Revista Brasileira de Tradutores Nº. 17, Ano 2008
Maria Emília Pereira Chanut Universidade Estadual Paulista [email protected]
Nícia Adan Bonatti Faculdades Integradas Metropolitanas de Campinas [email protected]
DUÇÃO PERFEITA
Em torno de Sur la traduction, de Paul Ricœur
RESUMO
Palavras-Chave:
ABSTRACT
Keywords:
Anhanguera Educacional S.A.
Correspondência/Contato Alameda Maria Tereza, 2000 Valinhos, São Paulo CEP. 13.278-181
[email protected] Coordenação
Instituto de Pesquisas Aplicadas e Desenvolvimento Educacional - IPADE Resenha
Recebido em: 30/05/2008 Avaliado em: 26/07/2008
1.
INTRODUÇÃO
Uma das razões implícitas para o desejo de escrever esta resenha — haverá decerto tantas outras (entre elas, o desejo de traduzir Paul Ricœur) — deve-se ao prazer de compartilhar o imenso carinho que ele declara a Antoine Berman em seu último livro, publicado em 2004 pela Bayard na França1. Numa edição aparentemente
despretensio-sa, Sur la traduction reúne três textos num conjunto harmonioso, dentre os quais o úl-timo, “Un «passage»: traduire l’intraduisible”, é totalmente inédito.
Ricœur propõe nessa obra uma alternativa ao incontornável dilema especula-tivo “traduzível versus intraduzível” na medida em que constata que, embora o rigor teórico de uma abordagem etno-lingüística (B.Lee Whorf, E. Sapir) aponte para a im-possibilidade da tradução, essa atividade é efetivamente praticada desde sempre — a-inda que constantemente ameaçada pela dialética que a acompanha, a da “fidelidade versus traição”. Pois é nesse “dilema prático” que Ricœur busca a porta de entrada na questão, sugerindo que o tradutor assuma essa problemática e assim renuncie à tradu-ção perfeita. Tal dilema - cabe comentar - pode ser visto como uma releitura do double-bind proposto por Derrida.
Desejamos, neste texto, dialogar com Ricœur na intenção de revelar ao leitor de que modo a obra bermaniana iluminou a passagem de Ricœur pelo enigma da “e-quivalência sem identidade” como forma de contribuição à eterna “construção do comparável” na luta contra o intraduzível.
2.
PRIMEIRO TEXTO: “DÉFI ET BONHEUR DE LA TRADUCTION” (DESAFIO E
FELICIDADE DA TRADUÇÃO)
Ricœur privilegia inicialmente a reflexão sobre a inconfortável situação do tradutor que enfrenta a dupla resistência do estrangeiro: do “étranger”, bem entendido, uma vez que esse termo polissêmico remete - na perspectiva analítica de Ricœur - à obra o-riginal, ao autor e a sua língua de um lado, e, de outro, ao leitor destinatário da obra traduzida. O leitor resistente recusaria assim esse trabalho de mediação da tradução na forma de uma auto-suficiência e de um etnocentrismo lingüísticos - desejo de
1 Na qualidade de tradutora para o português da obra central de Berman, L’épreuve de l’étranger, foi com agradável
sur-presa e familiaridade que me deparei com as considerações iniciais de Ricœur em torno do termo “épreuve”, fio con-dutor de suas reflexões. A tradução desse termo para o título A prova do estrangeiro foi um dos maiores dilemas que tive de enfrentar por ocasião da tradução do livro de Berman (Título em português: A prova do estrangeiro. Cultura e tradu-ção na Alemanha romântica: Herder, Goethe, Schlegel, Novalis, Humboldt, Schleiermacher, Hölderlin. Bauru-SP: EDUSC, 2002. Trad. de Maria Emília P. Chanut).
ação -, geralmente presentes em culturas hegemônicas, como pode ser verificado na história do Ocidente desde o latim de Roma até o inglês de nossa atualidade. Do outro lado situa-se, na opinião do autor, a maior resistência: a da língua do estrangeiro, gra-ças, sobretudo, ao tradicional e sempiterno pré-conceito de “não-traduzibilidade” e, portanto, de uma suspeita antecipada da má qualidade do texto traduzido. Esse tipo de resistência é muito mais temeroso, crê o autor, já que se apresenta ao tradutor antes mesmo que ele tenha iniciado o seu trabalho.
