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ProUni : trajetória social dos bolsistas e inserção no mercado de trabalho

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE ESTUDAL DE CAMPINAS FACULDADE DE EDUCAÇÃO

TAINÁ METELARO URCHEI

PROUNI: TRAJETÓRIA SOCIAL DOS BOLSISTAS

E INSERÇÃO NO MERCADO DE TRABALHO

CAMPINAS

2018

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TAINÁ METELARO URCHEI

PROUNI: TRAJETÓRIA SOCIAL DOS BOLSISTAS E

INSERÇÃO NO MERCADO DE TRABALHO

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas para obtenção do título de Mestra em Educação, na área de concentração de Educação.

Orientadora: Aparecida Neri de Souza

ESTE EXEMPLAR CORRESPONDE À VERSÃO FINAL DA DISSERTAÇÃO DEFENDIDA PELA ALUNA TAINÁ METELARO URCHEI, E ORIENTADA PELA PROFA. DRA. APARECIDA NERI DE SOUZA

CAMPINAS 2018

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Agência de fomento: CAPES

Ficha catalográfica

Universidade Estadual de Campinas Biblioteca da Faculdade de Educação

Rosemary Passos - CRB 8/5751

Urchei, Tainá Metelaro, 1990-

Ur19p Urc Prouni : trajetória social dos bolsistas e inserção no mercado de trabalho / Tainá Metelaro Urchei. – Campinas, SP: [s.n.], 2018.

Urc

Orientador: Aparecida Neri de Souza.

Urc Dissertação (mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação.

Urc 1. PROUNI - Programa Universidade para Todos. 2. Mercado de trabalho. 3. Ética do trabalho. 4. Ética estudantil. I. Souza, Aparecida Neri, 1952-. II. Universidade Estadual de Campinas. Faculdade de Educação. III. Título.

Informações para Biblioteca Digital

Título em outro idioma: Prouni : social trajectory of students and labor market insertion

Palavras-chave em inglês:

PROUNI - University for All Program Labor market

Ethics of work Ethic of studying

Área de concentração: Educação Titulação: Mestra em Educação Banca examinadora:

Aparecida Neri de Souza [Orientador] Patricia Vieira Trópia

Liliana Rolfsen Petrilli Segnini Data de defesa: 28-02-2018

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS FACULDADE DE EDUCAÇÃO

DISSERTAÇÃO DE MESTRADO

PROUNI: TRAJETÓRIA SOCIAL DOS BOLSISTAS E

INSERÇÃO NO MERCADO DE TRABALHO

Autora: Tainá Metelaro Urchei

COMISSÃO JULGADORA: Profa. Dra. Aparecida Neri de Souza

Profa. Dra. Patricia Vieira Trópia

Profa. Dra. Liliana Rolfsen Petrilli Segnini

A Ata da Defesa assinada pelos membros da Comissão Examinadora, consta no processo de vida acadêmica do aluno.

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A

GRADECIMENTOS

Nos anos em que estive na Unicamp para fazer o mestrado vimos a ascensão de movimentos liberais conservadores que levantavam pautas contra as políticas de inclusão social. Vimos o Golpe parlamentar midiático em 2016 que foi sustentado pelo discurso anticorrupção, mas colocou no poder um grupo escancaradamente corrupto. Esse grupo aprovou ‘reformas’ que não foram discutidas e aprovadas nas urnas. O Golpe de 2016 seguiu em continuidade com a condenação em primeira e segunda instância do ex-presidente Lula que é o político com maior intenção de votos no início do ano de 2018 para as eleições do mesmo ano. A sua condenação foi baseada em delações e em fracos indícios que não se configuravam em provas.

Esse período tem se mostrado de fortes ataques à classe trabalhadora, aos movimentos sociais, aos estudantes, aos partidos políticos e vejam só, à frágil democracia burguesa.

Passar por esse momento da política brasileira e da pesquisa foi difícil, mas também foi formador. Todos aqueles que fizeram parte desse momento foram importantes. Agradeço aos professores que estiveram presentes nesses anos de formação, à minha família, ao meu companheiro, às minhas amigas e amigos e à minha orientadora Neri que, com toda a sua experiência de vida como pesquisadora e militante, me apontou caminhos para a pesquisa. Obrigada a todas e todos.

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Resumo

O objetivo deste trabalho é analisar as relações entre a formação de estudantes nas condições específicas exigidas e proporcionadas pela bolsa oferecida pelo Programa Universidade para Todos (Prouni), as mudanças nas trajetórias sociais que o acesso ao ensino superior proporcionou aos bolsistas e a inserção no mercado de trabalho. Para isso, foi aplicado um questionário via a rede social facebook com 175 egressos do ensino superior – bolsistas e não bolsistas – e realizado seis entrevistas com bolsistas e egressos bolsistas do Prouni. Em relação aos bolsistas, o trabalho duro e o esforço físico foram necessários para que fosse possível frequentar as aulas, arcar com os custos do curso, com transporte e alimentação. E foram necessárias também disposição e disciplina para estudar e acompanhar o curso. O encontro desses dois valores e dessas duas necessidades – a ‘ética do estudo’ e a ‘ética do trabalho duro’ – exigiu do bolsistas um comportamento disciplinar redobrado. Os resultados da pesquisa sinalizam que esse comportamento provoca efeitos positivos no tocante à inserção no mercado de trabalho. Palavras chaves: Prouni, mercado de trabalho, ética do estudo, ética do trabalho duro

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Abstract

The aim of this dissertation is to analyze the relationships among the formation of students under the specific conditions that are demanded and provided by the scholarship offered by the University for All Program (Prouni), the changes in the social trajectories of the scholarship holders caused by the access to higher education and labor market insertion. It was applied a questionnaire via Facebook with 175 graduates – scholarship holders and non-scholarship holders - and six interviews also scholarship holders and non-scholarship holders of Prouni. In relation to Prouni scholars, hard work and physical effort were necessary to attend the classes and afford the costs of the course, transportation and food. Likewise, it was necessary to have willingness, discipline to study and follow the course. The meeting of these two values and needs - the 'ethic of studying' and the 'ethic of hard working' – force Prouni’s scholars to have a reinforced discipline. The results of this research indicate that this behavior presents positive effects in terms of labor market insertion.

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L

ISTAS

Lista de Quadros

Quadro 1 – Processo de modificação do Programa Universidade para Todos ... 35 Quadro 2 – Alíquotas e base de cálculo dos tributos federais por categoria de IES ... 39 Quadro 3 – Características sociais dos entrevistados ... 101

Lista de Tabelas

Tabela 1 – Concluintes do ensino médio e número de vagas ofertadas no ensino superior público e privado, Brasil– 1980-2010 ... 29 Tabela 2 – Vagas oferecidas, ingressos e vagas ociosas, Brasil – 2004 ... 30 Tabela 3 – Participação na renda familiar dos estudantes do Prouni e os não Prouni, segundo respostas do questionário socioeconômico do ENADE ... 49 Tabela 4 – Escolaridade dos pais dos estudantes bolsistas e não bolsistas, segundo respostas do questionário socioeconômico do ENADE ... 49 Tabela 5 – Desempenho médio (nota geral média) segundo a área e segundo o tipo de financiamento do curso ... 58 Tabela 6 – Quantidade de alunos em cada grupo ... 60 Tabela 7 – Resultados do ganho padronizado, intervalo de 95% de confiança e d de Cohen para alunos com benefícios e seus colegas sem os benefícios ... 61 Tabela 8 – Classificação ocupacional dos pais, mães e filhos ... 67 Tabela 9 – Percepções de mudanças de vida ... 68 Tabela 10 – Total de matrículas e contratos FIES e Prouni por UF, Rede Privada, Brasil – 2014 ... 80 Tabela 11 – Remuneração média por Grau de Instrução e por sexo a preços de Dez/2014 (*) ... 89 Tabela 12 – Remuneração Média de Dezembro por Grau de Instrução e Cor/Raça – 2014 ... 90 Tabela 13 – Taxa de desocupação, taxa de informalidade, rendimento real e variação do rendimento real de 2005 – 2014 ... 96 Tabela 14 – Número de Empregos em 31/12 por Setor e Subsetor de Atividade Econômica ... 98

