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Roberto Lobato Corrêa - Regiao e Organização Espacial 01

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Antropologia

Arquitetura

Geografiia

'

Sociologia

ISBN 85-0m-01962-9

Roberto

Lobato Corrêa

REGIAOE

pRGANIZACAO

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ESPACIAL

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9 788508 019625

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Roberto

Lobato Corrêa

Professor da

Universidade Federal do Rio de Janeiro Geógrafo da Fundação Instituto Brasileiro de

Geografia e Estatística

REGIÃO E

ORGANIZACAO

ESPACIAL

7ª edição 3ª impressão

(3)

li

,,

111

Benjamin Abdala Junior Sarnira Voussef Campedelli

Preparação de texto Rogério Ramos

Arte Coordenação e projeto gráfico (miolo) Antônio do Amaral Rocha

Arte-final René Etiene Ardanuy Joseval Sousa Fernandes

Capa Ary Normanha

Impressão: Gráfica Palas Athena

ISBN 85 08 01962 9

2003

Todos os direitos reservados peta Editora Álica Rua Barão de lguape, 110- CEP 01507-900

Caixa POS1al 2S37 -CEP 01065-970 São Paulo-SP

Tel.: oxx 11 334&3000-Fax: oxx 11 32n-4146 Internet: http://Www.alica.rom.br e-mail: [email protected]

Sumário

1

.

lntrodução

_ _ _ _ _ _ _

_ _ _ _ __ _

5

2.

As correntes do pensamento geográfico_7

O determinismo ambiental 8

O possibilismo

11

o

método regional

14

A

n

ova

geografia

16

t\ geografia crítica

19

3

.

Região:

um conceito complexo

22

Região natural e determinismo ambiental

23

Possibilismo e região

27

Nova geografia, classes e região

32

Região e geografia crítica

40

R1:gião, ação e controle

47

4

.

Orga

nização espacial

51

0 1·• unização espacial: uma conceituação

54

t >1 gnnização espacial: capital e Estado

60

C >1~11nização espacial: reflexo social

67

e >1 "nnlzação espacial e reprodução

72

1 1111·11L111·n, processo, função e forma

75

l •11p11~0 o movimentos sociais urbanos

80

1

Voc

.

nbu

rio crítico

85

(4)

\li

li

1

Introdução

propósito deste estudo é introduzir o estudante de ~1•11wufia em dois conceitos fundamentais: o de região e o 111 nr onização espacial. Eles também são considerados 11111 oulrns ciências sociais como a sociologia e a economia, 1111111 nno têm nestas a relevância adquirida na geografia. 11 longo da história da geografia, têm se situado no 11111111 dn discussão sobre o seu objeto, e erigidos na prá-1 h 11 1•01110 os conceitos de maior importância.

C htl ros conceitos podem ser considerados, a nosso 1, 1le menor importância, tais como posição geográfica 1111111,

( )11 1:unccitos de região e de organização espacial são

I•

llh 101 pnrn. se compreender o caráter distinto da

geo-1 geo-1flgeo-1geo-1 1111 (\rnbilo das ciências sociais, indicando a via j

1•11111/11

"

tlc conhecimento da sociedade, quer dizer, das t '"'-''' 1•111 rc nntureza e história. A discussão destes ter-m11111 11111 outro Indo, pressupõe que se tenha uma certa h1h11111111,110 dll evolução do pensamento geográfico desde,

I'

ln 1111111111,

o

final do século XIX, quando a geografia 111111111l 11 1•111111 1· de disciplina acadêmica, dotada de um

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207 208 209 210 211 212 213 214 215 216 217 218 219 220 221 222 223 21<

processo de mudança de paradigmas que se insere no bojo da história.

O presente estudo compõe-se de três partes. A primeira delas procura situar o leitor em termos de como se pensa a geografia nesse espaço de tempo. Esta parte tem o caráter de introdução às outras duas, procurando colocar em evidência os modelos geográficos básicos, dentro dos quais se discutem os conceitos de região e de organização espacial. Assim, não se trata da a.presentação das correntes de pensamento geográfico de per si, pois elas têm como foco os dois conceitos-chave de que esta -mos tratando. Para este assunto de vital importância na formação do geógrafo e do professor de geografia,

suge-rimos que se leia o livro de Antonio Carlos Robert Mo-raes (1981)

*.

A "Bibliografia comentada" cobre, por ou-tro lado, a história do pensamento geográfico com certa profundidade ..

A segunda parte aborda os diversos conceitos de região, enquanto a terceira apresenta a questão da orga-nização espacial. Constituem o centro deste estudo.

Ao final muitas questões terão sido levantadas e fica-rão sem respostas. Em parte esta é a nossa intenção. E tem como finalidade o aprofundamento das discussões sobre os conceitos de região e organização espacial.

*

As referências bibliográficas que não aparecem no pé da página são de obras incluídas na "Bibliografia comentada" ao final deste volume. No texto propriamente dito serão apenas acrescentados os dados faltantes, como capítulo, página etc.

2

As correntes do

pensamento

geográfico

No nosso entender, as principais correntes de pensa-mento geográfico ou paradigmas da geografia são os se-guintes: o determinismo ambiental, o possibilismo, o mé-todo regional, a nova geografia e a geografia crítica. Foram

formalmente explicitadas a partir do final do século XIX, constituindo uma seqüência histórica de incorporações de práticas teóricas, empíricas e políticas que, não excluindo

nenhuma delas, apresenta a cada momento um ou dois pa-drões dominantes. Assim, o determinismo ambiental e, me-nos ainda, o possibilismo não desapareceram totalmente, mas perderam o destaque, sobretudo o determinismo am-biental. Por outro lado, a geografia crítica é o último mode-lo a ser incorporado, passando a coexistir conflitivamente com os outros, principalmente a nova geografia.

Estas tendências estão fundamentadas, de um modo, na consideração da geografia como um saber calcado em uma das três abordagens: o estudo das relações homem/ meio, o de áreas e os locacionais. Adicionalmente, tem sido adotada uma combinação de duas ou três das abor-dagens acima referidas. De outro, as correntes fundamen-tam-se em diferentes métodos de apreensão da realidade.

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207 208 209 210 211 212 213 214 21!> 216 217 218 219 220 221 222 223 224

Entre eles, destaca-se o positivismo, quer na sua versão clássica, quer na do positivismo lógico. O materialismo histórico e a dialética marxista, que dão base ao seg-mento mais importante da geografia crítica, são métodos de incorporação recente à geografia.

Subjacente a todos os paradigmas há um

denomina-dor comum: a geografia tem suas raízes na busca e no entendimento da diferenciação de lugares, regiões, países e continentes, resultante das relações entre os homens e entre estes e a natureza. Não houvesse diferenciação de

âreas, para usar uma expressão consagrada, certamente a

geografia não teria surgido. Estamos falando, pois, do cerne da geografia, ainda que o seu significado não tenha sido sempre o mesmo. Os conceitos de região e organiza-ção espacial estão vinculados a esta idéia básica em geo-grafia.

O determinismo ambiental

A geografia emerge como uma disciplina acadêmica a partir de 1870. Até então, e desde a Antigüidade, a geografia compunha um saber totalizante, não desvincula-do da filosofia, das ciências da natureza e da matemática.

Com Varenius no século XVII, Kant no XVIII, e

Hum-boldt e Ritter já na primeira metade do XIX, a geografia vai gradativamente configurando um conhecimento especí-fico, sem contudo perder de vez a visão globalizante da realidade.

As últimas décadas do século XIX caracterizam-se

por dois processos que são extremamente importantes

pa-ra a história do homem e da geografia. De um lado, o ca-pitalismo passa a apresentar uma progressiva concentração

de capitais, gerando poderosas corporações monopolistas

e uma nova expansão territorial. Inaugura-se a sua fase

im-pcrialista. O outro processo, que se vincula ao primeiro, é o da fragmentação do saber universal em várias discipli-nas. Assim, criam-se departamentos de geografia nas uni-versidades européias e, mais tarde, nas norte-americanas, conforme aponta, entre outros, Brian Hudson 1.

