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Práticas de lazer dos deficientes auditivos no Shopping Metrô Santa

Cruz

Leisure practices of the deaf people in the Metro Santa Cruz Shopping Mall

Rúbia Malagrino Breda [email protected] Orientador: Brenno Vitorino Costa

RESUMO: Tendo em vista que os deficientes auditivos têm conquistado seu espaço na

sociedade, surge também uma preocupação com a inclusão deste público nos equipamentos de cultura, lazer e entretenimento para que tenham qualidade de vida. Por isso, o presente artigo teve como objetivo verificar o perfil do público surdo freqüentador do Shopping Metrô Santa Cruz, bem como suas motivações e opiniões a respeito do mesmo. Na pesquisa aplicada observou-se que os encontros entre os surdos não se baseiam em somente simples bate-papos, mas percebe-se a necessidade do deficiente de sociabilização, segurança, aprendizado e bem-estar.

Palavras-chave: Lazer; deficientes auditivos; Shopping Metrô Santa Cruz; São Paulo.

ABSTRACT: Considering that the hearing impaired have earned their place in society,

there is also a concern with the inclusion of this equipment in public culture, leisure and entertainment that have quality of life. Therefore, this article has aimed to check the profile of the deaf goer Shopping Metro Santa Cruz, as well as their motivations and opinions regarding the same. In applied research it was observed that the meetings between the deaf do not rely on only simple chats, but realizes the need of poor socialization, safety, learning and well-being

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Introdução

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, o Brasil tornou-se um “país dos deficientes”, e comenta que esse público cresce consideravelmente. Os resultados mostram que, aproximadamente, 24,4 milhões de pessoas apresentam algum tipo de deficiência ou incapacidade, sendo que 5,7 milhões deles possuem algum grau de deficiência auditiva e 170 mil se declaram surdos.

Segundo Sassaki (2003), devido ao fato da surdez não ser uma deficiência facilmente perceptível, comparada aos outros tipos de deficiência, ela não desperta na sociedade a devida atenção, levando muitas vezes o surdo a situações que o deixam à margem da sociedade.

Os surdos, portanto, constituem um público que necessita de adaptações específicas; além do direito à saúde e educação, possuem o direito a serviços que proporcionem independência e qualidade de vida assim como uma pessoa sem deficiência.

A sociedade tem reconhecido cada vez mais o direito que todas as pessoas têm de optarem livremente por experiências que proporcionem sua satisfação pessoal (SASSAKI, 2003).

Desta forma a recreação e lazer devem ser vistos como um direito garantido para todos, não podendo ser negado a ninguém por qualquer motivo, como cor, credo, sexo, religião, raça, condição econômica ou incapacidade física segundo a Carta do Lazer 1 e 2. (SASSAKI, 2003)

Em 2002, pela Lei 10.436, é reconhecida como meio legal de comunicação e expressão a Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS, com um sistema lingüístico de natureza visual motora e estrutura gramatical própria, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil.

Além de conquistarem o reconhecimento da LIBRAS como linguagem oficial, os surdos também garantiram seu espaço no mercado de trabalho com a Lei de Cotas (Decreto Federal 3.298/99) que determina às empresas contratarem funcionários deficientes. O surdo atualmente delimitou o seu espaço no convívio social e está cada vez mais exigente com a mídia, reivindicando opções de lazer mais adaptadas à sua cultura, como exemplo a proposta de legenda em filmes nacionais.

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Para o acesso ao lazer e turismo são necessárias adequações, superando as barreiras arquitetônicas, atitudinais, comunicacionais, metodológicas, instrumentais e programática citadas por Sassaki (2003).

O presente trabalho procura refletir sobre as práticas de lazer da comunidade jovem surda, entendendo que as mesmas constituem fator importante para inclusão, sociabilização e independência para o deficiente auditivo.

Inicialmente a autora escolheu o Shopping Metrô Tatuapé como campo de trabalho, local onde havia uma quantidade considerável de frequentadores surdos, porém a administração do shopping não autorizou a pesquisa. Sendo assim, elegeu-se o Shopping Metrô Santa Cruz na cidade de São Paulo, onde também há uma concentração visível de deficientes auditivos.

