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A Pesquisa com Fala Assoviada

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Academic year: 2021

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A Pesquisa com Fala Assoviada

Entrevista com Julien Meyer

Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS)

por Elissandra Barros

Curso de Licenciatura Intercultural Indígenas (CLII) Universidade Federal do Amapá (UNIFAP)

Distante dos centros urbanos e, geralmente, ligada às práticas tradicionais de subsistência, a fala assoviada é uma prática milenar que sobrevive em muitos lugares ao redor do mundo, mas cuja vitalidade depende da preservação do meio socioambiental onde ela é utilizada. O linguista francês, Julien Meyer, se apaixonou pelo desafio de documentar e estudar esse fenômeno fascinante, o que o levou a locais remotos na Europa, América Latina, Alasca, Ásia e África, sempre em busca de novas línguas com fala assoviada. Sua formação acadêmica ampla e multidisciplinar – Engenharia, Ciências Cognitivas e Linguística – o permitiu utilizar e adaptar metodologias distintas às necessidades do trabalho de campo com a fala assoviada, ainda pouco estudada – ou sequer identificada – em diversas línguas. Esta entrevista, realizada para a Revista Brasileira de Línguas Indígenas (RBLI), nos proporcionou um reencontro, uma vez que nos conhecemos ainda em Belém, no período em que ambos vivíamos na capital paraense. Desde então, tivemos a oportunidade de trabalhar juntos em várias oficinas de documentação destinadas aos povos indígenas, oportunidades em que Julien compartilhou conosco seus conhecimentos sobre documentação de línguas e suas experiências com o estudo das línguas assoviadas. Entrevistei Julien em uma manhã de céu claro, no dia 18 de junho de 2019, em sua casa na aldeia de Sainte Agnès, na parte francesa dos Alpes.

Elissandra Barros: Onde foi sua formação acadêmica e como você se interessou pela Fonética? Julien Meyer: Comecei os estudos em acústica em uma escola de Engenharia – chamada hoje de Centrale Marseille - na cidade cosmopolita de Marseille, na França. Eu sempre estive interessado no tema da linguagem humana, das comunicações animais e das convergências e divergências entre essas duas categorias. Para quem pesquisa na área de acústica, o sistema de comunicação mais complicado que se pode estudar é a fala humana e as suas diversas expressões, nas várias línguas humanas do mundo. Muitos aspectos da produção, da percepção e da evolução da linguagem permanecem um mistério da natureza até hoje...

Durante os meus estudos em Marseille eu li dois artigos no jornal Scientific American sobre sistemas naturais e tradicionais de comunicação à distância, como a fala assoviada e a fala com tambor... Essas práticas juntam, naturalmente, o tema que eu estudava nesse tempo – a telecomunicação na área de engenharia – com a linguagem, um tema que sempre me atraiu. Quando descobri a existência desses

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sistemas complementares de expressão das línguas resolvi montar um projeto para visitar algumas aldeias que ainda os usam, sem bem saber como isso se concretizaria. Isso era um desafio, porque a fala assoviada e a fala com tambor têm em comum o fato de estarem em perigo de desaparecer por falta de falante; e de sobreviverem, principalmente, em lugares afastados. A ideia amadureceu e, depois de um ano de trabalho em uma empresa privada – com um outro tipo de trabalho –, resolvi voltar para a Universidade e estudar Ciências Cognitivas. Essa nova formação foi uma oportunidade para entrar como Engenheiro e sair na Linguística, pois nas Ciências Cognitivas há uma abordagem multidisciplinar dos fenômenos cognitivos. Então, consegui primeiro fazer o Master no Laboratoire Dynamique Du Langage em Lyon, na França, trabalhando sobre a correspondência entre categorização e classificação de várias línguas do tronco Afro-Asiático. Nesse mesmo ano, 2002, eu consegui uma bolsa de Doutorado para estudar a tipologia das línguas com fala assoviada. No laboratório do meu Master comecei a falar com a professora Colette Grinevald sobre as línguas que estavam perdendo vitalidade, em geral, línguas poucos descritas, já que a prática de fala assoviada existe, principalmente, nesse tipo de contexto.

