Disciplina: ´Algebra Linear Professora: Lidiane Buligon
Material: UNIDADE III - Espa¸cos com Produto Interno
1
Espa¸
cos Munidos de Produto Interno
Defini¸c˜ao 1 Seja V um espa¸co vetorial sobre um corpo K, onde K = R ou K = C. Um produto interno em V ´e uma fun¸c˜aoh·, ·i : V × V → K, satisfazendo as seguintes propriedades:
1. hx, yi = hy, xi;
2. hx + λy, zi = hx, zi + λ hy, zi; 3. hx, xi ≥ 0 e hx, xi = 0 ⇔ x = 0.
Um espa¸co V com produto interno ´e euclidiano se tiver dimens˜ao finita. Se V for um espa¸co vetorial sobre os complexos V ´e chamado de espa¸co hermitiano ou unit´ario e o produto interno de produto hermitiano.
Exemplo 1Se V = Cn, o produto canˆonico ´e definido por: hx, yi = x · y =
n
X
i=1
xiyi = xTy.
Observe que se V = Rn (produto escalar) ´e definido por: hx, yi = x · y =
n
X
i=1
xiyi = xTy. Exemplo 2Se V = Rm×n, podemos definir o produto interno por:
hA, Bi = m X i=1 n X j=1 aijbij, com A e B em Rm×n.
Exemplo 3Em C[a, b] podemos definir um produto interno por: hf, gi = Z b a f(x)g(x)dx. Observe que hf, fi = Z b a [f (x)]2 dx≥ 0.
Exemplo 4Sejam x1, . . . , xnn´umeros reais distintos. Para cada par p, q de polinˆomios em Pn
defina, hp, qi = n X i=1 p(xi)q(xi). Note que, hp, pi = n X i=1 [p(xi)] 2 ≥ 0. Se hp, pi = 0 ⇔ p = 0.
Defini¸c˜ao 2 Seja V um espa¸co vetorial sobre um corpo K, onde K = R ou K = C. Uma norma em V ´e uma aplica¸c˜ao
k·k : V → [0, ∞)
v 7→ kvk =phv, vi satisfazendo as seguintes propriedades:
1. kvk > 0 se v 6= 0;
2. kλvk = | λ | kvk para λ ∈ K;
3. ku + vk ≤ kuk + kvk (Desigualdade Triangular);
4. | hu, vi | ≤ kuk kvk (Desigualdade de Cauchy-Schwarz); 5. Identidades de Polariza¸c˜ao
(a) Se K = R ent˜ao hu, vi = 14ku + vk2− 14ku − vk2; (b) Se K = C ent˜ao hu, vi = 1 4ku + vk 2 − 1 4ku − vk 2 + i 4ku + ivk 2 − i 4ku − ivk 2 ; 6. Identidade do Paralelogramo ku + vk2− ku − vk2 = 2 kuk2+ kvk2. Demonstra¸c˜oes: [1] e [2] Observa¸c˜oes:
1. Se um vetor tem norma 1 dizemos que ele ´e um vetor unit´ario ou normalizado. 2. Se v 6= 0 sua normaliza¸c˜ao ser´a dada por u = v
kvk.
Defini¸c˜ao 3 Se u e v s˜ao vetores em um espa¸co vetorial V com produto interno e se v 6= 0, ent˜ao a proje¸c˜ao escalar de u sobre v ´e definida por α= hu, vi
kvk , e a proje¸c˜ao vetorial de u sobre v ´e dada por p= α 1 kvkv = hu, vi kvk2 v.
Observa¸c˜oes: Se v 6= 0 e se p ´e a proje¸c˜ao vetorial de u sobre v, ent˜ao: 1. u − p e p s˜ao ortogonais;
2. u = p se, e somente se, u ´e um m´ultiplo escalar de v. Demonstra¸c˜oes: [1]
Interpreta¸c˜ao Geom´etrica:
Defini¸c˜ao 4 Seja V espa¸co vetorial com produto interno h·, ·i. Dizemos que dois vetores u e v s˜ao ortogonais se hu, vi = 0.
Observa¸c˜oes:
1. Suponhamos que v ∈ V ´e tal que hu, vi = 0 ∀u ∈ V , ent˜ao hv, vi = 0 logo v = 0. 2. O vetor nulo ´e ortogonal a qualquer vetor, pois h0, vi = 0.
Exemplo 5Considere o espa¸co vetorial C[−1, 1] com produto interno definido por: hf, gi =
Z b
a
f(x)g(x)dx. 1. Mostre que os vetores 1 e x s˜ao ortogonais.
2. Determine o comprimento dos dois vetores.
3. Calcule k1 + xk2. 4. Verifique que: k1 + xk2 = h1 + x, 1 + xi = Z 1 −1 (1 + x)2dx= 8 3
1.1
Conjuntos Ortonormais
Defini¸c˜ao 5 O conjunto {v1,· · · , vn} ´e dito ortogonal se:
hvi, vji =kvik 2
se i= j 0 se i6= j.
