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Tradução e Transformação em The Devil to pay in the backlands 1

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Academic year: 2021

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Elida Ferreira

Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC)

Resumo

Partindo das concepções de que a tradução opera na passagem de uma língua a outra uma transformação e de que o original não é idêntico a si mesmo, nem mesmo na língua de origem, proponho discutir nesse ensaio a tarefa paradoxal do tradutor em sua busca pelo sentido dito original. A tradução de Grande Sertão Veredas pra o inglês, The Devil to Pay in the Backlands (1963) evidencia a referida necessidade de transformação da língua e do texto traduzido, ao mesmo tempo em que deflagra a impossibilidade de o tradutor dizer o mesmo na tradução.

Palavras-chave: Tradutor – sentido - Grande Sertão Veredas.

Abstract

Taking from the beliefs that translation, in the shifting from one language to the other, operates a transformation and that the original text is not identical to itself, not even in the source language, I propose a discussion on the paradoxical task of the translator in the search for a meaning meant as original. The translation of the novel Grande Sertão Veredas into English, The Devil to Pay in the Backlands (1963) brings into evidence the need for both language transformation and the translated text, while it reveals the impossibility of the translator to say the same in the translation.

Key-words: Translator – meaning - The Devil to Pay in the Backlands.

Introdução

Ao traduzirmos, em busca de dizermos o “mesmo” que diz o original, não escapamos de praticarmos uma idealização desse original como uma instância de sentido infensa à própria ação da leitura. Esquece o tradutor, por meio daquele gesto idealizador, que o sentido do original não se desvencilha do seu olhar, de suas escolhas, de sua leitura, de sua escrita; enfim, de sua apropriação da língua do outro, o que necessariamente faz emergir a diferença na tradução.

A idealização aqui referida tem uma afinidade muito forte com a separação entre significado e significante, que se acaba praticando em nome da transparência na linguagem e da fidelidade, na tradução. Derrida (1975) discute, a partir de Saussure, a relação entre

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significado e significante, questionando a fronteira clara e simples entre os termos. Tal separação é da ordem de uma idealização, que considera a língua na sua pureza de sistema ideal, independente de um falante.

Para a tradução, a problematização da fronteira entre significado e significante, e da sua separação pura e simples, coloca o tradutor num conflito constante, de tal forma que ele/ela estará sempre entre a necessidade e a impossibilidade de restituição do “mesmo”. Jakobson (1963), no seu clássico ensaio sobre a tradução, já aponta para os desafios da tradução de poesia, quando o tradutor tem de enfrentar a pregnância entre forma e conteúdo, ou, como ele mesmo diz, quando “a semelhança fonológica é sentida como um parentesco semântico” (p.72). Contrariando em certo sentido Jakobson quanto á intraduzibilidade da poesia, e recusando a separação estanque entre significado e significante, diríamos que a relação de “contaminação” entre forma e conteúdo (significado e significante) não é uma exclusividade da poesia ou da paranomásia, mas esta aponta para a impossibilidade de na língua haver pureza das oposições já consagradas nos estudos lingüísticos, a saber: corpo/alma, significado/significante, forma/conteúdo, langue/parole.

Sobre a questão da diferença entre significado e significante na tradução, Derrida (1975) afirma:

Dentro dos limites em que é possível, em que pelo menos parece possível, a tradução pratica a diferença entre significado e significante. Mas se essa diferença nunca é pura, a tradução também não o é, e temos de substituir a noção de tradução por uma noção de transformação: transformação regulada de uma língua por outra, de um texto por outro. De fato nunca temos nem teremos contato com qualquer “transporte” de significados puros que o instrumento – ou o “veículo” – significante tivesse deixado virgem e intocado, de uma língua para outra, ou no interior de uma mesma e única língua. (p.30)

Um aspecto importante a ressaltar, a partir da crítica derridiana, é o fato de que não existe uma independência absoluta entre significado e significante. O que vale dizer que não há um significado que seja independente do significante, independente, portanto, da língua. A essa idealização do significado, independente da língua, Derrida chama de significado transcendental, o qual só poderia existir no horizonte de uma traduzibilidade, absoluta, plena e unívoca. Mas como existe língua, tal qual estamos definindo, existe tradução, diferença e transformação.

