Estudo das tendências de abordagens de metodologia de pesquisa em
engenharia de produção
Vânia Cristina de Souza Pereira (UNINOVE) – [email protected]
Prof. Dr. Antonio Roberto Pereira Leite de Albuquerque (UNIP) – [email protected]
Resumo: Engenharia de Produção, segundo a ABEPRO (Associação Brasileira de
Engenharia de Produção), está associada às engenharias tradicionais e, dentre todas as engenharias, é a menos tecnológica, pois além de estudar as tecnologias básicas da engenharia, relaciona-se com várias outras áreas, tais como a economia, meio ambiente, finanças, etc. englobando um conjunto maior de conhecimentos e habilidades. Este trabalho procura identificar as tendências das abordagens de pesquisa em Engenharia de Produção através de uma coleta quantitativa de dados, utilizando uma pesquisa exploratória, em resumos de trabalhos publicados nos graus de dissertação de mestrado, tesa de doutorado e tese de livre docência. Com os dados obtidos foi feita uma análise quantitativa através de gráficos, procurando demonstrar as tendências observadas. As conclusões principais que obtivemos neste trabalho foram de que a grande maioria dos trabalhos na Engenharia de Produção tende às Ciências Sociais e que devido ao grande numero de estudos de casos realizados não se fazem pesquisas inovadoras em engenharia de precisão, nos centros de pesquisa estudados, ou nada de novo há para se estudar nesta área. Ressaltamos, porém, dificuldades encontradas em alguns trabalhos para a determinação acurada de suas abordagens de pesquisa devido a negligências de seus autores.
Palavras-chave: Metodologia, Pesquisa, Engenharia de Produção. 1. Introdução
A Engenharia de Produção desenvolveu-se, ao longo do século XX, pois a Engenharia tradicional e suas ramificações tinham seu foco de voltados para o desenvolvimento, em linhas gerais, para os sistemas técnicos, sem atender às necessidades da época que careciam de métodos e técnicas de gestão dos meios produtivos que permitissem otimizar a utilização de todos os recursos produtivos.
A Engenharia de Produção aborda aspectos relacionados à gestão do negócio, gestão da produção e sistemas técnicos, estando os extremos “linkados” às ciências sociais (administração de empresas) e ciências naturais (engenharias tradicionais) (CUNHA, 2002). Nesse sentido, esta pesquisa visa contribuir para a área de Metodologia e Pesquisa em Engenharia de Produção, fazendo um estudo sobre trabalhos de pós-graduação stricto sensu apresentados em duas instituições de ensino do Estado de São Paulo, buscando, dentro do escopo da pesquisa, visualizar qual a tendência atual da abordagem de pesquisa nesta área. A intenção deste estudo é pesquisar a Engenharia de Produção através de trabalhos acadêmicos nesta área, de forma a descobrir indicações que determinem em que linha da ciência ela se encontra (LAKATOS, 2001).
Para atingir nosso objetivo apresentamos primeiramente um quadro dos conceitos teóricos sobre as abordagens quantitativas e qualitativas (LAKATOS, 2001, LAVILLE 1997, CRESWEL 1994) e pontos de vista igualmente relevantes relacionados à Metodologia e Pesquisa Científica (GOMES, 2003, POPER, 1995, VIEGAS,1999, NAKANO, 1996).
Posteriormente, expomos a metodologia utilizada para a coleta dos dados e a apresentamos em forma de tabelas e gráficos.
Os dados foram coletados na USP-SIBI e são o resultados da análise de 240 (duzentos e quarenta) trabalhos científicos identificados na área de concentração da Engenharia de Produção, no período de 1996 a 2001 apresentados em São Paulo e São Carlos, nos graus de Dissertação de Mestrado, Tese de Doutorado e Tese de Livre Docência.
Procuramos determinar quais as áreas de Engenharia de Produção pesquisadas, de que forma os dados foram coletados, assim como, conhecer como foram realizadas as suas análises. Em seguida, apresentamos os resultados obtidos analisando cada representação gráfica e descrevemos a relação entre as variáveis.
Por fim apresentamos nossas conclusões baseadas nos resultados obtidos.
2. Quadro Teórico
Apresentamos abaixo, na Tabela 1, o quadro relativo às abordagens quantitativas e qualitativas e pontos de vista relevantes relacionados à Metodologia e Pesquisa Científica.