Defini¸c˜ao 6 Dizemos que o conjunto ´e ortonormal se for um conjunto ortogonal e sekvjk = 1, ∀ j, isto ´e, o conjunto {u1,· · · , un} ´e ortonormal se, e somente se:
hui, uji = δij
com
δij =1 se i = j
0 se i 6= j.
Dado qualquer conjunto ortogonal de vetores n˜ao nulos {v1,· · · , vn} ´e poss´ıvel formar um
conjunto ortonormal definindo: ui =
1 kvik
Exemplo 6O conjunto n(1, 1, 1)T ,(2, 1, −3)T ,(4, −5, 1)To´e um conjunto ortogonal em R3
.
Exemplo 7 O conjunto {v1, v2, v3}, com v1 = (1, 1, 1)T, v2 = (2, 1, −3)T e v3 = (4, −5, 1)T.
Construa o conjunto ortonormal.
Teorema 1 Seja {v1,· · · , vn} um conjunto de vetores ortogonais n˜ao nulos. Ent˜ao este
con-junto ´e linearmente independentes. Demonstra¸c˜ao.
Teorema 2 Seja{u1,· · · , un} uma base ortonormal para um espa¸co V munido de um produto
interno. Se v= n X i=1 aiui, ent˜ao hui, vi = ai. Demonstra¸c˜ao.
Corol´ario 1 Seja{u1,· · · , un} uma base ortonormal para um espa¸co V munido de um produto
interno. Se u= n X i=1 aiui e v = n X i=1 biui, ent˜ao hu, vi = aibi. Demonstra¸c˜ao.
Corol´ario 2 F´ormula de Parseval. Seja {u1,· · · , un} uma base ortonormal para um espa¸co V
munido de um produto interno. Se v =
n X i=1 aiui, ent˜ao hv, vi = kvk 2 = a2 i. Demonstra¸c˜ao. Exemplo 8Os vetores v1 = 1 √ 2, 1 √ 2 T e v2 = 1 √ 2,− 1 √ 2 T
formam uma base ortonormal para R2
. Se x ∈ R2
ent˜ao,
Defini¸c˜ao 7 Uma matriz Qn×n ´e dita ortogonal se seus vetores colunas formam um conjunto ortonormal em Rn.
1.1.1 Processo de Ortogonaliza¸c˜ao de Gram-Schmidt
Teorema 3 Dada uma base arbitr´aria {x1,· · · , xn} do espa¸co euclidiano V , existe uma base
ortonormal{u1,· · · , un} de V formada pelos vetores ui que s˜ao combina¸c˜oes lineares dos vetores
{x1,· · · , xi} para i = 1, · · · , n.
Exemplo 9 Seja β = {(2, 1) , (1, 1)} uma base de R2
. Vamos obter a partir de β uma base ortonormal em rela¸c˜ao ao produto interno usual.
1.2
Exerc´ıcios.
1. Seja V = R3
com produto interno usual. Determine c de modo que v = (6, −3, c + 1) tenha norma igual a 7.
2. Determine um subespa¸co com dimens˜ao trˆes de V = R4
tal que qualquer vetor deste subespa¸co seja ortogonal a v = (1, 2, −2, 3).
3. Dado um subespa¸co vetorial W = {(x, y, z, t, w) ∈ R5
| x − 3y + t = 0}, determine um vetor ortogonal a todos os vetores de W .
4. Usando o produto usual (ou escalar), determine uma base ortonormal a partir das seguin-tes bases: (a) β = {(1, 2) , (2, 1)} de V = R2 ; (b) β = {(1, 1, 0) , (1, 0, 1) , (0, 2, 0)} de V = R3 ; (c) β = {(1, 2, 0) , (0, 3, 1) , (0, 1, 0)} de V = R3 ;
5. Determine uma base ortonormal em rela¸c˜ao ao produto interno usual, para os subespa¸cos: (a) W = {(x, y, z) ∈ R3
| x − y + z = 0} (b) W = [(1, 0, 0) , (0, 1, 1) , (1, −1, −1)]
6. Construa uma base ortonormal para o subespa¸co W ⊆ R3
gerado pelos vetores (1, 1, 1), (0, 0, 1), (1, 2, 3) e (2, 2, 2).
7. Seja P2 os espa¸co vetorial das fun¸c˜oes polinomiais de grau menor ou igual a dois com
produto interno:
hf, gi = Z 1
−1
f(t)g(t)dt.