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É preciso muita cautela quando aqui falamos de transformação. Não se trata de uma transformação qualquer; é uma “tradução regulada de uma língua por outra de um texto por outro”. Portanto, é preciso que consideremos a força impositiva da língua e a necessidade de toda tradução de dizer o mesmo.

A tradução tem, portanto, uma relação com, e Derrida nos alerta para isso, a impossibilidade de restituição na passagem de uma língua para outra de um significado puro, e independente de um sujeito portanto, bem como com a impossibilidade de um significado intocado, puro, resguardado pela intencionalidade de um autor, mesmo no interior de uma mesma língua (cf. DERRIDA 1975, RAJAGOPALAN 1992, ARROJO 1992, OTTONI 2005).

A título de curiosidade apresento, muito brevemente, uma consideração de Guimarães Rosa (2003), em uma correspondência de 1963 dirigida ao tradutor italiano, Edouardo Bizzari, sobre a autoria do texto “original” e sobre o papel da tradução diante desse chamado “original”:

Nada de sentimentos de culpa. Você jamais me decepcionará. Porém, para melhor tranqüilizá-lo, digo a verdade a você. Eu, quando escrevo um livro, vou fazendo como se estivesse “traduzindo”, de algum alto

original, existente alhures, no mundo astral ou no “plano das idéias”, dos

arquétipos por exemplo, Nunca sei se estou acertando ou falhando nessa “tradução”. Assim, quando me “re”-traduzem, para outro idioma, nunca sei, também, em casos de divergência, se não foi o tradutor quem, de fato, acertou, restabelecendo a verdade do “original ideal”, que eu desvirtuara ... No seu caso, então, de uma tradução, Bizzari, tudo já está previamente, antecipadamente bem. (p.99)

Aquilo que chamamos de original, e que na literatura diz respeito à autoria e ao chamado “querer-dizer” ou “significado do texto”, é apresentado por Guimarães como algo fugidio, de tal forma que nem mesmo o autor tem a garantia da identificação entre a idéia pensada e a idéia materializada na escrita.

Não me dedicarei nesse momento a ampliar a discussão sobre escrita; mas, é preciso ressaltar que o texto, quando atravessado pela leitura, pela escrita, pela tradução, apenas para citarmos esses casos, não traz em si um significado puro e intacto; o que nos remete, na tradução, à questão da necessidade de transformação.

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Porém antes de nos dedicarmos à transformação na tradução de uma língua a outra, apresento, ainda a propósito da feição fugidia da língua e da constituição do significado, algumas passagens de Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa:

Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui quase barranqueiro. Para a velhice vou, com ordem e trabalho. Sei de mim? Cumpro. O Rio do São Francisco – que de tão grande se comparece – parece é um pau grosso, em pé, enorme … Amável o senhor me ouviu, minha idéia confirmou: que o diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. O diabo não há! É o que eu digo, se for … Existe é homem humano. Travessia. (p. 460)

Viver é muito perigoso … Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o consertar consertado. Mas cada um só entende e vê as coisas dum seu modo. (p. 16)

Os trechos evidenciam a heterogeneidade do sistema da língua, e, num certo sentido, a necessidade de tradução no interior de uma única e mesma língua. “Sei de mim? Cumpro”.

O próprio conceito de língua é o que está em questão aqui. Não se trata de um objeto puro e homogêneo, tal como o herdamos da lingüística estrutural. E, nesse ponto, poder-se-ia perguntar: qual seria a relação da a tradução com língua, então tomada como objeto heterogêneo.

