UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ FACULDADE DE DIREITO
CURSO DE DIREITO
GABRIEL HUET BORGES DE ARRUDA
NOVA LEI DE MIGRAÇÃO E A EFETIVIDADE DOS DIREITOS HUMANOS DOS REFUGIADOS
FORTALEZA 2018
GABRIEL HUET BORGES DE ARRUDA
NOVA LEI DE MIGRAÇÃO E A EFETIVIDADE DOS DIREITOS HUMANOS DOS REFUGIADOS
Monografia submetida à Coordenação do Curso de Graduação em Direito da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial para obtenção do grau de bacharel em Direito.
Área de concentração: Direito Privado Orientador: Profa. Dra. Tarin Cristino Frota Mont’Alverne.
FORTALEZA 2018
Biblioteca Universitária
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A817n Arruda, Gabriel Huet Borges de.
NOVA LEI DE MIGRAÇÃO E A EFETIVIDADE DOS DIREITOS HUMANOS DOS REFUGIADOS / Gabriel Huet Borges de Arruda. – 2018.
73 f. : il. color.
Trabalho de Conclusão de Curso (graduação) – Universidade Federal do Ceará, Faculdade de Direito, Curso de Direito, Fortaleza, 2018.
Orientação: Profa. Dra. Tarin Cristino Frota Mont’Alverne.
1. Crise de Refugiados. 2. Direitos Humanos. 3. Lei nº 13.445/17. 4. Nova Lei de Migração. I. Título. CDD 340
GABRIEL HUET BORGES DE ARRUDA
NOVA LEI DE MIGRAÇÃO E A EFETIVIDADE DOS DIREITOS HUMANOS DOS REFUGIADOS
Monografia submetida à Coordenação do Curso de Graduação em Direito da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial para obtenção do grau de bacharel em Direito.
Área de concentração: Direito Privado Orientador: Profa. Dra. Tarin Cristino Frota Mont’Alverne
Aprovada em ___/___/____.
BANCA EXAMINADORA
_______________________________________________ Profa. Dra. Tarin Cristino Frota Mont’Alverne
________________________________________________ Profa. Dra. Arnelle Rolim Peixoto
__________________________________________________ Profa. Dra. Theresa Rachel Couto Correia
Dedico esse trabalho ao maior privilégio que Deus me proporcionou: minha família.
AGRADECIMENTOS
Primeiramente, a Deus, por ter sido a base e força durante todos os anos da graduação e no processo da monografia, dando-me motivos para sempre tentar evoluir como estudante e futuro profissional do Direito.
À minha mãe, Ângela, parceira e cúmplice de todas as alegrias, conquistas e ansiedades, as quais vivenciamos. Gratidão, pois nada seria possível sem o seu carinho e apoio incondicional que recebi sem ser pedido nada em troca.
Ao meu pai, Alberto Huet, por ser fonte de inspiração, mostrando-me que o caminho não é fácil, mas que o retorno chega com trabalho duro, incentivando-me a nunca desistir.
Ao meu irmão, Alberto Filho, por ser exemplo de superação e de fé, fortalecendo-me em todos os sentidos possíveis, e Guilherme Huet, pela amizade e companheirismo de um irmão mais novo, sendo os dois essenciais durante esse período. À minha prima, Thais Gama, Defensora Pública da União e ex estudante de direito na Faculdade de Direito da UFC, por mostrar-me, com sua forma simples de ser, a necessidade de sempre lutar pelos necessitados e pela efetividade dos Direitos Humanos. Ao meu tio padrinho José Carlos Braide da Gama e à minha tia madrinha Valéria Borges da Gama, também eternos estudantes de Direito, por apoiarem desde o começo o caminho que escolhi para mim.
À minha namorada e melhor amiga, Thainá Barroso, pela cumplicidade e companheirismo durante este tempo, estando sempre ao meu lado nos sacrifícios e conquistas.
À Profª Tarin Mont’Alverne, pela excelente orientação e atenção a mim dada durante esse desafio de produzir o meu Trabalho de Conclusão de Curso. À Profª Theresa Rachel e à Profª Arnelle Rolim Peixoto, por terem aceitado participar da banca examinadora.
Finalmente, a todos meus amigos dentro e fora da Faculdade de Direito, por sempre terem estado comigo e alegrado meus momentos, sejam eles difíceis ou não. São todos parte desta conquista.
“Encontramos Jesus no pobre, no rejeitado, no refugiado. Não deixemos que o medo nos impeça de acolher o próximo necessitado. ” (Papa Francisco).
RESUMO
A atual crise de refugiados necessita de bastante atenção nas políticas migratórias internacionais, sendo destaque nas discussões, também, no cenário regional, tornando-se um assunto que concerne ao Brasil. Para que se entenda tal conjuntura, o presente trabalho considera como essencial o conhecimento sobre o tratamento dado pela Estado brasileiro aos refugiados até o presente momento, além da evolução do conceito e proteção dos que buscam refúgio. Em 2017, entrou em vigor a Nova Lei de Migração, substituindo o, até então vigente, Estatuto do Estrangeiro, criado durante o período ditatorial. É imprescindível notar a dimensão que a lei toma, haja vista concretizar, ainda mais, os ideais que vieram com a redemocratização. Apesar de o foco dessa legislação ser o tratamento dos migrantes, várias são as consequências para os refugiados. Por isso é importante destacar a influência da Lei nº 13.445/17 no que tange à efetividade dos Direitos Humanos dos Refugiados, enfatizando seus princípios e diretrizes, as mudanças e dificuldades que poderão ocorrer na agenda migratória do País, além da sua interferência no influxo de pessoas haitianas e venezuelanas que vêm ao Brasil.
Palavras-chave: Crise de Refugiados. Direitos Humanos. Efetividade. Haitianos. Lei nº
ABSTRACT
The current refugee crisis requires a lot of attention in the international migration policies, as being also relevant in the local outlook’s discussion, becoming a subject that matters to Brazil. For a better understanding of the context, this work considers essential the knowledge about the treatment given by the Brazilian State to the refugees, until the present moment, besides the concept’s and protection’s evolution of those who seek shelter. In 2017, came into effect the New Migration Law, replacing the, until then valid, Foreigner’s Statute, created during the dictatorship period. It is crucial to note the dimension that this law has, as it materialises the ideals that came with the redemocratization. Despite the legislation’s focus is the treatment of migrants, there are many consequences to the refugees. That’s why it’s important to underline the influence of the Law nº 13.445/17, regarding the effectivity of the Refugees’ Human Rights, emphasizing its principles and guidelines, its changes and difficulties that could occur in the country’s migratory agenda, besides its interferences at the Haitians’ and Venezuelans’ flow which reaches Brazil.
