca constante por se adequar aos diferentes ritmos é parte inerente da atividade circense, pois essa harmonização rítmica os auxilia no modo como se comunicam com as pessoas do município como, por exemplo, por meio de uma melhor adequação do planejamento de estratégias para atrair e manter o público. Este é um arranjo sempre muito particular que demanda do circense uma sensibilidade para fazer esse alinhamento uma vez que ao nascer, um certo tempo já está dado para cada pessoa, ou seja, ela nasce banhada em uma cultura que a precede e, portanto, já tem um modo de vivenciar o seu próprio tempo, uma temporalidade. Ou seja, o ser humano já nasce imerso em processo rítmico e cíclico que organiza o viver diário. Nesse sentido, a temporalidade é tomada aqui como uma construção social. Em outras palavras, cada família, por exemplo, tem seus próprios hábitos e costumes, seu próprio ritmo de vida, seus próprios rituais. Há lares nos quais as pessoas acordam muito cedo, em outros, muito tarde. Há aqueles que mantém um horário rígido para as refeições, em outros, estes horários são flexíveis ou até mesmo inexistentes. Durante viagens em grupo, por exemplo, essas diferenças tornam-se mais perceptivas, podendo inclusive gerar tensões e desentendimentos. A cultura cultiva sistemas psicológicos por meio de investimentos na construção de corpos pessoais e coletivos. Esses investimentos envolvem o estabelecimento de um ordem social, o que implica a regulação mútua de atividades no ambiente através da construção de uma temporalidade inerentemente compartilhada de atividades no ambiente vivido. (cf. Guimarães, 2015, p.357)..

(36)   33  .  . Os processos cíclicos e rítmicos interagem entre si em diferentes níveis, ou seja, dentro do self, nas fronteiras das dimensões pré-pessoal e nas fronteiras do self, do ambiente e de seus outros múltiplos (Guimarães, 2015). Os processos rítmicos, ou melhor, o compartilhamento rítmico estaria na base da possibilidade de construção de planos de compartilhamento entre diferentes posições culturais. Esta concepção dá especial atenção à dimensão corporal das ações e seus significados e propõe que a noção de ritmo é essencial para a compreensão da corporeidade e das dimensões afetivo-cognitivas nas relações entre eu e outro. (Guimarães & Nash, submetido). Ao olhar os processos do desenvolvimento biológico (nascimento, envelhecimento, morte), da natureza (o processo de plantio e de colheita) ou das estações do ano por exemplo, fica fácil perceber a dimensão cíclica do tempo na constituição de múltiplas temporalidades. As exigências cíclicas tanto para o corpo quanto para as atividades sociais demandam uma harmonização rítmica de atenção mútua para que se mantenham em movimentos coordenados. (Guimarães, 2015, 2016). As coisas no universo do qual as pessoas fazem parte repetem-se, sucedem-se de uma forma similar, de tempos em tempos diante dos nossos olhos. O entendimento sobre os processos rítmicos e cíclicos do tempo permite o conhecimento e a compreensão de fenômenos psicossociais singulares de uma dada realidade. Considero que o conhecimento da ritmicidade das sucessivas trocas de cidades para as apresentações bem como da dinamicidade cíclica das atividades cotidianas como por exemplo dos ensaios, é fundamental para a inserção do psicólogo no contexto do circo itinerante visto que favorecerá o entendimento das especificidades deste modo de vida, suas implicações para a constituição do self e, consequentemente, da demanda por atenção psicológica. O conhecimento que adquiri ao vivenciar o cotidiano circense no passado favoreceu em grande medida o meu contato com os circenses na atualidade por dominar os códigos locais e já conhecer as nuances sobre os modos de vivenciar o tempo e a forma como ele se apresenta, perpassa e.

Referências

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