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HOJE TEM COMIDA PARA TODOS: HISTÓRIA E MEMÓRIA DO RESTAURANTE CENTRAL DOS ESTUDANTES/ CALABOUÇO (1951-1969)

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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

FACULDADE DE EDUCAÇÃO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO

GLEICE LOPES ABBOUD GUEDES

HOJE TEM COMIDA PARA TODOS:

HISTÓRIA E MEMÓRIA DO RESTAURANTE CENTRAL DOS

ESTUDANTES/ CALABOUÇO

(1951-1969)

NITERÓI

2020

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GLEICE LOPES ABBOUD GUEDES

HOJE TEM COMIDA PARA TODOS:

HISTÓRIA E MEMÓRIA DO RESTAURANTE CENTRAL DOS ESTUDANTES/CALABOUÇO

(1951-1969)

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Educação em 2020.

Orientador: Prof. Dr. José Antônio Miranda Sepúlveda

NITERÓI 2020

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GLEICE LOPES ABBOUD GUEDES

HOJE TEM COMIDA PARA TODOS: História e Memória do Restaurante Central Dos Estudantes/Calabouço (1951-1969)

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Educação em 2020.

Aprovada em:_____/_______/_______

BANCA EXAMINADORA:

____________________________________________________________ PROF. DR. JOSÉ ANTONIO MIRANDA SEPULVEDA– ORIENTADOR UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE – UFF

_____________________________________________________________ PROF. DR. ALESSANDRA FROTA MARTINEZ DE SCHUELLER UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE – UFF

___________________________________________________________ PROF. DR. AMANDA ANDRÉ DE MENDONÇA UFF

UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ – UNESA

___________________________________________________________ PROF. DR. DENIZE DE AGUIAR XAVIER SEPULVEDA

UNIVERSIDADE ESTADUAL DO RIO DE JANEIRO - UERJ

NITERÓI 2020

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Aos meus pais, por terem dedicados suas vidas em prol das realizações e felicidade de seus filhos.

Ao meu Avô Rosemando (In memória) e minha Avó Cremilda por serem meus maiores incentivadores e muitas vezes financiadores dos meus estudos.

Ao meu companheiro Herold Xavier pelo incentivo e compreensão.

Aos meus filhos Pedro Henrique e Ana Flor, por todo amor que vocês têm por mim, por toda compreensão, quando muitas vezes não pude dar a vocês, nesse processo, a atenção devida. Vocês são a razão pela qual me supero, todos os dias.

A todos os ex-calabouceanos lutadores, resistentes que continuam ativos mantendo a memória do Calabouço viva.

Por fim, a todos aqueles que contribuíram, direta ou indiretamente, para a realização desta dissertação, meus sinceros agradecimentos.

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A G R A D E C I M E N T O S

Ao Professor José Antônio Sepúlveda, pela orientação, competência, profissionalismo, dedicação e compreensão. Tantas vezes pensei em desistir, mas você sempre me trouxe uma palavra de incentivo. Muito obrigada por acreditar em mim, por me mostrar que seria capaz. Certamente não chegaria neste ponto sem o seu apoio. Admiro muito você, sempre meu mestre e amigo.

Aos Membros da Banca examinadora, Profa. Denise Sepúlveda e à Profa. Amanda Mendonça por, tão gentilmente, aceitarem a participar e colaborar com esta dissertação. À Profa. Denize Sepúlveda pelo carinho que sempre demonstrou a minha pessoa. Geraldo Jorge Sardinha e Paulo Gomes, sem vocês essa dissertação não existiria. Agradeço imensamente a disponibilidade e a acolhida durante todo o processo. A memória do Calabouço será preservada.

Ao amigo Marcus Vinicius, sou grata por ter me levado de volta a academia e a sonhar esse sonho comigo.

A amiga Carina por ser a inspiração como mulher, mãe e acadêmica; sua força me trouxe até aqui.

A minha psicóloga Juliane Oliveira, pela honestidade, você sempre disse que eu seria capaz e que viver é difícil. Lembrou-me sempre a força que existe em mim, obrigada por elevar minha estima.

À Elisabete Bezerra, por todo suporte dado ao dedicar-se aos cuidados da minha filha; sem a sua ajuda jamais teria conseguido.

A meus pais, Pedro e Lídia, um agradecimento especial. Sou grata pela acolhida na sua casa durante as aulas presenciais, pelo café da manhã, pela pizza da sexta à noite. Por terem me tornado uma mulher e uma filha da qual se orgulham por eu ser como sou. Sinto- me privilegiada por ter pais tão carinhosos. Pai, que bom que você continuou vivo para me ver realizar meu sonho.

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A meu companheiro, Herold Xavier, pelo apoio nessa jornada tão difícil. Obrigada por em muitos momentos sentar ao meu lado e ouvir minhas ideias, por ser minha mão enquanto eu exclamava meu raciocínio. Mesmo cansado, você esteve acordado comigo para que esse projeto fosse concretizado. Serei eternamente grata.

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“É preciso que compreenda que não existe liberdade sem igualdade e que a realização da maior liberdade na mais perfeita igualdade de direito e de fato, política, econômica e social ao mesmo tempo, é a justiça.”

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R E S U M O

O Restaurante Central dos Estudantes/Calabouço foi criado a partir da demanda do movimento estudantil por assistência alimentar à classe, no Estado da Guanabara/ Rio de Janeiro. A reconstrução histórica desse espaço de memória, se deu através de um paralelo das políticas públicas de assistência alimentar, no Brasil, a partir da década de 1940, e suas relações com a política externa no período da Segunda Guerra Mundial na criação do Serviço de Alimentação da previdência Social (SAPS).No contexto de Guerra fria houve uma polarização em âmbito nacional entre os nacionalistas e os defendiam o desenvolvimento do país interdependente, sobretudos, dos Estados Unidos, que norteou os debates em torno das políticas públicas destinadas à classe trabalhadora e estudantil. Por meio de uma revisão bibliográfica e uma análise documental em periódicos, foi possível comprovar a atuação dos estudantes ao direito a uma alimentação digna. Este trabalho demonstra que o Restaurante Central dos Estudantes/Calabouço, construído em 1951 no segundo Governo Vargas, foi palco de articulação das reivindicações do Movimento Estudantil. O Restaurante Calabouço, cuja alimentação era fornecida pelo SAPS, ofertava outros serviços, de baixo custo, aos comensais, como assistência médica, livraria, barbearia Curso de Madureza pelo Instituto Cooperativa de Ensino ICE, que funcionava nas dependências do restaurante. A pesquisa ainda revela que o Regime Militar-Empresarial perseguiu os estudantes, frequentadores do Restaurante Calabouço. Após o incêndio a sede da União Nacional dos Estudantes aquele espaço virou uma espécie de sede do movimento estudantil. Havia uma participação ativa naquele espaço, administrada União Metropolitana dos Estudantes, desde sua criação até promulgação da Lei n.º 4 464 conhecida como Lei Suplicy em 1964. Várias verbas e reformas de manutenção e melhoria dos serviços do Restaurante Central dos Estudantes/Calabouço foram feitas durante toda sua existência. A pesquisa realizada resgatou, memórias sobre a repressão e a violência, aos comensais do Restaurante Central dos Estudantes /Calabouço, a partir das obras do Trevo Rodoviário que dá acesso ao Aterro do Flamengo e na resistência dos estudantes contra a demolição do galpão que abrigava o Calabouço, a demolição às obras para a construção de um novo restaurante foi marcada por protesto como a Operação Pendura que causou grande mal-estar na sociedade fluminense. Após a entrega do Novo Calabouço em 1967, as manifestações continuaram, pois, o Governador

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de Negrão de Lima entregou o prédio inacabado, a Operação Pedágio foi uma tentativa dos estudantes de terminarem as obras que culminou no assassinato do estudante Edson Luís pela PM da Guanabara, em 1968, fato que originou uma série de manifestações contra o Regime, resultando na ‘Passeata dos 100 mil’. O calabouço é extinto em 1969.