Esta pesquisa tem como objetivo revelar as práticas de lazer dos deficientes auditivos, traçando seu perfil, bem como a qualidade dos serviços e a acessibilidade, buscando identificar possíveis dificuldades encontradas por eles no Shopping Metrô Santa Cruz (SMSC).

Foram realizadas pela pesquisadora, apta em LIBRAS, entrevistas mediante uso de formulários, tendo em vista avaliar o perfil do lazer dos deficientes auditivos do SMSC e pesquisa bibliográfica.

1. O lazer como direito

De acordo com Camargo (2010) “o lazer é um modelo cultural de prática social que interfere no desenvolvimento pessoal e social dos indivíduos”. É por este caminho que o deficiente poderá tornar-se mais independente em diversas aéreas no meio social. Conforme Dumazedier (2000), lazer é:

[...] um conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, divertir-se, recrear-se e entreter-se, seja para desenvolver sua informação ou formação desinteressada, sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora após suas obrigações profissionais, familiares e sociais.

Sendo assim, pode-se afirmar que lazer é um momento em que a pessoa poderá deixar seu cotidiano em busca de distração e divertimento, relacionando-se com outros

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indivíduos de forma a introduzir em sua vida, conhecimento intelectual e melhor relacionamento social.

Existem algumas leis que frisam o direito do ser humano a atividades de lazer e recreação. Segundo a Constituição Federal, por exemplo:

Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. O Artigo XXIV da declaração Universal dos Direitos Humanos diz que todo ser humano tem direito ao repouso e lazer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e a férias remuneradas periódicas (BRASIL, 2011).

1.1 A importância do lazer

Dumazedier (2000, p.166) comenta a importância do lazer para o desenvolvimento das cidades no texto:

(...) Se elas quiserem representar o papel de pólo de desenvolvimento têm e terão cada vez mais a obrigação de ser centros de lazeres repousantes, recreativos, instrutivos, aptos a responder as necessidades culturais de todas as categorias sócio-profissionais e todas as categorias de idade, graças aos locais de passeios, aos estádios, aos cinemas, aos teatros, aos museus, às salas de concertos, aos locais de reunião, aos bares, às associações etc. Estas são algumas das razões que mostram a importância do lazer em uma sociedade e o quanto ele acrescenta, instrui e desenvolve socialmente e economicamente no arranjo moderno das cidades, inclusive em uma metrópole como São Paulo.

Camargo (2010) também destaca que o lazer é um tipo de educação informal, numa sociedade que, não apenas através da escola, ou da família, mas também dos seus pontos de encontro, das informações difusas de tevê, jornais, out-doors, cinema, bate-papos, se converte numa sociedade educativa.

Segundo Sassaki (2006), no passado, dentro do âmbito deficiência, não reconheciam que as atividades de lazer e recreação tivessem a mesma importância que um tratamento médico. Emes & Ferris (BROWN, 1998 apud SASSAKI, 2006, p. 105) têm concluído em seus estudos que a prática do lazer de variados tipos pode melhorar o desempenho numa ampla gama de áreas, tais como a saúde a resistência física, a motivação e auto-imagem.

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Os autores supracitados destacam o quanto o lazer exerce uma função importante sobre a sociedade e os cidadãos, deficientes ou não. De acordo com Sassaki (2003) liberdade e opções de escolha são elementos essenciais do lazer, para desenvolver seus próprios talentos, buscar seus próprios interesses e melhorar a sua qualidade de vida. Para isso os deficientes necessitam ter opções de escolher dentre uma grande oferta de oportunidade, para ampliar suas próprias experiências e opções de lazer. Na Carta do Lazer, pela Associação Mundial de Lazer e Recreação – WLRA, o lazer é necessariamente associado à melhoria da qualidade de vida (SASSAKI, 2003), e segundo Pain (2003, apud SASSAKI 2006, p. 33) todo ser humano tem o potencial para uma alta qualidade de vida, independentemente de possuir uma deficiência ou não. Além do descanso e do divertimento, o lazer enseja o desenvolvimento pessoal e social. No teatro, no turismo e na festa, dentre outros, estão presentes oportunidades privilegiadas, porque são espontâneas, de tomada de contato, percepção e reflexão sobre as pessoas e das realidades nas quais estão inseridas. (MARCELLINO, 2006)