Elissandra Barros: Julien, nas suas pesquisas com povos e línguas fora da França, o que mais te chamou atenção em termos linguísticos?

Julien Meyer: O que mais me chamou atenção é a riqueza cultural e linguística de todos os povos que eu tive o privilégio de visitar, mesmo quando as suas línguas estão perdendo vitalidade. Claro que as oportunidades que tive de estudar essas línguas não caíram do céu, eu elaborei e defendi vários projetos consecutivos desde o meu doutorado até hoje, aqui no CNRS. O trabalho de campo precisa de dedicação, tempo, energia e o mínimo de dinheiro para pagar as viagens e os equipamentos.

Como eu buscava, inicialmente, encontrar novas línguas com fala assoviada, priorizei lugares afastados do mundo urbano, pois é lá que sobrevive esse tipo de prática. Desde 2003 fiz vários campos na Europa, América Latina, Alasca, Ásia e África, e me chamou bastante atenção o fato de que todos os países que visitei possuem dinâmicas similares de distinção entre o urbano e o rural, apesar das diferenças culturais.

No mundo urbano, em geral, há muito mais mescla, o que gera uma certa confusão e perda do alicerce em relação à biodiversidade e ao mundo natural. Por exemplo, nas línguas indígenas do mundo permanecem muitos conhecimentos ligados à vários campos do conhecimento científico, como a história, a zoologia, a botânica, a geografia..., mas até hoje isso é raramente valorizado no mundo urbano, mesmo que haja nas universidades e nas sociedades nacionais pessoas tentando fazer a ponte e explicar a importância dos conhecimentos tradicionais, afim de contribuir a corrigir a disjunção cultura-natureza que domina no modelo cultural urbano atual.

No Brasil, uma iniciativa importante recente foi o Diagnóstico “Povos Tradicionais e Biodiversidade”, que relata as contribuições dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais à biodiversidade do Brasil e as políticas públicas que os afetam (CARNEIRO DA CUNHA, MAGALHÃES E ADAMS, 2021) Nesse Diagnóstico, um colega do Museu Goeldi (Denny Moore), um colega da Guiana Francesa (Damien Davy) e eu contribuímos com um trabalho (texto e vídeo) sobre “Imitações acústicas de animais na Amazônia” em uma perspectiva multidisciplinar (MEYER, DAVY, MOORE, 2021). Nosso primeiro objetivo era destacar a perspectiva da bioacústica moderna: imitações acústicas para se atrair “animais” reproduzindo seus “chamados” – ou outros sons ecossistêmicos naturais – representam uma

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prática muito antiga que desempenha um papel importante nas atividades tradicionais de subsistência humana, pois estão, principalmente, ligadas à predação e domesticação; mas se constituem, hoje em dia, uma técnica moderna e eficiente para pesquisas zoológicas, inclusive para desenvolver técnicas não invasivas de avaliação da biodiversidade. O segundo objetivo era providenciar uma introdução à análise linguística de imitações realizadas por alguns povos da Amazônia. Efetivamente, os caçadores indígenas de vários povos realizam uma representação linguística dos apelos dos animais como método mnemotécnico para articular bem as imitações.

Por exemplo, os Gavião do Rondônia pronunciam sílabas enquanto copiam a canção do animal, sendo uma sílaba associada a cada nota. Dizem “djo-kan ... djo-kan-kan-kan”; para o djokan (chamado tucano de papo branco em português). Essa representação, muitas vezes, leva a uma onomatopeia, que se torna o nome do animal na língua, como é o caso desse tipo de tucano.

Assim, podemos descobrir que os nomes que usamos hoje para designar muitos animais no Brasil, mas também no mundo, como o tucano, foram emprestados das línguas tupi e do canto desses animais. Isso nos informa também sobre a percepção sonora humana, o que pode ser de grande valor para entender melhor alguns processos cognitivos que influem nos fenômenos de imitação e são essenciais na aquisição da linguagem e na evolução das línguas.