Keywords: Refugee Crisis. Human Rights. Effectivity. Haitians. Law nº 13.445/17. New
LISTA DE ABREVIATURAS
ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados CF/88- Constituição Federal de 1988
CONARE – Comitê Nacional para Refugiados ONG – Organização Não Governamental ONU – Organização das Nações Unidas
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO...10
2 BRASIL E A MAIOR CRISE HUMANITÁRIA DO SÉCULO: POSIÇÃO
DO ESTADO BRASILEIRO NO RESPEITO AOS DIREITOS DOS REFUGIADOS...14
2.1 Condição de Refugiado de acordo com o Direito brasileiro: reconhecimento das diferenças entre tipos de migração...18 2.1.1. Burocracia e dificuldades enfrentadas no processo de determinação da
necessidade de refúgio...21 2.2. Direitos humanos dos refugiados: princípios fundamentais para uma justa
política de migração... 24 2.3. Lei 9.474: grande passo para a proteção dos refugiados...28
3. NOVA LEI DE MIGRAÇÃO: POSIÇÃO DE VANGUARDA DO ESTADO
BRASILEIRO E DIFICULDADES ENFRENTADAS...32 3.1. Da necessidade de uma política migratória baseada na defesa dos Direitos
Humanos: um olhar crítico sob os agentes atuantes
... 34
3.1.1. Estado e Sociedade: essencialidade de uma postura ativa na proteção dos migrantes...37 3.1.2. Comitê Nacional para Refugiados – CONARE – e as soluções duráveis no
combate à crise humanitária...40 3.2. Lei nº 13.445/2017 e a proteção dos Direitos Humanos dos Refugiados...44 3.2.1. Da previsão de novos caminhos na busca por uma maior garantia dos direitos dos migrantes e refugiados...47
4. ANÁLISE DA CONJUNTURA ATUAL DA POLÍTICA MIGRATÓRIA
BRASILEIRA SOB O OLHAR HUMANISTA DA NOVA LEI DE MIGRAÇÃO ...51 4.1. Migração haitiana: como a Lei 13.445/17 inova ao positivar o instituto do
visto humanitário e sua relação com refugiados ambientais...52 4.2. Crise política e econômica na Venezuela e a crise de refugiados:
consequências para o Brasil ...55 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS... 61 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS... 64
INTRODUÇÃO
Entranhado na história do povo brasileiro, a influência do grande fluxo migratório é evidente quando se observa a miscigenação pela qual este país se veste de forma orgulhosa. Nomes, sobrenomes, feições, raças, tradições, comidas, cidades; tudo deixa claro como houve tamanha ingerência de diversos povos em nossa cultura. O Brasil é, assim, exemplo de que é possível, sim, haver convivência de grupos tão diferentes em um local só, apesar de todas as dificuldades enfrentadas.
A mistura de diferentes pessoas é característica da rica cultura do povo brasileiro, sendo possível visualizar influência indígena, portuguesa, africana, alemã, italiana, além dos países hispano-americanos.1 Tal variedade demonstra que, quando se trata de migração, diversos são os porquês de alguém tomar a decisão de sair de sua casa e buscar viver em outro país, por exemplo a busca por uma melhor qualidade de vida, por emprego e outros. Diversas são, também, as restrições (e as justificativas para restringir) aos que migram de assim o fazer, seja por motivos econômicos, políticos ou culturais.
Uma grande categoria dos migrantes é a dos refugiados, que merece extrema atenção, tendo em vista a crise humanitária pela qual se passa atualmente. Em uma sociedade internacional que tanto discute a dignidade da pessoa humana como um dos princípios basilares do Direito, tanto Internacional, como Interno e Regional, a possibilidade de se ver fronteiras fechadas e pouca colaboração dos atores internacionais em prol dos direitos destes é algo que não se pode aceitar.
Devido a fundado temor de perseguição, os que buscam refúgio não podem ou não querem se proteger no seu país de origem, em virtude de religião, raça, grupo social, nacionalidade, opinião política ou devido a grave e generalizada violação de direitos humanos.2 Além de tal perseguição, veem, desse modo, diversos de seus direitos violados, estando sujeitos a condições de extrema precariedade (como a falta de saneamento básico, de água, de moradia, de falta de trabalho e de oportunidades), a abusos, a violências físicas e mentais, sem contar com o preconceito que precisam, muitas vezes, enfrentar ao buscar refúgio, o que intensifica tais situações.
1 História da Imigração no Brasil – Resumo. Disponível em: < https://www.historiadobrasil.net/imigracao/>. Acesso em: 10 set. 2018.
2 Refúgio em Números. Disponível em: <http://www.acnur.org/portugues/wp-content/uploads/2018/04/refugio-em-numeros_1104.pdf>. Acesso em: 10 set. 2018.
A preocupação no tocante este assunto ganhou enorme importância no contexto da Segunda Guerra Mundial, quando injustamente milhares de judeus, homossexuais e negros foram perseguidos por serem o que são e crerem o no que creem.3 Com o fito de encontrar um equilíbrio entre direitos e fronteiras e evitar outro desastre de tamanha repercussão é que a Organização das Nações Unidas – ONU – foi criada. Buscar a paz e garantir os direitos da pessoa humana se tornou objetivo comum da sociedade internacional e, assim, surgiu a Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948. 4
Acreditou-se, por muito tempo, que o processo de globalização seria algo desejado. Este fluxo migratório e contato com diferentes culturas, por mais que no começo possa ter assustado, foi esperado e incentivado por muitos Estados e Organizações como sendo parte de uma revolução e, também, evolução. Não foi tão simples assim. O que se vê hoje é uma sociedade internacional apreensiva e não exatamente atenta para solucionar a crise dos refugiados, no que tange suas políticas migratórias.
Dados dos Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados – ACNUR – informam que cerca de 65,6 milhões de pessoas foram forçadamente deslocadas no mundo inteiro, como resultados de perseguição, conflito, violência, ou violação a Direitos Humanos, até o final de 2016, e, destes, 22,5 milhões eram refugiados.5
De tal modo ocorre, também, no Brasil e, no que concerne, então, os direitos dos migrantes na sociedade brasileira, nos dias atuais, a Nova Lei de Migração, Lei nº 13.447 de 2017, inova ao trazer uma posição e política migratória privilegiada por causa da ampla defesa dos Direitos Humanos dos migrantes e, mais especificamente para o caso em estudo, dos refugiados.
Não se deve dizer, pois injusto seria, que os direitos de tais pessoas já estão garantidos plenamente ou que o percurso trilhado não foi longo. Na realidade, não somente tal caminho percorrido foi longo, como também o ainda a percorrer será. A proteção ao migrante no Brasil, como legislação interna, começou, principalmente com o Estatuto do Estrangeiro (Lei nº 6.815/1980), haja vista que a situação do migrante, até este momento, não era de muita relevância na agenda política e social brasileira. Ocorre
3 Histórico. Disponível em: < http://www.acnur.org/portugues/historico/>. Acesso em: 10 set. 2018. 4Propósitos e Princípios da ONU. Disponível em: < https://nacoesunidas.org/conheca/principios/>. Acesso em: 10 set. 2018.
5 UNHCR. Global Trends, Forced Displacement 2016 (UNHCR, 19 de junho de 2017). Disponível em < http://www.unhcr.org/statistics/unhcrstats/5943e8a34/global-trends-forced-displacement-2016.html> Acesso em:10 set. 2018.
que tal Lei foi criada na época da ditadura militar, quando, por meio da justificativa de proteger o mercado interno e o povo brasileiro, fechou-se as portas para muitos refugiados que buscavam refúgio aqui. Antes disso, houve pequena participação do Estado em questões internacionais, como continuação de uma política pós guerra, quando os refugiados que foram reassentados obtinham, ao ingressar no território nacional, um visto de “residência” e posteriormente de “permanência”6.
Levando em consideração que a Nova Lei de Migração é bastante recente, percebe-se que este Estatuto estava vigente até pouco tempo atrás. Mas a Lei nº 13.447/17 é reflexo do processo de redemocratização vivenciado por intermédio da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Tal processo tem como uma característica, entre outras, a grande importância dada aos Direitos Fundamentais positivados no seu texto, buscando garantir os Direitos Humanos dos indivíduos. Como consequência, também, deste procedimento de redemocratização, surgiu o Estatuto dos Refugiados (Lei nº 9.474 de 1997), o qual trouxe, de forma bastante pragmática, conceitos e definições que se referem ao refugiado e sua condição. No entanto, foi com a Constituição Federal de 1988 e com a Nova Lei de Migração que o tratamento do estrangeiro foi disciplinado tendo como base os Direitos Humanos.