Palavras-chave: Movimento estudantil - Políticas de Educação - Assistência Alimentar

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A B S T R A C T

The Central Students' Restaurant /Calabouço was created out of the demand of the student movement for food assistance to the class, in the State of Guanabara / Rio de Janeiro. The historical reconstruction of this memory space took place through a parallel of public policies for food assistance in Brazil, starting in the 1940s, and its relations with foreign policy in the period of World War II in the creation of the Food Service of Social Security (SAPS). In the context of the Cold War, there was a national polarization among nationalists and defended the development of the interdependent country, above all, of the United States, which guided the debates around public policies aimed at the working class and student. Through a bibliographic review and document analysis in periodicals, it was possible to prove the students' performance in the right to a decent food. This work demonstrates that the Central Students' Restaurant / Calabouço, built in 1951 under the second Vargas Government, was the stage for articulating the demands of the Student Movement. The Calabouço Restaurant, whose food was provided by SAPS, offered other low-cost services to diners, such as medical assistance, bookstore, barber shop, supplementary course by the Instituto Cooperativa de Ensino ICE, which operated on the restaurant premises. The survey also reveals that the Military-Business Regime persecuted the students, who frequent the Calabouço Restaurant. After the fire, the headquarters of the National Students Union that space became a kind of headquarters for the student movement. There was active participation in that space, administered by the Metropolitan Students 'Union, from its creation until the enactment of Law No. 4 464 known as the Suplicy Law in 1964. Various amounts and maintenance and improvement reforms at the Central Students' Restaurant / Calabouço were made throughout its existence. The research carried out, rescued memories of repression and violence, to the guests of the Central Students' Restaurant / Calabouço, from the works of the road clover that gives access to Aterro do Flamengo and in the resistance of students against the demolition of the warehouse that housed In the dungeon, the demolition of the works for the construction of a new restaurant was marked by a protest such as Operation Pendura, which caused great unease in Rio de Janeiro society. After the delivery of the new Calabouço in 1967, the demonstrations continued, because the Governor of Negrão de Lima handed over the unfinished building, Operation Pedágio was an attempt by the students to finish the works that culminated in the murder of the student Edson Luís by the Guanabara PM , in 1968, a fact that originated a series of demonstrations against the Regime, resulting in the 'Passade of the 100 thousand'. The dungeon became extinct in 1969.

Key words: Student movement (1951-1969). Education Policies - Brazil (1951-1969). Student Resistance Movements - Dictatorship. Student Food Assistance (1951-1969). Restaurante Calabouço.

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Lista de Siglas

AEC Administração dos Estudantes do Calabouço AI Ato Institucional

AIB Ação Integralista Brasileira ALA Aliança Libertadora Acadêmica

AMES Associação Metropolitano dos Estudantes Secundários

AP Ação Popular

ASCOFAM Associação Mundial de Luta Contra a Fome BIRD Banco Interamericano de Desenvolvimento BNDE Banco Nacional de Desenvolvimento CAD Coligação Acadêmica Democrática CALC Centro Acadêmico Luiz Carpenter

CBDU Confederação Brasileira de Desportos Universitários CCC Comando de Caça aos Comunistas

CDR Comissão de Defesa do Restaurante CEB Casa dos Estudantes

CIA Agencia Central de Inteligência CNA Conselho Nacional de Alimentação

CNAE Companhia Nacional de Alimentação Escolar CNE Conselho Nacional de Estudantes

CNI Confederação Nacional de Indústria

CNPQ Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico COBAL Companhia Brasileira de Alimentos

COFAP Comissão Federal de Abastecimento e Preços

CR$ Cruzeiros

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DCE Diretório Central dos Estudantes

DCUB Diretório Central da Universidade do Brasil DE Diretório Estudantil

DOPS Departamento de Ordem Política e Social DOU Diário Oficial da União

EBSA Revista Editora do Brasil EME Escola de Medicina

EMFA Estado Maior das Forças Armadas ENE Escola Nacional de Engenharia ESG Escola Superior de Guerra EUA Estados Unidos da América

EXIBANK Banco de Exportação e Importação FAC Convenção de Ajuda Alimentar

FAO Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura FISI Fundo Internacional de Socorro à Infância

FJD Frente da Juventude Democrática FMI Fundo Monetário Internacional

FUEC Frente Unida dos Estudantes do Calabouço GATT Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio

IAPI Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários IBAD Instituto Brasileiro de Ação Democrática

ICE Instituto Cooperativa de Ensino

INPS Instituto Nacional de Previdência Social IPES Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais JC Juscelino Kubitschek

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LDB Lei de Diretrizes e Bases da Educação MAC Movimento Anticomunista

MEC Ministério da Educação e Cultura MES Ministério da Educação e Saúde NCR$ Cruzeiros Novos

NSC Conselho de Segurança Nacional OEA Organização dos Estados Americanos ONG Organizações não governamentais ONU Organização das Nações Unidas

OTAM Organização do Tratado do Atlântico Norte PAEG Programa de Ação Econômica

PAM Programa Alimentar Mundial PCB Partido Comunista Brasileiro

PED Programa Estratégico de Desenvolvimento

PL Projeto de Lei

PSB Partido Socialista Brasileiro PTB Partido Trabalhista Brasileiro PUC Pontifícia Universidade Católica RCE Restaurante Central dos Estudantes

RU Restaurante da UNE

SAPS Serviço de Alimentação da Previdência Social STAN Serviço Técnico de Alimentação Nacional

SURSAN Superintendência de Urbanização e Saneamento do Estado da Guanabara TIAR Tratado Interamericano de Assistência Recíproca

UBES União Brasileira dos Estudantes Secundários UDN União Democrática Nacional

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UFF Universidade Federal Fluminense UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro UJC União da Juventude Comunista

UME União Metropolitana dos Estudantes

UMES União Metropolitana dos Estudantes Secundários UNE União Nacional dos Estudantes

UNESCO Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura UNICEF Fundo Internacional de Emergência das Nações Unidas para a Infância URRAA Assistência e Habilitação das Nações Unidas

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SUMÁRIO

1.INTRODUÇÃO... 18

CAPÍTULO 1: A CONJUNTURA HISTÓRICA DAS POLÍTICAS

ALIMENTARES DE 1930- 1964... 23

1.1 A Política Externa dos Estados Unidos 1918 a 1968... 23

1.2 Política Alimentar e o Contexto Internacional... 30

1.2.1 A Política De Ajuda Alimentar Do Programa Alimentar Mundial

(PAM)... 31

1.3 Política Exterior do Brasil (1930-1964) ... 35

1.3.1 Política Alimentar e o Contexto Nacional... 49

CAPÍTULO 2 - OS ESTUDANTES E OS RESTAURANTES ESTUDANTIS: DE VARGAS A JANGO... 55

2.1 Os Estudantes E O Estado Novo... 55

2.2 A Posição Dos Estudantes Contra o Nazifascismo... 56

2.3 A Disputa Pelo Movimento Estudantil no âmbito da Segunda Guerra Mundial...

57

2.4 O Período Republicano: Anticomunistas e Comunistas disputam a UNE.... 60

2.5 O anticomunismo nos anos 60... 66

2.6

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CAPÍTULO 3 - O CALABOUÇO E A DITADURA

MILITAR-EMPRESARIAL (1964- 1969) 85

3.1 A conjuntura política de 1964 a 1969... 85

3.2 A ditadura e o campo educacional... 93

3.3 Os primeiros anos da ditadura e o RCE /Calabouço... 97

3.4

3.5

As obras do trevo rodoviário e a demolição do REC/Calabouço...

Um novo restaurante... 100

104

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS... 116

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1.INTRODUÇÃO

O propósito deste estudo é reconstruir a história e a memória do Restaurante Central dos Estudantes (RCE), conhecido Restaurante Calabouço (RCE/Calabouço), as políticas de assistência alimentar estudantil no duro período da ditadura, a luta, vitórias e frustações dos estudantes no contexto brasileiro e das tensões do capitalismo de então. O RCE/Calabouço funcionava na Ponta do Calabouço, na cidade do Rio de Janeiro, e seu nome deve-se ao fato que naquela região existia a Prisão do Calabouço, destinada ao castigo de escravos, no período colonial.