Foi o determinismo ambiental o primeiro paradigma a caracterizar a geografia que emerge no final do século XIX, com a passagem do capitalismo concorrencial para uma fase monopolista e imperialista.

Seus defensores afirmam que as condições naturais, especialmente as climáticas, e dentro delas a variação da temperatura ao longo das estações do ano, determinam o comportamento do homem, interferindo na sua capacidade de progredir. Cresceriam aqueles países ou povos que

esti-vessem localizados em áreas climáticas mais propícias.

Fundamentando a tese do determinismo ambiental, estavam as teorias naturalistas de Lamarck sobre a here-ditariedade dos caracteres adquiridos e as de Darwin sobre a sobrevivência e a adaptação dos indivíduos mais bem dotados em face do meio natural. Estas teorias foram ado-tadas pelas ciências sociais, que viam nelas a possibilidade de explicar a sociedade através de mecanismos que ocor-rem na natureza. Foi Herbert Spencer, filósofo inglês do século XIX, o grande defensor das idéias naturalistas nas ciências sociais.

Na geografia, no entanto, as idéias deterministas ti-veram no geógrafo alemão Frederic Ratzel seu grande or-ganizador e divulgador, ainda que ele não tivesse sido o expoente máximo. A formação básica de Ratzel passou pela zoologia, geologia e anatomia comparada; foi aluno de Haeckel, o fundador da ecologia, que o introduziu no darwinismo. No entanto, seu determinismo ambiental foi 1 HuosoN, Brian. The New Geography and the New lmperialism:

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207 208 209 210 211 212 213 214 215 216 217 218 219 220 221 222 2ZI 22•

amenizado pela influência humanista de Ritter. Criou, desta forma, a geografia humana, denominada por ele de an-tropogeografia e marcada pelas idéias oriundas das ciên-cias naturais.

Nos Estados Unidos e, em menor escala, na Ingla-terra, o determinismo imprimiu-se profundamente no nas-cimento da geografia. O primeiro dos países passava, no final do século passado e início deste, por uma fase de afirmação nacional, em que se justificava o progresso at ra-vés das riquezas naturais. Ellen Semple, discípula de Ratzel, discorre sobre as influências das condições geográficas (configuração da costa, padrão dos rios, cadeias de mon -tanhas, climas etc.) na história norte-americana.

A Inglaterra tornara-se, nesse momento, a grande metrópole imperialista. O determinismo ambiental justi -ficava a expansão territorial através da criação de colônias de exploração no continente africano, e de povoamento em regiões temperadas, a serem ocupadas pelo excedente de-mográfico britânico e europeu.

Na realidade, o determinismo ambiental configura uma ideologia, a das classes sociais, países ou povos ven-cedores, que incorporam as pretensas virtudes e efetivam as admitidas potencialidades do meio natural onde vivem. Justificam, assim, o sucesso, o poder, o desenvolvimento, a expansão e o domínio. Não é de estranhar, pois, que na Grécia da Antigüidade se atribuíssem às características do clima mediterrâneo o progresso e o poderio de seu povo em face dos asiáticos que viviam em áreas caracteri za-das pela invariabilidade anual za-das temperaturas. Muito mais tarde, no final do século XIX, seríam outras as carac-terísticas climáticas consideradas como favoráveis ao cres-cimento intra e extraterritorial. Transformava-se assim em natural, portanto fora do controle humano, uma situação que é econômica e social, histórica portanto, denominada imperialismo.

)Estabeleceu-se uma relação causal entre o comporta-mento humano e a natureza, na qual esta aparece como el e-mento de determinação, As expressões fator geográfico e condições geográficas, entendidas como clima, relevo, ve-getação etc., são heranças do discurso ideológico determi-nista. Outra delas, particularmente relevante para nós, é a região natural. Voltaremos a ela em breve.

Ratzel, por sua vez engajado no projeto de expansão alemã, legou-nos o conceito de espaço vital, quer dizer,_ o território que representaria o equilíbrio entre a populaçao ali residente e os recursos disponíveis para as suas

neces-sidades, definindo e re1acionando, deste modo, as possi-bilidades ·de progresso e as demandas territoriais. O espaço vital está implicitamente contido na organização espacial, delimitando, no campo do capitalismo, parte da superfície

da terra organizada pelo capital e pelo Estado capitalista,

extensão que se tornou necessária à reprodução do mesmo. Em linguagem organicista, espaço vital equivale à

expres-são espaço do capital.

O possibilismo

Em reação ao determinismo ambiental surge, na França no final do século XIX, na Alemanha no começo do XX e nos Estados Unidos na década de 20, um outro paradigma da geografia, ~o~sibili.smo. A semelhança do determinismo ambiental, a visão possibilista focaliza as relações entre o homem e o meio natural, mas não o faz considerando a natureza determinante do comportamento humano.

A reação ao determinismo ambiental, mais forte na França, tem como motivação externa a situação de con-fronto entre ela e a Alemanha. O possibilismo, francês em

(8)

sua origem, opõe-se ao determinismo ambiental germâ-nico. Esta oposição fundamenta-se nas diferenças entre os dois países.

Ao contrário da Alemanha, unificada em 18 71, a França já era França há muito tempo. Lá a revolução burguesa tinha se dado de modo mais completo, e xtir-pando os resquícios feudais, ainda existentes na Alemanha. Esta chega tardiamente à corrida ·colonial, enquanto a França dispunha, então, de um vasto império; os interesses expansionistas alemães voltaram-se, em grande parte, para a própria Europa. Acrescente-se ao quadro a luta de classes, que assumia formas mais acirradas na França, a exemplo da Comuna de Paris.

Neste contexto, a geografia francesa teria de cumprir simultaneamente vários papéis:

a) Desmascarar o expansionismo germânico - criticando o conceito de espaço vital - sem, no entanto, invia-bilizar intelectualmente o colonialismo francês;

b) Abolir qualquer forma de determinação, da natureza ou não, adotando a idéia de que a ação humana é mar-cada pela contingência;

c) Enfatizar a fixidez das obras do homem, criadas atra-vés de um longo processo de transformação da natu-reza; assim os elementos mais estáveis, solidamente im-plantados na paisagem, são ressaltados, não se privile-giando os mais recentes, resultantes de transformações que podem colocar em risco a estabilidade e o equilí-brio, alcançados anteriormente. Daí a ênfase no estudo dos sítios predominantemente rurais.

No plano interno à geografia, havia a reação a ela ter sido definida por uma relação de causa e efeito - a natureza determinando a ação humana - e não por um objeto empiricamente identificável. Pensou-se, então, na

paisagem como uma criação humana, elaborada ao longo do tempo, sendo a paisagem natural transformada em cul-tural ou geográfica.

Na realidade, para V_jQ.al de_la Blach~ o mestre do

possibilismo as relações entre o homem e a natureza eram

bastante complexas. A natureza foi considerada como for-necedora de possibilidades para que o homem a

modifi-casse: o homem é o principal agente geográfico. Vidal de la Blache redefine o conceito de gêp.ero de vida herdado e.lo determinismo, conforme aponta ·Paul Claval (1974):

trata-se não mais de uma conseqüência inevitável da na-tureza, mas de

um acervo de técnicas, hábitos, usos e costumes, que lhe

permitiram utilizar os recursos naturais disponíveis tal como Moraes (1981) a ele se refere. Os gêneros de vida pensados anteriormente exprimiam uma situ_ação de equilíbrio entre população e os recursos natura1~. Uma paisagem geográfica enquadraria, na verdade, a area de

ocorrência de uma forma de vid~.

A paisagem geográfica tem, ainda, uma extensão territorial e limites razoavelmente identificáveis. Nestes termos a região é a expressão espaci_al da ocorrência de uma

~esma

paisagem geográfica. O _objeto da geografia possibilista

é,

portanto, a região, e a geografia confunde-se,

então, com a geografia regional.

