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O RELÓGIO E O VIOLINO

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Academic year: 2021

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EDITORA PENALUX

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O RELÓGIO E O VIOLINO EDIÇÃO

França e Gorj CAPA E PROJETO GRÁFICO Murilo Guerra

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS A reprodução de qualquer parte desta obra só é permitida mediante autorização expressa do autor e da Editora Penalux.

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)

LEITE, Márcio. 1957 O relógio e o Violino Márcio Leite Guaratinguetá, SP: Penalux, 2017. 304 P. : 21 cm ISBN 978-85-5833-233-0 1. Romance I. Título L533r CDD.: B869.93 REVISÃO

Camile Mendrot (Ab Aeterno) EDIÇÃO

1ª Edição, 2017

ÍNDICES PARA CATÁLOGO SISTEMÁTICO 1. Literatura Brasileira

EDITORA PENALUX

Rua Marechal Floriano, 39, Guaratinguetá, SP, 12500-260

editora penalux

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O RELÓGIO

T

ique-taque, tique-taque, tique-taque…

O compasso monótono de um relógio marca o tem-po em algum lugar perto de mim. Entre muitos outros sons, alguns bem estridentes e desagradáveis, que já qua-se tornaram inqua-sensíveis os meus ouvidos, é justo esqua-se, débil, mecânico, que me chama a atenção. E o faz por sua regularidade neurótica, por sua suavidade, quase ter-nura. Um barulhinho prestes a ser inaudível, mas que não diminui nem aumenta. Persistente, como se preten-desse delatar o tempo sem ser ouvido, como um traidor que age na calada da noite. Mistura-se à rotina insana de zumbidos indistintos. Camufla-se na selva de gritos e estrondos. Noite? Será noite? Na minha cela particular é sempre noite.

Tique-taque, tique-taque…

Perdi a contagem dos ponteiros do relógio. De seus intermináveis tique-taques. Já são tantos desde que

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cheguei a este lugar, e tão pegajosos, obsessivos, que não consigo me imaginar mais sem eles. É como se estivessem conectados ao meu coração, como se fossem uma só frequência. Não me dou mais conta que são du-plicados, como um eco sem sentido de algo que não tem importância.

O relógio e o meu coração. Por vezes eu os confun-do. Curioso… São como corpo e alma, retrato e movi-mento. O que os move? O que move os ponteiros, quero dizer. Possivelmente uma bateria. Por sorte deve ser uma bateria de vida longa. Mas talvez não seja bom assim. Talvez fosse melhor que não se movessem mais.

Tique-taque, tique-taque…

Adormeço e acordo inúmeras vezes, sempre com esse som aos ouvidos, no tempo infinito que ele registra. Um tempo que nada significa, uma vez que estou imo-bilizado numa bolha atemporal que o torna inútil. Não importa o que faz, é apenas um marcador da cadência de minha inutilidade. E a certeza de que, nem o sofrimento, nem o tempo, acabaram. Talvez nunca acabem. Vão-se as pilhas, os relógios, fica apenas o tempo em si, nada que o meça. Resta um aterrorizante ruído. Um som que não vai a canto algum além desta sala. Que talvez ninguém mais ouça. Um relógio cujos ponteiros orientam apenas os outros. Os outros, aqueles que me assediam, que me

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MÁRCIO LEITE invadem a privacidade e a intimidade impunemente. Os que me chegam à cabeceira com variadas intenções. Eu os reconheço.

Tique-taque, tique-taque…

Há os que cuidam de mim – ou pensam fazer isso. Um cuidar distante, protocolar. Um cuidar descuidado, sem compromisso, entediado, que se avizinha ao desleixo. Viram-me de um lado e de outro, testam minha paciên-cia e minha náusea. E minha raiva. “Muito obrigado!”, digo-lhes com ironia. “Vocês são uns canalhas!” Digo isso e muito mais. Digo tudo que me vem à mente com total liberdade. Gosto de soltar sobre eles uma enxurrada de palavrões. Mas sei que não me ouvem. Meus lábios es-tão secos e minha língua, desgovernada. Não produzem qualquer gemido. Estou condenado ao silêncio do tempo regido por um estúpido relógio que não sei onde está. Em suas mãos, sou um pacote flácido que jamais será entregue a alguém. E ainda assim, na impessoalidade das entregas equivocadas, a minha dignidade afirma que de-viam me tratar de maneira diferente.

“Parem de me virar como saco de batatas! Parem de me molhar com água fria! Idiotas!”

Inútil, tudo inútil. Não me ouvem. E se ouvissem? Certamente dariam de ombros e fariam tudo igual. Es-tão cumprindo tarefas, alegariam, na rigidez de seus

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propósitos organizacionais. Não tenho direito a me quei-xar, sou apenas um pequeno estorvo institucional.

Tique-taque, tique-taque…

Há horário para tudo nesta bolha exótica e assép-tica. Para asseio, banho, curativos, medicações, seringas, esparadrapos, cateteres… para se sentar, se levantar – os que conseguem. Há também para urinar, defecar, respi-rar. Hora certa para viver e para morrer. O fatídico relógio dimensiona o tempo de cada coisa, da mais singela à mais complexa. A vida é cronometrada e não perde tempo. Somente eu pareço não me ajustar a contagem alguma. Mas ela não cessa.