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Tabela 15 – Remuneração Média de Dez por Setor e Subsetor, em Reais, a Preços de

Dez/2014(*) ... 98

Lista de Gráficos Gráfico 1 – Matrículas em cursos de graduação presenciais por organização acadêmica, Brasil – 1964 -2014 ... 32

Gráfico 2 – Matrículas em cursos de graduação presenciais e a distância em IES privadas por grau acadêmico (bacharelado, licenciatura, tecnólogo), Brasil – 2014 e entre os respondentes. ... 82

Gráfico 3 – Matrículas em cursos de graduação presenciais e a distância na rede privada por algumas unidades da federação –2014 ... 83

Gráfico 4 – Bolsas do Prouni ocupadas por algumas unidades da federação, 2005 – 2014 ... 83

Gráfico 5 – Estado onde foi realizado o curso de ensino superior pelos respondentes . 84 Gráfico 6 – Relação de bolsas ofertadas pelo Prouni entre 2005 e 2014, dos respondentes que utilizaram bolsas Prouni e de todos os respondentes por categoria administrativa das IES ... 85

Gráfico 7 – Matrículas de bolsistas Prouni por curso – 2014 ... 87

Gráfico 8 – Curso realizado pelos respondentes ... 88

Gráfico 9 – Remuneração dos respondentes por sexo ... 91

Gráfico 10 – Remuneração dos respondentes por cor/raça ... 92

Gráfico 11 – Remuneração das respondentes negras ... 93

Gráfico 12 – Respondentes desempregados (as) por sexo e cor/raça ... 94

Gráfico 13 – Média de anos de estudo da população de 18 a 29 anos, Brasil, por sexo e cor/raça ... 95

Gráfico 14 –Variação absoluta do emprego formal por setor de atividade econômica – 2013 – 2014 ... 97

Gráfico 15 – Pessoas de 15 anos ou mais de idade, ocupadas na semana de referência, variação absoluta e percentual, por grupos de atividade, Brasil – 2014/2015... 98

Gráfico 16 – Cor / raça por respondente egresso bolsista e não bolsista ... 107

Gráfico 17 – Categoria administrativa da escola frequentada no ensino fundamental por respondente egresso bolsista e não bolsista ... 107

Gráfico 18 – Categoria administrativa da escola frequentada no ensino médio por respondente egresso bolsista e não bolsista ... 108

Gráfico 19 – Escolarização da mãe ou da pessoa responsável por respondente egresso bolsista e não bolsista ... 109

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Gráfico 20 – Área de atuação da mãe ou pessoa responsável por respondente egresso bolsista e não bolsista ... 110 Gráfico 21 – Escolarização do pai ou da pessoa responsável por respondente egresso bolsista e não bolsista ... 111 Gráfico 22 – Área de atuação do pai ou da pessoa responsável por respondente egresso bolsista e não bolsista ... 111 Gráfico 23 – Renda bruta mensal familiar por respondente egresso bolsista e não bolsista ... 112 Gráfico 24 – Situação da moradia por respondente egresso bolsista e não bolsista .... 113 Gráfico 25 – Motivos para a escolha do curso por respondente egresso bolsista e não bolsista ... 115 Gráfico 26 – Respondentes que trabalharam enquanto faziam o curso de ensino superior ... 118 Gráfico 27 – Aspectos da formação no ensino superior que contribui para a execução do trabalho por respondente egresso bolsista e não bolsista ... 119 Gráfico 28 – Expectativas em relação ao curso de ensino superior antes de iniciá-lo por respondente egresso bolsista e não bolsista ... 120 Gráfico 29 – Desemprego por egresso bolsista e não bolsista... 121 Gráfico 30 – Horas trabalhadas além do estabelecido em contrato por egresso bolsista e não bolsista ... 122 Gráfico 31 – Nível de satisfação com o trabalho por respondente egresso bolsista e não bolsista ... 122 Gráfico 32 – Remuneração dos respondentes egressos bolsista muito satisfeito ou satisfeito com seu trabalho ... 123 Gráfico 33 – Remuneração do respondente egresso bolsista e não bolsista que avaliou exercer um trabalho de gerência ... 124 Gráfico 34 – Remuneração por respondente egresso bolsista e não bolsista ... 125 Gráfico 35 – Relação salarial aproximada entre antes e depois de se formar por respondente egresso bolsista e não bolsista ... 126 Gráfico 36 – Definição da atividade de trabalho dada por respondente egresso bolsista e não bolsista ... 127

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Sumário

INTRODUÇÃO ... 12

1. O PROGRAMA UNIVERSIDADE PARA TODOS NO SISTEMA UNIVERSITÁRIO BRASILEIRO 23 2. PESQUISAS SOBRE O PROGRAMA UNIVERSIDADE PARA TODOS ... 44

3. CARACTERÍSTICAS SOCIAIS DOS BOLSISTAS PROUNI E DA POPULAÇÃO ESTUDADA NA PESQUISA ... 78

4. OS EGRESSOS: BOLSISTAS PROUNI E NÃO BOLSISTAS DO ENSINO SUPERIOR PRIVADO . 100 5. PROUNI E A TRAJETÓRIA DOS ESTUDANTES E EGRESSOS BOLSISTAS ENTREVISTADOS 128 CONSIDERAÇÕES FINAIS... 182

REFERÊNCIA DOCUMENTAL ... 189

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA ... 190

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INTRODUÇÃO

O presente trabalho tem por objetivo analisar as relações entre as políticas de bolsas de estudos para a formação de jovens oriundos das camadas sociais de baixa renda no ensino superior privado e o mercado de trabalho. Para tanto, toma como objeto de estudo os estudantes que concluíram o ensino superior e usufruíram de bolsas de estudo – parciais ou integrais – do Programa Universidade para Todos (Prouni), criado pelo governo federal em 2004. A pesquisa foi orientada para responder a duas questões: a) qual foi, segundo a ótica dos estudantes, a importância do programa em termos de formação técnico-profissional? e b) qual foi o impacto desse tipo de formação em relação às exigências do mercado de trabalho brasileiro na última década?

Analisaremos os impactos pessoais, profissionais e financeiros de pessoas que tiveram acesso ao ensino superior através do Programa Universidade para Todos. Estamos intencionalmente distanciando o recorte da nossa pesquisa das análises que debatem a expansão do ensino superior privado nos governo do PT (2003 – 2016), das consequências do financiamento público às instituições privadas e da qualidade dos cursos oferecidos por essas instituições.

A ênfase da nossa análise está em entender as consequências do acesso e conclusão do ensino superior por pessoas de baixa renda através do Prouni. Para isso, se faz importante levar em consideração que o Prouni é um programa que completou treze anos e os primeiros formados através da bolsa estão formados há oito ou nove anos. Nesse sentido, uma avaliação do programa e da inserção dos egressos no mercado de trabalho encontrará trabalhadores com poucos anos com o título de nível superior.

Interessa-nos compreender não só as características sóciodemográficas de estudantes participantes do programa, mas também como se estabelece a dinâmica do Prouni e suas relações com a formação técnico-profissional e o mercado de trabalho. Como os estudantes avaliam sua trajetória de formação e as condições de estudo como participantes do Programa Universidade para Todos? A promessa de emprego que se cria com a formação superior se concretiza? Se sim, em que condições isso acontece?