Considerando W = [p (t) = 1, q (t) = 1 − t], obtenha uma base ortogonal para W . 8. Sejam x = (−1, −1, 1, 1)T e y = (1, 1, 5, −3)T. Mostre que x ⊥ y. Calcule kxk, kyk e
9. Sejam x = (1, 1, 1, 1)T e y = (8, 2, 2, 0)T. (a) Encontre o ˆangulo θ entre x e y.
(b) Encontre a proje¸c˜ao vetorial p de x e y. (c) Verifique que x − p ´e ortogonal a p.
(d) Calcule kxk, kpk e kx − pk e verifique a validade do teorema de Pit´agoras. 10. Para C[0, 1] com produto interno definido por:
hf, gi = Z b
a
f(x)g(x)dx.
Considerando os vetores 1 e x.
(a) Encontre o ˆangulo θ entre 1 e x.
(b) Determine a proje¸c˜ao vetorial p de 1 sobre x. (c) Verifique que 1 − p ´e ortogonal a p.
(d) Calcule k1k, kpk e k1 − pk e verifique a validade do teorema de Pit´agoras. 11. Para C[−π, π] com produto interno definido por:
hf, gi = Z b
a
w(x)f (x)g(x)dx.
sendo w(x) a fun¸c˜ao peso, dada pelo valor constante w(x) = 1
π. Mostre que cos mx e sen nx s˜ao ortogonais e que ambos s˜ao vetores unit´arios. Determine a distˆancia entre os dois vetores. 12. Sejam u1 = 1 3√2, 1 3√2,− 4 3√2 T , u2 = 2 3, 2 3, 1 3 T , u3 = 1 √ 2,− 1 √ 2,0 T
(a) Mostre que {u1, u2, u3} formam uma base ortonormal para R 3
.
(b) Seja x = (1, 1, 1)T. Escreva x como uma combina¸c˜ao linear de u1, u2e u3 usando o
Teorema (2) e use a f´ormula de Parseval para calcular kxk. 13. Seja θ um n´umero fixo real e sejam x1 = cos θ
sen θ
e x2 =−sen θ
cos θ
(a) Mostre que {x1, x2} formam uma base ortonormal para R 2
. (b) Escreva um vetor arbitr´ario y em R2
como uma combina¸c˜ao linear de c1x1+ c2x2.
(c) Verifique que c2 1+ c 2 2 = kyk 2 = y2 1 + y 2 2.
14. Para C[0, 1] com produto interno definido por:
hf, gi = Z b
a
f(x)g(x)dx.
Seja S o subespa¸co gerado pelos vetores 1 e 2x − 1. (a) Mostre que s˜ao ortogonais.
15. Dada uma base n(1, 2, −2)T ,(4, 3, 2)T ,(1, 2, 1)To para R3
, use o processo de Gram-Schmidt para encontrar uma base ortonormal.
16. Para C[−1, 1] munido do produto interno:
hf, gi = Z b
a
f(x)g(x)dx.
Encontre uma base ortonormal para o subespa¸co gerado por 1, x e x2
. 1.2.1 Respostas. 1. c = −3 2. W = {(a, b, c, d) ∈ R4 | a = −2b + 2c − 2d, a, b, c, d ∈ R} 3. u = (1, −3, 0, 1, 0) 4. (a) β′ =n 1 √ 5, 2 √ 5 , 2 √ 5,− 1 √ 5 o ; (b) β′ =n 1 √ 2, 1 √ 2,0 ,√1 6,− 1 √ 6, 2 √ 6 ,−√1 3, 1 √ 3, 1 √ 3 o ; (c) β′ = 0, 3 10 √ 10, 1 10 √ 10 , 0, 1 10 √ 10, − 3 10 √ 10 , (1, 0, 0) ; 5. (a) {(1, 0, 0) , (0, −1, 0) , (0, 0, 1)} (b) n(1, 0, 0) ,0, 1 √ 2, 1 √ 2 o 6. 7. 8. kxk = 2, kyk = 6 e kx + yk = 2√10 9. (a) θ = π4; p = 4 3, 1 3, 1 3,0 T 10. (a) θ = π6; (b) p = 3 2x 11. 12. (b) x = −√2 3 u1+ 5 3u2; kxk = −√2 3 2 + 5 3 2 1/2 =√3 13. (b) c1 = y1cos θ + y2sen θ, c2 = −y1sen θ + y2cos θ
14. 15. n 1 3, 2 3,− 2 3 T , 23,13,23T, −23,23,13To 16. u1(x) = 1 √ 2, u2(x) = √ 6 2 x e u3(x) = 3√10 4 x 2 −1 3
Referˆ
encias
[1] Leon, S. J.: ´Algebra Linear com aplica¸c˜oes, 4a
edi¸c˜ao, LTC, 2008.
[2] Boldrini, J. L., Costa, S. I. R., Ribeiro, V. L. F. F. e Wetzler, H. G., ´Algebra Linear. Harper & Row do Brasil Editora, 1980.
[3] Coelho, F. U. e Louren¸co, M. L.: Um curso de ´Algebra Linear, 2a