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A C Ó R D Ã O (SDC)
IGM/nc/agl
RECURSO ORDINÁRIO EM DISSÍDIO COLETIVO DE GREVE – CELEBRAÇÃO DE ACORDO EXTRAJUDICIAL – PROCESSO EXTINTO SEM RESOLUÇÃO DE MÉRITO – INTERESSE REMANESCENTE NA HOMOLOGAÇÃO DO AJUSTE – INAPLICABILIDADE DA OJ 34 DESTA SEÇÃO – PRECEDENTES - PROVIMENTO.
1. A jurisprudência desta SDC, ao tempo em que considera “desnecessária a
homologação, por Tribunal Trabalhista,
do acordo extrajudicialmente
celebrado, sendo suficiente, para que surta efeitos, sua formalização perante o Ministério do Trabalho”, nos termos do
que dispõe sua OJ 34, ressalva que, se postulado pelas Partes, compete ao Tribunal homologar o acordo celebrado
no curso do dissídio coletivo,
excluídas, todavia, as cláusulas que atentem contra o ordenamento jurídico trabalhista.
2. In casu, o 23º TRT julgou extinto, sem resolução do mérito, o vertente
dissídio coletivo, por duplo
fundamento: a inocorrência do movimento paredista e a desnecessidade de homologação do acordo extrajudicial que pôs fim à controvérsia em torno do pagamento da PLR de 2019, motivadora da greve.
3. Entretanto, a despeito dos
fundamentos que embasaram a decisão regional, arrimada na OJ 34 desta SDC, competia ao TRT homologar o referido acordo, porquanto houve pedido expresso do Sindicato obreiro neste sentido, hipótese que se subsume à referida ressalva jurisprudencial.
4. Assim, o apelo do Sindicato obreiro merece provimento, para determinar o retorno dos autos ao Regional, a fim de que proceda à homologação do ajuste firmado, resguardada a faculdade de não
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homologar as cláusulas que afrontem o ordenamento jurídico.
Recurso ordinário provido.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Recurso Ordinário Trabalhista n° TST-ROT-237-09.2019.5.23.0000, em que é Recorrente SINDICATO DOS TRABALHADORES NAS INDÚSTRIAS URBANAS DO ESTADO DE MT - STIU-MT e Recorrido ENERGISA MATO GROSSO - DISTRIBUIDORA DE ENERGIA S.A.
R E L A T Ó R I O
Trata-se de Dissídio Coletivo de Greve, com pedido de tutela de urgência, ajuizado pela Energisa Mato Grosso - Distribuidora de Energia S.A., em face do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Urbanas do Estado de Mato Grosso – STIU-MT, tendo como objeto, em síntese, a declaração da abusividade da greve designada para o dia 28/08/19, a determinação de imediato retorno ao trabalho dos empregados que porventura aderissem à paralisação, o desconto salarial por ausência decorrente da greve, a anulação das assembleias promovidas pelo Sindicato que não deram voz aos não-associados quanto à questão da PLR, a prolação de sentença normativa acerca da PLR de 2019, bem como a condenação do Sindicato ao pagamento de honorários advocatícios (págs. 7-40).
Apreciando a tutela de urgência vindicada, o TRT da 23ª Região deferiu parcialmente a medida, determinando “a suspensão da greve prevista para realizar-se no âmbito da suscitante a partir de 28/8/2019, sob pena de multa diária no valor de R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais) em favor do Fundo de Amparo ao Trabalhador - FAT e corte de ponto quanto aos dias não trabalhados em virtude de adesão ao movimento” (pág. 158).
Apresentadas e discutidas em audiência as bases da conciliação (págs. 325-328), as Partes informaram, posteriormente, a celebração de acordo que pôs fim à controvérsia acerca da PLR de 2019, objeto do presente Dissídio (págs. 330-332 e 347), e juntaram o respectivo “Termo Aditivo ao Acordo Coletivo de Trabalho 2019/2019” (págs. 355-367 e 368-378).
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Apreciando o Dissídio, o Regional extinguiu o processo sem resolução do mérito, por perda superveniente do objeto, tendo em vista que a greve anunciada para 28/08/19 não ocorreu e as Partes formalizaram o acordo que fixou as regras para pagamento da PLR, resolvendo, por fim, o conflito de interesses objeto desta ação (págs. 392-396).
Contra tal decisão, o STIU-MT recorre ordinariamente ao TST, sustentando a manutenção de seu interesse de agir, “para que haja
a homologação do Termo Aditivo ao Acordo Coletivo de Trabalho 2019/2019 juntado no ID 1a8&db0Od e extinção do presente Dissídio Coletivo com resolução do mérito” (pág. 424).
Admitido o recurso ordinário (pág. 427), a Empresa Suscitante apresentou contrarrazões ao apelo (págs. 433-437), sendo dispensada a remessa dos autos ao Ministério Público, por não se tratar de dissídio coletivo originário (RITST, art. 95, IV).