O RCE/Calabouço foi inaugurado em 1951, durante o segundo Governo Vargas (1950-1953). Resultou das reivindicações do Movimento Estudantil, que perdeu o restaurante que antes funcionava na sede da União Nacional dos Estudantes (UNE), durante o governo do General Eurico Gaspar Dutra.

Para além de refeitório, RCE/Calabouço abrigava uma série de outros serviços para classe estudantil, tais como policlínica, barbearia, livraria, com serviço a preços populares e era administrado pela União Metropolitana dos Estudantes (UME). As refeições tinham um valor simbólico e eram fornecidas pelo Serviço de Alimentação da Previdência Social (SAPS), mediante subsídios de um convênio protocolado com o Ministério da Educação.

A trajetória do RCE/Calabouço é de luta constante por sua manutenção. Em 1967, o espaço foi demolido para obras de um trevo rodoviário, que dava acesso do Centro da Cidade ao Aterro do Flamengo e que atualmente é chamado de Viaduto Estudante Edson Luís de Lima Souto. O outro restaurante foi construído no Estácio, que posteriormente foi demolido, em 1969, após o endurecimento do Regime Militar e a promulgação do Ato Institucional n° 5, em novembro de 1968.

A pesquisa busca compreender como se deu a relação do movimento estudantil quanto à manutenção do RCE/Calabouço frente aos governos no período de 1945 a 1969. Os motivos que inspiraram o interesse no desenvolvimento dessa pesquisa tiveram sua origem no evento de lançamento do livro de Geraldo Jorge Sardinha, estudante do calabouço e integrante da organização política estudantil, denominada Frente Única dos Estudantes do Calabouço (FUEC), cujo título é ‘Calabouço - Rebelião dos Estudantes contra a Ditadura Civil-Militar em 1968.

A obra de Sardinha foi lançada no ano de 2017. Na ocasião do lançamento o autor fez um apelo à plateia para que essas memórias fossem resgatadas. Após o evento, o Sindicato dos Profissionais de Educação do Estado do Rio de Janeiro (SEPE-RJ) - Núcleo

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Maricá,1 realizou o lançamento do livro e um documentário sobre o livro no município, no então, Cinema Público Municipal Henfil. Tendo participado da comissão de organização e execução do evento, a aproximação junto aos antigos estudantes e militantes do RCE/Calabouço, além do contato com próprio Geraldo Sardinha e do advogado Paulo Gomes, que escreveu o prefácio do livro, foi fundamental no processo de pesquisa. Diversos relatos de suas memórias motivaram traçar uma estratégia para elaboração da presente pesquisa.

Outro fator de motivação está relacionado ao exercício do magistério e à constante luta por uma educação pública de qualidade, que além de suprir da carência intelectual, também considere a carência alimentar entre os estudantes, em especial daqueles que pertencem às classes menos favorecidas. Entende-se que seja fundamental a elaboração, aprimoramento e aplicação constante de políticas de alimentação escolar, dada, sobretudo, à abissal desigualdade social brasileira.

A pesquisa acerca do RCE/Calabouço a princípio resultou de uma vasta busca em bancos de teses e artigos que abordassem o tema. As principais menções registradas acerca do REC/Calabouço giram em torno do assassinato do estudante Edson Luís de Lima Souto. O crime, ocorrido nas dependências do restaurante, se deu durante uma ação policial de repressão política ao movimento estudantil, quando este realizava um de seus protestos. A repercussão desse assassinato desencadeou uma série de eventos, que culminaram na Marcha dos 100 mil, reconhecida com a maior manifestação pública contra a ditadura militar-empresarial.

A principal indagação que provocou essa pesquisa foi a necessidade de compreender o porquê do apagamento da história em torno do RCE/ Calabouço. Como e por que um estudante foi assassinado por um agente do Estado enquanto protestava em um restaurante popular destinado à classe estudantil?

A criação do RCE/Calabouço está inserida no contexto histórico, onde a atuação do movimento estudantil está pautado não só nas questões pertinentes a classe, mas também no reconhecimento dos fatores que à época influenciavam tanto as políticas nacionais internas quanto às externas, consideradas vitais para o desenvolvimento da nação nas esferas econômica, política e social.

Acerca dos pressupostos teóricos metodológicos, as reflexões aqui desenvolvidas foram delimitadas ao campo da memória ou dos lugares de memória.

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Para Rodrigo Motta, a memória exerce um imenso poder na construção de uma identidade coletiva ou individual, acarretando em um autoconhecimento e sentimento de pertencimento. A intensidade desta memória incide em mecanismo aglutinadores, onde está é sempre renovada, “[...] principalmente em situações em que uma reflexão externa tenta solapar ou minar os elementos que unem o grupo e lhe confere um sentido particular.¨ (Motta in Cardoso e Vainfas , 2012, p.25).

De acordo com Le Goff a memória coletiva está ancorada em dois materiais, o monumento, sendo a própria herança do passado, e o documento, que é a escolha do historiador, dentro de uma perspectiva científica; ou seja, cabe ao historiador selecionar o que sobrevive como memória. Desse modo o autor explica que “[...] o monumento é tudo aquilo que pode evocar ao passado [e] perpetuar recordação, [como] por exemplo [os] atos escritos” (Le Goff, 1990, p.462). Quanto ao documento, o autor argumenta que o mesmo teve uma transformação ao longo do tempo e que é considerado como uma prova, sendo que é um material cuja “[...] objetividade parece opor-se à intencionalidade do monumento. Além do mais afirma-se essencial como um testemunho escrito.” (Le Goff, 1990, p.463).

Para Pierre Nora (1993, p. 9), a memória e a história não são termos sinônimos. Para ela a memória está ligada diretamente às vivências de um determinado grupo onde ela se encontre em constante processo evolutivo, influenciada pelos processos dialéticos da lembrança e do esquecimento, não consciente das alterações sofridas, estando exposta a períodos de ostracismos e revitalizações ocasionais. De acordo com o autor, os lugares de memórias, necessariamente, fazem simultaneamente parte do efetivo material, simbólico e funcional. Para essa pesquisa, o RCE/Calabouço representa este lugar de memória, conforme se pretende descrever neste trabalho.

A presente dissertação foi fruto de uma revisão bibliográfica em torno da política externa envolvendo o Brasil e os Estados Unidos. Para tanto se ancorou em autores como Cristina Soreanu Pecequilo, Amado Luiz Cervo Clodoaldo Bueno e Luiz Alberto Muniz Bandeira. Os estudos realizados por esses, dentre outros autores contribuíram de forma assertiva no entendimento do contexto histórico e demais fatores que interferiram nas formulações das políticas públicas no campo da questão alimentar, no Brasil, a partir dos anos de 1930.

A abordagem da questão alimentar resultou de uma revisão interdisciplinar de artigos produzidos nos cursos de nutrição. Observou-se uma escassa literatura dessa temática no campo da historiografia. Para a elaboração argumentativa da questão, dentre os autores de referência recorreu-se a Thiago Lima, Valéria Burity, Atos Rabí Dias

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Nascimento, Renato Maluf, Renato Carvalheira do Nascimento e Francisco de Assis Vasconcelos.

O segundo momento da presente pesquisa estruturou-se a partir de uma revisão historiográfica acerca do movimento estudantil e sua trajetória desde a fundação da UNE até o Governo de João Goulart. Como referenciais para essa análise foram, dentre outros, Arthur Poerner, Katya Mitsuko Zuquime Braghini, Maria Paula Araújo. As contribuições trazidas por esses autores possibilitaram contextualizar o movimento estudantil no âmbito da política nacional, sobretudo quanto as consequências enfrentadas por tensões protagonizadas pelos defensores do anticomunismo, enquanto tática de governos para enfraquecer o movimento estudantil. Dentre as marcas desse momento histórico nacional, registra-se o fechamento do restaurante da UNE, quando na ditadura o RCE/Calabouço era associado a um espaço subversivo.