Enquanto formas criadas pelo homem sobre a su-perfície da Terra, a paisagem poderia ser considerada si-nônimo de organização espacial? Primeiramente, lem-bre-se de que este conceito não foi cogitado pela geografia vidaliana.

Em segundo lugar, no nosso entender, o conceito de paisagem - campos agrícolas dispostos pelas encostas sua-ves de um vale, florestas nas íngremes, caminhos entre os

(9)

campos e ao longo do rio onde se localizam os núcleos de povoamento etc. - aproxima-se do de organização espacial

que adotamos neste estudo. No entanto, o conceito de paisagem apresenta uma limitação dada pela ênfase em um aspecto exterior, derivado de sua apreensão via método empírico-indutivo.

Por outro lado, o conceito de paisagen1, que acaba se confundindo com o de região, está associado à visão de unicidade, isto é, de um fenômeno que ocorre uma única vez, sem se repetir.

O conceito de organização espacial é, para nós, mais abrangente e rico que o de paisagem.

O método regional

O méto_do regiol!_al consiste no terceiro paradigma da geografia, opondo-se ao determinismo ambiental e ao possibilismo. Nele, a diferenciação de áreas não é vista a partir das relações entre o homem e a natureza, ii!as sim da integração de fenômenos heterogêneos em uma dada porção da superfície da Terra. O método regional focaliza assim o estudo de áreas, erigindo não uma rela-ção causal ou a paisagem regional, mas a sua diferencia

-ção de per si como objeto da geografia.

O método regional tem merecido a atenção de geó-grafos desde pelo menos o século XVII, com Varenius. O filósofo Kant e o geógrafo Carl Ritter, respectivamente no final do século XVIII e na primeira metade do XIX, ampliaram as bases dos estudos de área. No final do século passado, Richthofen estabelece o conceito de co-rologia (integração ·de fenômenos heterogêneos sobre uma dada área), desenvolvido mais tarde por Alfred Hettner.

Contudo, a geografia do final do século passado e início deste vivenciava a disputa entre as correntes deter-minista e possibilista, não se valorizando o método

re.gio-nal. Apenas a partir dos anos 40, e nos Estados Un1cios

sobretudo a tradição de .estudos de área assume

expres-!H o. No

~entro

da valorização do método regional está

o geógrafo norte-americano Hartshorne 2 Com ele, o

no-vo paradigma ganha outra dimensão.

No plano externo, o método r~gion~l evidencia. a

necessidade de produzir uma geografia regional, ou se1a,

um conhecimento sintético sobre diferentes áreas da

su-pcríície da Terra. Preocupação antiga, derivada da ~xpan­

Hl'ío mercantilista dos séculos XVI e XVII, aparecia, en

-ll'lo, como resultado da demanda das grandes corporações

e dos aparelhos de Estado.

No plano interno, registra a procura de uma

iden-tidade para a geografia, que se obteria não a partir de

um objeto próprio, mas através de um método exclusivo.

Resumindo, diferenciação de áreas passa a se considerar

n resultado do método geográfico e, simultaneamente, o

nhjeto da geografia.

Para Hartshorne, o cerne da geografia é a regional que, como vimos, busca a integração entre fenômen':s heterogêneos em seções do espaço terrestre. Estes

feno-111cnos apresentam um significado geográfico, isto é, con

-t 1 lhucm para a diferenciação de áreas. Da integração

des-lt 11 - estudados sistematicamente pelas outras ciências

- , surge a geografia como uma ciência de síntese.

Em sua proposição, Hartshorne não adota a região

t mno o objeto da geografia. Para ele, importante é o mé

-todo de identificar as diferenciações de área, que

resul-f li\l\TSllORNE, Richard. The Nature of Geography. ln: Annals

11

/

flll! Association o/ American Geographers, 29, 1939.

(10)

taro de uma integração única de fenômenos heterogêneos. Diz ele em seu clássico estudo de 1939:

O objeto da geografia regional é unicamente o caráter va-riável da superfície da Terra - uma unidade que só pode ser dividida arbitrariamente em partes, as quais, em qual-quer nível da divisão, são como as partes temporais da história, únicas em suas características a.

A região, para Hartshorne, não passa de uma área mostrando a sua ll-.niç_t_dade, resultado de uma integraçj!o de natureza_ única de fe!_lÔ_!!lenos ]_l~terog~neos.

O conceito de organização espacial também não é cogitado pelo método regional. Para tanto, pressupõe-se pensar a prio~·i na existência de uma lógica em ação, resul-tante da efetivação de regras ou leis de natureza social. Ora, a proposição hartshorniana não admite a existência de outras leis além da unicidade do caráter integrativo dos fenômenos sobre a superfície da Terra.

Deste modo, as contribuições do paradigma do

mé-t~do regi~nal !:'ªra os c_onceitos de região e de

organiza-çao espacial sao, em s1 mesmas, muito limitadas. Iriam susci.tar, no e~tanto: enorme crítica, na qual aquilo que nos mteressa e considerado de modo privilegiado.

A

nova geografia

Após a 2.ª Guerra Mundial, verifica-se uma nova fase de expansão capitalista. Ela se dá no contexto da recuperação econômica da Europa e da "guerra fria" en -v?lvendo maior concentração de capital e progresso' téc-?,1co, . resultando na ampliação das grandes corporações

Jª existentes. Esta expansão defronta-se, ainda, com 0 3 HARTSHORNE, Richard. Op. cit., 643-4.

desmantelamento dos impérios coloniais, sobretudo a par-llr dos anos 60.

Não se trata mais de urna expansão marcada pela conquista territorial, como ocorreu no final do século

pas-"odo; ela se dá de outra maneira e traz enormes

conse-qUCncias, afetando tanto a organização social como as formas espaciais criadas pelo homem.

Uma nova divisão social e territorial do trabalho é posta cm ação, envolvendo introdução e difusão de no-vas culturas, industrialização, urbanização e outras rela-ções espaciais. As reg10es elaboradas anteriormente à guerra são desfeitas, ao mesmo tempo que a ação huma-no, sob a égide do grande capital, destrói e constrói no-vos formas espaciais, reproduzindo outras: rodovias, fer-rovias, represas, novos espaços urbanos, extensos campos 11srfcolas despovoados e percorridos por modernos trato-res, shopping centers etc. Trata-se de uma mudança tanto

t\() conteúdo como nos limites regionais, ou seja, no ar-1 nnjo espacial criado pelo homem.

Estas transformações inviabilizariam os paradigmas

t rutlicionais da geografia - o determinismo ambiental, n possibilismo e o método regional - , suscitando um 11uvo, calcado em uma abordagem locacional: o espaço 11ltcrado resulta de um agregado de decisões locacionais. A geografia que ~~ em_[Ileado~ da década de_SO, 1 nnhccida como ~ova geografia, tem um papel ideológico 11 NCr cumprido. -ê__preciso justificar a expansão çapitalista,

e t'l\tnotear as transformações q~e_afetaram os gêneros qe vltln e paisagens -~li_damente _ est~belecidjls,..::-assim_ ÇQJl!O

cl11r

esperanças aos "deserdados da terra", acenando c9m li porspcctiva de desenvolvimento a curto e médio Rrazo:

11 ubdcsenvolvimento é encarado como uma etap~-~e­ •1 Hllliria, superada em pouco tempo. A

teori~

dos póios

(11)

de desenvolvimento é um dos melhores exemplos desta ideologia.

A nova geografia nasce simultaneamente na Suécia,

na Inglaterra e nos Estados Unidos, neste último país co-mo uma ferrenha crítica à geografia hartshorniana. Adota uma postura pragmática que se associa à difusão do sistema de planejamento do Estado capitalista, e o positivismo lógi-co lógi-como método de apreensão do real, assumindo assim uma pretensa neutralidade científica.