As práticas linguísticas nas quais eu foquei são bastante ligadas a comunicação à distância: falar gritando, falar assoviando, com tambores... e existem em muitos lugares, apesar de serem pouco estudadas, pois representam diferentes estratégias acústicas de modificação da fala para ajudar os sons a viajar longe na natureza. Outros processos de imitação da fala – desta vez ligados à relação entre a língua e a música – chamaram minha atenção, principalmente na Amazônia: são os instrumentos musicais usados para imitar a fala cantada.

Para conseguir fazer com que o cérebro humano possa decodificar o que você codificou de maneiras diferentes (com assovios, tambores ou outros instrumentos musicais), você tem que focar nos pontos essenciais da estrutura da língua (pode-se tocar em problemáticas essenciais na fonologia, mas também na sintaxe...), por exemplo, dependendo se a língua é tonal ou não, não é a mesma parte da fala que vai ser imitada nesses processos. Em termos de Linguística, não havia muitos estudos sobre esses pontos e me apaixonei pelo desafio.

Elissandra Barros: Julien, o estudo de línguas assoviadas ainda é pouco conhecido e requer o desenvolvimento de métodos para a pesquisa dessas línguas. Como você foi construindo sua metodologia?

Julien Meyer: Na verdade, como eu já tinha um treinamento universitário de três campos de atuação diferentes, que eram a acústica, as ciências cognitivas e a linguística, minha maneira de abordar esses temas foi pluridisciplinar. Dependendo do objetivo de cada estudo eu tentei juntar os lados interessantes de cada campo com os quais eu estava interagindo, em cada domínio científico. Por exemplo, para entender melhor a adaptação da fala aos assovios, eu estudei a fala gritada no exterior, que antes foi quase sempre pesquisada em contexto de sala, em um laboratório. Para estudar a fala gritada, quando ela não é o resultado de uma expressão de emoção, é interessante que o estudo seja realizado em ambientes ruidosos, pois o ruído existe em todos os lugares e os gritos representam uma das adaptações a esse tipo de restrição. Mas se você observa em meios rurais as práticas de fala

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gritada, você vai ver que ela é mais usada para comunicação à distância e a cobertura do ruído é uma das consequências da distância. Cada pessoa se adapta – intuitivamente ou tacitamente – ao ruído e a distância, e é importante levar em conta as situações ecologicamente relevantes do mundo rural, o qual nos permite estudar, sem muita perturbação das influências tecnológicas, e entender melhor como os nossos sistemas de comunicação estão adaptados ao mundo socioambiental. Para isso eu tive que olhar as ciências já existentes que usam o som e o analisam no mundo rural, e eu encontrei referências principalmente na bioacústica, que estuda bastante os animais. Assim, eu transferi a maneira de fazer para a comunicação humana. Essa análise requer mais exigências ou mais dificuldades para controlar as condições, mas fornece mais naturalidade no estudo, e isso é importante.

Mesmo nos estudos psicolinguísticos fundamentais sobre as vogais, por exemplo, se sabe que se você quer fazer um estudo de discriminação de vogais e utiliza como estímulo uma vogal artificial, construída por um computador, que ajuda a controlar os formantes, o cérebro humano não identifica isso da mesma maneira que uma vogal produzida por um corpo humano, o cérebro identifica que a fonte não é natural porque há aspectos acústicos que são difíceis de se reproduzir pelo computador. Para haver estudos perceptivos realísticos, tem que usar sons mais ecológicos, em condições, também, mais ecológicas. Para testar a discriminação de consoantes ou de tons em uma língua indígena podemos nos adaptar às condições de uma aldeia indígena. É necessário que o teste seja bem aceito pela população, o que depende de uma relação que se constrói com o tempo e o respeito recíproco. Nas aldeias onde eu vivo agora, nos Alpes, na França, é igual. Se eu chego e peço a alguém para escutar um som de fala local diferente do seu contexto usual, eu tenho que tomar cuidado porque o resultado pode ser influenciado pelo fato de que o meu estudo não está adaptado ao lugar e a cultura local. É importante tomar cuidado porque as metodologias de referência, muitas vezes, foram construídas para gravar ou testar perceptualmente a fala nas universidades, em um ambiente urbano, em salas acústicas com alunos disponíveis. Tem que adaptar isso não somente à língua, mas também ao contexto. Eu acho que isso permite avançar na ciência, mas, claro, dificulta mais os estudos.

