ACÓRDÃO Nº
1ª Turma – 2ª Câmara
PROCESSO TRT 15ª REGIÃO Nº 0000652-61.2010.5.15.0054 RECURSO ORDINÁRIO EM PROCEDIMENTO SUMARÍSSIMO ORIGEM: 1ª Vara do Trabalho de Sertãozinho
1º RECORRENTE: COOPERATIVA DOS PLANTADORES DE CANA DO OESTE DO ESTADO DE SÃO PAULO-COPERCANA
2º RECORRENTE: SINDICATO DOS TRABALHADORES NA MOVIMENTAÇÃO DE MERCADORIAS EM GERAL DE SERTÃOZINHO
RECORRIDO: MICAEL PIROTA
JUIZ SENTENCIANTE: RENÊ JEAN MARCHI FILHO
Pedidos julgados parcialmente procedentes pela sentença de fls. 191/195.
Recurso ordinário da segunda reclamada (COPERCANA) às fls. 197/200-v, com custas e depósito recursal às fls. 202/203.
Recurso adesivo da primeira reclamada (Sindicato) às fls. 216/219-v.
Contrarrazões do reclamante ao recurso da segunda reclamada às fls. 207/209.
Relatório dispensado na forma do artigo 895, §1º, IV da CLT.
VOTO
Preenchidos os pressupostos de admissibilidade, conheço dos recursos, que serão analisados em conjunto face à conexão entre as máterias.
1. NULIDADE – CERCEAMENTO DE DEFESA
Pugna a primeira reclamada pela nulidade da decisão de origem por cerceamento de defesa, sob a alegação de que foi impedido de produzir prova, face ao indeferimento de pergunta que objetivava provar que havia substituição de trabalhadores.
Se por um lado a lei assegura aos litigantes o uso de todos os meios de prova lícitos e moralmente legítimos para apuração da verdade dos fatos, faculta também ao juiz admitir ou não a produção da prova pretendida pela parte, como expressão máxima do poder de instrução processual conferido pelo artigo 765 da CLT, incumbindo-lhe o indeferimento de diligências que em nada contribuem para a formação do convencimento ou deslinde da controvérsia (artigo 130 do CPC).
Deve ser destacado que no processo acolhe-se o princípio da livre apreciação das provas, tendo o juiz autonomia na direção do processo, devendo apenas indicar os motivos que o fizeram valorar tal e qual prova.
Havendo nos autos elementos que apontem para a irrelevância da produção de certas provas, o seu indeferimento decorre do pleno exercício diretivo assegurado ao condutor do processo, não configurando cerceamento de defesa.
Preliminar rechaçada.
2. TRABALHADOR AVULSO – VÍNCULO EMPREGATÍCIO COM A TOMADORA
A sentença declarou a relação de emprego entre o reclamante e a segunda reclamada (COPERCANA), no período de 13/04/2009 a 22/04/2009, por entender que a tomadora dos serviços exerceu o poder diretivo indireto em relação ao reclamante, sendo a beneficiária exclusiva das atividades por ele desenvolvidas, além de ter executado atividades de movimentação de mercadorias, função ligada à atividade principal da tomadora (ensacamento de amendoins). Condenou, ainda, as reclamadas, a primeira solidariamente, ao pagamento de indenização do art. 479 da CLT, por reconhecer que as partes
Contra essa decisão, insurgem-se as reclamadas. A segunda alega que o obreiro prestou serviços de movimentação de mercadorias na condição de trabalhador avulso, por intermédio do seu sindicato, sem intervenção da tomadora na relação jurídica mantida entre aqueles. Sustenta que o fato de não existir a diversidade de empresas nas atividades desenvolvidas pelo obreiro não tem o condão de caracterizar fraude na contratação, pois o reclamante laborou por um curto período de tempo (10 dias), não permitindo a disponibilização do autor a outros tomadores de serviço. Por sua vez, a primeira reclamada entende indevido o reconhecimento de vínculo com a segunda reclamada, pois o reclamante era trabalhador avulso. Pede a exclusão da indenização do art. 479 da CLT.
Merece reparos a decisão de origem.
