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Acórdão do Tribunal Central Administrativo Sul

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Acórdãos TCAS

Acórdão do Tribunal Central Administrativo Sul

Processo: 02290/08

Secção: CT - 2.º JUÍZO

Data do Acordão: 17-06-2008

Relator: EUGÉNIO SEQUEIRA

Descritores: IMPUGNAÇÃO JUDICIAL. IRS.

RENDIMENTOS DE ACTIVIDADE COMERCIAL OU INDUSTRIAL.

Sumário: Doutrina que dimana da decisão:

1. O conceito de comércio adoptado pelo legislador fiscal é um conceito próprio, de natureza económica, cabendo dentro dele toda a actividade (expressa mesmo que em um só acto) que tenha por fim objectivo um lucro;

2. Tendo os contribuintes pedido a licença de loteamento de diversos prédios e que lhes foi deferida, tendo mais tarde vendido esses mesmos prédios, não podem tais rendimentos incluir-se na categoria G por não se tratarem de ganhos

fortuitos, mas antes de ganhos que integram uma actividade comercial ou industrial, ainda que a mesma possa consistir num só acto isolado.

Aditamento: 1

Decisão Texto Integral:

Acordam, em conferência, na Secção de Contencioso Tributário (2.ª Secção) do Tribunal Central

Administrativo Sul:

A. O Relatório.

1. O Exmo Representante da Fazenda Pública (RFP), dizendo-se inconformado com a sentença proferida pela M. Juiz do Tribunal Administrativo e Fiscal de Almada, que julgou procedente a impugnação judicial deduzida por A... e M..., veio da mesma recorrer para este Tribunal formulando para tanto nas suas alegações as seguintes conclusões e que na íntegra se reproduzem, subordinando-as às seguintes alíneas:

a) No caso dos autos foram pelo impugnante praticados actos subsumíveis a uma actividade comercial;

b) O ora impugnante praticou de forma intencional diversos actos de valorização de prédios sitos no Concelho de Almada, melhor identificados nos autos; c) O exercício daquela actividade tem obrigatoriamente reflexos nos rendimentos imputáveis ao agregado

familiar, ou seja, aos ora impugnantes;

d) Quando os referidos prédios foram pelo impugnante vendidos em 2001, já todas as operações urbanísticas indicadas no art.º 8.º das presentes alegações de

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recurso, tinham sido efectuadas;

e) Os ganhos resultantes da alienação daqueles prédios devem ser enquadrados no âmbito da categoria B de IRS, de acordo com o disposto na alínea g) do n.º 1 do art.º 4.º do CIRS;

f) A liquidação impugnada foi correctamente efectuada, é legal e devida, estando os factos que a originaram, correctamente qualificados.

Nestes termos e nos mais de Direito aplicável, requer-se a V.ªs Ex.ªs requer-se dignem julgar PROCEDENTE o prerequer-sente recurso, por totalmente provado e em consequência ser a douta sentença ora recorrida, revogada e substituída por douto Acórdão que julgue improcedente a

impugnação, tudo com as devidas consequências legais.

Foi admitido o recurso para subir imediatamente, nos próprios autos e no efeito meramente devolutivo.

A Exma Representante do Ministério Público (RMP), junto deste Tribunal, no seu parecer, pronuncia-se por ser concedido provimento ao recurso, por os ora

recorridos terem praticados actos nos prédios em causa que os valorizaram donde resultaram reflexos positivos no seu património que devem ser subsumíveis a

rendimentos empresariais da categoria B do IRS, enquadráveis na alínea g) do n.º1 do art.º 4.º do CIRS.

Foram colhidos os vistos dos Exmos Juízes Adjuntos.

B. A fundamentação.

2. A questão decidenda. A única questão a decidir consiste em saber se os lucros obtidos com a venda dos terrenos em causa se encontram sujeitos a IRS, como rendimentos de actividade comercial ou industrial.

3. A matéria de facto.

Em sede de probatório a M. Juiz do Tribunal “a quo” fixou a seguinte factualidade, a qual igualmente na íntegra se reproduz:

A) Em 19/10/2001 os impugnantes venderam à sociedade "CONSTRUCIV - Construções Civis, Lda.", por escritura pública de compra e venda, pelo preço total de € 1.251.982,72 euros, os seguintes imóveis:

1. - O prédio urbano, à data omisso na matriz e

actualmente inscrito sob o artigo 2257 da freguesia de Trafaria, concelho de Almada, pelo valor de € 4.987,98 euros;

2. - O prédio rústico, inscrito na matriz sob o artigo 13, secção I, da freguesia da Caparica, concelho de Almada, pelo valor de € 349.158,53 euros;

3. - O prédio rústico, inscrito na matriz sob o artigo 9, secção I, da freguesia da Caparica, concelho de

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Almada, do valor de € 897.8.36,21 euros.

B) Os prédios referidos na alínea anterior haviam sido adquiridos pelo impugnante A... no ano de 1973.

C) O impugnante A... apresentou junto da Câmara

Municipal de Almada em 02/12/1997 um pedido de licença de loteamento dos prédios mencionados em A), ao qual foi atribuído o n.º 791/97.