Ao contrário do paradigma possibilista e da geogra-fia hartshorniana, a nova procura leis ou regularidades empíricas sob a forma de padrões espaciais. O emprego de técnicas estatísticas, dotadas de maior ou menor grau de sofisticação - média, desvio-padrão, coeficiente de correlação, análise fatorial, cadeia de Markov etc. - , a utilização da geometria, exemplificada com a teoria dos grafos, o uso de modelos normativos, a adoção de certas analogias com as ciências da natureza e o emprego de princípios da economia burguesa caracterizam o arsenal de regras e princípios adotados por ela.

:F-

conhecida

ta.!Jl-f?~m como geografia teorética ou geografia quantitativa.

~nova geografia considera a região um caso

par-ticular de classificação, tal como se procede nas ciências i:iaturais. E toda discussão sobre região no seu âmbito corresponde a uma crítica aos conceitos derivados do determinismo ambiental e do possibilismo. O conceito de organização espacial tem todas as condições para apare-cer na nova geografia. Pois o rápido processo de mudança locacional que se verifica no pós-guerra, afetando o ar-ranjo sobre a superfície da Terra das formas criadas pelo homem, e envolvendo vultosos recursos, suscita a questão da eficiência máxima de cada localização rearranjada. Eficiência máxima, naturalmente, na .ótica do capital.

Desenvolve-se o conceito de organização espacial

entendido como padrão espacial resultante de decisões

Jn,·acionais, privilegiando as formas e os movimentos

so-ht l ' a superfície da Terra (interação espacial)'·

Surge também na França, onde, a nosso ver, estava

latente no pensamento vidaliano. Mas não dentro da

nova geografia, tal como era definida nos países

anglo-s.1xões e na Suécia, e sim numa geografia econômica e

aplicada, em cujo centro situa-se Pierre George e a

polí-tica de aménagement du territoire 5

A

geografia

crítica

O debate interno à geografia prossegue durante as

d6cadas de 70 e 80. A nova geografia e os paradigmas

tradicionais são submetidos a severa crítica por parte de

uma geografia nascida de novas circunstâncias que

pas-'iam a caractedzar o capitalismo. Trata-se da _geografia

crítica, cujo vetor mais significativo é aquele calcado no

materialismo histórico e na dialética marxista.

As origens de uma geografia crítica, que não só

con-testasse o pensamento dominante, mas tivesse também

a intenção de participar de um processo de

transforma-ção da sociedade, situam-se no final do século XIX.

Tra-ta-se da ~qgrafia proposta pelos an~rq_uistas ::E:Iisée

Re-clus e Piotr Kropot~i_n. Ela não fez escola, submergida

pela geografia "oficial", vinculada aos interesses

domi-nantes.

' AnLER, R.; ADAMS, J. S. e GoULD, P. Spatial Organization;

1 hc Geographer's View of the World. Englewood Cliffs,

Prentice-lrall, 1971.

• LABASSE, Jean. L'organization de l'espace; éléments de géogra-phic volontaire. Paris, Hermano, 1966.

(12)

A partir da segunda metade da década de 60, verifi-ca-se nos países de capitalismo avançado o agravamento de tensões sociais, originado por crise de desemprego, habitação, envolvendo ainda questões raciais.

Simultanea-mente, em vários países do Terceiro Mundo, surgem

mo-vimentos nacionalistas e de libertação. O que se pensava até então em termos de geografia não satisfaz, isto é, não

mascara mais a dramática realidade. Os modelos norma-tivos e as teorias de desenvolvimento foram reduzidos ao que efetivamente são: discursos ideológicos, no melhor dos casos empregados por pesquisadores ingênuos e bem intencionados.

Uma geografia crítica começa a se esboçar, congre-gando geógrafos de mentes abertas, que tinham se dedi-cado à nova geografia, como William Bunge e David

Harvey, ou que tinham uma posição política de esquerda

na geografia herdeira das tradições vidalianas, a exemplo de Yves Lacoste. Esta visão crítica é aceita sob reservas pelo Estado capitalista, na medida cm que este não pode desempenhar seu papel de controle, apoiado em

informa-ções provenientes de seu serviço de propaganda. Vários são os periódicos que focalizam criticamente a geografia:

Antipode, Newsletter (Union of Socialist Geographers),

Hérodote, Espace Temps e Espace et Luttes.

Adicional-mente, em numerosos outros periódicos, há contdbuições de geógrafos críticos.

No caso do Brasil, a geografia crítica nasce no final

da década de 70, cujo marco foi o 3.0 Encontro

Nacio-nal de Geógrafos, realizado em julho de 1978 em

Forta-leza, sob os auspícios da Associação dos Geógrafos Bra-sileiros.

Além das acirradas criticas aos paradigmas que a precederam, as contribuições da geografia crítica, ainda em curso, são numerosas. Dizem respeito à reinterpreta

-ção, com base na teoria marxista, de aspectos que tinham

sido abordados pela nova geografia. Assim, reexamina-se

a questão da jornada de trabalho, da terra urbana, da habitação, dos transportes regionais e da localização in-dustrial. A geografia crítica descobre o Estado e os

de-mais agentes da organização espacial: os proprietários

fun-diários, os industriais, os incorporadores imobiliários etc. A questão das relações entre o homem e a natureza,

central no temário do determinismo ambiental e do

pos-sibilismo, é também repensada à luz do marxismo. O tema

da região, questão clássica na história do pensamento

geográfico, é retomado pela geografia crítica. Neste

sen-tido, uma tentativa de conceituação de região será feita mais adiante procurando entendê-la por uma visão dialé-tica.

Entre os avanços realizados pela geografia crítica

estão aqueles associados à questão da organização espacial, herdada basicamente da nova geografia. Trata-se, no caso,

de ir além da descrição de padrões espaciais, procuran-do-se ver as relações dialéticas entre formas espaciais e

os processos históricos que modelam os grupos sociais. Na discussão do conceito de organização espacial, a

l'ontribuição dos geógrafos brasileiros tem sido muito im-portante. Assim, por exemplo, considera-se a teoria

mar-xista do valor como base para se empreender uma

aná-lise espacial, conforme o fazem Antonio Carlos Robert

Moraes e Wanderley Messias da Costa (1984). Outra con-1 ribuição é a de Milton Santos com o conceito de

forma-c;iio sócio-espacial, onde a organização espacial constitui

pnrte integrante de uma dada sociedade. Milton Santos

( 1978) levanta ainda a polêmica questão da organização

espacial como instância da sociedade.

A discussão que empreenderemos sobre este conceito

(13)

3

Região:

um conceito complexo

O termo região não apenas faz parte do linguajar do homem comum, como também é dos mais tradicionais em geografia. Tanto num como noutro caso, o conceito de região está ligado à noção fundamental de

diferencia-ção _dg__área, g_uer dizer_:~aceitação da idéia de que- a superfície da Terra é constituída por áreas diferentes en-tre si.

A utilização do termo entre os geógrafos, no entanto, não se faz de modo harmônico: ele é muito complexo. Queremos dizer que há diferentes conceituações de região. Cada uma delas tem um significado próprio e se insere dentro de uma das correntes do pensamento geográfico. Isto quer dizer que, quando falamos em região, implicita -mente, mas de preferênca de modo explícito, estamos nos remetendo a uma das correntes já identificadas anterior -mente.

Dois pontos devem ser abordados nesta introdução e ambos se referem ao nosso posicionamento. Primeiramen-te, achamos que a região deve ser vista como um con-ceito intelectualmente produzido. Partimos da realidade, claro, mas a submetemos à nossa elaboração crítica, na

sequencia, procurando ir além da sua apreensão em bases puramente sensoriais. Procuramos captar a gênese, a evo-lução e o significado do objeto, a região.

Em segundo lugar, queremos deixar claro que todos os conceitos de região podem ser utilizados pelos

geógra-ros. Afinal todos eles são meios para se conhecer a reali-dade, quer num aspecto espacial específico, quer numa dimensão totalizante: no entanto, é necessário que

expli-citemos o que estamos querendo e tenhamos um quadro territorial adequado aos nossos propósitos.