Derrida trata a questão da seguinte forma:

(...) já se opera, no interior do que supomos ser uma só e mesma língua, um deslocamento, uma transferência que pertence à ordem da tradução. Daí a dificuldade, a impossibilidade mesmo de traduzir economicamente uma língua na outra (...) não há intraduzibilidade absoluta, somente essa impossibilidade de equivalência quantitativa, aritmética, econômica. (1998 – Tradução de Paulo Ottoni)

Uma língua, isso que supomos ser uma só e única, não se encontra em estado puro e intocado para ser tomada. Como afirma Derrida, opera-se, já em seu interior, algo da ordem de uma tradução. Pode-se dizer, a partir disso, que há um processo contínuo de apropriação lingüística, o que nos leva a romper com a idéia de unicidade e de homogeneidade da língua.

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Transformação em The devil to pay in the backlands

Dessa perspectiva podemos, então, retomar a pergunta do ponto em em interrompemos anteriormente: o que acontece quando traduzimos de uma língua a outra e, particularmente, quando se traduz a complexidade da língua roseana atravessada pela língua falada por Riobaldo em The devil to pay in the backlands2 (já há aqui uma questão

de tradução)? Podemos dizer que há no empreendimento tradutório o “problema” da língua, mas, e essa é uma hipótese, não é o problema da língua de Riobaldo em sua especificidade, pois a língua, nunca é pura e não dá lugar a uma transparência em si. Em outras palavras, o problema da tradução é o problema da língua, uma vez que onde há língua há tradução e transformação, pois há um sujeito em ação.

Ademais, para Derrida, a transformação é constitutiva da tradução. Ele afirma:

Nunca os textos traduzidos dizem o mesmo que o original. Sempre ocorre algo novo. Inclusive, e sobretudo, nas boas traduções. Há transformações que correspondem, de um lado, à transmissão em um contexto cultural, político e ideológico diferente, a uma tradição diferente e que fazem com que “o mesmo texto” – não existe um mesmo texto, inclusive o original não é idêntico a si mesmo -, numa mesma cultura tenha efeitos diferentes. Por outro lado, a melhor tradução deve transformar a língua de chegada, isto é, ser ela mesma escritura inventiva, e assim transformar o texto (...) Creio, sim, que o texto traduzido comporta outra coisa que está em relação consigo mesma. Este é o paradoxo da tradução (...) (p. 62-3)

É a partir dessa perspectiva que analisarei alguns trechos da tradução para o inglês de Grande Sertão: Veredas.

Passemos, então, a considerar alguns fragmentos dessa obra tão instigante quanto enigmática e de sua tradução The devil to pay in the backlands, que muito nos revela sobre a tarefa hercúlea do tradutor:

1.

Grande Sertão: Veredas (“O diabo na rua, no meio do redemoinho ...”)

The devil to pay in the backlands (The devil in the street, in the middle of the whirlwind)

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A expressão the devil to pay pode, em inglês, significar “there was a lot of problems”, houve muita confusão, problemas. A expressão parece uma forma de resumir todo o contexto da narrativa de Riobaldo em Grande Sertão: Veredas, inclusive fazendo referência ao próprio “diabo na rua, no meio do redemoinho ...” Como avaliar a tradução de Grande Sertão: Veredas por The devil to pay in the backlands? Para dizermos da adequação da tradução precisamos, antes de mais nada, saber: o que é em português Grande Sertão: Veredas. Que sentidos podem estar associados ao sintagma? Há uma resposta única para essa pergunta? Estamos aí diante daquilo que resiste à tradução e que é mesmo o que nos possibilita discutir como pode ser operada a transformação na tradução. Não se trata aqui de decidirmos a respeito da adequação da tradução, mas de pôr em relevo o que interfere nas escolhas tradutórias operadas pela intervenção do tradutor. Na busca de entendimento desse processo, analisemos algumas passagens:

Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia faço isso gosto; desde mal em minha mocidade (...)

