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AS NOSSAS LEITORAS'.
1Minhas Senhoras. •*- O Zonza/ <te f ootiVios tem a subida honra de se
dirigir a VV. EEx. desejando-lhes felicíssimas entradas de anno
, e
re-nova-lhes os seus agradecimentos
pela extrema benevolência com que o
tem favorecido.
Por esta occasião permittão VV. EEx. que lhes digamos duas palavras
sobre o modo por que temos desempenhado as nossas promessas e as
espe-ranças que nutrimos de aperfeiçoar o nosso programma.
Graciosos romances têm sido publicados em nossas columnas nos seis
annos de existência que já contamos, e parece-nos que nem uma só vez a
delicada susceptibilidade de VV. EEx. tem sido ofendida.'
Anecdotas espirituosas e moraes têm por certo causado a VV. EEx. o
prazer que as pessoas de finíssima educação experimentâo n'esse gênero
de amena litteratura, e mais de uma vez conseguirão dissipar as nevoas
da melancolia que se havião accumulado nas bellas frontes das nossas
leitoras.
A economia domestica, confiada a uma senhora, reúne a utilidade ao
prazer, e cremos não enganarmo-nos suppondo que mais" de uma receita
foi aproveitada com summa vantagem pelas mais de família que nos
honrão com a sua assídua leitura.
Empenhámos todos os esforços para que os figurinos e os moldes
acompanhados de suas respectivas explicações, estivessem ao
par do que
1 Este artigo devera sahir impresso no Jornal das Familias do mez de Janeiro.
38 JORNAL DAS FAMÍLIAS,
de melhor se publica em Paris, onde temos
um agente especialmente
incumbido d'este importantíssimo objecto.
Algumas musicas, gravuras, aquarellas, vierão
enriquecer e illustrar a
nossa publicação.
Vencidas as difficuldades, inseparáveis ás primeiras
tentativas, podemos
com segurança e afouteza dizer que o Jornal das Famílias
vai datar do
seu sétimo anno um verdadeiro e progressivo melhoramento.
Novos e activos collaboradores assegurão-nos a publicação
de
interessan-tissimos romances, narrativas de viagens, biographias
de senhoras
illus-três, episódios de historia geral e particular, descripções
de cidades, villas,
etc, que tiverem maior importância , artigos
sobre a educação de ambos
os sexos, etc, etc.
Nossa infatigavel collaboradora da parte relativa á economia
domestica
prepara-se para dar ao prelo
uma serie de receitas e conselhos, fructo da
sua mui grande experiência e illustraçao.
Recommendamos a mais esmerada escolha nas musicas e estampas que
deveráõ illustrar as nossas columnas.
Com isso espera bem merecer de YV. EEx.
A RtiDACÇÂO.
*.¦
TÚMULO E BERÇO
e o leitor d'estas paginas tem idéa do que é
fumar um bom charuto depois de jantar, diante
de um lindo panorama, entre os afagos da briza,
respirando os aromas do mar, comprehenderá
facilmente que eu fosse na tarde de um dia de
Abril de 1866 ao Passeio Publico , levando na
boca um charuto de Havana e no estômago um
jantar do Hotel Inglez.
A tarde era de Abril; não lhes digo mais nada.
Estava fresca, o céo era azul, o sol já pendia sobre as montanhas disposto
a dormir, e uma briza que vinha da barra agitava as folhas das arvores
do Passeio.
Subi ao terraço.
Havião lá algumas pessoas, homens e damas, passeando e conversando,
e creio que alguns até namorando, o que é natural, principalmente nas
horas de uma boa digestão.
Lá encontrei um addido de legação estrangeira que, desde que chegou
ao Rio de Janeiro, ainda não deixou de ir uma só tarde ao Passeio
Publico, excepto quando a chuva o pilha em casa.
Eu confesso que ha occasiões em que não gosto de conversar, apezar de
ser o homem mais conversador d'este mundo. Troquei duas
palavras com
40 JORNAL DAS FAMÍLIAS.
o diplomata, e deixei-o continuar no passeio, indo-me eu encostar ao paredão que deita para o mar.
Procurei para isso o lugar mais isolado , afim de ficar mais só. Não impedia isto que fosse de quando em quando perturbado na minha contemplação pelo dialogo das pessoas que passeavão e roçavão por
mim.
Acreditará alguém que a conversa dos passeadores não dizia respeito a cousa nenhuma do que nos rodeava, nem ao menos versava sobre
assumpto próprio das horas do chylo ?
Uns tratarão das operações da praça, outros das operações da guerra; estes do jantar que deviao dar no dia seguinte, aquelles da casaca que havião mandado fazer. Houve um grupo que durante meia hora só tratou da ascensão próxima ou remota do partido conservador. Uma moça que passeava com um rapaz, seu marido creio, gastava toda a sua eloqüência em provar que a crinolina era uma cousa eterna, porque era necessária; ao que respondia o marido :
— Se a prima Josepha dissesse isso, vá; mas tu, tu que tens um corpo de Venus!
Indiscrição que só eu ouvi.
. Apezar d'estas freqüentes interrupções, continuava eu a olhar para [o mar e a engolfar-me todo em devaneios poéticos, devaneios necessários n'esta vida em que tudo ou quasi tudo é chato e prosaico.
Já se ia approximando a noite, quando vierão para junto de mim dous contempladores, um homem e uma mulher. O homem teria trinta e cinco annos e a mulher trinta. Confesso que desviei durante alguns minutos os olhos da extensão de águas que se abria diante de mim, para os ir pôr na formosa cabeça da recém-chegada. Era formosa deveras. Tinha um typo antigo. Tudo alli era correcto e puro. Os olhos, que erâo rasgados, tinhâo uma luz serena, em que os olhos da gente facilmente se embebião. Depois a simplicidade. Trazia um vestido cinzento, e nada mais.
Olhei para ella , e depois para o homem que tinha a ventura de a pos-suir. Mas o homem olhou também para mim, e eu tão vexado fiquei que, não sei por que razão, tirei-lhe o chapép. Elle correspondeu ao meu com-primento. A mulher olhou para mim, e sem inclinar a cabeça, voltou-se para o marido e fallou-lhe baixinho.
Creio que lhe perguntou quem eu era, porque elle respondeu com um gesto de quem dizia : Não sei.
Continuei a olhar para o mar.
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JORNAL DAS FAMÍLIAS. 41
ou outra palavra em voz baixa, como se os lábios tivessem medo de
perturbar-lhes o espirito voejante.
A noite vinha cahindo, e já os primeiros raios da lua entravão a
con-fundir-se com os últimos reflexos do sol ausente. O espectaculo ia mudar
de aspecto sem perder a belleza. Dispuz-me a ficar alli até mais tarde , e
confesso que a presença da desconhecida era um dos motivos que me
retinhao.
/
Não acontece isto com certas pessoas ? Não ha creaturas que têm o
condão de attrahir as outras, de as captivar, sem que ellas o saibão, nem
que as outras o suspeitem?
O luar começou a afugentar os passeadores, e o terraço ia-se tornando
vazio.
Os meus dous vizinhos continuavao no seu posto.
A noite era já fechada e a lua estava soberba.
No fim de uma hora o homem e a mulher dispunhao.se a saliir, e eu
involuntariamente voltei os olhos para elles.
Nao é verdade , disse-me repentinamente o homem , que o mar é
uma bellissima cousa ?
Não contando com a pergunta, não atinei com a resposta. Dei um passo
para elle, e pedi que repetisse a pergunta.
Quando elle a repetio disse-lhe eu :
-- È
• é a mais bella cousa
que conheço.
Vê-se logo, tornou o desconhecido; vê-se
que o senhor
compre-hende o mar. Cousa rara. Também eu o comprchendo , e mais do que
isso....
Calou-se, e eu prevendo que a conversa parava aqui, tratei de a
prolongar dizendo :
Pela minha parte, amo-o tanto que se algum dia quizer ir em
procura da morte, nao escolherei outro caminho.