Abordagem Pontos de Vista
Quantitativa Qualitativa
Ciências Naturais Sociais
Epistemológico
(GAMBOA 1989 apud GOMES 2001) Positivismo Interpretativismo
Paradigma Hipotético-dedutivo Holístico-indutivo
Papel do pesquisador Observador à distancia, objetivo Interpretador da realidade, imerso no contexto Natureza dos dados Pesquisa de dados objetivos ou de fatos Pesquisa subjetiva de opiniões e atitudes
Método de Raciocínio Dedutivo Indutivo
Ontológico
(DAUM e MERTEN, 2002 apud
http://lattes.cnpq.br/lmpl/ontologias.htm) Objetivismo Construtivismo
Objetivos Estudos confirmatórios Estudos exploratórios
Tipo dos dados Simples, fragmentáveis, tangíveis, mensuráveis e convergentes
Múltiplos, construídos através da interação humana, holística e divergente.
Representação dos dados Numéricos Verbais
Reprodutibilidade dos dados Repetitivos Não repetitivos
Análise de dados Estatística. Inferências a partir das amostras Conteúdo.Padrões a partir dos próprios dados Tabela 1. Abordagens quantitativas e qualitativas e pontos de vista
2. Metodologia
2.1. Universo da Pesquisa
Foram coletados na USP-SIBI, os resumos de 240 trabalhos identificados na área de concentração da Engenharia de Produção, no período de 1996 a 2001, apresentados em São
Paulo e São Carlos, nos graus de Dissertação de Mestrado, Tese de Doutorado e Tese de Livre Docência (Figuras 1 e 2).
Não foram analisados os trabalhos publicados nos anos de 2002 e 2003 porque os mesmos ainda não estavam cadastrados no sistema USP-SIBi, visto que a pesquisa teve início em julho de 2002.
Fonte: Pesquisa USP-SIBi. 2003
Figura 1. Ano de Publicação dos trabalhos analisados. .
Fonte: Pesquisa USP-SIBi. 2003
Figura 2. Grau e cidades dos trabalhos analisados.
2.2 Áreas da Engenharia da Produção
As áreas de concentração na Engenharia de Produção foram baseadas nas informações contidas no site da ABEPRO - Associação Brasileira de Engenharia de Produção e se dividem em 11 áreas principais: Gerência de Produção, Qualidade, Gestão Econômica, Ergonomia e Segurança do Trabalho, Engenharia do Produto, Pesquisa Operacional, Estratégias e
Organizações, Gestão da Tecnologia, Sistemas de Informação, Gestão Ambiental, Ensino da Engenharia de Produção
Na tabulação (Figura 3) dos dados foram consideradas as 11 áreas principais, sendo que existem sub-áreas, que serviram de auxílio para a melhor identificação durante a classificação.
Fonte: Pesquisa USP-SIBi. 2003.
Figura 3. Áreas da Engenharia de Produção dos trabalhos analisados.
A Figura 4 nos apresenta a evolução da quantidade de trabalhos, das cinco áreas mais pesquisadas no período abrangido por este trabalho.
Fonte: Pesquisa USP-SIBi. 2003.
Figura 4. Evolução da quantidade de trabalhos nas Áreas da Engenharia de Produção.
2.3 Confiabilidade dos Dados
Durante a análise dos trabalhos foram tomadas precauções extras para a determinar qual o nível de confiabilidade das informações referentes às metodologias de pesquisa utilizadas visando uma análise mais acurada para a conseqüente classificação. Foram criados então os níveis: Identificado, Não Identificado, Definido pelo Autor, Resumo Inconsistente
Fonte: Pesquisa USP-SIBi. 2003
Figura 5. Níveis de Confiabilidade dos trabalhos analisados.
Fonte: Pesquisa USP-SIBi. 2003
Figura 6. Níveis de Confiabilidade dos trabalhos analisados.
4. Tipos de Pesquisa (Métodos de Coleta de Dados)
Partindo de vários métodos de pesquisa encontrados na literatura e os identificados pelos autores, determinamos uma tabela e analisamos os trabalhos publicados. As Figuras 7 e 8 apresentam os números e gráfico das formas de coleta de dados dos trabalhos publicados.
Fonte: Pesquisa USP-SIBi. 2003
Figura 7. Tipos de Pesquisa nos trabalhos analisados.
Fonte: Pesquisa USP-SIBi. 2003
Figura 8. Evolução da quantidade de trabalhos nos Tipos de Pesquisa.
Pelo fato do estudo de caso ser o mais citado (58,33%) dividimos esta categoria em três subcategorias.
1. Estudos de caso que são feitos e concluem que se sujeitam a uma teoria previamente exposta;
2. Estudo de caso feito a partir de uma teoria (modelo) previamente exposta, e; 3. Estudo de caso que é feito e que propõem uma teoria (modelo) na qual se
inclui.