Assim, é necessário estudar com afinco os institutos que tangem aos direitos humanos dos que buscam refúgio. Para tal fim, será estudado, no primeiro capítulo, sobre a posição que o Estado brasileiro assume diante dessa crise humanitária, devendo-se entender quem é que poderá ser chamado de refugiado e quais as dificuldades que eles têm para que assim sejam reconhecidos.
Em capítulo seguinte, é necessário destacar quais tipos de Direitos estão em risco ao analisar os problemas e as precariedades encaradas por esses migrantes, como já ressaltado. Ademais, como consequência da busca por uma maior proteção de tais direitos, será discutido sobre a evolução da defesa deles na legislação brasileira, demonstrando, na prática que houve significativas mudanças, adentrando, aí, no tratamento da Nova Lei de Migração.
Enfim, no capítulo de número três, será evidenciado como a lei nova deixa este país em uma situação privilegiada. Para tal, trata-se de casos práticos que esclarecerão
6 FISCHEL DE ANDRADE, José H.. Aspectos históricos da Proteção de Refugiados no Brasil (1951 – 1997). In: JUBILUT, Liliana Lyra; GODOY, Gabriel Gualano de. Refúgio no Brasil Comentários à Lei 9.474/97. Sao Paulo: Quartier Latin, 2017. p. 76-77.
não somente as diferenças de tratamento, mas também as problemáticas que já existem e que virão a existir.
Neste estudo, a metodologia principal foi a pesquisa documental e revisão bibliográfica. Teses de mestrado, artigos científicos e doutrina acerca do tema em questão fizeram parte dos meios utilizados para possibilitar este trabalho. Além disso, cartilhas do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados – ACNUR –, acordos, tratados, convenções internacionais e legislação interna, bem como a Constituição Federal, Estatuto dos Refugiados e o processo de discussão legislativa da Lei n 13.445/17 foram igualmente importantes, como metodologia.
Este estudo foi motivado pelas mudanças que podem advir da recente lei, com o intuito de pesquisar sobre as possibilidades que serão abertas caso a prática siga a teoria. Outrossim, são objetos de investigação também os obstáculos que serão encontrados para que tais possibilidades apareçam, o que incentiva a pesquisa deste tema tão em pauta nos dias atuais.
Neste sentido, o presente trabalho vem tratar, mais especificamente, da proteção destes direitos no âmbito dos Refugiados, tendo em vista a grande crise internacional humanitária enfrentada. Tal posição de vanguarda do Estado brasileiro não foi um caminho trilhado tão facilmente e tampouco significa que já não há o que melhorar. Portanto, busca-se responder às perguntas: como a nova Lei de Migração pode garantir a efetividade dos Direitos Humanos dos Refugiados? Quais são as dificuldades enfrentadas na aplicação da Lei e o que se pode fazer?
2. BRASIL E A MAIOR CRISE HUMANITÁRIA DO SÉCULO: POSIÇÃO DO ESTADO BRASILEIRO NO RESPEITO AOS DIREITOS DOS REFUGIADOS
Considerada a maior crise humanitária do século, a grande quantidade de conflitos, de perseguições e de violações de direitos gera um fluxo migratório gigantesco e que precisa de atenção no cenário do Direito Internacional – destacando-se as vertentes do Direitos Humanos e do Direito Internacional dos Refugiados –, além do Direito Interno brasileiro. No entanto, não é recente que a migração pelos motivos que tornam o migrante um refugiado acontece, tendo em vista que perseguições e violações de direitos fundamentais sempre aconteceram.
Apesar da intrínseca relação do povo brasileiro com as migrações em geral, tendo em vista a grande miscigenação presente na população deste país, a relação do Brasil com os refugiados, pelo menos a partir de quando a preocupação com estes da forma como se visualiza hoje começou, iniciou-se de forma mais sutil. Com a Segunda Guerra Mundial, várias pessoas se viram obrigadas a deixar seus países em virtude das perseguições e generalizada violação a direitos humanos que sofriam e, em uma sociedade já mais globalizada, o Brasil não ficou de fora nas discussões e participações acerca do tema.
Por este motivo, José H. Fischel de Andrade afirma que:
No plano doméstico, por sua vez, e diferentemente do período entreguerras, o Brasil estabelecera como umas das metas de sua política exterior a participação em várias das atividades empreendidas pela comunidade internacional, deixando claro sua opção por acompanhar, na já iniciada Guerra Fria, os países do Bloco Ocidental. Uma forma de fazê-lo foi inclinar-se a aceitar o reassentamento de refugiados e deslocados de guerra europeus no Brasil. 7
7 H. FISCHEL DE ANDRADE, José. O Brasil e a organização internacional para os refugiados (1946-1952); Rev. Bras. Polít. Int. 48 (1): 60-96, 2005.
Assim, deu-se uma transição de política migratória no País, mirando a uma abertura maior das fronteiras, em razão do cenário internacional. Tal transição não durou o bastante para uma política consolidada chegasse a existir. Pouco após a Segunda Grande Guerra, os brasileiros vivenciaram o período da Ditadura Militar, o qual durou de 1964 a 1985 e, neste contexto, foi promulgada a Lei nº 6.815/80, também chamada de Estatuto do Estrangeiro.
Apesar de ser o primeiro instituto a dispor sobre os direitos e deveres dos migrantes, o estatuto estava voltado, principalmente, aos “interesses nacionais”, os quais, em um regime ditatorial, entende-se pela preocupação com o país em aspectos militares, como a segurança nacional. Dessa forma, o estatuto justifica seus dispositivos por meio de certa defesa do mercado interno e do interesse do povo brasileiro e do “trabalhador nacional”. Percebe-se, então, um estatuto pouco avançado no que concerne a preocupação com os interesses dos refugiados e, consequentemente, com a proteção dos direitos humanos destes.
Pensando nas garantias humanas é que, também no pós guerra, por intermédio da Declaração Universal de Direitos Humanos (DUDH) de 19488, após diversas discussões, foi trazido o atual entendimento destes direitos que seriam universais e inerentes a todas as pessoas. Tendo como princípio basilar a dignidade da pessoa humana, não há de haver distinção por motivos sociais, culturais e econômicos e, por ser uma norma comum a ser alcançada por todos, deve servir como parâmetro de conduta base para os Governos, o que, de certa maneira, demonstra o atraso pelo qual o Brasil se encontrava, tendo em vista a ainda vigência do Estatuto do Estrangeiro criado com princípios militares.
Neste mesmo raciocínio, deve-se destacar a Convenção das Nações Unidas sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951, a qual foi ratificada pelo Estado brasileiro, além do Protocolo de 1967, relativo a tal estatuto. Estes dispositivos, influenciados pela grande preocupação com os refugiados após a Segunda Guerra Mundial fornece a mais
8 A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) é um documento marco na história dos direitos humanos. Elaborada por representantes de diferentes origens jurídicas e culturais de todas as regiões do mundo, a Declaração foi proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em Paris, em 10 de dezembro de 1948, por meio da Resolução 217 A (III) da Assembleia Geral como uma norma comum a ser alcançada por todos os povos e nações. Ela estabelece, pela primeira vez, a proteção universal dos direitos humanos. Disponível em:<https://nacoesunidas.org/direitoshumanos/declaracao/> Acesso em: 23 set. 2018.
compreensiva codificação dos direitos destes a nível internacional.9 No entanto, apesar de ser anterior ao Estatuto do Estrangeiro, foi somente com a Lei nº 9.474 de 1997 que a Convenção de 1951 foi implementada. Como já evidenciado, tal demora se deve principalmente a uma política protecionista e nacionalista da ditadura militar, não baseada nos direitos fundamentais e cega para a situação internacional.
