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ESTUDO DA TERMINOLOGIA DAS FIBRAS E TECIDOS NA ÁREA TÊXTIL

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INSTITUTO DE LETRAS

DEPARTAMENTO DE LINGÜÍSTICA, LÍNGUAS CLÁSSICAS E VERNÁCULA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LINGÜÍSTICA

ESTUDO DA TERMINOLOGIA DAS FIBRAS E TECIDOS

NA ÁREA TÊXTIL

Cleide Lemes da Silva Cruz

Brasília-DF Agosto/2005

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UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA INSTITUTO DE LETRAS

DEPARTAMENTO DE LINGÜÍSTICA, LÍNGUAS CLÁSSICAS E VERNÁCULA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LINGÜÍSTICA

ESTUDO DA TERMINOLOGIA DAS FIBRAS E TECIDOS

NA ÁREA TÊXTIL

Cleide Lemes da Silva Cruz

Dissertação apresentada ao Departamento de Lingüística, Línguas Clássicas e Vernácula, como parte dos requisitos para obtenção do Grau de MESTRE EM LINGÜÍSTICA, pela Universidade de Brasília.

Orientadora: Profª. Drª. Enilde Faulstich

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BANCA EXAMINADORA

Professora Doutora Enilde Faulstich (Presidente – UnB)

Professora Doutora Haruka Nakayama (Membro efetivo – UnB)

Professora Doutora Orlene Lúcia Sabóia (Membro efetivo – UnB)

Professora Doutor René Strehler (Membro suplente – LET)

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DEDICATÓRIA

Ao Esoaldo Amanda Bianca e Crislayne

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AGRADECIMENTOS

Em primeiro lugar, a Deus por ter estado do meu lado em todos os momentos.

A minha professora-orientadora, Enilde Faulstich, pela competência na orientação desta dissertação, pela experiência compartilhada, pela paciência e estímulo constantes.

A todos os professores do Programa de Pós-graduação em Lingüística – PPGL – que ministraram aulas neste MINTER (UnB/Uniderp), pelos ensinamentos enriquecedores.

Às coordenadoras Denize Elena Garcia da Silva e Heloísa Maria Moreira Lima Salles, pela dedicação a este MINTER.

Á minha família – meu marido e minhas filhas – pela compreensão nos momentos de ausência e pelo incentivo.

Aos amigos Maurício e Estácio pela disposição em ouvir-me nas horas mais difíceis.

Às amigas e colaboradoras Cristiane e Elisabeth Alves, pela amizade e pelo apoio inesquecíveis.

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SUMÁRIO

RESUMO ... 09

ABSTRACT ... 10

INTRODUÇÃO ... 11

CAPÍTULO I – Uma leitura histórica das fibras e tecidos

Histórico da tecelagem... 14

A linguagem dos tecidos desde a Pré-História ... 15

Corpo, moda e linguagem(ns) ... 17

A investidura simbólica dos tecidos ... 19

1.4.1 Fibra têxtil ... 22

1.4.1.1 Estrutura e composição das Fibras Celulósicas Naturais...22

1.4.1.1.1 Fibras de sementes ...22

1.4.1.1.2 Fibras de caules ...23

1.4.1.2 Fibras Naturais Animais ...24

1.4.1.2.1 Fibras de pêlo ...25

1.4.1.2.2 Fibras de casulo...26

1.4.1.3 Fibras Artificiais Celulósicas...26

CAPÍTULO II – Revisão de literatura

2.1. A terminologia como mecanismo de constituição da área de conhecimento...28

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2.2. Um vislumbre na origem da terminologia ... 30

2.3. O papel da socioterminologia e a variação ... 32

CAPÍTULO III – Discussão Teórica

3.1. A variação em terminologia ... 34

3.2. O constructo da teoria da variação de Faulstich ... 41

3.3. Propriedades e concepções de termo ... 45

3.3.1.Unidades terminológicas simples e unidades terminológicas complexas – UTS e UTC...47

CAPÍTULO IV – Metodologia

4.1.Referencial metodológico ... 54

4.2.Fontes de dados ... 56

4.3.Critérios para recolha e organização dos dados ... 57

4.4.Seleção e organização dos dados. ... 58

CAPÍTULO V – Análise dos dados

5.1.Fundamentos para análise dos dados...60

5.2.Procedimentos para análise e classificação dos dados...65

5.3.Análise dos dados do Grupo I...69

5.3.1. Conclusões da análise do Grupo I ...75

5.4. Análise dos dados do Grupo II...76

(8)

CAPÍTULO VI – Glossário terminológico da indústria têxtil

6.1.Apresentação do glossário ... 88

6.2.Glossário terminológico da indústria têxtil ... 93

CONSIDERAÇÕES FINAIS...115

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...119

ANEXO 1 – CORPUS EXTRAÍDO DAS REVISTAS PESQUISADAS...123

ANEXO 2 – UNIDADES TERMINOLÓGICAS SIMPLES (UTS) EXTRAÍDAS DO CORPUS...145

ANEXO 3 – UNIDADES TERMINOLÓGICAS COMPLEXAS (UTC) EXTRAÍDAS DO CORPUS...146

(9)

RESUMO

O tema central desta pesquisa é o estudo da terminologia têxtil, à luz da aplicação do modelo da Teoria da Variação em Terminologia, proposto por Faulstich (1995-2003). Esta teoria serve aos nossos propósitos porque privilegia o estudo do termo e do conceito com base na observação do uso e no registro social. Interessa verificar como ocorre a variação de unidades terminológicas simples (UTS) e unidades terminológicas complexas (UTC). O que se procura constatar é que a variação ocorre na Linguagem de Especialidade (LESP), posto que esta se constrói dentro de uma relação social e sofre influências de fatores lingüísticos e sociais condicionando o fenômeno variável. Fundamentam a análise os conceitos teóricos Wüster (2001), Boulanger (2001), Sager (1993), Cabré (1993), Aubert (2001), Gaudin (2004). A aplicação da Teoria da Variação de Faulstich comprovou a existência da variação na Linguagem de Especialidade. Foram analisados dados da área têxtil, coletados em revistas de moda feminina, por meio dos quais se evidenciou variação no uso de UTS e UTC dentro do constructo proposto por Faulstich, em que a variação ocorre pela ação do movimento gradual do termo no tempo e no espaço e é provocada pela função de uma dada variável. Por sua vez, a variável será realizada sob a forma de uma variante e estas podem pertencer a três pólos: variantes concorrentes, variantes coocorrentes e variantes competitivas.

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ABSTRACT

The central subject of this research is the study about textile terminology, according to the Variation Theory, on model proposed by Faulstich (1995-2003). This theory attend on our purpose because it privileges the study of the term and concept by observing the usage and the social register. It is of interest to verify how variation of simple terminological unities occurs (STU) as well as complex terminological unities (CTU). What one tries to check is that variation occurs in Specialized Language (SL), since this kind of language is consolidated in social relationship and suffers influence from linguistic and social factors by laying condition the variable phenomenon. The bases of the analysis of the theoric concepts Wüster (2001), Boulanger (2001), Sager (1993), Cabré (1993), Aubert (2001), Gaudin (2004). The Faulstich‟s Variation Theory application has proved the existence of variation in Specialized Language. Data of the textile area were analyzed, after having been collected from women‟s fashion magazines by means of which can see variation on the STU‟s and CTU‟s usage into the „constructo‟ proposed by Faulstich, where variation occurs by the action of the gradual movement in time and space and it‟s caused by the function of a given variable and, on the other hand, the variable will be realized by the way of a variant and these can belong to three points: concurrent variants, coocurrent variants and competitive variants.