O homem sorrio ; a mulher também.
Pareceu-me que eu tinha dito uma tolice.
Estarei talvez dizendo uma necedade...
Perdão, tornou o homem, está dizendo uma belleza. Oue melhor
túmulo do que este ? Mas também que berço !
Seguírão-se alguns instantes de silencio.
O homem deu o braço á mulher para se retirarem, e estendeu-me a
mão.
Comprimentou-me ha pouco , e eu não me lembro de o ter visto
nunca. E culpa da memória. D'onde me conhece?
Igfe,
42 JORNAL DAS FAMÍLIAS.
Não o conheço; mas quando o vi confundi-o com um amigo meu, e foi por isso...
Nao importa; nao somos amigos , mas temos já um ponto de con-tacto. Quando nos encontrarmos aqui contemplaremos juntos este gentil
espectaculo.
Com muito gosto.
Trocámos os bilhetes de visita. Elles sahírão e eu fiquei. Pude ler ao luar o nome do homem. Chamava-se Carlos Amaral.
No dia seguinte voltei ao Passeio, mas não encontrei os meus dous incógnitos. Aconteceu o mesmo nos quatro dias seguintes.
Já cuidava não os ver mais, quando um dia passando pela rua do Ouvidor senti que chamavão por mim; era o meu homem.
Vinha só.
Apertámos a mão um do outro.
Perguntei como estava a mulher; respondeu-me que boa. Não voltou mais ao Passeio? disse-lhe eu.
Não. Ha prazeres que se não devem repetir muito , afim de não cahir na saciedade. A sciencia humana é isto. E o senhor ?
Eu continuo a lá ir.
É que o senhor olha o mar como um philosopho. Creio que lhe acontece o mesmo.
O homem sorrio , como havia feito uma vez no terraço do Passeio , e disse :
Talvez. *
A conversa tomou nova direccâo.
Soube que o homem era filho do Norte, que tinha trinta e quatro an-nos, que possuía alguma fortuna e vivia independente. A mulher também era do Norte. Não tinha fortuna nenhuma.
No fim de uma hora separámo-nos. Disse-me elle que morava na rua dos Arcos n° **, e pedio instantemente que eu lá fosse.
Como era esse o meu desejo, fui.
Nunca tive em parte alguma recepção melhor do que n'aquelia casa. Aquella gente praticava a hospitalidade antiga, e, segundo a phrase po~ pular, mettiaa gente no coração.
Clara, a mulher de Amaral, era uma excellente senhora de casa : severa e amável, graciosa e recatada , sabia attrahir os affectos sem prejudicar a consideração. Serei franco : entrei n'aquella casa com espirito de rapaz travesso. A recepção transformou-me. No fim de dous mezes eu era um inpão e uni amigo.
JORNAL DAS FAMÍLIAS. 43
Nem Amaral nem Clara tinhâo segredos para mim. Era eu o
confi-dente natural, não das suas tristezas, porque as não tinhão, mas das suas
alegrias, porque as tinhâo muitas.
Ninguém mais freqüentava a casa. Notei um dia esta circumstancia , e
Amaral respondeu-me :
E que eu liquidei os amigos.
Era isto ao mesmo tempo um comprimento que me fazia.
Emfim , ao cabo de seis mezes, Amaral annunciou-me que sahia do
Brasil.
Vai para Europa ?
Para Europa, Ásia, America, para qualquer parte. Onde achar um
recanto ahi ficarei.
Quando volta?
E provável que nunca.
A esta declaração disse-lhe francamente que sentia ver-me separado
d'elles para sempre.
Mas onde quer que eu esteja pôde ir ver-me, disse Amaral. Eu me
encarrego de lh'o mandar dizer.
Pois sim; apenas me for possível ir vêl-os, contem comigo.
Amaral apertou-me a mão.
Clara accrescentou :
Se se lembrar de nós.
Porque não? A nossa amizade começou de um modo tão original,
que eu não posso deixar de ver n'isto o dedo da Providencia...
O dedo da Providencia está em tudo , respondeu Amaral olhando
para sua mulher.
Jantámos d'ahi a pouco.
Como o paquete partia d'ahi a cinco dias, disse-me Amaral que
preci-sava de ir fazer algumas compras, e pedio-me licença para sahir.
Eu sahi com elle.
Feitas as compras de que precisava fomos ao Passeio Publico , e , sem
subir ao terraço , sentámo-nos em um banco de pedra no ponto menos
freqüentado d'aquellas alamedas.
Meu amigo , disse-me Amaral, antes de partir quero dar-lhe uma
prova de confiança. Vou contar-lhe o que ainda não contei a ninguém ,
nem contarei mais.
Estou prompto a ouvil-o, até porque ha na sua vida e nas suas
palavras um não sei que de mysterioso.
44 JORNAL DAS FAMÍLIAS. E começou :
— Na idade de trinta e dous annos achei-me com o coração deserto e a vida fatigada. Acabava de uma grande tempestade em que havião nau-fragado todas as minhas illusões, as melhores de todas, e olhando em redor de mim não vi nenhum braço que me amparasse, nem esperança
que me sorrisse.
a Successivamente enganado por amigos em quem eu havia posto a minha confiança, com o coração ferido e exhausto, não vendo nos homens mais do que uma reunião de vicios, consegui encontrar um homem que
se compadeceu de mim e tornou-se inseparável da minha vida.
« Ao mesmo tempo, e pela primeira vez, amei uma mulher. Dispenso-lhe a descripção d'ella, e bem assim a narração dos meus sentimentos.
Amei e fui amado.
a Mas que quer que lhe diga? TTm dia , amigo e mulher trahírão-me indignamente. Aquelles em quem euhavia posto a minha confiança
mos-trarão que nem ao menos sabiâo agradecêl-a.
(( Erro ou não, entendia que devia sahir de um mundo onde só havia encontrado desillusOes em troca dos affectos que eu aninhava no coração.
(( Foi isto na minha província.
a Para morrer podia escolher um punhal, uma pistola , uma corda , uma dose de veneno. Mas tudo isto era artefacto humano; eu estava tão mal com os homens, que nem lhes queria os instrumentos de morte.
« Procurei o mar.
a 0 mar, disse eu comigo, é um grande túmulo que a natureza offe-roce a todo o que está desejoso de lançar á margem o signal da vida.
« Era de manhã. Passei a noite a escrever algumas cartas, não para amigos, que já os não tinha, mas para vários credores a quem mandava pagar.
a A manhã estava bella como se tivesse de assistir a um noivado. Noi-vado era o meu de certo; a morle é uma noiva; o sepulcro um leito de nupcias. E eu tinha o mais bello e mais vasto leito de nupcias que uni noivo pôde desejar.
cc Encaminhei-me para a praia.
a Quando ahi cheguei erão seis horas. O sol começava a surgir das águas, como um olho de Deos que parecia espreitar a minha coragem. (( Atirei o chapéo á orla e dispuz-me a dar um salto; mas hesitei. Pela primeira vez na minha vida fiz esta pergunta comigo mesmo : o que ha
além d'isto ?
JORNAL DAS FAMÍLIAS. -15
rasa. Para encontrar a morte seria preciso andar ainda um grande espaço
pelo mar dentro. E se alguém me visse?
(( Perto havião umas rochas levantadas , que entravão pelo mar
adiante.
(( O lugar era melhor.
« Caminhei para lá.
(( Depois de procurar lugar por onde subir encontrei um leve declive,
e tomei por elle.
(( O meu passo era lento , não porque eu hesitasse ; mas parece que.
n'esses lances supremos tudo assume um caracter de gravidade.
(( Quando cheguei ao alto da rocha, olhei em roda de mim.
(( Ninguém.
« A terra a um lado com todos os seus vicios; a outro lado o mar com
todos os seus silêncios.