Contudo, apesar de Estatuto que tratava de estrangeiros não estar em coerência com os princípios atuais, é importante revelar que este país, quando se discute sua posição no cenário internacional, possuía (e ainda possui) uma posição de destaque. Por exemplo, quando o Comitê Consultivo para Refugiados foi criado, o Brasil, juntamente com a Venezuela, era membro, representando o continente sul-americano. Por mais que essa posição ativa fosse relevante, percebia-se isto somente na diplomacia, já que na prática a atuação brasileira era bastante limitada. Assim, durante o período pós-guerra e a ditadura militar, o perfil da pessoa que se refugiava no Brasil era, basicamente, o perseguido europeu, já que existia reserva geográfica nesse sentido nos tratados assinados. Somente em 1989, já após a nova Carta Política, é que a reserva foi abolida, sendo possível a concessão de refúgio aos latino-americanos.10
Dessa forma, o Estatuto dos Refugiados deve ser considerada um marco no que toca a inclinação do Brasil a um maior grau de comprometimento com os refugiados, já que foi a primeira legislação a concretizar um Tratado Internacional de Direitos Humanos, além de estar presente no processo de redemocratização, juntamente com a Constituição Federal de 1988. Esta que, priorizando os direitos fundamentais, tem como fundamentos a cidadania e dignidade da pessoa humana11, ademais de possuir a prevalência deste último como norte nas suas relações internacionais12 e garantir que será assegurado ao
9Convenção de 1951. Disponível em: <http://www.acnur.org/portugues/convencao-de-1951/> Acesso em: 25 set. 2018.
10 FISCHEL DE ANDRADE, José H.. Aspectos históricos da Proteção de Refugiados no Brasil (1951 –
1997). In: JUBILUT, Liliana Lyra; GODOY, Gabriel Gualano de. Refúgio no Brasil Comentários à Lei 9.474/97. Sao Paulo: Quartier Latin, 2017. p. 41-79.
11Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: (...) II - a cidadania; III - a dignidade da pessoa humana. (...). Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm> Acesso em: 25 set. 2018.
12Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Art. 4º A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos rege-seguintes princípios: (...) II - prevalência dos direitos humanos. (...). Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm> Acesso em: 25 set. 2018.
estrangeiro tratamento igualitário, no título que trata dos direitos e garantias fundamentais.13
Este foi o panorama da política migratória brasileira quando se trata de uma visão legislativa e, neste diapasão, no ano de 2017, foi aprovada a Nova Lei de Migração, nº 13.445. Esta veio substituir a Lei nº 6.815/80, sendo agora o estrangeiro visto como um sujeito de direitos de forma bem mais ampla, não mais encarado como uma ameaça. Apesar de não ser uma norma específica para refugiados, como o é a Lei nº 9.474, a lei em questão transforma, ou visa a transformar, uma cultura preconceituosa e retrógrada até então entranhada na sociedade por meio do Estatuto do Estrangeiro, além de cambiar o tratamento fornecido aos refugiados, garantindo uma visão ainda mais humana para com sua situação.
Destinada aos migrantes, a lei não é, então, focada exatamente na proteção dos indivíduos objetos de estudo deste trabalho, mas, de acordo com o ACNUR, tal termo é utilizado por diversos sujeitos, por exemplo organizações internacionais, meios de comunicação e formuladores de política, como uma expressão generalista, abarcando também os refugiados.14 Desta forma, a nova legislação tem o poder de trazer diversas inovações e benefícios para os que buscam refúgio.
O atual tratamento do Estado a esses tipos de migrantes é, então, uma política baseada nos direitos humanos. Este que, de acordo com André de Carvalho Ramos:
(...) consistem em um conjunto de direitos considerado indispensável para uma vida humana pautada na liberdade, igualdade e dignidade. Os direitos humanos são os direitos essenciais e indispensáveis à vida digna. (...) Os direitos humanos representam valores essenciais, que são explicitamente ou implicitamente retratados nas Constituições ou nos tratados internacionais. A fundamentalidade dos direitos humanos pode ser formal, por meio da inscrição desses direitos no rol de direitos protegidos nas Constituições e tratados, ou pode ser material, sendo considerado parte integrante dos direitos humanos aquele que – mesmo não expresso – é indispensável para a promoção da dignidade humana.15
13Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: (...). Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm> Acesso em: 25 set. 2018.
14 “Refugiados” e “Migrantes”: Perguntas Frequentes. Disponível em: <http://www.acnur.org/portugues/2016/03/22/refugiados-e-migrantes-perguntas-frequentes/> Acesso em: 27 set. 2018.
Como ensina o doutrinador, dessa forma se dá no ordenamento brasileiro, pois, na Constituição da Republica Federativa do Brasil de 1988, vários são os direitos humanos positivados na forma de direitos fundamentais e reforçados nas normas infraconstitucionais, como acontece na lei nº 13.445/17.
Tal questão é de extrema relevância atualmente, pois, como se sabe, vários são os setores que são afetados por essa crise humanitária. Diplomacia internacional, economia e proteção da Constituição são alguns exemplos de âmbitos que estão diretamente ligados com a política migratória. Então, para que se possa entender melhor o tratamento dado pelo Governo brasileiro a tais migrantes, será necessário estudar quem é considerado refugiado, com o fito, também, de esclarecer melhor quem é o sujeito dos direitos aqui discutidos e os motivos de os possuir como base para uma agenda política migratória justa.
2.1. Condição de refugiado de acordo com o Direito brasileiro: reconhecimento das diferenças entre os tipos de migração.
Inicialmente, há que se destacar os termos “migrante” e “refugiado” não são sinônimos, devendo ser a distinção realizada de forma bem clara para que não ocasione problemas no momento de concessão de refúgio. A nova lei de migração deixa clara a conceituação daqueles primeiros, que são destinatários primário (tendo em vista que muito mudará em favor dos refugiados), no seu artigo primeiro:
Art. 1o Esta Lei dispõe sobre os direitos e os deveres do migrante e do visitante, regula a sua entrada e estada no País e estabelece princípios e diretrizes para as políticas públicas para o emigrante. § 1o Para os fins desta Lei, considera-se: I - (VETADO); II - imigrante: pessoa nacional de outro país ou apátrida que trabalha ou reside e se estabelece temporária ou definitivamente no Brasil; III - emigrante: brasileiro que se estabelece temporária ou definitivamente no exterior; IV - residente fronteiriço: pessoa nacional de país limítrofe ou apátrida que conserva a sua residência habitual em município fronteiriço de país vizinho; V - visitante: pessoa nacional de outro país ou apátrida que vem ao Brasil para estadas de curta duração, sem pretensão de se estabelecer temporária ou definitivamente no território nacional; VI - apátrida: pessoa que não seja considerada como nacional por nenhum Estado, segundo a sua legislação, nos termos da Convenção sobre o Estatuto dos Apátridas, de 1954, promulgada pelo Decreto nº 4.246, de 22 de maio de 2002, ou assim reconhecida pelo Estado brasileiro.16 (GRIFO NOSSO)
16 Brasil. Lei nº 13.445, de 24 de maio de 2017. Institui a Lei de Migração. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/L13445.htm>. Acesso em: 30 set. 2018.