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INTRODUÇÃO

_________________________________________________________________________

O tema desta dissertação é o estudo da variação de unidades terminológicas simples (UTS) e unidades terminológicas complexas (UTC) no âmbito da Linguagem de Especialidade (Indústria têxtil) . A subárea selecionada foi a de fibras e tecidos têxteis. A pesquisa é de natureza qualitativa, na área de Léxico e Terminologia, e tem por suporte a Teoria da Variação em Terminologia, desenvolvida por Faulstich (1995-2003).

Em terminologia, afirma Faulstich (1995), os fenômenos variáveis ocorrem no sistema interno da língua na qual estão redigidos os textos de especialidade. Trata-se, portanto, de variação regular intrínseca e não de variação superficial, sob a forma de «como registrar o termo». Somente na dimensão vocabular de um corpus textual, de preferência especializado, é possível avaliar o que varia e como as terminologias variam. Foi essa dimensão que nos guiou para a análise da terminologia da indústria t\êxtil, por meio da sistematização das unidades terminológicas simples e complexas e, sobretudo, para a análise do fenômeno de instituição de denominação de determinados termos que designam um ou outro tipo de fibra/tecido. Posto que, as designações das fibras partem diretamente do nome dado à semente (algodão), ao caule (linho, cânhamo, rami e juta), à folha (sisal), ao pêlo (lã e cashmere) e à secreção (seda), da mesma forma, ocorre com

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os tecidos que se originam destas fibras, ou seja, conservam o nome de sua fibra originária. O que se quer discutir, mais especificamente é a variação possível na terminologia da área, com o intuito de aplicar o modelo teórico postulado por Faulstich (1995-2003), ao partir da análise da denominação para um tipo de tecido, que tem em sua composição uma determinada fibra e outros filamentos1. O procedimento para a análise se vale do constructo teórico de Faulstich para a análise da variação em UTS e UTC no português do Brasil (PB) e igualmente considerará os empréstimos lingüísticos, que nessa área se fazem muito presentes.

Para se chegar às diferenciações pretendidas, no capítulo I, apresenta-se uma breve abordagem histórica dos termos que se referem às fibras e aos tecidos, desde a antigüidade a nossos dias.

No capítulo II, busca-se, através da revisão de literatura, uma discussão do uso da terminologia como mecanismo de constituição da área de conhecimento. Discute-se ainda a variação terminológica no sentido geral do termo, bem como a variação como um movimento específico no continuum da linguagem. Assim sendo, faz-se um breve percurso desses estudos, partindo de seu primeiro registro que são as idéias de Eugen Wüster em 1931.

1Qualquer fio muito fino de no mínimo 1.000 m de comprimento. A justaposição de 8 até cerca de 500

filamentos finos formam os fios de filamento. Cf. em MALUF, E. e KOLBE, W. Dados técnicos para a

indústria têxtil. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São

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No capítulo III, discutem-se os pressupostos teóricos e reflete-se acerca da teoria do movimento do termo e do conceito, a formação de unidades terminológicas, bem como, tentar-se-á aplicar as bases dessa teoria aos dados selecionados.

No capítulo IV, serão apresentam-se o referencial metodológico, utilizado para recolha dos dados, e as características do corpus. Os dados selecionados, e submetidos à análise, foram fibras e tecidos naturais, artificiais e químicos da área têxtil.

No capítulo V, proceder-se-á à análise de dados, com ênfase à variação terminológica proposta por Faulstich (1995-2003).

Em seguida, passaremos às considerações finais; do glossário em ordem alfabética; seguido das referências bibliográficas e dos anexos, que apresentam dados complementares acerca dos termos analisados.

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INTRODUÇÃO _________________________________________________________________________

O tema desta dissertação é o estudo da variação de unidades terminológicas simples (UTS) e unidades terminológicas complexas (UTC) no âmbito da Linguagem de Especialidade (Indústria têxtil). A subárea selecionada foi a de fibras e tecidos têxteis. A pesquisa é de natureza qualitativa, na área de Léxico e Terminologia, e tem por suporte a Teoria da Variação em Terminologia, desenvolvida por Faulstich (1995-2003).

Em terminologia, afirma Faulstich (1995), os fenômenos variáveis ocorrem no sistema interno da língua na qual estão redigidos os textos de especialidade. Trata-se, portanto, de variação regular intrínseca e não de variação superficial, sob a forma de «como registrar o termo». Somente na dimensão vocabular de um corpus textual, de preferência especializado, é possível avaliar o que varia e como as terminologias variam. Foi essa dimensão que nos guiou para a análise da terminologia da indústria têxtil, por meio da sistematização das unidades terminológicas simples e complexas e, sobretudo, para a análise do fenômeno de instituição de denominação de determinados termos que designam um ou outro tipo de fibra/tecido. Posto que, as designações das fibras partem diretamente do nome dado à semente (algodão), ao caule (linho, cânhamo, rami e juta), à folha (sisal), ao pêlo (lã e cashmere) e à secreção (seda), da mesma forma, ocorre com os tecidos que se originam destas fibras, ou seja, conservam o nome de sua fibra

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originária. O que se quer discutir, mais especificamente, é a variação possível na terminologia da área, com o intuito de aplicar o modelo teórico postulado por Faulstich (1995-2003), ao partir da análise da denominação para um tipo de tecido, que tem em sua composição uma determinada fibra e outros filamentos2. O procedimento para a análise se vale do constructo teórico de Faulstich para a análise da variação em UTS e UTC no português do Brasil (PB) e igualmente considerará os empréstimos lingüísticos, que nessa área se fazem muito presentes.

Para se chegar às diferenciações pretendidas, no capítulo I, apresenta-se uma breve abordagem histórica dos termos que se referem às fibras e aos tecidos, desde a antigüidade a nossos dias.

No capítulo II, busca-se, através da revisão de literatura, uma discussão do uso da terminologia como mecanismo de constituição da área de conhecimento. Discute-se ainda a variação terminológica no sentido geral do termo, bem como a variação como um movimento específico no continuum da linguagem. Assim sendo, faz-se um breve percurso desses estudos, partindo de seu primeiro registro que são as idéias de Eugen Wüster em 1931.

No capítulo III, discutem-se os pressupostos teóricos e reflete-se acerca da teoria do movimento do termo e do conceito, a formação de unidades

2Qualquer fio muito fino de no mínimo 1.000 m de comprimento. A justaposição de 8 até cerca de 500

filamentos finos formam os fios de filamento. Cf. em MALUF, E. e KOLBE, W. Dados técnicos para a

indústria têxtil. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São

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terminológicas, bem como, tentar-se-á aplicar as bases dessa teoria aos dados selecionados.

No capítulo IV, apresentam-se o referencial metodológico, utilizado para recolha dos dados, e as características do corpus. Os dados selecionados, e submetidos à análise, foram fibras e tecidos naturais, artificiais e químicos da área têxtil.

No capítulo V, proceder-se-á à análise de dados, com ênfase à variação terminológica proposta por Faulstich (1995-2003).

No capítulo VI, apresentar-se-á o glossário em ordem alfabética e sistêmica, com cerca de 200 entradas e suas respectivas definições.

Em seguida, passar-se-ão às considerações finais, seguidas das referências bibliográficas e dos anexos, que apresentam dados complementares acerca dos termos analisados.

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CAPÍTULO I UMA LEITURA HISTÓRICA DAS FIBRAS/TECIDOS

1.1 Histórico da tecelagem

Não se sabe quando houve a invenção do tecido plano3, como afirmam Maluf e Kolbe (2003). Porém, comparações feitas com culturas primitivas que persistiram até hoje permitem concluir que muito cedo, talvez 10.000 a 12.000 anos atrás, o homem iniciou a tecelagem, primeiro produzindo cestos com tiras de bambu e depois produzindo tecidos com cascas de arbustos, talos de gramíneas e tiras de pele.

