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Sobrevida de pacientes com AIDS e coinfecção pelo bacilo da tuberculose nas regiões Sul e Sudeste do Brasil

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS

MÁRCIO CRISTIANO DE MELO

SOBREVIDA DE PACIENTES COM AIDS E COINFECÇÃO PELO BACILO DA TUBERCULOSE NAS REGIÕES SUL E SUDESTE DO BRASIL

CAMPINAS 2016

(2)

SOBREVIDA DE PACIENTES COM AIDS E COINFECÇÃO PELO BACILO DA TUBERCULOSE NAS REGIÕES SUL E SUDESTE DO BRASIL

Dissertação apresentada à Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas como parte dos requisitos exigidos para a para a obtenção do título de Mestre em Saúde Coletiva do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, na Área de Concentração Epidemiologia.

ORIENTADORA: PROF. DRA. MARIA RITA DONALÍSIO CORDEIRO

ESTE EXEMPLAR CORRESPONDE À VERSÃO FINAL DA DISSERTAÇÃO DEFENDIDA PELO ALUNO MÁRCIO CRISTIANO DE MELO, E ORIENTADO PELA PROF. DRA. MARIA RITA DONALÍSIO CORDEIRO.

CAMPINAS

(3)
(4)

MÁRCIO CRISTIANO DE MELO

ORIENTADOR: PROF. DRA. MARIA RITA DONALISIO CORDEIRO

MEMBROS:

1. PROF. DRA. MARIA AMÉLIA DE SOUSA MASCENA VERAS

2. PROF. DRA. PRISCILA MARIA STOLSES BERGAMO FRANCISCO

3. PROF. DR. ADRIANO MARÇAL PIMENTA

4. PROF. DRA. JULIANA LUPORINI DO NASCIMENTO

Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, área de concentração em

Epidemiologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual

de Campinas.

A ata de defesa com as respectivas assinaturas dos membros da banca

examinadora encontra-se no processo de vida acadêmica do aluno.

(5)

DEDICATÓRIA

Dedico esta Dissertação de Mestrado à minha orientadora Prof. Dra. Maria

Rita Donalisio Cordeiro por toda a confiança e amizade vivenciados ao longo

desse período, pela paciência, incentivo e excelente orientação.

Dedico também ao meu companheiro Fábio Takahashi que acredita em

mim todos os dias de nossas vidas e me dá forças para continuar essa jornada

mesmo que a distância as vezes atrapalhe.

Dedico a minha família por todo o amor que recebo sempre que preciso,

por ser o meu chão e meu norte.

Dedico à memória mais pura e à saudade mais dolorida que um ser humano

pode ter, minha mãe (in memoriam) por ter provado em tão pouco tempo o que

é amar de verdade.

Dedico aos amigos de perto e de longe que me dão a energia para superar

todos os obstáculos da vida.

(6)

Agradeço ao meu pai e sua esposa, minha segunda mãe, Maria Jamille

Moysés pelo apoio e incentivo moral e educacional para que eu pudesse chegar

aonde cheguei sem nunca ter pensado em desistir.

Agradeço meu irmão Marcelo pelo amor que temos um pelo outro e sei que

viver junto de você me faz a cada dia mais feliz. Poder chamar-lhe de meu irmão

engrandece o ser humano que eu sou.

Agradeço em especial aos amigos e companheiros conquistados ao longo

dessa jornada no mestrado Elizabeth Regina de Melo Cabral, Núbia Garcia

Viana, Prof. Dra. Ana Luiza de Oliveira e Oliveira, Mercês de Fátima dos Santos

Silva, Ana Carine Arruda Rolim, Bruna Fernanda Nascimento Jacinto de Souza,

Dra. Rosemeire de Olanda Ferraz, Lais Moares Paiz e Juliana Cabral pela

demonstração de força e garra, pela luta traçada juntos nesses anos de

incansáveis conquistas e realizações, pelas alegrias e tristezas, pelos

telefonemas e mensagens de desabafo, pelas vivências e também por essa

amizade que sei que durará por toda a eternidade.

Agradeço aos professores Dra. Juliana Luporini do Nascimento, Dr. Juan

Carlos Aneiros Fernandez, Dr. Nelson Filice de Barros, Dr. Carlos Roberto

Silveira Corrêa, Dr. Herling Gregorio Aguilar Alonzo, Dra. Priscila Maria Stolses

Bergamo Francisco e Dr. Ricardo Carlos Cordeiro pelas conversas, pelo apoio,

pelos ensinamentos, pelo voto de confiança, pelo carinho, pelos puxões de

orelha, enfim, por serem o pilar daquilo que eu acredito, por serem inspirações

para a minha vida acadêmica e por serem hoje amigos que levo dentro do meu

(7)

Paula Léa F. da Costa Ferreira e Elaine Regina Zerlin Aguiar da Silva pelas

incansáveis horas de perturbação e também pelos ensinamentos de vida, pela

boa convivência, pela amizade, pelo respeito, pelo carinho e por toda a

dedicação e ajuda.

Agradeço ao Centro Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico

(CNPQ) e à Fundação de Amparo à pesquisa do Estado de São Paulo

(FAPESP), processo no 2014/08068-6 pelas bolsas concedidas, as quais me

permitiram essa dedicação ao meu projeto e a permanência acadêmica

exclusiva.

Agradeço aos amigos Prof. Dr. André Constantino da Silva, Jefferson

Martins Dias e Welington Dias Ferreira pelas horas de descontração, pelas

conversas, pelas risadas, pelos choros e por essa amizade sincera em todas as

(8)

“A saudade é um vazio cheio de tudo...” (Oliveira e Oliveira, 2015)

(9)

RESUMO

O estudo da sobrevida de pessoas com AIDS permite avaliar a situação da

epidemia, particularmente o impacto de medidas e políticas de intervenção. O

uso da Terapia Antirretroviral de Alto Impacto (Highly Active Antiretroviral

Therapy – HAART) desde 1996 tem sido associado à maior sobrevida de pacientes com AIDS. A tuberculose é uma das principais doenças associadas à

infecção pelo HIV, porém a sobrevida nos pacientes com coinfecção

AIDS/Tuberculose não está bem estabelecida no Brasil. O objetivo deste

trabalho foi analisar o tempo de sobrevida de pacientes com a coinfecção

AIDS/Tuberculose segundo características sociodemográficas, epidemiológicas,

clínicas e de utilização de serviços de saúde nas regiões Sul e Sudeste do Brasil.

Trata-se de um estudo de coorte retrospectivo de amostra de prontuários de

indivíduos com 13 anos ou mais com diagnóstico de AIDS, notificados no

Sistema de Informação de Agravos de Notificação. A coorte foi formada com os

casos notificados nos anos de 1998 e 1999 com seguimento de 10 anos. Dos

2091 casos de AIDS em maiores de 13 anos estudados, 517 (24,7%) tinham

diagnóstico de tuberculose, sendo 379 (73,3%) do sexo masculino. Após análise

das curvas de sobrevida pelo método Kaplan-Meier foi ajustado o modelo de

regressão múltipla de Cox, o risco de morte entre os coinfectados foi 1,31 (IC

95%: 1,11-1,54) vezes dos não coinfectados. As variáveis que se associaram

positivamente à maior sobrevida foram: sexo feminino (HR=0,81; IC 95%:

0,68-0,95), escolaridade superior a oito anos de estudo (HR=0,54; IC 95%: 0,37-0,78),

critério diagnóstico CD4 (HR=0,55; IC 95%: 0,45-0,66) e ausência de câncer

(10)

sobrevida foram: faixa etária maior de 60 anos (HR=3,20; IC 95%: 2,01-5,09),

categoria de exposição sanguínea (HR=1,41; IC 95%: 1,18-1,70), uso irregular

de ARV (HR=7,31; IC 95%: 5,87-9,10), não investigação sorológica para hepatite

B (HR=1,79; IC 95%: 1,33-2,40), diagnóstico de tuberculose (HR=1,31; IC 95%:

1,11-1,53) e duas ou mais doenças oportunistas (HR=2,05; IC 95%: 1,65-2,54).