1.2 A inclusão do deficiente

Segundo a Lei Federal nº 10.098 de 2000, são considerados deficientes auditivos a pessoa que apresenta limitação, temporária ou permanente, na sua capacidade de relacionar-se com o meio e utilizá-lo.

Existem diferentes graus de deficiência auditiva, e essas variações devem ser levadas em consideração, pois cada grau representa dificuldades e limitações diferentes

Para Sassaki (2003, p. 58)

O termo pessoa deficiente refere-se a qualquer pessoa incapaz de assegurar por si mesma, total ou parcialmente, as necessidades de uma vida individual ou social normal, em decorrência de uma deficiência, congênita ou não, em suas capacidades físicas ou mentais.

Concordando com Sassaki (2003), existem as barreiras e os obstáculos na sociedade, e cabe então a ela elimina-los para que as pessoas com deficiências possam ter acesso aos serviços, lugares, informações e bens necessários para o seu desenvolvimento pessoal, social, educacional e profissional. Este é um direito de todos.

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Estas barreiras que Sassaki define e já citadas no artigo são pontos a serem equacionados. De acordo com o autor (2003) para melhorar a qualidade de vida dos deficientes e adequar às suas necessidades para que eles possam tanto usufruir do serviço como trabalhar também.

Melhor definindo, as barreiras citadas por Sassaki são arquitetônicas, ou seja, lugares que ainda não possuem adaptação como aeroportos, terminais rodoviários, museus, teatros, parques e cinemas, dentre outros. Barreiras atitudinais, isto refere-se à sociedade como um todo e também à decisão política ainda preconceituosa que acaba atrapalhando o desenvolvimento do deficientes. Há também as barreiras comunicacionais, como por exemplo, a não-contratação de um intérprete da língua de sinais nos lugares de maior fluxo, o que automaticamente exclui este público. E, por fim, as barreiras metodológicas, que não levam o deficiente em consideração em forma tradicional, barreiras instrumentais que se refere aos aparelhos e equipamentos do local visitado e barreiras programáticas, existente nos decretos, leis e regulamentos.

Por isso a importância da inclusão dos deficientes na sociedade e o trabalhar da acessibilidade, ou seja, a facilidade de aproximação do deficiente com a sociedade e as pessoas que estão inseridas nela.

Na inclusão, são os sistemas de lazer que devem se adaptar às necessidades da pessoa deficiente, para que ela possa participar juntamente com as pessoas em geral (SASSAKI, 2006, p.106), desta maneira pode-se começar a quebrar as barreiras e abrir espaço para um público. No caso do deficiente auditivo a comunicação é essencial, e o uso da língua de sinais é muito importante para maior liberdade do surdo.

De acordo com Salles (2004):

as garantias individuais do surdo e o pleno exercício da cidadania alcançaram respaldo institucional decisivo com a Lei Federal nº 10.436, de 24 de abril de 2002, em que é reconhecido o estatuto da língua brasileira de sinais como língua oficial da comunidade surda, com implicações para sua divulgação e ensino para o acesso bilíngüe a informação em ambientes institucionais e para capacitação dos profissionais que trabalham com surdos.

Com isso, o surdo também teve seu espaço ampliado na sociedade, podendo ter mais independência e qualidades de vida. Por isso, a importância da aplicação da inclusão

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do deficiente na sociedade e vida cotidiana, pois eles também “são como as demais pessoas e desejam ser incluídas e tratadas como as demais pessoas em recintos comuns” (SASSAKI, 2006).