Os fios, produzidos com lã, linho e algodão foram inicialmente produzidos há 4.000 ou 5.000 anos na Mesopotâmia e no Egito e, posteriormente, com seda, na China.

Da fibra ao fio, do fio ao pano, o tecido, como afirma Vincent-Ricard (1989), revela uma coerência contínua, inerente à criatividade de todos os tempos. Na era industrial, privilegia-se a roupa pronta para ser usada, em detrimento da linguagem do tecido. As mídias só transmitem ao público o discurso do “bem vestir”.

3

São tecidos amplamente utilizados na indústria do vestuário, na fabricação de calças sociais, calça jeans, jaquetas, casacos, artigos para decoração, cama, mesa e banho, entre outros. Cf. em MALUF, E. e KOLBE, W. Dados técnicos para a indústria têxtil. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo. ABIT – Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção, 2003.

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Mas, após ter estado em segundo plano por algum tempo, o material volta a preocupar os criadores e ganha mais importância que a busca de formas. O público acompanha o movimento e já encara a roupa de modo pessoal e assumido.

Ao longo da história da humanidade, técnicas ancestrais fizeram de diferentes civilizações centros da arte têxtil. Para se poder exprimir em ternos atuais a trama da história do tecido, é preciso voltar à história dos mitos fundamentais, arquétipos das civilizações.

1.2 A linguagem dos tecidos, desde a Pré-História

Os primeiros panos datam do início da Idade do Bronze e provêm da arte dos cesteiros. Graças aos etnólogos, é possível perceber estruturas, vistas como que através de uma lente de aumento, das armações-tecidos de várias cestarias. Alguns criadores têxteis, ao redescobrirem a arte de fazer cestos, voltaram a conferir uma coerência fundamental ao conceito de cruzamento de fios, eterna base do tecido.

Os primeiros têxteis foram descobertos nas turfeiras da Europa Setentrional, onde as mulheres já usavam camisas longas e saias. Esses primeiros tecidos eram de armação-tela4, muito parecida com a atual: o

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É a armação mais simples, na qual os fios passam, um por um, por baixo do fio de trama (fio tomado) e por cima do fio de urdume (fio deixado). Diz-se então um fio tomado e um fio deixado. Na segunda passagem da linha, os fios tomados da primeira ficam sendo os deixados, e os deixados ficam sendo os tomados. E a alternância prossegue a cada passagem.

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entrelaçamento do fio de urdume com o fio de trama reproduzia um módulo básico: um fio preso, outro saltado, entrecruzando-se indefinidamente. Depois vieram mais duas armações: a armação-sarja5 e a armação-cetim6. Estas são, até hoje, as três armações básicas de todos os tecidos.

Dos fios em entrelaçamento, foi possível ir modificando o aspecto dos fios, combinar texturas e conseguir diversificar ao infinito o aspecto dos tecidos, formando os motivos a partir do próprio ato de tecer, muito antes de surgir a técnica da estamparia.

A cor e a textura dos tecidos são também responsáveis pelas mudanças da moda como afirma Nery (2004). Os fios de lã, linho, seda, algodão ou cânhamo que entram na trama dos tecidos são tão variados que podem criar uma moda nova. Até o século passado, o tingimento foi sempre à base de vegetais ou animais, ganhando, porém, no último século novos processos envolvendo produtos químicos. O aperfeiçoamento técnico sempre acompanha a produção têxtil e cria novos modismos. Durante milhares de anos, usaram-se fios vegetais e pêlos de animais para tecelagem. O desenvolvimento da seda na China e a arte de fabricar veludo na Itália foram outros marcos na inteligência humana. Mais tarde, o século XIX assistiu a inúmeras invenções no setor têxtil. Atualmente as fibras vegetais e de animais foram substituídas pelas fibras químicas, podendo corrigir ou até melhorar os tecidos, dando mais resistência e criando elasticidade,

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Uma das armações básicas a partir do esquema de 1 tomado, 2 (ou 3, 4, etc.) deixados. Na passagem seguinte, o fio de urdume preso na armação afasta-se uma carreira.

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Uma das armações básicas a partir do esquema 1 tomado, 2 (ou 3, 4, etc.) deixados, como no caso da armação sarjada. Mas neste caso, quando um determinado fio de urdume – de ordem p, por exemplo – é tomado pela armação na passagem de ordem q, na passagem seguinte, de ordem c + 1, o fio tomado será o fio de urdume de ordem p + 1, ou p + 2, ou p + i.

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por exemplo, entre outras qualidades. Todos esses fatores são importantes para as criações da moda atual. Uma das grandes descobertas do mundo têxtil foi o fio elástico, usado nas roupas íntimas e maiôs, como também em peças para o dia-a-dia, festas, esportes etc. O stretch de lycra substitui com vantagem a borracha vulcanizada, muito menos resistente.

1.3 Corpo, moda e linguagem(ns)

O corpo suporte de tantos discursos possíveis, especialmente o que revelaria “quem” está vestido diante de nós, traz à tona a questão do vestir e da moda como linguagem. O consumidor é estimulado a cada vez mais investir no chamado “estilo pessoal” e aprender a se diferenciar e se comunicar pela aparência. No contemporâneo, a moda estimula sua função ligada à comunicação e linguagem, assim como suas interseções com estilos de vida. Seria pertinente imaginar que uma grande maioria de pessoas está tão interessada em Moda, exatamente por querer aprender essa “língua”, desejar se comunicar por meio das roupas e usá-las “a seu favor”.

O próprio marketing da moda, como afirma Mesquita (2004), apropria-se desse movimento e preocupa-se mais em mostrar “atitude” e conceito, ligados a determinada marca ou estilo, do que propriamente às roupas. Ou seja, o discurso das marcas vai ao encontro de determinados estilos de vida que, certamente, vão

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entender aquele “idioma” e utilizá-lo como sua própria língua e meio de mensagem.

Devemos entender que essa natureza de códigos, os signos do vestuário se alteram através dos tempos. E, a partir dos anos 90, a idéia de multiplicidade abriga inúmeros paradoxos e outros efeitos extremamente complicadores dessas significações. Portanto, um desejo de decifração clara e segura talvez pertença a outros períodos históricos, quando os códigos – de moda inclusive – eram menos maleáveis e transitórios e quando os sentidos do vestir se prendiam especialmente ao pudor, à proteção e ao adorno e serviam mais objetivamente à distinção de classes.

A insistente idéia de se considerar a moda como linguagem deve ser constantemente encarada sob a ótica de uma rede complexa de mensagens, nada simples de serem identificadas. Por exemplo, se considerarmos o “mix” de referências comum à moda contemporânea, as influências que o processo de globalização produz, e até mesmo a aproximação que o consumidor faz dos códigos de moda, devemos ter extremo cuidado em “rotular” estilos ou interpretar mensagens. A moda, especialmente a partir da década de 1990, confunde muito mais que revela. Mistura códigos sociais, econômicos, geográficos, além de exaltar a linguagem individual em detrimento da coletiva, o que torna ainda mais particularmente complicado o exercício de decifração. Além do corpo, outra “estrela” da moda foi o tecido, ou a matéria-prima, que primou pelas conquistas de texturas cheias de conforto, praticidade e até “inteligência”. Talvez a grande revolução da década tenha se dado nesse campo. Quer dizer, em se tratando de

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formas, a moda dos anos 90 não apresentou mudanças consideráveis, enquanto as mais inovadoras criações fashion se localizaram no campo da matéria-prima que possibilita inúmeras variações facilitadoras de modelagem, acabamento, costura, entre outras.