No Período posterior ao Golpe MIlitar Empresarial de 1964, o RCE/Calabouço estava na mira do regime, pois de acordo com Luiz Antônio Cunha (1988) e José Wellington Germano (1993), uma das primeiras ações desses governos foi a perseguição ao campo da educação. Um regime autoritário, caracteristicamente intransigente, promove o silenciamento de uma parcela da população, segundo seus interesses.

Processos conjunturais adversos foram atenuantes importantes. A eleição de governador Negrão de Lima, em 1967, para o estado da Guanabara, todavia, foi considerada importante para o movimento estudantil, pois como se tratava de um governo de oposição, no início da Ditadura, permitiu que os estudantes resistissem às políticas de desmonte dos direitos sociais vivenciadas naquele período.

A reconstrução dessa história silenciada se valeu dos recursos metodológicos creditados à história oral. Caracterizada por ser uma metodologia de pesquisa e de constituição de fontes, através de entrevistas gravadas com indivíduos que participaram ou testemunharam acerca de um determinado contexto histórico, como assinala Alberti (in PINSKY, 2006 p. 155). As entrevistas foram realizadas com Geraldo Jorge Sardinha, Paulo Gomes e Zulmira Batista. Esses são nomes que figuraram entre os comensais do Calabouço; também foram integrantes do movimento de resistência dessa instituição. Ao relatar suas memórias, apontaram caminhos para o desenvolvimento dessa pesquisa.

As entrevistas foram fundamentais para o pesquisa, pois a partir dela foi possível visualizar com mais clareza o objeto de estudo, no entanto, para está dissertação, como forma de manter um distanciamento, visto que tanto o Sardinha e Paulo Gomes, tornaram-se próximos, prioritariamente utilizei a fonte documental.

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As investigações contaram de forma determinante com os fatos descritos em 2 periódicos publicados na época que se devotaram a registrar os acontecimentos políticos e sociais ocorridos no período. Os periódicos selecionados foram o Diário de Notícias e o Correio da manhã, os quais estão disponibilizados na hemeroteca digital da Biblioteca Nacional. A escolha deveu-se ao histórico de grande circulação desses veículos, os quais eram um tipo de porta vozes da classe média brasileira. Destaque-se que ambos foram favoráveis ao Golpe Militar-Empresarial; também que ambos foram fechados durante o regime, quando adotaram uma postura de oposição ao governo.

Acerca do RCE/Calabouço, o discurso apresentado nas primeiras publicações do Correio da Manhã e Diário de Notícias, no período democrático, no início da década de 1950, é de endossamento da necessidade da assistência alimentar estudantil. O tratamento dispensado ao movimento dos estudantes, variava entre a consternação com a insuficiência do serviço apontada por estes veículos e apoio, de uma maneira geral, ao direito de reivindicação da categoria.

Na década de 1960, em via contraditória, observa-se uma guinada no direcionamento ideológico do discurso apresentado pelas fontes. O tom, então passa a ser de criminalização do espaço do RCE/Calabouço, estigmatizando-o como um local de agitação e organização de insurgências. Este fato está diretamente ligado à influência do pensamento conservador anticomunista da época, no contexto da Guerra Fria, que foi guiado pela orientação da ESG, IPES e EBSA. Após o Golpe Militar Empresarial de 1964, acentua-se tal discurso anticomunista, uma vez, que as organizações de orientação esquerdistas foram postas na clandestinidade. Tal marginalização se expressa, seja pela destruição de estruturas físicas de instituições, como o caso do incêndio do prédio da UNE, seja pela cassação de direitos políticos, prisões e perseguições da militância estudantil.

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CAPÍTULO 1: A CONJUNTURA HISTÓRICA DAS POLÍTICAS ALIMENTARES DE 1930- 1964

Neste capítulo será abordado um breve histórico das relações exteriores entre o Brasil e os Estados Unidos e como o contexto da primeira metade do século XX, contribuiu para que o Brasil adotasse medidas de combate à fome, a partir do primeiro Governo Vargas. Os Estados Unidos merecem uma atenção, pois como potência mundial em ascensão, teve grande influência da sua política externa em relação ao Brasil, no pós 2° Guerra Mundial.

1.1 A política externa dos estados unidos de 1918 a 1968

A Primeira Guerra Mundial foi um marco na história das relações internacionais do século XX. Apesar da vitória das forças ditas “democráticas”, a instabilidade política, econômica e social, todavia, persiste no período do pós-guerra, o que proporcionou inclusive a ascensão dos regimes nazifascista. Na esfera econômica, por exemplo, como consequência dessa instabilidade, a história foi marcada com a Grande Depressão de 1929, quando uma grande crise se instalou e perdurou pelo menos até a Segunda Guerra. Nesse período, eventos como a quebra da Bolsa de Nova York2 provocaram uma crise econômica que se iniciou nos Estados Unidos da América e se espelhou para o resto do mundo.

O aprofundamento da crise econômica e política vivenciada ao longo do período pós-guerra favoreceu ao avanço dos movimentos totalitários, representados, sobretudo, pelo fascismo de Mussolini na Itália e pelo Nazismo na Alemanha, com Hitler3. Ambos os movimentos contaram com amplo apoio das massas, uma vez que os mesmos estavam amparados em uma retórica da volta ao passado ideal. Tais movimentos produziram uma crise de identidade4, principalmente nos indivíduos que viviam nos países derrotados pela

Primeira Guerra, uma vez que a crise econômica provocava um sentimento acentuado de perda de lugar no mundo. O descontentamento e desencantamento popular eram expressos nos ressentimentos nacionalistas, na ameaça do comunismo e culminaram em Estados extremamente frágeis. Estas características criaram as condições ideias para a

2 “[...] com a quebra da bolsa de Nova York, em 29 de novembro de 1929. Equivaleu a algo muito próximo

do colapso da economia mundial, que agora parecia apanhada num círculo vicioso, onde cada queda dos indicadores econômicos (fora o desemprego, que subia a alturas sempre mais astronômicas) reforçava o declínio em todos os outros.” (Hobsbawm, 1995. p. 96)

3 Após a 1° Guerra Mundial a Alemanha obteve uma rápida recuperação econômica, e com Hitler buscou

os objetivos do imperialismo, criando assim O Terceiro Reich. Outro fator que garantiu um avanço das posições e o fortalecimento da economia alemã, se deve ausência dos Estados Unidos no sistema internacional e o enfraquecimento das potências como Grã-Bretanha e França.

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expansão dos regimes autoritários, conforme assinala Cristina Soreanu Pecequilo (2011, p. 107).

A postura dos Estados Unidos no pós Primeira Guerra Mundial foi o de abandono do arranjo pós Versalhes5. Os EUA se desligaram nos negócios internacionais, mantendo

e ampliando somente contratos nos setores financeiros e comerciais. Tal postura significou indícios de que os norte-americanos não desejavam se envolver nas questões políticas do continente europeu. Isso se deu como resultado da Grande Depressão, de 1929, e da já mencionada quebra da Bolsa de Nova York, conhecida como umas das mais profundas crises no capitalismo do século XX. Tal crise fez com que os Estados Unidos se voltassem para as questões domésticas.

Como resposta e enfrentamento da crise, o Presidente Roosevelt criou um projeto de recuperação conhecido como New Deal. Esse projeto estava baseado numa política de bem-estar social6 e contribuiu significativamente para que o país superasse a crise e recuperasse a sua economia. Ao sair vitorioso da Segunda Guerra Mundial, o país resgatou a sua posição de potência mundial.

Com o encerramento da Segunda Guerra Mundial, uma sensação de instabilidade pairava no que se refere à política externa estadunidense; o que estava em questão era se os EUA adotariam novamente uma postura isolacionista, como ocorreu na Primeira Guerra Mundial, ou internacionalista, já que no contexto de 1945 os interesses eram distintos do de 1918. Esse novo cenário fez com que os Estados Unidos participassem ativamente dos acordos pós Segunda Guerra Mundial, especialmente no que concerne às mudanças em sua política externa.