Neste paradigma, deve-se acrescentar, também, que o conceito de migração traz uma ideia de voluntariedade, ou seja, a pessoa migra com o intuito de buscar melhores condições de vida, por exemplo, econômicas; o que não é o caso dos refugiados, tendo em vista que estes, como será visto, não possuem a opção de retornar aos seus países quando bem entenderem, obtendo, assim, maior proteção internacional, porém isso não impede que possa ser utilizado um conceito mais generalista de migrantes, abrangendo uma maior gama de sujeitos. 17
Como já evidenciado, o ordenamento brasileiro vem, principalmente, por meio do Estatuto dos Refugiados das Nações Unidas de 1951, do seu Protocolo de 1967 e da Lei 9.474/97, instituir a proteção dos que necessitam de refúgio. Neste, dispõe o primeiro dispositivo:
Art. 1º Será reconhecido como refugiado todo indivíduo que: I - devido a fundados temores de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas encontre-se fora de seu país de nacionalidade e não possa ou não queira acolher-se à proteção de tal país; II - não tendo nacionalidade e estando fora do país onde antes teve sua residência habitual, não possa ou não queira regressar a ele, em função das circunstâncias descritas no inciso anterior; III - devido a grave e generalizada violação de direitos humanos, é obrigado a deixar seu país de nacionalidade para buscar refúgio em outro país.18
Assim, é preciso uma análise mais aprofundada deste artigo. No que tange ao primeiro inciso, fala-se de fundado temor de perseguição, o que abriga tanto um elemento subjetivo (onde o solicitante de refúgio, em um olhar pessoal, define a própria situação, por intermédio do temor sentido por ele), como objetivo (pois é essencial que haja um fundamento para a solicitação, baseado na realidade objetiva do país de origem). A objetividade demonstra que é definitivamente circunstâncias que possam afetar a integridade, liberdade ou, até mesmo, a vida. Além disso, o que se entende por perseguição é a razoável possibilidade de ter direitos e garantias fundamentais feridas, por mais que não seja necessária que tal perseguição esteja acontecendo, pois só o fundado temor já se mostra suficiente. 19
17 “Refugiados” e “Migrantes”: Perguntas Frequentes. Disponível em: <http://www.acnur.org/portugues/2016/03/22/refugiados-e-migrantes-perguntas-frequentes/> Acesso em: 30 set. 2018.
18 Brasil. Lei nº 9.474, de 22 de julho de 1997. Define mecanismos para a implementação do Estatuto dos Refugiados de 1951, e determina outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9474.htm>. Acesso em: 30 set. 2018.
19
CARNEIRO, Wellington Pereira. O Conceito de Proteção no Brasil: o Artigo 1 (1) da lei 9.474/97. In: JUBILUT, Liliana Lyra; GODOY, Gabriel Gualano de. Refúgio no Brasil Comentários à Lei 9.474/97. Sao Paulo: Quartier Latin, 2017. p. 95-104.
Destaca-se, ainda, que é estritamente preciso que o solicitante se encontre fora do país de nacionalidade, ou seja, do de sua origem. Trata-se do princípio da extraterritorialidade, o qual limita as solicitações de refúgio, tendo em vista as dificuldades de locomoção, por exemplo condições precárias, alto preço e políticas migratórias fechadas dos países que recebem. O segundo inciso traz proteção aos refugiados apátridas, ou seja, aqueles que não são considerados como nacionais por nenhum Estado. Neste sentido, é preciso que haja um duplo reconhecimento: o de refugiado e o de apátrida. Ademais, deve-se demonstrar qual era a residência habitual do indivíduo, com o intuito de definir sobre o refúgio.
Ao terceiro inciso, deve-se dar muita atenção, porque a ideia de grave e generalizada violação dos direitos humanos trouxe o conceito de refugiado para um âmbito diferente do que se estava habituado, afastando-se, desse modo, da definição clássica, trazida pela Convenção de 1951. Tal definição é baseada na Declaração de Cartagena de 1984, que assim diz:
“Deste modo, a definição ou o conceito de refugiado recomendável para sua utilização na região é o que, além de conter os elementos da Convenção de 1951 e do Protocolo de 1967, considere também como refugiados as pessoas que tenham fugido dos seus países porque a sua vida, segurança ou liberdade tenham sido ameaçadas pela violência generalizada, a agressão estrangeira, os conflitos internos, a violação maciça dos direitos humanos ou outras circunstancias que tenham perturbado gravemente a ordem publica.” 20
Logo, é preciso evidenciar que não é taxativo tal conceito. Desse modo, pode-se entender por generalizada a ação que possui certa repetição e que não é contra um só ser, mas, além disso, é necessária que tal ato seja grave, ou seja, pesado o suficiente para que adentre a definição, no que tange, por exemplo, sua crueldade e repreensão diante da sociedade internacional.21
O esclarecimento do conceito em questão é obrigatório, pois o não conhecimento dele pode gerar até mesmo preconceito, por exemplo caso haja confusão com o extraditado, onde existe o envolvimento com algum crime, podendo levar a certa
20 Declaração de Cartagena. Disponível em: <
http://www.acnur.org/fileadmin/Documentos/portugues/BD_Legal/Instrumentos_Internacionais/Declarac ao_de_Cartagena.pdf>. Acesso em: 30 set. 2018.
21 HOLZHACKER, Vivian. A Situação de Grave e Generalizada Violação aos Direitos Humanos como Hipótese para o Reconhecimento do Status de Refugiado no Brasil. In: JUBILUT, Liliana Lyra; GODOY, Gabriel Gualano de. Refúgio no Brasil: Comentários à Lei 9.474/97. Sao Paulo: Quartier Latin, 2017. p. 121-131.
discriminação.22 Neste sentido, é evidente que não se pode confundir as definições de refugiado e migrantes, porém isso não indica que uma Lei de Migração não possa ser benéfica para os sujeitos em questão, apesar da ideia mais generalista, ou seja, de que todo refugiado é um migrante, mas que o contrário não se faz verdade.
2.1.1. Burocracia e dificuldades enfrentadas no processo de determinação da necessidade de refúgio
Sabendo, então, dos preceitos necessários para a definição de condição de refugiado, é importante que se tenha noção do procedimento de requerimento de refúgio. Muitas vezes, este processo se dá de uma forma tão lenta que não só catalisa a violação de direitos, mas também os violam por si só.
Desse modo, de acordo com a Lei 9.474/97, ao chegar no território brasileiro, deve o estrangeiro solicitar, a qualquer autoridade migratória, o reconhecimento como refugiado. Destaca-se que somente tal solicitação já lhe garante direitos, como a da não possibilidade de ser deportado para o país no qual sofria violações, por mais que tenha entrado no país de forma ilegal.23
Neste mesmo diapasão, após a solicitação, a autoridade, a qual o solicitante se dirigiu deverá realizar o termo de declaração, com o fito de observar os motivos e circunstâncias que influenciaram o caso, juntamente com o fornecimento de dados pessoais. Este termo não só inicia as formalidades indispensáveis, como também serve de documento para o possível refugiado, pelo menos até que seja expedido pela polícia federal, e liberado pelo CONARE – Comitê Nacional para Refugiados – o “protocolo provisório”, haja vista que este é o órgão responsável por analisar o pedido e declarar o reconhecimento da condição de refugiado.24
22 Extradição. Disponível em: < http://www.justica.gov.br/sua-protecao/cooperacao-internacional/extradicao>. Acesso em: 02 out. 2018.
23Art. 7º O estrangeiro que chegar ao território nacional poderá expressar sua vontade de solicitar reconhecimento como refugiado a qualquer autoridade migratória que se encontre na fronteira, a qual lhe proporcionará as informações necessárias quanto ao procedimento cabível.§ 1º Em hipótese alguma será efetuada sua deportação para fronteira de território em que sua vida ou liberdade esteja ameaçada, em virtude de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opinião política.§ 2º O benefício previsto neste artigo não poderá ser invocado por refugiado considerado perigoso para a segurança do Brasil..Disponível em:<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9474.htm> Acesso em: 02 out. 2018. 24JUBILUT, Liliana Lyra. O procedimento de concessão de refúgio no Brasil. Disponível em: < http://www.justica.gov.br/central-de-conteudo/estrangeiros/o-procedimento-refugio-no-brasil.pdf> Acesso em: 02 out. 2018.
