Ministérioda Cultura
Institutodo Património Históricoe Artístico Nacional Departamentode Museuse Centros Culturais Pr e s id e n t ed a Re p ú b l ic a
Luiz Inácio Lula da Silva
Min is t r od a Cu l t u r a Gilberto Passos Gil Moreira
Pr e s id e n t ed o Ip h a n Luiz Fernando de Almeida
Dir e t o rd o De p a r t a m e n t od e Mu s e u se Ce n t r o s Cu l t u r a is José do Nascimento Júnior
Dir e t o rd e Pa t r im ó n io Ma t e r ia l Dalmo Vieira Filho
Dir e t o r ad e Pa t r im ô n io Im a t e r ia l Márcia Genesia de SanVAnna
Dir e t o r ad e Pl a n e j a m e n t oe Ad m in is t r a ç ã o Maria Emília Nascimento dos Santos
Pr o c u r a d o r a-c h e fe
Tereza Beatriz da Rosa Miguel
Co o r d e n a d o r ag e r a ld e Pr o m o ç ã od o Pa t r im ó n io Cu l t u r a l Thays Pessotto de Mendonça Zugliani
Co o r d e n a d o r ag e r a ld e Pe s q u is a, Do c u m e n t a ç ã oe Re f e r ê n c ia Lia Motta
G a r a m o n d
I U N I V E H B I T Á H I A j
Coordenação
Maria Alzira Brum Lemos
Conselho Editorial
Bertha K. Becker Cândido Mendes Cristovam Buarque Ignacy Sachs Jurandir Freire Costa Ladislau Dowbor Pierre Salama
Editora Garamond Ltda.
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Santos, Myrian Sepúlveda dos.
A escrita do passado em museus históricos. - Rio de Janeiro : Garamond, MinC, IPHAN , DEMI), 2006.
144 p.; 16 x 23 cm. - (Coleção Museu, memória e cidadania) Originalmente dissertação (Mestrado) defendida no IUPERJ, 1984. ISBN 85-7617-112-6
1. Museus. 2. Museus históricos. 3. Museologia. 4. Museografia. 5. Coleções. 6. Objetos de Arte. 7. Museu Histórico Nacional (Brasil). 8. Museu Imperial (Brasil). I. Titulo. II. Série.
V
CDD 069 0981Coleção Museu, Memória e Cidadania
Coordenação: José do Nascimento Júnior e Mário Chagas
Ed it o r a ç ã o
Claudia Maria Pinheiro Storino
As s is t ê n c iae d it o r ia l
Ana Gabriela Dickstein Roiffe e Tatiana Kraichete Martins
Pr o je t og r á f ic o, c a p a ed ia g r a m a ç á o
Reuquras:
o
cuLto ao passado
0 ‘c u l t o d a s a u d a d e’1. 1988.
0 culto da saudade
Verifica-se, com tristeza e a cada passo, que no Brasil quase não há o culto das tradições. Aqui no Rio são às centenas os exemplos deste asserto As maiores relíquias da nossa tradição andam esparsas e ao abandono (...) É um descaso que se tom a crime (...).
ste capítulo fará uma análise mais próxima de alguns dos as- pectos da historiografia trabalhada no MHN durante a gestão de Gustavo Barroso. A instituição, ainda que tivesse como berço a Expo sição Internacional de 1922 - que, como visto, voltava-se para o estabe lecimento de uma identidade nacional com base na modernidade e no progresso -, apresentou uma concepção de história vinculada à questão da nacionalidade e ao “culto da saudade”. A perspectiva de cultuar e manter viva a tradição mantinha-se fiel a uma concepção de tempo descontínua e a uma metodologia que tinha ainda como pressuposto básico a memória, ignorando as tendências de uma historiografia mais atual,já presente no Brasil daquela época, que procurava romper com a perspectiva memo- rialista e fundamentar-se na impessoalidade de um método científico de caráter universalizante.
A produção historiográfica brasileira nasceu e institucionalizou-se tentando integrar o “velho” e “novo”. Manoel Luís Salgado Guimarães,1 ao reconstruir a formação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), em 1838, aponta como sua característica, ao lado de padrões supra nacionais próprios de um “velho” ideal iluminista europeu, a preocupação novecentista, incentivada pelo Estado Imperial brasileiro, de contribuir
para a definição de uma nacionalidade. Na história empreendida no MHN, também o estabelecimento da nacionalidade convive com pretensões de cientificidade, ou seja, o desejo nostálgico do romantismo de reviver o passado convive com o desejo de comprovar a veracidade deste passado.2 O “velho” e o “novo" continuaram a se entrelaçar, acompanhando o mo vimento de uma sociedade que trazia consigo as defasagens geradas pelos problemas estruturais herdados do passado.
Dedicou-se o MHN à memória da “nação”, por meio do passado, igno rando causas e explicações mais gerais para os fatos históricos. O “culto da saudade” teve como base objetos que remetiam a uma experiência de nação que não mais existia. É como se o arcabuz trazido para o Museu, por sua autenticidade, fosse parte de uma realidade maior, de uma luta de delimitações de fronteiras, de estabelecimento do poder, da força e da autoridade daquele país - uma referência metonímica do todo. O elo entre o passado e o presente foi construído pelo desejo da experiência que os fragmentos recolhidos do mundo real possibilitavam.
A arm a, no entanto, ao ser extraída do seu contexto original, morre e perde seu significado, e sobre esta morte é que se constrói a possibilidade de contato com o passado. Como nos diz Stewart,3 “para ressuscitar os mortos, o antiquário precisa primeiro tê-los matado . Walter Benjamin, em seu artigo clássico “A obra de arte na época de suas técnicas de repro dução”,4 ressalta, como conseqüência da revolução tecnológica e da socie dade de massas, a emancipação da obra de arte do rito e da tradição. Nos museus de história também os objetos autonomizam-se; a experiência, a relação homem-natureza, é substituída pela articulação do simbólico em torno do que é antigo, exótico ou raro.
Podemos dizer, portanto, que com o arcabuz não há o retorno à expe riência do passado, muito menos sua representação, uma vez que aquele °bjeto é apenas parte de uma vivência anterior e maior; o arcabuz como Parte do todo será capaz apenas de trazer a lembrança, de fazer com que Se evoque o passado ao qual ele já pertenceu. Esta autenticidade, esta c°ndição metonímica de ser, acarreta a capacidade simbólica do objeto, ’jue, uma vez signo, como qualquer forma da narrativa, torna-se uma
2. Stewart (1984, p. 140). ao escrever sobre a teoria da história presente no antiquarianismo, aponta a existência de movimentos ambíguos, pois; ”o antiquarianismo sempre apresenta uma ambivalência funcional; nós encontramos em sua base ou o desejo do romanticismo ou desejo político de autenticação”. 3. 1984, p. 143. 4. 1983.
5. Hay, 1977. p. 169 85
6. As informações biográficas sobre Gus tavo Barroso foram retiradas de Beloch e Abreu (1984. p. 335-338).
construção do presente. É uma amostra apenas e, como tal, não é capaz de recuperar o sistêmico ou global, porque, se o fizesse, negaria sua con dição de parcialidade.