Pecequilo (2011, p. 128) aponta três fatores que definiram a forma com que os Estados Unidos se posicionaram no sistema internacional. O primeiro foi o vácuo político dentro do continente europeu, como resultado da Segunda Guerra Mundial, sobretudo das principais potências (Grã-Bretanha, França e Alemanha); nesses países, que eram o centro das relações internacionais, esse vácuo ocasionou um novo espaço de atuação para os EUA. O segundo está diretamente ligado ao benefício que o conflito trouxe para os Estados Unidos, pois já se encontrava melhor posicionado na questão política, diplomática, militar, dentre outras, principalmente por conta de sua entrada tardia na

5 Tratado de Versalhes, foi um acordo assinado entre as potências europeias envolvidas no conflito da 1°

Guerra Mundial, pondo fim ao mesmo. Trouxe como ponto principal a responsabilização da Alemanha pelo conflito, condenando o país a pagar indenizações aos vitoriosos e a perda de territórios para as nações fronteiriças, além de todas suas colônias e restrição do seu exército para âmbito nacional.

6 Estado de bem estar social (welfare state), é um estado assistencial como garantidor de condições mínimas

de renda, alimentação, saúde, assegurados pelo Estado a todos os cidadãos como direito político (Bobbio,1998).

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guerra. O terceiro fator que definiu a posição americana no sistema internacional foi o rearranjo do poder com a ascensão da União Soviética, que gerou uma grande corrida armamentista estimulada por uma guerra-fria.

No período pós-guerra a política externa Estadunidense é reformulada, promovendo uma nova ordem no sistema internacional. Essa nova ordem se estabeleceu de forma favorável aos interesses nacionais americanos, impulsionado pelo declínio das potências Europeias, especialmente nos seus sistemas neocoloniais, originando movimentos de descolonização, influenciados pelos ideais de democracia e liberdade.

Ainda que conflitasse com os interesses dos Aliados, principalmente a Grã-Bretanha e França, os Estados Unidos defenderam sua política anticolonial e anti-imperialista, resgatando as ideias do Wilsonismo7.

“O processo de construção da ordem foi uma expressão prática da missão norte-americana de moldar o mundo à sua imagem e semelhança (a república democrática e liberal) e de sua pretensão em considerar como válidos somente o modelo Norte-Americano de organização e sociedade.”(PECEQUILO, 2011, p. 132).

Durante a Segunda Guerra Mundial, foram criadas instituições como as Nações Unidas, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, nas conferências de Dumbarton e Bretton Woods. A intenção foi de construir a uma ordem, patrocinada pelos Estados Unidos, onde essas instituições definiriam os novos parâmetros entre as nações nos campos políticos e econômico.

“Nesse sentido criou-se uma instituição Universal em seus princípios e valores garantindo direitos e representações iguais a todos os países… Roosevelt foi extremamente realista ao incorporar todos os países a organização e estabelecer uma diferença entre eles, preservando a realidade de poder Mundial e dando poder real somente aos que detinham o sistema.” (PECEQUILO, 2011, p. 133).

A autora destaca que, ao mesmo tempo, em que os Estados Unidos pregavam a igualdade nos países europeus, na prática, essa premissa não funcionava para os países periféricos, uma vez que esses não detinham o poder de decisão sendo, muitas vezes, obrigados a seguir o voto das grandes potências.

7 “...Com Wilson, entram na agenda dos Estados Unidos e das demais nações temas como democracia,

segurança coletiva e autodeterminação, embasados por uma percepção otimista da natureza humana. A visão de Wilson traz esses critérios como componentes fundamentais do ordenamento mundial, entendo como básica a correlação entre democracia e paz e a preservação da paz como objetivo único e supremo de todos os Estados, devendo ser defendida por meios legais e, se necessários, pela ação direta, como o poder e a força a seu serviço e a elas submetidos. De fato, como aponta ainda LaFeber, “Wilsonianismo” se tornou um termo para descrever práticas posteriores que enfatizam o internacionalismo, principalmente de natureza ativista e internacionalista, moralista, retórico, enfatizados a centralidade dos valores democráticos e da liberdade” (Pecequilo, 2011 p. 97)

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A hegemonia norte-americana foi crucial para os arranjos durante a segunda metade do Século XX. Apesar de disseminar um caráter democrático e liberal, onde concentrou e combinou recursos de forma equilibrada, em especial nas organizações de caráter multilateral nas quais detinha liderança, os EUA impunham sua visão de mundo mediante táticas de convencimento, o que ampliou a sua intervenção em vários Estados periféricos, a exemplo do que ocorreu no Brasil.

Um dos desafios à Nova Ordem imposta pelos Estados Unidos, enquanto fator decisivo para o reordenamento da sua política externa está relacionado com a ascensão da União Soviética, considerada como a segunda potência no sistema internacional. Todavia, os valores defendidos pela então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, sendo de orientação socialista, contrastam frontalmente com aqueles defendidos pelos ideais liberais. Após a morte do presidente Roosevelt, dos EUA, Truman assumiu a presidência e o relacionamento com a URSS se deteriorou, dando início ao período conhecido como Guerra Fria. O revolucionário comunista e político soviético Josef Stalin, optou por manter a sua política expansionista. Tal opção causou o rompimento das relações entre os Estados Unidos e União Soviética.

“[...] a ideologia comunista era sobre o ponto de vista, um risco não só a sobrevivência dos Estados Unidos, mas a todas as nações e povos que compartilham os mesmos valores de democracia e liberdade pelos norte-americanos. A percepção desta diferenciação e incompatibilidade de visões de mundo, Representantes de modos de vida sociais, políticos, culturais e econômicos opostos, é uma entre muitas razões que são levantadas para explicar o distanciamento entre os Estados Unidos e a União Soviética e o respectivo endurecimento das políticas que levou à guerra fria. No extremo considerava-se que seria impossível a convivência entre esses dois modos de vida, pois o sucesso de um levaria a eliminação do outro e vice e versa.” (PECEQUILO, 2011, p. 141).

Na visão da autora, o comunismo era uma ameaça ao liberalismo liderado pelos Estados Unidos. A situação de rivalidade permeou a política externa norte-americana até o fim da União Soviética. Além da questão ideológica, a URSS avançara militarmente no leste europeu, o que foi considerado uma ameaça no discurso de Churchill - Premier da Inglaterra - conhecido como “Cortina de Ferro”. Para o Premier, significava uma divisão europeia em áreas de influência dos países capitalistas em contraposição às áreas sob o comando de Stalin.

A interferência Soviética na questão Greco-russa evidenciava a intenção de expandir a sua área de influência, o que, na visão dos países ocidentais, despontara na Guerra Fria. Logo, a doutrina de Truman foi uma resposta a essa interferência, o que deu o tom da política externa americana conhecida como a doutrina da contenção.

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Segundo Pecequilo, a Guerra Fria deve ser compreendida como resultado de um confronto de interesses entre às duas potências; muito embora o artifício da oposição ideológica seja destacado, não se configura como único fator neste contexto.

Na análise de Eric Hobsbawm,

“A peculiaridade da Guerra Fria era a de que, em termos objetivos, não existia perigo iminente de guerra mundial. Mais que isso: apesar da retórica apocalíptica de ambos os lados, mas sobretudo do lado americano, os governos das duas superpotências aceitaram a distribuição global de forças no fim da Segunda Guerra Mundial, que equivalia a um equilíbrio de poder desigual, mas não contestado em sua essência. A URSS controlava uma parte do globo, ou sobre ela exercia predominante influência — a zona ocupada pelo Exército Vermelho e/ou outras Forças Armadas comunistas no término da guerra — e não tentava ampliá-la com o uso de força militar. Os EUA exerciam controle e predominância sobre o resto do mundo capitalista, além do hemisfério norte e oceanos, assumindo o que restava da velha hegemonia imperial das antigas potências coloniais. Em troca, não intervinha na zona aceita de hegemonia soviética.” (HOBSBAWM, 1995, p. 179).

Constata-se a partir dessas análises que a política externa dos Estados Unidos, que se iniciou em 1947, foi pautada na contenção da expansão Soviética e de sua ideologia; para impedir o avanço da URSS por meio de políticas em regiões onde poderia estancar essa expansão, o argumento utilizado era promover a liberdade e independência em relação aos regimes que sinalizassem apoio ao regime soviético.