It is nothing. Those shots you heard were not men fighting, God be praised. It was just me there in the back yard, target-shooting down by the creek, to keep in practice. I do it every day, because I enjoy it; have ever since I was a boy (…)

Não se pode deixar de evidenciar que NONADA, por exemplo, é uma palavra que não existe em português, mas na oralidade pode ser a pronúncia rápida de Não é nada. Como traduzir esta particularidade, esse idioleto, para uma língua estrangeira?

Para o leitor, após uma operação de tradução no interior da própria língua, constituir-se-á algum sentido para Nonada, o qual poderá não ser único. Além disso, não se pode deixar de considerar que a forma exerce uma força textual importante: e ao tradutor caberá como dar conta desse significante, que sabemos ser estranho ao próprio português. A partir dessa pregnância entre significado e significante (entre forma e conteúdo), podemos dizer que It is nothing traduz e não traduz Nonada. Opera-se, efetivamente, uma transformação na passagem do português para o inglês. Será que essa transformação responde a uma necessidade de que a palavra respeite a sintaxe do inglês ou à sua morfologia? Certamente, que a língua inglesa exerce sobre o tradutor uma força de imposição, para que se obedeçam as estruturas da língua, mas na linguagem e na língua há,

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muitas das vezes, margem para a transgressão, dada, precisamente, a heterogeneidade da língua.

No restante do trecho, observamos a necessidade do tradutor, respondendo a essa força de imposição talvez, de normalização da sintaxe, que se apresenta fragmentada em português. Mas, mesmo o esforço de padronização da fala de Riobaldo no inglês não se mantém como se observa na seqüência “have ever since I was a boy”. Pode-se dizer que, ao mesmo tempo em que o tradutor transforma a língua de Riobaldo, também transforma a sua própria língua para acomodar a inventividade da sintaxe roseana.

3.

O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora e dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucúia. Toleima.

You will have to excuse it, sir, but this is the sertão∗. Some say it’s not – that the real sertão is way out yonder, on the high plains, beyond Urucúia River. Nonsense.

∗Sertão: Hinterland, sparsely, settled interior of the country; in particular, the backlands of the Brazilian Northeast. In the book, the term refers mainly to the northern half of the state of Minas Gerais.

Particularmente, no trecho, a inserção da estranheza do português “sertão” no interior do inglês opera uma transformação curiosa em função da diversidade geográfico-cultural que separa as línguas em questão. Há inclusive ao final da tradução americana um glossário que remete a estas particularidades culturais. E a opção do tradutor foi pela inclusão do termo em português, remetendo ao glossário por meio da indicação com asterisco.

Para traduzir o termo tolere o tradutor usa excuse. Rigorosamente, pode-se dizer que esta não seria a tradução mais esperada, pois tolerar, nesse contexto, seria algo como to endure, to tolerate. Mas, observemos que o tradutor, ao estabelecer a conexão entre as duas primeiras frases insere um but, que não seria coerente com tolerate ou endure. A sintaxe vai interferir nas transformações operadas no fragmento, por exemplo. Na construção dos períodos, observamos que Guimarães não usa as conjunções; os elementos coesivos vão recair fortemente sobre a pontuação, dando um caráter fragmentário e mais fugidio ao dizer

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de Riobaldo. No inglês, ao interpretar aquele “querer-dizer”, o tradutor é pressionado pelas próprias regras de sintaxe do inglês a inserir os conectores que estão subtendidos e é aí justamente que se instaura a transformação, no lugar da apropriação da língua do outro. Mesmo em português é difícil redizer, traduzir na mesma língua, o que Riobaldo explicita em sua narrativa.

4. Bem, mas o senhor dirá, deve de: e no começo – para pecados e artes, as pessoas – como por que foi que tanto emendado se começou? Ei, ei, aí todos esbarram. Compadre meu Quelemém também. Sou só um sertanejo, nessas altas idéias navego mal. Sou muito pobre coitado. Inveja minha pura é de uns conforme o senhor, com toda leitura e suma doutoração.