Nesse contexto, o solicitante se encontra em situação regular provisoriamente, pois há de ser proferida decisão, podendo, inclusive, ter acesso ao mercado formal de trabalho. Acrescenta, ainda, a autora Flávia Ribeiro Rocha Leão, dando importância ao princípio da não devolução (que garante uma proteção contra a devolução das pessoas para o país de origem)25:
De extrema relevância é a regularização imediata do solicitante, a fim de que se possa assegurar a efetiva proteção consubstanciada no princípio da não devolução (non-refoulement) basilar no Direito Internacional dos Refugiados.
Após esses procedimentos, é essencial que ocorra uma entrevista com o solicitante junto a um representante do CONARE, sendo o plenário deste que tomará uma decisão após análise do caso. Acontecendo tudo conforme o esperando e visando o reconhecimento, depois do deferimento, a Polícia Federal precisa ser informada para que haja o arquivamento dos processos instaurados contra o solicitante por causa de sua entrada irregular, além de realizar um registro, com a assinatura do “termo de responsabilidade”, requerendo o “registro nacional de estrangeiro”.
Cumpre destacar que há a possibilidade de a demanda ser indeferida, cabendo então recurso. No entanto, este deve ser endereçado ao Ministro da Justiça (também representante do CONARE e presidente do órgão), no prazo de 15 (quinze) dias, contados da notificação. Da decisão não caberá recurso novamente, e, em caso de deferimento, passará pelo processo já descrito, sendo, contudo, regido pela legislação de estrangeiros, em caso de negativa, havendo notificação para deixar o país.26
Neste paradigma, é importante ressaltar dados fornecidos por meio da ACNUR. Tais afirmam que até o final do ano de 2017 foram realizadas 33.866 solicitações de refúgio, estando ainda todas estas em tramitação, ou seja, não foram julgadas pelo CONARE. No mesmo ano, foram reconhecidos 431 refugiados, acrescentando-se 156
25LEÃO, Flávia Ribeiro Rocha. Condição de Refugiado: da Solicitação até a decisão pelo Comitê Nacional para Refugiados (CONARE)l. In: JUBILUT, Liliana Lyra; GODOY, Gabriel Gualano de. Refúgio no Brasil Comentários à Lei 9.474/97. Sao Paulo: Quartier Latin, 2017. p. 215-225.
26 JUBILUT, Liliana Lyra. O procedimento de concessão de refúgio no Brasil. Disponível em: < http://www.justica.gov.br/central-de-conteudo/estrangeiros/o-procedimento-refugio-no-brasil.pdf>. Acesso em: 02 out. 2018.
pedidos de extensão de efeitos, resultando 587 reconhecimentos, o que evidencia o ainda julgamento de solicitações de anos anteriores e a lenta velocidade do órgão.27
Fonte: Refúgio em Números. Disponível em: <http://www.acnur.org/portugues/wp-content/uploads/2018/04/refugio-em-numeros_1104.pdf> Acesso em 02 out. 2018
Como demonstrado na imagem, há uma demora muito grande, principalmente pelo fato de que existe uma enorme concentração em um órgão só, que é o CONARE, ficando este abarrotado de processos, sem julgá-los. Percebe-se, facilmente, que há a necessidade de uma grande força-tarefa e colaboração de todos os envolvidos para acelerar o processo, pois a quantidade de solicitações, falta de recursos humanos e essa grande burocracia e lentidão no que tange a concessão de refúgio demonstrados por meio do longo procedimento e dos dados fornecidos geram grandes desafios para os que se encontram nessas situações. Totalmente diferente ocorre em países europeus, por exemplo na França que, em 2017, recebeu 100.412 solicitações de refúgio, não ficando nenhuma pendente na primeira instância. Destes, 13.020 receberam o status de refugiado e 10.985 alguma proteção subsidiária, enquanto 65.302 ficaram com a resposta negativa. O resto ou desistiu do processo ou recorreu. Tais dados demonstram a eficácia no julgamento das ações, exemplo que precisa ser seguido pelos brasileiros. 28
27 Refúgio em Números. Disponível em: <http://www.acnur.org/portugues/wp-content/uploads/2018/04/refugio-em-numeros_1104.pdf> Acesso em 02 out. 2018
28 Statistics. Disponível em: < https://www.asylumineurope.org/reports/country/france/statistics>. Acesso em: 4 out. 2018.
Como já é sabido, quando há a solicitação perante a polícia federal, o solicitante encontra-se protegido, não podendo ser enviado de volta ao seu país de origem, além de possuir direitos sociais, como a capacidade de trabalhar. Dessa forma, entre o longo período entre a solicitação e o julgamento do seu caso, normalmente, o indivíduo já tem construído toda uma vida, havendo família, trabalho, amigos e, até mesmo, identificação com o lugar e cultura no qual está instalado.
Desta feita, gera grande insegurança a possibilidade de obtenção de uma resposta negativa após meses ou anos da data da solicitação. Isto, portanto, deve ser analisado sob os olhos dos Direitos Humanos e dos Refugiados, o que gera a imprescindibilidade de entender os fundamentos para a política de migração deste país.
2.2. Direitos Humanos dos Refugiados: princípios fundamentais para uma justa política de migração.
Com a maior crise humanitária do século e a consequente grande violação de direitos fundamentais para o ser humano, busca-se, atualmente, soluções que visam a um olhar mais acolhedor das pessoas que estão à procura de um lugar para reconstruir a vida, pois, como se sabe, muitos tiveram que deixar o próprio país, muitas vezes não conseguindo levar consigo emprego e família, por exemplo. O próprio Estatuto dos Refugiados, nas disposições finais, deixa claro que há de haver harmonia entre este e a Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948, um dos principais e pioneiros documentos acerca de Direitos Humanos, e com todos os dispositivos que concernem a proteção de tais direitos.29
De acordo com Camila Baraldi:
Diante disso, é importante refletir sobre o delineamento concreto do discurso de direitos humanos que está em voga no Brasil, verificando premissas e contornos de uma política migratória baseada na garantia dos direitos dos imigrantes. Como já foi apontado, a efetividade da garantia destes direitos requer a mudança de paradigma que implica reconhecer os imigrantes como
29Brasil. Lei nº 9.474, de 22 de julho de 1997. Art. 48. Os preceitos desta Lei deverão ser interpretados em harmonia com a Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948, com a Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951, com o Protocolo sobre o Estatuto dos Refugiados de 1967 e com todo dispositivo pertinente de instrumento internacional de proteção de direitos humanos com o qual o Governo brasileiro estiver comprometido. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9474.htm> Acesso em: 04 out. 2018.
sujeitos e não objetos do direito e da política. 30
Desta feita, inicialmente, é relevante lembrar de alguns princípios peculiares à condição de ser humano. Logo, deve-se deixar claro, então, um dos fundamentos basilares: a dignidade humana. Esta se diferencia pelo fato de ser inerente a todas as pessoas, identificando-as como humanos, possuindo elementos negativos que chamam a atenção para o que não se pode fazer, como proibir comportamentos degradantes da condição humana, e elementos positivos, com uma vertente, de certa forma, minimalista, pois dever-se-á garantir o mínimo existencial a todos, ficando claro que o conceito de dignidade humana sempre será aberto e em constante construção e desenvolvimento, podendo variar de acordo, eg, da cultura. 31
Assim, independente de qualquer diferença que possa existir entre um e outro, há que haver respeito mútuo pelo simples fato de ser humano, o que, inclusive, é reconhecido no preâmbulo pelo documento acima destacado, a Declaração Universal de Direitos Humanos, quando se afirma que a dignidade é inerente a todos os membros da família humana, não fazendo distinção de qualquer tipo. 32 Além deste, vários outros são os dispositivos internacionais que declaram o exposto, como a Convenção Americana sobre Direitos Humanos de 1969 (também conhecido como Pacto de San José da Costa Rica), sendo, desse modo, um princípio fundamental para o entendimento do tema.