« Lancei um ultimo olhar para a terra, e dirigi-me para o mar.
« Andei cincoenta passos, e emquanto caminhava para a sepultura , ia
recitando uma prece.
cc Ajudava-me eu mesmo a bem morrer.
« Quando cheguei ao cabo da rocha, vi que havia uma espécie de
grande degráo.
«
« Olhei para baixo.
« Vi um espectaculo inesperado.
« No degráo achava-se uma mulher ajoelhada com as mãos postas,
voltada para o mar.
« Vi logo que ella encommendava-se a Deos, para cujo seio ia
lan-çar-se.
(( Então eu, que ia morrer, que rejeitaria todo o auxilio que me dessem
para voltar á vida, tive um movimento interior; resolvi arrancar aquella
mulher á morte.
« Se a deixasse morrer parecia-me que assumia uma complicidade.
« Desci o degráo , e segurei-a por um braço no momento em que ella
ia lançar-se ao mar.
« A mulher voltou o rosto para mim, e disse com dolorosa supplica :
« — Deixe-me!
c( — Não, respondi; a senhora não deve morrer.
a A mulher desatou a chorar.
(( Era formosa, meu amigo; as lagrimas ainda lhe realçavão a belleza.
« Deixei-a chorar á vontade. A dôr precisava d'aquillo.
« No fim de alguns minutos, disse-lhe :
46 JORNAL DAS FAMÍLIAS. (( — Suba; venha comigo. ,
(( Ella não me ouvia; tinha os olhos fitos no mar como uma espécie de desvario.
« O sol subia lentamente no horizonte.
« Repeti as palavras; ella olhou para mim, e disse : « — Nem na morte posso ter a liberdade ?
•, « — Morrer! disse eu; tão moça e tão bella! « A moça sorrio tristemente.
« Depois, levantando-se como se tomasse uma resolução súbita, disse, segurando-me na mão :
« — Subamos.
« Subimos ao alto da rocha.
(( Ahi haviâo duas pequenas lages; fil-a sentar em uma d'ellas, e eu fiquei de pé.
(( — O senhor impede-me que me mate; mas eu só posso escolher entre a morte e a deshonra. A minha alma não hesita; é o mesmo que escolher entre o céo e o inferno : escolho o céo.
(( — A deshonra? disse eu. Não se foge só á deshonra; foge-se também ao sofrimento. O soífrimento não tem cura; mas entre a morte e a des-honra, ha um meio termo, que é...
(( — O senhor é um homem honesto, não ? a — Sou.
(( — Jura que me deixará morrer se eu lhe confiar o segredo da minha vida ?
(( — Não juro isso; mas se eu vir que o segredo da sua vida só pode ter por desenlace a morte, deixal-a-hei morrer.
a — Jura isto? (( — Juro.
« A moça começou uma curta narração , que eu lhe resumirei assim. a Era pobre, e orphã. Vivia a expensas de sua madrinha, senhora rica, que a recolhera em casa logo que lhe havião morrido os pais. Lá traba-lhava com afinco e zelo afim de que nunca lhe pudessem lançar em rosto o pão que recebia. A madrinha tinha um filho que desde os primeiros dias começou a requestal-a. Ella fingio não ver nada.
(( O rapaz era um estouvado, e ao mesmo tempo um homem gasto àú coração. Via n'ella uma simples conquista. A frieza da moça não o desar-mou nem dissuadio. O rapaz dizia muitas veies que o coração das mu-lheres era como a rocha das praias, aonde a vaga vai bater todos os dias
"X
JORNAL DAS FAMÍLIAS. 47
« A moça quiz um dia referir tudo á madrinha; mas esta era de um
gênio áspero, e estimava o filho acima de tudo. Temeu que entre a
affir-mação d'ella e a do filho a velha aceitasse a segunda.
« N'esse caso estaria sem pão.
(( Envolveu-se pois na sua virtude.
« Um dia porém, poucos dias antes, a insistência da água tinha
ven-cido a rocha, e a pobre moça teve uma hora em que olhou para si coberta
de vergonha.
« Não lhe arguia a consciência; não amava o rapaz; antes aborrecia-o.
Foi a violência, não o amor, que a venceu.
« Vendo-se perdida, a moça resolveu matar-se ; mas hesitou; velou
uma noite inteira; e no dia seguinte foi referir á madrinha o seu
infor-tunio.
(( Cuidou achar um amparo; achou segundo algoz. A madrinha
expul-sou-a de casa.
(( Acontecera isto na véspera.
(( A pobre moça satura desvairada , sem saber para onde ia. Andou
toda a noite. A idéa da morte apossára-se de novo do seu espirito. Entre a
deshonra da sua vida e a morte não hesitou. Queria a morte.
« Ouvi commovido esta narração feita com lagrimas. Doia-me ver o
destino d'aquella moça,
'tão
bella, tão honesta, lançada pela fatalidade ao
precipício.
(( A moca levantou-se.
<m(( — Ouvio a minha narração, disse-me; bem vê que a morte é o meu
único refugio. Deixe-me passar,
« E deu um passo.
« Eu segurei-a pela mão.
c( — Ouça; sabe o que vim fazer aqui ? Vim morrer também. Como a
senhora, fujo á vida, fraco como sou para lutar com ella.
« — Também?...
« — Sim; mas, se eu a deixar morrer, serei complice de um crime.
« — De um crime ? disse ella com dolorosa ironia; não vai
commet-têl-o também?
« -* Mas a senhora tem o trabalho honesto como um refugio; eu não
tenho nada, porque nem tenho alma.
(( — Senhor, disse-me ella, é descabida a discussão n'este lugar.
Quando uma creatura chega tão perto do túmulo já não discute. Deixe-me
tnorrer...
*
48 JORNAL DAS FAMÍLIAS.
(( Eila levantou os olhos para o cóq, e respondeu : « — Vou para elle.
« — Nao; elle é que veio para nós. Acha que foi simples acaso este encontro? Nao foi; ambos nós fugimos á vida, victima dos homens, üeos nos guiou pelo mesmo caminho para que nos encontrássemos, e para que eu lhe dissesse : Nao tenho alma, resuscite a minha alma que morreu ; faça de mim o homem que já fui. Em troca d'isto, eu só lhe offereço uma
cousa : a protecção de um esposo. Podíamos ser desposados na morte ; porque o não seremos na vida ?
(( A moça olhou para mim sem dizer palavra; parecia que não me comprehendia. Era tão estranho o que eu lhe dizia que suppunha não ter ouvido bem. Depois soltou ura grito, e cahio de joelhos.
a — Estarei eu já morta, disse ella, e isto que ouço é a linguagem dos anjos ?
(( — Anjo ó a senhora, respondi eu inclinando-me e beijando-lhe a fronte. Levante-se, que não tem nada que a envergonhe. Pelo contrario, se eu a salvei da morte, a senhora salvou-me também, e mais reconcilia-me com a vida. Renasço cheio de júbilo.
(( Casámo-nos. É a minha historia e a de Clara. Vamos agora procurar um asylo ignorado onde sejamos felizes. Somos dous destroços que se consolão entre si, como disse o poeta francez. »
Abracei Amaral quando elle acabou a narração. O senhor é um grande homem!
Não, sou apenas um homem; mas deixe-me ter uma vaidade : sou o homem de Diogenes.
Amaral e Clara vivem hoje na Suissa.
*
V. DE MELLO.
Paris, Janeiro de Í808.
*#
BIBLIQTHECANACIONAltPUBllM
DO —
RIO DE JANEIRO
A D A.
a nomes que são a um tempo uma espécie de
talis-n
man para aquelles que os usão e como uma doce
consonância para aquelles que os pronunciao.
N'este caso está o sympathico nome da filha delord
Byron.
•
Quem repetirá o nome de Ada sem que lhe acuda
de súbito á imaginação a imagem cândida de uma
menina ou de uma moça, adornada de todos os dotes
que caracterisão os entes privilegiados do sexo mimoso da creaçâo?