1.4 A investidura simbólica do tecido

Na língua grega, a palavra “moda” está ligada a “cosmese”7

, o que lhe confere uma dimensão cósmica e simbólica.

A Bíblia mostra todo o simbolismo de que eram revestidos os materiais naturais: tanto no Levítico como no Deuteronômio rejeita-se formalmente a mistura da lã com o linho. Tal mistura de tecidos era proibida com o objetivo de respeitar a especificidade de cada forma de existência: a vida nômade e a vida sedentária. Esaú, o pastor, veste-se com a lã de seu rebanho, enquanto Jacó, já sedentarizado, veste-se de linho. O relato mítico não faz mais que mostrar de forma didática o secular confronto de dois gêneros de vida: a agricultura e a criação animal. Até o século XV, essa proibição é mantida no estatuto dos ofícios: os tintureiros só podiam tingir seda, lã, tecidos lisos não trabalhados e tecidos pisoados. As transgressões eram punidas com pesadas multas.

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A consciência do que representam essas mitologias permite avaliar até que ponto a realidade básica do têxtil – transcendendo em muito os imperativos econômicos e técnicos – revela a existência básica de uma cultura.

Na França, como afirma Vincent-Ricard (1989), o princípio da proibição de misturas se manteve talvez até a era industrial. Havia rígidas regulamentações quanto à fabricação de tecidos mistos, que podia significar um abuso por parte de determinada classe, ou mesmo a libertação dessa classe, gerando uma ruptura sociocultural.

Com o advento da era industrial, essa regulamentação seletiva e extremamente controlada banalizou-se e deixou de existir; aos poucos transformou-se num sistema de rupturas aceleradas e chegou por fim à filosofia do efêmero, do consumo imediato, já sem qualquer ligação com o contexto histórico e social.

Os grandes costureiros eram muitíssimo sensíveis aos materiais e criavam formas em função de tecidos que eles mesmos concebiam e da textura própria desses tecidos.

Os criadores atuais voltaram a ver no material algo essencial. O público, que segue a mesma tendência, percebe isso muito bem. Há um desejo de criar roupas autênticas, roupas que sempre existiram. Já não há, talvez, qualquer referência a Esaú e Jacó. Os signos de uma evolução cultural e social, apoiados em tradições seculares e míticas, conferem significado às novas fibras, concebidas sempre para serem misturadas. Os fabricantes de fibras artificiais e sintéticas começam a levar em conta as tradições culturais. O importante é definir

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bem a identidade dos sintéticos, experimentando ao mesmo tempo associações inéditas.

Observa-se hoje uma evolução na composição das matérias têxteis, que trazem em sua composição a mistura de diversas outras fibras, sendo elas naturais, artificiais e sintéticas.

A composição dos tecidos atuais influencia não só na produção têxtil como também na sua nomenclatura, ou seja, da composição base de um determinado tecido depende a sua denominação no mercado.

A seguir, apresentam-se algumas definições das fibras de maior uso na fabricação de tecidos, de acordo com Erhardt e outros (1976) e nomes dos tecidos mais usados no Brasil. O tipo de tecido usado no Brasil na indústria têxtil leva em consideração o clima tropical, pois em séculos anteriores, isto não ocorria, a moda européia era quem ditava as regras do “bem vestir”.

São utilizados os mais diversos tipos de tecidos; naturais que são perfeitos para os dias de calor (deixam a pele respirar e não retêm o calor), são eles: o algodão, a seda, a cambraia, a bandagem o linho, a tricolina, a sarja, a gabardina (ou gabardine), o brim, o jeans, a laise e a malha. Já na área dos tecidos artificiais e sintéticos estão a viscose, o oxford, a microfibra, a viscolycra, o chifon, o crepe (georgette, madame entre outros) e o tule.

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1.5 Fibra têxtil

Termo genérico para vários tipos de material, natural ou artificial, que formam os elementos básicos para fins têxteis. Uma definição mais objetiva seria dizer que fibra têxtil é todo material que pode ser usado para fins têxteis (fios, tecidos, não-tecidos e etc.).

1.5.1 Estrutura e composição das fibras celulósicas naturais

As fibras vegetais são classificadas em fibras de sementes e fibras duras. O algodão, que é uma das mais importantes fibras têxteis, é extraído de uma semente. As fibras de caule ou duras são extraídas por meio de processos bioquímicos ou mecânicos, nelas estando incluídos o linho, o cânhamo, a juta e o rami.

1.5.1.1 Fibra de semente Algodão

A palavra “algodão” deriva do árabe ”qoton” ou “qutum”, o que significa uma planta encontrada numa terra conquistada.

As fibras de algodão são obtidas a partir da planta de mesmo nome e são formadas por pequenas células dotadas de paredes muito finas, com o interior da

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cavidade formado por protoplasma. Após a retirada da fibra da semente, o protoplasma seca e o resíduo granulado permanece nas paredes interiores do lúmen.

1.5.1.2 Fibras de caules

Linho

O linho é obtido do caule de uma planta anual – o Linun usitatissimum - que se desenvolve em muitas regiões temperadas e subtropicais da Terra. No interior da casca da planta há células longas, delgadas e de espessas paredes, das quais os elementos fibrosos são compostos.

Juta

As fibras de juta são extraídas do caule de “plantas duras”, assim como o linho, o cânhamo, etc. Essa fibra apresenta, geralmente, um fino brilho sedoso e, quando comparada ao linho, é mais quebradiça, o que a impede de ser transformada em fios de títulos finos, já que os feixes não se separam tão bem no sentido longitudinal.

Cânhamo

Assim como o linho, o cânhamo é uma fibra dura, de caule, e anual. A planta pertence à família das Moráceas (Moraceae). É uma planta rústica, de clima temperado e bastante úmido. A fibra de cânhamo é mais “lenhosa” do que a

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de linho e, conseqüentemente, é mais rígida e dotada de uma cor variável, que pode ser cinza-pérola, amarelada, esverdeada e, até, parda.

Rami

As fibras de rami são oriundas da família das Urticáceas. A planta apresenta uma cepa de onde partem as hastes que podem atingir, em terrenos apropriados, entre 2 a 3 metros de altura. A estrutura da planta consiste de uma parte central medular, em torno da qual se formará o revestimento lenhoso recoberto pela casca. É uma planta perene, isto é, de cultura permanente, que pode produzir, sem renovação, por cerca de 20 anos e permite, de 3 a 4 cortes por ano.

Sisal

Planta perene pertencente à família das Amarilidáceas, em especial, para a produção de fibras, a mais importante é a denominada Agave Sisalana. A fibra apresenta excelente resistência à ruptura e ao alongamento, além de notável resistência à água salgada.

1.5.1.3 Fibras naturais animais

São aquelas extraídas de animais diversos, preferencialmente de animais com muita pelagem, como por exemplo, a cabra, o carneiro, a alpaca entre outros.

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1.5.1.3.1 Fibras de pêlo

A lã é uma proteína de uma substância chamada de Keratina e é composta por 18 resíduos de aminoácidos. As fibras de lã apresentam ondulação natural, o que constitui uma vantagem para a confecção de fios e tecidos. Algumas fibras são excepcionalmente duras e grossas.

Mohair

Fibra obtida da cabra Angorá nativa da Turquia. Tem aspecto semelhante ao da lã, com menor número de escamas.

Cashmere

Lã obtida da cabra de mesmo nome originária da região de Kashmir, no Tibet. As fibras são brancas ou bronzeadas e são retiradas através de penteagem manual. Possuem o mesmo brilho e elasticidade do Mohair, embora resistam menos que a Lã à ação de produtos químicos.