“A princípio a contenção era definida especificamente como uma política para impedir a expansão do Poder soviético em que o combate ao comunismo aparecia como um aspecto importante, mas não como orientador central da Estratégia, o que aconteceu nas presidências posteriores a Truman. Além disso, também furo ampliado seus métodos de ação para incluir, ao lado da dimensão de ajuda política e econômica, supremacia estratégica, e deveria ser alcançada pelo fortalecimento das capacidades militares.” (PECEQUILO, 2011, p. 153).

O Plano Marshall, conhecido como um programa de recuperação econômica europeia e a Otan (Organização do tratado do Atlântico Norte), foram medidas de contenção ao Modelo Soviético, tomadas pelos EUA.

“Institucionalmente o Plano Marshall deve ser visto como uma das mais profundas e importantes iniciativas da política externa, pois supunha uma ajuda incondicional e ampla dos Estados Unidos à Europa, incluindo todos que quisessem participar objetificando a superação de suas dificuldades econômicas. [...] Politicamente o Plano Marshall visava garantir a estabilidade europeia, como também conquistar aliados, fortalecendo o poder norte-americano.” (PECEQUILO, 2011, p. 154).

A lógica do Plano Marshall era de impedir o agravamento da crise do pós Segunda Guerra, com o intuito de impedir que o regime da URSS se aproveitasse de um ambiente de miséria e pobreza para se consolidar na Europa Ocidental.

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A OTAN representa a concretude do processo de militarização da política externa e central americana, na disputa com a URSS. Esse tratado foi o sustentáculo dos EUA, no ocidente; também resultou das alianças estabelecidas com o Japão e outros locais, no quesito segurança.

A doutrina Truman se estendeu, de forma prática, com a criação do Conselho de Segurança Nacional, conhecido como NSC-68. Consistiu na ampliação dos domínios militares para além da Europa, com a retórica de proteção universal a todos os povos livres. Foi adotada em 1947 e, como resultado desse movimento, foi assinado o TIAR (Tratado Interamericano de Assistência Recíproca).

O NSC-68 pretendia intimidar uma suposta expansão ideológica Soviética, através de um esforço militar, uma vez que a política de contenção inicialmente se dava pela via política e econômica, o que, com o desenvolvimento da Guerra Fria, se mostrara insuficiente.

A Guerra Fria passou por diferentes fases no que se refere à política externa Norte Americana, das quais duas são objeto de destaque na presente pesquisa: a fase de confrontação (1947-1962) e a fase da Coexistência (1963-1969).

Como já mencionado anteriormente, as estratégias de Truman no período da contenção se estabeleceram com a implantação do Plano Marshall e a OTAN. Simultaneamente foram criados instituições e organismos políticos e diplomáticos com a finalidade de conter a URSS a Europa Oriental e, ao mesmo tempo, com o objetivo de promover os princípios e valores norte-americanos - Democracia Liberal. Dentre as instituições criadas nos anos 1940, podemos citar, dentre outros, a ONU (1948), o FMI (1944), o Banco Mundial (1944), e as redes adicionais GATT (1948), TIAR (1947), a OEA (1948).

Em 1952, o presidente Eisenhower, durante as eleições, propôs uma atuação externa dando ênfase para a libertação dos povos que estavam sob o domínio do comunismo, tornando essa diligência numa política ativa, que visava conter a expansão soviética ao passo que objetivava fazer regredir sua influência. Desse modo, Eisenhower, deslocou o foco militar, patenteando quase que exclusivamente a questão nuclear. Como afirma Pecequilo,

“[...]a proposta de Eisenhower, o ‘Novo Olhar’, não desconsiderava a importância do elemento militar, mas deslocava seu foco quase que exclusivamente para o poder nuclear, centrando na habilidade de construir e utilizar essas armas, investido em seu aprimoramento tecnológico de maneira que estivesse garantida uma habilidade ‘suficiente (oposta a uma ideia de superioridade incondicional) para derrotar o adversário’” (PECEQUILO, 2012, p. 178)

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A lógica do ‘Novo Olhar’, de Eisenhower, estava pautada em duas estratégias centrais, quais sejam: a retaliação massiva e a temeridade. Ambas as estratégias visavam evidenciar que não haveria qualquer tolerância a intimidações, em especial, vindas da URSS. “A ameaça nuclear serviria como forma de barrar a escalada de conflitos localizados e seria um mecanismo para solucioná-los” (Pecequilo, 2012, p.178). Essa ameaça, contudo, nada mais era que um blefe, pois, na prática significava uma estratégia politicamente inviável, considerando que os EUA não poderiam cumpri-las.

O discurso de Eisenhower apregoava a libertação das nações dominadas pela URSS, dentro de uma perspectiva anticomunista. Entretanto, apesar do seu discurso libertário, nada atestou a concretização de tal objetivo; apenas evidenciou que a intenção dos EUA não era de ajuda, mas sim de disputa de domínio político. Como exemplo dessas políticas cita-se o caso da Hungria que, após desligamento do pacto de Varsóvia, não recebera qualquer ajuda por parte dos americanos.

Ao final dos anos 1950, a fase de contenção da Guerra Fria dá sinais de enfraquecimento; as ações dos blocos polarizados demonstravam coexistência entre os sistemas, nas regiões de influência. A base disso se fincava no mito de que a URSS teria alcançado uma paridade e talvez até superado os EUA. No entanto, esse mito acirrou ainda mais as relações entre os EUA e a URSS, uma vez que às duas potências incentivaram os processos de descolonização na África e na Ásia. Tal incentivo detinha a finalidade de acabar com o domínio Europeu nesses continentes; para tal, ambas sustentaram o princípio da autodeterminação dos povos.

Nesta nova etapa da Guerra Fria os olhares das potências se direcionaram para os países do terceiro mundo. Os países periféricos tinham como principal preocupação o desenvolvimento econômico, o crescimento demográfico, assim como acerca da forma como lidariam com a modernização política e social. Esse contexto contribuiu de forma determinante para acentuar o enfrentamento das potências no interstício entre 1955 e 1962.

Durante a Gestão Kennedy houve um aumento nos gastos no setor de defesa norte americano, o maior da história daquele país, até então. O anticomunismo e a ideia de combatê-lo com a política de Novas Fronteiras, instaurou uma intervenção na política para o Terceiro Mundo. Não se pode esquecer que a Revolução Cubana, de 1959, trouxe o comunismo às portas dos EUA.

O fracasso no Vietnã e a crise dos Mísseis em Cuba encerraram a primeira fase da Guerra Fria, inaugurando em 1963 a fase de Coexistência Pacífica. Contudo a contenção

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e a disputa por áreas de influência continuaram de forma acentuada, uma vez que nem os EUA, nem a URSS abandonaram sua política imperialista.

A crise gerada pela Guerra do Vietnã proporcionou uma retomada do poder no Congresso Nacional Americano, que passou a intervir em oposição à política externa praticada pelo Executivo. A guerra do Vietnã deflagrou um desgaste do poder dos EUA, uma vez que os altos custos políticos e econômicos sobrecarregam o país.

Para efeito desta dissertação, a proposta é de, a partir de um apanhado geral da política externa norte americana, embasar uma análise sobre a política alimentar, especialmente no contexto pós-guerra, quando se sabe, a fome tornou-se num problema de instabilidade política no mundo, especialmente nos países periféricos. É o que estudaremos na sequência.

1.2 Política alimentar e o contexto internacional

A fome teve um destaque no início do século XX, pois passou a ser uma preocupação enfrentada por diversas nações após a Primeira Guerra Mundial, sobretudo no contexto europeu, onde as economias de diversos países foram afetadas pelo conflito. Fato que se agravou com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, que teve um poder de destruição maior que sua antecessora.

A Segunda Guerra Mundial não se limitou ao território europeu, o que gerou impactos desastrosos no sistema econômico mundial. Com o fim do conflito o mundo bipolarizado foi cenário para uma disputa pela hegemonia política e econômica conhecida como Guerra Fria.

Para frear a expansão do domínio Comunista liderado pela URSS, os Estados Unidos centraram-se em fortalecer sua área de influência, em todos os continentes.