Ricœur compara essa “tarefa do tradutor” evocando o duplo sentido que Freud, em ensaios distintos, dá à palavra “trabalho”: travail de souvenir e travail de deuil (trabalho de recordação e trabalho de luto). O primeiro remete à situação de angústia no enfrentamento da “provação” (épreuve); o segundo, ao trabalho de luto, que seria o de busca da aceitação do fato inelutável. A aproximação se dá na interrogação lançada ao tradutor pelo(s) “estrangeiro(s)”, que resiste(m) duplamente, diante da inevitável perda de um dos lados, conforme ele decida agradar ao leitor ou ao autor. Fidelidade versus traição compõe o paradoxo da “prova do estrangeiro”: a diferença entre o pró-prio e o estrangeiro é insuperável, a perfeição é inalcançável. Mas a questão fundamen-tal é: de que textos perfeitos estamos falando?
Ricœur tem consciência da “complexa heterogeneidade do texto estrangeiro” (p. 13), apontando a poesia e o texto filosófico como os maiores desafios à tradução. É, no entanto, “esse luto” (aceitação em forma de renúncia) “da tradução absoluta que faz a felicidade do traduzir”, insiste Ricœur. Ele lembra como o ideal do “absoluto literá-rio” e o sonho da tradução perfeita na filosofia romântica alemã - seja na forma de uma visada universalista e cosmopolita (Goethe) ou na forma de uma visada messiânica (Benjamin) - apontam para a utopia de um ganho sem perda para a tradução. Uma vez que tais visadas especulativas - como Berman já antecipara - acabam por afastar defini-tivamente ambos os “estrangeiros”, apagando a fundamental relação com o outro, o autor propõe uma “hospitalidade linguageira” como o “horizonte razoável do desejo de traduzir” (p. 20).
3.
SEGUNDO TEXTO: “LE PARADIGME DE LA TRADUCTION” (O PARADIGMA
DA TRADUÇÃO)
Ricœur inicia o segundo texto apontando para duas abordagens distintas da tradução que remetem, uma, ao sentido mais estrito do termo em prol da pluralidade e da di-versidade das línguas (Berman), e outra, ao sentido mais amplo de tradução como
“in-terpretação” (Steiner em Après Babel). A discussão em torno daquilo que chama de “duas vias de acesso” ao problema da tradução é retomada mais adiante.
Segundo Ricœur, a tradicional tese do “traduzível versus intraduzivel” apóia-se, de um lado, na radical diversidade das línguas como demonstração de sua impos-sibilidade e, de outro, na explicação de um fundo comum que a torna possível e, por-tanto, logicamente reconstruível (possibilidade pela origem e/ou pelo universal). Em busca de uma alternativa, a proposta anterior ressurge: sua tese considera a tradução “teoricamente incompreensível, mas efetivamente praticável” (p. 27).
Ora, Ricœur quer com isso não permanecer no esquema paralisante das teses tradicionais - acrescentando as tentativas de Leibniz, Umberto Eco e até de Chomsky - que pretendem todas, no final das contas, eliminar as imperfeições das línguas. O filó-sofo sublinha que o fracasso de tais teorias está, primeiramente, no fato de que não e-xiste concordância quanto ao que caracterizaria uma língua perfeita; em segundo lu-gar, ninguém poderia dizer como as línguas naturais teriam derivado da presumida língua perfeita: “a distância entre língua universal e língua empírica, entre o apriorístico e o histórico parece mesmo intransponível” (p. 32).
A tradução intralingual estaria, portanto, na origem dos problemas, em fun-ção da complexidade do funcionamento no interior de cada língua. O autor retoma a narrativa do mito de Babel para corroborar seu argumento de que a diversidade das línguas existe, de fato, e que deve ser aceita, porém, a confusão das línguas deve ser vista como um apelo positivo à tradução. Embora essa argumentação dê força à princi-pal visada de Ricœur, é sobretudo a questão do desejo de traduzir o alvo de seu interes-se, por ser algo que vai muito além da necessidade/obrigação e da utilidade da tradu-ção. Tal desejo, contudo - a história alemã nos acena -, pode ser nefasto se nutrido pelo ideal da tradução perfeita, na medida em que, segundo o autor, alimenta a nostalgia da língua original e a pretensão da língua universal.