A hipótese que orientou a pesquisa é a de que o Programa Universidade para

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estudantes de baixa renda beneficiados pelas bolsas do programa no mercado de trabalho.

O mercado de trabalho no Brasil, como nos países capitalistas dependentes ou periféricos, é fortemente marcado pela heterogeneidade da estrutura produtiva, o que se expressa por desigualdades relacionadas ao processo de industrialização e de urbanização. De forma geral, é um mercado que apresenta situações bastante distintas de ocupação e tradicionalmente se caracteriza por postos de trabalho precários, além de um expressivo contingente da população disponível para vender sua força de trabalho.

Além disso, o mercado de trabalho brasileiro possui altos índices de informalidade e um segmento amplo no qual predominam os baixos salários. Porém, houve mudanças significativas no período de 2004 a 2013, no qual, segundo Oliveira (2016, p. 22), se verificou um crescimento econômico “não obstante os efeitos adversos provenientes da crise internacional” em 2008. Foi um período marcado pelo aumento do crédito, de elevação dos salários, valorização do salário mínimo e de expansão de políticas sociais, entre elas o Prouni, aqui analisado.

Pode-se caracterizar as tendências predominantes nesse período como um processo de reestruturação inclusiva do mercado de trabalho brasileiro. As principais tendências verificadas até 2014 foram as seguintes: i) queda expressiva das taxas de desemprego; ii) ampliação do assalariamento; iii) aumento da formalização dos vínculos de emprego; iv) crescimento do rendimento médio real do trabalhador; e v) diminuição da desigualdade de renda do trabalho e da pobreza (OLIVEIRA, 2016, p. 22).

Entretanto, a manutenção de fundamentos de políticas econômicas neoliberais que privilegiam o capital financeiro, o tipo de desenvolvimento econômico e as possibilidades de contratação em formatos flexibilizados impediram mudanças estruturais no mercado de trabalho: os empregos que mais cresceram estavam em níveis salariais baixos e a informalidade e rotatividade dos trabalhadores ainda se mantiveram expressivas.

No Brasil, assim como na maioria dos países, são os jovens que enfrentam dificuldades maiores ao ingressar no mercado de trabalho e, quando participam, geralmente encontram empregos precários e com menores rendimentos. A formação escolar dos jovens pode restringir ou ampliar as possibilidades de acesso ao mercado de trabalho e a empregos qualificados. Trata-se de uma relação necessária – formação e emprego –, mas não suficiente diante da configuração do mercado de trabalho.

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Segundo Proni e Ribeiro (2007), em 2005, 50% dos jovens entre 16 e 17 anos trabalhavam na informalidade (sem registro em carteira) e 30% trabalhavam sem rendimentos monetários. Pochmann (2012, p. 19) informa que a maior parte dos postos de trabalho gerados na década de 2000 “concentra-se na base da pirâmide social, uma vez que 95% das vagas abertas tinham remuneração mensal de até 1,5 salário mínimo”1. Diante do quadro exposto anteriormente, quais são as demandas do mercado de trabalho para a educação e formação de trabalhadores? Se, de um lado, estamos diante de um mercado de trabalho heterogêneo e precário, de outro lado, a ampliação da escolarização média da população brasileira exige dos jovens o aumento de seus anos de estudo em busca de emprego, mesmo que este não exija formação de nível superior.

Os estudos de Pochmann (2004) indicam que quanto mais cedo os jovens ingressam no mercado de trabalho, mais precária é sua inserção e maior é a tendência na reprodução de sua condição material de existência. O Programa Universidade para

Todos, dirigido aos jovens de camadas sociais de baixa renda, reverteria essa análise

realizada pelo autor no início da década passada?

Esta pesquisa de mestrado pretende elucidar como e onde se efetiva a inserção no mercado de trabalho de egressos bolsistas do Programa Universidade para Todos. Se existe uma inserção, ela é significativa em que direção? Pesquisa realizada pelo IBOPE em março de 2009, com 1.200 egressos bolsistas do programa, indicava que 56% dos participantes entrevistados trabalhavam antes de ingressar no Prouni2. Esse índice aumentou para 80% após a participação no programa. Mas qual é a qualidade dessa participação?

Para responder às questões colocadas pela pesquisa propusemos realizar uma enquete com questionário aplicado aos egressos do ensino superior privado. Segundo Paul (2015), as pesquisas com egressos do ensino superior surgem na década de 1960, sobretudo em países centrais do capitalismo, movidas pelo interesse sobre o futuro profissional dos egressos em contexto de grandes transformações no mercado de

1 Os dados retratados por Pochmann dizem respeito apenas ao setor privado, são dados da CAGED. 2

As informações foram retiradas do site do IBOPE. Disponível em:

http://ibopeinteligencia.com/noticias-e-pesquisas/prouni-e-considerado-otimo-por-86-dos-bolsistas/. Acessado: 30/08/2016.

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trabalho e aumento expressivo das matrículas no ensino superior3. No Brasil, as pesquisas com e sobre egressos do ensino superior têm início nas décadas de 1970 e 1980, “passando pelos estudos na USP e UFC no início dos [anos] 1990, até o estágio atual, com a proliferação de portais de egressos” (PAUL, 2015, p. 309). Para o autor, embora os portais de egressos tenham se proliferado nos últimos anos, ainda são poucos os estudos sobre/com egressos do ensino superior.4

As pesquisas realizadas sobre o Programa Universidade para Todos (Prouni) se concentram, como observaremos no capítulo 2, majoritariamente na análise sobre os impactos do Programa para a expansão do ensino superior, o acesso à educação superior da população de baixa renda, as políticas de financiamento da educação com ênfase na renúncia fiscal, o desempenho e permanência dos bolsistas nas Instituições de Ensino Superior (IES). Se a bibliografia consultada até o momento nos informa que há poucos estudos com e sobre egressos do ensino superior, as pesquisas com questionários aplicados em egressos do Programa são ainda menores.

Este trabalho visa analisar características e opiniões selecionadas dos egressos do Programa e para isso elaboramos um questionário buscando atingir um número expressivo de estudantes egressos de instituições de ensino superior privadas, perguntando a eles/as e pedindo informações a respeito de: (1) características sóciodemográficas; (2) trajetória de escolarização; (3) origem social (escolarização e ocupação dos pais); (4) condição socioeconômica; (5) trajetória universitária; (6) trajetória profissional; e (7) condições de trabalho e de estudo [ver anexo 1. Questionário Ensino Superior e mercado de trabalho].

Após aplicarmos o questionário detectou-se a necessidade de aprofundarmos alguns temas e obtermos informações mais detalhadas através de entrevistas. Inicialmente a nossa proposta era realizar um ou dois grupos focais com egressos do Prouni. Procuramos essas pessoas através do contanto do facebook já utilizado para divulgar o questionário. O contato inicial para realizar o grupo focal foi muito difícil, pois divulgamos para um número relativamente grande de pessoas e poucos se

3

Não menos importante é indicar que a década de 1960 foi marcada por movimentos sociais de jovens pelo acesso ao ensino superior.

4 Uma consulta ao Banco de Teses e Dissertações da Capes informa que há dois trabalhos com a

palavra-chave “egressos” e um trabalho com a palavra “egresso”. Disponível em http://bancodeteses.capes.gov.br/banco-teses/#!/ acesso 24/02/2017.

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dispuseram a participar. No nosso primeiro encontro, oito pessoas confirmaram a participação, mas apenas três compareceram. Com um número menor de pessoas que o esperado, fizemos do encontro uma entrevista coletiva que nos permitiu trabalhar de forma aprofundada os temas propostos. Após esse encontro, a ideia era realizar outra entrevista coletiva, mas não foi possível reunir todas as pessoas numa mesma data e, por isso, fizemos entrevistas individuais. Realizamos mais três entrevistas, totalizando seis pessoas entrevistadas, entre entrevistas coletivas e individuais. O roteiro da entrevista foi composto por três temas: trabalho, família e escola. A seguir apresentaremos como a pesquisa foi realizada.