Nesta parte iremos ver os principais conceitos de

re-gião, ou seja, o de região· natural, o de região geográfica de Vidal de la Biache e o de região como classe de área, já tradicionalmente estabelecidos. Tentaremos conceituá-la

sob o ângulo do materialismo histórico, onde, acred ita-mos, não está solidamente estabelecida. Finalmente, dis-cutiremos a questão da região como um instrumento de nção e controle dentro de uma sociedade de classes.

Região

natural e determinismo ambiental

No final do século XIX, e durante as duas primeiras décadas deste, quando a ciência geográfica foi impulsio-nada pela expansão imperialista, sendo o determinismo ambiental uma de suas principais correntes de pensamen-to, um dos conceitos dominantes foi o de região natural, saído diretamente do determinismo ambiental. A região natural é entendida como uma parte da superfície da Terra, din1ensionada segundo escalas territoriais diversifi-cadas, e caracterizadas pela uniformidade resultante da combinação ou integração em área dos elementos da na-tureza: o clima, a vegetação, o relevo, a geologia e outros adicionais que diferenciariam ainda mais cada uma

(14)

des-tas p~rtes. Em outras palavras, uma reg1ao natural é um

~sistema Q_nde seus elementos acham-se integrados e

sjio interagente.s.

-.

.E:

~reciso

?eixar claro que a idéia de combinação ou

mtegraçao em area_ de elementos diversos é muito impor

-tante P.ª~ª o conc~1to de região visto sob o paradigma do

determ1msmo ambiental (e para outros também). Um

ma-P~. com a <listribuição espacial dos tipos climáticos de

Ko~pen, p~r

exemplo, não se refere a uma combinação ou mtegraçao abrangendo elementos heterogêneos da

na-tureza. T~a~a-s: de uma divisão. apoiada na temperatura

e n.i: pre~1p1~~çao, com as quais Kõppen estabeleceu suas

reg1oes c11maticas. A região natural é mais complexa.

Ao contrário, a divisão regional proposta por

Her-bertson_ 1 _ :_stá ª?º~ada no conceito de região natural. E

uma d1v1sao class1ca, que ainda hoje exerce influência

no ensino da geografia na escola secundária. Herbertson c~m b_a~e no clima ,e. no relevo, e considerando a vegeta~

çao, d~v1de a superf1c1e da Terra em 6 tipos e 15 subtipos,

que n~o a~r~sentam contigüidade espacial, e 57 regiões

naturais, d1stmtas dos primeiros por apresentarem esta

contigü_idade. Os 6 tipos são os seguintes: polar, tempe-rada fna, tempetempe-rada quente, tropical, montanhosa

subtro-pical, e terras baixas e úmidas equatoriais.

A Sobre a proposição de Herbertson convém ressaltar

tres aspectos. Em primeiro lugar, as regiões naturais

pro-postas ~onstituem uma base para estudos sistemáticos,

co-mo. se mfere do título de seu artigo. Isto significa, na

real!da~e, que o referido autor procurava um quadro

terntonal adequado para pensar a geografia segundo a _

- b. con

cepçao am 1entalista, isto é, onde se pudesse estudar e

1

HERBERTSON, A. J. The Majo1: Natural Regions: An Essay in

Systematic Geography. Geograp/11cal Journal, march, 1905.

1 11111prccnder as relações homem/natureza, admitindo-se

qm• 11as regiões naturais estas seriam mais evidentes, mais

Jll'll'l:pl(vcis: nelas se poderia ver mais claramente o pa-JH 1 dctcrminante da natureza sobre o homem. Neste senti-d11, 11s regiões naturais configuram, de fato, um ponto de 111111 ido, e não de chegada, ou coroamento, no quadro 1 11 ilorial que engloba o conhecimento a respeito das di-v1 1 ~11s áreas diferenciadas da superfície da Terra. E nes-h lcrmos que o geógrafo americano Charles Dryer, em

l 1> 1 'i, aceita a idéia de que as regiões naturais devam ser 11111 meio para se compreender as relações homem/natu-11• 11, que aparecem diretamente, segundo ele, através da

viil11 econômica, para cada um dos estágios de cultura. Em segundo lugar, o clima aparece, em Herbertson, 111 Yl'I' e outros, como o elemento fundamental da na-11111 /li. Não resta dúvida de que a variação espacial dos

ti-l"'

de clima é um dado importante para se compreender a dll1•rc.:nciação da ocupação humana sobre a superfície da

l 1 1111, porém no ambientalismo o clima passa a ser con-11110111do, como já se viu, fator determinante sobre o ho-1111 111 e, cm muitos casos de modo explícito, sobre sua

Ili 1111 ia. O clima é utilizado como justificativa para o 11li111111lismo em suas diversas formas (colônias de po-" 1111~·nto e de exploração) e o racismo, duas das múlti-l'l 1 ll interligadas facetas do imperialismo. Muito sinto-111 1lko é o fato de Dryer referir-se às regiões econômicas 1 1111111 sendo determinadas pela natureza: justifica-se assim, t 111 11l1irpa instância, a superioridade natural das regiões e (I• • p11íscs desenvolvidos, que teriam uma natureza mais 1 111111••11. O trecho a seguir, tirado de Herbertson, elucida 11 .tul-i aspectos acima mencionados:

l\lrnvós da compreensão da história da mesma raça em

d111111 dl ferentes regiões, ou de um conjunto de raças na 111uumo região. seria possível chegar a algum conheci

(15)

-\ I'

mente do efeito invariável de um tipo de meio sobre seus habitantes 2.

Em terceiro lugar, convém lembrar que à época em

que o conceito de região natural desfrutava de prestígio

não se podia mais falar em área da superfície da Terra

que, em algum grau, não tivesse sofrido ação humana

e alterado o seu meio natural, a primeira natureza. Muito

especialmente na Inglaterra do tempo de Herbertson. Isto,

contudo, não tira a importância do conceito,

principal-mente para os interessados no estudo sistemático dos

di-ferentes ecossistemas ou regiões naturais modificadas pelo

homem ao longo da história, uma abordagem que não

foi considerada pelos geógrafos deterministas quando as estudaram.

Mesmo para um geógrafo francês como Camille

Vallaux, de um país onde o determinismo ambiental não

fez carreira, as regiões naturais e as humanas conciliam-se

qua'?'~º consideradas em termos de grandes regiões da

su-perf1c1e da Terra, como aquelas da floresta equatorial, das

zonas desérticas, mediterrâneas, temperadas e polares. Nes

-tes amplos quadros naturais, caracterizados por uma

enor-me estabilidade quando comparados à história do homem

o referido autor admite que os efeitos das condições na~

turais sobre o ser humano sejam significativos, traduzidos, em cada uma dessas grandes regiões, por modelos próprios de ação dos que nelas habitam. Daí a coincidência nesta

escala territorial, entre regiões naturais e humanas:

Esta-mos frente a uma forma amenizada, filtrada, de

determi-nismo ambiental, não considerado de modo absoluto. Esta

visão é, ainda, marcada pelo possibilismo: abaixo das

gran-des regiões definidas pela natureza, vêm as menores carac

-terizadas por elementos de ordem humana, marcados pela

2 HERBERTSON, A. J Op. cit., p. 309.

111 t11hilidade e capazes de provocar mudanças no conteúdo , 11us limites regionais.

() conceito de região natural foi introduzido no Brasil,

viu l111luência francesa, por Delgado de Carvalho em 1913. 1 dl'tllro da ótica acima exposta que Fábio Guimarães 3

f1d1111tru a sua utilizaÇão no Brasil, visando uma divisão de 1 11 "l l'f" prático e duradouro, que possibilitasse a compara-!.; 111 de dados estatísticos ao longo do tempo. Guimarães, 111 1 l111ndo a identificação das regiões naturais propostas

11111 l)c !gado de Carv~lho, considera as seguintes grandes

r, 11l11cs naturais: norte, nordeste, leste, sul e centro-oeste. 1 .. 111-i unidades regionais maiores foram divididas em 11 plCks, sendo estas, por sua vez, subdivididas em zonas f l11l11gr:.íficas, caracterizadas por elementos de ordem hu-111111111.