Elissandra Barros: Julien, como se deu sua aproximação com o Brasil e como foi o período em que você viveu na região amazônica, especificamente, em Belém?

Julien Meyer: Quando eu descobri que os registros/tipos de fala que eu buscava para estudar eram todos ameaçados de desaparecer rapidamente, mesmo quando são falados por línguas dominantes (por exemplo, na Grécia, é o grego que é o assoviado; na Turquia é o turco que é assoviado) percebi que tinha que entender mais esse fenômeno de perda de vitalidade. Com muita sorte, no laboratório Dynamique Du Langage, em Lyon, onde eu estava iniciando a minha tese de doutorado, eu tive oportunidade de trabalhar com a professora Colette Grinevald, especialista em algumas línguas da América Latina, e também uma das poucas pessoas que falavam do tema das línguas em perigo de extinção e que fazia parte do grupo de especialistas consultados pela UNESCO para entender como avaliar e medir essas situações em termos sociológicos e em termos linguísticos, de maneira pluridisciplinar. Foi a professora Grinevald que me pôs em contacto com o linguista Denny Moore, do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, e com linguistas do CIESAS, no México. Denny Moore tinha descrito a língua gavião de Rondônia e um dos aspectos originais do estudo dele era o uso da fala assoviada para ajudar a descrever o sistema tonal dessa língua.

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me passou o e-mail dele. Visitei-o durante a elaboração da minha tese, mas não comecei logo a trabalhar no Brasil.

Depois da minha tese de doutorado Denny Moore me passou uma carta de suporte e convite e, dois anos depois, eu montei um projeto para trabalhar e fazer uma pesquisa sobre esses sistemas de fala na Amazônia: eu sabia que tais sistemas existiam entre os Gavião de Rondônia, e entre os Waiãpi do Amapá e da Guiana Francesa. Esse sistema fora também registrado por pastores ou missionários que tinham encontrado a fala assoviada nos Karajá e nos Bororo, Pierre Clastres havia falado disso na linguagem dos “Guayaki”, que era o nome usado no tempo dele para falar dos Aché, um povo falante de uma língua Tupi-Guarani. Então, tinha indicações que a fala assoviada era bastante comum nas populações da Amazônia.

Comecei com um projeto de três anos e, quando o financiamento inicial acabou, o CNPq achou que os primeiros resultados foram bons e que era importante continuar a financiar... assim eu fiquei totalmente financiado no Brasil por mais dois anos, com uma bolsa PDJ/CNPq.

Elissandra Barros: No período em que você esteve no Brasil, trabalhando no Museu Goeldi, que tipo de estudos você desenvolveu e quais foram os povos que você visitou?

Julien Meyer: No Museu Goeldi eu encontrei um grupo com muita experiência, focado, cuja prioridade era a descrição das línguas indígenas. No Goeldi havia visitas de especialistas do mundo inteiro e lá se priorizava, também, um certo tipo de metodologia para trabalhar no campo, e essa metodologia me ajudou bastante. Hoje aplico ela aqui na Europa e na África. Eu trabalhei, recentemente, com assoviadores da região de Serra Nevada, lá no sul da Espanha, perto de Granada. Só havia dois sobreviventes que sabiam usar um tipo de instrumento, e a experiência do Brasil foi uma chave para saber como abordar essas pessoas.