Ada é um nome que exhala perfume, como o seio de uma rosa de
Alexandria.
É doce, meigo, e quem o recebeu na pia do baptismo não pôde ser
senão uma mulher formosa e capaz de inspirar sentimentos tão ternos
como o seu próprio nome parece indicar.
Além d'isto este nome foi immortalisado por um dos maiores poetas de
nosso tempo.
Quem terá lido sem conservar uma deliciosa reminiscencia d'essas
estro-phes, palpitantes de inspiração e sentimento, que trazem o cunho d'essa
áoberana poesia que collocou o autor de Don Jaan no mesmo pedestal de
f4 ¦
50 JORNAL DAS FAMÍLIAS.
0 poeta deixava, nessa hora de suprema angustia, transbordar de sua alma toda a saudade e tristeza que o destino vario de sua vida havia accu-mulado lá dentro.
É n'essas explosões admiráveis de seu coração ulcerado, que melhor se conhece toda a elevação d'aquella alma infelizmente obsecada pelas idéas do scepticismo perigoso introduzido na moderna philosophia.
Mas vamos á historia que o nome ,que serve de titulo a estas linhas promette ao leitor.
A Ada que merece agora toda a nossa attenção era na verdade uma encantadora creatura.
Teria quando muito quinze annos de idade. Sua estatura era regular e seus lindos olhos pretos suavemente avelludados tinhâo uma expressão tão
doce de bondade e ternura, que a todos captivava.
Não era d'essa alvura rubicunda, que caracterisa as organisações robus-tas e vulgares, a sua tez tinha pelo contrario essa transparência aristocra-tica, que dá um cunho de poética melancolia ás mulheres a quem a natu-reza adornou de mais esse attractivo.
As qualidades de sua alma estavão em relação com as perfeiçoes de seu physico. Era intelligente , bondosa e a fina educação que havia recebido ainda mais fazia realçar o nobre conjuncto de todos estes dotes.
Ada vivia em companhia de sua mâi, que era viuva, ainda bella , e a todos os respeitos digna de veneração.
A viuva de João Soares, que assim se chamava o pai de x\da , teve a coragem de deixar sua íiíha ainda um anno mais no collegio depois do fallecimento de seu marido, que tivera lugar exactarnente dous annos antes de começarmos a nossa narrativa. Privada da companhia de sua filha, viveu em completa reclusão um anuo inteiro, até que completando a me-nina quatorze annos, a mandou chamar para seu lado.
Ha um anno pois que Ada estava em companhia de sua mâi, e fallando a verdade quem as visse juntas antes supporia que erão duas irmãs, do que mãi e filha , tão gentil era ainda D. Mathilde Soares, que quando muito poderia ter trinta e dous annos de idade.
Sahindo do collegio Ada completou em casa de sua mãi a esmerada educação que havia recebido. D. Mathilde era uma senhora intelligente e prendada, que tendo sido o modelo das esposas, devia ser também o
mo-delo das mais.
A educação de Ada não era pois d'essas educações frivolas e descui-dadas, que geralmente se dá ás moças de nossos salões. Não basta só que* \ a mãi de família desempenhe todos os deveres da domesticidade, é
pre-í ¦ "i
<é
JORNAL DAS, FAMÍLIAS. 51
ciso que ella tenha também a [Ilustração necessária para encantar o homem
a quem o destino a unio, e para que saiba encaminhar a educação moral
de seus filhos e possa escolher a carreira que de preferencia devem
abraçar, em referencia ás suas vocações e qualidades intellectuaes.
: ; (
A viuva Soares, bastante rica e relacionada com as principaes familias
da corte, pouco depois que Ada voltou para casa , abrio os seus salões a
um pequeno e intimo circulo de suas relações mais predilectas.
Nas noites em que não freqüentava os espectaculos ou fazia visitas,
era quasi certo encontrar o seu salão illuminado, e passar em tão amável
convivência algumas horas verdadeiramente agradáveis.
Tão distincta e escolhida era a sociedade dos homens, como a das
senhoras, que frequentavão a casa da viuva Soares.
Entre aquelles, porém, notava-se um mancebo que pela distincçao de
suas maneiras, como pelos dotes de suâ intelligencia e talento, era sempre
e por todos recebido com a mais franca cordialidade.
Chamava-se elle João da Cunha, e tendo-se formado em direito na
aca-demia de S. Paulo, havia estabelecido ha pouco mais de seis mezes o
seu escriptorio de advocacia em uma das ruas mais freqüentadas da
capital.
João da Cunha era pobre e vivia apenas dos recursos de seu trabalho.
Novel ainda na carreira que havia encetado, apezar de alguns brilhantes
triumphos que já havia obtido na tribuna judiciaria, os seus meios não
estavão em relação com as exigências da sociedade em que vivia.
Poucos são os que conhecem as tribulações de uma situação
seme-lhante.
/
João da Cunha não tinha o frio scepticismo de Voltaire, nem as
desvai-radas ambições da maior parte dos homens politicos de seu tempo, que não
olhâo a coherencia em seu modo de proceder quando pretendem alcançar
um fim almejado, e não sabia resistir aos ataques violentos da sorte, senão
com uma tão nobre resignação , que mais parecia cega confiança na
feli-cidade.
Quanto mais profundo era o golpe que lhe preparavão as circumstancias,
maior era também a impassibilidade estranha que apresentava para o
aparar.
Tinha 28 anpos de idade e já estava por assim dizer só no mundo. Á
morte de seu pai, sendo elle ainda muito criança, succedeu pouco depois
a de sua mãi, e mais alguns parentes que lhe podião servir de amparo
\
tiverão logo em seguida o mesmo destino.
52 JORNAL DAS FAMÍLIAS.
dispondo de uma avultada fortuna, mas sendo demasiadamente forreta , de vez em quando auxiliava exiguamente a seu sobrinho , concorrendo também para que terminasse em S. Paulo a sua formatura ; mas que todavia lhe não dispensava uma protecçâo segura e efficaz.
João da Cunha trabalhava pois com afinco e tenacidade para poder sup-prir com os seus esforços individuaes as grandes lacunas que a fortuna havia deixado em sua existência.
Apezar d'esta luta quotidiana, João da Cunha vestia-se com todo o esmero e nunca deixou de apresentar-se na sociedade como um verda-deiro cavalheiro.
Também em casa da viuva Soares ninguém inquiria qual era n este sentido a posição do mancèbo.
Contentav&o-.se em apreciar a sua conversação espirituosa e attractiva , sem se importarem se era rico ou pobre o homem que assim sabia tor-nar-se o encanto e o enlevo d'aquella sociedade mimosa.
A freqüência das visitas de João da Cunha á casa da viuva Soares pro-duzio um singular e duplo effeito. Inspirou igual sentimento á mãi e á filha.
Uma, a primeira, com os olhos da reflexão reconheceu no mancebo todas as qualidades que o poderião recommendar como um marido digno de fazer a felicidade de sua mulher ; amava-o com o coração e com a cabeça; pelo sentimento e pela razão.
Ada, porém, amava-o com esse amor virginal e espontâneo da primeira quadra da juventude.
O olhar, a intelligencia, os modos de João da Cunha exercião sobre a moça uma verdadeira e sympathica fascinação.
Não o amava nem por calculo , nem por vaidade , nem pelo natural instincto que attrahe todas as moças para o casamento; amava-o só pelo
amor!
João da Cunha percebeu em pouco tempo os perigos da situação em que se achava.
Sem autorisar por uma manifestação qualquer o signal de sua predi-lecção, elle encontrou-se realmente em um lance arriscadissimo.
O seu coração escolhia de preferencia a menina; a sua idade, as suas tendências, e mais do que tudo as suas aspirações futuras > inclinavão-o para este lado franca e incontestavelmente.
