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ESCREVER PORTUGAL EM LÍNGUA ESTRANGEIRA: OH! LUSITANIA, DE RUI PIRES CABRAL

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Academic year: 2021

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http://dx.doi.org/10.21881/abriluff.2016n17a387

ESCREVER PORTUGAL EM LÍNGUA

ESTRANGEIRA: OH! LUSITANIA, DE

RUI PIRES CABRAL

WRITING PORTUGAL IN FOREIGN

LANGUAGE: OH! LUSITANIA, BY

RUI PIRES CABRAL

Tamy de Macedo Pimenta

1

O simples ato de folhear as pá-ginas de Oh! Lusitania, de Rui Pires Ca-bral2, sem nos atentarmos aos versos ali

presentes, já ocasiona estranhamentos e possibilita questões variadas. O livro, além de ser composto por poemas-co-lagem que misturam fotografias, papéis coloridos e palavras coladas à página – o que não surpreende aqueles que têm acompanhado a obra recente deste poeta que, desde 2012, vem publicando livros que entrelaçam palavra e imagem –, é inteiramente escrito em língua inglesa. Desde a nomeação das partes em que Oh! Lusitania é tripartido (“the common difficulties”; “circling shado-ws”; “the sunken room”) até as palavras e frases afixadas às páginas, todo o livro parece questionar seu pertencimento ao rótulo “poesia portuguesa”.

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Afinal, o que o levaria a ser classificado desse modo? O fato de ter sido publicado em Lisboa, por uma pequena editora portuguesa? Ou ainda porque os recortes que formam seus versos foram rearranjados pelas mãos de um poeta que nasceu e reside em Portugal? Vejamos o que nos diz o próprio Rui Pires Cabral, na nota introdutória:

Oh! Lusitania é o segundo volume de uma trilogia em

cur-so, de inspiração náutica, iniciada com Broken (Paralelo W, 2013).

Há uma boa razão para estar em inglês: todos os poemas foram por assim dizer escritos com palavras recortadas do livro The Last Voyage of the Lusitania (A.A. Hoehling e Mary Hoehling, Pan Books, 1959), no qual se relata a tragédia do transatlântico afundado por um torpedo alemão na prima-vera de 1915.

O título, porém, devo-o a Alfred Russel Wallace, que quando escreveu, em The Malay Archipelago, “Oh! Lusitania, how art

thou fallen!”, não estava a falar de nenhum navio.

(PIRES CABRAL, 2014, s/p, grifos do poeta)

Dessa forma, ao contrário de Broken3, que iniciou a trilogia em curso, Oh! Lusitania tem como fonte um livro em inglês, sendo esta a “boa razão” para ser escrito em outra língua que não a portuguesa. Ainda assim, não deixa de ser interessante o emprego de uma língua estrangeira neste que é, talvez, o livro mais “português” de Rui Pires Cabral, ainda que a referência só esteja presente no título. Este, retirado do livro com observa-ções do naturalista Alfred Russel Wallace durante suas viagens pela parte sul do arquipélago malaio entre 1854 e 1862, traz uma chave fundamental para entendermos o termo “Lusitania”, assim como todo o livro, sob uma dupla concepção. O trecho mencionado pelo poeta se refere ao comentário de Wallace no capítulo vinte e seis de seu livro, quando, ao avistar belos fortes originalmente construídos pelos portugueses séculos antes, o autor compara-os com a situação de Portugal naquele momento e diz: “Oh! Lusi-tania, how art thou fallen!” (“Oh! Lusitânia! Como caíste!”)4.

“Lusitania”, nesse sentido, refere-se tanto ao navio americano que afundou na costa irlandesa após ser atingido por um torpedo alemão du-rante a 1ª Guerra Mundial, quanto à nação portuguesa nos finais do século XIX, marcada pela queda de seu domínio ultramarino e colonial estabele-cido três séculos antes. Trazendo esses dois contextos para seu livro, Rui Pires Cabral acrescenta, ainda, uma terceira circunstância: a de Portugal no século XXI, que, como sabemos, não está tão distante das imagens de declínio e nostalgia encontradas nos dois primeiros contextos.

Assim, imagens (intrincadamente visuais e poéticas) de queda, medo, desnorteamento e profunda negatividade são constantes neste livro, como nos atesta seu primeiro poema-colagem:

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(PIRES CABRAL, 2014, s/p)

A foto do que se supõe ser um barco, aparentando ter sido rasgada com violência, remete inevitavelmente à trágica história do navio Lusitania, mas a atmosfera criada pela combinação da fotografia com o papel laranja--avermelhado e com os versos vai além desse contexto específico. A ne-cessidade de se percorrer uma distância (aparentemente?) infinita em uma noite que chega contundida, sangrando e, porém, ainda carregando sonhos que imploram por espaço enuncia um trajeto doloroso em que se tenta se-gurar a esperança em meio ao caos. Considerando-se a dupla concepção do termo “Lusitania”, poder-se-ia vislumbrar nesse quadro a imagem de um Portugal decadente que, desde o fim do século XIX, viu em naufrágio seu projeto expansionista e, mais recentemente, sua economia? Através dos séculos, a grande nação portuguesa de outrora perdeu seu esplendor e, for-çada a perceber que tudo está fadado ao esquecimento (até mesmo os gran-des feitos, só imortalizados pela História e pelas artes), encontra-se em um estado de desespero que silencia até as musas, tamanho o choque:

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“No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho/Destemperada, e a voz enrouquecida” (Lus., X, 145): no século XVI, quando a nação lusitana ainda gozava de certo prestígio, Camões pedia à Musa para não mais cantar “a gente surda e endurecida” de uma pátria metida “No gosto da cobiça e na rudeza/ dua austera, apagada e vil tristeza”; cinco séculos depois, Rui Pires Cabral recorta e cola imagens e versos que chocam as musas, levadas vio-lentamente ao silêncio. Para um poeta português inserido em nosso tempo, não há musa ou inspiração que o leve adiante em seu canto, mas, apoiado nos tijolos de um país profundamente inominável (“I stand with shadows on the brick of a deep, nameless country”), o canto ressurge, em meio aos mortos:

(PIRES CABRAL, 2014, s/p)

Tecendo essa ambígua relação com os três contextos aos quais o título pode ser relacionado, Oh! Lusitania é o livro mais português de Rui Pires Cabral, ainda que seja preenchido por versos em língua inglesa. Se, como diz Deleuze relembrando Proust, “o escritor [...] inventa na língua uma nova língua, uma língua de algum modo estrangeira” (DELEUZE, 1997, p. 9), talvez possamos entender esse gesto do poeta como um distan-ciamento em relação a sua própria (e “maior”, em termos deleuzianos) lín-gua, como se, para falar de Portugal, se fizesse necessário não usar a língua portuguesa, em uma tentativa de se falar de fora, ainda que se esteja dentro. Nessa direção, pode-se pensar este livro como uma busca necessária para o futuro português, como a formulou Eduardo Lourenço:

O romantismo português, a cultura portuguesa até aos nos-sos dias, são o lugar de um combate ao mesmo tempo lu-minoso e obscuro para inventar uma nova figura para uma sociedade em contínua metamorfose, aspirada pelo futuro. Um futuro que nos interpela, por assim dizer, “de fora”, para reciclar, consciente ou inconscientemente, um passado de

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tradição orgânica onde fulguram, paradoxalmente, cada vez com mais intensidade, as estrelas fixas do nosso imaginário cultural [...] E com ela uma quête mais misteriosa ainda, a da origem, a do inconsciente de uma língua e de uma cultura a que esses Ulisses caseiros deram forma e figura. É nela que estão empenhados os que serão, se o talento e os deuses qui-serem, as “estrelas fixas” do presente e do futuro.

(LOURENÇO, 2001, p. 43)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. Edição organizada por Emanuel Pau-lo Ramos. Porto: Porto editora, 1978.

DELEUZE, Gilles. Crítica e clínica. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1997. LOURENÇO, Eduardo. A Nau de Ícaro e Imagem e Miragem da

Luso-fonia. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

PIRES CABRAL, Rui. Broken. Lisboa: Paralelo W, 2013. ______. Oh! Lusitania. Lisboa: Paralelo W, 2014.

WALLACE, Alfred Russel. The Malay Archipelago. Austrália: Univer-sitiy of Adelaide, 2014. Disponível em https://ebooks.adelaide.edu.au/w/ wallace/alfred_russel/malay/. Acesso: dez. 2015.

NOTAS

1 Mestre em Literatura Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense com a disser-tação de Mestrado “Percursos do Nomadismo na poética de Rui Pires Cabral”, defendida em 2016 com orientação da Prof.ª Dr.ª Ida Alves. Trabalha como professora de língua portuguesa e inglesa na SEEDUC.

2 Poeta e tradutor formado em História pela Universidade do Porto, nascido em Macedo de Cavaleiros, Portugal, no ano de 1967. Seu primeiro livro, Qualquer coisa estranha, de contos, foi publicado em 1985 e a ele se seguiram mais quinze, de poesia, incluindo as publicações mais recentes que exploram a poesia-colagem, como Biblioteca dos rapazes (2012), Broken (2013), Stardust (2013), Álbum (2013), Oh! Lusitania (2014) e Elsewhere/

Alhures (2015). Sua obra poética anterior ao ano de 2012 foi reunida em Morada, livro

publicado pela Assírio & Alvim em 2015.

3 Livro publicado em 2013 pela Paralelo W composto por poemas-colagem com fotogra-fias em preto e branco e palavras retiradas do livro Unbroken – O submarino fantasma da

Guerra de 1939-45, relato autobiográfico de Alastair Mars, publicado em português pela

Imprensa Nacional de Publicidade no ano de 1957.

4 Capítulo consultado em <https://ebooks.adelaide.edu.au/w/wallace/alfred_russel/ma-lay/chapter26.html>, em dezembro de 2015.

Referências

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