Para que fossem evitados quadros de instabilidade social e política, sobretudo nos países pobres, a fome e a miséria deveriam ser combatidos, através das cooperações internacionais; sendo assim, o combate à fome passou ser um elemento estratégico no campo de disputas pelo controle geopolítico.

Ao longo dos anos diversas organizações multilaterais e acordos internacionais surgiram como resultado de debate de temas como comércio internacional, desenvolvimento da agricultura, ajuda humanitária, dentre outros.

Em 1943, foi realizada a conferência de alimentação de Hot Spring nos Estados Unidos, convocada pelas Nações Unidas e foi um marco nesse novo envolvimento internacional em torno da questão da fome. As Nações Unidas pretendiam com essa

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conferência debater estratégias para reconstrução do mundo pós Segunda Guerra, dado o cenário de destruição.

Uma das posições definidas na conferência foi a criação das Nações Unidas de uma comissão de alimentação e Agricultura, uma vez que a proposta era de garantir o mecanismo de cotas alimentar para que cada país em que a sua soberania alimentar não tivesse sido aprovada.

Food and Agriculture Organization (FAO)8, que surgiu em 16 de outubro de 1945, com uma ativa participação do Brasil, foi considerada a principal iniciativa de articulação para elaboração e planejamento de estratégias contra fome, ao nível Global. No ano de 1945, em Quebec, no Canadá, fundou-se a FAO, organismo internacional que tinha por objetivo discutir problemas relacionados à agricultura e à alimentação. Assim, uma disputa política entre as recém-criadas organizações intergovernamentais já era observada como um reflexo do embate político em busca da hegemonia: enquanto surgiam organizações que, como a FAO, entendiam a alimentação como direito humano, outras instituições como o FMI e o Banco Mundial (dentre outras Instituições de Bretton Woods), entendiam que a segurança alimentar seria garantida por mecanismos de mercado (BURITY et al., 2010, p. 11). Dessa forma, a criação da FAO pode ser entendida como um marco no tratamento da pobreza no pós-guerra, visto que nos períodos anteriores a pobreza era naturalizada e aceita. Assim sendo, a criação da organização representou um marco institucional no tratamento do problema via políticas públicas.

O artigo vinte e cinco da Declaração Universal dos Direitos Humanos preconiza que: “[...] Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si à sua família saúde e bem-estar, inclusive alimentação” (ONU, 1948, p.76)9. O artigo aprovado na assembleia-geral das Nações Unidas de 1948 foi o primeiro a reconhecer o direito à alimentação como uma obrigação Interativa de todos os Estados no âmbito nacional e da comunidade de Estados Nações.

1.2.1 A política de ajuda alimentar do Programa Alimentar Mundial (PAM)

De acordo com Nascimento (2016, p. 27), o PAM é a maior instituição multilateral10 no que tange a ajuda alimentar internacional.

9 Cartilha de direitos humanos das Organizações das nações Unidas.

https://nacoesunidas.org/wp-content/uploads/2018/10/DUDH.pdf

10 O conceito de Multilateralismo é intrinsicamente ligado ao estudo das relações internacionais, com o

advento da globalização com assuntos emergente que foge à esfera estatal, a ação multilateral se torna na tomada de decisões, que não seja mutuamente desagradáveis para os atores no sistema internacional. (Nascimento, 2016, p. 18)

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As origens do PAM estão vinculadas a um fornecimento do caráter institucional e multilateral do regime de ajuda alimentar internacional, uma vez que há preocupação por parte dos Estados em criar instituições de combate a fome no mundo.

“Embora o PMA seja resultado de fortalecimento da preocupação com a fome no mundo nem sempre essa preocupação esteve tão latente dentro do regime internacional de ajuda alimentar. Em seus primeiros anos ajuda alimentar era impulsionada pela urgência desse tipo a residentes agrícolas, ou seja, estava intimamente ligada a preocupação econômica dos países doadores embora o fator também estiver presente (mesmo que em escala menor).” (NASCIMENTO, 2016, p. 27).

Duas reuniões na década de 1940 originaram no regime de ajuda alimentar. Franklin Delano Roosevelt, então o presidente dos EUA, em maio de 1946, havia convocado uma reunião que estabeleceria as bases para a criação das FAO; um acordo assinado em Washington, em novembro do mesmo ano, criou assistência e habilitação das Nações Unidas (UNRAA)11. Cabe ressaltar que ambas as instituições representavam apenas uma temática, dentre várias abordadas.

A FAO é uma organização que, em sua criação, possuía princípios e diretrizes com a finalidade de eliminar excedentes agrícolas; também conhecido como princípios de disposições de excedentes, foram criados pelo subcomitê de disposições de excedentes, em 1954. Considerada como uma das primeiras experiências multilaterais de ajuda alimentar, serviu de base para as atividades do PAM.

Ainda de Acordo com Nascimento (2016, p. 28), os EUA, em 1954, criaram a PL 480, que colocaria o país como o principal doador da ajuda alimentar internacional. Essa PL 480, para além da ajuda alimentar, preocupava-se com a necessidade de escoamento de excedente e a abertura de mercado exterior.

“Em seu princípio, a ajuda alimentar foi constituída tendo em vista uma ligação estreita com o mercado mundial de alimentos. Essa primeira época do regime internacional de ajuda alimentar esteve fortemente ligada aos interesses, à influência e ao poder hegemônico dos EUA que, desde o início, se destacaram com o ator principal. A transferência de ajuda alimentar era vista como um regime de comércio subalterno, aberta à prática de dumping pelos países doadores.” (HOPKINS, 2009; RUTTAN, 1993, apud Nascimento 2016 p. 28). “Durante as décadas de 1950 e 1960, os EUA, como ator dominante do mercado agrícola internacional, também realizava o esforço de manter reservas de grãos com o intuito de estabilizar os preços internacionais. Os estoques administrados e mantidos pelo governo eram necessários frente ao problema da superprodução pelo qual passava o setor agrícola do país. As compras governamentais dos excedentes de produção (que preenchiam esses estoques) garantiam, principalmente, que os preços das commodities permanecessem a níveis competitivos e satisfatórios e não estivessem

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vulneráveis à volatilidade da oferta de alimentos no mercado internacional […].” (LIMA, 2016, p. 195).

Considerando a hegemonia estadunidense, que influenciava diretamente as políticas internacionais, incluindo a ajuda alimentar, ficam evidenciados os interesses econômicos dos países donatários. De acordo com críticas acadêmicas acerca do modelo de ajuda estabelecido, os interesses econômicos dos países donatários eram retratados nos próprios textos, que definiam os princípios fundamentais do plano de ajuda alimentar. Eram quatro os princípios, os quais foram extensamente criticados pela sociedade civil organizada dos países donatários.

O primeiro princípio rezava que os alimentos fornecidos viriam de estoques regulares de excedentes de produção de nações doadoras; o segundo versava acerca das remessas de alimento, que deveriam complementar a importação dos países destinatários; já o terceiro princípio preconizava os arranjos ad hoc ou compromissos de curto prazo, sensíveis à economia dos países donatários; finalmente, o quarto princípio tratava o objetivo de levar o alimento diretamente à fonte consumidora, ou seja, à população faminta dos países receptores.

Partindo dessas premissas constituídas nos anos 1950, já em 1970 a crítica ao modelo adotado de ajuda alimentar ganhou força. Para alguns grupos da sociedade civil, nos países doadores esse modelo era assistencialista e enfraquecia ainda mais os países receptores da ajuda, uma vez que não estimulava a solução do problema e sim criava dependência. Fomentou-se, então, a ideia de que a ajuda alimentar deveria ser um instrumento pró-desenvolvimento das nações receptoras. Sob a influência das ações da sociedade civil organizada dos países donatários, a ONU estabeleceu novos encargos ao PAM.