É o relatório. V O T O
I) CONHECIMENTO
O recurso ordinário é tempestivo, tem representação regular (pág. 203), dispensado o recolhimento das custas, razão pela qual dele CONHEÇO.
II) MÉRITO
O 23º TRT julgou extinto, sem resolução do mérito, o vertente Dissídio Coletivo de Greve, por perda de objeto, pelos seguintes fundamentos:
“O art. 17 do CPC estabelece o interesse de agir como uma das condições exigíveis para a propositura da ação. Todavia, o art. 493 do CPC ressalta que ‘Se, depois da propositura da ação, algum fato constitutivo,
modificativo ou extintivo do direito influir no julgamento do mérito, caberá ao juiz tomá-lo em consideração, de ofício ou a requerimento da parte, no momento de proferir a decisão.’
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Nesse sentido, inclusive, é a Súmula n. 394 do colendo TST.
Conforme acima relatado, o objeto principal da presente demanda fora a greve designada para 28/08/2019 e os termos do PLR de 2019.
Analisando os elementos dos autos, observo que o movimento paredista não ocorreu, de modo que os pedidos a ele relacionados perderam objeto. De outro norte, constata-se também que as partes formalizaram Acordo Coletivo de Trabalho, fixando as regras para pagamento do PLR de 2019, deixando de existir, igualmente, interesse processual na prolação de decisão pelo Estado-Juiz, haja vista que desnecessária a homologação, conforme entendimento do C. TST, contido na OJ-SDC 34 da SDI-II daquela Corte.
Tais fatos, ocorridos posteriormente ao ajuizamento do presente dissídio, leva ao reconhecimento da perda do seu objeto, tornando a Suscitante carecedora de ação diante da ausência superveniente de interesse processual.
Logo, caracterizada a ausência superveniente de interesse processual da Suscitante, declaro a extinção do feito sem resolução do mérito, nos termos do art. 485, VI e § 3º do CPC.
Indevidos honorários advocatícios porque não se há falar em sucumbência das partes.
Custas processuais pela Autora, no importe de R$ 20,00, calculadas sobre o valor atribuído à causa.
Conclusão do recurso
Pelo exposto, admito a presente ação e julgo-a extinta, sem resolução do mérito, por perda superveniente de interesse, nos moldes dos arts. 493 e 485, VI e § 3º do CPC.
Custas pela Suscitante, no importe de R$ 20,00, calculadas sobre o valor atribuído à causa.” (págs. 394-395, grifos nossos).
Irresignado, o Sindicato obreiro postula a reforma da decisão alegando, em síntese, “que o próprio C. TST considera presente
o interesse de agir na hipótese em que as partes formulem requerimento expresso de homologação do acordo firmado no decorrer do dissídio coletivo, o que foi requerido na manifestação juntada no ID 1dd619d, pelo que deve o Acordo ser homologado e o presente feito extinto com resolução do mérito, nos termos do art. 487, III, "b", do CPC” (pág. 424, grifos nossos).
Com razão.
A jurisprudência desta SDC, ao tempo em que considera “desnecessária a homologação, por Tribunal Trabalhista, do acordo
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extrajudicialmente celebrado, sendo suficiente, para que surta efeitos, sua formalização perante o Ministério do Trabalho”, nos termos do que
dispõe sua OJ 34, ressalva que, se postulado pelas Partes, compete ao Tribunal homologar o acordo celebrado no curso do Dissídio Coletivo, excluídas, todavia, as cláusulas que atentem contra o ordenamento jurídico trabalhista. Neste sentido seguem os precedentes:
"DISSÍDIO COLETIVO DE NATUREZA ECONÔMICA. ACORDO ENTABULADO PELAS PARTES NO CURSO DO PROCESSO. CHANCELA JUDICIAL. CABIMENTO. O acordo extrajudicial firmado entre as partes prescinde da homologação por Tribunal Trabalhista, sendo bastante, para surtir efeito, a formalização perante o Ministério do Trabalho e Emprego, nos termos da Orientação Jurisprudencial nº 34 da SDC/TST. Entretanto, se postulado pelas partes, não há impedimento para que a Justiça do Trabalho aprecie os termos do instrumento normativo coletivo ajustado no curso do dissídio coletivo, homologando-o, no que couber, porquanto resguardada a faculdade de a Corte Trabalhista não chancelar as regras constantes do acordo, que eventualmente contrariem as normas imperativas estatais trabalhistas. No caso, infere-se que o acordo firmado pelas partes encontra amparo na legislação vigente no país e, por isso, é passível de receber a chancela judicial. Dessa forma, homologa-se o acordo apresentado pelas partes, que cuida apenas do índice de correção salarial e do pagamento do valor retroativo correspondente, e, por consequência, decreta-se a extinção do feito, com resolução do mérito, nos termos do art. 487, III, "b", do CPC/2015. Custas recolhidas em partes iguais pelos litigantes (art. 789, I, IV, § 3º, da CLT)" (DC-1000120-74.2018.5.00.0000, Rel. Min. Katia Magalhaes Arruda, DEJT de 20/09/18).