Para que isso aconteça com sucesso é necessário a articulação de empresas, governo e sociedade, e modificar seus sistemas de lazer para que todas as pessoas, com ou sem deficiência, possam participar juntos de suas atividades nos mesmos locais normalmente.

2. O Shopping Metrô Santa Cruz (SMSC)

O SMSC foi inaugurado em novembro de 2001, e foi um dos primeiros do Brasil a oferecer acesso direto das lojas a uma estação de metrô. Isto facilita e motiva o acesso ao SMSC até hoje (SHOPPING METRÔ SANTA CRUZ, 2012). Além da passagem direta à estação, o Shopping conta com integração ao terminal de ônibus ligado à Estação Santa Cruz e acesso pela Rua Domingos de Moraes.

Localiza-se na Vila Mariana, bairro da zona sul de São Paulo com grande concentração populacional que, segundo informações da subprefeitura do bairro, pertence às classes A e B. O shopping recebe em média 75 mil visitantes por dia.

Atualmente, o shopping dispõe de 127 lojas distribuídas em cinco pavimentos e uma área de lazer composta por 11 salas de cinema da rede Cinemark, uma delas com projeção digital em 3D, com capacidade total para 2.509 pessoas. Há ainda 32 opções de alimentação incluindo três restaurantes e 21 operações de fast food, além de doceiras, cafés e sorveterias.

O estabelecimento oferece 1.057 vagas de estacionamento, assim como vagas para deficientes físicos, idosos e telefones para deficientes auditivos. Outra facilidade é a existência de conexão sem fio à internet em todos os pisos. O SMSC dispõe de um ambulatório, armários para motociclistas, bicicletário, cadeiras de rodas e cadeiras de das motorizadas gratuitamente, carrinhos de bebê, fraldário e um laboratório clínico.

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Depois de entender a importância que o lazer possui na vida de qualquer pessoa, foi feita uma pesquisa de campo dentro do Shopping Metrô Santa Cruz com os deficientes auditivos, para identificar o porquê da grande procura deste público ao Shopping.

Um formulário com perguntas abertas e fechadas (Apêndice 1) foi aplicado aleatoriamente em 40 deficientes auditivos maiores de 18 anos dentro do SMSC aos sábados à noite, principalmente na Praça de Alimentação, onde há uma grande concentração de deficientes auditivos. A pesquisa foi realizada nos meses de outubro e novembro de 2010, foram necessários 5 sábados para aplicar as entrevistas no shopping e finalizar a pesquisa, com um tempo médio de 4 a 5 minutos por deficiente entrevistado.

A entrevista foi feita em LIBRAS, portanto o questionário foi interpretado para tal linguagem pela entrevistadora e as respostas dadas pelos deficientes foram interpretadas para o português, pois a linguagem possui certas limitações e diferenças em relação à língua portuguesa.

É importante recordar que a entrevista não é uma simples troca de perguntas e respostas, pois existem vários graus de deficiência auditiva e o sujeito, ao se expressar, baseia-se em seu conhecimento em LIBRAS, suas experiências de vida e a influência do ambiente.

Por estas limitações e diferenças citadas acima que houve maiores dificuldades na aplicação do questionário pela entrevistadora, como cada deficiente possui um conhecimento e experiência, foi necessário a adaptação das perguntas de acordo com o grau de entendimento de cada surdo.

Alguns conceitos utilizados para elaboração das perguntas não foram bem entendidas pelo público entrevistado, uma vez que os significados das palavras motivação e o costume de fazer algo no shopping misturavam-se facilmente, dificultando a explicação do objetivo dos questionamentos e diferenças entre eles.

Das 40 pessoas entrevistadas, 65% eram homens e 35% mulheres, com idades que variam de 18 a 25 anos (30%), 26 anos a 30 anos (30%) e de 31 anos a 45 anos (40%).