Alpaca

Fibra retirada do animal de mesmo nome, nativo da América do Sul, encontrado no Peru, Bolívia, Equador e Argentina na região da cordilheira do Andes.

A Alpaca oferece excelente proteção térmica e isolamento. As fibras são resistentes e brilhantes e podem produzir tecidos similares, em aparência, aos de Mohair. A cor das fibras varia do branco ao marrom ou, até mesmo, o preto.

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1.5.1.3.2 Fibra de casulo Seda

Fibra extraída do bicho-da-seda, especialmente o Bombix Mori, apresenta maciez e brilho naturais, com a cor se situando entre o branco e o creme e, ocasionalmente, podem ser amarelas ou marrom claro.

1.5.1.4 Fibras artificiais celulósicas Acetato

Fibra de origem celulósica cuja matéria-prima é derivada da polpa da madeira e das fibras de algodão, de comprimento não aproveitável para fiação. É semelhante à viscose em seu aspecto exterior e foi mais uma tentativa de imitar as características da seda natural.

Viscose

Fibra biodegradável artificial, derivada da celulose, usada geralmente em combinação com algodão.

Elastano

Fio sintético com propriedade elástica. O fio elastano da Du Pont é internacionalmente conhecido com o nome de Lycra, portanto toda lycra é fio elastano, porém nem todo fio elastano é lycra.

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Poliéster

Fibra sintética que absorve pouca umidade e tem alta resistência. É utilizado em associação com outras fibras. Com a viscose, dá mais brilho e melhor caimento e com o algodão, mais resistência.

Observa-se, com essa descrição, que a indústria têxtil ainda preserva o costume de se produzir tecidos a partir de matérias-primas naturais, sejam elas, vegetais ou animais, porém dá lugar à tecnologia com a aceitação dos materiais sintéticos e químicos.

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CAPÍTULO II REVISÃO DE LITERATURA

2.1 A terminologia como mecanismo de constituição da área de conhecimento

O trabalho terminológico surge da necessidade de sistematizar denominações e conceitos das diferentes expressões ou termos, com o objetivo de facilitar a comunicação entre especialistas. Este objetivo, para ser atingido, no nosso caso, supõe a obtenção de outras tarefas não menos importantes: a sistematização de uma terminologia da área da Indústria Têxtil, que contemple conceitos próprios e por empréstimo, para que se reconheça sua autonomia. Na prática, significa estabelecer a linguagem de especialidade da área.

Segundo Cabré (1993, p.14), "estudiar una materia equivale a aprender los lenguajes de esa materia". Este saber é um conhecimento dos pontos de vista específicos que orientam um modo próprio de explicar e de interpretar a realidade. Na ausência das linguagens de especialidade, "sabemos o mundo" segundo o que nos dita a linguagem natural, inserindo-nos no senso comum. No entanto, não é apenas com o recurso à linguagem natural que se introduz a indeterminação conceitual. Saber o mundo por meio de um conjunto de termos sem consistência conceitual, provenientes, por exemplo, de diferentes áreas, na ausência de

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normalização, equivale a ter em mãos vários fragmentos que, se juntados, não fazem sentido ou o fazem à custa de muito esforço. Em larga medida, portanto, o conhecimento e a compreensão de uma área de conhecimento vincula-se ao domínio da linguagem desta mesma área. O núcleo específico de uma linguagem de especialidade é seu vocabulário, que normalizado e organizado semântica e logicamente constitui a terminologia da área.

Os termos são criados e se desenvolvem em uma língua concreta porque as idéias, processos ou objetos que esses termos designam foram criados pela sociedade que deles se utiliza. Quando não consolidados, isto é, na ausência de um assentamento conceitual ou na presença de ambivalências semânticas, que poderiam supostamente estabelecer condições de criação, tem-se um impasse ou retardamento teórico, que compromete a área como um todo.

Nesse sentido, é fato reconhecido que as denominações servem de referência para a determinação do vocabulário de uma especialidade. Integram semelhante vocabulário os termos relativos aos objetos, processos e métodos da área. Como os conceitos atribuídos aos termos não resultam de convenções arbitrárias ou de preferências individuais, mas de relações entre suas características constitutivas, passíveis de serem objetivadas e confirmadas, o reconhecimento de uma denominação e de seu conceito é tarefa que exige análise da pertinência dessas características ou traços em relação ao domínio considerado. Em si mesmas, as denominações podem ser fruto da germinação de idéias, do desenvolvimento efetivo do conhecimento da área ou de mera confusão,

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nesse caso, por ausência de rigor, ou por modismo. Por essa razão, o uso da palavra "em estado natural" é sempre um risco.

Como afirmam Krieger e Finatto (2003:17), a importância do processo denominativo para as atividades de conceituação explica, assim, o papel das terminologias na fixação e na circulação do saber científico e técnico. Donde o sentido da afirmação de que “para os especialistas, a terminologia é o reflexo formal da organização conceitual de uma especialidade, e um meio inevitável de expressão e comunicação profissional”. (Cabré, 1993:37)

O léxico temático configura-se, portanto, como um componente lingüístico, não apenas inerente, mas também a serviço de comunicações especializadas, posto que os termos transmitem conteúdos próprios de cada área.

2.2 Um vislumbre na origem da terminologia

A terminologia moderna começa com Eugen Wüster em 1931,quando esse professor publica Die internationale Sprachnormung in der Technik, besonders in der Elektronik, que demonstrava sua preocupação com a metodologia e a norma aplicadas à terminologia, sendo essa, um instrumento que visava à "eliminação das ambigüidades nas comunicações científicas e técnicas", na opinião de Rondeau8. Em 1968, Wüster publica o Dictionnaire multilingue de la machine-outil: notions fondamentales, documento no qual ele dá um passo em direção à

8

Cf. Rondeau, Guy. Introduction à la terminologie. 2 ed., Gaetan Morin, Québec, 1984, 238 p. In.: Faulstich, E. Socioterminologia: mais que um método de pesquisa, uma disciplina. Ciência da Informação – Vol. 24, nº 2, 1995 – Artigos.

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onomasiologia. Mesmo assim, ele inscreve seu pensamento no domínio particular da normalização, preceituando a biunivocidade terminológica.

Sager (1993:292), observa dez anos depois de Wüster, que os primeiros terminólogos registravam somente o uso aceito ou aprovado de um termo, o que correspondia a algo como uma forma recomendada. Hoje, porém, se reconhece que a fixação de uso, mediante uma prescrição ou normalização, deve obedecer ao uso estabelecido, em vez de precedê-lo, ou seja, o uso permite a identificação e a categorização das variantes lingüísticas dos termos em diferentes tipos de textos, mesmo levando em conta que especialistas não teriam dificuldades de distinguir entre uma variante e um termo. Ainda assim, os dicionários e glossários registravam somente o uso da linguagem escrita, todavia, nesse momento em que a linguagem falada adquire importância por meio da mídia, é necessário investigar as formas faladas do léxico.

Sager revela a necessidade de observação de um termo em seu contexto de uso social, indicando “uma apreciação mais realista dos diversos usos da linguagem; na prática, o uso comunicativo ocupa uma posição principal antes dos usos classificador e ideacional que se vê em ação durante a formação dos termos” (1993:292). Ao afirmar isso, Sager expressa hipóteses acerca da existência e do uso das variantes. Em uma delas, o autor se aproxima dos princípios requeridos pela socioterminologia, ao declarar que existe a necessidade de variação léxica/terminológica e que esta se manifesta com diversa intensidade nos diferentes tipos de textos. Observa ainda que, apesar da afirmação teórica da

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univocidade da referência, de fato, nas linguagens especializadas, existe uma variação considerável.