Mas de que maneira daria elle a conhecer este seu sentimento , sem offender o amor-próprio dViquella a quem reputava tambehi como uma das senhoras mais dignas de fazer a ventura de um homem ?
JORNAL DAS FAMÍLIAS. 53
De dia para dia se complicava o embaraço. João da Cunha
compre-hendia perfeitamente que ambas as senhoras o estimavão; porém ellas ó
que não lhes passava pela cabeça que ambas amavão o mesmo homem !
Breve porém se offereceu occasiâo de proporcionar um desenlace a tão
singular acontecimento.
Ada confessou á sua mãi que amava João da Cunha. Esta vacillou.
Nunca tinha attentado para a possibilidade de semelhante affeição, ella
intelligente, prudente, uma senhora emfim criada e filha do grande
mundo!
Se Ada tivesse reparado conheceria que a esta revelação se havião
subi-tamente coberto de pallidez as faces de sua mãi. A pobre senhora
encos-tou-se ás costas de uma cadeira para não cahir! Passou-lhe pelo espirito
um relâmpago e pelo coração uma flecha.
Olhou para a filha , e disse-lhe com uma apparente e meiga
tranquil-lidade :
E tu sabes se elle te ama ?
Elle não mfo confessou; mas eu creio que o adivinho.
Nunca; nem uma palavra te fallou a esse respeito ?
Nem uma.
--¦ Bem, minha filha; eu esta noite procurarei ver se posso consolidar a
sua felicidade.
,
Oh! minha mãi! Acredita então que eu serei feliz casando com João
da Cunha? que elle quererá ser meu marido? que se realisaráõ todos os
meus sonhos ?
Creio, Ada; e é esse o motivo por que não fiz objecção alguma ao
que acabas de me revelar.
Dê-me um beijo, minha mãi. v
Toma-o, filha; e recebe n'este beijo a transmissão da minha
alma.
Um mez depois d'esta scena João da Cunha estava casado com a filha
de D. Mathilde Soares.
A ventura d'este par afortunado seria completa , se um desgosto
pro-fundo lhe não fosse ensombrar o horizonte.
D. Mathilde padecia horrivelmente depois do casamento de sua filha.
Estava quasi desfigurada.
Uma affecçâo súbita do coração punha a cada momento a sua vida em
risco. De espaço a espaço davão-lhe desmaios, em que permanecia por
alguns momentos como morta.
come-i
54 JORNAL DAS FAMÍLIAS.
çárão a abandonar a enferma; e com ella a todos quantos rodeavão o seu leito. A morte approximou-se de repente.
A noite desceu portanto sobre aquelle ninho de amores, que parecia fadado unicamente para os raios do sol e os perfumes das flores da pri-mavera!
D. Mathilde confessou ao sacerdote que lhe ministrou os últimos sacra-mentos a origem de sua morte prematura. Era uma paixão que se não podia arrefecer senão no gelo de uma sepultura, se os gelos da sepultura podem apagar os incêndios do coração.
D. Mathilde expirou.
João da Cunha e Ada são hoje o modelo da felicidade conjugai.
Sua mãi morrendo de amor foi como a chrysalida que se rompe para dar origem a uma creação esplendida.
gIBUOTKCCANACIONAUPUBLICA
—DO —
BIO DE JANEIRO
ECONOMIA DOMESTICA.
LÍNGUA COM MOLHO PICANTE.
Toma-se uma lingua, despida de todas as carnes que a acompanhão, e
tira-se-lhe a pelle fazendo-lhe dar uma rápida fervura em água simples.
Põe-se depois n'uma panella regular, para que não lhe fiquem grandes
vácuos ,ao redor, com salsa e cebolinhas picadas, quatro colheres de
aguardente, alho, pedaços de codea de toucinho e cenouras inteiras.
Tampa-se de modo que obste a sahida do vapor no acto da ebullição,
e faz-se cozinhar a fogo brando até que ella fique meia molle; chegando
a esse ponto corta-se em fatias da grossura que se quer, ou ao comprido,
conforme o gosto da pessoa, e torna-se a deitar na panella para acabar
de cozinhar.
Faz-se á parte, quasi na hora de mandar á mesa, o molho picante
seguinte : meio copo de vinagre bom, pimenta do reino, cravos da índia,
segurelha um raminho, outro igual de alecrim e um bocadinho de noz
moscada ralada. Faz-se ferver tudo isto até reduzir-se á metade.
Põe-se a lingua, as cenouras e as codeas de toucinho no prato em
que se quer mandar á mesa, tudo bem arranjado para que seja agradável
á vista; e no molho que fica despeja-se-lhe o vinagre, que já indicámos,
extrahindo d'elle os ramos da segurelha e do alecrim. Desmancha-se
n'estes dous molhos reunidos meia colher de farinha dè trigo; dá-se-lhe
duas fervuras e despeja-se tudo sobre as fatias da lingua, e manda-se á
mesa.
56 JORNAL DAS FAMÍLIAS.
RIM COM MANTEIGA.
Abra-se um rim, depois de tirada a pelle, e tire-se-lhe a parte nervosa do centro. Corte-se em fatias finas e lance-se sobre ellas água fervendo e sal. Deixe-se n essa água bem tampado por espaço de cinco a dez minutos, para que perca bem o gosto da urina.
Derreta-se n'uma cassarola ou frigideira um bocado de manteiga, cozinhe-se n'ella por cinco minutos as fatias do rim, bem escorridas, tire-se a vasilha do fogo e derrame-se.sobre o rim quasi uma colher de farinha, mexa-se bem, e ponha-se-lhe meio copo de vinho branco, fervido á parte, salsa picada, sal, pimenta e pouca noz moscada. Põe-se de novo sobre o fogo para ligar com mais um bocadinho de manteiga, e depois de ter dado algumas fervuras manda-se á mesa.
Na preparação d'este guizado deve-se operar com promptidao, pois estou certa que minhas leitoras não ignorão que quanto mais cozinha o rim mais duro fica.
Do mesmo modo se podem preparar os rins de porco ou de carneiro.
MIOLOS COBERTOS.
Ouvimos dizer a varias pessoas que lhes repugnava comerem miolos, e na verdade repugna comêl-os preparados como temos visto em algumas casas. Aqui damos porem uma receita que os tornará por certo agrada-veis a todos os paladares.
Cozinhao-se, depois de lhes tirar a pellicula que os envolve, em água bem salgada durante cinco minutos. Escorrem-se, e deixao-se esfriar para depois cortal-os em fatias não muito grossas. Bate-se n'uma vasilha
três ovos inteiros para cada miolo que se tenha de cobrir, e para cada ovo pòe-se uma colher de farinha de trigo e um bocadinho de salsa picada miudinha, uma pitada de pimenta do reino e sal Bate-se tudo muito bem, e depois vào-se frigindo em gordura as fatias dos miolos passadas n'essa massa, e mandão-se á mesa enfeitadas com raminhos de salsa verde espa-lhados por cima. Os raminhos de salsa dão-lhes um aspecto agradável á vista.
POESIAS.
VERSOS RECITADOS
POR PEDRO ALVARES CABRAL NA SCENA DA PRIMEIRA MISSA NO BRASIL.
Eis-nos emfim nas margens opulentas
Da terra promettida — Éden de luz!
Do mundo novo os matutinos raios
Beijâo sorrindo o pavilhão da cruz !
Em seus formosos braços nos recebe
A Americana virgem sem rival,
E n'este augusto e festival momento
De gloria exulta o velho Portugal.
Oh! que excelso painel! Que magestoso
É o brilho fulgente d'este sol!
Aqui viráõ os povos reunidos
Saudar da liberdade o arrebol!
Aqui viráõ das partes mais longínquas,
A fecundar as invias regiões,
O progresso, a industria, a intelligencia,
Formando o tabernaculo das nações!