1

1

0

s

ibilismo

e região

O possibilismo considera de modo diferente a questão ti 1 ll'gião. Não é a região natural, e sua influência sobre " li11111c111, que domina o temário dos geógrafos possibilistas.

1 " 'Ili dúvida, urna região humana vista na forma da

geo-J'

'

111111 regional que se torna seu próprio objeto. A região

1 111i..1dcrac.la é concebida como sendo, por excelência, a

,, J;·/1111 geográfica. Assim, os conceitos de região natural e ri i•li111 geográfica, tal como esta será definida, são distin-'" , 1111110 no que se refere às suas bases empíricas, como

11111f 1·us propósitos.

l~cngindo ao determinismo ambiental, o possibilismo

1 1111•.llkra a evolução das relações entre o homem e a D 1 >lvf,ho n.:gional do Brasil. Revista brasileira de geografia, 3 1"1.1, l '14 1.

(16)

\1

;:~t~~el~~~'!~:·

aª~~ongo_

da história, passam de uma

adap-com sua cultura cri:

:ç;~

mo.deladora, pela qual o homem

amb , · paisagem e um gênero de vida da

T~srr~~opnos

e peculiares a cada porção da

superfíci~

Com diferenças em maior ou

aparecem na França no

r

1 d émenor grau, estas idéias

Vidal de Ia Biache na AI ma ho s cul~ passado com Paul

século com Otto S~hl'"t eman a da primeira década deste

com Carl S u er, ~ no.s Estados Unidos, em 1925 auer, que se inspirou no d . , autores Em todos os t A s ois mencionados

· res casos trata-se da

-ao determinismo ambiental e mesma reaçao ceita de região natural. ao seu correspondente

con-A região geográfica abrange .

tensão territorial onde se t 1 uma paisagem e sua

ex-, en re açam de modo h .

componentes humanos e natureza . ,. armon1oso de equilíbrio, evidente analo . . A

.1~e1a

de harmonia, la BJache adota consft . g1a organicista que Vida! de cesso de evolução, de

\.::~t~rare

;~ltado

d~-

um longo

pro-obras do homem fixaram ç da reg1ao, onde muitas

força de permanência _-se, ao mesmo tempo com grande quadro final da a ão ~ mcorporadas sem contradições ao

·- ç umana sobre a natureza. Reg1ao e paisagem ç .

sociados, podendo-se

igual:~ ~~nceitos

~quival~n_t~s

ou

as-grafia regional ao estudo d ' . geografia poss1b1hsta, geo

-tem apoio lingüístico· em fa pa~sagem. E esta equivalência · rances pays ( ·

de pays (pequena região homo ênea) .age pa1sa__?em) vem vra landschaft tem dois t.gd , em alemao a

pala-d e um território que se caracte sen 1 . os· . paisagem e ex t ensao

-mais ou menos bom A • nz~ p~r apresentar aspecto

paisagem e S ogeneo, em mgles landscape designa

, auer usou o termo · A •

região. como smommo de

A ~eg1ao

·-geográfica assim concebida é considerada

uma entidade concreta, palpável, um dado

com vida,

su-29 111111tlo portanto uma evolução e um estágio de equilíbrio.

r~.

'

'l'

raciocínio, chegar-se-ia à conclusão de que a região

1111111-1111 desaparecer. Sendo assim, o papel do geógrafo é o

1 l1 1 l'l:Onhecê-la, descrevê-la e explicá-la, isto é, tornar

• 11111111 os seus limites, seus elementos constituintes

com-l 1l1111dos entre si e os processos de sua formação e evolução.

N tt• aspecto, a região geográfica dos possibilistas não se

ill li 1 t•nci::iva da região natural.

No processo de reconhecimento, descrição e

explica-\. 111 tkssa unidade concreta, o geógrafo evidenciava a

indi-ld1111lidade da região, sua personalidade, sua singularidade,

1q1H•ln combinação de fenômenos naturais e humanos que 111111 Sl! repetiria.

/\ concretude e individualidade de cada região são

rll11tl11 reconhecidas pela sua população e as das regiões

vi l111tns; isto se explica pelo fato de cada região possuir

11111 11ome próprio umco, que todos conhecem a partir de

1111111 vivGncia plenamente integrada à região: pays de Caux,

1•111•1 de la Brie, Agreste, Brejo, Campanha Gaúcha etc.

/\ região geográfica definida por Vidal de la Biache

1•11s discípulos tem seus limites determinados por diversos

• 11111ponentes: uma fronteira pode ser o clima, outra o solo,

11111111 ninda a vegetação. O que importa é que na região

lt11 j11 uma combinação específica da diversidade, uma

pai-'I t 111 que acabe conferindo singularidade àquela região.

N1111 NC trata de um corte mais ou menos arbitrário na

dh1t1 ibuição desigual de um determinado elemento sobre a

11111 1 ffcie da Terra. Os esquemas a seguir, apoiados em

\ "''" Locaste (1976), exemplificam a questão dos limites

du in·dividualidade ·da região. As figuras la a ld

indi-' 11111 11 divisão de um mesmo segmento de terra de acordo

l11111 quatro elementos. Cada um deles apresenta uma

(17)

30

Figura 1

REGIÕES GEOGRÁFICAS VIDALIANAS

1a - Regiões pedológicas 1b - Regiões climáticas e 1111111111111111

••••••

'•11 11,, D 1d - Regiões 111111111 1c - Regiões de

vegetação etnoli ngü ísticas

l \

'

E \ I / '-F /

,

....

1e - Regiões geográficas G

_,,,,...-.,

/

·-·-H AC,/EG

f

. 10 Regiões geográficas BÓFH

11111 1 posição, formam-se 1 O regioes, cada uma

mar-1 n l,1 combinação singular dos 4 elementos

conside-r

1d11 ll'i'iÍlll, há apenas uma unica regiao ACEG e uma

11111 11 11111111 denominada ACFG conforme aparece na

fi-' 1111 , ,

e 1 1·c11H.:cito vidaliano de região recebeu inúmeras

crí-11 f11i tl1 Lacoste e de Claval. O primeiro dos geógrafos

ri

1111 1 1., comenta que na escolha dos elementos que se

1111h111.1m há uma seletividade que considera apenas os 111111•11 , di..: longa duração, desprezando os elementos de n11tl111 1 t•1.·cnlc. Isto significa que, implicitamente,

conce-11 1 11 1 CAião como uma entidade acabada, concluída.

oh 111111-i, a concepção vidaliana impõe um único modo

111 lil 1w11stH a divisão da superfície da Terra, esquecendo

111r1 c•m lalidade espacial de cada elemento (ver figuras

I 1 h /d), e o fato de que outros segmentos do espaÇo

1•111h 111 !ll'r mais úteis. A concepção vidaliana de região

lt111•lli 11 11ma postura empirista, na medida em que ela

't

1 1 e nn10 algo dado, auto-evidente. Finalmente, a idéia

1

li 111111111io não é adequada às sociedades estruturadas

Ili

e 'h1v11l, por sua vez, lembra o fato de que, por não

h 1 • 1 11111 critério sistemático para se identificar regiões, 1l 1!1111dos obtidos indicam a sua diversidade, às vezes

11 t 111111clo uma realidade natural, mas na maioria dos

1 11 1 11111licionada histórica e economicamente. Era

difí-11 1 u111'lll sobre o assunto, especialmente porque não se

1111111 1 11 .1plicação dos procedimentos de utilização geral.

1 11111111 lado, constatou-se que os elementos humanos

1 11111 11 adquirir maior importância que os naturais 1

l"

l•1 • M1 de gerar as regiões geográficas. Atingia-se o 11 l 1

!'"

'

1 possibilista, fundado nas relações entre o

(18)

li

verdade, estudos regionais focalizados em temas específi

cos começaram a surgir na geografia regional francesa.