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Quanto ao grau de escolaridade 35% tinham ensino fundamental completo e 50% o ensino médio completo, 10% tinham ensino superior completo e 5% eram analfabetos. A localização do SMSC também influencia muito: por estar integrado ao metrô isto facilita o acesso, e os dados abaixo demonstram que é o meio de transporte mais utilizado pelos entrevistados.

Gráfico 1 – Principal meio de transporte utilizado para chegar ao SMSC

No quadro a seguir estão apresentados os principais resultados da pesquisa:

Quadro 1 – Principais resultados da pesquisa com surdos no SMSC

A maioria dos entrevistados, ou seja, 75% residem na cidade de São Paulo, o restante se divide entre as proximidades da cidade e a região do ABC.

60% utilizam o metrô como principal meio de transporte na chegada ao SMSC

60% dos deficientes avaliaram as lojas, cinema, alimentação e acessibilidade como “bom” ou “ótimo”.

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75% disseram que sempre vão acompanhados de alguém ao shopping, deste total 40% afirmaram que seus acompanhantes são familiares ou companheiros.

40% dos entrevistados freqüentam o shopping uma vez por semana, 25% afirmam ir duas vezes por mês, outros 30% frequentam pelo menos 1 vez por mês e apenas 5% disseram ir um dia sim e outro não.

65% dos deficientes possuem como maior motivação o encontro com amigos/parentes na ida ao shopping e 25% usufruir de seus serviços em geral.

60% dos deficientes moram com pais/familiares, 30% com companheiro/a e o restante 10% moram sozinhos ou com amigos.

65% dos entrevistados estão empregados.

45% possuem renda familiar entre três e seis salários mínimos, 25% possuem renda familiar de um a três salários mínimos e 30% não quiseram responder a esta pergunta.

Um dado interessante de se analisar é o fato de, mesmo tendo suas instalações bem avaliadas, a maioria dos entrevistados afirmou ter algum tipo de dificuldade no uso desses espaços.

O gráfico a seguir mostra que 65% dos entrevistados disseram que possuem dificuldades, e quando questionado sobre “o quê”, em todas as respostas a comunicação aparece de alguma maneira.

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Gráfico 2 – Dificuldade no uso dos serviços do SMSC

Quando questionados sobre como superam ou contornam esta dificuldade, 85% disseram apontar o que deseja ou explicar por meio de gestos / escreverem o que querem e 15% disseram chamar alguém para ajudar.

Alguns dos comentários a respeito do atendimento nas lojas e serviços do SMSC feitos pelos entrevistados foram:

 “Já estamos acostumados, os atendentes normalmente tem bastante paciência, fazemos mímicas e apontamos o que desejamos, não tenho problemas com isso”;

 “Repito várias vezes, mostro no cardápio, se necessário escrevo o que quero. No caso de roupa, mostro, experimento e se eu gostar eu levo”;

 “Já estou acostumada, faço tudo sozinha, só se for comprar algo na farmácia ou passar um cheque prefiro ir acompanhada para caso de um imprevisto”.

Estes exemplos mostram que os surdos se adaptam bem nas atividades casuais, mas reconhecem que problemas de comunicação existem. Eles mostram que realmente conseguem realizar muitas tarefas mas que, para serviços em que não há um contato visual direto com o objeto de consumo, necessitam da ajuda de alguém.

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Dentre os entrevistados, 75% disseram ir sempre acompanhados ao shopping, a maioria com amigos e familiares, eventualmente para facilitar a superação das barreiras de comunicação.

Quando questionados sobre o que costumam fazer quando freqüentam o shopping 60% afirmaram que vão mesmo para conversar, passear e comer com os amigos. Alguns comentários foram: “É bom sair de casa, conhecer gente nova ou rever os amigos em um lugar perto do metrô”, “Gosto de praticar LIBRAS, sempre aprendo sinais novos”, outro comentou “gosto de ir no cinema com minha namorada e fazer umas compras”. Como maior motivação de ida ao shopping, a maioria (65%) respondeu que vai para encontrar e conversar com familiares ou amigos, ou seja, o maior interesse dos surdos dentro do shopping é o encontro e sociabilização com pessoas. As compras, embora seja a motivação principal para um quarto dos entrevistados, é menos importante que o encontro entre as pessoas.