Os historiadores do Museu Histórico Nacional ignoraram o tempo como continuum e, consequentemente, a especificidade de cada momen to e a expectativa de compreensão global da realidade. Apoiaram-se em símbolos de um passado nacional: estandartes, espadas ou simples re miniscências de nossos avós, bem como na capacidade que os objetos recolhidos possuíam de evocar lembranças; apoiaram-se na memória. A busca do “autêntico” em testemunhos materiais procurava dar à histó ria um caráter de cientificidade. No MHN, a numismática e a heráldica dividiam prestígio com a história. Como os antiquários do século XVII e do início do século XVIII,5 Barroso procurou estudar cientificamen te medalhas, brasões, selos, moedas, escavações arqueológicas e tudo o mais. Questionou textos consagrados e procurou encontrar neles novos significados e interpretações por meio do estudo filológico, como o fez com a palavra “Brasil”. Duvidou da autoridade dos documentos narrados e priorizou inscrições e vestígios materiais da história. Apoiou o estudo de genealogias. O “culto da saudade” uniu, portanto, o culto à nação à pesquisa sistematizada e baseada nas fontes materiais, cujos principais méritos os historiadores herdaram dos antigos antiquários.
Embora o MHN não se restrinja ao pensamento e atuação de Gustavo Barroso, é inegável a influência deste na sua estruturação. Ao longo dos anos em que esteve à frente do MHN, Barroso imprimiu sua perspectiva política à instituição, acompanhando de longe as transformações na con juntura nacional, que se alteravam consideravelmente.6
Ao assumir a direção do MHN, Gustavo Dodt Barroso, cearense, nascido em 1888,já acumulava uma série de atuações na vida política do país, tendo sido eleito deputado federal em 1915, secretário da delegação brasileira à Conferência de Paz em Versalhes e inspetor escolar do Distrito Federal em 1919. Em 1930, Barroso apoiou a candidatura dejúlio Prestes à Presidência da República, sendo por isso afastado do Museu por dois anos. Em 1933, aderiu à Ação Integralista Brasileira (AIB), que, no mesmo ano, tornou-se
7. Barroso (1932 e 1942), ao defender a criação de um museu ergológico, faz men ção a sua atuação em defesa do património.
8. Guimarães (1988) mostra que Var- nhagen foi um dos primeiros autores a fundamentar a identidade nacional brasileira a partir da colonização branca e européia, defini ção esta que exclui qualquer sinal da con tribuição de negros e índios no projeto civilizatório. Sobre o tema, ver também Odálio (1979).
partido político. Dedicando-se totalmente ao integralismo, destacou-se por ser o teórico mais próximo da doutrina alemã, contrapondo-se até mesmo a Plínio Salgado, por sua defesa intransigente do anti-semitismo. Em Quarto
Império, livro que talvez melhor sintetize suas idéias políticas, Barroso ar
riscaria-se mesmo a dizer que o fascismo no Brasil seria multirracial, uma amálgama das raças branca, negra e indígena. Foi autor, também, de vários livros que procuravam recuperar as origens étnicas brasileiras, exaltavam o folclore e combatiam de várias maneiras o “estrangeirismo”. Lutou pela adoção de muitas medidas que visavam à defesa do patrimônio histórico e artístico da “nação”: não só a criação do MHN, como o estabelecimento da Inspetoria dos Monumentos Nacionais e a restauração de Ouro Preto.7 Apesar de apoiar a implantação do Estado Novo, participou, no ano seguinte, da tentativa de sublevação por parte dos integralistas. Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, ao lado das forças aliadas, Barroso afastou-se da política e concentrou sua atuação no MHN, conso lidando a publicação dos seus Anais.
Da imensa obra literária deixada por Barroso, que inclui crônicas, ro mances, poesias, peças de teatro e ensaios variados sobre integralismo, história, folclore, são os escritos sobre museus que serão enfocados aqui. Neles, percebe-se nitidamente a preocupação do autor em estabelecer por intermédio do Museu um marco nacionalista com base no culto às tradições. O modelo adotado é aquele centralizado e hierárquico implantado pelo Es tado Imperial Português no Brasil. Há a valorização de uma etnia peculiar, autóctone, que deveria incorporar negros, índios e mestiços. Apesar da valo rização do folclore nacional, este não ocupava espaço privilegiado no MHN e deveria conquistar uma representação em instituição própria. Ao propor um modelo para a “nação brasileira”, Barroso distancia-se, por exemplo, de Varnhagen - um dos primeiros historiadores a procurar fundamentar a identidade nacional brasileira a partir da colonização branca e européia e da exclusão da contribuição de negros e índios no projeto civilizatório.8 Para Barroso, a narrativa desenvolvida no Museu não fundamentava novas bases na construção da nação, mas apenas evocava e cultuava um passa do já existente, autêntico. O caráter disciplinar e científico da narrativa
defendida associava-se à ênfase aos episódios singulares das campanhas militares e à lógica da minúcia e do detalhe. Josué Montello,9 sucessor de Barroso, assim analisa a obra deste: “era ele mais o homem erudito, com o domínio do saber minucioso, do que o homem culto, com o domínio do saber do conjunto, que leva às leis e aos sistemas. (...) Via bem a minúcia, o aspecto escondido, para daí extrair as suas convicções (...)’’.
Interessado em acontecimentos pontuais, notadamente aqueles que pudessem acentuar o caráter nacional sob o prisma dos feitos militares, Barroso e sua equipe liam inscrições, vasculhavam o sertão buscando indícios da vida passada, estudavam arqueologia e pesquisavam a origem dos objetos. O saber que lá era desenvolvido não mantinha um entrosa- mento maior com os meios universitários. Em suma, o “culto da saudade” representou a tentativa de consolidar uma tradição nacional por meio de objetos que, por serem valorizados como autênticos fragmentos do passado, funcionavam como símbolos poderosos dos “heróis” eleitos por uma parte da elite dirigente.
A
HISTÓRIA DA ‘n a ç ã o’Dias após a sua nomeação como diretor do Museu Histórico Nacional, Barroso10 proferiu um discurso em que evidenciou sua opção por uma história de cunho militarista e pelo modelo de “nação” instaurado à época do Império:
Para felicidade nossa, acabou-se no Brasil a era do descaso pelo nosso passado. Coube ao Lxm o. Sr. Presidente Epitácio Pessoa a glória de ter instituído no seu país natal, cujas tradições tanto o estreito sectarismo positivista se tem esforçado por matar, o Culto da Saudade. Ele o iniciou, revogando o banimento da Fam ília Impe rial e fazendo com que viessem repousar na pátria querida as cinzas daquele que, durante meio século de bondade, dirigira seus destinos. Ele o cimenta instituindo o Museu Histórico, que custodiará as lembranças mais importantes da nossa vida m ilitar, naval, política e social, durante os mais notáveis períodos. E ele term inará a obra fazendo renascer na sua fita azul a estrela de cinco pontas dessa ordem ge nuinamente nacional do Cruzeiro, que brilhou sobre o fardão de nossos melhores estadistas e sobre o largo peito de nossos heróis.
9. 1989.
10. Apud Dumans, 1940, p 212.
11. Barroso, 1938, p. 117.
12. 1938, p. 250.
13. 1984, vol. 1, p. XX.
Já neste texto, temos algum indício de como o conceito de nação apre sentava-se no discurso de Barroso. Apesar de procurar uma amálgama de raças que forjasse o homem brasileiro e de estabelecer o que seria um perfil estritamente nacional, Barroso não associava integração a igual dade de direitos. Para ele, o modelo da nação brasileira aparecia sempre identificado ao modelo de Estado Imperial. Esta perspectiva está presente tanto nas exposições do MHN, como em livros, dentre os quais destaca-se a História militar do Brasil, de 1938. Para ele," “a verdadeira história militar do Brasil começa com a Nação e a Nação surge no dia em que a coroa da Metrópole vem para o continente americano. Até então, éramos simples Colônia. Depois, somos um Reino".
Ou ainda12:
Estava finda a guerra. O Brasil Im perial varrera do Prata seu derradeiro caudilho de grande vulto. Essa obra demandara grandes sacrifícios, mas plasmara numa só al ma os brasileiros de todas as Províncias. Foi preciso que a República as transformasse em Estados para desuni-las pela politicagem das hegemonias regionais. A força, porém, dessa coesão dum grande povo continua latente. É necessário despertá-la para novos prodígios!