Fonte: Pesquisa USP-SIBi. 2003
Figura 9. Estudos de Caso nos trabalhos analisados.
5. Tipos de análise de dados
Com base nos trabalhos observados e na literatura pesquisada, apresentamos nas tabelas e gráficos abaixo os tipos de analise de dados. (Figura 10 e Figura 11).
Fonte: Pesquisa USP-SIBi. 2003
Figura 10. Tipos Análise dos Dados nos trabalhos analisados.
Fonte: Pesquisa USP-SIBi. 2003
5. Dados originados na pesquisa
A Figura 12 apresenta os dados originados a partir dos tipos de pesquisa, baseados nas abordagens qualitativa e quantitativa.
Fonte: Pesquisa USP-SIBi. 2003
Figura 14. Dados originados na pesquisa dos trabalhos analisados.
5. Conclusões
Algumas considerações são fundamentais para o delineamento do trabalho feito, principalmente no que concerne à área de Engenharia de Produção, que se salienta, dentre outras, no decorrer dos anos abrangidos pela pesquisa, como a de maior concentração de estudos, destacando-se também no grau de Dissertação de Mestrado.
Faz-se necessário considerar sobre outras áreas tais como, Gestão de Tecnologia e Estratégia e Organização, às quais foram dedicados respectivamente Estudos de Caso sem modelo prévio nem posterior, e forma de Análise Comparativa.
Tomando-se como referencial o período de tempo contemplado pelo presente trabalho de pesquisa, a análise da forma como os dados foram coletados nos trabalhos consultados, denuncia o Estudo de Caso como o mais utilizado, ao passo que, num recorte dessa modalidade, verificamos que o Estudo de Caso sem Modelo Prévio é o que se destaca no período.
Relevante dizer que parte dos trabalhos analisados não deixou claros os métodos utilizados em sua pesquisa, em razão do negligenciamento de detalhes essenciais no resumo o que criou entraves à apreciação do estudo feito. A falta de informações sobre o enunciado da questão de pesquisa, os detalhes sobre os métodos de validação, as informações relativas à amostra ou sobre as delimitações do estudo dificultou a nossa tarefa de avaliação.
Quase 3/4 das pesquisas em Engenharia de Produção investigadas utilizaram a Abordagem Qualitativa para a coleta e análise dos dados, sendo que pouco mais de 2/4 dos trabalhos investigados utilizou a forma de Estudo de Caso e pouco menos de 2/4 utilizou a Análise Comparativa ou Apresentação de um Modelo de Aplicação a partir de uma teoria prévia. A alta porcentagem de estudos de casos, mais de 50 % como abordagem de pesquisa poderia nos, em primeiro momento, leva-nos a acreditar que; não se fazem um grande numero de pesquisas inovadoras em engenharia de precisão, nos centros de pesquisa estudados, ou nada de novo há para se estudar nesta área. Ressaltamos que esta conclusão parcial não deve ser conclusiva merecendo estudos em outros centros de pesquisa.
Referências
228p.
CUNHA, G.D. Um panorama atual da Engenharia de Produção. In: ABEPRO – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO. Porto Alegre, 2002. Disponível em <http://www.abepro.org.br>. Acesso em: 15 out. 2003.
GOMES, A.A. Considerações sobre a pesquisa científica: em busca de caminhos... Intertemas: Revista da
Toledo, v.5, 2001. Disponível em: <http://www.unitoledo.br/intertemas/volume5/GOMES,AlbertoAlbuquerque.doc>. Acesso em: 29 jan. 2003.
LAKATOS, E. M., MARCONI, M.A. Fundamentos de metodologia científica. 4. ed. rev. e ampl. São Paulo: Atlas, 2001. 288p.
LAVILLE, C. A construção do saber: manual de metodologia da pesquisa em ciências humanas. Trad. Heloísa Monteiro e Francisco Settineri. Porto Alegre: Editoras Médicas Sul Ltda;. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999. 340p.
NAKANO, D.N.; FLEURY, A.C.C. Métodos de pesquisa na Engenharia de Produção. In ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO. 16. Piracicaba, 1996. Anais.Piracicaba : Unimep/Abepro/Multiview, 1996.
POPPER, K. A lógica da pesquisa científica. São Paulo: Cultrix, 1975. 567p.
VIEGAS, W. Fundamentos de Metodologia Científica. Brasília: Paralelo 15, Editora Universidade de Brasília, 1999. 251p.