2.3 O papel da sociotermiologia e a variação

No universo da terminologia, a variação revela peculiaridades próprias a serem estudadas e que exigem método próprio para sistematização de termos e de variantes.

É nesse sentido que se abre para essa investigação a socioterminologia, termo esse, usado pela primeira vez, em um artigo de 1981, escrito por Jean-Claude Boulanger, conforme Faulstich (1995). A partir de então, vários são os lingüistas que defendem o estudo e o registro social do termo, pois reconhecem que as terminologias estão abertas à variação.

A socioterminologia vem adquirindo, por isso, posição de disciplina de caráter teórico e não somente de um método analítico aplicado, com vistas a contribuir para o desenvolvimento de pesquisas teórico-práticas que levem em conta termo e variante(s). Dessa forma, é uma disciplina que se ocupa da identificação e da categorização das variantes lingüísticas dos termos em diferentes tipos de situação de uso da língua, nos diversos níveis e planos hierárquicos do discurso científico e técnico.

A sistematização dessas variantes é tarefa da socioterminologia, cujo estatuto fica assegurado pela análise da diversidade de termos que ocorrem nos

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planos vertical, horizontal e temporal da língua, conforme postulados por Faulstich (1998).

Para que se estabeleçam padrões socioterminológicos existentes na funcionalidade da terminologia das linguagens de especialidade, é preciso, antes de tudo, reconhecer esses padrões de acordo com uma metodologia lingüística que afaste o estudo da terminologia do padrão prescritivista, até então único método usado na descrição terminológica. O modelo mais adequado, por conseguinte, é o funcionalismo lingüístico cuja abordagem é orientada para os fenômenos lingüísticos em si. Essa perspectiva tem como objeto científico descrever e explicar os próprios fenômenos lingüísticos.

Nesse sentido, o modelo sociolingüístico, proposto por Faulstich, a partir de 1995, funcionará, neste trabalho, como um guia para o exame da funcionalidade socioterminológica cujo corpus é a linguagem de especialidade da área têxtil.

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CAPÍTULO III DISCUSSÃO TEÓRICA

3.1 A variação em terminologia

Neste capítulo, interessa-nos examinar as idéias de autores que discutem a questão da presença ou não da variação no âmbito da terminologia. Como todas as unidades lexicais, os termos não ocorrem isoladamente, mas combinados com outras unidades do discurso, em estruturas sintáticas específicas, combinatórias, expressões idiomáticas, em frases onde desempenham determinadas funções. Por outro lado, as unidades lexicais especializadas não ocorrem em discursos artificiais, porque, também os termos científicos e técnicos estão sujeitos à variação, no tempo, no espaço e na sociedade.

Encarados desta forma, os termos passam a ser um tema de estudo interessante para a lingüística, que sobre eles desenvolve uma análise fundamentalmente descritiva e funcionalista. Nesse sentido, os termos passam a ser observados em contexto discursivo, e não isoladamente, e analisados tendo em conta as circunstâncias da produção discursiva, como níveis de especialização, público-alvo, objetivos da comunicação, etc.

Vários autores discutem a variação em terminologia, dentre eles há os que não a reconhecem e os que a defendem. São eles, Sager (1993), Cabré (1993),

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Gaudin (1993), Wüster (2001), Boulanger (2001), Aubert (2001), Faulstich (1995-2003) entre outros.

Eugen Wüster9 defendia a tese de que a terminologia não deveria acolher ambigüidades realizadas por denominações plurivalentes (termos homônimos e polissêmicos) e por denominações múltiplas (termos sinônimos). Segundo essa perspectiva, interpretavam-se como anômalos os casos que gerassem ambigüidades e motivassem a variação. Para ele, “variação lingüística era toda perturbação da unidade lingüística” que se caracteriza pelo aparecimento de sinônimos ou homônimos de variação e que a variação poderia ser eliminada por meio da normalização dos termos, que eram considerados unidades unívocas e monorreferenciais, dentro de uma área de especialidade.

Wüster, adverte Faulstich (2001), reconhecia a polissemia dos termos, mas enfatizava que dentro de um domínio específico o termo deveria ser monovalente, mesmo sendo polissêmico. Na perspectiva clássica, os termos técnicos são representações conceituais que ocupam um determinado lugar numa hierarquia lógica de conhecimento. Logo, as unidades lexicais especializadas não comportam diversidades conceituais, estando isentas de polissemia.

Com o direcionamento inovador, intensificam-se os estudos fundamentados na complexidade que envolve o funcionamento das terminologias, tal como qualquer outra unidade da língua natural. Dentre esses, encontram-se as proposições em favor de uma socioterminologia, formuladas por Gaudin desde

9

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1993. Este autor que critica fortemente a política normalizadora conferida ao manejo internacional da terminologia. Nesse sentido, diz ele:

Sobre esse ponto, tentaremos mostrar como, no mesmo movimento que conduziu a lingüística estrutural à sociolingüística, uma socioterminologia pode levar em conta a realidade do funcionamento da linguagem e restituir toda sua dimensão social às práticas linguageiras concernidas. (1993:16)

Boulanger (apud Faulstich, 2001) amplia ainda mais essa discussão quando procura explicitar que a variação é um fenômeno de língua, de usos e de natural ocorrência nas linguagens de especialidade, e que terminologia é disciplina de ordem social.

Teóricos, como Sager (1993), passaram a considerar o emprego do termo no ambiente social, isto é, o emprego real do termo. Então, a terminologia vista pela lente contemporânea de Sager considera, necessariamente, a variação dos termos.

Sager assume postura crítica, quando comenta que a terminologia tradicional é prescritiva em seu trabalho de normalizar os termos, e que, por essa razão, tende a não aceitar a variação. Discute ainda, o distanciamento da visão de Wüster para os estudos atuais e “reconhece que a fixação de uso, mediante uma prescrição ou normalização, deve obedecer ao uso estabelecido em vez de precedê-lo”. (1993:292).

Faulstich, em 1995, traça um caminho para a pesquisa socioterminológica e, por conseqüência, de uma terminologia funcionalista. No dizer de Aubert (apud Finatto, 2001:153), “abre-se, assim, espaço para que, ao lado de uma terminologia

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padronizadora, se desenvolva uma vertente de estudos mais propriamente descritivos, não-intervencionistas, que poderíamos rotular de socioterminologia”.

Faulstich (1995:20) cria postulados para uma socioterminologia, entendendo que a terminologia está voltada para a observação do uso do termo em contextos de língua oral e de língua escrita, atitude que implica a possibilidade de identificação de variantes dentro de um mesmo contexto ou em diferentes contextos em que o mesmo termo é usado. Afirma ainda que a terminologia é passível de variação porque faz parte da língua, porque é heterogênea por natureza, e porque é de uso social.

Aubert (apud Finatto, 2001:153), afirma que “a comunidade de usuários das linguagens de especialidade, tanto quanto a comunidade e a língua em geral, não constitui um todo uniforme, mas se subdivide em grupos variados, com necessidades, pressupostos e motivações também variados”, assim, é inevitável que “as diferenças de ordem sócio-cultural, aliadas àquelas vinculadas ao ponto de vista e à motivação, venham a gerar usos lingüísticos distintos, introduzindo, deste modo, a variação terminológica” .(p.154).