Para Barroso, portanto, somente o Estado Imperial foi capaz de uni ficar os brasileiros em uma grande nação. Ele deixa aparente sua grande insatisfação com a descentralização que o governo republicano promoveu. O MHN guardava objetos, símbolos de uma nação brasileira que não se voltava para o progresso ou para os caminhos imprevisíveis que o advento da República trazia, mas, antes, para o Estado Imperial Brasileiro.
A história nacionalista do MHN constituiu-se com base na lembrança de um passado heróico, e não se pode dizer que a memória que a institui ção salvou fosse parte de uma forte tradição coletiva. A herança escravista e latifundiária do país que está por trás desta memória trabalhada pelo Museu perpetua-se sem nunca chegar a ser expressão de parte signifi cativa da população, mantendo-se sempre presa a determinados setores de uma sociedade que se encontra, até hoje, bastante segmentada. Pierre Nora, em seu livro Les lieux de mémoire,n afirma que “a história, e mais precisamente a história do desenvolvimento nacional, constituiu a mais
forte de nossas tradições coletivas, por excelência nosso milieu de mémoi-
re". Evidentemente, a história nacionalista brasileira não tem o peso da
tradição herdada pela história da França, que tem na sua origem uma revolução de repercussões mundiais. Mas, tal como a história nacionalista francesa, tem por base a memória e talvez seja, também, uma das últimas encarnações da história-memória.H
A consolidação dessas idéias parece tom ar forma na organização do MI IN e no resgate das peças que, de uma forma ou de outra, tinham algum significado coletivo. 0 vínculo entre as idéias políticas de Barroso e as exposições do Museu Histórico Nacional é reiterado, por exemplo, no prefácio de História militar do Brasil, quando ele afirma que seu livro é o resultado de uma cam panha nacionalista iniciada em 1911, data em que lançou a idéia da fundação de um museu histórico de caráter mi litar. Barroso associava suas aulas sobre história militar do Brasil, que eram dadas no curso de extensão universitária do MHN, àquelas pelas quais ele fora responsável na Escola de Oficiais da Milícia Integralista do Distrito Federal.15
Barroso durante muitos anos foi professor da cadeira “História Militar do Brasil” no Curso de Museus, criado em 1932, com o objetivo de formar profissionais especializados no trabalho em museus. A opção pelo “culto ao passado” e ojulgamento que valida o resgate de fragmentos do passado estão claros não só nos discursos aqui reproduzidos, como também na fei ção do Museu em suas primeiras décadas, que, tal como Barroso defendera muitos anos antes, procurou resgatar a imagem de uma nação brasileira com base em glórias passadas. Como veremos a seguir, armas, bandeiras, escudos e uniformes aparecerão lado a lado com retratos e homenagens a Caxias, Osório e Pedro II. A nação brasileira não era, definitivamente, aciuela das grandes indústrias. Não seriam estas que levariam o país a um desenvolvimento sem precedentes, ao futuro a ser construído. Barroso Valorizava a “estrela de cinco pontas dessa ordem genuinamente nacional do Cruzeiro, que brilhou sobre o fardão de nossos melhores estadistas e s°bre o largo peito de nossos heróis".“’
O MHN das primeiras décadas, por sua orientação m ilitarista e de
14. Segundo Nora. "A naçáo náo é mais um combale, mais um dado, a história se tor nou uma ciência so cial; e a memória um fenômeno puramente privado A naçáo- rnemóna teria sido a última encarnação da história memória" (1984, p. XXIII). 15. Ao escrever a his tóna militar do Brasil. Barroso afirma que "Este livro é o resulta do duma campanha nacionalista que ini ciei há vinte e quatro anos. em 1911. pelo 'Jornal do Comércio', quando lancei a idéia da fundaçáo dum Museu Histórico de caráter militar. (, ) O resumo histórico de nossas campanhas contido neste volume foi constituído com a série de liçòes sobre História Militar do Brasil, dadas no Curso de Extensáo Univer sitária do mesmo Museu em 1933. que repeti cm 1934 na Escola de Oficiais da Milícia Integralista do Distrito Federal" (1938. prefácio). 16. Idem. ibidem.
17. Bazin, 1987, p 269.
18. Revista do Serviço
Público, ano 7, n. 1 .
1944
exaltação à nação, pela valorização do popular e do folclórico, bem como pela primazia dada aos objetos considerados autênticos, desde roupas e jóias velhas até troféus de guerra, tem identidade com diversos museus militaristas encontrados na Europa, todos eles profundamente influen ciados por uma perspectiva histórica romântica. Segundo Bazin:
o sentimento da pequena pátria era considerado como parte da grande, o museu se regionaliza, se m iniaturiza, valorizando a riqueza do condado, o espírito do homem comum, a antigüidade da indústria, a poesia dos antigos costumes populares, tudo o que é pequeno engrandece a Alem anha.I?
A história nacionalista do Museu era uma história isenta de crítica, de racionalidade, ou mesmo de um cunho universalizante. Barroso não hesitou em caracterizar o período do Império como sendo um século de bondade. Manteve - tal como Francisco Adolfo Varnhagen - tanto o modelo do Estado Imperial português como uma história de tom épico, classicizado, de grandes heróis. A história que escrevem Varnhagen e Barroso não pressupõe uma isenção de julgamento em relação ao pas sado. Ela é passional, valorativa. A proposta de Barroso era a de que o MHN custodiasse as lembranças dos atos mais notáveis, atos estes que se corporificavam nas campanhas militares. Sua perspectiva histórica não buscava, aparentemente, o realismo dos fatos, ou mesmo o seu cotidiano, mas voltava-se para resgatar do passado o que acontecera de importante, o que se distinguia. A ênfase no folclore, ou no museu ergológico, insere- se nesta recuperação do pequeno que constitui o “grande Brasil”, em que cada detalhe é parte de um todo maior.
Barroso foi diretor do MHN por quase 40 anos. Neste período, algumas das características iniciais do Museu mantiveram-se, outras não. Inicial mente, o acervo foi em sua maioria constituído por meio de transferências de estabelecimentos públicos, entre eles diversas instituições militares. Com o passar do tempo, observou-se uma afluência muito maior de doações de particulares, o que pode ser constatado não só pelas peçasem exposição como pela nomeação dada às salas do museu, homenagens a membros da extinta nobreza, a Getúlio Vargas e assim por diante.18 Entretanto, seja na sala dos troféus, seja na sala Guilhermina Guinle, a ênfase era sempre dada
às relíquias. Não havia, entre os objetos ou entre as salas, uma lógica mais geral que unisse os fatos (e, conseqüentemente, os objetos) ou mesmo uma periodização rígida. Não se observava uma ordenação precisa dos objetos, em que o interesse formal e sistemático se sobrepusesse à condição subs tantiva dos objetos, de relíquia da “nação”. Praticamente todos os objetos ficavam expostos, daí o número de salas abertas ser bastante grande, não havendo reserva técnica ou peças não expostas.
Examinando o Guia do visitante de 1924, verifica-se que a sala das ban deiras, as arcadas dos canhões ou as escadarias dos escudos seguem uma lógica que, se não é unicamente a de seu colecionador, muito pouco tem de ordenação cronológica e racional, ainda que uma divisão política de períodos históricos esteja subjacente ou inclusa no arranjo proposto. A República podia ser contemplada com uma sala, enquanto armas, retra tos e bandeiras podiam ocupar um espaço imenso cuja ordenação era “historicamente” arbitrária.