Tique-taque, tique-taque…

Felizmente há os que me inflam os pulmões com aromas adocicados e tenros, e uma inusitada vontade de voltar ao mundo deles. Uma nuvem luminosa que ter-mina por me alcançar e me envolver, trazendo-me para mais perto daquilo que abandonei de todo: a felicidade. Algo do qual já me esqueci, mas que eles, torturantemen-te, me fazem relembrar a cada turno de visitas. Apressam meu coração, adoçam o meu humor. E eu? Não lhes dou nada em troca. Permaneço qual estranha estátua, queimando por dentro e congelado por fora. Para eles, estou cem por cento congelado. Alice, minha caçulinha; Rogério, meu filho; e a suave Clarissa, minha – agora

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MÁRCIO LEITE reconheço – amada esposa. Há hora para eles e há hora para voltar ao inferno.

Eles são o passaporte para o céu a que tenho direito e, conforme marcam os ponteiros, por pouco tempo. Não verifiquei a quantos tique-taques eles equivalem, mas não são muitos. Para meu total desespero, não são. Talvez o mesmo tanto que de um banho, quem sabe? Um frenéti-co banho gelado na escuridão. Ou da detestável troca de fraldas, quando o cheiro alcança o meu olfato intacto e imagino o tanto de caca que deve haver nelas.

Neste mundo onde estou, prazer e dor têm igual valor. Homogeneízam-se personalidades. Pasteurizam-se almas. Aqui, reduz-se à insignificância destinos e iden-tidades. Não importa o que fizemos, somos seres sem passado, no marco zero do pecado, manipulados displi-centemente por técnicos levianos na banalidade de suas tarefas. Assim, vive-se em total iniquidade. Melhor para os maus. Seres inimputáveis. Melhor para mim, talvez, que tenho a eternidade dos tique-taques para encontrar virtudes em meu percurso – na parte dele que realmente conta. Desolação completa será se, ao final das batidas, eu nada houver encontrado.

Nem sempre fui desafortunado, vale dizer. Houve primaveras e verões, sim. E, neles, senti encantamento. Conheci pessoas que me tocaram e me fizeram

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te. Tempos de inocência. Bem longe dos que me tocam hoje pela força do dever. Na frieza do compromisso pro-fissional, sem confidências, sem o tato sutil da intimida-de. Não me perco em perceber as diferenças.

Naqueles tempos, o mundo rodava feliz e irres-ponsável. A ignorância é o tempero da aventura. É como andar sobre nuvens imaculadas, saltar de montanhas douradas, na doce algazarra dos anos verdes. E o tempo colore os anos, a vida amarela a princípio, torna-se cin-zenta depois. Não quero falar do marrom e do preto; é exatamente como as folhas. Mas nem sempre é assim – ainda bem! Sou livre para imaginar que somos folhas que se despegam com o tempo e despencam em direção ao solo, fingem que voam. Apenas um truque da vida para nos manter no páreo. Para que sigamos com as apostas. Só um truque. Acho que até valeria a pena, desde que fos-se olho no olho, preto no branco, fos-sem contorcionismos ou embustes. Nada de simulação. Daria certo? Assumi-ríamos se nos dissessem de antemão no que resultaria? Creio que não. Pelo menos no meu caso. Talvez esteja pessimista apenas porque, da gaiola onde me enfiei, não posso dar continuidade à farra. Mas havia um passarinho – e ele estava vivo.

Estou bem seguro quanto à solidez da gaiola, mas não sou tão otimista quanto ao passarinho. Ele não sabe

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MÁRCIO LEITE mais voar. Mouco, mudo, desajeitado. Quanto vale um passarinho que não canta e não voa? Por Deus! Nem tudo na vida precisa valer algo! É como se qualquer coisa estivesse exposta em gôndolas de supermercado com a etiqueta de preço colada na parte mais visível. Amor: $ 100 o quilo; amizade: $ 80 a meia dúzia; sorriso: $ 20 a unidade. Não? Não! Há, sem dúvidas, o inestimável, embora já não me dê conta do que seja.

Tique-taque, tique-taque…

Nada muda há incontáveis tique-taques, que po-dem significar horas, dias ou séculos. Muitas vezes tenho vontade de partir as algemas – quer seja na condição real ou em sentido figurado. Ser algo não é o mesmo que ser alguém – e eu não me lembro exatamente quando pas-sei de uma condição a outra. Afoga-me a humilhação da exposição forçada, da dependência involuntária. Depre-cio-me tanto mais a restrição me constrange. Tenho de-sejo de inchar, de explodir, o que seja que me desprenda, que me descole. Sonho em ser um mero objeto, mas que tenha função e a exerça. Uma pena (que flutue); uma nuvem (que desague); uma folha (que transpire). Algo que pelo menos pareça vivo. Um pedaço de pele sem es-caras, um músculo que se contraia. Estou farto da inércia flácida a que estou condenado. De permanecer ad

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AUTOR [email protected] facebook.com/marcio.leite.921 EDITORA www.editorapenalux.com.br [email protected]

Referências

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