Cabré (1993:157) também postula que dentro da linguagem de especialidade há distintas variações, e destaca a importância de se investigar em que caso se dá esta variação e, assim afirma:

(...) todo lenguaje de especialidad, en la medida en que es un subconjunto del general, participa de sus mismas características; se trata, pues, de un código unitario que permite variaciones (...) La variación de los lenguajes de especialidad sigue los mismos criterios de diversificación sistemática referidos a la lengua general: las modalidades dialectales, los registros y las variedades estilísticas. Em efecto, los lenguajes especializados, por el hecho de ser subcódigos del lenguaje general, participan de sus mismas modalidades dialectales y funcionales – aunque

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de forma más restringida – puesto que la función comunicativa es la prioritaria entre especialistas. (p.157)

Cabré (1993:157-160) identifica variação: i) em textos científicos que tratam da mesma temática em períodos distantes no tempo, os quais podem apresentar diferenças interessantes na conceituação da disciplina, assim como, em seus aspectos expressivos e, ii) em textos especializados de autores que não têm a mesma procedência geográfica. Quanto ao item ii), a autora chama a atenção para o fato de que quanto mais especializado for o texto, menor será a variação dialetal.

Desse modo, a variação em terminologia, afirma Faulstich (2001), surge como contraponto à perspectiva tradicional da terminologia. Sendo a variação inerente a qualquer língua, entenderemos aqui variação terminológica como um tipo de variação lingüística igualmente condicionada por fatores intra e extra-sistêmicos. Uma vez que a variação terminológica se dá no âmbito do uso especializado da língua por parte de uma determinada comunidade profissional, podemos distingui-la daquela que ocorre a utilização não profissional da língua.

As perspectivas para uma comunicação especializada de melhor qualidade, em qualquer área de conhecimento, constroem-se também a partir do reconhecimento da naturalidade e inerência da variação terminológica como um tipo de variação lingüística. Afinal, é inevitável que, como afirma Aubert (apud Finatto, 2001:153):

[...] as diferenças de ordem sócio-cultural, aliadas àquelas vinculadas ao ponto de vista e à motivação, venham a gerar usos lingüísticos distintos, introduzindo, deste modo, a variação terminológica e toda intervenção lingüística, uma vez efetivada, passa a sujeitar-se às vicissitudes sócio-históricas da comunidade e da língua no seio das quais a intervenção foi efetivada, ou seja, torna-se sujeita às instabilidades, às mutações e às

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transformações, no tempo e nos espaços (geográfico, social, situacional e individual) em que as terminologias são empregadas. (p.153)

Este afirma ainda que a ciência e a prática terminológica deverão buscar, complementarmente, outros caminhos. Uma adequada compreensão das linguagens de especialidade somente se pode dar a partir do entendimento de que os termos não existem em isolamento, nem derivam sua existência apenas de um arcabouço lógico-conceptual, mas se manifestam, circulam e exercem sua função em situação, em uso efetivo.

Essa nova visão teve início a partir da década de 1990, quando começaram a surgir trabalhos que criticavam a falta de sensibilidade dos trabalhos terminológicos a situações de variação, ocasionadas pela diversidade de grupos sociais que trabalham em uma área especializada. Reconheceu-se que a análise do termo descontextalizado do meio social conduzia à interpretação que o marginalizavam de sua condição lingüística. Assim, a terminologia variacionista, que se enquadra dentro de uma abordagem funcionalista, de acordo com Faulstich (1995), passa a dar ênfase à diversidade, porque reconhece que é por meio das línguas que se exercem as atividades sociais e cooperativas entre os falantes. Dentro desse ponto de vista, a terminologia está voltada para a observação do uso do termo em contextos de língua oral e de língua escrita, atitude que implica a possibilidade de identificação de variantes dentro de um mesmo contexto ou em diferentes contextos em que o mesmo termo é usado.

Outra decorrência da compreensão de que o termo é um elemento das línguas naturais, isto é, unidade lexical que sofre todas as implicações sistêmicas e contextuais como qualquer palavra da língua, como postula Cabré (1993):

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Tanto o conhecimento especializado quanto os textos especializados, como as unidades terminológicas, podem ocorrer em diferentes níveis de especialização e serem descritas em diferentes níveis de representação. Só assim, a terminologia do desejo passa a ser a terminologia da realidade. (p.162)

Faulstich propõe, em 1995, nos estudos de socioterminologia, uma abordagem funcionalista do termo, como já dissemos anteriormente, descreve as bases metodológicas para a pesquisa socioterminológica e defende princípios de estreita relação entre termo e variação. Elabora, ainda, uma tipologia de variantes terminológicas e inclui, entre os postulados, a possibilidade de a terminologia variar e de a “variação poder indicar uma mudança em curso”. No modelo de Faulstich (1998-1999), esse postulado abre a análise do termo sob duas perspectivas: a sincrônica, em que formas variantes apresentam o mesmo significado referencial, e a diacrônica em que o termo é descrito no seu percurso histórico, que “possibilita sistematizar estruturas léxico-terminológicas variantes, as quais permitem reconstruir quadros conceptuais da época, validados ou não na atualidade” (1999), e assim, a autora nos dá uma síntese da questão:

Termos são signos que encontram sua funcionalidade nas linguagens de especialidade, de acordo com a dinâmica das línguas; são entidades variantes, porque fazem parte de situações comunicativas distintas; são itens do léxico especializado, que passam por evoluções, por isso devem ser analisados no plano sincrônico e no plano diacrônico das línguas. Faulstich argumenta ainda que “nenhum estágio da língua é um bloco homogêneo, embora seja regular. Cada estágio da língua, por sua vez, está limitado por complexos de variedades lingüísticas, as quais se entrecruzam por impulso das linguagens”.

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3.2 O constructo da teoria da variação de Faulstich

Para a construção da Teoria da Variação em Terminologia, Faulstich (2002:76) levou em conta que a unidade terminológica, o termo, “pode assumir diferentes valores, de acordo com a função que uma dada variável desempenha nos contextos de ocorrência”.

Essa teoria está sustentada por cinco postulados10, quais sejam:

a) dissociação entre estrutura terminológica e homogeneidade ou univocidade ou monorreferencialidade, associando-se à estrutura terminológica a noção de heterogeneidade ordenada;

b) abandono do isomorfismo categórico entre termo-conceito-significado; c) aceitação de que, sendo a terminologia um fato de língua, ela acomoda

elementos variáveis e organiza uma gramática;

d) aceitação de que a terminologia varia e de que essa variação pode indicar uma mudança em curso;

e) análise da terminologia em co-textos lingüísticos e em contextos discursivos da língua escrita e da língua oral.

Orientada por esses postulados, Faulstich formulou o constructo teórico da variação, do qual se valerá para demonstrar as variações concorrente, coocorrente e competitiva, na análise dos dados mais adiante.

10

Os postulados da teoria da variação em terminologia foram apresentados, primeiramente, no XIII Encontro da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Letras e Lingüística (ANPOLL), realizada na Universidade de Campinas (Unicamp), em junho de 1998.

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Lamberti (1999:53) chama atenção para um princípio acerca da função da variação, assim estabelecida:

A VARIAÇÃO ocorre pela ação do movimento gradual do termo no tempo e no espaço e é provocada pela função de uma dada VARIÀVEL. (função e variável são conceitos compreendidos dentro de um espectro funcional. (t) representa um conjunto de termos passíveis de serem atualizados com diferentes valores para uma dada situação. (f) representa uma função responsável pela determinação de um valor específico. A regra geral fica assim estabelecida: (f) é representada por (t), em que (t) é uma variável; (t) poderá funcionar com qualquer valor, dependendo do desempenho de (f)+(t). A posição da variável (t) permite que seja atualizada qualquer uma das variantes.)

Faulstich (2002:73), por sua vez, observa que a VARIÀVEL, será realizada sob a forma de uma VARIANTE e organiza a tipologia de as VARIANTES que podem pertencer a três pólos: variantes concorrentes, variantes coocorrentes e variantes competitivas, definidas a seguir.