Os primeiros anos no Brasil eu trabalhei com os sistemas tonais da língua e os instrumentos musicais dos Gavião de Rondônia, além de trabalhar com a fala assoviada dos Gavião e Suruí de Rondônia. Os projetos sempre incluíam uma parte de documentação, em cooperação com as autoridades tradicionais e políticas de cada povo e das aldeias do meu campo. Em termos de produção de material foi montado um Acervo no Museu Goeldi, os meus dados foram registrados lá, de maneira profissional, e estão guardados lá. Isso foi muito importante pois me ajudou a aprender a arquivar meus dados, me ajudou a trabalhar com profissionais que estavam vindo de outros lugares para somar junto aos brasileiros do Museu Goeldi nesse tema, aprendendo com brasileiros que já eram, há muito tempo, informados sobre o tema, aprendi como a documentação podia ser usada no campo e qual era a forma mais prática de dar um retorno. O Museu Goeldi já tinha umas respostas ou soluções sobre como produzir DVDs ou CDs de músicas e de histórias tradicionais. A gente buscou outras maneiras também e uma delas foi se inspirando em outros lugares, além de montar treinamentos no campo para os meus colaboradores indígenas usarem os equipamento que a gente estava usando, mas do jeito que eles quisessem. Isso depois se ampliou e, agora, o Museu Goeldi e Denny Moore montaram novos projetos, como uma Enciclopédia Gavião cujos temas foram selecionados pelos investigadores indígenas. Esse trabalho da enciclopédia continua todo o ano, e inclui registros e arquivamento profissional, sempre com os indígenas. Eu trabalhei, em paralelo, com os Paíter, que falam a língua chamada pelos linguistas “Suruí de Rondônia”. No meu caso, eu produzi 16 DVDs de conhecimento linguístico e cultural – ligados à língua, a música e a caça – junto com os Gavião e os Paíter. Todos os DVDs são, exclusivamente, para uso local e não para uso comercial, tendo sido editados pelo

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Museu Goeldi na coleção “DVDs de documentação”. Os DVDs de música e de caça foram os que obtiveram maior “sucesso” nas aldeias, devido ao grande interesse dos indígenas.

Além disso, eu iniciei uma colaboração com os institutos de pesquisa na Guiana Francesa, montando um convênio entre o Parque Amazonien de Guyane e o Museu Paraense Emílio Goeldi. Em paralelo, a gente iniciou umas iniciativas de cursos de documentação com a Licenciatura Intercultural Indigena da Universidade Federal do Amapá, onde trabalhamos com alunos Palikur-Arukwayene, Waiana, Apalai, Karipuna, Galibi-Marworno e os Waiãpi do Brasil e da Guiana Francesa. Foi um trabalho empolgante porque tudo mundo estava super motivado!

Elissandra Barros: Julien, depois desse período que você esteve no Brasil, houve seu retorno para a França. Hoje você está trabalhando no Centre national de la recherche scientifique (CNRS), em um Laboratório aqui em Grenoble. O que você tem feito atualmente?

Julien Meyer: Na verdade, mesmo tendo voltado para a Europa, eu continuei trabalhando na Amazônia, continuando os treinamentos no campo. Após minha estadia no Brasil eu tentei replicar a metodologia que a gente tinha montado em Rondônia, dessa vez na fronteira entre Brasil e Guiana Francesa, pois fazia tempo que eu sabia que os Waiãpi usavam esse tipo de registros de fala que eu pesquisava e pouco a pouco eu tive contato com o lado Francês, com os pesquisadores que iam no Oiapoque e também com você, Elissandra Barros, na Universidade Federal do Amapá. A conexão foi muito boa porque tinha alunos dos dois lados da fronteira e a gente conseguiu montar uns cursos para os indígenas usarem os equipamentos de documentação linguística, musical e multicultural. Tudo isso foi construído pouco a pouco, e os indígenas valorizaram bastante participar de iniciativas transfronteiriças.