Mais de um terço dos entrevistados (40%) frequenta o SMSC semanalmente, e outros 25% quinzenalmente. Isto pode indicar a preferência pelo local não apenas por ter se tornado um hábito para essas pessoas, mas também por satisfazê-las, ao menos em parte.

Com relação à renda e o nível de escolaridade, mesmo considerando-se que parte dos entrevistados recusou-se a responder essas perguntas, pode-se dizer que estes dois índices encontram-se abaixo dos patamares médios do bairro, o que pode ter relação com o local de residência dos surdos freqüentadores do SMSC, ou seja, eventualmente fora da Vila Mariana. Esta hipótese ganha validade considerando-se que 75% dos respondentes fez uso de transporte coletivo para chegar ao Shopping.

Deve-se ressaltar que tanto o baixo nível de escolaridade de parte dos entrevistados como também a própria falta de entendimento e conhecimento de termos relacionados ao lazer e ao entretenimento, dificultou a realização de algumas entrevistas e a coleta de dados. Por exemplo, os conceitos de avaliação (“ótimo”, “bom” e os demais) são muito relativos para os surdos, já que o simples fato de conseguir se comunicar com um não surdo e conseguir o que se buscou (comprar um bem) representa sucesso. Isso mostra que a simples “tradução” do questionário, eventualmente, não é suficiente para a obtenção de respostas válidas, e mostra que há uma necessidade real de pesquisas

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mais aprofundadas com esse tipo de público, especialmente para que se desenvolva uma forma de comunicação em que o diálogo flua melhor.

2.2 Resultado da pesquisa com o gestor do SMSC

Na conversa com um dos administradores do shopping, ele afirmou que os gestores possuem conhecimento dos encontros de grupos de surdos no SMSC, mas que não possuem nenhum projeto para melhoria das condições de atendimento exclusiva deste público, como por exemplo, filmes nacionais com legendas.

O representante comenta que os surdos são como todos os demais clientes: consomem e acabam freqüentando o SMSC não só de sábado onde o fluxo de surdos é maior, mas também durante a semana.

Confirmou-se, durante a entrevista, que o local não conta com serviços ou equipamentos diferenciados para este público, mas o gestor comenta: “Os nossos funcionários estão dispostos a ajudá-los no que precisar e nossos seguranças, pela experiência vivida com os surdos aqui no shopping, acabaram aprendendo alguns sinais”.

O administrador explica que o shopping está num ponto bem localizado, perto de clínicas e hospitais, e por isso recebe durante toda a semana pessoas com vários tipos de deficiências, e que estão preparados para recebê-los. O SMSC possui acessos para cadeirantes, avisos sonoros nos elevadores para cegos e o telefone para deficientes auditivos como principais dispositivos para atendimento a outras deficiências.

Considerações Finais

Embora não tenha sido planejado necessariamente para tal fim, o Shopping Metrô Santa Cruz, assim como muitos outros centros de compra semelhantes, tornou-se espaço de encontro das pessoas que vivem nas grandes cidades. Os jovens, em particular, são bastante cativados pela estrutura do shopping, e isso não é diferente com o público de deficientes auditivos. Estes grupos invariavelmente se interessam ou

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se envolvem com o consumo além das necessidades, se divertem em parques de diversão e desfrutam de dezenas de serviços nas praças de alimentação.

Tais hábitos, não exclusivos dos surdos, mas de todas as pessoas que se sentem ameaçadas com a crescente violência urbana, são constrangidos a se agregar nesses paraísos de consumo. A falta de espaços públicos de convivência e principalmente a carência de segurança urbana, são problemas ainda mais sérios para os surdos, que se encontram numa situação de fragilidade física e ainda representam um grupo minoritário na sociedade. Portanto, os encontros com grupos de pessoas aptas ao seu tipo de comunicação são mais raros e possuem dificuldades de comunicação com ouvintes, o que os torna alvo fácil de diversos crimes e acabam vivendo em ambientes isolados, em que há regras e limites diferentes da sociedade, dificultando sua socialização.