“RECURSO ORDINÁRIO EM DISSÍDIO COLETIVO DE GREVE. CONDUTORES DE VEÍCULOS RODOVIÁRIOS DE ITU E
REGIÃO. ACORDOS COLETIVOS DE TRABALHO.
HOMOLOGAÇÃO PARCIAL. RECURSO ORDINÁRIO
INTERPOSTO PELAS EMPRESAS SUSCITANTES. [...] 2)
JULGAMENTO ULTRA PETITA. NÃO OCORRÊNCIA.
ORIENTAÇÃO JURISPRUDENCIAL Nº 34 DA SDC DO TST. Nos termos da OJ nº 34 da SDC do TST, o mero registro do acordo extrajudicial perante o Ministério do Trabalho já é apto a produzir efeitos, de modo que as partes, se assim não desejarem, não precisam submeter o acordo à homologação da Justiça do Trabalho. Ocorre que, no momento em que postulam expressamente, ao Tribunal, a homologação do instrumento pactuado, compete àquele Órgão fazê-lo, resguardada a faculdade de não homologar cláusulas que estejam em desacordo com a lei. Portanto, a exclusão de cláusulas ou as adaptações porventura promovidas se inserem no
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exercício do poder normativo, não caracterizando julgamento ultra petita.
Nega-se provimento ao recurso, no aspecto. [...]"
(RO-938-36.2012.5.15.0000, Rel. Min. Dora Maria da Costa, DEJT de 17/04/15).
"RECURSO ORDINÁRIO EM DISSÍDIO COLETIVO. ACORDO CELEBRADO NO CURSO DA INSTRUÇÃO PROCESSUAL. HOMOLOGAÇÃO. CABIMENTO. 1. Consoante se depreende dos arts. 764, § 3º, e 863 da CLT, bem como da Orientação Jurisprudencial nº 34 da SDC, o acordo celebrado no curso da instrução do processo de dissídio coletivo não necessita de homologação para que gere os devidos efeitos legais; entretanto, se postulado pelas partes, compete ao Tribunal homologar o acordo celebrado no curso do dissídio coletivo, ressalvadas, todavia, as cláusulas que violam normas mínimas de proteção ao trabalho. 2. Nesse contexto, incorreu em equívoco o Tribunal Regional de origem quando negou homologação ao acordo firmado entre as partes, uma vez que a solução conciliatória é objetivo a ser perseguido pelos juízes e Tribunais do Trabalho, quer nos dissídios individuais, quer nos coletivos, conforme determina o § 1º do art. 764 da CLT . 3. Em consequência do afastamento do óbice contido na decisão do Tribunal Regional, prossegue-se no exame da postulação de homologação das cláusulas acordadas, na forma preconizada no art. 515, § 3º, do Código de Processo Civil." (RO-2025900-57.2009.5.02.0000, Rel. Min. Walmir Oliveira da Costa, DEJT de 21/09/12).
In casu, após a audiência de conciliação em que
apresentadas e discutidas as bases da conciliação (págs. 325-328), o Sindicato obreiro peticionou nos autos informando a aprovação, pela Assembleia de trabalhadores, da proposta de acordo acerca da PLR de 2019, objeto do presente Dissídio, ocasião em que requereu expressamente “a homologação do acordo entre as partes” (pág. 332).
Portanto, a despeito dos fundamentos que embasaram a decisão regional, arrimada na OJ 34 desta SDC, remanesce íntegro o interesse de agir do Recorrente na submissão do ajuste ao crivo da legalidade pelo Regional, porquanto somente pela via judicial (necessidade) poderá alcançar tal provimento e os consectários advindos da chancela judicial (utilidade).
Nesse sentido, competia ao Regional homologar o acordo extrajudicial para que produzisse efeitos - resguardada a faculdade de não homologar cláusulas que eventualmente estivessem em desacordo com
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o ordenamento jurídico -, e não extinguir o processo sem resolução de mérito, sob o viés da falta do interesse de agir do Sindicato obreiro. Ante o exposto, DOU PROVIMENTO ao recurso ordinário para determinar o retorno dos autos ao Regional, a fim de que proceda à homologação do “Termo Aditivo ao Acordo Coletivo de Trabalho 2019/2019” celebrado entre as Partes.
ISTO POSTO
ACORDAM os Ministros da Seção Especializada em Dissídios Coletivos do Tribunal Superior do Trabalho, por unanimidade, dar provimento ao recurso ordinário, para determinar o retorno dos autos ao Regional, a fim de que proceda à homologação do “Termo Aditivo ao Acordo Coletivo de Trabalho 2019/2019”, resguardada a faculdade de não homologar as cláusulas que afrontem o ordenamento jurídico.
Brasília, 21 de setembro de 2020.
Firmado por assinatura digital (MP 2.200-2/2001)
IVES GANDRA DA SILVA MARTINS FILHO
Ministro Relator