Well and good, but you will probably say, in the beginning – the sins and the evil-doing of people – how did it all get so balled up at the start? That’s what stumps everyone. My compadre* Quelemém included. I am only a backlander, and I lose my bearings among such notions. My greatest envy is of men like yourself, sir, full of reading and learning.

*Compadre: bosom friend, crony.

Mais uma vez pode-se dizer que a fragmentação sintática do português é um elemento desencadeador de transformação na tradução. Lendo os dois fragmentos, poderíamos dizer que se apresentam como um “mesmo” texto, mas também poderíamos dizer que são diferentes. Pensando na citação feita a Derrida anteriormente, quando ele afirmava que as transformações ocorridas na tradução podem corresponder a aspectos culturais diferentes, podem corresponder a uma tradição diferente e que fazem com que “o mesmo texto” tenha efeitos diferentes, pode-se afirmar que estamos diante justamente dessa situação, na qual seja: a língua de Riobaldo e a reflexão por ele empreendida em Grande Sertão se ligam a uma tradição lingüística e cultural diferente do texto na cultura de chegada. Essa tradição lingüística poderia ser tomada como a inventividade literária de Guimarães, quando traz para a literatura a tradição oral do contador de caso, na figura de Riobaldo.

Ademais, como afirmou Derrida, não existe “o original” na língua de partida, o que vale dizer que mesmo esse efeito na cultura de partida não é homogêneo e percebido por todos da mesma forma. Assim, já existem diferenciação e transformação no interior da própria língua portuguesa. Notemos, a esse propósito, a separação entre Riobaldo e seu

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interlocutor, que tem toda leitura e suma doutoração, enquanto Riobaldo é um sertanejo. Essa situação pode dar uma boa medida da diversidade lingüístico-cultural dentro de uma mesma língua e cultura.

No trecho selecionado, a fragmentação das sentenças não se deve apenas a um problema sintático, mas também a um aspecto pragmático ligado ao discurso, quando Riobaldo perde a seqüência de um raciocínio e o tenta recuperar, perguntando: mas como por que tanto emendado se começou? O que põe o texto no limite do intraduzível.

Partindo do tipo de dificuldade, anunciada anteriormente, de ordem lingüístico-cultural e pragmática, como traduzir, no trecho que segue, os sintagmas “crê que o caroá levanta a flor” e “Eh, bom meu pasto”, lembrando que tal tradução depende de uma leitura e que não existe um sentido já dado no original?

5. Somenos, não ache que religião afraca. Senhor ache o contrário. Visível que, aqueles outros tempos, eu pintava – crê que o caroá levanta a flor. Eh, bom meu pasto ... Mocidade.

Only, don’t think that religion makes a man weak. On the contrary. To be sure, in those days, I used to raise hell. I sowed my wild oats. Youth!

“Crê que o caroá levanta flor” foi suprimido. E a expressão idiomática I sowed my wild oats responde adequadamente à idéia expressa em “Eh, bom meu pasto ... Mocidade”. Já os termos somenos e afraca são apresentados de maneira bastante diferenciada em função talvez de uma limitação do inglês, ou pelo menos, do inglês considerado padrão (a língua no seu estado ideal e homogêneo).

Já, no trecho que segue, o tradutor fará uma inclusão do português no inglês para explicar a expressão “O Que-Diga”, outra designação para diabo. Observemos:

6.

Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores. Em falso receio, desfalam no nome dele – dizem só o Que-Diga. Vôte! Não ... Quem muito se evita se convive. (p.10)

About the devil? I have nothing to say. Ask the others around here. Like fools, they’re afraid even to mention his name; instead they say the Que-Diga, the What-You-May-Call-Him. Bah! Not Me. Over-avoiding a thing is a way of living with it.