A LIBRAS é um elemento essencial na socialização. Não é possível existir socialização sem meios de internalizar as coerções sociais; assim a LIBRAS é um meio de comunicação para grupos que se encontram no SMSC, grupos os quais os surdos medem suas ações e fornecem os padrões em que aspiram.

O shopping é uma opção segura e bem localizada que o deficiente auditivo encontra dentro da cidade de São Paulo para ter seu momento de lazer. Possibilita a ele ir ao cinema, fazer compras, aprender ou treinar LIBRAS e, principalmente, se encontrar com outras pessoas. O SMSC proporciona esses elementos em diversos equipamentos e serviços, em que pese problemas como a falta de legendas em filmes nacionais e o fato dos funcionários das lojas, das lanchonetes, restaurantes não possuírem capacidade de se comunicar em LIBRAS. Assim, os surdos devem se adaptar às atividades propostas sob o risco de serem, outra vez, excluídos.

Os gestores do SMSC reconhecem que o público deficiente auditivo freqüenta o local, mas não tem qualquer ação programada no sentido de melhorar o atendimento para os surdos. Por outro lado, parece que tanto os gestores como os surdos não se importam com esta situação, pois a administração entende que todos conseguem consumir no shopping independentemente das dificuldades de comunicação e, segundo as entrevistas com o público, estes de alguma forma contornam as situações mais delicadas e conseguem aproveitar a visita.

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Como já relatado, mesmo a autora sendo capacitada em LIBRAS houve problemas de comunicação com os entrevistados, visto que estes não entenderam alguns dos conceitos utilizados. Isto demonstra que não apenas mais pesquisas devem ser feitas com este público, não só no SMSC, mas em equipamentos de lazer em geral, até para que se desenvolva uma metodologia capaz de coletar dados mais apurados ou mais fidedignos.

Definitivamente os shoppings centers não foram planejados para desempenhar um papel social, promovendo centros de convivência ou criar formas de inclusão, mas o que muitos gestores dos shoppings não percebem é que com medidas de inclusão e socialização tal público diferenciado poderia se atrair outros consumidores em potencial. Tanto no SMSC, em que o público deficiente auditivo já é uma realidade, como nos demais, a melhor acessibilidade a serviços como a inclusão de legenda e janela de LIBRAS em todos os filmes, incluindo os nacionais; o treinamento dos funcionários das lojas e do shopping em LIBRAS e a criação de um espaço próprio para convivência, e não somente na praça de alimentação como ocorre, dentre outras medidas, poderiam favorecer um maior uso e consumo dos serviços oferecidos nestes centros e, ao mesmo tempo, facilitar a inclusão através do lazer para os surdos.

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Referências

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SALLES, Heloísa Maria M. L. (et al). Ensino de língua portuguesa para surdos: caminhos para a prática pedagógica, v.2. Brasília: Programa Nacional de Apoio à Educação dos Surdos, 2004.

CAMARGO, L. O. L. O que é lazer. São Paulo: Brasiliense, 2010.

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS. Disponível em:

<http://portal.mj.gov.br/sedh/ct/legis_intern/ddh_bib_inter_universal.htm>. Acesso em: 02 out. 2011.

DUMAZEDIER, Joffre. Lazer e cultura popular. São Paulo: Perspectiva, 2000. DUMAZEDIER, Joffre. Sociologia empírica do lazer. São Paulo: Perspectiva, 2008. FREITAS, M. T. A. A abordagem sócio-histórico como orientadora da pesquisa

qualitativa. São Paulo: Cadernos de Pesquisa, v. 1, 2002.

KRIPPENDORF, Jost. Sociologia do Turismo. 3 ed. São Paulo: Aleph, 2006.

MARCELLINO, N. C. Estudos do lazer: uma introdução. 4. ed. Campinas: Autores Associados, 2006.