Os pacientes com a coinfecção HIV-AIDS-Tuberculose tiveram menor

sobrevivência que os sem a coinfecção. Para a região Sul, a sobrevivência

acumulada foi de 71% nos não coinfectados e 62% nos coinfectados até 60

meses após o diagnóstico de AIDS. Na região Sudeste, a sobrevivência

acumulada para o mesmo período foi de 74% e 58%, respectivamente para os

não coinfectados e coinfectados. Apesar dos avanços alcançados nas políticas

e serviços de atenção aos indivíduos com AIDS, alguns desafios permanecem,

entre eles a superação das desigualdades de sobrevida, diagnóstico precoce e

garantia de estratégias para disponibilidade e adesão ao tratamento tanto da

AIDS como da tuberculose. Estas são doenças crônicas que exigem seguimento

clínico e podem ser analisadas como marcadores da qualidade da atenção e

(11)

ABSTRACT

The survival study of people with AIDS is useful to evaluate the status of the

epidemic, particularly the impact of interventions. The use of Highly Active

Antiretroviral Therapy (HAART) since 1996 has been associated with increased

survival of patients. Tuberculosis is a major disease associated with HIV infection,

but survival in patients with co-infection AIDS/Tuberculosis is not well established

in Brazil. The objective of this study was to analyze the survival of patients time

with co-infection AIDS/Tuberculosis according to socio demographic,

epidemiological, clinical, and the utilization of health services in the South and

Southeast of Brazil. This is a retrospective cohort study. The sample of medical

records of individuals older than 13 years diagnosed with AIDS, reported in the

Information System for Notifiable Diseases in 1998 and 1999 with follow-up of 10

years. There were 2091 cases of AIDS, 517 (24.7%) of those had diagnosis for

tuberculosis, and 379 (73.3%) were male. After analysis of the survival curves by

Kaplan-Meier method was adjusted the multiple regression model of Cox, the risk

ratio of dying among co infected/non co-infected was 1.31 (95% CI 1.11-1.54).

The variables positively associated with longer survival were: being female (HR

= 0.81 CI95%: 0.68-0.95), higher education (HR = 0.54 CI95%: 0.37-0.78), CD4

diagnostic criteria (HR = 0.55 CI95%: 0.45-0.66) and no presence of cancer (HR

= 0.71 CI95%: 0.52-0.98). Variables associated negatively with survival were: age ≥ 60 years (HR = 3.20 CI95%: 2.01-5.09), blood exposure (HR = 1.41 CI95%: 1.18-1 70), irregular use of ARV (HR = 7.31 CI95%: 5.87-9.10), no information to

hepatitis B (HR = 1.79 CI95%: 1.33-2.40), co-infection AIDS-tuberculosis (HR

(12)

CI: 1.65-2.54). Despite the progress, some challenges remain, including

overcoming inequalities, early diagnosis, and ensuring the availability and

adherence to treatment with drug combination with lower toxicity and ease intake.

AIDS and tuberculosis are two chronic diseases can be analyzed as markers of

(13)

Sumário

1. INTRODUÇÃO ... 14

1.1. ASPECTOS HISTÓRICOS ... 14

1.2. O VÍRUS ... 17

1.3. A DOENÇA ... 17

1.4. EPIDEMIOLOGIA DA AIDS NO BRASIL ... 18

1.5. O PROGRAMA DE CONTROLE DE AIDS NACIONAL, ESTADUAIS E OS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL. ... 21

1.6. MORTALIDADE E SOBREVIDA DE PACIENTES COM AIDS ... 25

1.7. A COINFECÇÃO AIDS-TUBERCULOSE ... 27 2. OBJETIVOS ... 31 2.1. OBJETIVO GERAL ... 31 2.2. OBJETIVOS ESPECÍFICOS ... 31 3. MÉTODO ... 32 3.1. TIPO DE ESTUDO ... 32 3.2. LOCAL DE ESTUDO ... 32

3.3. CRITÉRIOS DE INCLUSÃO E EXCLUSÃO DE CASOS ... 32

3.4. AMOSTRAGEM ... 33

3.5. VARIÁVEIS DE ESTUDO ... 34

3.6. INSTRUMENTO DE COMPILAÇÃO DE VARIÁVEIS DE ESTUDO ... 36

3.7. ANÁLISE DOS DADOS ... 36

3.8. SOFTWARES UTILIZADOS ... 38 4. RESULTADOS ... 39 4.1. ARTIGO 1 ... 40 5. RESULTADOS ADICIONAIS ... 68 6. DISCUSSÃO GERAL ... 72 7. CONCLUSÃO ... 79 8. REFERÊNCIAS ... 80 9. ANEXOS ... 93

9.1. Anexo 1 – Parecer do Comitê de Ética. ... 93

9.2. Anexo 2 – Parecer do Comitê de Ética. ... 94

9.3. Anexo 3 – Escala com a pontuação para sinal, sintoma ou doença. ... 99

9.4. Anexo 4 – Ficha de Notificação/Investigação AIDS ... 100

9.5. Anexo 5 – Instrumento de coleta de dados do Estudo de sobrevida dos pacientes com AIDS no Brasil – 1998 a 1999. ... 102

(14)

1. INTRODUÇÃO

1.1. ASPECTOS HISTÓRICOS

A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) foi identificada no final

da década de 70, sendo os primeiros casos detectados nos Estados Unidos,

Haiti e na África Central. No Brasil, o primeiro caso foi registrado em São Paulo

em 1980 e notificado em 1982, e em seguida no Rio de Janeiro. As primeiras

investigações identificaram as seguintes características dos pacientes, os

conhecidos 5H - Homossexuais, Hemofílicos, Haitianos, Heroinômanos

(usuários de heroína injetável) e Hookers (profissionais do sexo em inglês), pois

a nova doença se concentrava nesses grupos no início da pandemia 1,2.

No princípio, o acometimento se dava principalmente em indivíduos do

sexo masculino, surgindo logo em seguida os primeiros casos em mulheres

relacionados à prática sexual ou exposição a sangue 3.

Os óbitos acometiam adultos jovens, provocados por infecções como a

pneumonia por Pneumocystis jiroveci, anteriormente conhecida como

Pneumocystis carinii, candidíase, toxoplasmose e neoplasias como Sarcoma de Kaposi, doenças de rara incidência na população adulta. Tais eventos,

caracterizados pelo comportamento não usual dessas patologias, indicavam a emergência de uma “nova” doença, a qual entrou na pauta das preocupações de autoridades de saúde pública nos Estados Unidos da América (EUA) 4,5.

Em 1983, no Instituto Pasteur de Paris, o pesquisador Luc Montagnier

isolou pela primeira vez um retrovírus, conhecido como LAV (Lymphadenopathy

Associated Vírus) associado à “nova” doença. Em contrapartida, em 1984, o governo norte americano anunciou que o Dr. Robert Gallo, do Instituto Nacional

(15)

do Câncer, isolou um retrovírus que causa a AIDS, denominado HTLV-III (Human

T Cell Lymphotropic Viroses). Após a criação, pela Organização Mundial da Saúde, do Special Programme on AIDS em 1986, um comitê internacional

avaliou e declarou que LAV e HTLV-III são um mesmo vírus. Um novo nome foi

dado: HIV (Human Immunodeficiency Virus) 6.

O diagnóstico sorológico para o HIV é realizado a partir de métodos que

detectam a presença de antígenos e ou anticorpos específicos para HIV1 7.

Desde a disponibilidade do teste em 1985 nos EUA 6, os testes de HIV com

detecção combinada de antígenos e anticorpos têm melhorado gradualmente,

tanto na sensibilidade quanto na especificidade 8.

Foi somente em 1986 que se constatou melhora clínica ao administrar a

droga Zidovudina-AZT a pacientes com sarcoma de Kaposi 9.

O teste imunoenzimático (Enzyme Linked Immuno Sorbent Assay, ELISA),

específico para o HIV é realizado por ensaio de imunoabsorbância por ligações

enzimáticas e tem alta especificidade e sensibilidade 10. É classificado como um

teste de triagem, tendo como função detectar todos os indivíduos infectados com

HIV, uma vez que produz poucos resultados falso-negativos. Recentemente,

ensaios para detecção de antígenos (p24) também têm sido introduzidos, o que reduz a “janela imunológica” em aproximadamente uma semana, sendo denominados como testes de 4ª geração 11.