Te m p o d e s c o n t ín u o em u s e u-m e m ó r ia
A preocupação com uma ordenação temporal e a crítica a aconteci mentos do passado são inicialmente muito débeis e restritas na historio grafia presente no MHN. Toda a autoridade dos fatos que são retomados funda-se na autoridade da traição estabelecida principalmente pelo Im pério. 0 tempo linear e contínuo não aparece como objeto da história, e o critério de escolha recai sobre tudo aquilo que é extraordinário e digno de ser rememorado sob aquele teto, ou seja, sobre o que esta de acordo com os valoresjá definidos.
A percepção de tempo e de história apresentada pelo MHN parece-me fundamental, uma vez que tem sido um marco para diversos estudos sobre a sociedade contemporânea, a modernidade, as modificações havidas no Sentido do tempo e suas implicações para a história. A disjunção ocorrida na temporalidade cria espaço para que os objetos sejam instrumentos da lembrança, o que permite caracterizar o Museu Historico Nacional da época de Barroso - como aliás, será feito adiante com o Museu Imperial, considerando todas as demais diferenças - como um museu-memória.
19. Rofiro-me, portan to. à diferença entre história e memória, tal como apresentada por Nora (1984, p. XIX). 20. Para Araújo (1988. p. 29). a história clássica, "antes de se fundar no tempo, como a moderna, estabelece um espaço de expe riência (ver Koselleck, 1985, p. 267) onde podem ser reunidos exemplos. Histórias excepcionais, extraor dinárias, exemplares, em suma capazesde fornecer orientação e sabedoria a todos os que dele venham a se aproximar". 21. Arendt. 1972. p. 109. 22. Gossman, 1986. 23. 1985. 24. A denominação de historia magistrate
vitae foi dada por
Koselleck (1985). 25. As mudanças ocorridas na percepção de tempo têm sido direta ou indiretamente estudadas por autores de diversas correntes de pensamento. Em relação à implicação destas mudanças para a história, ver Arendt 0 972), Koselleck 0 985), Momigliano (1977), Thompson (1979), Pomian (1984), Habermas (1987) e Araújo 0988).
tegoria esta que, evidentemente, não pode ser vista como condição única desses dois museus, mas, antes, como condição predominante, pois que, se por um lado, neles encontramos construções arbitrárias em relação à memória, por outro, objetos altamente simbólicos podem ser recolhidos por museus que optam por um discurso historiográfico moderno. 0 mu
seu-memória é, portanto, aquele onde observamos que a história, como
reconstrução intelectual, laica e universalizante, submete-se ao poder do afetivo e do mágico, à dialética da lembrança e do esquecimento presente na memória.1’
Os homens sempre tiveram interesse pelo seu passado; no entanto, só na época moderna aprenderam a separar o mito do que “realmente” acontecera.20 Esse rompimento com o mito, no século XVIII, parece ter ocorrido quando o conceito de verdade deixou de se basear na confiança e na tradição e passou a necessitar da comprovação. A partir daí a verdade tornou-se um valor determinado socialmente e passou a ser revelada no processo temporal.21
No estudo específico da história, a ruptura com a concepção tradicional de tempo histórico e com os métodos tradicionais da composição histórica é observada a partir do Iluminismo e da Revolução Francesa22. Koselleck23 descreve a ocorrência de uma temporalização da história entre os séculos XV e XVIII e aponta, neste último, uma forma peculiar de aceleração do tempo, típica da modernidade. A partir da introdução na história de um critério de verdade, vários autores passaram a trabalhar com a distinção entre história clássica ou mestra da vida2’ e história moderna.25
Tentou-se m ostrar como a verdade dos fatos não era uma necessida de da história e como o tempo não era seu objeto. Só quando se perde a crença nos sentidos concebidos anteriorm ente como atributo de toda espécie humana e passa-se a objetivar o conhecimento a partir da razão do indivíduo, a história torna-se propriedade de alguns especialistas, passa a ter como objeto o tempo e produz a verdade. O passado é revisto à luz dos novos tempos, e objetos que o representam passam a ser aprisionados entre as paredes de templos e museus. Há uma ruptura entre o ontem e o hoje. Esse controle do tempo, seguido por uma pilhagem sem precedentes
de seus testemunhos, é uma característica do mundo moderno. O antigo transforma-se em antigüidade quando um sentimento de anacronismo e exterioridade apodera-se dele. A maior parte dos museus, portanto, é contemporânea a essa história que aparece vinculada à busca do autên tico, à hierarquização do tempo e ao estabelecimento de uma alteridade em relação ao passado.
Não haveria como aprisionar o tempo se ele não se tornasse um estranho. Quando a história narra os grandes feitos humanos, concentrando-se em acontecimento singulares e extraordinários que são contados e reconta dos, ninguém tem autoridade para transformar, modificar ou interpretar o que é contado. Na Antigüidade Clássica, ninguém era considerado capaz de duvidar ou reescrever a história das Guerras Pérsicas, tal como contada por Heródoto, as guerras do Peloponeso, que foram descritas por Tucídides,
ou o testemunho de Xenofon sobre Tebas e Esparta.26Todas estas histórias 26. Momigliano,
eram relidas e reinterpretadas, capazes, sempre, de apresentar novos ar gumentos. Importava o conteúdo repleto de ensinamentos. A transmissão destes valores era possível na medida em que não havia esse distanciamento temporal que desqualifica o passado e rompe com a tradição.
No livro de Barroso sobre história militar, observamos que as campa nhas, os feitos e bravuras sobrepujam uma ordenação temporal prévia, que aparece apenas para sustentar o tema trabalhado. A história, para Barroso, assim como o fora para Varnhagen, não descrevia passo a passo, século a século, ano a ano a história do Brasil, mas, sim, recuperava seus momentos mais significativos.
Nas primeiras exposições do Museu Histórico Nacional não há uma Preocupação com o universalismo ou com uma filosofia da história. Pro curava-se, apenas, recuperar o Império, as guerras de independência e até mesmo os feitos dos bandeirantes na época colonial, percorrendo os lugares por onde homens, líderes deixaram suas marcas e recolhendo traços de sua passagem. O critério de verdade estava fora de uma cadência temporal e fundava-se na aceitação de que um valor comum autorizava a seleção das fontes escolhidas. A marca da modernidade está presen te, contudo, à medida que Barroso procura testemunhos materiais para
27. 1943. 28. Gossman (1985, p 22 57) descreve como a historiografia francesa "heróica” da primeira metade do século XIX, voltada para a legitimação e sustentação de uma burguesia pós-rcvolucionária, substituiu a sucessão de soberanos ou de atos heróicos A nova historiografia passa a ter como objetivo estabelecer a tradição por um refazer dos atos heróicos, que passam a se funda mentar na autoridade manifesta do carisma pessoal, o que implica uma reinterpretaçáo da tradição e a possi bilidade de a história vir a ser o agente da "liberdade" e do "pro gresso".
29. Apud Dumans. 1942.
comprovar os eventos. Havia uma preocupação em procurar vestígios de acontecimentos históricos e em reagrupar no Museu todos aqueles objetos capazes de corporificar a saga dos grandes heróis.
Não era mais possível controlar e dominar as vozes do passado segun do uma perspectiva apenas interpretativa. A história no MHN iniciou-se e morreu na singularidade de cada fato histórico. Mas a valorização do singular e do específico na história não impediu que houvesse uma ten tativa de comprovação da realidade. A busca de um conhecimento, de um instrumento crítico de interpretação, pode ocorrer mesmo por meio do mito, da “não-verdade”. Segundo Ernst Cassirer,27 o Romantismo, apesar de seu sentido misterioso e obscuro, trabalhou lado a lado com a Ilustração, ao aspirar o “conhecimento” e supor criar um novo instrumento de saber.