MINAYO, M. C. de Souza. Pesquisa social – teoria método e criatividade. Rio de Janeiro: Vozes, 1998.

MINAYO, M. C de Souza (Org.). Pesquisa social: teoria método e criatividade. 22 ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2003.

SALLES, Heloisa Maria Moreira Lima. Ensino de Língua Portuguesa para Surdos vol.2 - caminhos para a pratica pedagógica. Brasília: Programa Nacional de Apoio à Educação de Surdos, 2004.

SASSAKI, Romeu Kazumi. Inclusão: construindo uma sociedade para todos. Rio de Janeiro: WVA, 2006.

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SHOPPING METRO SANTA CRUZ. Disponível em:

<http://www.shoppingmetrosantacruz.com.br>. Acesso em: 15 out 2011.

SUBPREFEITURA DE SÃO PAULO. Disponível em:

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Apêndice 1 – Questionário aplicado junto aos deficientes auditivos no SMSC

Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo – IFSP Questionário

Rúbia Malagrino Breda Data: ___/___/2010 (Entrevistar somente maiores de 18 anos)

1.Você reside na cidade de São Paulo? ( ) sim

( ) não.

Onde? ________________________ 2.Sexo:

( ) Masculino ( ) Feminino

3.O que você costuma fazer quando vem ao Shopping Metrô Santa Cruz?

___________________________________ ___________________________________

4.Como deficiente auditivo, qual a sua avaliação dos seguintes itens?

Lojas ( ) Ótimo ( ) Bom ( ) Regular ( ) Ruim ( ) Péssimo

Cinema: ( ) Ótimo ( ) Bom ( ) Regular ( ) Ruim Alimentação: ( ) Ótimo ( ) Bom ( ) Regular ( ) Ruim ( ) Péssimo

Acessibilidade: ( ) Ótimo ( ) Bom ( ) Regular ( ) Ruim ( ) Péssimo

5.Que tipo de transporte você utilizou em seu trajeto ao SMSC nesta visita? ( ) A pé ( ) Carro ( ) Moto ( ) Ônibus ( ) Metrô ( ) Trem CPTM ( ) Táxi ( ) Carona ( ) Outros _________

6.Como deficiente auditivo, possui alguma dificuldade para usar ou obter algum serviço/informação no Shopping?

( ) Não ( ) Sim.

Qual ou o quê? ____________________

7.Se possui alguma dificuldade, como contorna ou supera isso?

___________________________________ 8.Você vem sozinho ao shopping?

( ) Sim

( ) Não. Com quem? ___________________

9.Com que freqüência você vem ao Shopping Metrô Tatuapé?

( ) Diária

( ) Dia sim, dia não ( ) Uma vez por semana ( ) Duas vezes por mês ( ) Uma vez por mês

( ) Outra ___________________________

10. Qual sua maior motivação para vir ao shopping? ( ) Proximidade da residência ou trabalho

( ) Encontrar amigos e parentes ( ) Lojas e serviços em geral

( ) Lojas e serviços que atendem surdos ( ) Tem o que procuro. O que? ___________ ____________________________________ 11. Idade ___________

12.Grau de Escolaridade: ( ) Analfabeto

( ) Ensino Fundamental Completo ( ) Ensino Médio Completo ( ) Ensino Superior Completo ( ) Pós-Graduação Completo 13.Você mora:

( ) Com os pais/ familiares ( ) Sozinho

( ) Companheiro/a ( ) Amigos

( ) Outros _________

14.Se mora com alguém, existem outras pessoas surdas com você? Quantas?

( ) Sim __________ pessoas ( ) Não

15.Você trabalha atualmente? ( ) Sim ( ) Não 16.Renda Total Familiar:

( ) de R$ 510,00 a R$1.530,00 (1 a 3 S.M.) ( ) de R$ 1.530,00 a R$3.060,00 (3 a 6 S.M.) ( ) de R$ 3.060,00 a R$ 4.590,00 (6 a 9 S.M.) ( ) mais de R$ 4590,00 __________________

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