Testes de ELISA com resultados positivos devem ser confirmados por

testes como o Western Blot (WB) para a detecção de proteínas específicas a

partir de amostras biológicas como aquelas obtidas por recombinação gênica.

O número de casos de AIDS cresceu em proporções alarmantes nos anos

(16)

Caribe, América do Sul e Europa conformando-se rapidamente como um

problema de saúde pública mundial tornando-se possível compreender que

todas as pessoas eram susceptíveis à infecção pelo HIV 12.

Vários entendimentos sobre a doença foram se delineando na sociedade.

Entre o risco biológico e o social, sobressaiu a percepção de que para a

transmissão do vírus havia a influência de comportamentos específicos, além da

suscetibilidade biológica. Tais comportamentos são influenciados pelo meio

social em que esse indivíduo está inserido e se transformam durante as suas

fases da vida. Diferenciam-se por meio das experiências de vida e são

influenciado pela comunidade, por outras pessoas, entidades culturais e sociais

12,13.

Com a intenção de agrupar vários campos do saber, cientistas do campo

da saúde deram destaque ao conceito de "vulnerabilidade" no início da década

de 1990 buscando estratégias para o enfrentamento da AIDS 14. O conceito de

vulnerabilidade foi expresso sendo um "conjunto de aspectos individuais e

coletivos relacionados ao grau e modo de exposição a uma dada situação e, de

modo indissociável, ao maior ou menor acesso a recursos adequados para se

proteger das consequências indesejáveis daquela situação" 15.

Logo após a identificação da AIDS e do agente causador, os esforços da

comunidade científica concentraram-se em identificar os sujeitos que estavam

diretamente acometidos pela epidemia (conceitos de grupo e comportamento de

risco), bem como os meios de transmissão e as formas de prevenção de novos

(17)

1.2. O VÍRUS

O HIV é o agente etiológico da AIDS e pertence à classe dos retrovírus 17.

A transmissão pode ocorrer pelas vias sexual, sanguínea, parenteral, nas quais

ocorre o contato e/ou troca de sangue ou de secreção orgânica que contém o

vírus ou células parasitadas 18.

O HIV é um retrovírus com genoma RNA, da Família Retroviridae e

subfamília Lentivirinae. Pertence ao grupo dos retrovírus citopáticos e

não-oncogênicos que necessitam para multiplicar-se, de uma enzima denominada

transcriptase reversa, responsável pela transcrição do RNA viral para uma cópia

DNA, que pode então, integrar-se ao genoma do hospedeiro 19.

1.3. A DOENÇA

A infecção aguda é caracterizada pelo aparecimento dos anticorpos

anti-HIV em torno da quarta semana da infecção. Como em outras infecções virais

agudas, a infecção pelo HIV é acompanhada por um conjunto de manifestações

clínicas, denominado Síndrome Retroviral Aguda (SRA), que ocorre entre a

primeira e terceira semanas após a infecção. Entre 50% a 90% dos indivíduos

infectados apresentam a SRA 20.

Infecções oportunistas e neoplasias são eventos definidores da AIDS. Entre

elas destacam-se: pneumocistose, neurotoxoplasmose, tuberculose pulmonar

atípica ou disseminada, meningite criptocócica e retinite por citomegalovírus. As

neoplasias mais comuns são sarcoma de Kaposi, linfoma não Hodgkin e câncer

de colo uterino. Nessas situações a contagem de LT-CD4+ está abaixo de 200

células/mm3, na maioria das vezes. Além das infecções e das manifestações não

(18)

inflamatórios, tais como miocardiopatia, nefropatia e neuropatias que podem

ocorrer durante toda a evolução da doença 20,21.

O Quadro 1 resume os critérios adotados pelo Ministério da Saúde do Brasil

para a definição de caso de AIDS em indivíduos com 13 anos de idade ou mais

para fins de vigilância epidemiológica.

Quadro 1 - Critérios de definição de caso de AIDS em indivíduos com 13 anos

de idade ou mais.

CRITÉRIO CDC ADAPTADO

Existência de dois testes de triagem reagentes ou um confirmatório para detecção de

anticorpos anti-HIV.

+

Evidência de imunodeficiência: Diagnóstico de pelo menos uma doença indicativa de AIDS.

e/ou

Contagem de linfócitos T CD4+ <350 células/mm3.

CRITÉRIO RIO DE JANEIRO/CARACAS

Existência de dois testes de triagem reagentes ou um confirmatório para detecção de

anticorpos anti-HIV.

+

Somatório de pelo menos dez pontos, de acordo com uma escala de sinais, sintomas ou

doenças (Anexo 3).

CRITÉRIO

EXCEPCIONAL ÓBITO

Menção a AIDS/SIDA (ou termos equivalentes) em algum dos campos da

Declaração de Óbito (DO).

+

Investigação epidemiológica inconclusiva.

ou

Menção a infecção pelo HIV (ou termos equivalentes) em algum dos campos da DO, além

de doença(s) associada(s) à infecção pelo HIV.

+

Investigação epidemiológica inconclusiva.

Fonte: Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Programa Nacional de DST e AIDS. Critérios de definição de casos de AIDS em adultos e crianças. Brasília, 2004.

1.4. EPIDEMIOLOGIA DA AIDS NO BRASIL

No início da epidemia de AIDS no Brasil nos anos 80, os primeiros casos

identificados predominavam entre os homens que faziam sexo com outros

(19)

centenas de casos de AIDS no Brasil, em 1985, foi criado pelo Ministério da

Saúde o Programa Nacional da AIDS e estabeleceu as primeiras diretrizes e

normas para confrontar a epidemia, assumindo a AIDS como um problema

emergente de saúde no país 1, 22.

A doença se expandiu pelos centros urbanos mais populosos a princípio na

regiões Sudeste. Após 30 anos, a epidemia mudou, tornando-se estável e

particularmente concentrada em grupos populacionais considerados em

situação de vulnerabilidade e marcada pela tendência de heterossexualização,

feminização, pauperização e interiorização 18, 24, 23, 25.

Foram notificados no Brasil 757.042 casos de AIDS, entre 1980 a junho de

2014, sendo 491.747 casos em homens (65%) pelo Sistema de Vigilância

Epidemiológica, Sistema de Informação de Mortalidade (SIM) e registrados no

Sistema de Controle de Exames Laboratoriais da Rede Nacional de Contagem

de Linfócitos (SISCEL/SICLOM) 18.

Em 1985, no começo da epidemia, a razão entre os casos masculinos e

femininos era de 26:1, em 2013, essa relação foi de 1,8:1. Ao longo dos últimos

13 anos observou-se estabilização da taxa de incidência no Brasil, embora tenha

diminuído na região Sudeste e aumentado nas demais regiões mostrando que a

infecção deixou de ser relacionada ao gênero masculino 18, 26.

A taxa de detecção de AIDS no Brasil foi de 20,4 por 100.000 habitantes

em 2014. Estimativas de prevalência são de que 0,4% da população brasileira

estava infectada pelo HIV/AIDS em 2013. Por outro lado a mortalidade devido à

AIDS sofreu queda de cerca de 13%, 6,4/100.000 habitantes em 2003 para

(20)

Figura 1 - Taxa de detecção de aids (por 100 mil habitantes) segundo região de

residência por ano de diagnóstico. Brasil, 2004 a 2013*

Fonte: MS/SVS/Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, Boletim Epidemiológico - Aids e DST, 2014.

* Casos notificados no Sinan e Siscel/Siclom até 30/06/2014 e no SIM de 2000 até 2013.

A epidemia no Brasil iniciou-se na região Sudeste, apresentando em 1995,

taxas de incidência acumulada elevadas, em São Paulo 93/100.000 habitantes

e 62,4/100.000 no Rio de Janeiro 27.

Em 2004 a região Sul do país ultrapassou o Sudeste como região com a

maior incidência de AIDS. No mesmo ano, entre as dez cidades com maior

incidência, sete eram da região Sul, cinco em Santa Catarina e duas no Rio

Grande do Sul 28. Em 2014, entre os municípios com 100 mil habitantes ou mais,

dos 20 primeiros, 13 estão na região Sul, nove no Rio Grande do Sul – inclusive os quatro primeiros (Porto Alegre, Sapucaia do Sul, Alvorada e Rio Grande),

sendo a região com a maior taxa de detecção entre as regiões,

aproximadamente 2,3 vezes maior que a taxa do Brasil 18.