Caminhos da pesquisa

Segundo Isabelle Parizot (2015, p. 85), a pesquisa por questionário tem por objetivo “reunir uma grande quantidade de informações, tanto fatuais quanto subjetivas, junto a um número importante de indivíduos – a representatividade desta amostra autorizando a inferir a um conjunto da população de estudo”. Possibilita medir a frequência de características, situações, opiniões, entre outros de um determinado grupo social. A principal crítica reside no fato de que a pesquisa por questionário não possibilitaria compreender o que os respondentes fazem ou pensam, ou até mesmo poderia induzir a determinadas respostas. Para contornar os problemas apontados pela crítica, é preciso ter grande atenção à forma e ao conteúdo do questionário, com o objetivo de possibilitar que as respostas expressem a problemática da pesquisa. Há duas possibilidades, segundo Parizot (2015), de aplicar o questionário. Na primeira, a pesquisadora o aplicaria e, na outra, o respondente preencheria as respostas sem a mediação da pesquisadora. Optamos pela segunda alternativa, como poderá ser observado pelos motivos expostos a seguir.

No projeto de pesquisa apresentado para o mestrado, a proposta era de que fossem aplicados dois questionários. O primeiro com estudantes do Prouni de determinada instituição privada de ensino superior, e o segundo com egressos bolsistas formados da mesma instituição através de contato online realizado pela instituição. Essa proposta permitiria a explicitação do escopo da pesquisa e o encorajamento dos estudantes a responderem aos questionários. A proposta também poderia possibilitar maior retorno de respostas ao segundo questionário. A presença da pesquisadora

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possibilita maior interação e observação do ambiente. Infelizmente, não foi possível proceder à aplicação dessa proposta pelos motivos apresentados a seguir.

Tentamos contato com instituições de ensino superior privadas em Campinas e São Paulo. Algumas nos receberam, outras não. Das três instituições que nos receberam, o pedido de inserção no campo foi negado em todas. Na primeira, logo no início nos foi negado com a justificativa de que o setor de marketing da instituição não autorizou a inserção da pesquisadora. Na segunda instituição tivemos um longo período de conversas. Em um momento, quando parecia que enfim havíamos conseguido uma inserção bastante interessante para a pesquisa, nos foi informado que o setor de

marketing desaprovava as negociações que estávamos estabelecendo. Na terceira,

também tivemos um período de meses de contato, mas percebemos, desde o início, que o interesse em permitir a pesquisa com os estudantes bolsistas era bastante baixo, até o momento que recebemos mais uma desautorização. Desta forma, a possibilidade de fazer a pesquisa face a face foi encerrada, o que levou a um atraso significativo na coleta de dados.

Com todos os contatos negados, entendemos que a rede social facebook seria uma ferramenta viável para aplicarmos o nosso questionário. O facebook é uma rede social que conecta pessoas do mundo inteiro. É a maior rede social do mundo com mais de 1bilhão de usuários. No Brasil, 45% da população acessa a rede mensalmente e 30% acessa todos os dias.5

Inicialmente, a proposta era aplicar dois questionários diferentes. Com a impossibilidade de trabalhar com uma instituição de ensino superior, a decisão foi aplicar somente um questionário aos egressos. Portanto, passamos a nos concentrar apenas na aplicação do questionário com egressos de instituições de ensino superior privadas. O questionário aplicado aos egressos na rede social coleta as informações sobre a trajetória de formação e profissional abarcando, em alguma medida, a intenção inicial dos dois questionários.

5 As informações são de 2014, disponíveis em

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A elaboração e aplicação do questionário e do roteiro da entrevista

A elaboração do questionário foi realizada após um trabalho de construção do objeto e da problemática da pesquisa. Como sabíamos que a qualidade das respostas dependia das questões apresentadas, solicitamos ajuda a professoras6 que utilizam questionários em sua pesquisa.

O questionário foi construído em um longo processo. A partir de uma pesquisa exploratória e de leituras sobre ensino superior, acesso e permanência, desempenho, egressos, Programa Universidade para Todos, dentre outros temas, construímos eixos temáticos para o instrumento7. As elaborações e os ajustes foram realizados a partir de reuniões com pesquisadores e com colegas do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Educação e Diferenciação Sociocultural (GEPEDISC).

Nesse processo, construímos um instrumento que foi submetido a um teste realizado com quinze estudantes do Curso de Pedagogia da Unicamp, em 2016. Após cada estudante ter respondido ao questionário, fizemos uma reunião em que eles apresentavam sugestões e identificavam problemas no formato e no conteúdo das questões, tanto nas perguntas e enunciados, quanto nas alternativas de respostas. O instrumento foi construído no “Formulários Google” do Google Docs. Trata-se de uma ferramenta gratuita disponibilizada para aplicação de questionários online, sendo apenas necessário ter uma “conta” no Google. Os dados são disponibilizados em uma planilha

Excel e a partir dela os dados foram inseridos no programa SPSS Statistics8 para serem

tratados e analisados.

O questionário (anexo I) é composto por 70 questões, divididas em três tipos de respostas: em texto, múltipla escolha e caixas de seleção. O instrumento está separado em blocos, cada bloco mantém certa independência em relação ao outro, ou seja,

6

Agradeço, nesse sentido, duas professoras: Patrícia Vieira Trópia da Universidade Federal de Uberlândia e Bárbara Castro da Universidade Estadual de Campinas.

7 Algumas perguntas do nosso questionário foram inspiradas e/ou retiradas do Relatório de pesquisa sobre

o perfil do graduando da UFU – Universidade Federal de Uberlândia (2015) e do artigo do Jean - Jacques Paul, Acompanhamento de egressos do ensino superior: experiência brasileira e internacional (2015).

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dependendo da resposta dada à questão ao final do bloco, o respondente é encaminhamento a determinado bloco.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Unicamp após um longo processo de interlocução. O Comitê de Ética exigiu que os respondentes, ainda que anônimos, assinassem o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Nosso entendimento é que tal termo, pela sua extensão e pelas características da rede social, dificultou a participação.

Assim, entre junho e novembro de 2016, divulgamos o questionário no facebook em páginas e grupos do Programa Universidade para Todos, de Instituições de Ensino Superior privadas participantes do Prouni e de mercado de trabalho. Os principais grupos foram: ENEM ǀ ProUni ǀ Fies ǀ Sisu (OFICIAL); ENEM • ProUni • SiSU • Fies; PROUNI; ENEM ǀ ProUni ǀ Sisu ǀ OFICIAL®; Medicina ProUni (Dúvidas); PROUNI - UniFEB; PROUNI RECIFE; MEDICINA PROUNI; UNIVERSIDADE SÃO JUDAS TADEU; Prounistas Mackenzie; Anhembi Morumbi (Oficial); Bolsistas Anhembi Morumbi; PUC-SP Democracia; PUC-SP; ProUni-se! PUC-SP; Mercado de Trabalho; Mercado de Trabalho para Farmacêuticos; RH - Mercado de Trabalho / Recife -PE; Ciências Sociais e o mercado de trabalho.

Alguns grupos são abertos, qualquer integrante do facebook pode acessá-los, postar conteúdo ou comentar. Outros são fechados, para acessá-los é preciso que os proprietários do grupo aceitem a sua solicitação para ingressar. Outros ainda têm restrições para postar conteúdos no grupo, é preciso que os administradores autorizem o conteúdo solicitado para ser postado. Nesses casos, por não se tratar de um assunto diretamente relacionado aos interesses do grupo, foram poucos os que aceitaram publicar a nossa mensagem divulgando o questionário.