No Brasil, conforme já se indicou, as zonas fisio

gráficas, a despeito do nome, foram fundamentadas n

conceito de região geográfica de Vidal de la Biache: su

aplicabilidade se deu na medida em que formaram base

territoriais agregadas, através das quais foram divulgados

os resultados dos recenseamentos de 1950 e 1960. Já as

regiões homogêneas, através das quais se divulgaram os

resultados dos recenseamentos de 1970 e 1980,

consti-tuem uma tentativa de atualização das zonas fisiográ

-ficas, adotando-se implicitamente o essencial das idéias

vidalianas, apesar dos casos de exceção (áreas

metropo-litanas) e do discurso eminentemente indicador do para

-digma da nova geografia.

Nova

geografia, classes e região

A nova geografia, fundamentada no pos1t1v1smo lógi

-co, tem a sua própria versão de região, que se opõe

àque-las associadas .aos paradigmas do determinismo ambiental

e do possibilismo. A região, neste novo contexto, é definida

como um conjunto -de lugares onde as diferenças internas

entre esses lugares são menores que as existentes entre eles

e qualquer elemento de outro conjunto de lugares.

As similaridades e diferenças entre lugares são

de-finidas através de uma mensuração na qual se utilizam

téc-nicas estatísticas descritivas como o desvio-padrão, o

coe-ficiente de variação e a análise de agrupamento. Em

oufras palavras, é a técnica estatística que permite revelar

as regiões de uma dada pcirção da superfície da Terra.

Nesse sentido, definir regiões passa a ser um problema

de aplicação eficiente de estatística: considerando-se os

., 11 111111 1~ território, propósitos e técnica estatística, duas

11 1 111 1 cgionais deverão apresen~ar os. mesmos

r~sulta-111 i11di•pcndentemente de terem s1?0 feitas por dois ~s­

.1111 ul11n•s distintos. A divisão regional assim concebida

1 1 11ptll' uma objetividade máxima, impli~ando a

a~-. 111 1 1 1k· subjetividade por parte do pesqmsador. .A fi-, 111 1 • procura exemplificar uma divisão regional

h1poté-, jl 1 11 fl•1·ritório foi dividido em três regiõe_s, e em cada

11111 1 cl1 lus as diferenças internas são mmto pequ~12as, 111 111c111 se pensa nelas em comparação às outras reg1oes.

Figura 2

UMA DIVISÃO REGIONAL HIPOTÉTICA

,' 20.2 1 18.4 !

--

+---118.B \ 94 : 111.:>~11 · ~ Limite de região

--

...

-

Unidade de observação

(por ex., município)

1.0 ... 20.2 - Valores que descrevem a variabilidade do elemento através do qual se faz a divisão regional.

,, 1111 1 cg1ocs são definidas estatisticamente, isto,

s_ig-1 q111 nuo se atribui a elas nenhum~ base empinca 1 1 '-.un os propósitos de cada pesqmsador que_ 1:1º_

r-1111 "~ 1 111érios a serem selecionados para uri:ia d1vis_a_o

1111111 So n intenção é definir regiões cli?1áticas, utih-1111 , 1111110 iníormaçõcs pertinentes ao chma; no caso 1 1 '" 1 11·111 agrícolas, fontes relacionadas seriam u_sad~s. 11 .,11 ,1 11111 dn região vidaliana, a da nova geografia nao

(19)

é considerada uma entidade concreta, e sim uma criaçã intelectual balizada por propósitos especificados, tal com aponta Grigg 4 •

Na ampla possibilidade de aparecimento dos propó sitos de divisão regional, há dois enfoques que não s excluem mutuamente. O primeiro considera as regiõe simples, ou então complexas. No caso das regiões simples estamos considerando uma divisão regional de acordo co um único critério ou variável, originando regiões segundo por exemplo, o nível de renda da população, da criaçã de bovinos ou de tipos de solos. No segundo caso, leva mos em conta muitos critérios ou variáveis (usualment reduzidas a umas poucas através de uma técnica estatís tica mais sofisticada, a análise fatorial). Um exemplo d divisão regional complexa é a divisão de um país em re giões econômicas, envolvendo, entre outras, variáveis co mo a densidade demográfica, a renda da população, produção agropecuária e industrial e a urbanização.

O segundo enfoque visa as regiões homogêneas, o então funcionais. Trata-se de uma visão dicotomizada que perde aquela característica de integralidade que a re gião natural e a vidaliana passavam. Cada uma dessas dua regiões pode ser focalizada como simples ou complexa Por região homogênea, estamos nos referindo à unidad agregada de áreas, descrita pela invariabilidade (estatisti camente considerada) de características analisadas, está ticas, sem movimento no tempo e no espaço: a densidad de população, a produção agropecuária, os níveis d renda da população, os tipos de clima e as já menciona das regiões naturais. Um pays, tal como Vida! de 1 Biache o define, seria uma região homogênea complexa quando pensada em termos da nova geografia. Para este pa

4 GRIGG, David. Regiões, modelos e classes. Boletim geográfico 234, 1973.

seria um dos muitos possíveis 1 l'l-\ioes funcionais, apesar da inadequação do ter-" Ili, 11 11 ddinidas de acordo com o movimento de pessoas, .. J r< 11l1111ns. informações, decisões e idéias sobre a su-1 1 11 11 d11 Terra. Identificam-se, assim, regiões de tráfego , 111!1\ l 11 i11, fluxos telefônicos ou matérias-primas

indus-1 1111grações diárias para o trabalho, influência

co-1 d d11s cidades etc.

1 1111vÇm frisar que as regiões homogêneas e

funcio-" tlli Ir 11dc1n a ser mutuamente excludentes no mundo

'l'lhdi'll:r, pois dizem respeito a fenômenos que se

com-1 com-1com-1com-1com-1com-1com-1com-111, l'llda um deles, com espacialidade própria.

\ 1'1 rfica-se, como já vimos, que os propósitos dos

I' , p1 l"l11tlorcs, cm termos acadêmicos, ou de vinculação pllt 1111 no sistema de planejamento, são diretamente pll•11111111111ais às possibilidades de se estabelecerem divisões l.111 11~ Mais ainda, para qualquer fenômeno que

ne-111111m•ntc tenha uma expressão espacial é possível o

1 tl11•l1 1 1111cnto de uma divisão regional: deste modo,

dnr conta, no plano descritivo e classificatório,

tliferencialidade espacial de que nos fala Yves

N11 nova geografia, o conceito de sistema de regiões

1

I

111ht•lccido muitos anos atrás por geógrafos "tradi-11111 ti " l'Omo Unstead) está calcado explicitamente nos lil l 111 ll'lll'i da classificação, tal como se adota nas ciências l 1 111l111t'l'll, como a botânica. A analogia com as ciências

11 11111tlN. 11 ma das marcas do positivismo lógico, aparece

1 quando a nova geografia estabelece o conceito

1 13unge 6 estabelece explicitamente a compara-·

11• I•• 1 William. Gerrymandering, Geography and Grouping. 1111 l•l'••/.1111/lhlcal Review, 56 (2), 1966.

(20)

ção entre termos regionais e termos classif icat6rios, termos de duas linguagens· diferentes. Vejamos alguns exemplos:

Termos regionais Termos classificatórios

a) Região uniforme a) Classe de área

b) Sistema regional b) Sistema classificatório cl Região definida com um c) Classificação com uma

único aspecto única categoria

d) Região definida com as- d) Classificação com mais

pectos múltiplos de uma categoria

e) Lugar e) Indivíduo

f) Elementos da geografia f) Características dife ren-ciadoras

g) Geografia regional g) Atenção focalizada em

classes de área

h) Core da região h) Indivíduos modais e ln

-divíduos similares

i) Limite regional i) Intervalo de classe

j) Escala j) Número de classes de

área

Deste modo, a reg1ao torna-se uma classe' de área constituída por diversos indivíduos similares entre si. Vá

-rias classes de área organizam-se em um sistema

classifi-catório. Tal sistema pode ser concebido de dois modos: através da divisão lógica e do agrupamento. Vejamos cada

um deles.