A taxa de mortalidade em 2013 é maior na Região Sul com 8,1 mortes por

100.000 habitantes, seguida da Norte com 7/100.000 habitantes, Sudeste com

5,6/100.000 habitantes e as Regiões Nordeste e Centro Oeste com 4,4/100.000

(21)

A partir de 1996 o Ministério da Saúde disponibilizou a terapia combinada

com antirretrovirais para todos os Programas de Controle e Assistência do país.

O acesso à HAART teve impacto na mortalidade e sobrevida dos indivíduos

acometidos pela infecção HIV/AIDS no Brasil 3, 29. No período de 1995 a 2000, a

mortalidade por AIDS caiu 54% no município de São Paulo e 73% no município

do Rio de Janeiro 30.

A meta 90-90-90 foi proposta no 1º Fórum Latino-Americano e do Caribe

sobre o contínuo de atenção ao HIV em 2014. Propõe que o tratamento da AIDS

até 2020 90% de todas as pessoas vivendo com HIV saibam que têm o vírus;

90% das pessoas diagnosticadas com HIV recebam terapia antirretroviral e 90%

das pessoas recebendo tratamento possuam carga viral indetectável. O Brasil já

cumpre 89% da meta de testagem, cerca de 67% da meta de tratamento e mais

de 60% da meta de pessoas tratadas com carga viral indetectável dos pacientes

com AIDS. Entre os pacientes tratados no ano de 2013, a supressão de carga

viral foi de 88% 18.

A epidemia mostra acometimento de populações socialmente mais

vulneráveis, sendo que a doença não se distribui de forma homogênea entre as

regiões brasileiras, deixando de ser uma doença dos grandes centros, para

atingir municípios menores 23, 31, 32.

1.5. O PROGRAMA DE CONTROLE DE AIDS NACIONAL, ESTADUAIS E OS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL.

O Programa Nacional de DST/AIDS foi criado a partir de uma Portaria nº

236 em maio de 1985, após três anos do registro do primeiro caso no Brasil.

Desde o início foi orientado segundo diretrizes de inclusão, com atividades de

(22)

O primeiro Programa Governamental de AIDS foi criado em São Paulo, em

1983, anterior ao surgimento do Programa Federal. Em São Paulo também foi

formada a primeira Organização Não Governamental (ONG) de AIDS, o Grupo

de Apoio e Prevenção à AIDS (GAPA). O movimento social influenciou a

organização dos Programas Estaduais e Federal, oriundo de grupo de militantes

do movimento homossexual, exigindo um posicionamento do governo para o

controle da epidemia 34, 35.

O grupo “gay” paulista “Outra Coisa” fez em 1983, um dos primeiros trabalhos comunitários de que se tem notícia ao distribuir folhetos com

informações sobre a doença e formas de prevenção 35.

Em 1985 foi fundada em São Paulo a primeira casa de apoio para pessoas

com HIV/AIDS, a "Casa de Apoio Brenda Lee". Criada pela travesti Brenda Lee — que transformou o local onde recebia clientes, chamado “Palácio das Princesas”, em casa de apoio para pessoas com HIV/AIDS — atendia, sobretudo, gays e travestis pobres, que não tinham para onde ir ao ficarem

doentes 36.

Em abril de 1986 foi criada a Comissão de Assessoramento em AIDS

(Portaria no 199/GM, publicada no Diário Oficial da União de 28 de abril de 1986,

Seção I), atual Comissão Nacional de AIDS (CNAIDS) formalizando a

participação da sociedade civil. No mesmo ano foi fundada no Rio de Janeiro a

Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA), a primeira ONG/AIDS a

ter uma pessoa assumidamente soropositiva na presidência da instituição,

Hebert de Souza, conhecido como Betinho. Em 1986, por meio da Portaria

Ministerial número 542/86 a AIDS passou a ser uma doença de notificação

(23)

O Programa Nacional de AIDS no âmbito do Ministério da Saúde foi criado

em 1988, quando dá-se início a distribuição de medicamentos para

desconsiderar riscos por infecções oportunistas pelo sistema público de saúde

38, 39.

Também foi nesse ano que aconteceu a primeira campanha do Programa

Nacional de AIDS chamada "Quem vê cara, não vê AIDS", lançada para o

carnaval, que envolvia sentido de temor e preconceito, deixando de lado toda a

proposta pedagógica. Esta focava o homem e associava o risco oculto de

contágio com o rosto de uma mulher 40.

Este foi o ano de grandes mudanças no cenário da saúde brasileira, entre

elas a criação do Sistema Único de Saúde (SUS) na Constituição Federal e

proibição pela Assembleia Constituinte da comercialização do sangue no Brasil.

Estimulou-se a criação dos Centros de Orientação e Apoio Sorológico (COAS)

em nível nacional, atuais Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA), os

quais se constituiriam uma modalidade alternativa de serviço de saúde, devendo

oferecer a possibilidade de sorologia para o HIV em base gratuita, confidencial

e anônima 40-42.

Em Belo Horizonte ocorreu o primeiro encontro nacional de ONGs/AIDS em

1989. O primeiro e o segundo encontros aconteceram no mesmo ano, com a

intenção de criar uma rede brasileira de ONGs com atividades em HIV/AIDS. O segundo e o terceiro encontros foram chamados de “Encontro da Rede Brasileira de Solidariedade (ONG/AIDS)”. Atualmente os encontros são chamados de ENONG (Encontro Nacional de Organizações Não-Governamentais/AIDS) 6.

No Rio de Janeiro foi fundado em 1989 o primeiro Grupo Pela VIDDA (Pela

(24)

Grande do Sul, em outubro foi realizado o segundo encontro nacional de

ONGs/AIDS, chamado “Encontro da Rede Brasileira de Solidariedade ONG/AIDS”. Após a morte do cantor Cazuza em 1990 no Rio de Janeiro foi fundado em São Paulo, o Grupo de Incentivo à Vida (GIV), o primeiro grupo

brasileiro de autoajuda para pessoas soropositivas 6.

O ano de 1991 ficou marcado pelo início da distribuição do AZT no sistema

público de saúde em 1° de dezembro, Dia Mundial de Luta Contra a AIDS 43.

A assinatura do primeiro Acordo de Empréstimo com o Banco Mundial para

o "Projeto de Controle da AIDS e DST", conhecido como "AIDS I" aconteceu em

1993 e também a primeira concorrência de projetos de ONG, para apoio

financeiro, no âmbito do "AIDS I" 6. A partir deste ano o AZT começou a ser

fabricado no Brasil por um laboratório privado 30.

A Lei n° 9.313, de 13 de novembro de 1996, garantiu a distribuição gratuita,

pelo sistema público de saúde, de medicamentos para pessoas com

HIV/AIDS(44). Deu-se início a implementação nacional da distribuição gratuita e

universal dos antirretrovirais na rede pública de saúde, entre eles: AZT, ddI, ddC,

3TC, saquinavir e ritonavir 39, 43.

O Programa Nacional de DST e AIDS comunicou a mudança de nome para

Coordenação Nacional de DST e AIDS, pela Portaria Ministerial n° 741, de 23 de

maio de 1997, publicada no Diário Oficial da União de 28 de maio de 1997,

mesmo ano que o Brasil começou a produzir ddC e d4T e da distribuição pelo

sistema público de saúde de indinavir e d4T 43.

O medicamento ddI começou a ser produzido por laboratórios públicos em

1998. O sistema público de saúde iniciou a distribuição de nelfinavir, nevirapina

(25)

Medicamentos) 43-46. Foi criado pelo Ministério da Saúde o Conselho Empresarial

Nacional em Prevenção ao HIV/AIDS (CEN) com o intuito de orientar e divulgar

projetos e estudos sobre HIV/AIDS dentro e fora das empresas. Tinha o objetivo

de mobilizar e incentivar o setor empresarial para a criação, implantação e

manutenção de estratégias e ações de prevenção para o enfrentamento da

epidemia do HIV/AIDS nos locais de trabalho, alinhadas com as políticas

públicas e em parceria com organismos nacionais e internacionais 6.