«
Por bem pagos, meus nobres companheiros,
Devemos n'este dia nos mostrar,
58
A
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
é
Se os mares nunca d'antes navegados Soubemos com esforço atravessar;
E lutando com força mais que humana Contra a fúria potente do escarcéo,
Apontamos ao velho continente
Surgindo um mundo novo e um novo céo! O' pátria ! Como pulsa de teus filhos
O generoso e nobre coração, Ao verem tremular n'este oásis
Das quinas portuguezas o pendão ! Estandarte sagrado, a cujo aceno Pavorosas fugião de tropel,
As africanas destemidas hostes, As legiões do bárbaro infiel!
Quando o tempo talvez e o infortúnio O brilho desbotar á tua cor,
Ou, se possivel é, enfraquecer-se De teus heróicos filhos o valor; Basta para que eterna a tua gloria
Não possa ter no mundo outra rival", Lembrar que foste tu, pendão augusto, Erguido nestas plagas por Cabral!
<-oC\«)X(>/30-EU TENHO CIÚMES»
* •!<
A. B> C.
Eu tenho ciumes dos negros cabellos Que presos nas trancas me chamão a ti; Nos anjos formosos, que vivem na terra, Tão lindos, tão bellos*.. ainda não vi!
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
Eu tenho ciúmes dos olhos ardentes Que chammas avivão no meu coração; "Nos
ternos lampejos de tímido fogo Fascinão, seduzem, de vivos que são! Eu tenho ciúmes da boca innocente , Dos dentes tão alvos, do brando faliar;
Dos meigos sorrisos que brincão nos lábios Que outrem não pôde... não sabe imitar. Eu tenho ciúmes das faces rosadas,
Do collo que brilha, — que juras ser meu; * Do leito em que dormes... eu tenho ciúmes...
Dos sonhos de virgem... de tudo que é teu !
59 Rio de Janeiro. M. I. iAIARROCOS MENDES. S Jpmd o»
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MODAS.
DESGRIPGAO DO FIGURINO DE MODAS.
-Primeiro vestuário. —Vestido de seda grossa, azul ferrete, saia arrastando. Vestuário de velludo chamado Seglière, guarnecido com rolos de setim e de guipure. Chapéo de velludo guarnecido de fofos e macheados de setim e de renda preta; um pássaro das Ilhas está preso na frente, formando pennacho. Segundo vestuário. — Vestuário de panno de Sedan , chamado Solange , todo guarnecido com galões pretos. Chapéo redondo de velludo , rodeado com uma pluma preta; uma rosa adiante e um laço de renda com abas com-pridas atrás.
EXPLICAÇÃO DO MOLDE CORTADO.
Gasaquinha-ílchú caseira. Para fazer de panno , e ornar com uma franja com cabeças guarnecendo a roda do vestuário.
TRABALHOS.
BOLSA PARA TENTOS, N05 6, 7 E 19.
Materiaes: Cachemira desenhada, fio de ouro e retrozes sortidos.
Damos, no verso da nossa estampa (n°4), o molde da bolsa para tentos que se corta em um só pedaço. O nosso modelo é de cachemira ponçó. Fazem-se as seis pregas iguaes conforme o desenho n° 19 e o fundo segundo o n° 6. Antes de começar o bordado, cumpre forrar a cachemira com morimbranco*. O bordado indio faz-se de ponto lançado e ponto russo; é este bordado mui fácil de fazer, pois na verdade não passa de uma espécie de risco; emprega-se retroz finíssimo ou desfiado. Os recortes da cercadura têm um risco branco entre dous pretos e um pequeno ponto de fio de ouro em cada recorte. O
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JORNAL DAS FAMÍLIAS. 61
ílorão grande tem os contornos formados com três riscos azues; cm cada pétala, uma pequena folhagem branca; um circulo de ouro e uma estrella preta no centro. Entre as pétalas azues, ha outras formadas com um risco preto e um risco branco seguros na extremidade com um ponto de ouro. As pequenas folhagens tem as hastes pardas e os riscos alternados verdes e brancos. As folhas grandes tem também as hastes pardas , os riscos pardos cie um lado e amarellos do outro. Fazem-se as pequenas ílôres com dous riscos brancos e estrella de ouro no centro. 0 circulo faz-se igual.
Para armar a bolsa, forra-se com pellica branca , corta-se o intervallo entre cada prega e reunem-se por meio de uma costura; todo ao redor do circulo exterior furão-se ilhós pelos quaes enfião-se cordões para abrir e fechar a bolsa. A vista da bolsa acha-se no n° 7.
Este modelo pôde servir para bolsa para fumo.
PRATO PARA ALAMPADA, N° 13.
Materiaes para o par: Uma peça de cordão de seda liso; 3 meadas de lã branca; 5 grammas de lã ouro e preto; o matizes de lã de Saxonia encar-nada, 5 fios; 3 matizes de lã encarencar-nada, KMios; 4 grammas de retroz de Argel cor de milho.
O fundo do prato faz-se de cmçhet malhas duplas, muito unidas, sobre o cordão de seda liso; trabalha-se sempre rodeando e augmentando de modo que o trabalho íique bem chato. Começa-se pelo centro com lã branca , fazendo A carreiras, depois 2 carreiras com a lã 5 fios do encarnado mais claro, 2 carreiras do segundo matiz, 1 carreira do terceiro matiz e 1 carreira do quarto matiz e do quinto matiz; faz-se 1 carreira com o terceiro matiz, depois 1 carreira com o segundo e conclue-se com 1 carreira do matiz mais claro. Por cima d'estc trabalho, borda-se , guiando-se pelo nosso desenho, oito raios de estrellas ligados entre si com pontos de lã ouro e preto; os pontos lançados fazem-se com lã branca.
A guarnição faz-se com a lã 10 lios. Mette-se a agulha na ultima carreira com a lã mais escura.
Ia carreira. — 7 malhas duplas; saltão-se 2 malhas; 6 barrinhas na mesma malha. Continua-se.
2a carreira. — 7 malhas com o encarnado móclio sobre as da carreira pre-cedcnte; 8 barrinhas nas seis da carreira precedente, deixando uma malha, entre cada uma d'ellas na parte superior. Continua-se.
3a carreira. — Encarnado claro. 3 malhas sobre as da carreira precedente; 10 barrinhas deixando uma malha entre cada uma, na parte superior.
Forma isto uma carreira de conchas que se orla com um ponto de cadeia-zinha, um tanto unido, com retroz cor de milho.
Passa-se um ponto comprido com retroz cor de milho entre cada concha. O prato deve ter 17 centímetros sem a guarnição. Tem a vantagem de dis-pensar forro.
ROLHA PARA VIDRO DE ALAMPADA IRMANADA COM 0 PRATO, Nos 17 K 18, Materiaes para o par : Lã de Saxonia, 5 fios, de três matizes de encarnado, 5 grammas de cada matiz; 2 meadas de lã verde, 1 meada de lã amarella e 3 meadas de lã branca.
62 JORNAL DAS FAMÍLIAS.
Cada rolha consta de cinco pendentes formados de pequenas conchas de crochet, diminuindo de cima para baixo e rodeando uma rolha de cortiça coberta, com crochet, de lã encarnada; sobre a rolha põe-se uma bonina branca. Damos no n° 17 o desenho da bonina , e no n° 18 o de um dos pen-dentes de tamanho natural. 0 n° 10 representa a vista da alampada sobre o prato, e o vidro coberto com a rolha. Para um pendente armão-se 9 malhas cadeiazinhas, com as quaes forma-se um circulo, e faz-se, sempre voltando, uma concha de duas em duas malhas desencontrando-as em cada carreira. São precisas seis carreiras de encarnado escuro, seis carreiras de encarnado médio c seis carreiras de encarnado claro; no encarnado médio, diminue-se o circulo de duas malhas, e no encarnado claro, ainda de duas malhas.
Eis como se faz cada concha : 1 malha dupla , armão-se 5 malhas sobre a agulha como para fazer ponto de meia; atira-se a lã e passa-se tudo na mesma malha.