Antevemos nessa orientação o privilégio dado à obra de Berman em detri-mento daquela de Steiner. Para Ricœur, resta-nos a prova do estrangeiro como único modo honesto de aceitar uma diferença insuperável que já existe dentro de cada língua viva, e evoca Husserl, quando este, “falando do conhecimento do outro, chama o outro cotidiano der Fremde, o estrangeiro” (p. 46). Embora admitindo que em todo outro há o estrangeiro, além de enfatizar o fato de serem inúmeras as estratégias intimidantes in-trínsecas à linguagem, julga que a equação de Steiner “Comprendre, c’est traduire” e-limina justamente a possibilidade de reconhecer o intraduzível em proveito do par
fide-lidade/traição. O fato de Steiner descrever as intermináveis relações complexas entre o pensamento e a língua, desde a palavra, passando pela frase até o (com)texto, acaba sempre, segundo Ricœur, por fechar o círculo do intraduzível em torno do mesmo, a explorar e acentuar o que na linguagem é hermético, dissimulado, a opor a interpreta-ção à comunicainterpreta-ção.
Ricœur admite (perplexo, ele confessa) que há, de fato, duas vias de entrada no problema da tradução, mas que é levado a privilegiar a entrada pela porta do es-trangeiro. Sem essa prova, ele interroga, seriamos sensíveis à estranheza de nossa pró-pria língua? “Como possuiríamos o sentido do intraduzível segredo sem termos fre-qüentado as inquietantes regiões do indizível”? (p. 52)
4.
TERCEIRO TEXTO: “UN « PASSAGE»: TRADUIRE L’INTRADUISIBLE” (UMA
“PASSAGEM”: TRADUZIR O INTRADUZÍVEL)
Finalmente, Ricœur aborda, justamente no terceiro texto do livro, o “terceiro texto” a que se refere o título da presente resenha. Já no primeiro texto, o autor evocava o filó-sofo e lógico norte-americano Willard Van Orman Quine, que anuncia a impossibili-dade de uma correspondência sem adequação entre dois textos (conhecida como “tese da indeterminação da tradução”). Em outros termos, Ricœur traz para a tradução o pa-radoxo de uma equivalência sem adequação a partir do seguinte dilema: o único meio de medir tal adequação dos textos de partida e de chegada, numa boa tradução, seria a e-xistência de um terceiro texto, no qual residiria o sentido ideal, o “idêntico semântico”, cujo estatuto seria o mesmo do terceiro homem no Parmênides de Platão.
Um terceiro texto, que funcionaria como um “verificador”, só seria possível, segundo Ricœur, na forma de uma retradução. Ora, essa espécie de “leitura crítica” de um leitor bilíngüe competente passaria, forçosamente, pela mesma prova da tradução, o que significaria chocar-se novamente com o paradoxo da equivalência sem adequação - indefinidamente! Para Ricœur, essa frágil condição da tradução, vivida na forma de um luto da tradução absoluta à qual é necessário renunciar, é compensada pela hospita-lidade linguageira, pela aceitação da irredutibihospita-lidade entre o próprio e o estrangeiro, consentimento da distância insuperável entre adequação e equivalência.
Partindo da constatação de que a tradução existe, de que sempre se traduziu, graças principalmente à curiosidade pelo outro estrangeiro, ao desejo de traduzir como desejo de aproximação do outro estranho e inquietante, Ricœur conclui que o dilema
fidelidade/traição apresenta-se como dilema prático; dilema prático, uma vez que não existe critério absoluto que determine o que seria a boa tradução. Haveria, portanto, somente uma equivalência presumida, não demonstrável, sem identidade.