Em 1999 ocorreu o início da produção nacional de 3TC, da combinação

AZT+3TC e a distribuição do efavirenz pelo sistema público de saúde. O Decreto Presidencial n° 3.201, de 6 de outubro, “dispõe sobre a concessão de ofício de licença compulsória nos casos de emergência nacional e de interesse público de que tratava o artigo 71 da Lei n° 9.279, de 14 de maio de 1996”, liberando a importação de genéricos em caso de necessidade do país 43.

Em dezembro de 1999 o governo brasileiro ameaçou produzir os

medicamentos no laboratório nacional Farmanguinhos, sem a autorização dos

laboratórios produtores de remédios, amparado pela legislação vigente.

Configurou-se, então, o primeiro momento de ameaça da emissão de licença compulsória ou “quebra de patente". Os desdobramentos sobre acesso a medicamentos para AIDS, no ano de 2001, revelaram a importância deste

decreto para a saúde pública nacional 6, 43.

1.6. MORTALIDADE E SOBREVIDA DE PACIENTES COM AIDS

A sobrevida e a evolução do quadro clínico-laboratorial de pacientes com

AIDS melhoraram consideravelmente após o início da disponibilização da

HAART pelo Ministério da Saúde a partir de 1996. Além disso, observa-se

(26)

diminuição de infecções oportunistas e aumento de doenças crônicas, entre elas

hepáticas, cardiovasculares, renais, entre outras 29, 47-54.

Apesar do impacto positivo na sobrevida dos pacientes, a falta de acesso

à medicação, aos serviços de saúde - principalmente os de assistência

especializada - e as dificuldades referentes à adesão ao tratamento, ainda

causam impacto negativo na sobrevida dessas pessoas, sendo fatores

consistentemente influenciados pela situação socioeconômica 47, 49, 50. Além dos

fatores sociais e médico-assistenciais também se associam ao prognóstico da

AIDS a ocorrência de infecções oportunistas, entre elas a tuberculose e

comorbidades.

Além de variáveis sociodemográficas e acesso à medicação, a ocorrência

de infecções oportunistas e comorbidades também têm sido associadas ao

prognóstico da AIDS. O tempo de sobrevida de pessoas com AIDS se relaciona

a fatores sociais, individuais e médico-assistenciais. Maior sobrevida também

depende da idade, sendo mais elevada em faixas etárias mais jovens, todavia a

importância do sexo nessa associação permanece controversa, uma vez que a

ocorrência em homens era significativamente maior no início da epidemia

diminuindo esta associação nas décadas posteriores 47.

A utilização de marcadores das condições socioeconômicas como a

escolaridade, ocupação, renda familiar em estudos epidemiológicos é

apresentada em estudos que verificaram a mortalidade e sobrevida de pacientes

com AIDS 55, 56. A maioria dos estudos registra pior prognóstico e menor

sobrevida entre pacientes com baixa renda e escolaridade. Fatores étnicos e

raciais têm sido apontados como preditores de má evolução da doença nos EUA

(27)

O estudo da sobrevida de pessoas com AIDS é uma das formas de avaliar

a situação de epidemia, particularmente o impacto de medidas e políticas de

intervenção. Em coorte de pacientes da região Sul e Sudeste diagnosticados em

1998 e 1999, registrou-se que 59,4% dos adultos sobreviveram 108 meses 29.

Estas estimativas foram maiores que a encontrada em estudo nacional de

pacientes notificados em 1996 com sobrevida média de 58 meses 3 e ainda maior

se comparada com a sobrevida de 5,1 meses estimados no início da epidemia,

de 1982 a 1989, anterior à terapia antirretroviral 48.

Estudo realizado em pacientes residentes no município de São Paulo, com

13 anos ou mais, diagnosticados entre 1997 e 2003, estimou em 72% a

probabilidade acumulada de sobrevida de 108 meses 62.

1.7. A COINFECÇÃO AIDS-TUBERCULOSE

Os casos de coinfecção AIDS-Tuberculose são frequentemente descritos

em várias partes do mundo 63, particularmente em regiões com alta prevalência

da tuberculose atingindo principalmente os segmentos marginalizados e

empobrecidos da sociedade 16, 64.

O Brasil apresentou em 2013 o maior número de casos de tuberculose da

América Latina. Embora se observe tendência de diminuição da morbidade e

mortalidade por tuberculose no Brasil, ainda apresentou incidência de 46 casos

por 100.00 habitantes 65.

É possível considerar que a pandemia da AIDS tenha produzido um grande

impacto na epidemiologia da tuberculose 16. A coinfecção é preocupante quando

se tem presente que o HIV é o maior fator de risco para o desenvolvimento da

tuberculose, doença ainda não controlada em países em desenvolvimento

(28)

Segundo os dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), a

tuberculose e a AIDS juntas constituem, hoje, uma calamidade da saúde pública.

Em 1999, cerca de 1/3 dos infectados pelo HIV o eram também pelo bacilo de

Koch 68.

Em um panorama mundial, a maior parte dos casos estimados de

tuberculose em 2013 ocorreu na Ásia (56%) seguido da região Africana (29%).

Em 2013 foram registrados nove milhões de casos de tuberculose, sendo 1,2

milhões (entre 11 e 14%) entre pessoas que vivem com HIV 65.

A proporção de casos de coinfecção por tuberculose em pacientes com

HIV/AIDS em países africanos constitui 34% do total de casos do conjunto dos

continentes. Em algumas partes do sul da África, mais de 50% dos casos de

tuberculose foram associados à coinfecção por HIV/AIDS 65.

No Brasil, a expansão da epidemia de AIDS refletiu na epidemiologia da

tuberculose 68. A tuberculose é umas das doenças não controladas em países

em desenvolvimento, mesmo havendo meios para o diagnóstico e cura 69.

Entre as doenças associadas com a infecção pelo HIV, a tuberculose tem

particular importância porque é contagiosa, tratável e frequentemente, uma das

primeiras manifestações clínicas da deficiência imunológica. Essa associação

justifica a orientação de que, em todo paciente com tuberculose deve-se realizar

a pesquisa pelo HIV. Por outro lado, em todo paciente com a infecção pelo HIV

deve-se investigar a possibilidade deste estar infectado pelo bacilo da

tuberculose(63). Mantém-se como uma das principais doenças definidoras de

AIDS ultrapassando a pneumonia por Pneumocystis jiroveci a partir de 2001 70.

Há no Brasil grandes diferenças na incidência e mortalidade da

(29)

da infecção pelo HIV 18, 71. A coinfecção AIDS-Tuberculose tem sido identificada

como fator associado à internação de casos de tuberculose 72. Outras variáveis

têm sido consideradas para a compreensão do prognóstico da coinfecção,

particularmente os níveis de CD4, idade do paciente, entre outras 73-77.

O perfil destes pacientes coinfectados foi relatado em estudo de coorte em

Pernambuco, sendo a maioria de baixa escolaridade (81,2%), baixos níveis de

CD4 (57,7%) e fumantes (57,6%) 78. Estudos na região Sudeste apontaram

prevalência da coinfecção HIV-AIDS-Tuberculose entre os pacientes com AIDS

de 34,5% em Belo Horizonte-MG, 52,5% em São José do Rio Preto-SP, 17,5%

em Campinas-SP e 14,5% em Vitória-ES 73, 79-81.

A interação entre a infecção pelo bacilo da tuberculose e o HIV tem sido

relatada com implicações clínicas e na imunidade celular 82. Há evidências que

a tuberculose aumenta a replicação viral do HIV além de interferir na progressão

da infecção aumentando o risco de ocorrência de infecções oportunistas 80, 82.

Por outro lado, a AIDS pode modificar a evolução clínica da tuberculose 83, 84,

sendo que a agudização da forma crônica da doença tem sido relatada, podendo

levar pacientes a óbito em poucas semanas 85.

Outras variáveis têm sido consideradas para a compreensão do

prognóstico da coinfecção, particularmente a adesão ao tratamento, a presença

de comorbidades, níveis de CD4, idade dos pacientes, entre outras 74-77. Alguns

autores têm identificado o impacto da infecção pelo bacilo da tuberculose em

pacientes com HIV-AIDS especialmente em países pobres 86. Diferentes

indicadores de sobrevivência têm sido apresentados em distintos períodos da

(30)

No Brasil, a tuberculose é uma doença de alta prevalência, porém são

poucos os estudos de base populacional sobre os fatores associados à

sobrevida de pacientes com a coinfecção e de seu impacto na mortalidade 49, 78, 80, 87.