A bonina faz-se também de crochet; começa-se fazendo um circulo de 4 malhas cadeiazinhas, depois, mettendo a agulha no pé de uma das malhas, fazem-se três anneiszinhos amarellos para o centro, depois três carreiras de anneiszinhos brancos, econclue-se com uma carreira de anneiszinhos verdes. Essas boninas podem servir para enfeitar pratos para alampadas, para vasos ou para frascos; rodeião-se com relva feita de ponto de meia.
0 PRESÉPIO SOU A GEADA,
(N° 38 DA ESTAMPA DE MOLDES.)
Este trabalho , de origem allemã , representa um canto da campina dos arredores de Belém, como presépio do Menino Jesus, cobertos pela geada. Sobre esta geada scintillante que tudo cobre, uma multidão de anjos, feli-zes, risonhos, reunírão-se para celebrar o nascimento do divino Menino que se vê só deitado dentro do presépio. Dezeseis anjinhos, em varias posições, parecem cantar os louvores de Jesus. (O desenhador só representou três ou quatro para clareza do desenho.) Um traz uma corbelha de flores; outro, frutas; este toca tamboril; aquelle offerece ramalhetes; outros trazem
gri-naldas*
Vamos agora ensinar Como se reproduz esta scena, cujo desenho não pôde representar o effeito tão exquisito como brilhante.
Toma-se íio de latão coberto de linha, com o qual fazem-se raminhos coiv-forme os modelos nos 40 e 41. É indifferente fazer-se um ou outro d'esses modelos; o mais fácil de fazer será o melhor. Fazem-se esses raminhos, uns maiores, outros mais pequenos, e reunem-se de modo a formar arvores e arbustos de vários tamanhos. Os fios de latão sendo flexíveis, será fácil dar-lhes todas as fôrmas que se quizer; juntando os raminhos e atando-os a um tronco principal, consegue-se sem custo arvores de inverno cujos ramos estão despidos de folhas. Para dar maior grossura ao tronco principal rodeia-se com pasta de algodão. Preparadas bastantes arvores para encher a paiza-gem, trata-se do terreno. Toma-se para isso um pedaço de papelão, ou melhor uma tampa de caixa ovada e cobre-se companninho branco. Prende-se a fazenda solidamente á tampa com alguns pontos de costura. Em seguida collocão-se as arvores e os arbustos; para os manter em pé torce-se um pouco a ponta da haste e prende-se ao estofo com um alfinete como
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JORNAL DAS FAMÍLIAS. 03
se pôde ver no pé da armação do presépio, modelo n° 39. Este modelo mostra que o presépio não é mais difficil de fazer do que o mais. Consta de quatro umbraes e de um pequeno telhado que se cobre com pasta de algodão muito branco , bem como a parede, se quizerem que a tenha. A pasta de algodão prende-se ao telhado com alguns pontos. Colloca-se o pre-sepio na paizagem e prende-se como as arvores.
Está o trabalho concluído e effectuando-se o resto por meio de uma curiosa e interessante operação.
Faz-se ferver pedra-hume crystallisada cm água na proporção de 500 grani-mas de pedra-hume para um litro d'agua. Estando completamente dissol-vida a pedra-hume, tira-se a água do lume e deixa-se esfriar. Estando a água bastante fria para poder conservar a mão n'ella, porém não antes d5isso, mergulha-se dentro o trabalho todo inteiro de modo que fique com-pktamente coberto cTagua. Ao cabo de uma hora ver-se-ha começar a crystal-lisação á roda dos raminhos; essa crystalcrystal-lisação irá sempre engrossando. Observem-se-lhe os progressos através da água límpida e não a deixem ficar muito espessa; tornaria isto a paizagem pesada. Devem bastar duas ou três horas para que a operação seja completa. Tira-se então o trabalho da água, com cuidado. Estará coberto com uma geada imitando perfeitamente a que cobre as arvores no inverno. Deixa-se seccar por cinco ou seis horas, sem lhe tocar. Podcr-se-ha então collocar as arvores, os arbustos, os tufos de hervas, e dentro do presépio, por cima do Menino Jesus, os anjinhos, segu-rando-os com fio de latão; deixão-se esses fios bastante compridos para que os anjos possão oscillar com o menor sopro, ou o menor movimento.
BOCETINHA-ESMOLEIRA.
Para armar esta bocetinha, corta-se ella primeiro seguindo o ultimo fio de ouro de cima e de baixo. Seguindo-o exactamente, achar-se-hão dese-nhados, em baixo, entalhos que facilitaráõ o dobrar por baixo a beira infe-rior e grudal-a sobre o fundo. Cumpre ter cuidado de deixar em um dos lados, na metade inferior da bocetinha, uma margem bastante larga para poder grudar os dous lados um sobre outro e formar assim uma caixinha. Para o fundo , corta-se um pedaço de papelão conforme o modelo n° 43; gruda-se em cima a beira inferior da bocetinha, que se dobra , como lica dito, e cobre-se tudo com papel branco. Eníião-sc na bocetinha quatro cor-dõeszinhos de ouro ou de seda comborlas, como se vê no modelo. Parator-nar esta bocetinha mais elegante, póde-se pôr no fundo da caixa, por dentro, um saquinho de seda, que se fecha também com cordões e bodas.
EXPLICAÇÃO DA ESTAMPA DE BORDADOS.
Nüs 1 e 2.— Collarinho direito e punho irmanado, para bordar sobre panno de linho duplo com bainhas pespontadas. Ponto México com retroz finis-simo ou desfiado.
N° 3. — Olympia. Lettras inglezas, ornadas. Ponto de relevo.
N° 4. — Valeria. Lettras inglezas. Gorclãozinho. Vinheta de ponto de re-levo, para lenço.
64 JORNAL DAS FAMÍLIAS. N° 5.— Leorior. Lettras inglezas. Bordado russo.
N° e, — Fundo da bolsa para tentos. Bordado indio. (Vide os trabalhos.) N° 7. — Vista da bolsa para tentos.
No g. _ Qq^^ parte de um lenço. Ponto de relevo, beira recortada.
N° 9. — Lúcia. Lettras gothicas. Cordãozinho. Vinheta de ponto d'armas e cordãozinho, para lenço.
N° 10. — Vista da alampada com prato e rolha.
N° 11. — Z. P. Lettras encadeadas. Ponto de relevo com linha branca e encarnada.
IN° 12. — Cecília. Lettras inglezas. Cordãozinho. Escudo de ponto de re-levo, para lenço.
N°13. — Prato para alampada; trabalho de crochet. [Vide os trabalhos.) N° 14. — J. M. Lettras encadeadas. Ponto de relevo.
N° 15. — Desenho para roda de saia, de morim. Recorta-se a roda da saia cm fôrma de dentes; accrescenta-sc-lhe uma tira direita, franzida com pre-gas ocas; sobre a costura põe-se uma tira estreita , 'pespontada de ambos os lados; uma tira direita igual conclue a saia. O bordado faz-se de ponto russo e ponto México com retroz preto.
N° 1G. — Victoria. Lettras inglezas e vinheta de bordado russo. Ponto de relevo e ponto d'armas.
Nos 17 e 18. — Partes da rolha de alampada. (Vide os trabalhos.) N° 19, — Partes da bolsa para tentos. (Vide os trabalhos.)
N° 20. — Constança. Lettras gothicas. Bordado russo.
N° 21. — Condia. Lettras gothicas, com vinheta. Ponto de relevo e ponto çTarmas.
Nos 22 c 23. — Gollarinho de pontas e punho irmanado. Ponto de relevo e beiras recortadas.
N°24. — Aurelia. Lettras gothicas. Duplo cordãozinho. EXPLICAÇÃO DA ESTAMPA DE MOLDES. Molde de sobretudo Mac Farlane, para menina :
N° 1. — Uma das frentes. N° 2. — Metade das costas. N° 3. — Metade do cabeção.