VARIANTES CONCORRENTES são aquelas que podem concorrer entre si, ou podem concorrer para a mudança. Nessa condição, uma variante que concorre com outra ao mesmo tempo não ocupa o mesmo espaço, por causa da própria natureza da concorrência. Se uma variante está presente no plano discursivo, a outra não aparece. Assim, as VARIANTES CONCORRENTES, enquanto tais, se organizam em distribuição complementária. Por outro lado, se uma variante X corrobora com o surgimento de uma concorrente Y, isto significa que o processo da mudança está em curso e a expressão Y tende a estabilizar-se por ser mais

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fortuita do que X no contexto social. As CONCORRENTES são variantes formais. A VARIANTE FORMAL é uma forma lingüística ou forma exclusiva de registro que corresponde a uma das alternativas de denominação para um mesmo referente, podendo concorrer num contexto determinado. Classificam-se em VARIANTES TERMINOLÓGICAS LINGÜÌSTICAS e VARIANTES TERMINOLÓGICAS DE REGISTRO.

VARIANTES COOCORRENTES são aquelas que têm duas ou mais denominações para um mesmo referente. Estas variantes têm por função fazer progredir o discurso e organizam, na mensagem, a coesão lexical. Entre VARIANTES COOCORRENTES há compatibilidade semântica uma vez que elas se equivalem no plano do conteúdo. São entidades cujos valores relativizam a informação semântica do texto e respondem pelas referências sociodiscursivas da informação. Assim, quanto mais a linguagem é científica, mais ela é universal. Se o texto estiver redigido em linguagem de divulgação científica mais variação apresentará, já que este tipo de discurso visa uma situação de comunicação em que o usuário é dotado de menor memória científica e técnica. As VARIANTES COOCORRENTES formalizam a sinonímia terminológica. A sinonímia terminológica relaciona o sentido de dois ou mais termos com significados idênticos e podem coocorrer num mesmo contexto, sem que haja alteração no plano do conteúdo.

As VARIANTES COMPETITIVAS são aquelas que relacionam significados entre itens lexicais de línguas diferentes, quer dizer, itens lexicais de uma língua B preenchem lacunas de uma língua A. As VARIANTES COMPETITIVAS sofrem,

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em seu desempenho, interseções, devido à própria natureza estrangeira da expressão. Esse fenômeno se dá quando a estrutura da língua do termo estrangeiro é perturbada por estruturas da língua vernacular; a mistura de formantes ativa a variação. As VARIANTES COMPETITIVAS realizam-se por meio de pares formados por empréstimos lingüísticos e formas vernaculares. Os empréstimos lingüísticos são itens lexicais que se originam de língua estrangeira e, depois, no contexto social da língua recebedora, se tornam variantes porque provocam o surgimento de uma forma vernacular, por causa do ambiente lingüístico estranho à sua permanência natural.

Donde a variação, que ocorre pela ação do movimento gradual do termo no tempo e no espaço, é provocada pela função de uma dada variável; a variável, por sua vez, se realiza sob forma de uma variante e as variantes se comportam como variáveis dependentes, dentro de um processo de variação, a caminho de concretizar-se como mudança (1998-1999). O modelo de Faulstich está assim representado:

VARIAÇÃO VARIÁVEL VARIANTE

CONCORRENTE COOCORRENTE COMPETITIVA

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3.3 Propriedades e concepções de termo

A unidade terminológica é, simultaneamente, tanto elemento constitutivo da produção do saber, quanto componente lingüístico, cujas propriedades favorecem a comunicação especializada. Para avançar no exame do fenômeno terminológico, é necessário, ao lado do reconhecimento da funcionalidade dos termos no campo da expressão e da comunicação humanas, observar uma série de aspectos relacionados à sua conceituação, identificação e constituição.

Todo panorama geral relativo aos principais aspectos que envolvem o estatuto e a estrutura das unidades terminológicas, como afirmam Krieger e Finatto (2004:76), implica estabelecer relações com teorias terminológicas dada à existência de diferentes concepções. Wüster (apud Krieger e Finatto, 2004), assim define a expressão termo:

Uma unidade terminológica consiste em uma palavra à qual se atribui um conceito como seu significado (...), ao passo que, para a maioria dos lingüistas atuais, a palavra é uma unidade inseparável composta de forma e conteúdo. (p. 76)

Wüster destaca o papel do conceito como componente responsável pela atribuição do estatuto terminológico a uma unidade lexical da língua. Dessa forma, estabelece a propriedade básica que distingue termos de palavras, salientando que a compreensão de uma unidade da língua, na condição de termo, está fundamentada no papel da dimensão conceitual do signo lingüístico que responde, neste caso, pelo denominado conteúdo especializado.

(49)

O nome é o objeto mesmo da Terminologia: com efeito um nome definível no interior de um sistema corrente, enumerativo e/ou estruturado, é um termo; o conteúdo de sua definição correspondendo a uma noção (conceito), analisável em compreensão. (p.22)

Rey explicita as condições para que uma unidade lexical alcance o estatuto de termo, lembrando ainda que um nome é um termo, quando se distingue conceitualmente de outra unidade lexical de uma mesma terminologia. Exemplo dessa distinção pode ser tomado à terminologia têxtil, objeto de nossa investigação, em que os termos lycra e elastano, embora freqüentemente confundidos, não se equivalem conceitualmente, porquanto o primeiro designa marca registrada da DuPont para seu fio elastano; enquanto o segundo foi cunhado para identificar o fio com propriedades elásticas que em conformidade com a regulamentação INMETRO deve conter no mínimo 85% de massa de poliuretano segmentado, isto equivale dizer que, toda lycra é fio elastano, porém nem todo fio elastano é lycra.

Nessa perspectiva, o plano do conteúdo dos termos é compreendido como da ordem dos conceitos, enquanto o das palavras comuns da língua é da ordem dos significados. Explica-se assim também o fundamento onomasiológico que articula a essência dos termos que preside a gênese das terminologias, bem como as razões pelas quais os termos cumprem as funções de fixar e divulgar o conhecimento especializado.

O estatuto terminológico de uma unidade lexical define-se por sua dimensão conceitual, ou seja, o que faz de um signo lingüístico um termo é o seu conteúdo específico. Como afirma Lérat (apud Krieger e Finatto, 2004):

(50)

As denominações técnicas estão na língua porque são suscetíveis de serem traduzidas em língua estrangeira, mas são denominações de conhecimentos especializados, e é isso que as torna pertinentes terminologicamente. (p.78)

A dimensão conceitual do universo terminológico responde fortemente pelas interpretações de que um termo é, antes de uma unidade lingüística, uma unidade de conhecimento, cujo valor define-se pelo lugar que ocupa na estrutura conceitual de especialidade. Compartilha dessa mesma concepção Sager (1993) quando este apresenta o termo como elemento lingüístico individual tal como aparece nos discursos metalingüísticos dos dicionários, mas sem se esquecer de que a origem dos termos está no texto, uma vez que no texto está a linguagem natural.

3.3.1 Unidades terminológicas simples e unidades terminologias complexas – UTS e UTC

De acordo com o postulado de Bloomfield (apud Elia),11 as unidades significativas mínimas ou se apresentam como formas livres ou como formas presas. As formas livres ocorrem isoladamente; as formas presas, ao revés, pressupõem sempre uma forma livre à qual se ligam. Assim, a palavra pode ser definida como unidade significativa livre, ou melhor, mínima. A palavra pode ter significação lexemática ou morfemática, isto é, ou referencial ou gramatical. Neste último caso a palavra é tida como uma das possíveis formas de morfemas, ou

11

Ver Elia, S. E. As unidades Lexemáticas. Disponível no site: http://www.filologia.org.br/anais/anais 003 html acessado dia 15/07/04.

Referências

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