D) Em reunião da Câmara Municipal de Almada, realizada no dia 07/04/1999, e na sequência de requerimento apresentado pelo impugnante A..., foi aprovada a operação de loteamento dos prédios identificados na alínea A).

E) Em reunião de 19/12/2001, a Câmara Municipal de Almada, tendo por base os requerimentos apresentados pela sociedade "Construciv - Construções Civis, Lda" aprovou a alteração da licença do loteamento 791/97. F) Na sequência da venda referida na alínea A) o procedimento de loteamento requerido pelo impugnante A... foi averbado em nome da sociedade "CONSTRUCIV- Construções Civis, Lda.", a favor de quem foi emitido, em 30/12/2002, o alvará de loteamento urbano nº

521102.

G) Na sequência de procedimento interno de inspecção, os Serviços de Prevenção e Inspecção Tributária

concluíram que os impugnantes, no decurso do ano de 2001, ao efectuarem o pedido de loteamento dos prédios referidos em A) procederem, posteriormente, à sua alienação, obtendo rendimentos sujeitos a tributação em sede de IRS, no valor de € 252.391,74 euros, que se enquadravam na categoria "B" (rendimentos

empresariais), nos termos dos artigos 3°, 4° e alínea a) do n° 1 do art. 28° do Código do Imposto do

Rendimento das Pessoas Singulares.

H) As propostas de conclusões do procedimento interno de inspecção foram objecto de despacho de

concordância, datado de 29/11/2005, do Director de Finanças Adjunto, no uso de poderes delegados pelo director de finanças, que corrigiu o rendimento colectável declarado dos impugnantes de €90.430,85 para € 329.679,27.

I) Em resultado da alteração de rendimentos tributáveis mencionada na alínea anterior a administração tributária procedeu a liquidação

oficiosa de IRS do ano de 2001 n.º 5334452771, de que resultou imposto a pagar no montante de € 111.298,83. *

Quanto aos factos provados a convicção do Tribunal fundou-se na prova documental junta aos autos, no processo administrativo em apenso.

*

Não se provaram quaisquer outros factos passíveis de afectar a decisão de mérito, em face das possíveis soluções de direito, e que, por conseguinte, importe registar como não provados.

4. Para julgar procedente a impugnação judicial

considerou a M. juiz do Tribunal “a quo”, em síntese, que no caso dos autos não foram praticados pelo

impugnante actos que possam ser subsumíveis a um actividade comercial, ainda que esporádica, com a

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intenção de obtenção de lucros, ainda que o mesmo tenha dado início ao processo de loteamento desses terrenos, o mesmo só é decidido depois da venda dos mesmos e emitido o alvará de loteamento já em nome da sociedade compradora, que em todo o caso comprou terrenos e não lotes.

Para a recorrente de acordo com a matéria das

conclusões das alegações do recurso e que delimitam o seu objecto, veio a insurgir-se contra tal

entendimento vazado na sentença recorrida por o ora recorrido ter praticado, de forma intencional,

diversos actos de valorização desses terrenos que não podem ter deixado de gerarem rendimentos no património dos mesmos, pelo que tais ganhos devem ser enquadrados em rendimentos da categoria B de IRS, na alínea g) do n.º1 do art.º 4.º do CIRS.

Vejamos então.

Nos termos do disposto no art.º 1.º do Código do IRS (CIRS), na redacção da Lei 30-G/2000, de 29 de

Dezembro, entrada em vigor em 1.1.2001 (cfr. seu art.º 21.º), o imposto sobre o rendimento das pessoas

singulares (IRS) incide sobre o valor anual dos rendimentos das categorias seguintes, mesmo quando provenientes de actos ilícitos, depois de efectuadas as correspondentes deduções e abatimentos:

Categoria A – Rendimentos do trabalho dependente; Categoria B – Rendimentos empresariais e

profissionais;

Categoria C – Rendimentos Comerciais e Industriais; ...

E a norma do art.º 4.º do mesmo Código, na redacção da mesma Lei, sob a epígrafe Actividades comerciais e

industriais, agrícolas, silvícolas e de pecuária, tem

a seguinte redacção:

1 – Consideram-se actividades comerciais e industriais, designadamente, as seguintes: a) Compra e venda;

b) Fabricação ...

f) Construção civil;

g) Urbanísticas e exploração de loteamentos; ...

Na falta de uma definição legal do conceito de actividade comercial ou industrial, para efeitos

tributários, tem vindo a doutrina e a jurisprudência a entender como aplicável o conceito económico de

comércio e indústria, que abrange actividades de mediação entre a oferta e a procura e actividades de incorporação de novas utilidades na matéria, em ambos os casos com fins especulativos, ou seja, com o

objectivo de obtenção de lucros, podendo ver-se neste sentido Teixeira Ribeiro, in Incidências da

Contribuição Industrial, publicado no Boletim da

Faculdade de Direito de Coimbra, vol. XLI (1965), pág. 2 e Vítor Faveiro, in Noções Fundamentais de Direito Fiscal Português, II Vol., pág. 476 e Acórdão do STA de 3.5.2000, recurso n.º 22.608.