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A prosa Roseana impõe ao leitor uma língua portuguesa a ser traduzida no português. Há traços de um falar rural, com um léxico e construções sintáticas peculiares. E o leitor (letrado e urbano) muitas vezes vai se deparar com uma estranheza no interior do próprio português. A tradução para o inglês, como vimos, busca acolher esta língua, mas há os limites lingüísticos, pragmáticos, culturais. O tradutor ainda tem de lidar com a imagem que faz desse texto, seu papel e função na literatura na língua de partida e seu efeito na língua de chegada.

O que quero explicitar é que as soluções apresentadas pelo tradutor estão associadas ao processo de apropriação da língua do outro e com a responsabilidade de transformar, reinventando o chamado original.

Considerar o processo de transformação que se opera na tradução, tal como estamos propondo aqui, implica rediscutirmos a noção de original – entendida tantas vezes como o que garante o “querer-dizer” autoral. O “querer-dizer”, observamos isso na fala de Guimarães Rosa anteriormente, não é assegurado nem por aquele que é o autor e que assina a obra. E isso é da maior relevância para discutirmos o processo de intervenção do tradutor na tradução, as transformações por ele operadas, que deixam seus traços e marcas no texto traduzido.

Conclusão: em busca dos traços, das marcas, dos vestígios.

É preciso evidenciar que a reflexão sobre a intervenção do tradutor abre a perspectiva para aprofundarmos a discussão sobre a própria significação que se manifesta, seja na leitura, na escrita ou na tradução, quando rastreamos a língua do outro em busca do sentido. Há de certa forma a procura por uma origem. No pensamento aristotélico a arkhê faz referência, precisamente, ao que está no começo, à origem. Na tradução, como afirmei, estamos em busca dessa origem, do original em sua plenitude; o que nos permite fazer referência a algo como uma arqueologia, mas, adianto desde já, que seria uma arqueologia sem arkhê para sermos coerentes com tudo o que aqui se discutiu sobre tradução e transformação.

Esse sintagma - arqueologia sem arkhê – remete à tarefa paradoxal do tradutor, qual seja: à necessidade de tocar o intocado, o sentido mais primitivo, mesmo que este não exista enquanto tal. Essa busca de decifrar o assim chamado “original” evidencia que ele

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não existe em sua essência. E, para além da materialidade do texto e da língua, de seu corpo, restam as marcas, os traços, os vestígios a serem perseguidos na construção dos sentidos e da língua do outro.

Referências

ARROJO, R. (org.) O signo desconstruído – implicações para a tradução, a leitura e o ensino. Pontes: Campinas. 1992.

BERMAN, A. Arqueologia da Tradução. In A Prova do Estrangeiro. Bauru: Editora da Universidade do Sagrado Coração. Tradução de 2003

DERRIDA, J. Posições. Plátano Editora: Lisboa. Tradução de Maria Margarida Correia Calvente Barahona. 1975.

FERREIRA, E. Jacques Derrida e o récit da tradução: O Sobreviver/Diário de Borda e seus transbordamentos (tese). Campinas: Universidade Estadual de Campinas/IEL. 2003. JAKOBSON, R. Aspectos Lingüísticos da Tradução. In Lingüística e Comunicação.

Tradução de Izidoro Blikstein e José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix. 1963.

OTTONI, P. Tradução Manifesta - Double Bind & acontecimento. Edusp/Edunicamp: Campinas/São Paulo. 2005.

RAJAGOPALAN, K. A trama do signo: Derrida e a desconstrução de um projeto saussuriano. In O Signo Desconstruído. ARROJO, R. (org.) . Pontes: Campinas. 1992.

ROSA, G. Grande Sertão: Veredas. Livraria José Olympio Editora: Rio de Janeiro, 15a. ed. 1982.

____________________________. João Guimarães Rosa: correspondência com seu tradutor italiano Edoardo Bizzari. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 3a. edição. 2003. ____________________________. The devil to pay in the backlands. Alfred A. Knopf:

Referências

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