Em todos os grupos em que se é membro, é possível ter acesso a todos os demais integrantes. Com isso, encaminhamos pela ferramenta de mensagem do facebook a divulgação do questionário a participantes desses grupos. Como o nosso objetivo era encontrar pessoas que já haviam se formado, o processo foi mais difícil, pois praticamente não existem grupos de pessoas que já se formaram e sim de estudantes que estão cursando o ensino superior. Nesse sentido, avaliamos que o retorno foi baixo. Divulgamos a pesquisa diversas vezes nos mesmos grupos e estimamos que enviamos

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mensagens para aproximadamente 3.700 pessoas. Muitos responderam dizendo que ainda não haviam se formado e por isso não poderiam preencher o questionário.

Obtivemos 235 respostas e esse número foi reduzido para 224 questionários, a partir dos seguintes filtros: (a) as respostas daqueles que não aderiram ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido: dois respondentes; e (b) aquelas respostas que foram consideradas sem condição de aproveitamento para análise: nove respondentes9. Os 224 questionários válidos estão assim distribuídos: 66 (29%) de egressos bolsistas Prouni, 109 (49%) de egressos não bolsistas e 49 (22%) de egressos de outras bolsas. Através de algumas perguntas em nosso formulário foi possível separar os respondentes em três grupos: egressos bolsistas do Prouni, aqueles que se formaram utilizando bolsa do programa; egressos não bolsistas, aqueles que não tiveram nenhum tipo de auxílio ou bolsa para custear as mensalidades; egressos que utilizaram outras bolsas, aqueles que ao cursar o ensino superior tiveram auxílio ou bolsa que não fosse do Prouni. Essa separação foi necessária para poder ter maior rigor na comparação dos grupos de egressos bolsistas Prouni e não bolsistas, excluindo do último grupo aqueles que tiveram auxílio e bolsa para cursar o ensino superior10.

Na presente pesquisa, trabalharemos com dois grupos: os egressos bolsistas e os não bolsistas, ou seja, os egressos das instituições de ensino superior privada que tiveram bolsa do Prouni e aqueles que não tiveram nenhuma bolsa ou auxílio, os dois grupos compõem 175 respostas. Designaremos aqueles que responderam ao questionário aplicado como respondentes.

Dos dados quantitativos espera-se objetividade e cientificidade e a possibilidade de compreender a extensão e as representações do fenômeno que estamos estudando. A pesquisa não trabalhou com amostra representativa11 da população de egressos do Prouni, ou seja, não é um subconjunto de pessoas que aleatoriamente foram sorteadas do conjunto dos egressos do Prouni. Eles não representam o conjunto dos egressos.

9

Descartamos respostas de pessoas que responderam em todas as perguntas a alternativa não sabe / não respondeu e respostas duplicadas – quando repostas iguais haviam sido enviadas em um curto espaço de tempo, supomos que a mesma pessoa respondeu mais de uma vez –, descartamos uma das respostas.

10 Podemos perceber no processo de análise dos dados que o grupo de egressos bolsistas Prouni e outros

bolsistas são parecidos, com algumas exceções onde aparecem distanciamentos. O que pode evidenciar que o bolsista, de maneira geral, representa fissuras da ruptura com as desigualdades que o ensino superior tradicionalmente representou no Brasil.

11 As amostras probabilísticas, aleatória ou casual, permitem ser generalizadas estatisticamente para a

(21)

Trata-se de uma amostra intencional, que já passa pelo primeiro filtro na sua coleta, que é estar na rede social facebook. O procedimento utilizado para a análise foi a comparação dos dados coletados. Os resultados obtidos fornecem elementos potenciais à explicação sociológica. A interpretação consiste em dar sentido aos resultados formais.

Após a análise dos dados coletados através do questionário, surgiu a necessidade de realizar um grupo focal para possibilitar o aprofundamento de alguns temas. Com isso, adicionamos ao nosso processo no comitê de ética o pedido para realizar entrevistas. Depois de aceito, iniciamos a procura através do facebook por egressos do Prouni na cidade de São Paulo que se disponibilizassem participar de uma conversa. Inicialmente queríamos realizar um grupo focal com egressos de instituições com e sem fins lucrativos. No dia que marcamos o grupo focal tínhamos oito pessoas confirmadas, mas apenas compareceram três pessoas de IES sem fins lucrativos. Pensamos então em realizar outro encontro com egressos de IES com fins lucrativos. Tivemos mais dificuldade de encontrar, contatar e obter resposta dessas pessoas. Marcamos um novo encontro e tínhamos cinco pessoas confirmadas, mas apenas uma compareceu, que não tinha terminado o ensino superior, ainda estava cursando-o. Realizamos a entrevista e procuramos por novos contatos de egressos e não conseguimos e então realizamos mais duas entrevistas com pessoas que queriam conversar, mas que ainda estavam fazendo o ensino superior. Ao total obtivemos, entre entrevistas coletivas e individuais, relato da experiência de seis pessoas, três mulheres e três homens de instituições com e sem fins lucrativos.

No processo de recrutamento dos egressos para as entrevistas, percebemos a ocorrência de algo parecido com o mesmo processo feito com os questionários. Os dois grupos grandes no facebook – ProUni-se! PUC-SP e Prounistas Mackenzie – de bolsistas do Prouni vinculados a uma instituição eram de IES filantrópicas. Esses dois grupos foram espaços importantes para a divulgação da nossa pesquisa e conseguimos através deles participantes tanto para as entrevistas quanto para o questionário. Como não há grupos nessa mesma configuração de estudantes de instituições com fins lucrativos, tivemos mais dificuldade em encontrá-los.

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Os dois primeiros encontros aconteceram na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, que nos disponibilizou uma sala e todo o material necessário. As duas últimas entrevistas individuais aconteceram em um café.

Os entrevistados tiveram seus nomes trocados para não serem identificados e preservados.

A dissertação aqui apresentada encontra-se organizada nos seguintes capítulos: (1) apresentação do Programa Universidade para Todos a partir de documentos, legislação, normas disponíveis no portal do Ministério da Educação (MEC) e na bibliografia consultada com o objetivo de compreender a concepção e a implementação do programa; (2) apresentação das pesquisas sobre o Programa Universidade para

Todos para compreendermos qual é o debate acadêmico sobre o Programa e seus

participantes; (3) apresentação das características dos participantes do Prouni e dos participantes na pesquisa de mestrado; (4) apresentação dos dados coletados no questionário dos egressos bolsistas do Prouni e não bolsistas do ensino superior privado; (5) trajetória dos entrevistados bolsistas e egressos bolsistas e (6) considerações finais.

(23)

1.

O

P

ROGRAMA

U

NIVERSIDADE PARA

T

ODOS NO SISTEMA UNIVERSITÁRIO BRASILEIRO

Este capítulo tem por objetivo apresentar a concepção e a implementação do

Programa Universidade para Todos (Prouni) a partir de documentos e legislação

selecionados, considerando o processo de ampliação do sistema privado de ensino superior brasileiro, desde os anos 1960.

Junto ao processo de desenvolvimento das forças produtivas capitalistas que se intensificou na primeira metade do século XX no Brasil, há um movimento de criação de universidades estimulado por demandas da industrialização, do setor de serviços e da urbanização12. “Como instituição oficialmente reconhecida e assim denominada, a universidade surgiu somente quando já estava esboçada uma alteração estrutural na forma de organização da economia e sociedade brasileiras” (MINTO, 2014, p.166). As primeiras experiências no Brasil de instituições de ensino superior foram em Manaus em 1909, São Paulo em 1911, Curitiba em 1912, Rio de Janeiro em 1920 e em Belo Horizonte em 1927 (MINTO, 2014).