Outros direitos basilares são os que estão positivados, também, na Carta Política brasileira, artigo 5º, onde se consagra os princípios da igualdade, liberdade, vida, segurança e propriedade, incluindo no rol de sujeitos os estrangeiros, e buscando assegurar, dessa forma, uma vida digna a todos.33 Ademais, não se pode olvidar do princípio da fraternidade, pois este apregoa que o homem, ao viver em sociedade, precisa colaborar entre si, integrando ainda os Estados, em busca de um objetivo comum, qual seja a efetivação dos direitos humanos, ficando evidente no primeiro artigo da Declaração
30BARALDI, Camila Bibiana Freitas. Migrações Internacionais, Direitos Humanos E Cidadania Sul-Americana: O Prisma Do Brasil E Da Integração Sul-Americana. 2014. 151 f. Tese (Doutorado) - Curso de Relações Internacionais, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014, pág. 72.
31RAMOS, André de Carvalho. Curso de Direitos Humanos. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2017, p. 74 - 77. 32(ONU), Organização das Nações Unidas. Declaração Universal dos Direitos Humanos. 1948. Disponível em: <http://www.onu.org.br/img/2014/09/DUDH.pdf>. Acesso em: 05 out. 2017.
33 Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. “Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:”. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm> Acesso em: 25 set. 2018.
Universal34. Os refugiados se encontram entre um dos grupos mais vulneráveis da sociedade, necessitando de proteção e apoio, sabendo-se que tentam escapar de torturas e tratamentos inumanos e degradantes nos seus países de origem, onde, muitas vezes, há conflitos armados e situações de violência política, devendo, então, prevalecer a fraternidade, ou seja, cooperação e solidariedade entre todos.
Por este motivo, é importante, ainda, levar em consideração os direitos mais específicos que tangem os refugiados e que levam a uma política migratória mais justa. Como exemplo disso, pode-se falar do princípio da não devolução (bastante conhecido como non-refoulement), consagrado com uma maior abrangência na Convenção de 1951, onde se afirma a não possibilidade de retorno forçado de um refugiado ao país de origem, ou seja, o lugar o qual sofria perseguições e/ou graves violações a direitos humanos, recebendo ameaças à vida e à liberdade. Necessário destacar que não é preciso o reconhecimento formal como refugiado, sendo direito da pessoa. 35
Muito importante em um contexto como este é a observância do princípio da não-discriminação, exaltado nesta Convenção, dizendo não poder haver diferença feita entre os refugiados por motivo de religião, raça ou país de origem.36 Após, ao se continuar a leitura deste documento, nota-se a procura de um tratamento igualitário entre nacionais e estrangeiros ao existir dispositivos que dizem respeito ao direito de liberdade religiosa, de proteção da propriedade intelectual, de acesso à justiça, de acesso à educação pública, por exemplo.
Neste diapasão, destaca-se também a reunião familiar (ou unidade família). Acontece, diversas vezes, de a família se separar ao tentar escapar de alguma situação perigosa, acarretando muitos problemas, principalmente se isto ocorrer havendo crianças. Tal princípio, que deu origem ao artigo segundo da lei 9.474/97 que trata da extensão do reconhecimento do refugiado ao resto da família, prega o rastreamento do núcleo familiar
34 Declaração Universal de Direitos Humanos. Art. 1º: Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito
de fraternidade. Disponível em: <
https://www.ohchr.org/EN/UDHR/Documents/UDHR_Translations/por.pdf> Acesso em: 06 out. 2018. 35Convenção De 1951. Art. 33 §1º: Nenhum dos Estados Contratantes expulsará ou rechaçará, de maneira alguma, um refugiado para as fronteiras dos territórios em que a sua vida ou a sua liberdade seja ameaçada em virtude da sua raça, da sua religião, da sua nacionalidade, do grupo social a que pertence
ou das suas opiniões políticas. Disponível em:
<http://www.acnur.org/fileadmin/Documentos/portugues/BDL/Convencao_relativa_ao_Estatuto_dos_Re fugiados.pdf> Acesso em: 06 out. 2018
36 Convenção De 1951. Art. 3º Os Estados Contratantes aplicarão as disposições desta Convenção aos refugiados sem discriminação quanto à raça, à religião ou ao país de origem. Disponível em: <http://www.acnur.org/fileadmin/Documentos/portugues/BDL/Convencao_relativa_ao_Estatuto_dos_Re fugiados.pdf> Acesso em: 06 out. 2018
para que eles possam garantir o direito de estar juntos, evitando várias consequências psicológicas, tendo em vista que a proteção dos membros familiares entre si é, na maioria das vezes, mais eficaz que uma ajuda externa, sendo considerado pelo ACNUR como uma das soluções duradouras capazes de resolver o conflito. 37
Nas lições de Ricardo Burratino Félix:
“A formação individual de cada cidadão inicia-se no núcleo familiar, onde não apenas o sustento orgânico é oferecido para o desenvolvimento físico, mas, sobretudo, a oferta de afeto, apoio e exemplo serve para a formação cognitiva, ao caráter, à capacidade de sociabilidade e à construção das condições essenciais ao desenvolvimento das potencialidades humanas, culminando na construção da própria sociedade.(...) Na sociedade brasileira, o refugiado luta para inserir-se no mercado de trabalho a garantir o seu sustento. Casos emblemáticos de reunião familiar demonstram o quão importante é aos refugiados reunirem-se com seus familiares, o que facilita a reconstrução de suas vidas na sociedade brasileira (...)” 38
Outro direito que merece destaque é o direito à nacionalidade. Grande é a preocupação com os apátridas, ou seja, aqueles que nascem sem nacionalidade ou a tem retirada pelo Estado, quedando-se sem proteção e à margem. Assim, reconhece-se este direito no âmbito dos refugiados devido a grande proporção que tomou, no que concerne a enorme quantidade de pessoas em busca de refúgio por não receberem a devida proteção do Estado, não podendo ninguém ser privado de sua nacionalidade por questões étnicas, raciais, religiosas ou políticas.39 A maior luta neste sentido é também pelo fato de que a proteção à nacionalidade permite a garantia, ou pelo menos a busca, de diversos outros direitos humanos.
Neste paradigma, além de se ter conhecimento da falta de preservação e de proteção no país de origem, deve-se procurar evitar que aconteça o mesmo no local de destino. Diversos são os casos de violações à pessoa do refugiado, tanto físicas como mentais, sofrendo, este, preconceitos, possuindo-se como grande exemplo o caso de se achar que os refugiados estariam sobrecarregando o mercado e tomando vagas de emprego dos brasileiros. Este discurso realizado na época da Ditadura militar não mais
37Reunião Familiar. Disponível em: <http://www.acnur.org/portugues/solucoes-duradouras/reuniao-familiar/> Acesso em: 8 out. 2018.
38 BURRATINO FÉLIX, Ricardo. Breves Comentários às Resoluções Normativas do CONARE. In: JUBILUT, Liliana Lyra; GODOY, Gabriel Gualano de. Refúgio no Brasil Comentários à Lei 9.474/97. Sao Paulo: Quartier Latin, 2017. p. 264- 265.
39Perguntas e Respostas. Disponível em: <http://www.acnur.org/portugues/dados-sobre-refugio/perguntas-e-respostas/> Acesso em: 8 out. 2018.
possui fundamento nos dias atuais, devendo se prezar pela salvaguarda da dignidade humana.