N° 4. — Molde da bolsa para tentos. (Vide os trabalhos.) N° 5. — Vista do sobretudo.
Este sobretudo não tem mangas. O cabeção cobre bastante os braços 7 e traz a menina um pequeno manguito para resguardar o antebraço quando faz muito frio. O cabeção arregaça-se atrás formando pregas e põe-se um laço sobre a costura. O Mac Farlane faz-se de panno, de riço de velludo, de vel-liido listrado ou de fazenda de lã de fantasia; guarnecc-se com galões rofos.
N°G. — A. D. Iniciaes ornadas.- Ponto de relevo.
Nos 7 e 8. — Z. D. Iniciaes }de dous tamanhos, para toalha de mesa c guardanapos. Ponto de relevo.
N° 9. — L. D. Iniciaes romanas. Ponto de relevo.
Nü 10. — A. P. Iniciaes gothicas , ornadas. Ponto de relevo e ponto d'armas.
JORNAL DAS FAMÍLIAS. 65 N° 12. — A. L. Lettras encadeadas. Cordãozinho e ponto russo.
N° 13. — A. L. Iniciaes gothicas. Cordãozinho. N° 14. — H. M. Iniciaes inglezas. Ponto de relevo.
N° 15. — N. D. Lettras encadeadas. Ponto de relevo c ponto de poste. N° 16. — B. D. Iniciaes inglezas. Ponto de relevo e ponto d'armas. N° 17. — C. T. Iniciaes inglezas. Bordado russo.
N° 18. — E. G. Iniciaes inglezas. Bordado russo. N° 19. — M. G. Iniciaes inglezas. Ponto de recorte. N° 20. — T. D. Iniciaes inglezas. Ponto de relevo. N° 21. — A. D. Iniciaes gothicas. Ponto de recorte. N° 22. -— A. 0. Lettras encadeadas. Ponto de relevo. N° 23. — M. J. Lettras encadeadas. Ponto de relevo. N° 24. — Joanna. Lettras gothicas. Cordãozinho.
N° 25. — L. G. Iniciaes inglezas. Cordãozinho de linha branca com pes-ponto de linha de cor por cima. Para fronha.
N° 26. — T. G. Iniciaes romanas. Ponto de relevo.
N° 27. — A. T. Iniciaes gothicas, para lenço de homem. Cordãozinho. N° 28. — M. T. Lettras encadeadas. Bordado russo.
Nos 29 e 30. — L. C. Para marcar a roupa.
N° 31. -— D. P. Iniciaes gothicas. Bordado russo.
N° 32. — L. T. Iniciaes gothicas. Ponto de relevo e ponto d'armas.
N° 34. — Fôrma de papelão para o templo de crochêt. {Vide o crochet ap-plicado á mxhitectura.)
Nos 35 e 36. — Vista da casaquinha-íichú de que damos o molde cortado de tamanho natural.
N<> 37. — Bocetinha-esmoleira. {Vide os trabcdhos.) No 3g§ _ Vista do presépio. (Vide os trabalhos.)
Nos 39, 40 e 41. — Partes do presépio. (Vide os trabalhos.)
No 42# Fôrma da cúpula do templo de crochet. (Vide o crochet applicado à architectura.)
No 43, —Fundo da bocetinha-esmoleira. (Vide os trabalhos.)
CROCHET APPLICADO A ARCIIITECTURA.
(vide a estampa especial do numero de janeiro.)
Vamos hoje occupar-nos com a explicação do pequeno templo destinado a receber uma estatuazinha da Virgem (fig. D da estampa de crochet do
numero de Janeiro).
Comecemos pela base. É, como se pôde ver na quarta parte da íig. G da estampa, um simples circulo de ponto ordinário (1). Começa-se no meio por cinco malhas que se reúnem, e continua-se em circulo, accrescentando, todas as três ou quatro carreiras, um ponto sobre dous, de modo que fique o trabalho bem liso. Os degráos, junto da beira, fazem-se em seguida met-tendo a agulha sobre a penúltima carreira, depois sobre a quarta. Cada um
(O O ponto ordinário é aquelle em que se passa a linha só uma vez na agulha; o ponto] de
barrinhaii aquelle cm que se passa duas vezes. Na figura J , a parte superior do modelo e de ponto
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d'esses degráos consta de três carreiras de barrinhas sobrepostas edas quaes a terceira está dobrada para baixo , de modo a formar relevo. Ha quatro degráos á roda da base.
Feita a base, fazem-se as columnas. O modelo da columna está tão claro que parece escusada qualquer explicação. Faz-se de ponto chamado de lis-tra, que differe do ponto ordinário unicamente no seguinte : mette-se sem-pre a agulha na parte de trás da malha, como se pode ver no modelo, na lettra M. No começo de cada carreira , cumpre fazer uma malha no ar, do contrario as carreiras irião diminuindo, em vez do que e preciso ter sempre o mesmo numero de malhas.
Passemos ao capitei. Consta de folhas, cada uma das quaes faz-se com quatro malhas no ar; só a primeira prende-se á columna. Volta-se depois sobre essas 4 malhas no ar fazendo malhas ordinárias, o que constitue uma pequena folha presa á columna somente pela parte inferior. Fcizem-se 3 ma-lhas no ar e torna-se a metter a agulha em uma malha da columna, para começar outra folha, e assim por diante, sete vezes. A segunda carreira de folhas faz-se da mesma maneira; eolloca-se conforme o modelo. São pre-cisas duas carreiras de folhas para o capitei. A columna consta de 9 listras de malhas unidas. Para o envazamento (fig. R), armão-se 25 malhas; reunem-se em circulo e fazem-se 8 carreiras de malhas duplas. É preciso fazer as duas primeiras e as duas ultimas carreiras com uma agulha mais grossa , depois dobrão-se de modo a formar um pequeno rolo de cada lado. Este envaza-mento introduz-se por baixo da columna. (Póde-se dispensar o pedaço qua-drado (fig. R), que antes prejudica do que aproveita para a belleza da columna).
Para a cúpula, começa-se pelo centro e trabalha-se sempre em circulo , fazendo malhas ordinárias unidas. Depois da décima carreira, faz-se uma reira fazendo duas malhas dentro de cada malha. Fazem-se ainda dez car-reiras e augmenta-se da mesma maneira na carreira seguinte. Para os peque-nos relevos do remate da cúpula , faz-se uma carreira de barrinhas; para o realce mais saliente , fazem-se duas carreiras de barrinhas sobrepostas; dobra-se a segunda que se prende á cúpula com uma carreira de malhas ordinárias, depois faz-se uma terceira carreira de barrinhas por cima das duas carreiras dobradas. Depois do quarto relevo , fazem-se 14 carreiras de malhas ordinárias unidas, para formar a beira da cúpula, desde o n° 8 até o n° 9 (íig. H). É sobre esta beira ou plintho que mais tarde se terá de collocar o recorte (fig. D), segurando-o unicamente com uma malha feita na parte superior do dito recorte. Acabada a cúpula , fazem-se ainda duas carreiras de malhas de barrinha, augmentando de um ponto em cada três malhas. Formará isto uma ultima beira que se assentará sobre o capitei das columnas e os dous fios de latão que as sustentão.
As extremidades da cúpula fazem-se com cadeiazinhas de malhas no ar passadas pelo meio, em iguaes distancias, nas malhas das carreiras do fundo. Pelo nosso modelo ve-se a disposição d'essas cadeiazinhas.
Feito o trabalho , quanto ao crochet, lavado e engommado, como ficou dito para a corbelha no numero de Janeiro , cumpre pôr a cupula sob uma fôrma c concluil-a completamente, pois d'ella depende tudo mais. Eis o modo de pôr a cupula sob uma fôrma :
Não achando entre os utensílios de casa qualquer objecto com forma de meia esphera assentando sobre uma base chata e redonda, cumpre fazer