Na segunda metade do século XX, a demanda pela educação superior aumenta, mas a oferta de vagas não acompanha esse crescimento. Segundo dados retratados por Minto (2014, p. 218) “em 1950, para cada 100 jovens com idade entre 20 e 24 anos, menos de 1% (0,88) estava matriculado no ensino superior. Em 1960, esse número não chegava a 2% (1,49) e, mais de uma década depois, em 1971, não atingiu 7% (6,78)”.

Antes do golpe civil-militar de 1964, em relação ao número de matrículas por categoria administrativa13, existia uma predominância da educação pública no ensino

12 Mobilizações sociais também exerciam pressão para uma diminuição do caráter elitista e expansão da

educação no Brasil. A criação da UNE (União Nacional dos Estudantes) em 1938 é uma expressão desse movimento. Minto (2014, p. 214) destaca dois dos movimentos mais característicos da ampliação de demanda e necessidade de expandir o ensino superior, que se iniciam na primeira metade do século XX, mas se intensificam na segunda. “De um lado, a expansão requerida e posta em curso como bandeira de reivindicação pelos setores da pequena burguesia e de poucos estratos da classe trabalhadora que ‘batiam às portas’ da educação superior; e, de outro lado, as necessidades escolares que o próprio desenvolvimento capitalista criava, na esteira da divisão social do trabalho forjada com a industrialização e a urbanização, que se intensificaram a partir dos anos 1950”.

13 Entendemos por “categoria administrativa” a administração da Instituição de Ensino Superior, se

privada ou pública. As instituições públicas são mantidas pelos poderes públicos federal, estadual ou municipal. As instituições privadas são administradas por pessoas físicas ou jurídicas de direito

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superior.Esse quadro se inverte na primeira década do período ditatorial e, desde então, há mais matrículas em instituições de ensino superior (IES) privadas que em públicas. Em 1964, o ensino superior no Brasil tinha 61,6% de suas matrículas em instituições públicas, contra 38,4% em instituições privadas. O total de matrículas era de 142 mil, sendo 87 mil em instituições públicas e 54 mil em privadas. Nos 10 primeiros anos do período ditatorial, há um aumento de 559,8%, ou seja, passa para 937 mil matrículas (SGUISSARDI, 2008). Sguissardi (2008), ao observar esse crescimento, chama a atenção para o fato de que o ponto de partida era bastante baixo. Na primeira década do regime, a proporção de matrículas em instituições públicas e privadas se inverte devido ao favorecimento do poder público para expansão do ensino superior privado. Como as matrículas públicas crescem menos que as privadas, a inversão resulta em 36,4% em instituições públicas e 63,6% em instituições privadas (SGUISSARDI, 2008).

A década de 1960 foi marcada por um movimento – de estudantes, docentes e pesquisadores – para realização de uma reforma universitária brasileira. Parte das reivindicações foi incorporada à Lei da Reforma Universitária, Lei n. 5.540, de 28 de novembro de 1968, regulamentada pelo Decreto n. 464, de 11 de fevereiro de 1969. “A Reforma de 1968 produziu efeitos paradoxais no ensino superior brasileiro. Por um lado, modernizou uma parte significativa das universidades federais e determinadas instituições estaduais e confessionais, (...) por outro lado, abriu condições para o surgimento de um ensino privado” (MARTINS, 2009, p. 16-17).

Algumas mudanças que foram realizadas por meio da Reforma Universitária são consideradas positivas por Martins.

Aboliram-se as cátedras vitalícias, introduziu-se o regime departamental, institucionalizou-se a carreira acadêmica, a legislação pertinente acoplou o ingresso e a progressão docente à titulação acadêmica. Para atender a esse dispositivo, criou-se uma política nacional de pós-graduação, expressa nos planos nacionais de pós-graduação e conduzida de forma eficiente pelas agências de fomento do governo federal. Nos últimos 35 anos, a pós-graduação tornou-se um instrumento fundamental da renovação do ensino superior no país (MARTINS, 2009, p. 16).

Entretanto, Saviani (2008) critica as análises positivas dessas mudanças por avaliar que esse movimento levou para a universidade a lógica da divisão do trabalho presente no processo produtivo.

privado(com ou sem finalidade de lucro). São consideradas (pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, 1996) sem fins lucrativos: as comunitárias, as confessionais e as filantrópicas.

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Por meio da departamentalização e da matrícula por disciplina com o seu corolário, o regime de créditos, generalizou-se no ensino superior a sistemática do curso parcelado, transpondo para a universidade o parcelamento do trabalho introduzido nas empresas pelo taylorismo. Perpetrou-se, no ensino, a separação entre meios e objetivos; entre conteúdos curriculares e sua finalidade educativa (...) (p. 304).

Assim, há que se interrogar quais são os sentidos da expressão modernização, o que revela e o que esconde. Essas expressões nomeiam realidades sociais diferenciadas historicamente. Nessa direção, a concepção de modernização é compreendida por Lalo Minto (2014), nos seus estudos sobre as reformas na educação superior da década de 1960, como um processo de conciliação de interesses do bloco hegemônico da ditadura civil-militar. Para o autor:

(...) a ‘modernização’ da educação superior no Brasil dos anos da Ditadura carece de qualificação, pois não é pura e simplesmente ‘modernizadora’, mas equivale ao processo de adequação, forçada e interessada, conduzido pelos militares e pelos setores hegemônicos da burguesia brasileira (também por frações da pequena burguesia) em contraposição ao que as forças populares, pequeno-burguesas e burguesas radicais ousaram propor à sociedade brasileira nos anos 1960. É modernização capitalista nas condições particulares do desenvolvimento brasileiro (p. 223, grifo do autor).

Ainda em referência às mudanças nesse período no ensino público, Saviani (2008) ressalta a eliminação da vinculação orçamentária da Constituição de 1967, contida nas Constituições anteriores, nas quais se obrigava a destinação de percentuais mínimos à educação. Essa mudança diminuiu o repasse de recursos à educação e incentivou a ampliação do sistema privado de ensino superior.

Assim, liberado da imposição constitucional, o investimento em educação por parte do MEC chegou a aproximadamente um terço do mínimo fixado pela Constituição de 1946 e confirmado pela LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional] de 1961. Paralelamente a essa eliminação da vinculação financeira, a Constituição de 1967 sinalizou claramente na direção do apoio à iniciativa privada, ao estipular, no §2º do artigo 168: “Respeitadas as disposições legais, o ensino é livre à iniciativa particular, a qual merecerá o amparo técnico e financeiro dos Poderes Públicos, inclusive bolsas de estudo”, dispositivo que foi mantido na Emenda de 1969 (§2º do artigo 176) (SAVIANI, 2008, p. 299).

Minto (2014) ressalta que a tendência “privatizante” no campo da educação superior já estava em curso no Brasil antes do período do regime civil-militar, expressos, por exemplo, na LDB/1961 (Lei 4.024) que criou facilidades legais e favorecimentos ao setor privado “tanto financeiro como de liberação nos processos de instalação de faculdades” (p. 250).

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A LDB/1961 também ampliou as funções do Conselho Federal de Educação (CFE), que passou a ter um papel fundamental na expansão do ensino superior privado, principalmente do ensino superior empresarial.

Entre as condições que tornaram possível a emergência do novo ensino privado, a existência do Conselho Federal de Educação (CFE) desempenhou um papel relevante. O CFE foi fortalecido pela aprovação da LDB, em 1961, quando deixou de ser um órgão de assessoramento sobre questões educacionais e passou a deliberar sobre abertura e funcionamento de instituições de ensino superior. Era composto majoritariamente por personalidades ligadas ao ensino privado, com disposição favorável para acolher os pedidos de abertura de novas instituições particulares. Entre 1968 e 1972, foram encaminhados ao CFE 938 pedidos de abertura de novos cursos, dos quais 759 obtiveram respostas positivas. A grande maioria dessas solicitações emanava da iniciativa privada não-confessional (...) (MARTINS, 2009, p. 22).

