De Menina a Mulher:
Iniciação Feminina entre os
Handa no Sul de Angola
Índice
Handa
• Localização geográfica
• Língua e organização política
• O Eumbo – Espaços constituintes
• Quotidiano no Eumbo
• A importância do gado bovino
A mulher Handa e a sua circunstância
• Passagem de Mukaino a Mukai
• Estatuto da mulher na comunidade Handa
• A relação entre o homem e a mulher no matrimónio
• A hegemonia masculina é relativa
O Efuko – Ritual de Iniciação
• Omasapelefo – Conversas iniciais
Os Handa
Localização geográfica:
• Situam-se desde o noroeste da Cipungu, passando por
Kakula, com prolongamentos espaciais interruptos até à região da Lola e arredores
• O espaço constitui a área tradicional dos Handa, onde
conservam os seus traços culturais relativamente aos meios urbanos
• Estima-se que estejam numericamente compreendidos
Língua e organização política:
• Governados pelos Hamba, que exerciam o poder a
partir da ombala
O Eumbo – Espaços constituintes
• Omuwombelo
• Elimba ya tembo yeumbo
• Elimba lyopokati
• Elimba lya citunda
• Kasapi ya tembo yeumbo
O Eumbo – Espaços constituintes
• Ondjuwo yokomeso
• Ociwnda
Quotidiano no Eumbo
• Economia de auto-subsistência
• O homem controla os bens
• São submetidos ao controlo jurídico e social do
fundador do eumbo
• Comungam as mesmas reverências espirituais
• Desenvolvem entre si laços de cooperação e
A importância do gado bovino
• Símbolo de riqueza
• Sistema de partilha de herança
• Prestígio social, de exuberância, poder e respeito
• Usado para fins agrícolas
• Moeda de pagamento de dívidas
Passagem de mukainu a mukai
• Os indivíduos do sexo feminino são distinguidos de
forma diferente consoante a etapa de vida em que se encontram:
Mukainu
(6 ou 7 anos)
Caracteriza-se por um penteado: ocitandavala
“(…) consiste numa trança grossa e comprida que parte do cimo da cabeça descendo até à nuca. Como complemento desta, partem da testa para cada um dos lados da cabeça tranças corridas e mais finas que a primeira (…) adornadas de missangas que conferem uma certa graciosidade a cada movimento da cabeça.”
A mulher Handa e a sua
circunstância
Aprendem os limites do seu comportamento
Conhecem os perigos dos quais se têm de resguardar
Conhecem as actividades sobre as quais é exigida a sua
atenção
É-lhe confiado o cuidado dos irmãos mais novos
Aprende cânticos e jogos infantis
(9 ou 10 anos)
É exigida uma maior atenção à cozinha, aprendendo a
cozinhar alimentos
Conhece os limites relativamente aos relacionamentos
Mufuko
(11 ou 12 anos)
Nesta fase, inicialmente, muda de penteado
(epando); posteriormente, muda para ehala Tem novas responsabilidades, após o Efuko:
Deve comportar-se como uma mulher adulta
São lhe interditas brincadeiras com o sexo oposto
Passa a ser responsável pela educação dos mais
novos
Passa também a ser responsável pela cozinha e uma
parte do terreno de cultivo
- Começa a despertar o interesse dos homens para o matrimónio
Ekunga
(Depois de alguns meses)
O antigo penteado é substituído por um novo,
designado por: omakhonkha avali
Entra numa idade “casadoira”
É-lhe também exigida destreza e resultados
Mukai
Fase simbolizada por um novo penteado:
owakhonkha atatu
Hulukai
O penteado e indumentária mantêm-se
Passa a ter alguma autoridade que lhe é conferida
Estatuto da mulher na comunidade Handa
• Às mulheres Handa não lhes é permitido ocupar cargos
de chefia
• Os homens têm sobre as mulheres direitos exclusivos
nas relações sexuais
• A noção de mulher está intimamente ligada à noção de
maternidade
“Mulume omulume, mukai ocimboto” (Homem é homem, mulher é sapo)
A relação entre o homem e a mulher no matrimónio
• As mulheres, ao contraírem o matrimónio, deslocam-se
para a casa da família do noivo, onde passam a viver
• Dado a sua família de origem ser deixada com um
sentimento de perda e descompensação, é-lhes
entregue pela família do noivo uma dádiva, designada por ovionda
• É comum no matrimónio o homem atribuir um novo
nome à esposa
• A mulher tem o direito de manifestar desagrado se,
eventualmente, for maltratada pelo marido, podendo até desfazer o matrimónio
• Em caso de adultério, só se dá o divórcio se for a mulher a cometê-lo, não sendo este obrigatório
• Quando casa, a mulher designada por mukai, realiza
tarefas de grande responsabilidade familiar e social:
Cuidar dos filhos e do marido, tendo que o respeitar
Receber e tratar cordialmente os parentes do marido
Educar, ajudar, acarinhar e orientar todos os que a
rodeiam, incluindo os mais velhos
Cuida das suas próprias lavras, instrumentos de
trabalho e animais domésticos
Gere individualmente o dinheiro, que ganha com a
venda dos seus produtos e animais
A hegemonia masculina é relativa
• Constatamos o poder e a importância da mulher, nas
relações entre a primeira mulher e as co-esposas
• Torna-se conselheira do marido, tanto em relação a
problemas pessoais, como no que diz respeito ao lar e à família
• É representante do marido na sua ausência e
acompanhante do mesmo em grandes cerimónias
• Pode interferir na escolha de outras esposas para o
O Efuko – Ritual de Iniciação
•
Processa-se na fase anterior à do matrimónio• Transição para a idade adulta que se prende,
normalmente, com o período púbere das raparigas
• Novos estilos indumentários, de penteado e
Omasapelefo – Conversas iniciais
• Aquando do surgimento do primeiro fluxo menstrual, a
mãe deve comunicá-lo ao pai, que prepara um beberete (omakao) para celebrarem
• Contudo, se a rapariga em causa não tiver ainda
passado pelo efuko, deve tratar-se com a máxima brevidade os planos da festa, organizando-se uma reunião familiar (omasapelefo)
• O aparecimento do primeiro fluxo menstrual não é
condição obrigatória para que a rapariga seja
submetida ao efuko, pode acontecer antes mesmo de uma plena puberdade
• Ao se aproximarem do período púbere, as raparigas alteram o seu penteado. É-lhes substituído o
ocitandavala pelo epando
• Para cada uma das raparigas submetidas ao efuko é
Organização da cerimónia
• A família materna é responsável pela preparação da
bebida para a festa; a família paterna encarrega-se da rês bovina
• Para além de se prepararem os alimentos,
providenciam-se os instrumentos e os batuqueiros para animar a festa, bem como a indumentária e
onomphosua para a confecção do penteado típico do efuko
Personagens da cerimónia
• O centro de todo o cerimonial é a mufuko, ou seja, a
iniciada
• De entre os parentes da mufuko são escolhidas
pessoas para as funções de:
Ina Yomona
Exercida por uma mulher adulta
Seleccionada entre as irmãs uterinas do pai da
mufuko; também pode ser exercida por uma irmã
colateral do mesmo ou por uma prima materna do pai da mufuko
Nangunda
Personagem comediante
Apresenta-se com o corpo coberto de cinza, tal
como a mufuko, e tem atadas sobre a cabeça as orelhas da rês bovina sacrificada para a festa
Angaria fundos para a mufuko
Ciyasa Kumbi
Papel geralmente desempenhado por um rapaz
Munido de uma flecha, deve encabeçar sempre o
grupo constituído pela mufuko e outras raparigas
iniciandas (ou não) na sua deslocação matinal e diária do ombelo para o exterior, onde passam o dia
Kesongo
Primeira das iniciandas do grupo a ser apanhada
para o ritual, caso haja mais de uma mufuko, e a desempenhar várias tarefas
Muiyalui
A sua função é a de ser sempre a primeira do grupo
a começar a comer e a beber durante toda a cerimónia, nas refeições servidas à mufuko
Cififi
Papel desempenhado por um rapaz encarregue
Estrutura do ombelo
• Contrariamente ao que sucede na construção de um
edifício comum, a edificação de um ombelo deve ser feita num só dia
• Para a sua construção é indispensável um grande
número de homens, contudo, a cobertura do edifício é feita por uma única pessoa
• Mais adiante, com alguns troncos de árvores é erguido
o epandavelo, que possui o formato de uma soleira da porta, com o significado de uma entrada sumptuosa
• Lugar de elevado prestígio social; serve todo o grupo nas suas cerimónias de carácter social, cultural e
religioso
• À constituição e função do ombelo estão circunscritos
determinados elementos de natureza vegetal, que revelam o fundamento do efuko:
Omumbolembole
Árvores que dão frutos abundantes, que se
apresentam muito juntos uns dos outros. Característica que simboliza a fecundidade e a multiplicidade
Ongombe
Tipo de erva que abunda nos currais de gado bovino.
Simboliza a riqueza, alimento e abastança, evidenciando a importância do boi no efuko
Onama
Arbusto cujas fibras são utilizadas pelas mulheres e
que constitui um utensílio doméstico. Simboliza o apelo à feminilidade e à domesticidade
Trabalho realizado por:
Íris Pinto Jaqueline Cruz Joana Filipa Ferreira