Nesse sentido, a história empreendida no Museu Histórico Nacional, por meio das relíquias, ao mesmo tempo que cultuou a nação, procurou uma legitimação científica. Preteriu o “filosofar” sobre os ciclos econômicos e culturais para priorizar os fatos, episódios, personagens e datas. 0 culto da saudade recuperou a memória perdida nos sertões e interior do país. Ao lado de sabres e canhões, objetos de toda espécie foram recolhidos como amostra de um passado glorioso. Esta memória dos objetos é resultado não só do discurso dos diretores e amigos do Museu, como da própria sociedade que o aceita.
A história dos heróis nem sempre remete ao modelo clássico, em que os grandes feitos servem como parâmetros ou exemplos que se perpetuam pelo seu valor moral. Gossman vincula o heroísmo presente na história romântica da primeira metade do século XIX à possibilidade de que os heróis rompam com uma objetividade já estabelecida pela tradição e, pelo seu valor carismático, indiquem um novo caminho para o futuro. O “culto da saudade” manteve-se claramente preso à tradição da “nação”.2“
An t iq u a r ia n i s m o e a a u t e n t i c i d a d e n a h i s t ó r i a
No artigo “0 culto da saudade", de 1912,29 o futuro diretor já eviden ciava o que seria necessário resgatar para um museu histórico:
Os que se preocupam com essas coisas, raros e criticados, sabem que no Arquivo
Nacional há a cadeira ou trono em que o Imperador se sentava no Senado, um ca pacete da Im perial Guarda de Honra de D. Pedro I e outras relíquias; que na igreja da Cruz dos M ilitares se acham feixes de bandeiras tomadas aos paraguaios; que no Museu Naval estão os grossos canhões do forte do Príncipe da Beira; que nas estrebarias do M inistério da Guerra existe o velho carrinho em que Osório fazia suas cam panhas (...). Haveria muito o que colher daqui e dali. Quadros, urnas, vestimentas, lápides, espadas e outros documentos em muitos pequenos museus particulares do país. Canhões de todas as épocas com armas de diversos países nos fortes de Óbidos, Tabatinga, Nossa Senhora da Assunção, Cinco Pontas, Três Reis Magos, Buraco, Boa Viagem e outros tantos. Bandeiras na Cruz dos Militares. A espada de Solano Lopez no Colégio Militar. A carruagem de Osório nas cocheiras do M inistério da Guerra. Lanças, sabres e bandeiras veneráveis no Museu Naval e no velho Arsenal da Guerra. Várias coisas de valor no Arquivo Nacional. E, além disso, autógrafos, penas, tinteiros, móveis, estátuas, etc. (...) Não entrou em conta até agora o que se poderá recolher percorrendo o interior e apelando para a generosidade particular. Poder-se-ão obter verdadeiros tesouros referentes à vida antiga no campo e na cidade, à arquitetura, à cerâmica, à m arcenaria, aos costumes dos tempos idos. Que imensa cópia de objetos sabemos perdidos pelas fazendas do sertão: louças de Macau ou Campolide, faianças da índia pintalga das de azul, porcelanas de Bourgla-Reine trazidas pelos que acompanharam D. João VI; jóias velhas; baixelas de prata portuguesa; cristais da Boêmia que eram um dos luxos dos antigos capitalistas; mosaicos; buffets mourisco de pregaria arabescada; baús antiquíssim os; arquibancos; arreios ajaezados de ouro e prata; armas raras - espadões de m ilicianos e ordenanças, rapieiras e chilfarotes de bandeirantes; empoeirados uniform es dos dragões das Minas e da briosa Guarda Nacional, tudo quanto se possa imaginar.
Voltando ao Guia do visitante de 1924, constata-se que serão estes objetos citados acima que comporão as 20 salas de exposição e que muitas vezes darão nomes a elas. Ao estabelecer uma rotina de seleção o classificação de objetos e combinar o estudo rigoroso destas peças com o conhecimento arqueológico e mesmo filológico de documentos e manuscritos, o Ml IN participou e contribuiu para o estabelecimento, no Brasil, de padrões de pesquisa que, como visto, originaram-se com
os antigos antiquários e consolidaram-se na “moderna história”, que tem por base a ciência.
A análise do conteúdo dos Anais do Museu Histórico Nacional, publ içados a partir de 1942, ainda sobre a gestão de Gustavo Barroso, indica que os ar tigos, em sua maior parte, dizem respeito ao estudo das peças pertencen tes ao acervo do Museu. Seus autores são a um só tempo funcionários do Museu e professores do curso que lá funcionava. Moedas comemorativas, mobiliário luso-brasileiro, forca deTiradentes ’’eráldica, louça imperial, enfim, tudo é motivo de especulação. A ênfase no estudo de objetos vai pouco a pouco perder espaço para ensaios sobre fatos históricos, estudos genealógicos e comentários não obrigatoriamente ligados de forma direta ao acervo. Nos primeiros 15 anuários, no entam o, a predominância do que chamamos estudo de peças é flagrante.
Os antiquários, segundo Arnaldo Momigliano30, m ostraram a impor tância de utilizar testemunhos não-escritos ou narrados; estabeleceram uma distinção entre fontes primárias e secundárias; e reinterpretaram textos até então consagrados pela tradição. Dentro dos antigos gabinetes, organizaram arquivos sobre temas díspares que se tornaram fontes pre ciosas para os historiadores dos séculos seguintes. A autenticidade dos objetos era tida como fundamental para a crítica que estabeleciam, a qual, aliada aos debates religiosos do século XVII, desacreditava os historiado res em geral. A fundação da numismática moderna ocorre nesta época, quando a observação direta também passa a ser utilizada pelos diversos ramos do conhecimento que se especializam, como medicina e astrono mia. Os antiquários tiveram, portanto, um papel bastante importante na reforma do método histórico ocorrida no século XVIII. No decorrer do século XIX, tornou-se bastante evidente que não havia motivo para que se fizesse uma distinção entre o estudo dos antiquários e o estudo da história em geral, uma vez que esta, ao procurar estabelecer a autentici dade de cada evento, incorporou os métodos de pesquisa que tinham por base os testemunhos não-literários, como cartas, inscrições, moedas ou
282 estátuas, antes desconsiderados pelos historiadores. É Momigliano31 ainda quem diz: “Muitos dos melhores historiadores do século XIX procuraram
combinara história filosófica e o método de pesquisa dos antiquários. Este ainda é o objetivo que muitos dentre nós propõem”.
Acompanhando as mudanças ocorridas nas instituições que tinham sob sua guarda grandes coleções, observamos que, após o apogeu das gale rias de arte e dos gabinetes de curiosidades, no século XVIII, os museus de história se firmam. Elesjá são, nessa época, bem distintos daqueles gabine tes de antigas coleções de retratos oriundos do século XVI. Os museus de
arqueologia adquirem maior notabilidade durante o século XIX32. As cópias 32.B«m. m?. e reproduções tão usuais no Renascimento já não têm tanto espaço nos
museus de história e antropologia, que se voltam para a coleta de objetos autênticos do passado. Segundo o estudo de Momigliano, éjustamente nes ta época que a história passa a incorporar métodos que incluem a procura dos testemunhos materiais capazes de lhe dar autenticidade.
Além de exercer grande influência no MHN, Barroso também foi res ponsável pela criação do Curso de Museus, que funcionou por 40 anos, até 1962, nas dependências do MHN. Em 1944, depois de regulamentado, sofreu algumas transformações curriculares. Sete anos depois, adquiriu mandato universitário, tornando-se o embrião da atual Faculdade de Museologiada Universidade do Rio de Janeiro (Unirio).