Ainda na década de 1960, o aumento da demanda pelo ensino superior pressionava o governo para expandir a oferta de vagas. Nesse contexto, o governo da ditadura militar ofereceu soluções que procuraram preservar as instituições públicas de uma possível “massificação” (ALMEIDA, 2012, p. 33). Oliven (1993, p. 75) enfatiza que “a fim de resolver o dilema da demanda por mais vagas na universidade, (...) o governo incentivou o divórcio entre a expansão qualitativa – que se fez pela implantação dos programas de pós-graduação – e a meramente quantitativa, resultante da disseminação de faculdades isoladas, mantidas predominantemente pelo setor privado (...)”.

O favorecimento e incentivo do regime civil militar à expansão do setor privado se expressam também nas isenções fiscais e na criação da política de crédito estudantil. A política de financiamento público das mensalidades em IES privadas se concretizou por meio do Programa Crédito Educativo (PCE), criado em 23 de agosto de 1975eimplementado no ano seguinte. Esse programa passa por uma reformulação no Governo Fernando Collor (1990-1992) com a criação do Programa de Crédito

Educativo para Estudantes Carentes (CREDUC) em 199214. O CREDUC financiava 50% ou 100% do valor das mensalidades através da Caixa Econômica Federal que depositava o valor correspondente na conta da IES privada; o programa foi extinto em 1997. Em 1999, Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) criou o Fundo de

14

(27)

Financiamento Estudantil (FIES)15. O programa passou por mudanças e atingiu grandes proporções nos governos seguintes. No governo Lula (2003-2010), em 31 de março de 2008, é divulgada a Portaria Normativa nº 2, dois anos depois modificada pela Portaria Normativa MEC nº1 de 22.01.2010, mas mantendo a concepção de estudantes contemplados pela bolsa parcial (50%) do Prouni poder custear o restante das mensalidades por meio do FIES. (QUEIROZ, 2015).

As isenções fiscais às IES privadas, no período da ditadura civil-militar, foram um dos principais instrumentos que permitiu o fortalecimento do setor privado. Antes da Reforma Universitária da década de 1960 as IES privadas eram, em sua maioria, instituições de caráter “semi-estatal” por exercerem uma atividade que pressupunha articulação entre ensino e pesquisa de interesse público (MARTINS, 2009). Posteriormente, o ensino superior toma nova configuração. “Trata-se de outro sistema, estruturado nos moldes de empresas educacionais voltadas para a obtenção de lucro econômico e para o rápido atendimento de demandas do mercado educacional” (p. 17). Nesse sentido, constata-se o surgimento de um sistema de ensino superior privado lucrativo privilegiado com a imunidade fiscal. “A lei n° 5.172, de 25/out./66, que instituiu o Código Tributário Nacional, em concordância com a Constituição Federal de 1967, determinava a não incidência de impostos sobre a renda, o patrimônio e os serviços dos estabelecimentos de ensino de qualquer natureza” (CARVALHO; LOPREATO, 2005, p. 99). Segundo Carvalho (2006), já na Constituição Federal de 1946 era prevista a renúncia fiscal ao sistema educacional, entretanto essa política ganha mais força a partir do boom das IES privadas no regime de exceção. Ressaltando que as instituições que gozavam da imunidade fiscal antes do regime da ditadura militar eram, em sua quase totalidade, instituições sem fins lucrativos.

Nesse sentido, podemos afirmar que o marco para as mudanças do ensino superior brasileiro é a ditadura civil-militar com a Reforma Universitária de 1968. As mudanças desencadearam uma tendência “privatizante” que foi fundamental para a

15 O FIES foi criado pela MP nº 1.827, de 27/05/99, regulamentado pelas Portarias MEC nº 860, de

27/05/99 e 1.386/99, de 15/19/99 e Resolução CMN 2647, de 22/09/99. As reedições da MP nº 1.827 foram: MP nº 1.865-2, em 29/06/1999; MP nº 1.972-8, em 10/12/1999; MP nº 2.094-22, em 27/12/2000. Disponível em http://portal.mec.gov.br/sesu/arquivos/pdf/FIES2000.pdf. A última MP 2094-28, de 2001 foi convertida na lei 10.260 em 12/07/2001.http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2001/lei-10260-12-julho-2001-329619-normaatualizada-pl.html acessadas em 01/03/2017.

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configuração de um novo cenário no ensino superior nas décadas seguintes. Segundo Almeida (2012, p. 32), esse processo “constituiu um divisor central para a compreensão da gênese e posterior domínio do setor privado lucrativo no ensino superior brasileiro”.

O novo setor privado do ensino superior trouxe uma nova lógica, diferente da que predominava no setor anteriormente (composto principalmente por instituições confessionais), que desenvolvia uma atividade muito próxima da exercida pelo setor público (MARTINS, 2009). A nova lógica do ensino privado é pautada na venda de serviços para obtenção de lucros, o que influi diretamente na qualidade dos cursos ofertados.

A tendência “privatizante”16, implementada desde a ditadura civil-militar, continuou se intensificando. No governo Fernando Henrique Cardoso (FHC, 1995-2002), houve significativas mudanças para o ensino superior privado. Até 1996, data da promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBN), não havia formalmente diferenciação entre instituições de ensino superior privadas lucrativas e sem fins lucrativos. “Até então, todas as instituições particulares de ensino usufruíam imunidade tributária sobre a renda, os serviços e o patrimônio” (CARVALHO; LOPREATO, 2005, P. 101). A mudança legislativa ocorre por meio da LDB (Lei 9.394/1996):

(...) a partir daí, passaram a ser classificadas em privadas lucrativas e sem fins lucrativos. As primeiras deixaram de se beneficiar diretamente de recursos públicos e indiretamente da renúncia fiscal, ao passo que as demais permaneceram imunes ou isentas à incidência tributária. A mudança legislativa tornou possível ampliar a arrecadação da União e dos municípios (CARVALHO; LOPREATO, 2005, p. 101).

Essa mudança teve forte oposição por parte das instituições privadas, não só do ensino superior, mas do ensino básico também. A nova lei de diretrizes e bases da educação nacional (1996) incentivou a expansão do setor privado:

Após a aprovação da Lei nº. 9.394 (BRASIL, 1996), abriu-se espaço para uma nova arena no contexto do Ensino Superior como a emergência de um conjunto de instituições dos tipos mais diversos com vistas a ocupar as janelas de oportunidades abertas resultante da legalização de instituições de Ensino Superior com fins lucrativos; flexibilização das normas para abertura

16

Relevante indicar que estamos compreendendo como tendência “privatizante” (MINTO, 2014) o aumento da oferta de matrículas no setor privado. Pois, como pode ser observado no texto aqui apresentado, o Estado é um grande financiador do ensino superior privado mediante dispositivos de renúncia fiscal e, portanto não estaríamos diante de um processo de privatização, mas de disputa pelo fundo público.

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de instituições; diferenciação organizacional das instituições para melhor atender a demanda mercadológica e da implementação de cursos de curta duração (AMARAL;OLIVEIRA, 2011, p. 862-863).

Como abordamos brevemente, a década de 1970 foi um período próspero para a expansão das IES privadas. Mais adiante, na década de 1990, também houve um movimento de expansão do setor. Segundo Carvalho, principalmente entre 1998 e 2002, houve uma criação de vagas no ensino superior privado que pode ter sido excessiva em relação à demanda de formados no ensino médio que ocuparia essas vagas, gerando vagas ociosas (CARVALHO, 2006).

