ACÓRDÃO. Vistos, relatados e discutidos estes autos de Agravo de Instrumento nº

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Registro: 2012.0000122373

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Agravo de Instrumento nº 0248456-17.2011.8.26.0000, da Comarca de Jundiaí, em que é agravante BICBANCO - BANCO INDUSTRIAL E COMERCIAL S/A sendo agravado IFC - INTERNATIONAL FOOD COMPANY INDUSTRIA DE ALIMENTOS S/A (EM RECUPERAÇÃO JUDICIAL).

ACORDAM, em Câmara Reservada à Falência e Recuperação do Tribunal de Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: "Deram provimento ao recurso. V. U.", de conformidade com o voto do Relator, que integra este acórdão.

O julgamento teve a participação dos Exmos. Desembargadores PEREIRA CALÇAS (Presidente) e ARALDO TELLES.

São Paulo, 27 de março de 2012.

ELLIOT AKEL RELATOR Assinatura Eletrônica

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AGRAVO DE INSTRUMENTO nº 0248456-17.2011.8.26.0000 JUNDIAI

Juiz de 1º grau: Marco Aurélio Stradiotto de Moraes Ribeiro Sampaio

Agravante: BICBANCO BANCO INDUSTRIAL E

COMERCIAL

Agravada: IFC INTERNACIONAL FOOD COMPANY

INDUSTRIA DE ALIMENTOS S/A (em recuperação judicial) Voto nº 28.851

FALÊNCIA CRÉDITO GARANTIDO POR ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA DE DIREITOS CREDITÓRIOS QUEBRA QUE ENSEJOU O VENCIMENTO ANTECIPADO DO CONTRATO DE MÚTUO - DETERMINAÇÃO DE QUE OS CRÉDITOS CEDIDOS SEJAM PAGOS À MASSA FALIDA INADMISSIBILIDADE INEFICÁCIA DO NEGÓCIO NÃO RECONHECIDA HIPÓTESE EM QUE SE TRATA DE CRÉDITO CONCEDIDO DURANTE A RECUPERAÇÃO JUDICIAL E, POR CONSEGUINTE, DE NATUREZA EXTRACONCURSAL ART. 67 DA LEI Nº 11.101/2005 CESSIONÁRIO FIDUCIÁRIO AO QUAL SE ASSEGURA,

ADEMAIS, A RESTITUIÇÃO NA FORMA DA

LEGISLAÇÃO PERTINENTE ART. 20 DA LEI Nº 9.514/97 RECURSO PROVIDO.

RELATÓRIO

Cuida-se de agravo de instrumento tirado contra a r. decisão trasladada a fls. 73/79, que em autos de recuperação judicial da agravada, convolada em falência, determinou ao administrador judicial a verificação do efetivo destino do empréstimo contraído pela falida junto ao Banco agravante, “com análise de balancetes e comprovantes pertinentes”, bem como a intimação deste sobre a

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determinação de que os pagamentos das locações oferecidos em garantia fiduciária “se fazem aqui, nos autos”, dependendo de habilitação o pagamento do mútuo.

Sustenta-se, em síntese, que os créditos objeto da fidúcia estão excluídos do patrimônio do devedor fiduciante desde a averbação do contrato no registro competente, nos termos do art. 1361 do Código Civil e art. 42 da Lei 10.931/2004.

Recurso tempestivo, regularmente processado sem efeito suspensivo e contraminutado.

A douta Procuradoria de Justiça opinou pelo provimento do agravo.

É o relatório.

VOTO

De início, cumpre afastar a alegação, constante da manifestação do administrador da massa (fl. 194/203), de inadequação da via processual eleita.

Ao determinar que todas as locatárias depositem nos autos da falência o valor das locações, desconsiderando, assim, a garantia fiduciária oferecida ao agravante pela então recuperanda, a decisão agravada já expressou o entendimento do Juízo, agora uno e indivisível, acerca da natureza do ajuste, com evidente efeito negativo no direito de restituição que àquele poderia convir.

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Assim, absolutamente despropositado seria exigir do credor o ajuizamento de pedido de restituição perante o Juízo universal, no qual já se sabe ser inglória a postulação.

Outra solução não cabia ao credor que não a interposição do presente recurso, pois.

E o recurso comporta acolhida, respeitado o convencimento do digno prolator da decisão agravada, da qual se extrai, no particular, o seguinte:

O contrato de mútuo com o BicBanco, representado pela cédula de crédito bancário cuja cópia está às fls. 6116 e seguintes tem como garantia a cessão fiduciária de créditos de locação. Mas a forma de pagamento não é, a rigor, a cessão.

Estranhamente, parece, o falido vinha pagando com a cessão de crédito de modo direto. E isso não era noticiado assim pelo Administrador nestes autos, até há pouco.

Ora, nem mesmo pelo período suspeito ou por ineficácia do contrato, a rigor, o pagamento com cessão de direitos locatícios se veda, aqui, mas porque, como apontado em uma das razões pelo Sr. Administrador atual, os créditos da falida são da falida e arrecadáveis por isso mesmo. E nunca foram cedidos diretamente, senão em garantia, para a instituição financeira.