Ao ser criado, o Curso de Museus dava um destaque muito grande à his tória e à numismática, os dois setores básicos em que o MHN era dividido durante seus primeiros anos de existência. As matérias dadas nos primei ros dois anos eram história do Brasil, numismática, arqueologia e técnica de museus. A história da arte brasileira era ensinada apenas no primeiro período, sendo substituída por sigilografia no período subseqüente. O pro grama de história do Brasil era baseado em alguns aspectos da economia brasileira, que aparecia dividida em ciclos (ciclo do açúcar e do ouro), e sobretudo no suceder de fatos políticos. A orientação do curso de história visava capacitar os futuros “conservadores de museus”, como eram então chamados os alunos, a identificar e estudar as peças com que iriam se de frontar. Dada a composição do curso, percebemos que, além das obras de arte, moedas, medalhas e selos tinham um destaque significativo.
. . . 33. Apud Dumans
Gustavo Barroso” , em entrevista concedida em 1929, diria: 1942
As moedas, medalhas e sinetes são documentos de alta valia para os estudos de arqueologia e história. Foi a sigilografia bizantina que guiou a mão de mestre de Gustavo Schlumberer nas suas majestosas epopéias da Constantinópla do século X. Por moedas e medalhas, um autor célebre já conseguiu fazer a história da origem e da evolução do poder temporal dos papas.
Desde sua inauguração, o Museu Histórico Nacional contou com um importante acervo de moedas e medalhas. Mas este foi acrescido com o tempo. Nos seus primeiros anos, o MHN era dividido administrativamente em duas seções, uma de história e a outra de numismática. Tanto pela es trutura administrativa como pela orientação seguida no Curso de Museus, observa-sequeháumagrandeênfasenoestudoda numismática,sigilografia, arqueologia e demais áreas tradicionalmente valorizadas pelos antiquários. Como mostram, também, as primeiras publicações dos Anais, havia uma preocupação com a pesquisa e o estabelecimento da autenticidade das peças que poderiam servir como testemunhos materiais da história.
O retrato de qualquer uma das salas arrum adas na época de Barroso nos dá a sensação de que a superabundância era considerada o meio mais adequado para que as obras adquirissem valor. Praticamente todo o acer vo estava exposto. As louças ou aparelhos de cerâm ica tinham 40 ou mais pratos, todos expostos, lado a lado. Os objetos literalmente empilhavam- se. Armas, bandeiras, canhões, louças, tudo em grande quantidade. Esta profusão simbolizava a capacidade que tinham estes objetos de testemu nhar sobre a realidade. Mas estas relíquias do passado eram mostradas ao público obedecendo a uma lógica que lhes pertencia. As peças de um aparelho da Companhia das índias não podiam ser separadas. É como se elas fossem capazes de dizer mais do que qualquer um sobre o tema, eram fonte inesgotável de saber, parte da realidade a ser descoberta por cada visitante. Quem entrasse em uma sala jamais poderia pensar ter captado todo o sentido nela embutido. Não havia uma única mensagem por parte do Museu, mas milhares. Por cultuar o passado, era impossível para os pesquisadores do MHN reinterpretarem totalmente o significado que os objetos, como documentos, poderiam fornecer a eles. Havia sempre uma atitude de reverência e culto e uma tentativa de apresentar os objetos
segundo uma estrutura que aparentemente pertencia a eles próprios. 0 circuito do Museu para um observador que procurasse ensinamentos rápidos era caótico. 0 público, segundo informações de seus atuais fun cionários, sempre foi restrito; o MHN nunca se caracterizou como área de lazer. Aparentemente, ele obedecia à lógica de seu colecionador.
Na Revista do Serviço Público34, alguns depoimentos bastante interessan tes dos jornalistas que visitaram a instituição ressaltam a importância de terem tido como guia o diretor Gustavo Barroso, capaz de dar esclareci mentos sobre cada peça exposta, descrevendo sua aquisição, sua história, seu papel junto às demais.
0 Museu Histórico Nacional, ac surgir, traz consigo uma história que se preocupa em delimitar os contornos de uma nacionalidade brasileira. Essa mesma história, por outro lado, está profundamente vinculada e com promissada com a questão da autenticidade, da c rtic a científica às fontes históricas e do estabelecimento de normas e regras disciplinares. Esses aspectos nos permitem identificá-la com a experiência anterior dos anti quários, fundamentais para o estabelecimento da história como ciência.
É possível fazer uma aproximação entre essa abordagem histórica e a da escola dos monges beneditinos Mabillon e Mountfaucon, os quais, no século XVIII, estabeleceram padrões da pesquisa histórica próximos aos dos antiquários, influenciando gerações futuras” .
No caso estudado, observamos como, sob a proposta de “culto ao pas sado", a tentativa de construir um perfil nacionalista aparece combinada à guarda de relíquias ou objetos tidos como testemunhos de fatos e even tos. Gustavo Barroso destacou-se por sua iniciativa e atuação no sentido de preservar sítios históricos; foi, inclusive, o principal responsável pela criação da Inspetoria de Monumentos Nacionais e pela preservação de Ouro Preto na década de 30. Preocupou-se com objetos referentes à vida do campo, a aspectos da arquitetura, da cerâmica, da m arcenaria e de "tudo quanto possa se imaginar”. A coleta de objetos que fazem lembrar o passado insere-se, portanto, na busca do “autêntico’ como substituto da experiência perdida. Susan Stewart36, a propósito do contraste entre his toriadores e antiquários, afirma que, "em contraste com os historiadores,
34. Revisto do Serviço
Público, ano VII. n.
1. 1944
35. Mornigliano. 1983.
36. Stewart. 1984. p. 143.
que procuram por destino e causalidade, os antiquários procuravam pela evidência material da realidade. (...) Todo aspecto da vida rural e do campo (...) torna-se para o antiquarianismo uma lembrança em potencial”.
Cabe, agora, analisar a transição entre esta história trabalhada na origem do MHN, vinculada à evolução de um passado nacional, e a “his tória-síntese”, estabelecida na década de 80 como a principal perspectiva historiográfica da instituição.
a
RuptuRa
com a
HistÓRia-memÓRia
C
om a m orte de Barroso, desapareceu toda a lógica que ditava a seleção, a conservação e a exposição dos quase 200 mil objetos coletados ao longo de 40 anos. Segundo o documento preparado pela dire ção atual do Museu Histórico Nacional, por ocasião do seminário “Museus Nacionais”, a instituição, a partir de 1960, entrou numa fase de declínio e abandono, que culminou em 1984, quando seu diretor, procurando uma saída para a revitalização da Casa, solicitou e obteve a intervenção do Programa Nacional de Museus.1Entre os motivos alegados para essa ruína transitória estava a manu tenção de uma concepção de história anacrônica, que não acompanhava os aportes teóricos desenvolvidos a partir de 1930, uma vez que
(...) as instituições que mostravam uma ligação mais estreita com o Estado revela ram-se menos permeáveis à mudança. Em tais instituições, a história aparece como uma espécie de "biografia da nação”, uma história dos fatos e figuras marcantes que m aterializam a trajetória da nacionalidade. O Museu Histórico Nacional, pode-se dizer, esteve sintonizado com tal visão de história.2
Ao lado da obsolescência da proposta conceituai da instituição e deste seu afastamento em relação à produção cultural, intelectual e artística, a transferência da capital federal para Brasília, o esvaziamento político do Rio dejaneiro, o desaparecimento de Gustavo Barroso e a criação do Museu da República, em 1960, como uma divisão do Museu Histórico Nacional, foram outros fatores apontados como responsáveis pela crise da instituição.