Tabela 1 – Concluintes do ensino médio e número de vagas ofertadas no ensino superior público e privado, Brasil – 1980-2010

1980 1990 2000 2005 2010

Concluintes do ensino médio 545.643 651.633 1.897.696 2.012.986 1.793.167

Vagas ofertadas em IES Pública 97.414 155.009 245.632 313.368 445.337

Vagas ofertadas em IES Privada 239.253 347.775 970.655 2.122.619 2.674.855

Base de dados: IBGE – Estatísticas do Século XX, INEP/MEC – Sinopse Estatísticas da Educação Superior.

Fonte: MARQUES; CEPÊDA, 2012. Elaboração própria.

A autora faz ressalvas sobre a relação direta entre recém-formados no ensino médio e a demanda pelo ensino superior, mas utiliza essa relação como fenômeno que nos “dá indícios de que o segmento privado disponibiliza um contingente de vagas não procuradas pelos estudantes” (CARVALHO, 2006, p. 985).

O número de vagas ofertadas e não preenchidas no ensino superior no ano de 2004 é bastante alto no setor privado e maior ainda nas IES com fins lucrativos, tendo mais da metade das vagas do setor ociosas.

Sobre as vagas não preenchidas e as vagas ociosas é importante fazer uma ponderação. Muitas IES privadas inflam no início do ano letivo as vagas ofertadas por meio de algumas estratégias como realizar o processo seletivo e a matrícula no curso antes do resultado do vestibular das IES públicas próximas, para que o pleiteante de vaga no ensino superior com receio de não passar na instituição pública faça a matrícula por garantia. Também é comum que as intuições, principalmente as lucrativas, realizem

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mais de um processo seletivo e ofertem um número grande de vagas no primeiro ano pressupondo que há evasão e que a instituição não precisa de estrutura para atender todo o número de vagas ofertadas. Essas ações podem fazer com que o número de vagas ociosas seja, em alguma medida, inflado. Levando em consideração essas ponderações, o número de vagas ociosas em IES privadas, mesmo que não corresponda fielmente ao dado de 49%, é ainda assim bastante alto.

Tabela 2 – Vagas oferecidas, ingressos e vagas ociosas, Brasil – 2004

Vagas oferecidas Ingressos Vagas ociosas (%)

Brasil 2.320.421 1.303.110 1.017.311 (44%)

IES Pública 308.492 287.242 21.250 (7%)

IES Privada 2.011.929 1.015.868 996.061 (49%)

Particular 1.316.788 600.084 716.704 (54%)

Comun/Confes/Filant 695.141 415.784 279.357 (40%)

Fonte: INEP/MEC. Sinopse Estatística da Educação Superior, 2004. Elaboração própria.

Outro fator que ressaltado por Carvalho (2006) é o elevado nível de desemprego no final da década de 1990 e início da década de 2000, que culminou numa instabilidade do pagamento das mensalidades trazendo incertezas para o setor do ensino superior privado. “De acordo com dados do Censo da Educação Superior, coordenado pelo Inep/MEC, o percentual de vagas não preenchidas ampliou-se de 19%, em 1990, para 47%, em 2005” (CORBUCCI, 2007, p. 17).

A mudança na legislação federal sobre a dissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão também representa uma mudança significativa para a expansão do ensino superior privado. Através dos decretos nº 2.207 e nº 2.306 de 1997 e nº 3.860 de 2001 estabelece-se a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão apenas para as universidades (APRILE; BARBONE, 2008. p. 6).

As isenções fiscais às instituições de ensino superior privadas, a dissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão para faculdades e centros universitários, entre outras mudanças e incentivos, permitiram o aumento das instituições, cursos e matrículas da educação superior privada brasileira ao longo das últimas décadas.

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Helgio Trindade (2004) na sua análise sobre as instituições de ensino superior na América Latina considera o Brasil um caso paradigmático quanto ao ensino superior privado. O Brasil era, segundo esse autor, o sétimo país do mundo com maior educação superior privada em relação à pública.

(...) o crescimento da iniciativa privada no campo educacional, que não vem acontecendo pela 'mão invisível' do mercado, é fruto de uma política relativamente clara dos governos democraticamente eleitos, em plena sintonia com as orientações dos organismos multilaterais, como o Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e, mais recentemente, da Organização Mundial do Comércio (OMC) (RODRIGUES, 2007, p. 17).

Em 1964, as matrículas em cursos de graduação presenciais estavam 62% em instituições públicas. Ao longo da década essa proporção se inverte e até hoje as matrículas no ensino superior estão concentradas no setor privado. Em 2014, 75% das matrículas em cursos de graduação presenciais e à distância estão no setor privado. O Censo da Educação Superior de 2014 nos informa que o país tinha 2.368 instituições de ensino superior, das quais 12,6% (298) eram públicas e 87,4% (2.070) eram privadas e estavam matriculados nessas instituições 7.828.013 estudantes, dos quais somente 25% eram de instituições públicas. Os dados apresentados no gráfico 1 a seguir evidenciam as disparidades do crescimento das matrículas em cursos de graduação presenciais públicos e privados.

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Gráfico 1 – Matrículas em cursos de graduação presenciais por organização acadêmica, Brasil – 1964 -2014

Fonte: MEC / INEP. Sinopse Estatística da Educação Superior. (*1964, 1974, 1984, 1994 Vide SGUISSARDI, 2008). Elaboração própria.

Relevante destacar que os dois Planos Nacionais de Educação construídos após a LDB (1996) têm como meta a

juventude brasileira. O movimento de ampliação da oferta das matrículas revela que esse papel foi preponderantemente desempenhado por instituições privadas de ensino

O Plano Nacional de Educação (PNE 10.172/2001, argumenta que

(...)

aumento acelerado do número de egressos da educação média, já está acontecendo e tenderá a crescer

evitando

do setor privado, que já oferece a maior parte das vagas na educação superior e tem relevante papel a cumprir, desde que respeitados os parâmetros de qualidade estabele

Para tanto, o PNE (2001

o final da década, a oferta de educação superior para, pelo menos, 30% d de 18 a 24 anos”. No contexto de inst

ajuda de recursos públicos e como objetivo de cumprir a meta do PNE, o governo Lula

0 1.000.000 2.000.000 3.000.000 4.000.000 5.000.000 6.000.000 7.000.000 * 1 9 6 4 * 1 9 7 4 * 1 9 8 4 * 1 9 9 4 1 9 9 5

Matrículas em cursos de graduação presenciais por organização acadêmica,

Fonte: MEC / INEP. Sinopse Estatística da Educação Superior. (*1964, 1974, 1984, 1994 Vide SGUISSARDI, 2008). Elaboração própria.

que os dois Planos Nacionais de Educação construídos após a têm como meta a ampliação da escolaridade em nível superior da . O movimento de ampliação da oferta das matrículas revela que esse papel foi preponderantemente desempenhado por instituições privadas de ensino

O Plano Nacional de Educação (PNE, 2001-2010), aprovado pela argumenta que:

(...) a pressão pelo aumento de vagas na educação superior, que decorre do aumento acelerado do número de egressos da educação média, já está acontecendo e tenderá a crescer. Deve-se planejar a expansão co

evitando-se fácil caminho para a massificação. É importante a contribuição do setor privado, que já oferece a maior parte das vagas na educação superior e tem relevante papel a cumprir, desde que respeitados os parâmetros de qualidade estabelecidos pelos sistemas de ensino (PNE, 2001, p.86

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(PNE, 2001, p.86-87). meta: “prover, até o final da década, a oferta de educação superior para, pelo menos, 30% da faixa etária abilidade do ensino superior privado que requeria ajuda de recursos públicos e como objetivo de cumprir a meta do PNE, o governo Lula

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