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A lei fiscal abrange no conceito de comércio um leque de actividades que apenas se assemelham pela

existência de um único elemento comum, qual seja a susceptibilidade de gerar lucro.

«A contribuição industrial (ao tempo) recai tanto sobre os lucros das actividades de natureza comercial ou industrial como sobre os lucros das actividades que não sendo de natureza comercial ou industrial, a lei considera como tais. Dado, porém, que as consideradas de natureza comercial ou industrial são todas as actividades agrícolas não sujeitas a imposto sobre a indústria agrícola e todas as actividades produtoras de serviços não sujeitos a imposto profissional, conclui-se que a tributação dos lucros é uma

tributação completa, uma tributação sem lacunas: na verdade, os lucros que não sofram a incidência do imposto sobre a indústria agrícola ou do imposto profissional caem sob a alçada da contribuição industrial(1) ».

O conceito de comércio adoptado pelo legislador fiscal não está pois, identificado com o conceito jurídico provado do Código Comercial. Ele é antes um conceito próprio, de natureza económica. Dentro dele cabe toda a actividade (expressa mesmo que em um só acto) que tenha por fim objectivo um lucro(2).

O lucro apenas pode ser surpreendido numa relação económica ou seja numa intervenção com terceiro. Só poderia falar—se de lucro se o referido acréscimo de valor resultar de uma qualquer relação do agente com o terceiro em que satisfazendo-se necessidades

económicas deste saia aumentado o património daquele (mediação entre a oferta e procura ou incorporação de novas utilidades com o objectivo da obtenção de

lucros).

Fora do conceito, ficarão assim, a nosso ver, as realidades económicas em que exista aumento de

qualquer património por virtude de actividade consigo mesmo, de valorização fortuita dos bens ou em que aquele aumento não seja o escopo objectivo da relação com o terceiro.

No caso, como resulta da matéria constante das alíneas C) e D) do probatório fixado na sentença recorrida, foi o ora recorrido quem, em 1997, requereu um pedido de licença de loteamento para os prédios em causa e que a Câmara Municipal de Almada lhe deferiu em 7.4.1999, desta forma tendo incorporado nos respectivos terrenos aptidões urbanísticas e

construtivas que de outro modo não teriam como prédios rústicos, a que correspondeu a satisfação de

necessidades económicas da compradora, sabido que um terreno com um pedido de licenciamento para loteamento já deferido tem, necessariamente, um valor superior do que teria se ainda o não tivesse, valorizando assim ou visando tal fim, por actividade do ora recorrido, o património dos impugnantes, valorização esta que não pode considerar-se assim, ocasional ou fruto do acaso

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ou da sorte, ainda que o ora recorrido não se dedique a essa actividade, normal e habitualmente, ou seja a título profissional.

No caso, é bem patente a vantagem económica para a compradora na compra de tais terrenos já com os pedidos de licença dos loteamentos deferidos ao

anterior proprietário, tendo assim esta se limitado a solicitar ao mesmo Município a alteração dessa licença com o n.º 791/97, para o seu nome e a favor de quem logo foi emitido o alvará de loteamento, em vez de iniciar todo o processo de pedido de licença de loteamento, o que para além dos encargos que não

suportou com o mesmo, para cujo deferimento o anterior proprietário aguardou cerca de 1 ano e cinco meses. E o exercício desta actividade desenvolvida pelo ora recorrido, sobre os prédios em causa, requerendo e obtendo junto do Município de Almada, um processo de licença de loteamento de que obteve deferimento, traduz, ainda que ocasionalmente, o exercício de uma actividade objectivamente comercial ou industrial, com o fito de obter lucros, que se enquadra no conceito de rendimento comercial, ou seja em rendimento subsumível à norma do art.º 4.º n.º1 g) do CIRS(3), sendo de revogar a sentença recorrida que em contrário decidiu.

Procedem assim as conclusões do recurso, sendo de lhe conceder provimento e de revogar a sentença recorrida que em contrário decidiu.

C. DECISÃO.

Nestes termos, acorda-se, em conceder provimento ao recurso e em revogar a sentença recorrida, julgando-se improcedente a impugnação.

Custas pelos recorridos apenas na 1.ª Instância, por não haverem contra-alegado.

Lisboa, 17/06/2008 EUGÉNIO SEQUEIRA ASCENSÃO LOPES LUCAS MARTINS

(1) Como se pode ler no acórdão do então Tribunal Tributário de 2.ª Instância de 26.10.1993, processo n.º 61.604.

(2) Cfr. neste sentido, entre outros, o acórdão do STA de 3.12.1991, recurso n.º 13.398.

(3) Cfr. em sentido semelhante o acórdão do STA de 18.6.2003, recurso n.º 624/03, cuja cópia consta de fls 52 e segs do processo administrativo apenso e acórdão do mesmo Tribunal de 2.7.2003, recurso n.º 772/03-30.

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