1. O seminário "Mu seus Nacionais" foi realizado em junho de 1988, sob o patrocí nio do Ministério da* Cultura, com o o b jetivo de realizar um balanço dos quatros museus considerados “nacionais": o MHN, o Museu Imperial, o Museu de Belas Artes e o Museu da República. 2. P. 2.
Ainda que todas essas questões tenham sido relevantes, parece mais im portante aqui, no caso específico do MHN, a facilidade com que se alterou o perfil da instituição. Por si só, a obsolescência das diversas pro postas conceituais, que ignoravam os debates acadêmicos; a contribuição dada à história pelos teóricos da Ecolle desAnalles; pela corrente m arxista; ou mesmo pelas abordagens estruturalistas não fez com que museus eu ropeus, fundados ainda durante o século XVIII, perdessem seu aspecto setecentista de galeria de retratos. Os museus têm a função de legitimar um imagináriojunto ao público e quando cumprem sua função não con seguem modificar este imaginário com facilidade.
3 . i9 6 i, p. 1 0 1 . Ao descrever os museus europeus, Germain Bazin3 cita, por exemplo,
o prestígio dos museus históricos do século XVII, com suas grandes cole ções de retratos, que se mantêm intactos e podem ser apreciados em dias atuais, como a Galeria Nacional de Retratos, em Londres, ou a Galeria de Retratos do Castelo de Beauregard, na França. Para citar um exemplo mais próximo, é bom lembrar que o Museu Imperial tem mantido ao longo dos anos uma visitação bastante estável em cima de um mesmo imaginário construído. Para modernizar sua apresentação ao público, não foram ne cessárias grandes reestruturações no imaginário que foi anteriormente constituído no Museu.
A criação de Brasília, o esvaziamento político do Rio de Janeiro e, poderíamos acrescentar, os anos de ditadura e de maniqueísmo na área
4. Miceli, 1984, p da cultura,4 sem dúvida foram fatores que influíram na trajetória dos
museus. O contexto histórico e cultural em que um museu se insere pode fazer com que o público perceba de maneira distinta um mesmo objeto. Compreendemos um museu a partir deste mundo com o qual ele se rela ciona e faz trocas. Querer, no entanto, entrar na natureza de sua atuação sem definir o conteúdo de sua estrutura, como ela se constrói e interage com outras ordens de fenômenos, parece insuficiente. A interação entre história, memória e tempo será fundamental, uma vez que a tentativa de remontagem do que não é mais, do que já foi, por meio de marcas e signos que são os objetos guardados pelos museus, confere a estes uma linguagem peculiar.
A criação do Museu da República, em 1960, mostrou, entre outras coisas, que era possível consolidar a memória da República em uma instituição à parte, que em pouco tempo tornou-se independente de sua matriz, o MHN, e com um maior reconhecimento por parte de intelectuais e grande público. Ignorando as propostas conceituais de seus idealizadores, o apelo que o Palácio do Catete, casa que serviu de moradia a diversos presidentes e palco do suicídio de Getúlio Vargas, obtevejunto à população indica que a República de Getúlio e Kubitschek conseguiu o que ade Deodoro e Floriano jamais obtivera - o interesse de uma parcela bem maior da sociedade por
sua memória.
No Museu Histórico Nacional, a memória, ainda que restrita à lem brança de uma elite sobre seu passado, estava presente e foi veiculada durante toda a gestão de Gustavo Barroso. No período seguinte, o Museu perde seus alicerces, construídos durante um longo tempo e recebe uma nova direção, para a qual a história passa a ter como objeto o tempo, em detrimento da memória. Seu declínio pode ser detectado aí - na perda da memória, no branco, na reescritura daqueles objetos que, aprisionados no ambiente caótico dos depósitos, perderão contato com sua origem, com o porquê de sua presença e importância, sendo privados de sua identidade e significado. A história empreendida pelo Museu durante a época de Barroso estava vinculada organicamente aos objetos selecionados pelo próprio Barroso, que dava sentido àquele acervo, porque conhecia a his tória de cada peça, possuía a lógica do seu conjunto e fazia questão de arrumá-las e expô-las.
Josué Montello, sucessor de Barroso na direção do MHN, em artigo Publicado no Jornal do Brasil afirma:
(...) e ali encontrei em cada sala, em cada objeto, em cada iniciativa, o zelo de Gus tavo Barroso pela coisa pública, o seu entranhado amor pelo Brasil. Conhecia-lhe as lutas, as glórias, os heróis que nos trouxeram até aqui, como nação, como povo, como pátria, e nisto encontrava o pretexto para seu orgulho, reconhecendo no
presente a ponta extrem a do passado.5 5- Momeiio, i989.
O depoimento de Montello é confirmado não só pelos artigos da época c°mo por antigos funcionários, que atestam o envolvimento pessoal de
6. Ao assumir a dire ção. o comandante Léo Fonseca e Silva pôde dispor de verbas para a reforma, o que era uma dif culdade constante para os de mais administradores do MHN
Barroso nocotidianodo Museu. Eleestava sempre presente, dando opinião em todos os setores, montando as exposições, revendo os objetos. A “Casa do Brasil” era seu projeto, sua linguagem.
A história dos heróis, do detalhe, do factual e do fragmentário adapta va-se à perspectiva museológica que agregava o múltiplo e na qual o valor estético parecia repousar na profusão e no excesso. As paredes repletas de quadros e bandeiras, as salas com estátuas, estandartes, coleções, objetos diferentes entre si, díspares, todos à disposição do visitante, que, somente vagando com muita calma por aqui e ali, descobriria uma identificação ou outra com seu passado.
Entre Barroso e a nova fase do Museu haviam-se passado 24 anos, abrangendo, inclusive, a direção de Montello, que não alterou significati vamente o circuito da exposição, mas também não a consolidou, dedican- do-se ao então recém-inaugurado Museu da República. Houve também a controversa gestão de Gerardo Brito Raposo Câmara, durante os anos de governo militar - período muito grande para ser visto apenas como de transição. Mas a preocupação deste livro nãoé narrar a história específica da instituição, e sim detectar a mudança na conceituação historiográfica que aparece, de forma radical, na reestruturação da exposição do MHN efetivada pelo comandante Léo Fonseca e Silva, seu diretor entre os anos de 1967 e 1970.6
A gestão do comandante Léo Fonseca e Silva term ina com as exposi ções baseadas nas grandes coleções: mobiliários grandes, madeiras maci ças, detalhes, aparelhos completos, numerosos, importados, muitos deles brasonados, individualizados; enfim, todo o luxo de uma época que foi parar no Museu como fruto da credibilidade que a instituição possuía junto aos doadores ou, também, pelas transformações que alteravam o pé direito das casas, diminuíam o tamanho dos cômodos, impondo no vos hábitos, novos costumes. Todos esses objetos foram recolhidos em salas que se transformaram em depósitos. Agrupados ou amontoados nas chamadas reservas técnicas, estes perderam, na sua grande maioria, sua identificação, seu valor. O trabalho de manutenção de uma reserva técnica com identificação e classificação não correspondia à filosofia da época.
Estes depósitos, inclusive, só passaram a chamar-se reserva técnica em meados da década de 70.
O Museu passou, então, a ter como base a evolução linear da história. Os regimes políticos foram se substituindo uns aos outros e esta sucessão tornou-se o eixo da nova exposição. As cerca de 40 salas que expunham pra ticamente todo o acervo que a Casa possuía reduziram-se a 12 em 1969: Exposição Histórica Permanente (1968)
Sala Brasil-Colônia I Sala Brasil- Colônia II Sala Brasil- Colônia III Sala Brasil-Reino Sala da Independência Sala do Primeiro Reinado Sala do Segundo Reinado I Sala do Segundo Reinado II Sala da Guerra do Paraguai I Sala da Guerra do Paraguai II Sala do Ocaso da Monarquia I
Sala do Ocaso da Monarquia II7 j-gu» do visitante.