No futuro, um dos objetivos é continuar montando colaborações, pois ganhei aqui uma posição estável no CNRS. Eu fui ao campo esses últimos anos com a linguista Françoise Grenand, especialista na língua waiãpi, trabalhei com ela aqui na França no último verão. Compartilhei também momentos de campo com o antropólogo Pierre Grenand e isso foi um prazer e uma honra. No próximo mês eu vou receber aqui um linguista do Museu Goeldi – Hein Van der Voort – para trabalharmos juntos no tema da relação língua-música em flautas Aikaña. É previsto receber também, no próximo ano, a visita de Ana Vilacy Galúcio, especialista em várias outras línguas da Amazônia. Vamos enfocar com ela no intercâmbio de experiências sobre a organização do Acervo Linguístico do Museu Goeldi. Eu também iniciei e/ou amplie outros campos, em outras regiões do mundo, o que me dá a perspectiva de comparar os dados linguísticos de culturas diferentes. A minha colaboração com a Guiana francesa, em particular com o Observatório Homem Meio ambiente (OHM-CNRS) está sempre mais forte. Eu também participei de um projeto do Guyamazon coordenado pelo Institut de recherche pour le développement (IRD), isso com ajuda da pesquisadora Pascale de Robert, do Laboratorio Paloc do IRD/Museum Nacional de História Natural, em Paris.

Elissandra Barros: Gostaria que você falasse um pouco sobre o seu livro, Whistled Languages (MEYER, 2015), no qual você apresenta alguns dos resultados de todos esses estudos que você fez. No livro há um pouco da tua experiência no Brasil, com os povos indígenas, mas há também trabalhos realizados com outros povos, ao redor do mundo. O que é esse livro e o que ele significa dentro da sua trajetória profissional?

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Julien Meyer: Eu escrevi um livro sobre meus doze anos de experiência no estudo de línguas assoviadas, pois é um tema ainda pouco estudado no mundo. Esse livro, originalmente, foi uma proposta do professor René-Guy Busnel, que foi meu professor para a fala assoviada. Ele já estava aposentado quando o encontrei, tinha publicado o livro Whistled languages, pela editora Springer, em 1976, sobre esse tema, mas achou que, com todas as novas descobertas e pesquisas, era necessário atualizar o conhecimento em uma publicação ampla. Escrever o livro foi o objetivo de uma das bolsas de pós-doutorado que eu tive quando voltei para a França, do Colégium de Lyon, com a União Europeia. O livro começa com uma descrição dos ambientes, da parte geográfica, logo após há uma introdução histórica dos estudos anteriores nesse tema. Tem essa particularidade da fala assoviada ser ligada a certos ambientes ecológicos, como montanhas e florestas densas. Logo após eu escrevi uma outra parte, sobre a sociolinguística do uso da fala assoviada, falando que esse tipo de prática hoje vem perdendo vitalidade, e analisando esse fenômeno para entender como ela sobrevive. Depois eu descrevi outro capítulo, que era mais sobre o impacto do meio ambiente sobre o som, uma parte mais acústica. Fiz também uma descrição detalhada sobre todas as técnicas de assovio, por que a produção é importante para se entender como se faz e como se tem variação nas técnicas de assovio. Depois eu entrei na parte da Fonética e da Fonologia, pois é muito interessante em termos da tipologia das línguas. Tem também toda uma parte sobre psicolinguística e percepção, pois através dessas análises comparativas se pode entender qual é o interesse e quais são as aplicações desse tipo de pesquisa com a linguística em geral. No final do livro tem uma reflexão sobre a origem e a evolução dessa prática, porque é uma prática ligada ao campo, a caça, a subsistência e também que permite abordar a relação língua-música. Apesar do livro estar sendo vendido pelo editor, o meu trabalho de pesquisador é também o de compartilhar o conhecimento gratuitamente, então, quem está interessado pode me

contactar, já que estou autorizado a compartilhar esse trabalho com pessoas que o solicitem1.

Elissandra Barros: Julien, como você enxergar o futuro das línguas assoviadas, dessas práticas tradicionais e, especialmente, das línguas indígenas?