Por este motivo é tão importante o estudo de tais direitos, pois, como se pode observar, há forte ligação entre refugiados e direitos humanos, já que são sujeitos bastante sensíveis no que tangem a este assunto. Não obstante várias controvérsias internacionais, já que se visualiza certo retrocesso no cenário mundial, no que concerne políticas migratórias fechadas, é preciso comemorar grande avanço na lei que instituiu o Estatuto dos Refugiados no Brasil, como se verá adiante, e, pois, já evidenciado, neste se preza por todos os documentos que tratam de direitos humanos.
2.3. Lei 9.474/97: grande passo para a proteção dos refugiados.
Exalta-se, então, o avanço legislativo trazido pelo Estatuto dos Refugiados, acompanhando uma política de tratamento destes que há muito tempo chamava a atenção da sociedade internacional, e nacional também, durante o processo de redemocratização. Como já evidenciado, a Lei 9.474 de 1997 trouxe um novo olhar ao estrangeiro, diferente daquele excludente proclamado na época da ditadura militar, justificando tal exclusão por meio de políticas nacionalistas, as quais traziam consigo preconceitos e inseguranças infundamentados. É possível notar a mudança imediatamente ao estudar o conceito de refugiado, julgando pela relevância dada à viabilidade de se reconhecer por causa da grave e generalizada violação de direitos humanos e aos apátridas, não excluindo o conceito tradicional.
Outra inovação trazida por esse documento se encontra no artigo 4º, pois, ao afirmar o reconhecimento da condição de refugiado sem prejuízo do disposto em outros instrumentos internacionais que o Estado seja parte, tal dispositivo tem assim, de acordo com José Francisco Sieber Luz Filho:
“uma função não somente receptiva com respeito à normativa doméstica e internacional relacionada ao estatuto do refugiado no Brasil ou o regime jurídico a ser aplicado, mas também uma função reconhecedora do refugiado sob a jurisdição brasileira como um sujeito de direitos, os quais não são regidos de maneira estrita. (...) Tal função, além de permitir modificações advindas de outros instrumentos jurídicos, reconhece, ao referir-se de forma clara e direta a instrumentos internacionais, que a condição jurídica do
refugiado e seus direitos são uma preocupação de caráter e natureza jurídica internacional.”40
Evidencia-se, dessa maneira, que a legislação intenta adicionar em prol dos refugiados uma ampla gama de direitos, o que garante efetivação do princípio da igualdade entre eles e os nacionais, como preza a Constituição Federal de 1988 no seu artigo 5º. Além disso, a interpretação deste dispositivo deve ser realizada com um olhar para o futuro, ou seja, não somente aqueles instrumentos internacionais, os quais o Brasil já é parte, devem ser levados em conta, mas também aqueles que este país ainda será, rogando para que haja então uma harmonia e contínua evolução do Direito Internacional dos Refugiados junto com o Direito Interno, com o fito de garantir a devida proteção dos direitos dos que buscam refúgio.
Grande conquista em prol da luta dos refugiados foi a criação do Comitê Nacional para Refugiados – CONARE –, trazido pela Lei 9474/97, com o fito de tomar decisões sobre a condição dessas pessoas, analisando o pedido de reconhecimento em primeira instância, e ajudar na promoção da integração deles no território brasileiro, coordenando as ações necessárias. 41 Por este motivo, tal órgão é de extrema importância, sendo responsável pela concessão ou não de refúgio e pela realização de inúmeras iniciativas que, juntamente com o ACNUR, minimizam os efeitos negativos de uma crise tão profunda, como é a que se passa atualmente, como por meio do reassentamento de refugiados (transferência para um país que está de acordo em admitir o refugiado, concedendo, as vezes assentamento permanente).42
Para que se possa por em prática e, assim, iniciar os procedimentos que se façam precisos no que concerne tais ações em benefício dessa população, é também competência do CONARE a criação de instruções normativas esclarecedoras. Por exemplo, é por intermédio da Resolução Normativa de nº 16 que se garante a extensão do reconhecimento de refugiado à família, princípio de reunião famíliar já tratado, incluindo aí, não somente cônjuge, descendente e ascendentes, como também tios, primos, companheiros que formam laços de mais intensa intimidade, levando, obviamente, em conta a grande diferença cultural que, muitas vezes, existe entre o país que acolhe e o de
40 SIEBER LUZ FILHO, José Francisco. Os Refugiados Sob a Jurisdição Brasileira: Breves Observações sobre seus Direitos. In: JUBILUT, Liliana Lyra; GODOY, Gabriel Gualano de. Refúgio no Brasil Comentários à Lei 9.474/97. Sao Paulo: Quartier Latin, 2017. p. 187.
41 CONARE.. Disponível em: < http://www.acnur.org/portugues/acnur-no-brasil/conare/> Acesso em: 08 out. 2018.
42 Reassentamento. Disponível em: < http://www.acnur.org/portugues/solucoes-duradouras/reassentamento/> Acesso em: 08 out. 2018.
origem, sendo concebível, inclusive, a concessão de visto visando à possibilidade da reunião familiar, facilitando a viagem para que se encontrem no Brasil. Além disso, é possível que o refugiado requeira a permanência definitiva neste país quando passa mais de quatro anos nesta condição, caso comprove:43
“ser profissional qualificado e contratado por instituição instalada no país; ser profissional com capacitação reconhecida por órgão da área pertinente; estar estabelecido com negócio resultante de investimento de capital próprio.”
Como já foi falado, uma das soluções duradouras que busca garantir uma vida digna e pacífica à classe de migrantes em questão é o reassentamento. Na Resolução Normativa nº 14 do CONARE, tem-se consciência de diversas dificuldades deparadas no caminho, seja a impossibilidade de retorno ao país de origem, sejam as situações de periculosidade no país de destino. Nesta, há uma atuação conjunta do órgão brasileiro, do Governo e do ACNUR visando a um objetivo comum: analisar as solicitações de reassentamento, assegurando maior integração dos refugiados na sociedade na qual este está inserido, provendo documentos (como carteira de trabalho, passaporte, CPF.) e uma atmosfera harmônica para o desenvolvimento das pessoas de forma saudável.
Portanto, esse novo olhar ao refugiado permitiu que a legislação evoluísse para que fosse possível chegar ao que hoje é. O estatuto é considerado bastante avançado e serve de parâmetro para outras leis, tanto no âmbito interno, como no externo, sendo de enorme relevância o reconhecimento deste avanço. 44 A instrumentalização da proteção trazida pela lei em questão deve acontecer em conjunto com outros sujeitos, evitando a concentração em um órgão somente e, consequentemente, certa lentidão processual. Ademais, como já destacado em tópico anterior, a própria espera da resposta já viola, por si só, direitos das pessoas, pois a insegurança que provém desta vai de encontro com os princípios dos direitos humanos que regem esta lei.
Desse modo, por mais que o desenvolvimento seja significativo, não é aconselhável achar que todos os problemas estão resolvidos por causa de uma boa legislação. A Nova Lei de Migração é prova de que a burocracia e a cultura concernente o tratamento do estrangeiro é, muitas vezes, ainda, bastante atrelada às ideias do período
43 BURRATINO FÉLIX, Ricardo. Breves Comentários às Resoluções Normativas do CONARE. In: JUBILUT, Liliana Lyra; GODOY, Gabriel Gualano de. Refúgio no Brasil Comentários à Lei 9.474/97. Sao Paulo: Quartier Latin, 2017. p. 263 – 264.
44 Refugiados e CONARE. Disponível em: <http://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/politica-externa/paz-e-seguranca-internacionais/153-refugiados-e-o-conare> Acesso em: 08 out. 2018.
ditatorial, devendo tais ideais serem combatidos militantemente, objetivando assegurar dignidade, igualdade, liberdade, direitos sociais, moradia, trabalho, dentre outros direitos e princípios consagrados na Constituição Federal, em leis infraconstitucionais e em documentos internacionais.