Os românticos, como mostra Berman em sua obra, buscaram mil formas de apaziguar esse dilema, propondo fórmulas que se tornaram famosas como a de Schlei-ermacher: “levar o leitor ao autor ou levar o autor ao leitor”. Alguns deles buscaram outras formas de atenuar as perdas, como Goethe, por exemplo, falando de regeneração, ou Novalis, de potencialização, sem esquecer da pura linguagem visada pela tradução na concepção messiânica de Benjamin. Ricœur, por sua vez, propõe o abandono do sonho da tradução perfeita e, em compensação, sugere a vivência feliz desse fazer que, na prática, supera até mesmo a objeção teórica da intraduzibilidade apoiada na radical diversidade constitutiva das línguas.
Ricœur luta contra a existência prévia de um sentido que a tradução equivo-cadamente “restituiria”. O parentesco cultural que nos leva geralmente a pressupor a equivalência - como no domínio indo-europeu, por exemplo - na verdade “dissimula a natureza da equivalência que é mais produzida pela tradução que presumida por ela” (p. 63). O autor descreve, assim, o fenômeno da “produção da equivalência pela tradu-ção”, inspirado no “comparativismo construtivo” proposto por Marcel Détienne na o-bra Comparer l’incomparable. Na leitura de Ricœur, a noção de “choque do incompará-vel” proposta por Détienne ajusta-se à reflexão bermaniana em torno do termo épreuve em “a prova do estrangeiro”.
É a partir daí que Ricœur propõe que se aplique à tradução a fórmula da “construção dos comparáveis”, tomando, em sentido amplo, a tradução como a cons-trução de um glossário contendo equivalentes sem identidade - não os presumidos, mas aqueles que a própria tradução revela e constrói. Em síntese, a tradução constrói com-paráveis quando cria equivalentes a partir do “choque” inicial com o estrangeiro des-conhecido. Ricœur enriquece sua tese com exemplos como a germanização da Bíblia por Lutero e outros.
Nessa “passagem” pelo intraduzível, resta ao autor um último desafio: Ricœur constata que a construção da qual nos fala se dá, forçosamente, no nível do sentido, mas admite que esse sentido não havia sido comentado anteriormente porque simplesmente havia sido presumido! É, portanto, à equivalência do sentido que ele diz ser preciso ainda resistir, apontando como Berman teria avançado nessa construção do comparável. Berman buscou-a no nível da “letra”, por um novo “literal” da “letra por
letra” e não da palavra por palavra, ou seja, contra o intraduzível implantado pela e-quivalência do sentido.
5.
BREVES CONSIDERAÇÕES
Há, definitivamente, algo de especial nesse pequeno livro de Ricoeur. O que se desco-bre em sua reflexão “sodesco-bre a tradução” é uma perspectiva que redireciona a discussão da problemática no âmbito dos estudos teóricos da tradução: trata-se de uma proposta de “desproblematização” da tradução, de “dessacralização” de um ideal de perfeição, enfim, de um incessante combate ao perverso dilema em torno do intraduzível versus traduzível.
A partir da possibilidade real da tradução verificada em sua prática, a questão não se coloca mais por meio de uma crítica de teor essencialista, muito menos a partir dos tradicionais esquemas polarizantes, paralisantes. Até mesmo os esquemas antinô-micos de certa crítica pós-estruturalista poderiam ser interrogados diante de uma ati-tude tão positiva e otimista. Os sempiternos “dilemas” são, enfim, superados por meio de uma postura construtiva e renovadora da língua e dos sentidos da língua.
Uma “equivalência sem identidade” remete assim à qualidade, à intensidade, ao gozo de uma construção que se faz e se refaz, desloca-se de língua para língua, sem estabilidade ou fixação. Nesse sentido, a tradução não pode nunca fixar equivalências, mas apenas ocorrer na migração “entre” identidades, linguagens, culturas.
É essa dinâmica, portanto, que permite banir os idealismos assentados na e-quivalência do sentido e encoraja o tradutor a se arriscar inteiro nos ameaçadores confins do estranho-estrangeiro. Letra a letra, som a som, ritmo a ritmo, a tradução reconstrói indefinidamente uma nova identidade, que acolhe o outro renovando-lhe a vida pelo diálogo atualizador entre passado e presente. Uma condição efêmera, mas hospitaleira, que “aceita”, enfim, as diferenças, e renuncia ao ideal de perfeição.