Julien Meyer: Eu acho que a análise de como sobrevive a fala assoviada me ajudou bastante a clarificar meu ponto de vista sobre as línguas indígenas e as línguas pouco faladas, em geral. A sobrevivência e a revitalização de uma prática linguística dependem do fortalecimento das situações nas quais o seu uso realmente interessa ao povo em um ambiente quase cotidiano. No caso da fala assoviada, por exemplo, isso é muito claro, porque ela sobrevive somente quando as atividades de subsistência em que elas são usadas – principalmente caça, pastoreio e agricultura de montanha – ainda continuam de maneira tradicional. Por exemplo, aqui nas montanhas dos Alpes voltou a aparecer o lobo e, mesmo que isso traga novas dificuldades para as pessoas que cuidam das ovelhas e das vacas, representa uma esperança nova para a fala assoviada, pois os pastores voltaram a trabalhar, novamente, em dupla ou grupos, se juntando para cuidar melhor das ovelhas. E então, como no passado, eles precisam se comunicar rapidamente, mas os celulares nem sempre funcionam na montanha e é, hoje, bastante conhecido que os talkie walkies usam ondas que são perigosas para o cérebro em caso de uso frequente. Então, o uso da fala assoviada pode ser muito útil em várias situações.

É igual para os instrumentos musicais que imitam a fala, quando se tem um uso tradicional a prática

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continua: como uma função musical, uma função de passar informação para o povo ou de organizar um ritual, declamar uma reza poética ou participar da transmissão das dicas tradicionais, como é feito com os tambores falantes na África, por exemplo.

Então essas práticas sobrevivem mais tempo quando são ligadas a um uso prático para a subsistência, a religião, um ritual, a política ou a organização social (incluindo a música). A divulgação e o fortalecimento da língua, para mim, têm que vir junto com o fortalecimento dessas práticas. Se não, não irá funcionar tão bem.

Na Guiana Francesa, a fala assoviada entre os Waiãpi ainda é bem viva em umas aldeias, porque é útil nas atividades cotidianas de algumas pessoas que acham bom continuar viver de maneira tradicional. Isso pode acontecer por comodidade, devido ao afastamento do povo, mas também porque o modelo urbano moderno não é bem adaptado a vida no meio da floresta. E a proposta moderna vindo das cidades, em muitos aspetos, ainda não é adaptada as especificidades culturais e do meio ambiente das comunidades da Amazônia. Por exemplo, a língua waiãpi registra e documenta de maneira precisa no seu vocabulário e nas suas histórias uma quantidade de informação e conhecimentos úteis para a vida cotidiana em um ambiente amazônico específico. Em termos científicos, esses conhecimentos são relevantes para a geografia, a biologia... e muitos outros campos. As crianças waiãpi chegam com 7 anos na escola pública francesa obrigatória, já com um conhecimento profundo e integrado na sua língua materna, com um conhecimento prático do lugar em que vivem. A maioria dessas crianças não fala bem francês, mas eles têm uma experiência impresionante em relação ao ecossistema no qual vivem. Mas, como o sistema de educação pública francês proibe ainda a educação bilingue, com a lingua materna local, resulta que é quase impossível valorizar os conhecimentos das crianças. O sistema educacional muitas vezes as coloca em situação de fracasso escolar, o que é injusto. Felizmente, com o tempo, muitas crianças são resilientes a essa experiência, mas há um desperdício grande para todos, inclusive para a região, e algumas vidas são afetadas a longo prazo, com consequências graves. Elissandra Barros: Julien, em nome da Revista Brasileira de Línguas Indígenas gostaria de agradecê-lo por essa entrevista, por compartilhar com nossos leitores um pouco de sua trajetória e de suas pesquisas linguísticas. Merci!

Julien Meyer: Foi um prazer, Elissandra Barros! Referências Bibliográficas:

CARNEIRO DA CUNHA M., MAGALHÃES S., ADAMS C. Povos Tradicionais e Biodiversidade. Diagnóstico das contribuições de Povos Indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais à biodiversidade do Brasil e Políticas Públicas que os afetam. Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência: São Paulo Brasil, 2021. MEYER J., DAVY D., MOORE D. Imitações acústicas de animais na Amazônia: perspectiva pluridisciplinar. In CARNEIRO DA CUNHA M., MAGALHÃES S., ADAMS C. (Eds.). Povos Tradicionais e Biodiversidade. Diagnóstico das contribuições de Povos Indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais à biodiversidade do Brasil e Políticas Públicas que os afetam. Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência: São Paulo Brasil, 2021.

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