MHN. 1968
Embora o acervo fosse bastante irregular, composto de muitas armas, indumentárias e objetos doados relativos a mobiliário, louças e cristais do século XIX, a montagem da exposição correu alheia a este aspecto. Os objetos perderam a capacidade de suscitar lembranças, deixaram de ser reminiscências capazes de evocar emoções, sentimentos, passaram a servir a uma ordenação dada segundo novos critérios. Observa-se uma seqüência iniciada por “Brasil-Colônia”, abrangendo os séculos XVI, XVII e XVIII, seguida de diversas fases incluídas no século XIX e convencional mente utilizadas pelos historiadores que priorizam os acontecimentos Políticos. Quanto ao “Brasil-República”, não entrou na exposição porque ganhara um museu à parte. Ressalta-se, dessa forma, que a história do Bra sil contada no Museu tornou-se um suceder de fatos e governos no tempo. O nome das salas passou a obedecer rigidamente períodos configurados
que seguiam uma seqüência temporal. 0 tempo não era mais considerado um espaço comum onde atos de heroísmo eram reverenciados; nele já havia um lugar específico para cada evento, que sempre precedia e era sucedido por uma cadeia de outros. Os heróis continuavam, mas eles já eram submissos a uma nova ordem: a Guerra do Paraguai não era mais contada a partir das glórias de Caxias apenas; ela ganhava especificidade e um locus entre o Segundo Reinado e o Ocaso da Monarquia. A história que surge com a reforma do Museu Histórico Nacional de 1967 ordena cronologicamente os fatos relevantes, ganha o tempo como seu objeto de estudo e possui como pressuposto o sentido de progresso, ainda que não completamente definido. Os nomes dos doadores deixam de aparecer nas salas, perdendo, com isso, o visitante a noção da origem daqueles objetos, da cumplicidade existente na arrum ação daqueles novos ambientes, que pouco a pouco vão se firmando como um discurso neutro e científico.
A experiência do passado oferecida pelo museu-memória dava-se por meio de uma sensação vaga, por indicações do que já havia sido, pela me mória dos pares da época, pela procura de identidade que a “construção da nação” oferecia com as m arcas e signos consagrados pela tradição. O que ocorre em 1967 é a tentativa de racionalizar o discurso histórico, substituindo aquele que bem ou mal aparecia ligado à memória e à criação da Casa desde 1922. Memória “nacionalista” que não traduz apenas a visão patriótica, militarista, erigida por um líder integralista, mas, também, o apoio do governo recebido por Barroso até sua morte. Basta lembrar que o presidente Getúlio Vargas financiou, em 1940, talvez uma das maiores aquisições do Museu, a coleção de arte sacra. Parte da população prestigia va a instituição com doações e outra parte, a ignorava. O Museu, portanto, não pode ser visto distanciado do ambiente em que foi gerado nem como o produto maquiavélico ou anacrônico de um só homem.
O público, segundo depoimentos de funcionários da época, sempre foi restrito. Ainda que, no período de Barroso, o Museu contasse com um prestígio muito grande, ele jamais se preparou para receber um grande número de visitantes ou de estudantes. Voltava-se, sim, para o estudo das coleções, para os estudiosos especialistas, para a formação de
sionais. Parece ter sido o que Hudson8 chama de museu de influência, uma vez que ele teve um papel fundamental na formação de profissionais de museus e na diretriz assumida pelos demais museus de sua área.
Ainda que Barroso tenha escrito o livro Técnica de museus, espécie de documento básico seguido até recentemente por muitos museólogos, e dado alguma atenção à questão da educação em museus, a preocupação em expor e atrair um grande público não era um dado da época. As pre ocupações com exposições didáticas voltadas para atender uma camada maior e diferenciada da população ainda não existiam. Os funcionários do Museu Histórico Nacional não se autodenominavam museólogos, mas “conservadores”, palavra que remete diretamente aos objetos coleciona dos. Apesar de, nos Estados Unidos, principalmente, já haver uma orien tação no campo da museologia que priorizava o atendimento ao público, o MI IN da época de Barroso era bem mais parecido com os antigos museus históricos europeus, ou mesmo com os antigos antiquários.
Segundo a análise de Poulof’sobre a história dos museus, apenas a par tir da política cultural do pós-guerra procurou-se dinamizar os museus, reformando-os e aumentando sua eficácia na implantação de sociedades democráticas. Poulot atribui as transformações ao aumento da demanda social na década de 50, principalmente por parte do público escolar. Datam desta época várias contribuições acadêmicas que procuram implantar nos museus uma abordagem científica a qual,juntamente com o caráter didá tico,10 fortalece a museologia." Ainda segundo o autor, somente a partir de 1960 os museus adaptaram-se à “era das massas”, transformando-se em instrumentos culturais vivos e a serviço de todos.
O MHN não fora pensado a partir de umasolicitaçãodograndepúblicoe seu diálogo ocorria com um número previsível de pessoas - ele se arrumava e trabalhava para uma clientela determinada. Pessoas idosas procuravam- lo em busca de um passado, de uma memória que se perdia. Pela fachada, Pela entrada, já se podia observar que havia uma barreira, uma distinção. A “Casa do Brasil" não era a de todos os brasileiros e procuravam -naaque- les cuja identidade poderia ser resgatada entre suas paredes.
A restrição do público, no entanto, como referido, não foi uma
carac-8. 1987.
9. 1986.
10. Wittlin, 1949. 11. Léveillé, 1949
terística apenas do MHN, mas uma de uma conjuntura global e mesmo de uma estrutura social profundamente hierarquizada que influía em diversos setores da sociedade, como no sistema de ensino e nas políticas culturais. Não há como, portanto, pensar o Museu Histórico Nacional em suas primeiras décadas como uma instituição voltada para uma proposta “dem ocrática”, que envolvia a grande maioria da população. Foi men cionado que, mesmo nos países europeus que possuíam uma estrutura social com menores desigualdades sociais e participação política maior, a preocupação dos museus em receber um grande público se deu quando a difusão dos meios de comunicação de m assajá era um fato.
Não deixa de ser interessante fazer um paralelo entre as mudanças ocorridas no MHN e as transformações por que passava o país, que “mo dernizava” sua economia a ferro e fogo, de forma autoritária e com gran des prejuízos sociais. No instante em que as exposições do MHN foram re estruturadas e se transferiu, sem métodos ou técnicos adequados, grande parte dos objetos anteriormente em exposição para depósitos, a pesquisa que se fazia daquela cultura material morreu. O Museu ganhou uma nova linguagem, rompendo com o passado. Ganhava em história, mas perdia a memória. A nova escrita da história adotada deixou de lado os objetos, já encarados como peças mortas e sem sentido, e passou a utilizá-los como suportes de uma verdade que autorizava o refazer de novos caminhos.
A morte da pesquisa sobre as peças pode ser constatada pelo conte údo dos Anais do MHN que então se publicam. A partir da gestão de Josué Montello, os artigos deixam de ser de autoria quase que exclusiva do corpo técnico do Museu e passam a versar sobre temas variados, escritos por autores convidados. É gritante a tendência a que os funcionários se des vinculem pouco a pouco do acervo, preso aos guardiães do depósito. Esta mudança é notória na estrutura administrativa do Museu.
O acervo, ao ser recolhido, faz com que a pesquisa da peça perca impor tância. Desligando-se da coleção, o objeto, da forma como era organizado anteriorm ente, torna-se mais frágil e menos resistente a novas leituras. Perde um sistema de relações que o identificava e dimensionava. Por exemplo, um prato isolado não oferece o mesmo número de informações