O avulso é modalidade de trabalhador eventual, que presta serviços de natureza urbana ou rural, por curtos períodos de tempo, a diversos tomadores, sem se fixar especificamente a qualquer deles. Distingue-se do trabalhador eventual pela existência de uma entidade sindical intermediadora, a quem incumbe, em sentido lato, a gestão da mão-de-obra, selecionando o trabalhador e o encaminhando à empresa, bem como arrecadando e repassando o valor ajustado pelo trabalho prestado após a sua consecução. Vê-se, ainda, que é típico dessa forma de trabalho a não-vinculação do trabalhador a empresas específicas por longos períodos de tempo, já que, via de regra, submetido a escalas de rodízio fixadas pelo Sindicato gestor.
No caso dos autos, a condição de trabalhador avulso está demonstrada pela anotação na carteira de trabalho do reclamante (fl. 12). Os documentos de fls. 73/74 revelam ter o autor obtido o registro geral de trabalhador avulso junto ao Sindicato reclamado, recebendo deste a contraprestação pelos dias trabalhados na segunda reclamada, conforme indicam os documentos juntados às fls. 81/82. Ainda, o sindicato pagava remuneração correspondente ao dia de labor.
Importa mencionar que as atividades desenvolvidas pelo reclamante, na condição de ensacador de amendoim, vinculavam-se à “movimentação de mercadorias em geral”, finalidade da entidade sindical reclamada (art. 350, VI, “e”, do Decreto nº 3.048/99). O fato de o reclamante varrer e catar lixo, como afirmou a primeira testemunha do reclamado (fl. 21-v), não desqualifica o trabalho avulso, pois relacionado ao trabalho executado na movimentação de mercadorias.
O exercício indireto do poder de direção sobre os trabalhos do reclamante pelos empregados da segunda reclamada, como declarou o preposto dessa demandada (“que a segunda reclamada dava ordens para encarregado da primeira que depois as repassavam ao reclamante” – fl. 21-v), não é suficiente para caracterizar a relação de emprego, mesmo porque o mero repasse de ordens não indica o alto grau de subordinação que é exigido para a configuração da relação de emprego (ao menos, a prova oral não é suficiente a demonstrar essa circunstância).
O fato de não existir a diversidade de empresas beneficiadas pelas atividades desenvolvidas pelo reclamante, como anotou a origem, não desnatura o trabalho avulso, haja vista que uma das características do avulso é o curto período de tempo em que o serviço é prestado a um mesmo beneficiário, o que se deu no caso dos autos (dez dias).
Dada a fragilidade das provas, não há como reconhecer a presença dos elementos caracterizadores da relação de emprego.
Assim, a relação estabelecida entre o autor e a tomadora foi de natureza diversa da empregatícia, ocorrendo nos moldes da Lei nº 8.630/93.
Desta feita, reformo a decisão de origem para afastar o vínculo empregatício reconhecido, bem como o comando de promoção do registro em carteira e a expedição de ofícios ao Ministério Público do Trabalho e ao Ministério do Trabalho.
E, não reconhecida a relação de emprego, resta excluída a indenização do art. 479 da CLT, não havendo se falar em responsabilidade solidária da primeira reclamada, haja vista a improcedência da reclamatória.
3. DIANTE DO EXPOSTO, decido CONHECER DO RECURSO DE COOPERATIVA DOS PLANTADORES DE CANA DO OESTE DO ESTADO DE SÃO PAULO – COPERCANA E CONHECER DO RECURSO DE
SINDICATO DOS TRABALHADORES NA MOVIMENTAÇÃO DE
MERCADORIAS EM GERAL DE SERTÃOZINHO E OS PROVER para,
reformando a decisão de origem, afastar o vínculo empregatício reconhecido, bem como o comando de promoção do registro em carteira e a expedição de ofícios ao Ministério Público do Trabalho e ao Ministério do Trabalho; excluir a indenização do art. 479 da CLT, não havendo se falar em responsabilidade solidária da primeira reclamada, haja vista a improcedência da reclamatória, tudo conforme fundamentação.
Para fins recursais, rearbitra-se o valor da condenação para R$ 4.436,15 (valor da causa), com custas pelo reclamante, no importe de R$ 88,72, isento, face à concessão da justiça gratuita pela origem .
SUSANA GRACIELA SANTISO DESEMBARGADORA RELATORA