A análise destes indicadores referentes aos pacientes com diagnóstico no

final da década de 90 e sua evolução na década seguinte pode contribuir com a

compreensão da epidemia e de seus caminhos no Brasil. É relevante para

comparar a evolução atual da doença e seu prognóstico com resultados de

décadas anteriores revelando dificuldades para superação das limitações, ainda

presentes na sobrevida dos pacientes no Brasil. A análise de dados coletados no estudo de “Sobrevida de pacientes com AIDS nas regiões Sul e Sudeste” coordenado por Guibu et al. (ref) ainda não divulgados possibilita o

conhecimento da história da epidemia de AIDS nas regiões de maior circulação

viral do país. . Conhecer a realidade anterior contribui para avaliar a situação

(31)

2. OBJETIVOS

2.1. OBJETIVO GERAL

Analisar o tempo de sobrevida de pacientes com a coinfecção

HIV-AIDS-Tuberculose, segundo características sociodemográficas, epidemiológicas,

clínicas e de utilização de serviços de saúde nas regiões Sul e Sudeste do Brasil.

2.2. OBJETIVOS ESPECÍFICOS

 Descrever o perfil sociodemográfico, epidemiológico, clínico e uso dos serviços de saúde de pacientes com coinfecção HIV-AIDS-Tuberculose nas

regiões Sul e Sudeste do Brasil.

 Estudar fatores sociodemográficos e epidemiológicos associados à sobrevida de pacientes com a coinfecção HIV-AIDS-Tuberculose

 Estudar variáveis clínicas associadas à sobrevida de pacientes com a coinfecção HIV-AIDS-Tuberculose

 Estudar variáveis referentes ao uso de serviços associadas à sobrevida de pacientes com a coinfecção HIV-AIDS-Tuberculose

 Comparar a sobrevida de pacientes com a coinfecção HIV-AIDS-Tuberculose nas regiões Sul e Sudeste do país.

(32)

3. MÉTODO

3.1. TIPO DE ESTUDO

Este trabalho utilizou dados da Pesquisa “Sobrevida de pacientes com AIDS na região Sul e Sudestes do Brasil” realizado em 2008 e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processo

no 2014/08068-6 e pelo Programa Nacional DST-AIDS com recursos da

Organização das nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura – UNESCO.29.

Trata-se de um estudo de coorte retrospectivo de amostra de prontuários

de indivíduos com 13 anos ou mais com diagnóstico de AIDS, notificados no

Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). A coorte foi formada

com os casos notificados nos anos de 1998 e 1999 com seguimento

retrospectivo de 10 anos.

3.2. LOCAL DE ESTUDO

As regiões de estudo foram Sul e Sudeste do país, as quais apresentam

população de 29.016.114 e 85.115.623 habitantes e área territorial de

576.773,368 km2 e 924.616,968 km2 respectivamente 88. A coorte estudada foi

formada por sorteio de municípios das regiões onde houve notificação no SINAN

de mais de 40 casos no ano, distribuídos em 33 e 90 municípios,

respectivamente, nas regiões Sul e Sudeste 29.

3.3. CRITÉRIOS DE INCLUSÃO E EXCLUSÃO DE CASOS

Foram incluídos na pesquisa original os casos de AIDS notificados e

amostrados maiores de 13 anos e que se enquadravam nos critérios de definição

(33)

Como critério de definição de AIDS foi utilizado o indicado pelo Ministério

da Saúde vigente na ocasião do estudo, isto é, o Center for Diseases Control

and Prevention (CDC) adaptado, Rio de Janeiro/Caracas, Critério Excepcional CDC, Critério Excepcional Óbito,Critério Excepcional ARC + Óbito e a contagem

de células T-CD4 (menos de 350/mm3 independente dos sintomas). A

observação destes critérios foi checada durante a análise de prontuários 89.

Para o diagnóstico de infecção pelo HIV, foram considerados testes de

triagem para detecção de anticorpos: Enzyme Linked Immuno Sorbent Assay

(ELISA), Enzyme Immunoassay (EIA), Microparticle Enzyme Immunoassay

(MEIA) e ensaio imunoenzimático por quimioluminiscência. São considerados testes confirmatórios: imunofluorescência, imunoblot, Western Blot, teste de amplificação de ácidos nucleicos, Amplicor HIV Monitor Test (PCR) e Nucleic Acid Sequence Based Amplification (NASBA) 89.

Foram excluídos da investigação as notificações de AIDS de gestantes,

casos de AIDS onde o critério de definição foi o óbito em menos de sete dias,

casos de AIDS diagnosticada pela primeira vez por ocasião da morte, critério uso

de antiretroviral (ARC) + óbito e o critério ignorado.

3.4. AMOSTRAGEM

Os números de notificações nas regiões Sul e Sudeste, já excluídas

aquelas com unidade de notificação ignorada e data de diagnóstico posterior ao

óbito ou à notificação, foram de 29.600 e 8.979, distribuídos por 90 e 33

municípios, respectivamente 29.

A estimativa dos tamanhos da amostra planejados para as regiões Sul e

Sudeste foi de 1.484 e 898 pacientes. Esses números permitiriam considerar

(34)

entre grupos a serem comparados em cada região. Optou-se por utilizar partilha

desigual da amostra pelos estratos (regiões) para diminuir diferenças entre suas

frações de amostragem 29.

Para o plano de amostragem de cada região, foi utilizada amostra por

conglomerados em dois estágios: municípios (ou grupos de municípios) e

pacientes. O sorteio das unidades primárias de amostragem foi feito com

probabilidade proporcional ao tamanho dado pelo número de notificações. Os

municípios que não tinham o número mínimo de 40 notificações a serem

sorteadas no segundo estágio foram agrupados a outros maiores 29.

As frações de amostragem foram de 1/13.369 para a região Sudeste e de

1/6.873 para a região Sul, tendo sido sorteados 18 unidades primárias de

amostragem no Sudeste e 10 no Sul, correspondentes a 14 e 9 municípios,

respectivamente. O número de municípios incluídos na amostra foi menor que o

de unidades primárias de amostragem sorteadas, uma vez que alguns

municípios com número muito grande de casos foram, no sorteio com

probabilidade proporcional ao tamanho, sorteados mais de uma vez. Para

compensar as diferentes probabilidades de seleção utilizadas nas regiões, os

dados coletados foram ponderados, sendo que o peso para cada paciente foi

dado pelo inverso da fração de amostragem da região a que pertencia 29.

3.5. VARIÁVEIS DE ESTUDO

A análise dos prontuários permitiu o registro das variáveis

sociodemográficas: sexo (masculino e feminino); raça/cor (branca, preta, parda,

amarela, indígena, sendo a ausência de tal dado considerada como ignorada); escolaridade (anos de estudos concluídos na data do diagnóstico da AIDS: ≤ 4 anos, 5 ≤ 8 anos, > 8 anos, sem informação); faixa etária em anos (13 a 25, 26

(35)

a 39, 40 a 59, mais de 60); epidemiológicas: categoria de exposição ao HIV

(sexual ou sanguínea) e número de parceiros (único e múltiplos), tais variáveis

são apresentadas neste formato na ficha de notificação do SINAN e na ficha de

coleta de dados para a pesquisa (Anexos 4 e 5).

Também foram utilizadas variáveis clínicas como presença de

comorbidades, utilização regular de terapia antirretrovirais, critério de definição

de AIDS (RJ Caracas, CDC modificado, CD4), diagnóstico de algum tipo de

câncer (câncer cervical invasivo, linfoma não-Hodgkin, linfoma primário do

cérebro e sarcoma de Kaposi), doenças oportunistas (candidíase de esôfago,

traquéia, brônquios e pulmão), citomegalovirose (em local que não o olho, fígado,

baço, linfonodos), criptococose extrapulmonar, criptosporidíase, doença por

micobactéria (outra que não a tuberculose), herpes simples muco-cutâneo,

histoplasmose disseminada, isosporíase, leucoencefalopatia multifocal

progressiva, neurotoxoplasmose, pneumonia por Pneumocystis jiroveci, retinite

por citomegalovírus, salmonelose e outras pneumonias). Algumas variáveis

foram relacionadas com a utilização e seguimento clínico dos pacientes: coleta

de marcadores sorológicos para hepatites B, profilaxias para P. jiroveci e

tuberculose, presença de equipes multiprofissionais, além de médicos e

enfermeiros (psicólogo, dentista, assistente social, psiquiatra, fisioterapeuta,

nutricionista, terapeuta ocupacional) no serviço onde o paciente foi

acompanhado.