A divisão lógica é uma classificação caracterizada pela divisão sucessiva do todo (superfície da Terra ou de um país, por exemplo) em partes. Dedutiva, de cima

para baixo, pressupõe que o pesquisador já tenha uma

visão do todo e queira, analiticamente., chegar a

identifi-car, através de critérios selecionados, as partes componen-tes do todo, os indivíduos (lugares). A figura 3

esquema-tiza a divisão lógica. O todo, representado pela letra A, é subdividido em duas classes (regiões), que têm em co-mum o fato de apresentarem a característica A-, e de dif e-renciação entre elas as características x e y. A classe (região) Ax subdivide-se em outras duas: Axa e Axb.

Axa Figura 3 DIVISÃO LÓGICA A

/~

Ax Ay

/~

Axb Aya Ayb

Convém frisar que a divisão lógica tem sido muito

p1111co empregada na nova geografia, porque esta

funda-1111•11 tou o conhecimento da realidade a partir de uma• tr

a-i•

h)r·iu ascendente, do indivíduo para o todo, pelo segundo

111 •N modos referidos, o agrupamento. Contudo, um

exem-ph 1 clássico do uso da divisão lógica é o das regiões

na-111111111 de Herbertson.

O

agrupamento ou classificação indutiva

caracteri-11 "' pelo fato de partir-se do indivíduo (lugar, município)

1 pt0grcssivamente, por agregação, que implica a perda

th d1•tolhcs ou generalização crescente, chegar-se ao todo.

t 1 p1 m•cdlmcnto por sínteses sucessivas, ao contrário da

ll\'I 1\11 lógica, não pressupõe conhecimento prévio do

1!11111. que pode ser obtido indutivamente, agregando-se,

f

1111" 11 pouco, o conhecimento sobre as partes. A figura 4

t p11 ~1•11111 um esquema de agrupamento. Existem, no !11 111pl11, 8 indivíduos quo constituem o agrupamento

(21)

-muns, são agrupados em 4 classes de áreas ou agrupamen

-to de 2.

ª

ordem, que por sua vez agrupam-se em 2 classes

de 3.ª ordem. No passo seguinte, chega-se ao todo.

Figura 4 AGRUPAMENTO • -- -- - - -- -4.ª ordem } todo

/~

/·~ / ' · ,-- ---3.ª ordem { claJ:es • • • •- - - --2.!"

ordem~

área

. /

""-.

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"'. .J'

~

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-

-1.!" ordem} indivíduo

Os dois modos de se escabelecer um sistema regional

ou uma hierarquia de regiões apresentam ainda uma

dife-rença fundamental, ressaltada aqui para que se tenha

cla-reza das condições de um ou de outro modo a ser adotado.

A divisão lógica, na medida em que é um procedimento

de trajetória descendente, procura diferenciações entre os

lugares, enquanto o agrupamento, ascendente, procura

re-gularidades. E diferenciações e regularidades são meios

complementares de se conhecer a realidade.

Do processo de divisão regional emerge a questão de

se definir tipos, e uma tipologia, ou regiões. Os tipos

ca-racterizam-se pelos seus atributos específicos, não

impli-cando a existência de contigüidade espacial, tal como

Herbertson definiu os quadros naturais: o tipo polar, co-mo se sabe, ocorre tanto no hemisfério sul como no

norte. A região, por outro lado, a par de sua

espe-cificidade, pede seqüência no espaço, A figura .5

pro-cura esclarecer esta questão. Indica ela 5 tipos dos quais 2 ocorrem, cada um, em 3 áreas distintas e não contíguas espacialmente: ao total há 9 regiões.

Figura 5 TIPOS E REGIÕES. 5 tipos e 9 regiões X 3 x3 X 1 X 1 X 1

Como vimos, no processo de divisão regional

po-de-se definir uma tipologia, tal como fizeram Herbertson

e Koppen, ou se chegar a uma segmentação da superfície

da Terra em regiões. No primeiro caso, estamos conside-rando os fenômenos na visão do que se convencionou denominar de geografia sistemática; no outro, da geogra

-fia regional.

Um último aspecto deve ser considerado. Na nova

geografia não existe, como na hartshorniana, um método

regional, e sim estudos nos quais as regiões formam

clas-sificações espacias. Em outras palavras, identificam-se

pa-drões espaciais de fenômenos vistos estaticamente ou em

movimento. Neste sentido, a região adquire, junto à sua inexistência como entidade concreta, o sentido de padrão

espacial. A geografia regional, por sua vez, não tem o

pro-pósito de reconhecer uma síntese, como em Vida! de la

Biache, nem de procurar pela singularidade de cada área,

(22)

Os estudos de geografia regional ou de área são

realizados dentro de propósitos preestabelecidos. A partir

de uma referência teórica, como a das localidades centrais

ou a do uso agrícola da terra, ou de um suposto problema,

como o do desenvolvimento regional, estuda-se um seg-mento da superfície da Terra. Isto quer dizer que a área

é vista como laboratório de estudos sistemáticos,

realimen-tando os referenciais teóricos que estes formulam. Assim,

na nova geografia, estudos sistemáticos e de área não se

distinguem entre si: mais do que uma complementação,

eles são, em última instância, a mesma coisa.

No Brasil, a nova geografia desenvolveu-se nos

Depar-t~mentos de Geo~rafia _de Rio Claro e de Estudos

Geográ-f~cos d~

IBGE; a1 surgiram os estudos de tipologia e

divi-sao regional dentro da concepção em pauta. Sobre o

as-sunto consultem-se os periódicos Boletim de geografia teo

-rética Geografia, editados em Rio Claro, e a Revista

brasi~

e

ira

de geografia, editada pelo IBGE, especialmente

os numeros referentes à década de 70.

Região e geografia crítica

Dentro do questionamento à geografia tradicional e

à nova geografia, aparece durante a década de 70 uma geografia crítica, que traz consigo a necessidade de se

repe?~ar o conceito de região. Assim, discute-se a postura

emp1nsta que caracteriza as definições vidaliana e da nova

geografia. Lacoste, por exemplo, refere-se à concepção

vi-daliana de região como sendo um "conceito-obstáculo"

que nega outras possibilidades de se dividir a superfíci~

da

~err

a;

por outro lado, as classes de área da nova

geo-grafia podem acabar constituindo-se em um exercício

aca-dêmico sofisticado.

Deste posicionamento crítico fazem parte também

geógrafos brasileiros. Assim, entre outros, Aluizio Du~rtc;6

comenta que, a partir do materialismo históric? e da dial<~­

tica marxista, diversos pesquisadores introduziram, na

de-cada de 70 novos conceitos visando uma definição de

região.

A

ss

i~,

consideram-se o conceito de região e o

tema regional sob uma articulação dos modos de

pro-dução, como faz Lipietz; através das conexões entre

clas-ses sociais e acumulação capitalista, conforme é o caso

de Villeneuve; por meio das relações entre o E~tad? e a

sociedade local, mostradas por Dulong; ou e?tao, mtr~­

duzindo a dimensão política, conexão de Chico de

Oh-veira ao fazer a elegia do Nordeste brasileiro.

Duarte tem suas proposições sobre a região: para ele, é

uma dimensão espacial das especificidades sociais em uma

totalidade espaço-social.

capaz de opor

resistência à homogeneização da sociedade e do esi;iaço

pelo capital monopolístico e hegemônico ...

Para ele, se não há uma elite regional capaz de opor a

nludida resistência, então não existe região.

Regiões são espaços em que existe uma sociedade que

realmente dirige e organiza aquele espaço.

Esta conceituação tem, a nosso ver, o defeito de conside -r ur região uma situação que no capitalismo monopolista

de hoje é cada vez mais inexistente. As regiões tenderiam,

11ssim, a desaparecer. Ou seja, não haveria mais

diferen-ciação de áreas. Acreditamos que, adotando-se esta visão,

n Regionalização; considerações metodológicas. Boletim de geogra

Referências

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