As críticas estabelecidas no debate sobre o PAM se materializaram no questionamento direto aos princípios básicos da ajuda alimentar. Tais críticas se mostraram preocupadas com as influências de setores de interesse do mercado, dos países doadores. Nesses países, importantes donatários/exportadores, ao intervirem nas políticas internas em prol da redução da área de plantio, como foi o caso de EUA, Canadá e Austrália, geravam insatisfação com os custos da produção de excedentes. Ao reduzir a área de cultivo, consequentemente, não haveria excedentes, e, dessa forma, ameaçava os estoques regulares necessários à ajuda alimentar, interrompendo o processo.

O princípio da complementaridade de importações foi o foco das críticas da ajuda oriunda dos países ricos. Segundo as referidas críticas, esse princípio lesava a balança comercial dos países receptores, uma vez que a orientação da ajuda tinha como

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característica o desconto na venda de alimentos, e não a substituição de importações; os países receptores converteriam o recurso economizado através da ajuda, em ações desenvolvimentistas. Outra preocupação em relação a esse princípio seria o impacto negativo na produção local do país receptor, estimulando a dependência internacional.

A utilização da condição de ajuda alimentar em curto prazo poderia ser usada como instrumento de manipulação política e econômica de um país doador sobre um país receptor. Esse foi o mote da crítica ao terceiro princípio, visto que os primeiros concediam ajuda segundo seus interesses de mercado e de estado. O quarto princípio foi criticado devido à ajuda destinada ao consumo direto da população em situação de fome; ao contrário do modelo desenvolvimentista, que exige projetos estratégicos na cadeia de produção, essa ajuda conduziria ao desinteresse dos estados receptores em desenvolver o mercado interno de alimentos, levando ao desestímulo da produção agrícola, devido à redução do consumo dos produtos oriundos desta matriz, o que seria um fator de estímulo à corrupção.

Dois fatos podem ser evidenciados como exemplos de outros fatores que influenciaram o regime de ajuda alimentar:

“Outros fatores ao longo do tempo, foram impactantes no que diz respeito à constituição do regime de ajuda alimentar internacional, dentre os quais, convém destacar dois principais: a Food Aid Convention (FAC) e a finalização da Rodada do Uruguai no âmbito do Acordo Geral de Tarifas e Comércio.”(NASCIMENTO, 2016, p. 34).

Nascimento (2016, p. 36), tomando como referência segundo o relatório da 11ª Sessão da Conferência da FAO, realizada em dezembro de 1961, assinala que o PAM, então, teve impacto positivo sobre a promoção da produção agrícola em países em desenvolvimento. Essa 11ª Seção avaliou o contexto mundial sobre os alimentos e a agricultura e atribuiu à redução da expansão agrícola no mundo entre 1960 e 1961 a causas climáticas; apontou ainda para continuação do problema nos anos seguintes, sinalizando uma distorção entre a expansão demográfica, sobretudo em países em desenvolvimento e a oferta de alimentos, com redução da produção per capita destes itens na América Latina e na África a níveis inferiores aos da Segunda Guerra.

Outras preocupações abordadas na Conferência, dentre essas se citam a questão da deterioração dos termos de troca de produtos agrícolas em relação a manufaturados, bem como a instabilidade de valores de mercado; houve destaque para a necessidade de planejamentos cuidadosos para promover a integração ao desenvolvimento econômico e a agricultura nos países menos desenvolvidos. Juntamente com esses apontamentos, o fato dos países desenvolvidos reduzirem sua produção de excedentes através de políticas

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agrícolas protecionistas resultava num insatisfatório fornecimento de alimentos a partir desta origem.

Assim, pode-se observar que:

“Os problemas apresentados pelo relatório requeriam, então, a criação de um mecanismo multilateral que pudesse lidar de maneira coordenada com a questão dos excedentes agrícolas nos países desenvolvidos e com a deficiência alimentar nos países em desenvolvimento, a fim de proporcionar resultados mutuamente vantajosos e minimizar consequências danosas. O plano para isso [...] foi apresentado à comunidade internacional por George McGovern, diretor do programa estadunidense Alimentos para Paz, da administração Kennedy.” (NASCIMENTO, 2016, p. 39).

A política de ajuda alimentar dos EUA, se deu com a reformulação do PL 480, através de um projeto intitulado FOOD FOR PEACE ACT (alimentos pela paz). Esse projeto causou um dissenso no Congresso, conflitando a posição de dois entre os principais grupos: os que se interessavam pelo escoamento de excedentes e os que pretendiam transformar o projeto em ferramenta da sua política externa.

A seguir tece-se uma reflexão sobre o Brasil no contexto da política externa de 1930-1964, momento no qual se começa a pensar em alimentação estudantil no país, sendo esse é o tema basilar desta dissertação.

1.3 Política exterior do Brasil (1930-1964)

Com a ascensão de Vargas, em 1930, conhecida como Revolução de 30, o Brasil não enfrentou problemas internacionais, pois, seu governo foi reconhecido

internacionalmente, sobretudo porque garantiu os compromissos internacionais assumidos pelo país.

Durante os anos 1930, todo esforço do governo nacional se deu em torno do incremento das exportações nacionais, tendo em vista a depressão econômica em razão da quebra da bolsa de Nova York, fato que afetou ao mundo inteiro.

Em 1937, com o advento do estado novo, houve um acolhimento de Berlim e de Roma, devido à identidade ideológica em relação ao novo regime. Washington ficou apreensivo em um primeiro momento. O Brasil, porém, no plano externo, não assumiu nenhuma atitude que eventualmente pudesse levar a um alinhamento às potências do eixo. Uma razão foi a recusa de integrar o pacto Anti-Komintern para não prejudicar sua relação com os Estados Unidos. Vale destacar, também, que o movimento estudantil fez uma pressão interna contrária ao afinamento ideológico do governo Vargas com os países do eixo.

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Vargas tinha uma agenda nacionalista. No entanto, proibiu a propaganda e a organização de partidos políticos de extrema direita, o que ocasionou um estremecimento das relações entre o Estado Novo e o Reich, em 1938.

“A simpatia de Vargas de regimes totalitários europeus, o aumento considerável das trocas comerciais entre Brasil e Alemanha e a aproximação dos dois países também no referente a armamento e colaboração policial não impediram o Estado Novo de cercear as atividades da seção brasileira do Partido Nazista. As atividades políticas foram, aliás, proibidas a estrangeiros.” (CERVO; BUENO, 2002, p. 246).

Cabe aqui ressaltar que havia uma distinção das atividades da Ação Integralista Brasileira (AIB) e a Associação Teuto-brasileira, que funcionava no Sul do país, em razão do contingente imigratório de origem alemã e dos seus descendentes, em consequência da propaganda desempenhada pela seção brasileira do Partido Nazista.

A AIB e o Partido Nazista possuíam ideologias distintas no que se refere a fusão de raças; os integralistas defendiam essa fusão, e contrariavam a concepção nazista de raça pura.

Mesmo com a crise diplomática entre o Brasil e a Alemanha, as relações comerciais entre os países não foram afetadas. As exportações de algodão, dentre outros produtos, ocupavam uma importante posição no comércio exterior brasileiro. No final do ano de 1938, entretanto, a Alemanha reviu sua política para a América Latina, o que logo fez com que a cooperação brasileira aumentasse em relação aos países latino-americanos, junto aos Estados Unidos.

Durante a Segunda Guerra Mundial o Brasil adotou uma postura de neutralidade. Em junho de 1939, Oswaldo Aranha, então ministro das relações exteriores, apresentou a Vargas suas regras de neutralidade; no entanto, previu a dificuldade da neutralidade em caso de conflito generalizado.

A crise do sistema liberal e a Segunda Guerra Mundial estremeceram as relações políticas, no início do século XX, com a ascensão do nazifascismo da Alemanha e Itália, já mencionados anteriormente. Vários países simpatizavam com essa ideologia, dentre esses do Brasil.

Segundo Cervo & Bueno (2002, p. 261), depois do fim da Segunda Guerra Mundial houve acirramento do sistema internacional bipolarizado, que se configurou por um confronto político ideológico, de descolonização e de oposição entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos.

O estabelecimento da supremacia política econômica e cultural estadunidense sobre América Latina, incluindo o Brasil, dá-se imediatamente no pós-guerra, sendo que

Referências

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