É dizer, em outras palavras, o pagamento deveria se dar de tal forma primeira que não a entrega da garantia, ainda que em termos de trânsito de dinheiro a coisa não mude no destinatário final, que é, sempre, o mutuante. Isso é que o que se supõe de contrato que tem pagamento avençado com garantia em cessão de crédito que, em princípio, não seria tocada e entregue por terceiro ao mutuante se pago o banco regularmente.

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título foi feito tal empréstimo, se ele realmente entrou para o patrimônio da falida e quando entrou, devendo o Sr. Administrador apontar o necessário aqui, com análise de balancetes e comprovantes pertinentes.

Note-se que isso importa na exata medida em que a prática da cessão de crédito como pagamento e não como garantia, faz certa, sempre, a diminuição de crédito da falida pelas locações que, como se determinou, em 30 dias estão sob análise.

Assim, proceda ao necessário e aqui

determinado o Sr. Administrador, também no prazo de 5 dias, ficando determinado que se intime o BicBanco da determinação de que os pagamentos se fazem aqui, nos autos, no tocante às locações, caindo a força da garantia que tinha e não se mantendo, obviamente, os pagamentos do mútuo realizado, que ora depende de habilitação.

Inegável que a alienação fiduciária aperfeiçoou-se com o registro do contrato celebrado.

Se não há dúvida igualmente de que pode haver alienação fiduciária de direitos sobre coisas móveis (Súmula nº 59 do Tribunal de Justiça), igualmente não pode haver dúvida de que a alienação fiduciária pode ter por objeto coisas ou fatos futuros, visto que o atual Código Civil, assim como o revogado, dedica uma seção ao contrato aleatório, ou seja, aquele que diz respeito a coisas ou fatos futuros (cf. artigos 458 a 461 do atual Código Civil e artigos 1.118 a 1.121 do revogado Código Civil de 1916).

Nos termos do art. 20 da Lei nº 9.514/97, na hipótese de falência do devedor cedente, e se não tiver havido a tradição dos títulos representativos dos créditos cedidos fiduciariamente, ficará assegurada ao cessionário fiduciário a

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restituição na forma da legislação pertinente.

Isso ocorre à consideração de que, desde o registro do instrumento contratual, o crédito cedido não mais se encontra no patrimônio do devedor cedente.

Provocando a falência, inequivocamente, o vencimento antecipado do contrato de mútuo, cumpre ao credor postular a restituição dos bens ou direitos em cuja posse (e apenas a posse) se achava o falido.

Não bastasse, tratando-se de crédito negocial, isto é, decorrente de obrigação contraída pelo devedor durante a recuperação judicial, o seu titular há de ser considerado na falência como credor extraconcursal, nos claros termos do art. 67 da Lei de regência.

A propósito, observa Fábio Ulhoa Coelho:

“Os credores negociais contribuem, com seu ato, para a realização dos objetivos da recuperação judicial e ajudam, em última análise, toda a comunhão de credores. Merecem, por isso, a reclassificação. Os credores não negociais, ao contrário, têm seus créditos constituídos por simples incidência da lei e não assumem, por vontade própria, nenhum risco associado à recuperação judicial” (Comentários à Lei de Falências e de Recuperação de Empresas, 7ª ed., Saraiva, p. 217).

Por outro lado, embora a decisão não tenha sido explícita a respeito, não há como reconhecer desde logo a

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ineficácia da garantia, cuja constituição foi concomitante à composição da própria dívida.

Certo é que o negócio foi celebrado durante o processo de recuperação judicial da agora falida, de modo que não incide o disposto no art. 129, III, da Lei 11.101/2005.

Nem se poderia cogitar da hipótese do inciso II do artigo 129 do mesmo diploma legal, uma vez que expressamente admitida no contrato a liquidação da dívida vencida por meio da consolidação da propriedade dos direitos creditórios.

Como bem observado no lúcido parecer da douta Procuradoria de Justiça, “a prestação, na espécie, dá-se, em primeiro lugar, em dinheiro, e, em segundo lugar, exatamente pelo modo previsto na cédula de crédito bancário, sem escolha distinta para o adimplemento, sem novo ajuste entre as partes. Trata-se, apenas, de execução regular da declaração cambiariforme, sem nenhuma anomalia” (fls. 230/231).

E dada a previsão do art. 67, adverte o ilustre representante do Ministério Público, Dr. Alberto Camiña Moreira: “A lei não teria eficácia pretendida se se admitisse que a garantia obtida fosse desprezada por ocasião da falência”.

Evidente que, reconhecida por ora a eficácia da garantia incidente sobre os locativos, nada impede a apuração de eventual fraude na celebração do negócio, prejudicial à massa de credores, o que deve ocorrer em sede adequada.

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Ante o exposto, e adotado o excelente parecer da douta Procuradoria de Justiça como razão de decidir, dou provimento do recurso.

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