Os casos foram classificados segundo a presença do diagnóstico de

tuberculose e suas formas clínicas (pulmonar cavitária, não especificada,

(36)

Para o cálculo de sobrevida foram consideradas as datas do diagnóstico

de AIDS, a data do óbito (considerado como falha), o abandono do seguimento

(considerado como censura) e o término do estudo (considerado como censura

programada).

As informações foram coletadas por profissionais de saúde (enfermeiros e

médicos) vinculados aos serviços onde os pacientes eram seguidos. A

informação foi checada por coordenadores de campo da pesquisa e revistas pela

equipe de pesquisadores quanto aos critérios de inclusão, critérios diagnósticos

e consistências das datas de interesse no estudo.

3.6. INSTRUMENTO DE COMPILAÇÃO DE VARIÁVEIS DE ESTUDO

Um instrumento de coleta de dados de prontuários foi elaborado e aplicado

à amostra dos prontuários de pacientes dos municípios por profissionais que

atuavam nos serviços de saúde (geralmente enfermeiros). Estes foram

capacitados para a coleta, a qual foi revista em dois momentos posteriores pela

equipe de pesquisadores. A compilação das informações, elaboração do banco

de dados e correção de inconsistências foram realizadas pelo grupo de pesquisa: “Sobrevida de pacientes com AIDS na região Sul e Sudeste do Brasil” 29 e

posteriormente pelo autor desta investigação para explorar novas hipóteses e

aprofundamento do estudo de sobrevida dos pacientes.

O banco foi explorado quanto à sobrevida de pacientes com a coinfecção

HIV-AIDS-Tuberculose e covariáveis de interesse possivelmente associadas à

mortalidade.

3.7. ANÁLISE DOS DADOS

Foi realizada análise descritiva da população do estudo segundo variáveis

(37)

com e sem o diagnóstico de tuberculose no período. Foram observadas as

distribuições e características da população em relação às variáveis de interesse

do estudo nas regiões Sul e Sudeste.

Como variável dependente foi utilizado o tempo decorrido da notificação de

AIDS até o evento óbito, ou abandono, ou final do estudo, sendo as demais,

variáveis independentes ou explicativas.

Foram utilizados testes de associação qui-quadrado de Pearson, teste

exato de Fisher e teste de Fisher generalizado, adotando-se um nível de

significância de 5% para a comparação de proporções entre coinfectados e não

coinfectados 90.

Após verificação de proporcionalidade das variáveis selecionadas por meio

do gráfico de Log menos Log, a análise e construção de curvas de sobrevida

foram realizadas utilizando-se o método Kaplan-Meier e teste de Log Rank (com

nível de significância de 5%) para comparação das curvas 91, com a

probabilidade acumulada de sobrevida em meses, segundo cada variável de

interesse.

A incidência de morte na população estudada foi estimada tomando-se

como numerador os óbitos e, como denominador, o total de pessoas-tempo (em

meses) em risco para o evento (óbito) nos grupos com e sem coinfecção pelo

bacilo da tuberculose seguidos no estudo 92.

Para calcular a razão de riscos ou hazard ratio (HR) na análise de

sobrevida, foi utilizada a análise de Mantel Hanzel. Após análise bivariada foi

realizada análise multivariada a partir do modelo de regressão de Cox e obtidas

(38)

fornece as estimativas das razões de risco dos fatores estudados, permitindo

avaliar o impacto no tempo até a ocorrência do evento de interesse 91, 93.

Para tal foi utilizado o método stepwise que consiste em adicionar

progressivamente as variáveis com menor valor de p no modelo univariado,

começando com a variável de maior associação (p < 0,05) e adicionando na

sequência aquelas com menor valor de p em ordem de importância da força de

associação. A cada variável adicionada, uma a uma, verificou-se o comportamento desta e das demais quanto à significância estatística (α = 0,05)

94.

Para todos os testes de comparação, método de Kaplan-Meir e Regressão de Cox foram retiradas das análises todas as categorias “sem informação” de todas as variáveis escolhidas para este estudo.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de

Referência e Treinamento em DST/Aids da Secretaria de Estado da Saúde de

São Paulo (Protocolo nº 15/05, de 20/06/2005) e pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Unicamp – Campus Campinas (Número do Parecer: 1.338.512).

3.8. SOFTWARES UTILIZADOS

Foram utilizados os programas de computador Microsoft Excel 2013 e o

Software IBM SPSS Statistics 21 para Windows para os cálculos estatísticos e a análise de sobrevida.

(39)

4. RESULTADOS

Os resultados do estudo são apresentados na forma de um artigo “Sobrevida de pacientes com AIDS e coinfecção pelo bacilo da tuberculose nas regiões Sul e Sudeste do Brasil” aceito para publicação na Revista Ciência & Saúde Coletiva e por meio de Resultados Adicionais. Nesta seção são

apresentados resultados da análise do banco de dados que comparam as

tendências da sobrevida nas regiões Sul e Sudeste por meio das curvas de

(40)

4.1. ARTIGO 1

Sobrevida de pacientes com AIDS e coinfecção pelo bacilo da tuberculose nas

regiões Sul e Sudeste do Brasil

Survival of patients with AIDS and co-infection with the tuberculosis bacillus in

the South and Southeast of Brazil

Sobrevida del pacientes con SIDA y coinfección por el bacilo de la tuberculosis

en la regiones Sur y Sureste del Brasil

1Márcio Cristiano de Melo 1Maria Rita Donalísio 1Ricardo Carlos Cordeiro

1Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da

Universidade Estadual de Campinas – DSC/Unicamp.

A pesquisa foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de

São Paulo (FAPESP), processo no 2014/08068-6 e pelo Programa Nacional

DST-AIDS com recursos da Organização das nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura – UNESCO.

RESUMO

O estudo buscou analisar a sobrevida de pacientes com a coinfecção

AIDS-Tuberculose por meio de um estudo de coorte retrospectivo de indivíduos com

13 anos ou mais e diagnóstico de AIDS notificados nos anos de 1998-99 e

seguimento de 10 anos. Dos 2091 casos de AIDS, 517 (24,7%) tinham

(41)

entre os coinfectados foi 1,65 vezes os não coinfectados. As variáveis associadas à maior sobrevida foram: sexo feminino (HR=0,63), escolaridade ≥ oito anos (HR=0,52), critério diagnóstico CD4 (HR=0,64); e à menor sobrevida: faixa etária ≥ 60 anos (HR=2,33), não uso de ARV (HR=8,62), não investigação para hepatite B (HR=2,44) e doenças oportunistas (≥ duas) (HR=1,97). A sobrevivência acumulada foi de 71% nos não coinfectados e 62% nos

coinfectados na região Sul e de 74% e 58%, respectivamente, na região Sudeste,

60 meses após o diagnóstico de AIDS. A AIDS e a Tuberculose exigem

acompanhamento e adesão ao tratamento e são marcadores da atenção à saúde

e da sobrevivência dos pacientes no Brasil.

Palavras Chave: AIDS; Análise de Sobrevida; Tuberculose.

ABSTRACT

The study investigates the survival of patients with co-infection AIDS-TB through

a retrospective cohort study of individuals aged 13 or more and diagnosis of AIDS

reported in the years 1998-99 and following 10 years. Of the 2091 AIDS cases,

517 (24.7%) had positive diagnosis for tuberculosis, and 379 (73.3%) was male.

The risk among co-infected was 1.65 times the non-coinfected. The variables

associated with longer survival were: female gender (HR = 0.63), educational level ≥ eight years (HR = 0.52), CD4 diagnostic criteria (HR = 0.64); and shorter survival: age ≥ 60 years (HR = 2.33), no use of HAART (HR = 8.62), no investigation to Hepatitis B (HR = 2.44) and opportunistic infections ≥ two (HR = 1.97). The cumulative survival it was 71% among non coinfected and 62% in

coinfected in the South and 74% and 58%, in the Southeast, 60 months after the

(42)

analyzed as markers difficulties to overcome still present limitations in life

expectancy in Brazil.

Key-words: AIDS, Survival Analysis; Tuberculosis.

INTRODUÇÃO

A sobrevida e a evolução do quadro clínico-laboratorial de pacientes

com AIDS melhoraram consideravelmente após o início da disponibilização da

Terapia Antirretroviral de Alto Impacto (HAART) pelo Ministério da Saúde a partir

de 1996. Além disso, observa-se redução no número de internações de pessoas

vivendo com HIV/AIDS, diminuição de infecções oportunistas e aumento de

doenças crônicas, entre elas hepáticas, cardiovasculares, renais, entre outras 1-5.

Apesar do impacto positivo na sobrevida dos pacientes, a falta de

acesso à medicação, aos serviços de saúde - principalmente os de assistência

especializada - e as dificuldades referentes à adesão ao tratamento ainda

causam impacto negativo na sobrevida dessas pessoas, sendo fatores

consistentemente influenciados pela situação socioeconômica 1, 6, 7. Além dos

fatores sociais e médico-assistenciais também se associam ao prognóstico da

AIDS a ocorrência de infecções oportunistas, entre elas a tuberculose e

comorbidades.

O estudo da sobrevida de pessoas com AIDS é uma das formas de

avaliar a situação de epidemia, particularmente o impacto de medidas e políticas

de intervenção. Em coorte de pacientes da região Sul e Sudeste diagnosticados

em 1998 e 1999, registrou-se que 59,4% dos adultos sobreviveram 108 meses

2. Estas estimativas foram maiores que a encontrada em estudo nacional de

(43)

se comparada com a sobrevida de 5,1 meses estimados no início da epidemia,

de 1982 a 1989, anterior à terapia antirretroviral 8.

Os casos de coinfecção AIDS-Tuberculose são frequentemente

descritos em várias partes do mundo 9, particularmente em regiões com alta

prevalência da tuberculose atingindo principalmente os segmentos

marginalizados e empobrecidos da sociedade 10, 11.

O Brasil apresentou em 2013 o maior número de casos de tuberculose

da América Latina. Embora se observe tendência de diminuição da morbidade e

mortalidade por tuberculose no Brasil 12-14, o país ainda apresentou incidência

de 46 casos por 100.00 habitantes 15.

É possível considerar que a pandemia da AIDS produziu um grande

impacto na epidemiologia da tuberculose. A coinfecção é preocupante quando

se tem presente que o HIV é o maior fator de risco para o desenvolvimento da

tuberculose 10, 16, doença ainda não controlada em países em desenvolvimento

mesmo havendo meios para o diagnóstico e cura.

Entre as doenças associadas com a AIDS, a tuberculose tem

particular importância porque é contagiosa, tratável e frequentemente, uma das

primeiras manifestações clínicas da deficiência imunológica. Mantém-se como

uma das principais doenças definidoras de AIDS ultrapassando a pneumonia por

Pneumocystis jiroveci a partir de 2001 17.

Há no Brasil grandes diferenças na incidência e mortalidade da

tuberculose, particularmente mais elevada em regiões com maiores prevalências

da infecção pelo HIV 18, 19. A coinfecção AIDS-Tuberculose tem sido identificada

(44)

têm sido consideradas para a compreensão do prognóstico da coinfecção,

particularmente os níveis de CD4, idade do paciente, entre outras 13, 14, 21, 22.

No Brasil, a tuberculose é uma doença de alta prevalência, porém são

poucos os estudos de base populacional sobre os fatores associados à

sobrevida de pacientes com a coinfecção e de seu impacto na mortalidade 6, 23-25.

O objetivo deste estudo foi analisar o tempo de sobrevida de pacientes

com a coinfecção AIDS-Tuberculose segundo características

sociodemográficas, epidemiológicas, clínicas e de utilização de serviços de

saúde nas regiões Sul e Sudeste do Brasil.

MÉTODO

Trata-se de um estudo de coorte retrospectivo de amostra de

prontuários de indivíduos com 13 anos ou mais com diagnóstico de AIDS,

notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). A

coorte foi formada por amostra de casos notificados nos anos de 1998 e 1999

com seguimento de 10 anos.

As regiões de estudo foram Sul e Sudeste do país, as quais

apresentam população de 29.016.114 e 85.115.623 habitantes em 2013 e área

territorial de 576.773,368 km2 e 924.616,968 km2, respectivamente 26. A coorte

estudada foi formada por sorteio de municípios das regiões onde houve

notificação no SINAN de mais de 40 casos no ano, distribuídos em 33 e 90

municípios, respectivamente, nas regiões Sul e Sudeste 2.

Como critério de inclusão no estudo destaca-se a confirmação do

caso segundo o Ministério da Saúde com definição vigente na ocasião do estudo,

(45)

Critério Excepcional CDC, Critério Excepcional Óbito, Critério Excepcional de

uso de antirretroviral (ARV) + Óbito e a contagem de células T-CD4 (menos de

350/mm3 independente dos sintomas) 27. A observação destes critérios foi

checada durante a análise de prontuários.

Foram excluídas da investigação as notificações de AIDS de

gestantes, casos cujo critério de definição foi o óbito em menos de sete dias,

casos diagnosticados pela primeira vez por ocasião da morte, critério ARC +

óbito e o critério ignorado.

Foram identificadas 29.600 e 8.979 notificações de casos de AIDS

distribuídos por 90 e 33 municípios nas regiões Sul e Sudeste, respectivamente.

Os tamanhos de amostra planejados para as regiões Sul e Sudeste foram de

1.484 e 898 pacientes. Esses números permitiriam considerar estatisticamente

significantes diferenças de 5 e 9 anos de sobrevida mediana entre grupos a

serem comparados em cada região. Optou-se em utilizar partilha desigual da

amostra pelos estratos (regiões) para diminuir diferenças entre suas frações de

amostragem 2.

Para o sorteio da amostra de cada região, foi utilizada amostragem

por conglomerados em dois estágios: municípios (ou grupos de municípios) e

pacientes. O sorteio das unidades primárias de amostragem foi feito com

probabilidade proporcional ao tamanho dado pelo número de notificações. Os

municípios que não tinham o número mínimo de notificações (40 notificações no

ano) a serem sorteadas no segundo estágio foram agrupados a outros maiores.

As frações de amostragem foram de 1/13,369 para a região Sudeste

e de 1/6,873 para a região Sul, tendo sido sorteados 18 unidades primárias de

(46)

respectivamente para compensar as diferentes probabilidades de seleção

utilizadas nas regiões, os dados coletados foram ponderados, sendo que o peso

para cada paciente foi dado pelo inverso da fração de amostragem da região a

que pertencia.

A análise dos prontuários permitiu o registro das variáveis

sociodemográficas, cor referida, escolaridade em anos, faixa etária;

epidemiológicas: categoria de exposição ao HIV, prática sexual, número de

parceiros. Também foram utilizadas variáveis clínicas como presença de

comorbidades, utilização regular de terapia antirretroviral, critério de definição de

AIDS, diagnóstico de algum tipo de câncer, doenças oportunistas. Algumas

variáveis relacionadas com a utilização e seguimento clínico dos pacientes:

presença de equipe multiprofissional, além do enfermeiro e médico, coleta de

marcadores sorológicos para hepatites B, profilaxia para tuberculose e

pneumonia por Pneumocystis jiroveci, no serviço onde o paciente foi

acompanhado.

Os casos foram classificados segundo a presença do diagnóstico de

tuberculose e formas clínicas. Para o cálculo de sobrevida foram consideradas

as datas do diagnóstico de AIDS, a data do óbito (falha), o abandono do

seguimento (censura) e o término do estudo (censura programada).

As informações foram coletadas por profissionais de saúde

(enfermeiros e médicos) vinculados aos serviços onde os pacientes eram

seguidos. A informação foi checada por coordenadores de campo da pesquisa e

revistas pela equipe de pesquisadores quanto aos critérios de inclusão, critérios

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